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Rússia: Avião de combate ucraniano voava próximo ao boeing 777 da Malaysia Airlines

Via Telesur

A rota do Boeing 777, voo MH17 da Malaysia Airlines desviou 14 quilômetros ao norte segundo os rastreamentos. (Foto: EFE)

O Ministério da Defesa da Rússia assegurou, nesta segunda, que um avião de combate Su-25 ucraniano voava a cerca de 5 quilômetros da aeronave abatida da Malaysia Airlines. Este tipo de avião é dotado de sistema de mísseis ar-ar R-60, capazes de derrubar alvos à curta distância

O Ministério da Defesa da Rússia informou, nesta segunda, que os sistemas de rastreamento militares russos captaram a movimentação de uma aeronave militar ucraniana, mais precisamente um avião de ataque Su-25, que se aproximou cerca de 5 quilômetros do avião malaio abatido na última quinta.

A rota do boeing se encontrava em área em que operavam as Forças Armadas da Ucrânia, tendo desviado 14 quilômetros para norte.

“Registramos um avião da Força Aérea ucraniana em ascensão, este estava em torno de 3-5 quilômetros de distância”, assinalou.

“As características do Su-25 permitem que este alcance a altura de 10 mil metros, disse o general Andréi Kartopólov.

Explicou ainda que o Su-25 “está dotado de misseis ar-ar R-60 capazes de abater alvos a até 12 quilômetros de distância e impactar seguramente objetos situados a 5 quilômetros”.

“Prova do relatado é um vídeo obtido pelo centro de reconhecimento de Rostov”, afirmou Kartopólov, acrescentando que “Nos interessa saber a resposta da seguinte pergunta: Com que objetivo este avião ucraniano voava numa rota civil e no mesmo nível que o voo do boeing malaio?”

O alto funcionário do exército russo voltou a confirmar que a Rússia não entregou sistemas antiaéreos Buk a milícia popular que atua no leste da Ucrânia.

As equipes de resgate encontraram 282 dos 298 cadáveres das pessoas que se encontravam no avião.

Entrega dos dados sobre a catástrofe

O Ministério da Defesa russo anunciou a entrega, ontem, de todos os materiais relacionados com a catástrofe do Boeing aos especialistas malaios e europeus.

“Os materiais recolhidos pelo Ministério da Defesa russo serão entregues hoje aos especialistas dos principais estados europeus e a Malásia”, declarou Kartopólov na apresentação.

Tradução: Rennan Martins

Voo MH17 da Malaysia Airlines é abatido sobre zona de guerra na Ucrânia. Quem está por trás disto? Cui bono?

Por Tony Cartalucci, via Global Research

Nenhuma outra conjuntura desde o início da crise ucraniana seria mais conveniente, para a OTAN e o governo subserviente de Kiev, do que a atual para a queda do Boeing 777 da Malaysia Airlines.

A cartada final dos EUA havia sido outra rodada de sanções, a qual foi imediatamente ridicularizada e definida como impotente e inefetiva. Até mesmo os interesses corporativo-financeiros condenaram estas sanções, clamando serem “unilaterais” e, portanto, limitavam empreendimentos norte-americanos com a Rússia deixando os competidores europeus livres para ocupar o espaço. Uma política de confronto, contenção e enfraquecimento da Rússia exigiria sanções multilaterais de suporte quase unânime – porém, o ímpeto para este tipo de sanções não existia – até agora.

A US Federal Aviation Administration declarou interditado o espaço aéreo ucraniano há 3 meses

De fato, agora as estrelas se ajustaram para a OTAN. Enquanto a Federação de Administração da Aviação dos EUA (FAA) declarou interditado o espaço aéreo ucraniano para todas as aeronaves sob sua jurisdição, outros voos prosseguiram passando pela zona de guerra por meses. O The Atlantic, em artigo intitulado, “The FAA’s Notice Prohibiting Flights Over Ukraine”, assim publicou:

As autoridades da aviação tinham conhecimento de que aquela área era perigosa?

Sim, certamente sabiam. Há quase três meses, na seção “Special Rules” de seu site, a US Federal Aviation Administration ordenou aos pilotos, empresas, voos oficiais norte-americanos, e a todos sob sua jurisdição, que não voassem sobre a Ucrânia.

Os separatistas usam sistemas de defesa portáteis que não podem alcançar 33.000 pés

Há meses os separatistas do leste ucraniano têm abatido helicópteros, aviões de guerra e de transporte de equipamentos militares – sempre usando diversos modelos de misseis antiaéreos portáteis a homens – todos incapazes de atingir o malasiano 777 que voava a aproximadamente 33.000 pés – muito acima dos armamentos antiaéreos portáveis por homens.

O sistema responsável por atingir o voo MH17 foi o sofisticado Buk, com mecanismo de guia por radar, um veículo do porte de um tanque de guerra, que porta um sistema antiaéreo. O New York Daily News, em artigo de título “Malaysia Airlines plane feared shot down in Ukraine near Russian Border”, publicou:

Anton Gerashenko, um assessor do ministro do interior da Ucrânia, disse via facebook que o avião estava voando a uma altitude de 33.000 pés quando foi atingido por um míssil proveniente de um sistema antiaéreo Buk, reportou a Interfax, agência de notícias ucraniana.

O sistema antiaéreo Buk

Não está claro se os separatistas do leste ucraniano possuem algum sistema antiaéreo Buk – e mesmo possuindo, também é duvidosa a possibilidade de terem pessoal capaz de manter e operar estes. Se possuem algum sistema Buk, poucos saberiam. Kiev afirma que estes sistemas foram cedidos pela Rússia – negando, então, tacitamente, que tenham perdido algum destes de seu arsenal. Mesmo que a Rússia tenha cedido armamentos aos separatistas, não seriam sistemas Buk, pois, estes deveriam ser encaminhados diretamente a Moscou após o primeiro uso.

Cui Bono? A quem interessa esta tragédia?

A mais forte jogada russa até o momento foi o poder de restringir a OTAN, após a prória OTAN levar a Ucrânia ao caos apoiando neo-nazis armados durante o “Euromaidan”, isto ocorre desde o fim de 2013. A Rússia certamente não jogaria fora esta cartada cedendo armamentos deste porte aos separatistas que já estavam abatendo com sucesso os veículos aéreos militares de Kiev por meio dos misseis portáteis.

A Rússia e os separatistas do leste ucraniano nada possuem a ganhar abatendo um avião civil, mas sim tudo a perder – enquanto se olharmos pro lado oposto – verificamos que ganham a OTAN e o regime golpista de Kiev. O fato deste avião abatido ser outro boeing 777 malasiano – o segundo perdido este ano em circunstâncias extraordinárias – mostrou-se muito conveniente e acabou por ganhar máxima atenção dos propagandistas do Ocidente. Agora, possuem toda a atenção do mundo para, com ela, culpar a Rússia e os separatistas anti-Kiev do leste ucraniano.

O ímpeto necessário para unir a Europa e outros aliados do Ocidente em torno da OTAN e assim dar base a uma intervenção mais direta dos EUA na Ucrânia está em todas as manchetes, correndo o mundo. Se a queda do voo MH17 não foi um trágico caso de erro de identificação, então, temos que o maior beneficiado da atual configuração é, sem dúvida, a OTAN.

Noam Chomsky: Política Externa dos EUA – rede criminosa de proteção para as empresas privadas

Por Noam Chomsky, via redecastorphoto e Revista Fórum

Há uma “versão padrão recebida”, comum na academia, em pronunciamentos do governo e no discurso público, segundo a qual o primeiro dever de qualquer governo é prover segurança; e que a principal preocupação dos EUA e seus aliados, desde 1945, sempre foi a “ameaça russa”.

Há vários meios para avaliar-se essa doutrina. Pode-se começar por responder uma pergunta óbvia: O que aconteceu quando a ameaça russa desapareceu, em 1989? Resposta: nada aconteceu; tudo continuou como antes.

Pouco depois, os EUA invadiram o Panamá matando, provadamente, milhares de pessoas e instalando ali um regime-cliente. Essa era prática rotineira nos domínios dominados pelos EUA. Mas esse caso não foi rotineiro: pela primeira vez, um grande ato de política exterior não se explicava por qualquer tipo de suposta ameaça russa!

Daquela vez, inventaram-se e foram distribuídos vários e vários pretextos fraudulentos para aquela invasão, que se desmontaram instantaneamente, logo ao primeiro exame. A imprensa-empresa tudo louvava entusiasticamente, aquele grande feito de derrotar o Panamá. Não se preocupava com a evidência de que os pretextos eram ridículos, que o ato em si não passava de violação gravíssima da lei internacional, que estava sendo execrado em muitas partes do mundo, especialmente na América Latina.

A imprensa-empresa também ignorou o veto dos EUA contra proposta de Resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenaria os crimes cometidos por soldados dos EUA durante a invasão. Todos os demais votantes votaram unanimemente a favor da condenação aos EUA; a Grã-Bretanha absteve-se; e os EUA vetaram. Rotina. E ficou tudo por isso mesmo (o que também é rotina).

De El Salvador à Fronteira Russa

O governo de George H.W. Bush lançou nova política de segurança nacional e orçamento para a defesa, em reação ao colapso do inimigo global. Não fazia sentido algum. Como da primeira vez, mobilizaram-se falsos pretextos. Eram outros pretextos, mas eram igualmente falsos pretextos. É que, como depois se viu, era necessário manter um establishment militar quase tão grande quanto o do resto do mundo, tudo somado, e muito mais avançado na sofisticação tecnológica – mas não para defender o país contra uma inexistente União Soviética. A desculpa, dessa vez, foi a crescente “sofisticação tecnológica” de potências do 3º Mundo.

Intelectuais disciplinados compreenderam que não se recomendava que se lançassem em ridículo total, e, portanto, mantiveram-se em silêncio.

Os EUA, insistiam os novos programas, tinham de manter sua “base industrial de defesa”. A frase é eufemística, para falar em geral de indústria high-tech que depende pesadamente de vasta intervenção estatal para pesquisa e desenvolvimento, quase sempre mascarada como se fosse atividade a serviço do Pentágono. É o que economistas continuam a chamar de “economia de livre mercado” dos EUA.

Uma das cláusulas mais interessantes dos novos planos tinha a ver com o Oriente Médio. Ali, ficava decidido, Washington tinha de manter forças de intervenção que tomariam como alvo uma região crucial, cujos “principais problemas não podem ser entregues à porta do Kremlin”. Ao contrário dos 50 anos de mentiras anteriores, confessava-se discretamente que a principal preocupação não eram os russos, mas o que se chama “nacionalismo radical”, quer dizer: qualquer nacionalismo independente que os EUA não controlem completamente.

Tudo isso tinha evidente conexão com a visão padrão, mas passou despercebido – ou, talvez: por isso mesmo, passou despercebido.

Outros eventos importantes aconteceram imediatamente depois do fim do Muro de Berlim, fim da Guerra Fria. Um deles aconteceu em El Salvador, país que recebia a maior ajuda militar dos EUA em todo o mundo – exceto Israel-Egito, que são caso à parte – e com os piores registros de desrespeito aos direitos humanos do planeta (essa correlação também é frequente e bem direta).

O alto comando salvadorenho ordenou que a Brigada Atlacatl invadisse a Universidade Jesuíta e assassinasse seis destacados intelectuais latino-americanos, todos eles jesuítas, inclusive o reitor, Fr. Ignacio Ellacuría, e testemunhas (a governanta da residência do reitor e a filha dela).

A Brigada acabava de voltar de treinamento avançado contrainsurgência no John F. Kennedy Special Warfare Center and School do Exército dos EUA, em Fort Bragg, North Carolina, e deixou um rastro de milhares das vítimas de sempre ao longo da campanha de terror liderada pelos EUA em El Salvador – parte de campanha de terror e tortura mais ampla, por toda a região.

Tudo, rotina. Tudo ignorado e virtualmente esquecido nos EUA e pelos aliados, tudo, como sempre, rotina. Mas isso nos diz muito sobre os fatores que dirigem a política, se nos damos o trabalho de observar o mundo real.

Outro evento importante aconteceu na Europa. O presidente soviético Mikhail Gorbachev concordou com permitir a unificação da Alemanha e que a Alemanha fosse integrada como membro à OTAN – aliança militar hostil. À luz da história recente, foi a mais surpreendente das concessões. Mas tinha havido uma troca: o presidente Bush e o secretário de Estado James Baker haviam concedido que a OTAN não seria expandida “uma polegada, para o Oriente”, falando da Alemanha Oriental. Imediatamente depois de firmado o acordo, os dois expandiram a OTAN para a Alemanha Oriental.

Gorbachev ficou obviamente ultrajado. Mas quando reclamou, Washington explicou-lhe que a coisa não passara de compromisso verbal, acordo de cavalheiros, sem força alguma. Se fora suficientemente tolo a ponto de acreditar na palavra do presidente e do secretário de Estado dos EUA, problema dele.

Isso também era rotina, como rotina eram também a silenciosa aceitação e a aprovação da expansão da OTAN, nos EUA e, em geral, no ocidente. O presidente Bill Clinton então expandiu ainda mais a OTAN, direto para junto das fronteiras da Rússia. Hoje, o mundo encara grave crise que é, em medida não pequena, resultado dessas políticas.

A sedução de saquear os mais pobres

Outra fonte de provas são os registros históricos que vão chegando ao conhecimento público. Esses registros contêm dados reveladores dos reais motivos da política de estado dos EUA. A história é rica e complexa, mas alguns temas têm persistentemente o papel dominante. Um deles foi claramente articulado numa conferência para o hemisfério ocidental que os EUA convocaram, no México, em fevereiro de 1945, na qual Washington impôs “Uma Carta Econômica para as Américas” [orig. An Economic Charter of the Americas] que visava a eliminar o nacionalismo econômico “em todas as suas formas”. Havia uma condição “não dita”: o nacionalismo econômico ficava aprovado, até recomendado, para os EUA, cuja economia depende vitalmente de massiva intervenção do estado.

A eliminação do nacionalismo econômico para os outros entrou em agudo conflito com a posição dos latino-americanos naquele momento, posição que funcionários do Departamento de Estado descreveram como “a filosofia do Novo Nacionalismo [o qual] abraça políticas que visam a assegurar melhor distribuição de riqueza e a melhorar os padrões de vida das massas”.

Como outros analistas políticos norte-americanos acrescentaram, “os latino-americanos estão convencidos de que os primeiros beneficiários do desenvolvimento dos recursos de um país deve ser o povo daquele país”.

Claro que não podia ser. Para Washington, os “primeiros beneficiários” têm de ser os investidores norte-americanos, com a América Latina preenchendo a função de dar-lhes os meios. Não poderia haver, como os governos Truman e Eisenhower deixariam bem claro, “desenvolvimento industrial excessivo” que viesse a abalar os interesses dos EUA.

O Brasil, por exemplo, poderia produzir aço de baixa qualidade com o qual as empresas norte-americanas não precisavam preocupar-se; mas a produção seria considerada “excessiva”, se entrasse em concorrência com as empresas norte-americanas.

Preocupações semelhantes ressoaram no período do pós IIª Guerra Mundial. O sistema global que era dominado pelos EUA estava ameaçado por o que documentos internos chamam de “regimes radicais e nacionalistas” que respondem a pressões populares por desenvolvimento independente. Essa foi a preocupação que motivou os golpes que derrubaram os governos parlamentaristas do Irã e da Guatemala em 1953 e 1954, além de vários outros golpes (Brasil, 1964 – Nrc).

No caso do Irã, uma preocupação principal foi o impacto potencial da independência iraniana sobre o Egito, então em torvelinho contra a prática colonial britânica. Na Guatemala, além do crime da nova democracia que dava poder à maioria camponesa e invadia possessões da United Fruit Company — o que já seria ofensa suficiente – Washington preocupava-se com a agitação nos meios trabalhistas e a mobilização popular em ditaduras apoiadas pelos EUA nos arredores.

Nos dois casos, as consequências chegam até os nossos dias.

Literalmente, não houve um dia, desde 1953, em que os EUA não tenham torturado o povo do Irã. E a Guatemala ainda é uma das câmaras de horror do mundo. Até hoje há maias que fogem dos efeitos das campanhas militares quase-genocidas no país, patrocinadas pelo presidente Ronald Reagan e seus mais altos representantes. Como um diretor da Oxfam, médico guatemalteco, relatou recentemente:

Há deterioração dramática do contexto político, social e econômico. Ataques contra defensores de Direitos Humanos aumentaram 300% no último ano. Há clara evidência de que é estratégia bem organizada pelo exército e pelo setor privado. Ambos capturaram o estado, para manter o status quo e impor o modelo econômico extrativista, empurrando os povos nativos dramaticamente para fora de suas terras, que vão sendo ocupadas pela grande indústria de mineração, African Palm e fazendas de cana-de-açúcar. Além disso, o movimento social, que defende as terras e os direitos dos nativos foi criminalizado, muitos líderes estão presos e muitos outros foram assassinados.

Nada se sabe sobre isso nos EUA, e até a causa óbvia desses fatos também é mantida ocultada.

Nos anos 1950s, o presidente Eisenhower e o secretário de Estado John Foster Dulles explicaram claramente o dilema que os EUA enfrentavam. Reclamaram de que os comunistas gozavam de vantagem injusta. Os comunistas podiam “apelar diretamente às massas” e “obter o controle dos movimentos de massa, coisa que nós não podemos fazer. Eles falam diretamente aos pobres e sempre querem saquear os ricos”.

Isso, sim, é problema. Os EUA sempre encontraram dificuldades para falar diretamente aos pobres e mostrar aos pobres sua doutrina segundo a qual os ricos podem saquear os pobres.

O exemplo cubano

Exemplo claro do padrão geral foi Cuba, quando afinal se tornou independente em 1959. Em poucos meses começaram os ataques militares contra a ilha. Pouco depois, o governo de Eisenhower decidiu, secretamente, mudar o regime em Cuba. Em seguida, John F. Kennedy tornou-se presidente. Queria dedicar mais atenção à América Latina. Então, logo no início do governo, criou um grupo para desenvolver políticas, sob a coordenação do historiador Arthur Schlesinger, que resumiu suas conclusões para apresentar ao presidente que chegava.

Como Schlesinger explicou, o mais ameaçador, de haver uma Cuba independente, era “a ideia de Castro de o país tomar as questões nas próprias mãos”. Desgraçadamente, era ideia que muito atraía as massas na América Latina, onde “a distribuição de terra e de outras modalidades de riqueza nacional favorecem muito as classes proprietárias, e onde os pobres e oprimidos, estimulados pelo exemplo da Revolução Cubana, já começam a exigir oportunidades para uma vida decente”. Para Washington, só problemas. E o dilema de sempre.

Como a CIA explicou:

A extensiva influência do “castrismo” não é função do poder cubano (…) a sombra de Castro mostra-se grande porque as condições sociais e econômicas na América Latina convidam a fazer oposição a qualquer autoridade e encorajam a agitação para mudança radical.

E a Cuba de Castro oferece modelo para isso. Kennedy temia que a ajuda russa pudesse fazer de Cuba uma “vitrine” do desenvolvimento, o que daria vantagem aos soviéticos em toda a América Latina.

O Conselho de Planejamento Político do Departamento de Estado alertou que:

(…) o perigo básico que enfrentamos com Castro está (…) no impacto que a simples existência de seu governo tem sobre o movimento esquerdista em muitos países latino-americanos (…). O simples fato é que Castro representa desafio bem-sucedido aos EUA, negação de toda nossa política hemisférica de quase um século e meio

Queria dizer: desde a Doutrina Monroe de 1823, quando os EUA declararam sua intenção de dominar o hemisfério.

Naquele momento, o objetivo imediato era conquistar Cuba, mas não era possível por causa do poder do inimigo britânico. Ainda assim, o grande estrategista John Quincy Adams, pai intelectual da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto, informou aos seus colegas que, com o tempo, Cuba lhes cairia no colo, pelas “leis da gravitação política”, como a maçã cai da árvore. Em resumo: o poder dos EUA aumentaria e o da Grã-Bretanha encolheria.

Em 1898, o prognóstico de Adams se realizou. Os EUA invadiram Cuba, sob o disfarce de “libertadores”. Na verdade, impediram que a ilha se tornasse independente da Espanha e a converteram em “colônia virtual”, como disseram os historiadores Ernest May e Philip Zelikow. Cuba permaneceu nessa situação até janeiro de 1959, quando se tornou independente. Desde então, é alvo de guerras terroristas movidas pelos EUA, e que começaram nos anos Kennedy, e de tentativas de estrangulamento econômico. Não por causa dos russos.

A política dos EUA para Cuba tornou-se cada vez mais dura; e ainda mais sob governo Democrata, inclusive sob Bill Clinton, que conseguiu ultrapassar Bush pela direita, nas eleições de 1992. Nesse quadro, os eventos acima listados deveriam ter afetado a validade da doutrina, na discussão da política externa e dos fatores que incidem sobre ela. Mas, não. Nada disso. Outra vez, o impacto dos fatos sobre a teoria foi mínimo.

O vírus do nacionalismo

Tomando emprestada a terminologia de Henry Kissinger, o nacionalismo é “um vírus” cujo “contágio pode disparar”. Kissinger, aí, falava do Chile de Salvador Allende. O vírus, no caso, era a ideia de que podia haver via parlamentar para algum tipo de democracia socialista. O modo de enfrentar tamanha ameaça foi destruir o vírus e vacinar todos que pudessem ter sido contaminados; a solução típica foi impor em todos os casos os mais mortíferos estados de segurança nacional. Foi feito assim no Chile em 1973 (imitando o golpe MILICANALHA no Brasil/1964 – Nrc). Mas é importante perceber que esse tipo de pensamento permanece vivo em todo o mundo.

Foi esse, por exemplo, o pensamento que havia por trás da decisão de opor-se ao nacionalismo vietnamita no início da década dos 1950s e apoiar o esforço da França para reconquistar sua ex-colônia. Temia-se que o nacionalismo vietnamita independente pudesse ser um vírus que contaminaria as regiões circundantes, inclusive a Indonésia, riquíssima em recursos.

Poderia até levar o Japão – chamado de “superdominó”, por John Dower, especialista em Ásia – a tornar-se o centro de uma nova ordem industrial e comercial independente do tipo que o Japão imperial havia lutado então recentemente para estabelecer.

Tudo isso, por sua vez, significaria que os EUA teriam perdido a guerra pelo Pacífico, opção que não se considerava em 1950. O remédio era claro – e foi usado com bastante sucesso: o Vietnã foi virtualmente destruído e foi cercado por ditaduras militares que mantiveram o “vírus” cercado e contiveram o contágio.

Em retrospecto, McGeorge Bundy, Conselheiro de Segurança Nacional de Kennedy-Johnson, considerou que Washington deveria ter terminado a Guerra do Vietnã em 1965, quando a ditadura de Suharto foi instalada na Indonésia, com massacres terríveis, que a CIA comparou aos crimes de Hitler, Stálin e Mao. Mas o massacre para empossar Suharto foi saudado com incontida euforia nos EUA e no ocidente em geral, porque o “espantoso banho de sangue”, como a imprensa-empresa o comemorava eufórica, pôs fim a qualquer ameaça de contágio e abriu os ricos recursos da Indonésia aos exploradores ocidentais. Depois de isso estar feito, a guerra para destruir o Vietnã já foi supérflua, como Bundy reconheceu, retrospectivamente.

O mesmo é verdade na América Latina, nos mesmos anos: um “vírus” depois do outro foi viciosamente atacado e destruído ou enfraquecido a ponto de mal sobreviver. A partir do início dos anos 1960s, uma praga de repressão foi imposta em todo o continente, uma história de violência sem precedentes no hemisfério, que se estendeu também para a América Central nos anos 1980s, no governo de Ronald Reagan, assunto ainda vivo na memória que não é preciso rememorar aqui.

Muito disso tudo foi assim também no Oriente Médio. As relações especialíssimas entre EUA e Israel ganharam a forma que hoje têm em 1967, quando Israel aplicou golpe violentíssimo contra o Egito, o centro do nacionalismo árabe secular. Ao fazê-lo, Israel protegeu a Arábia Saudita, aliada dos EUA, então engajada em conflito militar contra o Egito, no Iêmen.

A Arábia Saudita, é claro, é o estado islâmico fundamentalista mais radical, e também é estado missionário, que gasta somas astronômicas para difundir doutrinas salafistas wahhabistas além de suas fronteiras. Vale a pena lembrar que os EUA, como, antes deles, a Inglaterra, tenderam sempre a apoiar o Islã fundamentalista contra o nacionalismo secular, que sempre foi percebido como ameaça mais grave de independentismo e de contágio (o “vírus”, não esqueçam).

O valor do segredismo

Muito há para dizer, mas o registro histórico demonstra muito claramente que a doutrina padrão tem pouca serventia. A segurança, no sentido normal, não é fator na formação política. Repito: no sentido normal de “segurança”. Mas, para avaliar a doutrina padrão, é preciso perguntar o quê significa “segurança”. “Segurança” para quem?

Uma resposta é: segurança para o poder do estado. Há muitos exemplos. Consideremos um exemplo atual. Em maio, os EUA concordaram que apoiariam uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para que a Corte Internacional de Justiça, em Haia, investigasse crimes de guerra na Síria, mas sob uma condição: não poderia haver investigação nenhuma de qualquer possível crime de guerra cometido por Israel. Nem de crimes cometidos por Washington. De fato, ninguém nem precisaria declarar essa “proteção” aos EUA, porque os EUA são a única nação autoimunizada contra a ação de qualquer sistema legal internacional.

De fato, há uma lei do Congresso dos EUA que autoriza o presidente a usar força armada para “resgatar” qualquer norte-americano que seja levado a Haia para ser julgado: é a “Netherlands Invasion Act” [Lei da Invasão dos Países Baixos], como é às vezes chamada na Europa. Assim, mais uma vez, se comprova a importância de proteger a segurança do poder do estado.

Mas proteger a segurança do estado, contra quem? Pode-se muito bem argumentar que a principal preocupação do governo é proteger a segurança do estado e contra a própria população. Como sabe qualquer pessoa que se tenha dedicado a vasculhar arquivos, o segredismo, o chamado “sigilo” que protege o governo, raramente é motivado por legítima preocupação de segurança; praticamente em todos os casos o segredismo oficial visa, exclusivamente, a manter a população em total ignorância, sem saber do que se passa.

E por boas razões, como explicou lucidamente o ilustre intelectual liberal e conselheiro governamental Samuel Huntington, professor de ciência de governo na Harvard University. Nas palavras dele:

Os arquitetos do poder nos EUA devem criar uma força que seja sentida, mas não seja vista. O poder permanece forte quando se guarda no escuro; exposto à luz do sol, começa a evaporar.

Huntington escreveu isso em 1981, quando a Guerra Fria voltava a esquentar, e explicou também que:

(…) você tem de vender [intervenção ou outra ação militar] de modo tal que crie a falsa impressão de que o que você combate é a União Soviética. É o que os EUA sempre fizeram, desde a Doutrina Truman.

São verdades simples, raramente reconhecidas, mas ajudam a ver por dentro do poder e das políticas do estado, e têm reverberações até nossos dias.

O poder do Estado tem de ser protegido contra seu inimigo doméstico; em agudo contraste com isso, a população não tem como se proteger contra o poder do Estado. Impressionante exemplo atual é o ataque frontal, mortal, que o governo Obama move contra a Constituição dos EUA, com seu programa de vigilância interna massiva. A coisa, é claro, justifica-se sob o argumento da “segurança nacional”. Mas é o que dizem virtualmente todos os estados para justificar todas as suas ações e, assim sendo, pouco significa ou informa.

Quando o programa de vigilância total da Agência de Segurança Nacional dos EUA foi desmascarado pelas revelações de Edward Snowden, altos funcionários correram a declarar que a vigilância total teria evitado 54 atos terroristas. No inquérito, o número já baixou para uma dúzia. Na sequência, um painel de alto nível criado pelo governo logo descobriu que, de fato, só um caso fora realmente “descoberto”: alguém mandara US$ 8.500 para a Somália. Foi o único “benefício” obtido dessa vasto ataque contra a Constituição e, claro, também contra milhões de outras pessoas em todo o mundo.

A atitude da Grã-Bretanha é interessante. Em 2007, o governo britânico contratou a colossal agência de espiões de Washington, para que “analisasse e recolhesse todos os números de celulares, fax, endereços de e-mails e IPs de qualquer cidadão/ã britânico/a que houvesse em seu banco de dados” – como o The Guardian noticiou. Dá indicação útil da importância relativa, aos olhos do governo, de o estado proteger a privacidade dos próprios cidadãos e das encomendas que Washington recebe.

Exemplo atual são os gigantescos acordos comerciais que estão sendo negociados, as “parcerias” Trans-Pacífico e Trans-Atlântico. Estão sendo negociadas em segredo, mas não totalmente em segredo. Absolutamente não são segredo para as centenas de advogados de corporações que estão redigindo as cláusulas e seus muitos detalhes. Não é difícil adivinhar quais serão os resultados, e os raros “vazamentos” que se conhecem sugerem que o que se espera e teme, sim, é o que acontecerá.

Como o NAFTA e outros desses “pactos” e “parcerias”, não são acordos de livre comércio. De fato, sequer são acordos de comércio: são, em primeiro lugar, acordos que fixam os direitos dos investidores.

Mais uma vez o segredismo, o “sigilo”, é criticamente importante para garantir segurança à parte que interessa do eleitorado doméstico de qualquer governo: ao setor empresarial, chamado “corporativo”, às empresas privadas.

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[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismo.

Tradução: Vila Vudu

O humilhante fim do treinador brasileiro que admirava Pinochet

Via El mostrador

Elpais/Reprodução

Luis Felipe Scolari derrotou os alemães em 2002, na final do Mundial da Coreia-Japão. Porém, é muito provável que seja mais lembrado por essa acachapante derrota que sofreu o Brasil no Mineirão, em Belo Horizonte, mesmo local onde poucos dias antes Neymar e companhia sofreram até as lágrimas para vencer nos pênaltis o Chile, nas oitavas de final.

Ninguém poderá dizer que ele nada ganhou em sua carreira. Luiz Felipe Scolari (65 anos) já foi campeão do mundo com a seleção brasileira em 2002, quando derrotou por 2 a 0 a Alemanha. Porém, sem dúvida que passará a história como o técnico que dirigiu a “verdeamarela” em qualidade de anfitriã do Mundial de 2014, tendo caído categoricamente numa derrota por 7 a 1, na semifinal, diante dos mesmos alemães.

O estádio Mineirão de Belo Horizonte, mesmo local onde sofreram até as lágrimas no último dia 28 para superar o Chile nos pênaltis nas oitavas de final, foi o cenário da maior humilhação esportiva brasileira das últimas décadas.

Scolari, que há 16 anos chegou a declarar que o falecido ex-ditador Auguto Pinochet – quando já havia sido preso em Londres – “fez mais coisas boas que más” tendo justificado a repressão do regime militar chileno dizendo que “há determinados momentos em que se deve ter ordem ou então a anarquia desata”, chegou ao mundial em meio a críticas de baixo rendimento de sua equipe nas partidas amistosas, e por deixar de fora do time figuras como Robinho e Ronaldinho Gaúcho, que bem se sabe não ser a figura de antes, mas que realizou boa temporada no brasileirão passado.

Se por um lado a chegada as semifinais deu a ilusão a torcida de que era possível sonhar com o hexacampeonato, por outro, na partida contra a seleção chilena acendeu-se o alarme por conta da pressão que sofreram os jogadores, tando pela necessidade de se obter um bom resultado como pelo contexto social que viva o país, onde a empolgação com o futebol permitiu que se reduzisse as violentas manifestações de rechaço aos gastos milionários para a organização do Mundial.

A incerteza da seleção brasileira cresceu mais nas quartas de final, onde derrotou a Colômbia, também sem não sofrer, por 2 a 1. No entanto, não foram essas dúvidas que se destacaram, mas sim a lesão na coluna que deixou Neymar fora da competição, o atacante do Barcelona que se mostrou referência desta equipe. E então tivemos um Scolari que se viu sem ideias, sucumbindo como nunca antes e em sua própria casa diante dos alemães dirigidos por Joachim Low, equipe que o treinador brasileiro disse respeitar, antes do “Mineiraço”.

Em coletiva de imprensa na segunda-feira anterior a partida, Scolari referiu-se as críticas que recebia o próprio Low frente a seleção alemã, de quem duvidavam que tivesse condições para aspirar a Copa. “Não importa. De mim também dizem que não sirvo pra ganhar um Mundial”, disse, sem saber que desta vez, seus detratores tinham razão.

Tradução: Rennan Martins

Chile: Uma democracia servil ao capital?

Por Micaela Lobos, via El Mostrador

Nos dias posteriores a vitória de Salvador Allende, Richard Nixon pedia a seu secretário de Estado, Henry Kissinger, para “fazer gritar a economia do Chile” no sentido de impedir a chegada da Unidade Popular ao poder. Esta declaração, que faz parte de um dos 350 documentos desclassificados há algumas semanas pela CIA, retrata a resistência do primeiro governo eleito sob uma democracia liberal que abertamente dizia não defender os interesses do capital. A história que se seguiu é bastante conhecida.

Em um artigo recente, o professor Boaventura de Sousa Santos analisa a relação entre capitalismo e democracia, assinalando que “o capitalismo só se sente seguro se é governado por quem tem o capital ou se identifica com suas ‘necessidades’”. No caminho contrário está a democracia, entendida, em sua definição mais perfeita, como um governo das maiorias “que não tem capital nem razões para identificar-se com as ‘necessidades’ do capitalismo”. Ademais, ressalta-se que as necessidades minoritárias do capital “colidem” com as necessidades das classes trabalhadoras, criando um conflito distributivo entre os que concentram a riqueza e os que reivindicam repartição mais equitativa dela.

Frente a isto, como é possível que a democracia sobreviva em sistemas dominados por uma minoria acumuladora de capital? Houve períodos em que esta simplesmente sucumbiu, quando as elites dominantes viram ameaçados seus interesses. Sem embargo, em grande parte do mundo instalou-se uma democracia liberal, utilizada – segundo argumenta o autor – para evitar que as maiorias pobres cheguem ao poder, recorrendo para isso a uma séria de dispositivos legais e legitimados, tais como restrições ao sufrágio, leis de lobby, consagração e supremacia do direito à propriedade privada e repressão da atividade política fora da institucionalidade, entre outros.

Sob o governo da Unidade Popular houve o golpe de Estado, 17 anos de ditadura cívico-militar e 24 de governos eleitos em normas democráticas. Pode a democracia chilena sobrepor-se aos interesses das minorias? Quem são os que tem governado o Chile e que interesses representam? Esta não é uma pergunta que se responde facilmente. Porém, é interessante esboçar uma aproximação para o caso chileno a luz de evidências recentes que parecem consenso e amplamente aceitas entre os diversos setores políticos.

Recentemente houve a apresentação do informe da Auditoria da Democracia no Chile, elaborado prlo PNUD, em que colaboraram distintos centros de pensamento (Centro de Estudos Públicos, Corporação de Estudos para a América Latina, Liberdade e Desenvolvimento, Projeto América, Instituto Liberdade, Fundação Jaime Guzmán e Fundação Chile 21). O informe, que analisa a democracia qualitativamente, reconhece que, em sua extensão formal, os princípios e ideais da democracia, tais como igualdade e controle popular do governo, seguem distantes.

Um importante elemento para esboçar uma resposta é saber quais figuras tem sido eleitas governantes. A supremacia dos partidos políticos em ocupar os cargos de eleição popular deixou pouco ou nenhum espaço a candidaturas independentes e, com elas, seus eleitores. Esta elitização do espaço para tomada de decisões aumenta com a baixa rotação e alternância de autoridades em seus cargos, informa o relatório. No caso do congresso, o sistema eleitoral binominal contribuiu para representar exageradamente certos setores políticos em detrimento de outros, os processos eleitorais “desde o retorno à democracia têm sido altamente previsíveis e com escassa competência efetiva de percepção dos eleitores”. Importante acrescentar neste ponto que nas últimas eleições, partidos e movimentos políticos que haviam sido excluídos de cargos de representação popular ganharam espaço, incluindo na coalizão governante. Ainda que, salvo exceções, grande parte se deu por negociações e pactos com os grupos políticos dominantes.

A crise de representatividade é evidenciada também nos baixos níveis de confiança que as pessoas têm no congresso e nos partidos políticos; em 2013, somente 15% manifestou ter muita confiança nos partidos. Ainda maios se faz a distância ao contatarmos que a identificação das pessoas com os partidos é baixa: em 2013, só 35% dos entrevistados manifestou identificação com algum partido político. 51% deles crê que os partidos compõem-se de políticos que atuam em causa própria.

O paradoxo se materializa quando a cidadania se vê forçada a eleger e sentir-se representada por políticos os quais não se têm confiança nem identificação.

Estas percepções parecem ter correlação com o comportamento eleitoral. O relatório demonstra um nível cada vez menor de participação das pessoas em idade de voto desde 1989, quando 86% da população foi às urnas, cifra que chegou a 59,5% em 2009, e a 51,7% na eleição presidencial de 2013. Esta tendência não se reverteu com a institucionalização da inscrição automática e do voto voluntário, a realidade é que as eleições se dão com cada vez menos eleitores, o que deixa o poder de decisão nas mãos de uns poucos. Talvez a abertura do espaço a novos grupos políticos seja uma oportunidade de aumento da participação.

Diante disto, não é de se estranhar que o capital se sinta seguro em um sistema político que está longe do controle popular. Tampouco surpreende que a institucionalidade laboral, instaurada na época da ausência democrática, permaneceu inalterada, favorecendo os grandes interesses econômicos e a desigualdade social. Atualmente os trabalhadores têm praticamente nula capacidade de incidir sobre a distribuição da riqueza (baixa sindicalização, negociação coletiva) e, por isso, menos influência nas decisões que pesam sobre suas próprias condições de vida.

Os dados demonstram a existência de um espaço político que está cada vez mais distante do alcance popular, dominado por partidos cada vez mais alheios aos interesses da sociedade e que servem muito bem aos interesses de uma minoria. Essa é a pedra fundamental de onde devemos construir alternativas distintas.

Tradução: Rennan Martins