As análises pessimistas sobre a economia brasileira afirmam que o Brasil está em risco por causa que as perspectivas do crescimento dos EUA e da Europa são sombrias. Contudo, tudo indica que os EUA estão prestes a experimentar uma das expansões mais aceleradas de sua história recente. O enorme déficit público impulsiona a poupança das famílias. Ao contrário do que os monetaristas afirmam, déficit público é bom para economia, uma vez que significa que o governo está dando a sociedade, por meio de gastos, mais do que tirando, por meio de impostos. Esse superávit primário acumulado em 3 anos deve chegar a 30% do PIB. O fato que os investimentos estão estagnados é ótimo. Uma Quando a demanda começar a crescer, a capacidade ociosa vai cair rapidamente, impulsionando os investimentos. A baixa taxa de juros permite que famílias e empresas endividadas resolvam seus problemas financeiros a custos mais baixos. E a economia e o comércio mundial estão com tendência de alta. Esse fato somado à competitividade da economia americana fará com que o setor externo contribua positivamente com a expansão dos EUA. Ao contrário do Brasil, os EUA atualmente já estão expandindo sua participação no mercado mundial de manufaturas.
Os problemas europeus também tendem a diminuir. A Alemanha está crescendo no ritmo mais rápido em décadas. Outras máquinas exportadoras, como os países nórdicos, também estão crescendo. A Europa Oriental, por causa do câmbio mais desvalorizado, está em uma situação tranqüila. O problema europeu está concentrado em países que entraram no euro ou atrelaram sua moeda ao euro, mas não tinham competitividade para fazer isso. As pessoas estão escandalizadas porque Itália e Bélgica estão pagando 4,5% a.a. nominais nos títulos de longo prazo. Essa taxa não tem nada de extraordinária. Há poucos anos atrás os EUA pagavam mais do que isso sem qualquer problema. Com exceção de Grécia e algum outro país-problema, a situação européia será resolvida. A Europa voltará a crescer, menos do que os EUA, mas voltarão.
O problema brasileiro começará exatamente quando os EUA e Europa voltarem a crescer. Aliás, o Brasil só consegue manter essa política monetária-cambial estúpida, por causa do baixo crescimento dos EUA e das crises na Europa periférica. Esses fatores têm mantido a taxa de juros de curto e de longo prazo nos níveis mais baixo da história, a despeito da forte expansão dos preços das commodities. Alguém poderia imaginar o conservados Banco Central Europeu, mantendo os juros em 1% a.a., nível mais baixo da história, quando a inflação ultrapassa o intervalo superior da meta, que é de 2% a.a. ? O Banco Central Europeu faz isso porque, se eleva os juros, ele acaba de quebrar países, como Irlanda e Grécia. Piorar a situação deles induzirá os governos a saírem do euro.
O BP do Brasil depende exclusivamente da entrada de capitais especulativos, das compras de empresas nacionais por firmas estrangeiras, do boom de commodities e da expectativa dos especuladores (residentes e não residentes) de quando o barco vai virar. E todos dependem da taxa de juros internacional. Enquanto elas tiverem em praticamente zero, os especuladores vão continuar a especular em commodities e em Brasil. Os preços das commodities estão no geral três vezes ou mais do que a média histórica. As exportações anuais de minério de ferro não chegavam a US$ 3 bilhões; atualmente elas caminham para US$ 40 bilhões. Se os juros dos EUA forem para 5%, aí preços das commodities vai cair juntamente com a saída dos especuladores. O déficit em conta corrente estimado para 2011 é de US$ 70 bilhões. Qual seria o déficit em conta corrente se as exportações brasileiras caírem em US$ 50 bilhões? Essa redução é até conservadora. O passivo externo atualmente está em US$ 1 trilhão e a riqueza líquida dos residentes é mais de US$ 2 trilhões. De maneira burra, o governo nos últimos anos liberou os residentes de mandarem livremente o dinheiro para fora do país. Como se isso fosse resolver o problema da valorização cambial. As reservas mostram-se muito insuficientes para fazer frente a saída de capitais de residentes e não residentes. Com uma perspectiva de desvalorização acentuada, qualquer agente racional aceitaria receber 5% ao invés de ganhar 12% em reais. Mais um problema do governo: na minha opinião, estamos no limite de uma política monetária restritiva. Daqui alguns meses nos surpreenderemos com os efeitos negativos dessa elevação dos juros. A economia brasileira está crescendo movida a crédito imobiliário e outros empréstimos a famílias. Isso torna o aumento dos juros um risco grande para a economia. Por exemplo, um amigo meu diz que em Brasília um apartamento de R$ 1 milhão rende um aluguel de R$ 2500 por mês (R$ 30.000 por ano). Se o investidor comprar títulos públicos, ele teria R$ 120.000 por ano (4 vezes mais). A questão é qual é o limite de juros que põe em risco a expansão dos investimentos imobiliário do Brasil? As famílias brasileiras comprometem grande parte de sua renda com o pagamento de juros. A expansão do consumo privado depende do aumento do endividamento. O aumento ainda maior dos juros acarretaria em uma diversidade de problemas: inadimplência e retração de demanda, desemprego, etc., provocando um círculo vicioso: menor demanda, menos vendas, menos empregos, menor capacidade de pagamento dos empréstimos, contração do crédito e diminuição da demanda. Estarmos próximo do limite superior dos juros é tudo que o especulador cambial quer. Com taxa de juros nos EUA de 5% é só comprar dólar no futuro e esperar. Não tem risco: porque o real não tem como valorizar. O governo se enfiou numa sinuca de bico. Não pode desvalorizar porque a inflação ultrapassa a meta. E o pior é que a crise não deverá vir por agora. Deve vir lá para 2013. E aí, o bicho pega. O modelo é baseado na expansão do crédito privado (mais endividamento e problema de alavancagem). E maiores serão os passivos externos do Brasil. Solução:
1) Usar os limites superiores da meta de inflação, como qualquer país usa.
2) Inflação deve ser combatida de outras maneiras que não a valorização do câmbio.
3) Temos que desvalorizar a moeda. Desvalorização mesmo: R$2,30/US$. Isso aliás é pouco. Vender reservas só a partir de determinado ponto, ao contrário do que o BC faz hoje.