Por Ceci Juruá*
Em entrevista dada hoje ao Valor Econômico, o ex-presidente Lula afirma:
“…Passamos por algumas dificuldades em 2011 e 2012 em função das políticas de contração para evitar a volta da inflação. Foi preciso diminuir um pouco o crédito e aí complicou um pouco, mas Dilma tem feito a coisa certa. (…) uma economia vai ter sempre altos e baixos. Não é todo dia que a orquestra vai estar sempre harmônica. O importante é não perder de vista o horizonte final. O Brasil está recebendo US$ 65 bilhões de investimento direto. Então não dá para se ter qualquer descrença no Brasil nesse momento. Nunca os empresários brasileiros tiveram tanto acesso a crédito com um juro tão baixo. …
Ao destacar que o Brasil está recebendo 65 bilhões de dólares de investimento direto e que este afluxo é um sinal de credibilidade nos rumos da economia brasileira, o ex-presidente está utilizando um indicador que não me parece o mais sensato para analisar a sustentabilidade da trajetória atual do nosso modelo de crescimento. Digo isto porquê:
i-É preciso relacionar este volume de entrada de capital estrangeiro à política de relaxamento monetário adotada nos Estados Unidos e em outros países da Tríade onde se localiza o centro imperial da economia mundial. Em decorrência desta política, e da enorme riqueza fictícia gerada nos mercados financeiros, há fantástico excesso de liquidez, massas monetárias que procuram qualquer aplicação que possa lhes preservar o valor ameaçado por um crack das bolsas e pelos riscos de inflação mundial. Elas se dirigem para países onde as portas estão escancaradas, as rendas de monopólio são abusivas e facilitadas por marcos jurídicos inadequados, o Estado seqüestrado parece impotente para conter uma invasão da qual decorrem desindustrialização e desnacionalização dos ativos produtivos.
ii-A economia brasileira não tem dimensões que lhe permitam acolher este capital fictício que age como vampiro nos países periféricos, sugando recursos públicos e privados e asfixiando a expansão da renda real dos trabalhadores. A título de exemplo devemos comparar os citados 65 bilhões de dólares à base monetária atual do Brasil. São dólares que convertidos à moeda nacional atingem R$ 130 bilhões, mais do que 70% de nossa base monetária que mal supera os R$ 180 bilhões. Não há colchão monetário, no Brasil, capaz de acolher, sem desconforto para a população e para a soberania do país, um volume tão grande de capital fictício. Para evitar prejuízos imediatos o governo aumenta sua dívida pública em operações de enxugamento de liquidez. Compromete assim a sustentabilidade da economia e a soberania da Nação brasileira.
Não atribuo ao presidente Lula qualquer responsabilidade por esta insensata argumentação. Ele apenas reproduz o que é publicado na mídia especializada e dito em alto e bom tom pelo conjunto de economistas neoliberais do Brasil. Não me causam surpresa alguma as declarações de Lula, o que me espanta e atemoriza é o silêncio dos inocentes, ou daqueles que ainda são porta-vozes de nosso pensamento crítico. Percebo aí o receio de contrariar visões oficiais, das autoridades governamentais, um receio muitas vezes justificado frente à truculência da direita imperialista, isto é, daqueles que defendem o atual modelo de dependência, de crescimento associado aos gigantes da finança mundial, as parcerias assimétricas e a submissão frente aos representantes do império.
Não pensem que estou solitária em minha argumentação. Há pouco, publicação do GEAB / Global Europe Anticipation Bulletin divulgou estudo sobre os indicadores usualmente utilizados para análise da economia mundial, estudo intitulado A Grande Névoa Estatística. Dentre suas inúmeras e valiosas conclusões destaco:
“… a cotação das bolsas está completamente desligada da economia real e portanto não é mais um indicador pertinente. (…) A cotação de bolsa, se é um índice de alguma coisa, é a do grau de virtualização da economia, da importância do fenômeno especulativo e do grau de endividamento de um país. (…) poderíamos com legitimidade ler os seus movimentos em sentido inverso do que se supõe que digam: que quanto mais altos estão os mercados bolsistas, mais a situação econômica real é catastrófica – e o inverso.”
A análise do GEAB foi direcionada à economia dos Estados Unidos e ao incrível aumento do Dow Jones recentemente. Mas poderíamos, sem risco de erro grave, aplicá-la à economia brasileira, substituindo o Dow Jones pela entrada de capital estrangeiro em nosso país, onde este indicador sugere, proponho, o reforço perverso dos processos de financeirização, especulação, endividamento do Estado e das famílias brasileiras.
*Ceci Juruá, economista, doutora em políticas públicas, ex-professora universitária e conselheira do CORECON-RJ por dois triênios. Rio de Janeiro, 27-03-2013 (www.desenvolvimentistas/