Valor: Mas esse problema de fluxo de capitais migrando dos países ricos aos emergentes também pega o Brasil em cheio, inclusive com formação de grandes reservas internacionais oriundas de intervenções no mercado cambial.
Wolf: O Brasil é um exemplo, sim. O grande fluxo de capitais valoriza a moeda, reduz a competitividade da indústria doméstica e isso será um problema a ser administrado. Países como o Brasil terão de administrar essa entrada de capitais para evitar uma nova crise. A nova crise econômica será num país emergente, e ela vai ocorrer dentro dos próximos dois anos.
Valor: Qual país?
Wolf: Não sei dizer qual, hoje, mas garanto que será graças à entrada de capital estrangeiro nos países emergentes. Administrar esse fluxo será um grande problema. Particularmente no Brasil, que é um grande exportador de commodities. O destino do Brasil, aliás, está muito amarrado à China. Para os próximos dez anos estou razoavelmente otimista, porque a não ser que a economia mundial tenha um desempenho terrível devido aos países ricos, a China continuará crescendo muito fortemente e por causa disso a situação será muito boa para os exportadores de commodities.
Valor: Quais são os desafios para o Brasil?
Wolf: Basicamente, acho que o grande desafio para o Brasil está em administrar o ingresso de capitais estrangeiros. Não ficar apenas na exportação de commodities, mas também tentar construir o desenvolvimento do setor industrial, e isso será muito complexo, principalmente com a competição que vem da China e da Índia. Há grandes oportunidades para o Brasil, que, no entanto, também são grandes desafios.
Valor: Como o sr. vê o atual crescimento da economia brasileira, acima de 7% em 2010?
Wolf: O crescimento atual brasileiro é claramente acima do sustentável, não tenho dúvida disso. As pessoas que estão conduzindo a política econômica terão de garantir ao mercado que os erros do passado não serão repetidos. Essta será uma missão para o novo governo, que será, como se prevê, presidido pela candidata do presidente Lula. Ela terá de pensar bastante sobre essa fase boa que o Brasil está passando e tentar evitar os erros cometidos sempre que o país crescia fortemente.
Valor: Como o sr. vê toda a atenção internacional que o Brasil vem recebendo, fenômeno refletido na sucessão de matérias em publicações tradicionais sobre o país?
Wolf: Sempre há países que são o “sabor do momento”. E eles são o “sabor do momento” porque vivem um boom de crescimento insustentável, com setor público se endividando, setor privado alavancado e moeda se valorizando. A pior coisa que pode ocorrer com um país é ficar popular no mercado de capitais. O Brasil claramente já passou por explosão de bolhas no passado, e a estabilidade é algo relativamente recente, uma vez que passou apenas uma década desde a última maxidesvalorização, em 1999. Se olharmos os números, há um risco.
Valor: Qual?
Wolf: Não acredito, tendo os dados do Brasil em mãos, que um ritmo de crescimento do PIB superior a 5% seja sustentável. Dado o patamar dos investimentos, da poupança pública, da entrada de capital externo, não vejo uma situação que sustente algo além de 5%. Quando, no entanto, isso ocorre, há erros sendo feitos e isso pode levar a crises, e isso acontece com o câmbio se valorizando muito e o setor industrial perdendo competitividade.