Crescimento mundial e interesse americano

Por Bruno Galvão

Em 1944, mesmo ano que Polanyi publica a Grande Transformacao, Kalecki escreve um clássico texto de economia política “Aspectos políticos do pleno emprego” que tenta mostrar porque não é do interesse da elite de um país que o governo resolva o problema do desemprego. O argumento é que isso, apesar de aumentar o lucro dos capitalistas, iria diminuir seu poder político tanto em relação aos trabalhadores e ao governo. E isso é um perigo maior para os capitalistas do que os prejuízos econômicos de uma depressão.

Ao transpor do plano nacional para mundial, poderemos verificar que não é do interesse das grandes potencias, o crescimento econômico acelerado, pois isso poderá propiciar o surgimento de novas potencias mundiais. Pode-se notar que o desenvolvimento a convite de satélites militares dos EUA – Alemanha, Japão, Coréia e Taiwan – é bastante coerente com a idéia do Kalecki (1944) de que apenas no facismo é permitido o pleno emprego, pois o acesso dos trabalhadores ao poder está bloqueada.

Por outro lado, se for observado outro texto também publicado em 1944, no caso o livro a Grande Transformacao, pode-se notar que também não interessa a elite a depressão econômica a nível mundial ou nos países desenvolvidos. A Grande Depressão destruiu o que restava da Civilização do século XIX. Para o liberalismo econômico e para as elites internacionais não há nada mais perigoso do que o nacionalismo econômico e a descoberta do Estado como o principal solucionador dos problemas sociais. Esses dois fatores limitaram a haute finance durante cerca de trinta anos.

Temendo uma nova Grande Depressão, setores conservadores a níveis nacionais e internacionais, como a imprensa, bancos centrais e organismos internacionais, deixaram de bloquear e mesmo, incentivaram a adoção de políticas consideradas anteriormente irresponsáveis.  Os governos elevaram seus déficits a níveis recordes desde o fim da Segunda Guerra, a taxa de juros, tanto nos países desenvolvidos e subdesenvolvidos – baixaram de forma sem precedentes e organismos internacionais financiaram os maiores volumes já registrados. Isso tudo permitiu uma recuperação rápida e vigorosa, o que foi surpreendente, quando comparado com o pessimismo que vigorou durante o fim de 2008. A ofensiva foi tão bem sucedida que permitiu o retorno das ideias conservadoras – das finanças saudáveis e bancos centrais centrados exclusivamente na inflação. Em vista da redução da minimização do risco,  a proclamação da heregia do governo pro-ativo não era mais necessária.[1]

A crise grega é o abre-alas do retorno das finanças saudáveis. Não importa que o problema nao apareceu – e nao teria como ter aparecido – em unidades nacionais que nao tivessem renunciado de ter banco central próprio. A crise da periferia da zona euro é própria de unidades sub-nacionais, como estados e municípios. Mas, a imensa concentração de poder dos conservadores na imprensa, na academia e na política, os dispensa de apresentar fortes evidências empíricas de sua argumentação. O retorno do domínio ideológico e político das finanças saudáveis é um perigo para a recuperação mundial. Esse risco ficou conhecido como recuperação em w. E foi o que ocorreu na Grande Depressão. Em 1937, a recuperação econômica permitiu o retorno das políticas saudáveis. Com a contenção dos gastos públicos, a segurança de encontrar compradores para seus produtos, evaporou. Dessa forma, investimentos e consumos privados se retraíram. Apenas a Segunda Guerra permitiria passos seguros em direção aos Grandes Déficits e, portanto, a uma recuperação vigorosa da economia. Mas, a segurança para a economia mundial é que o w poderia tornar evidente demais a relação entre crescimento dos gastos públicos e recuperação. Nao seria de interesse da elite econômica um retorno tão rápido dos orçamentos equilibrados. Há que mencionar ainda que o regime é democrático o suficiente para que o controle dos conservadores nao seja completo.

Nao podendo controlar o Tesouro dos EUA e de outros países, a possibilidade de controlar o crescimento mundial fica limitado. Há outras fontes autônomas de demanda e reservas internacionais em profusão para permitir autonomia política em grande parte da periferia. Alem disso, o desejo de manter a moeda americana competitiva é um limite para a elevação da taxa de juros dos EUA. O problema para os conservadores se agrava na medida em que a acumulação de superávit do setor privado trará num futuro próximo muito dinamismo a demanda privada. Quanto mais tempo demorar para agir, maior será a dose necessária do remédio. Mas, nao estamos nos anos 70. Em virtude da grande quantidade de reservas, o choque de juros poderia ter ate efeito positivo sobre a periferia. As incertezas geopolíticas e geoeconômicas da próxima década dificultam a ação das grandes potencias. Mas, sem duvida, a nao-acao é um risco ainda maior.


[1] De forma aparentemente contraditória, o sucesso das políticas fiscais expansionistas permitiu o retorno da ideologia de que todos os problemas são resultados de déficits públicos excessivos. Os governos tivessem evitado o déficit e permitido a depressão, os conservadores poderiam ficar afastado da hegemonia por décadas.

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