Para um economista que queira ter boa formação, é imprescindível ler os grandes autores. Aliás a grande diferença entre o economista e aqueles que não o são, mas trabalham com problemas econômicos, parece-me ser esta – o conhecimento dos clássicos da Economia, onde se aprende, paralelamente a suas idéias, a contextualizar a produção intelectual, e ideológica, de cada um deles. É útil ler Ricardo sabendo que ele é o maior teórico do Império Britânico, Marx como o maior autor de uma época em que o capitalismo viveu grandes contestações – revolucionárrias para alguns, Keynes e suas idéias como fatos dos tempos não só da grande depressão de 1929 mas também da primeira revolução socialista em um país importante, e Celso Furtado como aquele que viveu o período em que o Brasil sonhou ser independente efetivamente, a partir de uma estratégia industrializante.
Ou seja idéias não são produto da mente de um indivíduo. Elas são sempre historicamente determinadas. Ainda hoje Belluzzo publica artigo de página inteira no Valor com a epígrafe – é ilusão imaginar que o câmbio flutuante vai resistir a uma reversão do fluxo de capitais. Em seguida ele relata o desenvolvimento histórico das idéias de alguns autores relevantes da ‘macroeconomia’ do equilíbrio de longo prazo. Concluindo, manifesta sua convicção
—poucos discordam da necessidade imperiosa, neste momento, da coordenação entre as políticas fiscal, monetária e de crédito com o propósito de fazer a inflação regredir para o centro da meta. Mas a economia emergente, ‘bola da vez’, está indefesa diante do livre ingresso de capitais.
Relacionando esta conclusão com as 4 alternativas a que me referi em mensagem anterior, intitulada Política econômica sem creme chantilly, e frente à incapacidade de fugir da opção em curso – câmbio flutuante e livre movimentação de capitais -, pode-se induzir que o controle da inflação é um imperativo para a economia brasileira, na presente situação. Nesse caso, induz-se igualmente, que o equilíbrio de longo prazo está sujeito à possibilidade de fazer convergir a taxa real de juros interna para o nível das taxas internacionais.
Aí é que entra o grande problema da dívida pública, problema que, no meu entender, condiciona o patamar atual da taxa de juros Selic. Vou apenas citar alguns títulos da edição de hoje do Valor:
-TESOURO ENFRENTA MEGAVENCIMENTO (em primeiro de julho vencem R$ 119 bilhões em títulos públicos ….)
-CRESCE DÍVIDA NA MÃO DE ESTRANGEIRO (os não residentes detem R$ 190 bilhões em títulos, 11,45% …. ; não está dito, será que alguém sabe?, qual é o percentual detido pelos estrangeiros residentes….)
Quase como que por acaso, outro artigo anuncia :
-BRASIL, A NOVA FAZENDA DO MUNDO (esta expressão, explica a notícia, é manchete da página do Le Monde anunciando reunião em Paris, com o primeiro G-20 agrícola ….)
Penso eu que FHC e sua equipe devem estar rindo às gargalhadas. Afinal, para quem queria terminar a Era Vargas, esta é uma vitória. Quando Vargas chegou ao poder o Brasil não era mais do que uma grande fazenda subordinada a ingleses, norte-americanos e alguns outros. Sua vitória, de Getúlio, foi reverter tal situação, rompendo com o modelo primário-exportador e iniciando a industrialização, bem como criando os fundamentos iniciais do Estado do bem-estar. Com a volta à situação de ‘fazenda’ , no imaginário europeu mas também nos fundamentos atuais da economia brasileira, em lugar de década perdida, podemos começar a divagar sobre o ‘século perdido’ ?
Economista Ceci Juruá, RJ/ junho de 2011