Arquivos da categoria: Traduções

Congressista norte-americana propõe lei que impede a guerra “ilegal” contra Assad; Diz que as operações da CIA devem cessar

Por Tyler Durden | Via Zero Hedge

Tulsi Gabbard. Foto: ABC News

No mês passado a congressista norte-americana Tulsi Gabbard foi a CNN e expôs a estratégia de Washington na Síria.

Em entrevista memorável conduzida por Wolf Blitzer, Gabbard diz que os esforços para a derrubada de Assad são “contraprodutivos e “ilegais”, para depois ir além e acusar a CIA de armar e financiar os mesmos terroristas que a Casa Branca define como maiores inimigos.

Gabbard diz ainda que o governo norte-americano mente para seus cidadãos e que isso pode desencadear até mesmo a “Terceira Guerra Mundial”.

Aos que perderam, segue o vídeo:

Isso foi antes dos atentados em Paris.

Depois dos ataques, parece que Gabbard cansou-se da postura ambígua do governo no combate ao terrorismo e agora, com apoio republicano, a democrata do Hawaii propôs uma lei que impede a “guerra ilegal” que visa tirar Assad do poder.

Gabbard lutou no Iraque duas vezes e assina o projeto juntamente ao congressista republicano dam Scott. A Associated Press assim relata:

Numa aliança inconvencional, uma democrata e um republicano fecharam questão no sentido de fazer a administração Obama parar de atuar na derrubada do presidente sírio Bashar Assad, focando todos os esforços, por conseguinte, em destruir o Estado Islâmico e sua militância.

A deputada Tulsi Gabbard e seu colega republicano, Austin Scott, propuseram uma lei que acaba que a dita “guerra ilegal” que intenta derrubar Assad, o líder da Síria acusado de matar centenas de milhares de cidadãos numa guerra civil contra o Estado Islâmico, que já dura mais de quatro anos.

“Os EUA conduzem duas guerras na Síria”, diz Gabbard. “A primeira é contra o Estado Islâmico e seus extremistas, que o Congresso autorizou depois do ataque de 11 de setembro. A segunda guerra é ilegal e é a que tenta derrubar o governo sírio de Assad.”

Scott alega que “Trabalhar na queda de Assad, nesse ponto do conflito, é contra-produtiro no que se refere ao que deveria ser a missão primordial.”

Desde 2013 a CIA treinou em torno de 10.000 combatentes, o número total dos chamados “moderados”, no entanto, permanece uma incógnita. O apoio da CIA aos rebeldes os permitiu pôr considerável pressão sobre o governo de Assad. Agora, estas mesmas forças estão sendo bombardeadas pela Rússia e há poucas chances do patronato ianque intervir, dizem os oficiais norte-americanos.

Durante anos a CIA os financiou generosamente – tanto que no último verão houveram propostas de cortes orçamentais no Congresso. Alguns destes rebeldes foram capturados; outros desertaram e agora somam forças as fileiras do Estado Islâmico.

Gabbard argumenta que o Congresso nunca autorizou esta operação da CIA, mas, estes programas não requerem este tipo de aprovação, tendo sido enviados aos comitês de inteligência, como previsto em lei, de acordo com declarações em off de assessores.

Gabbard argumenta que os esforços contra Assad são contra-produtivos por que estão auxiliando o Estado Islâmico a derrubá-lo e então dominar todo o território sírio. Se o EI se apossar dos armamentos militares, infraestrutura e comunicações do exército sírio, se tornariam ainda mais perigosos, fazendo explodir a crise dos refugiados.

E pra que não haja confusão, Tulsi esclarece que entende que a absurda política de Washington para o Oriente Médio vai bastante além da Síria. Ou seja, ela entende o cenário como um todo. Abaixo o que ela pensa sobre a presença massiva norte-americana e a prática de derrubar regimes acusados de violações de direitos humanos:

“Disseram exatamente a mesma coisa sobre o Saddam, sobre Gadhafi, e os resultados das mudanças de regime foram terríveis, não somente sendo falhas, mas trabalhando diretamente na fortificação de nossos inimigos.”

A CIA trabalhará, sem dúvida, para neutralizar Tulsi Gabbard.

Afinal, ainda há esperança para o povo norte-americano, apesar de tudo.

Se o público leigo não quer ouvir os blogs “lunáticos” ou o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, talvez escute uma deputada que serviu duas vezes no Iraque e agora denuncia a população que a Casa Branca, o Pentágono, e especialmente a CIA, estão juntos numa guerra “ilegal” que objetiva derrubar um governo de um país soberano, ao mesmo tempo que arma os extremistas responsáveis por ataques como o de Paris.

Boa sorte Tulsi, e obrigado por provar que há ao menos um político norte-americano que não é ingênuo nem desonesto.

***

Você pode continuar lendo este post, em inglês, aqui.

Tradução: Rennan Martins

Tem início o fim do capitalismo (II)

Por Paul Mason | Via The Guardian

Sem alarde, estamos adentrando a era pós-capitalista. No coração das mudanças estão as tecnologias de informação, as novas formas de trabalho e a economia compartilhada. As velhas formas ainda levarão um longo tempo para desaparecer, mas a hora é de abrir espaço a utopia. Acesse aqui a parte I.

Idealização de uma sociedade de economia compartilhada. Ilustração de Phil Wrigglesworth

A quebradeira de 2008 derrubou em 13% a produção global e em 20% o comércio internacional. O crescimento global tornou-se negativo – numa escala em que qualquer digito abaixo dos +3% é interpretado como recessão. No ocidente, desencadeou-se uma depressão mais duradoura que a vista em 1929-33, e mesmo agora, com uma tímida recuperação, deixou vários economistas ortodoxos aterrorizados com a perspectiva de estagnação de longo prazo. A Europa começa a desintegrar com os efeitos pós-crise.

A “solução” foi austeridade conjugada a expansão monetária, que não está funcionando. Nos países mais atingidos a previdência social foi destruída e a idade de aposentadoria chega aos 70, enquanto a educação está sendo privatizada e os graduandos sendo submetidos a uma alta dívida que carregarão por toda a vida. Os serviços públicos são desmantelados e os projetos de infraestrutura suspensos.

Até agora grande parte da população não entendeu o real significado da palavra “austeridade”. Austeridade não são oito anos de cortes de gastos, como no Reino Unido, ou a catástrofe social infligida na Grécia. Significa baixar os salários, auxílios e padrão de vida ocidental por décadas até que estes se encontrem com os da classe média chinesa e indiana ascendentes.

Enquanto um modelo alternativo não surge, as condições para outra crise surgem. Os salários reais caíram ou estagnaram no Japão, no sul da Eurozona, nos EUA e Reino Unido. O shadowbanking se reergueu e agora está ainda maior do que em 2008. As regras de restrição que demandavam mais reservas aos bancos foram enfraquecidas ou adiadas. Paralelamente, o 1% tornou-se ainda mais rico com as injeções monetárias.

O neoliberalismo degenerou num sistema programado para falhar e infligir catástrofes de forma sistemática. Pior que isso, fez quebrar o capitalismo industrial, que vinha numa trajetória de 200 anos em que cada crise econômica encontrava saída nas inovações tecnológicas com efeitos de inclusão.

Isto se dá por conta do neoliberalismo ser o primeiro modelo em 200 anos a se basear na premissa de que é necessário suprimir os salários, o poder e a organização da classe trabalhadora. Se revirmos os períodos anteriores estudados pelos teóricos de longo prazo – a segunda metade do século XIX na Europa e o século XX até seu segundo terço no mundo – temos que eles se baseiam no trabalho organizado que forçou as corporações e empreendedores a inovar, no lugar de aumentar seus lucros por meio dos cortes salariais.

A cada inovação encontrávamos uma síntese de automação, salários crescentes e maior consumo. Atualmente não há mais pressão trabalhista e a tecnologia no centro das ondas de inovação não demanda a criação de maiores gastos com consumo ou o remanejamento da força de trabalho em novos empregos. A informação é uma máquina que deprime os preços e reduz o tempo necessário de trabalho para garantir a subsistência.

Como resultado, os homens de negócios se acomodaram. Quando confrontados com a possibilidade de investir em sequenciamento genético, preferem abrir novos cafés, bares e contratar empresas de limpeza: o sistema financeiro, o planejamento estatal e a cultura neoliberal contemporânea valorizam, acima de tudo, atividades de baixo valor agregado e empregos de longa carga horária.

A inovação tem acontecido, mas até agora não desencadeou a quinta ascensão capitalista que a teoria de longo ciclo esperava. As razões para isso estão na natureza da tecnologia da informação.

***

Esse texto é parte do artigo original em inglês, “The end of capitalism has begun”, que o Blog dos Desenvolvimentistas traduzirá por inteiro, publicando em 6 partes.

Tem início o fim do capitalismo (I)

Por Paul Mason | Via The Guardian

Sem alarde, estamos adentrando a era pós-capitalista. No coração das mudanças estão as tecnologias de informação, as novas formas de trabalho e a economia compartilhada. As velhas formas ainda levarão um longo tempo para desaparecer, mas a hora é de abrir espaço a utopia.

Idealização de uma sociedade de economia compartilhada. Ilustração de Phil Wrigglesworth

As bandeiras vermelhas e marchas do Syriza, acrescidas da expectativa de nacionalização dos bancos, reviveu o sonho do século 20: a de destruição intencional do mercado. Durante grande parte desse século esta foi a forma que a esquerda concebeu o primeiro estágio de economia além do capitalismo. A força seria aplicada pela classe trabalhadora, nas urnas ou nas barricadas. O Estado seria a alavanca. A oportunidade seria os frequentes episódios de colapso econômico.

No entanto, o que colapsou nos últimos 25 anos foi o projeto da esquerda. O mercado se sobrepôs; o individualismo suplantou o coletivismo e a solidariedade; a enorme força de trabalho mundial ainda parece o “proletariado”, mas já não pensa ou age como antes.

Se você viveu todo o processo e não gosta do capitalismo, foi traumático. Porém, nesse processo a tecnologia criou uma nova rota, a qual os remanescentes da velha esquerda – e todas as outras forças por ela influenciada – precisa assimilar, ou perecer. O capitalismo não será abolido por técnicas de força. O será criando algo mais dinâmico que o existente, que a princípio não será notado pelo velho sistema, o que desencadeará fissuras que remodelarão a economia em torno de novos valores e comportamentos. Chamo isso de pós-capitalismo.

Assim como na queda do feudalismo há 500 anos, o pós-capitalismo ascenderá por meio de choques externos e será modelado pelo surgimento de um novo tipo de ser humano. O processo já teve início.

O pós-capitalismo é possível por conta de três grandes mudanças que a tecnologia da informação nos proporcionou nos últimos 25 anos. Primeiramente, ocorreu a redução da necessidade de trabalho, o que afrouxou as relações entre trabalho e tempo livre, desconectando então o trabalho dos salários. A próxima onda de automação – que se encontra num impasse por conta da incapacidade da infraestrutura social absorver suas consequências – diminuirá decisivamente a quantidade de trabalho necessária não só para subsistência como para prover uma vida decente a todos.

Segundo, a informação está corroendo a habilidade dos mercados de formar preços corretamente. Isto porque os mercados se baseiam na escassez enquanto a informação é abundante. A defesa do sistema para essa contradição é formar monopólios – as gigantes corporações de tecnologia – numa escala não vista nos últimos 200 anos, sem os quais não conseguem se sustentar. Ao construir modelos e distribuir valores por meio da captura e privatização de toda a informação socialmente produzida, estas empresas constroem um frágil edifício corporativo que contradiz a mais básica necessidade humana, que é o uso livre das ideias.

Terceiro, assistimos o surgimento espontâneo da produção colaborativa: bens, serviços e organizações são fornecidos sem reconhecer as normas de mercado e de hierarquia gerencial. O maior produto informativo do mundo – Wikipédia – é feito voluntariamente e sem custos, o que aboliu o negócio das enciclopédias, tirando da indústria de anúncios rendimentos estimados em 3 bilhões de dólares anuais.

Quase não noticiado nos nichos e círculos do sistema de mercado, setores inteiros da vida econômica se movem num ritmo diferente. Moedas paralelas, bancos de horas, cooperativas e espaços autogeridos se proliferaram, sem serem notados pelos mercados, e muito em resposta a crise de 2008, que abalou seriamente as estruturas então vigentes.

Você somente achará esta nova economia caso procure vigorosamente. Na Grécia, onde uma ONG local mapeou as cooperativas de alimentos, produção alternativa, moedas paralelas e sistemas de troca locais, encontraram mais de 70 projetos de peso e centenas de pequenas iniciativas que vão da carona solidária a jardins de infância gratuitos. Os economistas ortodoxos nem ao menos os reconhecem como atividades econômicas – e este é o ponto. Tais projetos existem porque há trocas, ainda que exitantes e ineficientes, por meio de trocas do pós-capitalismo: tempo livre, atividades em rede e gratuidade. Pode até parecer rudimentar e perigoso pretender construir uma alternativa de substituição ao sistema global, mas isso foi exatamente o que fez o dinheiro e o crédito na época de Edward III.

Compartilhando os frutos do nosso trabalho. Ilustração de Joe Magee

Novas formas de propriedade, novos modelos de empréstimos, novos contratos: toda uma subcultura emergiu nos últimos 10 anos, a qual a grande imprensa chamou de “economia compartilhada”. Neologismos como “produção colaborativa”, “commons” estão por aí, mas poucos se perguntaram que efeitos esse novo modelo infligirá sobre o capitalismo em si.

Acredito que este caminho nos oferece uma rota de escape – mas somente se estes microprojetos forem nutridos, promovidos e protegidos por uma mudança fundamental no comportamento dos governos. Mudança essa que deve ser dirigida por uma nova maneira de pensar a tecnologia, a propriedade e o trabalho. Então, quando criamos os elementos de um novo sistema, poderemos dizer a si e aos outros: “Este não é somente o meu mecanismo de sobrevivência e escape do mundo neoliberal; esta é uma nova forma de viver em pleno processo de formação.

***

Esse texto é parte do artigo original em inglês, “The end of capitalism has begun”, que o Blog dos Desenvolvimentistas traduzirá por inteiro, publicando em 6 partes.

Naomi Klein: O sistema capitalista é responsável pelas mudanças climáticas

Podemos deter o aquecimento global?  Só se alterarmos de modo radical nosso sistema capitalista, sustenta a ensaísta Naomi Klein. Numa entrevista ao semanário alemão Der Spiegel, explica porque chegou o momento de abandonar os pequenos passos em favor de um enfoque radicalmente novo.

Isso é detalhado em seu livro recentemente traduzido ao espanhol, Isso muda tudo, o capitalismo contra o clima.

Por que não conseguimos deter a alteração climática?

Má sorte. Mau momento. Muitas coincidências lamentáveis.

A catástrofe equivocada no momento equivocado?

O pior momento possível. A conexão entre gases estufa e aquecimento global vem sendo uma questão política central para a Humanidade desde 1988. Foi precisamente na época em que caiu o Muro de Berlim, e Francis Fukuyama atestou “o fim da História”, a vitória do capitalismo ocidental. Canadá e os EUA assinaram o primeiro acordo de livre comércio, que serviu de protótipo para o resto do mundo.

Assim, você diz, começou uma nova era de consumo e energia precisamente no momento em que a sustentabilidade e a contenção teriam sido mais adequadas?

Exatamente. E foi precisamente nesse momento em que nos disseram que já não havia nada parecido à responsabilidade social e á ação coletiva, e que deveríamos deixar tudo com o mercado. Privatizamos nossas ferrovias e a rede energética, a OMC e o FMI se comprometeram com um capitalismo desregulado (selvagem?) Infelizmente, isso levou a uma explosão das emissões.

Você é ativista e culpa o capitalismo por tudo ao longo dos anos. Atribui-lhe a culpa também da mudança climática?

Não há razão para ironias. Os números contam qual é a história completa. Durtante os anos 90, as emissões elevaram-se na taxa de 1% anual. Desde el año 2000, foram subindo em média 3.4 %. Exportou-se globalmente o modelo americano e se expandiram rapidamente bens de consumo, que imaginávamos essenciais para satisfazer nossas necessidades. Começamos a nos ver essencialmente como consumidores. Quanto a comprar como forma de vida se exporta a todos os rincões do globo, isso exige energia. Muita energia.

Voltemos à primeira pergunta: porque não pudemos deter essa mudança?

Descartamos sistematicamente as ferramentas. Hoje se zomba de todas as normas e regulamentações de toda a espécie. Os gov ernos já não aplicam normas severas que ponham limites às companhias petrolíferas e demais empresas. Essas crises nos caem em cima no pior momento possível. Não temos mais tempo. Estamos num momento de agora ou nunca. Se não agirmos como espécie, nosso futuro está em perigo. Temos que reduzir as emissões de modo radical.

Voltemos a outra pergunta: Você não usa indevidamente a mudança climática para criticar o capitalismo? [1]

Não. O sistema econômico que criamos criou também a mudança climática. Isso eu não inventei. O sistema é prejudicial, a desigualdade econômica é excessiva e a falta de contenção por parte das companhias energéticas é desastrosa.

Seu filho Tomás tem dois anos e meio. Em que espécie de mundo ele viverá em 2030, quando sair da escola?

É isso o que se está decidindo agora mesmo. Vejo sinais de que podería haver um mundo radicalmente diferente do que temos hoje e de que a mudança poderia ser positiva ou extremamente negativa. Já está claro que, pelo menos em parte, será um mundo pior. Vamos sofrer a mudança climática e muitos mais desastres naturais, isso é certo. Mas temos tempo ainda de impedir um aquecimento verdadeiramente catastrófico. Temos tempo de mudar nosso sistema econômica para que não se torne mais brutal e impiedoso ao enfrentar a mudança climática.

Que se pode fazer para melhorar a situação?

Temos que tomar hoje algumas decisões sobre quais valores são importantes para nós, e como queremos realmente viver. E, certamente, há uma diferença entre a temperatura que sobe apenas 2 graus, ou 4 ou cinco a mais. Ainda nos é possível tomar as decisões corretas.

Passaram-se 26 anos desde que se fundou o IPCC (Intergovernamental sobre mudança Climática) em 1988. Sabemos, pelo menos, desde então, que as mudanças de CO2 causadas pela queima de petróleo e carvão são responsáveis pela mudança climática. Mas pouco se fez para encarar o problema. Já não teremos fracassado?

Eu vejo a situação de modo diferente, dado o enorme preço que teremos que pagar. Enquanto tenhamos a menor oportunidade de êxito ou de minimizar o dano, temos que continuar lutando.

Faz vários anos, a comunidade internacional estabelelceu um objetivo parea limitar o aquecimento global a dois graus centígrados. Ainda o considera alcançável?

Bem, ainda é uma possibilidade física. Teríamos que reduzir imediatamente as emissões globais em 6% ao ano. Os países mais ricos teríam que carregar um peso maior, o que significa que os EUA e Europa teríam que cortar emissões entre 8% e 10% ao ano. Imediatamente. Não é impossível, só que é politicamente irreal com nosso atual sistema.

Diz você que nossas sociedades não são capazes disso?

Sim. Necessitamos uma mudança espetacular, tanto na política como na ideologia, porque há uma diferença fundamental entre o que os cientistas nos dizem que temos que fazer e nossa atual realidade política. Não podemos mudar a realidade física, assim temos que mudar a realidade política.

Pode uma sociedade que se centra no crescimento combater de fato com êxito a mudança climática? [2]

Não. Um modelo econômico baseado num crescimento indiscriminado, leva inevitavelmente a um maior consumo e a maiores emissões de CO2. Pode e deve haver crerscimento no futuro em muitos setores de baixas emissões na economia, em tecnologias verdes, em transporte público, em todas as atividades que propiciam serviços, artes e, sem dúvida, na educação. Agora mesmo, o núcleo de nosso produto interior bruto compreende só o consumo, as importações e exportações. Aí deve haver cortes. Qualquer outra proposta seria enganar-se a si mesmo.

O FMI diz o contrário. Diz que o crescimento econômico e a proteção do clima não se excluem mutuamente.

Não analisam os mesmos números que eu. O primeiro problema é que em todas essas conferências sobre o clima, todo o mundo age como se fôssemos chagar a nossa meta por meio de um compromisso próprio e de obrigações voluntariamente aceitas. Ninguém diz às empresas petrolíferas que devem ceder. O segundo problema é que essas empresas lutarão como feras para proteger o que não querem perder.

Seriamente, quer eliminar o livre mercado para salvar o clima?

Não falo de eliminar mercados, mas nos faz falta muito mais estratégia, direção e planejamento, e um equilíbrio muito diferente. O sistema em que vivemos está abertamente obcecado pelo crescimento, considera bom todo o crescimento. Mas há fomas de crescimento que não são boas. Tenho clareza de que minha posição entra em conflito direto com o neoliberalismo. É verdade que, na Alemanha, ainda que vocês tenham acelerado a mudança para a energia renovável, o consumo de carvão está, na verdade , aumentando?

Isso era certo entre 2009 e 2013.

Para mim, isso é a expressão da renúncia a tomar decisões sobre o que é preciso fazer. Alemanha tampouco vai cumprir seu objetivo de reduzir emissões nos próximos anos.

A presidência de Obama foi o que de pior poderia ter acontecido ao clima?

De certo modo. Não que Obama seja pior que um republicano, o que não é, e sim, porque nesses oito anos foram a maior oportunidade desperdiçada de nossas vidas. Havia os fatores certos para uma convergência realmente histórica: consciência, pressa, ânimo, sua maioria política, o fracasso dos Três Grndes Fabricantes de automóveis norteamericanos e até a possibilidade de encarar de vez a mudança climática e o falido mundo financeiro desregulado. Mas quando assumiu o cargo, não teve coragem de agir. Não venceremos essa batalha a menos que estejamos dispostos a dizer porque Obama considerou que o fato de ter controle sobre bancos e companhias de automóveis era mais uma corvéia que uma oportunidade. Estava prisioneiro do sistema. Não quis mudá-lo.

Os EUA e China chegaram finalmente a um acordo inicial sobre o clima em 2014.

O que, certamente, é algo bom. Mas tudo o que pode ser penoso no acordo não entrará em vigor até que Obama termine seu mandato. O que mudou foi que Obama disse: “Nossos cidadãos estão manifestando, não podemos ignorá-los”. Os movimentos de massa são importantes, têm repercussões. Mas, para empurrar nossos líderes até onde têm que chegar, os movimentos devem fazer-se mais fortes.

Qual deveria ser sua meta?

Nos últimos 20 anos, a extrema direita, a absoluta liberdade das empresas petrolíferas e a liberdade do 1% dos super-ricos da sociedade se converteram em norma política. Temos que deslocar de novo o centro político norte-americano da franja direitista a seu lugar natural, o verdadeiro centro.

Senhora, isso não tem sentido, porque é uma ilusão. Pensa você em avançar demais. Se você quer eliminar o capitalismo antes de elaborar um plano para salvar o clima, sabe você que isso não vai acontecer.

Olhe, se você quer deprimir-se, tem muitas razões pra isso. Mas continuará equivocado, porque o fato é que centrar-se em mudanças graduais supostamente viáveis, como o comércio de emissões e a troca de lâmpadas, fracassou miseravelmente. Em parte isso se deve ao fato de na maioria dos países o movimento ambiental permaneceu elitista, tecnocrático e supostamente neutro politicamente durante duas décadas e meia. Já vemos hoje quais são os resultados a que nos levaram o caminho equivocado. As emissões estão aumentando e aqui temos a mudança climática. Em segundo lugar, nos EUA, todas as transformações importantes legais e sociais dos últimos 150 anos foram resultado de movimentos sociais massivos, seja em favor das mulheres, contra a escravidão, ou em prol dos direitos civis. Necessitamos de novo esta fortaleza, e rapidamente, porque a causa da mudança climática é o sistema político e econômico vigentes. Seu enfoque é muito tecnocrático e estreito.

Se tenta você solucionar um problema específico revirando toda a ordem social, não vai resolvê-lo. É uma fantasia utópica.

Se a ordem social é a raiz do problema, é diferente. Olhando de outra perspectiva, nadamos literalmente em exemplos de pequenas soluções: há tecnologias verdes, leis locais, tratados bilaterais e impostos ao CO2. Por que não temos tudo isso em escala global?

Diz você que todos esses pequenos passos – tecnologia verde e impostos ao Co2 e um comportamento ecológico individual – não têm sentido?

Não. Todos deveríamos fazer o que pudéssemos, de certo. Mas não podemos nos engtanar com que isso seja suficiente. O que digo é que esses pequenos passos são muito pequenos, se não se convertem num movimento de massas. Necessitgamos uma transformação econômica e política, que se gaseia em comunidades mais fortes, empregos sustentáveis, maior regulamentação e um afastamento dessa obsessão de crescimento. Essas são as boas notícias. Temos, realmente, a oportunidade de resolver muitos problemas imediatamente.

Não parece contar com a razão coletiva de políticos e empresários.

Porque o sistema não pode pensar. O sistema recompensa a ganância a curto prazo, o que significa dizer, lucros rápidos. Observe Michael Bloomberg, por exemplo…

 …empresario e antigo prefeito de Nova Iorque…

…que entende la gravidade da crise do clima como político. Como empresário, prefere investir num que se especializa em ativos de petróleo e gás. Se uma pessoa como Bloomberg não pode resistir à tentação, se pode concluir, por esse caso, que não é grande a capacidade de auto-conservação do sistema.

Um capítulo especialmente de seu livro é o de Richard Branson, presidente do Grupo Virgin.

Sim, estava esperando.

Branson apresentou-se como um homem que quer salvar o clima. Tudo começou com um encontro com Al Gore.

E em 2006 se comprometeu num ato que acolhia a a Clinton Global Initiative onde investiria 3 bilhões de dólares para pesquisar tecnologias verdes. Naquela época, eu pensava que seria um aporte realmente fantástico. O que não me ocorreu pensar foi “que sujeito tão cínico você é”.

Branson só estava simulando e só investiu uma parte desse dinheiro.

Talvez fosse sincero na ocasião, se investiu uma parte desse dinheiro.

Desde 2006, Branson acrescentou 160 novos aviões em suas numerosas linhas aéreas, e incrementou suas emissões em 40%.

Sim.

Qual a lição dessa história?

Que temos que pôr sob suspeita o simbolismo e os gestos que fazem as estrelas de Hollywood e os super-ricos. Não podemos confundi-los com um plano cientificamente sério para reduzir emissões.

Na América do Norte e Austrália, se gasta muito dinheiro tentando negar a mudança climática. Por que?

É diferente da Europa. Se trata de uma indignação semelhante à de quem se opõe ao aborto e ao controle das armas. Não se trata de que se esteja protegendo um modo que não querem mudar. É que entenderam que a mudança climática põe em cheque o núcleo de seu sistema de crenças contrário ao governo e em prol do livre mercado. De modo que tem que negá-lo para proteger sua própria identidade. Por isso existe essa diferença de intensidade: os iberais querem agir um pouquinho na proteção do clima. Mas ao mesmo tempo, esses liberais têm uma série deoutras questões que figuram de modo mais destacado em sua agenda. Mas temos que entender que os mais duros que negam a mudança climática entre os conservadores, farão tudo o que for possível para impedir que se aja.

Com estudos pseudocientíficos e desinformação?

Com tudo isso, certamente.

Isso explica porque relaciona toas essas questões – meio ambiente, igualdade, saúde pública e trabalho – que são populares entre a esquerda? Por razões puramente estratégicas?

Essas questões têm relação e nos falta mesmo conecta-las no debate. Só há um modo de vencer uma batalha contra um pequeno grupo de pessoas que te enfrentam porque têm muito a perder: há que se iniciar um movimento massivo que abarque a toda aquela gente que tem muito o que ganhar. Só se pode derrotar a quem te nega tudo, se te mostras igualment apaixonado mas também quando es superior em número. Porque na verdade, os que mandam são muito poucos.

Por que não acredita que a tecnologia possa salvar-nos?

Há um grande progresso na armazenagem de energias renováveis, por exemplo, e na eficiência solar. Mas… e na mudança climática? Eu não tenho fé suficiente para dizer: “Como acabaremos inventando alguma coisa na hora, deixemos de lado todos os outros esforços. Isso seria uma insnsatez.

Gente como Bill Gates vê as coisas de modo diferente.

E eu acho ingênuo seu fetichismo tecnológico. Em anos recentes testemunhamos certos fracassos espetaculares, em que alguns tipos mais espertos meteram a mão até o fundo numa escala grandiosa, sem falar dos derivados que desencadearam a crise ou a catástrofe petrolífera da costa de Nova Orleans. Na maioria das vezes, nós destruímos as cosias e não sabemos como consertá-las. Agora mesmo, o que estamos destruíndo é nosso planeta.

Ouvindo-a, se poderia ter a impressão de que a crise do clima é uma questão de gênero.

Por que você diz isso?

Bill Gates diz que temos que avançar e idear novas invenções para controlar o problema, e em última instãncia, esta Terra nossa tão complicada. Por outro lado, diz você: paremos, temos que adaptar-nos ao planeta e nos tornarmos mais leves. As companhias petrolíferas norte-americanas estão dirigidas por homens. E você, uma mulher crítica, a descrevem como uma histérica. Não lhe parece absurdo?

Não. A industrialização em seu conjunto estava ligada com o poder, para ver se seria o homem ou a natureza que dominaria a Terra. A alguns homens parece difícil reconhecer que não temos tudo sob controle, que acumulamos todo esse CO2 ao longo dos séculos, e hoje a T nos diz: olhe, não passas de um convidado em minha casa.

Convidado da Mãe Terra?

Isso não soa lá muito bem. De certo modo, você tem razão. A indústria petrolífera é um mundo dominado pelos homens, muito semelhante ao da altas finanças. É algo do domínio dos machos. A idéia norte-americana eaustsraliana de “descobrir um país infinito do qual se possam extrair inesgotáveis recursos, tem uma história de dominação, que representa tradicionalmente a natureza como uma mulher fraca e torpe1. E a idéia de estar em relação de interdependência com o resto do mundo natural se consider uma debilidade. Por isso é duplamente difícil aos machos-Alfa reconhecer que se equivocaram.

Há em seu livro uma questão de que parece querer desviar-se. Ainda que você critique às empresas, não diz você a seus leitores, que são clientes dessas empresas, que também são culpados. Tampouco diz você alguma coisa do preço que terá de pagar cada um de seus leitores pela proteção do clima.

Oh, eu creio que a maioria das pessoas ficaria encantada de pagar por isso. Sabem que proteção do clima exige um comportament razoável: dirigir menos, voar menos e consumir menos. Ficariam encantados de usar energias renováveis se lhes fossem oferecidas.

Porém a idéia não é o bastante grande, não é?

(riso) Exatamente. O movimento verde levou décadas instruindo as pessoas para que usassem seu lixo como abono, para que reciclasse e andasse de bicicleta. Mas observe o que sucedeu com o clima durante essas décadas.

E sua maneira de viver é benéfica ao clima?

Não o bastante. Ando de bicileta, uso transporte público, converso por Skype, divido um carro híbrido e reduzi meus voos a um décimo do que eream antes de começar esse projeto. Meu pecado está em usar táxis e, desde que saiu o livro, em voar muito. Mas não creio que seja possível ser perfeitamente verde e viver sem emitir CO2, o único fator concernente a essa questão. Se assim fosse, então ninguém poderia dizer uma única palavra [4].

***

Naomi Klein é autora, entre outros livros, de A doutrina do Choque e No Logo.

Tradução: Tania Jamardo Faillace

Notas da tradutora:

[1] Essa intervenção do entrevistador é muito tola. Nossos produtos e nossos dejetos e efluentes são consequência de nosso modelo de vida em sociedade, e esta depende do modelo econômico, social e político que adotamos, sendo o modelo econômico o primeiro condicionante, porque determina os demais.

[2] Essa intervenção do entrevistador é muito tola. Nossos produtos e nossos dejetos e efluentes são consequência de nosso modelo de vida em sociedade, e esta depende do modelo econômico, social e político que adotamos, sendo o modelo econômico o primeiro condicionante, porque determina os demais.

[3] E voltamos a Freud, e a encarar o grande nó existencial e psicológico do indivíduo humano e suas relações parentais: o complexo de Édipo. A desqualificação da mulher, simbolicamente, continua a ser a sujeição da mãe à vontade do filho. A tragédia está equivocada: Édipo não matou o pai, deve, isso sim, ter morto a mãe, mesmo simbolicamente, como ainda hoje faz todos os dias.

[4] Para quem não sacou o gracejo: Naomi se refere, que, ao falar emitimos C02 pela boca. Ao respirar, também.

O fascismo transnacional e o demônio russo

Por Andrés Piqueras* | Via Público.es

Na atual dramática conjuntura mundial, enfrentamos dois processos de enorme gravidade. Por um lado, a Segunda Grande Crise do capitalismo, que se arrasta em altos e baixos desde os anos 70, sem sinalizar uma reativação do capital produtivo – razão que levou o sistema a empreender essa louca deriva financeira. Por outro, assistimos o colapso da hegemonia econômica dos Estados Unidos e o consequente declínio do dólar como moeda de câmbio internacional.

Diante disso, a hegemonia mundial enfrenta e dá ao mundo duas possibilidades: 1) ou uma coordenação com as potências asiáticas no sentido de encontrar uma moeda internacional na qual participem diferentes moedas nacionais, baseada no ouro ou numa fonte de energia como o petróleo, ou 2) declarar guerra a grande parte do mundo para manter a liderança norte-americana com base no poderio militar.

A primeira opção é bastante remota, pois supõe não só a ilusão de conduzir as relações internacionais com base na cooperação, mas também uma desvinculação financeira da geração de capital fictício, que se torna cada vez mais difícil por conta da dinâmica financeira do modelo de capitalismo que vivemos. Desta forma, o colapso econômico se aproxima dos poderes transnacionais e da potência mundial que os sustenta, assim como dos Estados subordinados a ela, caso da União Europeia. As autoridades passam a encarar a opção militar cada vez mais como “necessária”.

Vejamos. Em todo lugar que esses poderes interviram, trouxeram a destruição e deixaram o caos. O Grande Plano para a Ásia Central e Ocidental, como também para grande parte da África, consiste em subjugar os Estados não dóceis, de maneira a não deixar resquícios de institucionalidade central que possa controlar o território, a população e os recursos. Terras inteiras são arrasadas nas mãos dos “senhores da guerra”, restando como principal poder local a Al Qaeda ou alguma de suas ramificações. Territórios barbarizados e sem poder estatal (Iraque, Afeganistão, Líbia, Somália, Congo, República Dominicana…). Em quase todos estes o “islamismo radical” se torna mais forte, dada a destruição das sociedades civis. Esta é a manifestação mais palpável do fascismo transnacional, que foi possibilitado e incentivado pelas potências “ocidentais” ou alguns de seus “aliados” diretos, como Israel ou os países do Golfo, especialmente a Arábia Saudita (sobre isto, leiam o magnífico livro de Gilles Kepel, LaYihad: expansión y declive del islamismo), certamente a Arábia Saudita continua financiando o Estado Islâmico (a respeito disso, acompanhem os artigos de Nazanín Armanian), enquanto que seus amigos “ocidentais” dizem agora que estão combatendo-os.

Os EUA então, descobrem “de repente” a maldade do Estado Islâmico (exibindo todo tipo de imagens e notícias) e a necessidade de reordenar estrategicamente a geopolítica local. O apoio aos iraquianos de etnia curda busca compartimentar o Iraque em pequenos Estados dependentes (semelhante ao que fizeram na Iugoslávia), enquanto os bombardeios norte-americanos seletivos acontecem justamente nas zonas dos oleodutos e fontes petroleiras, para que nenhum grupo armado lhes tome a exclusividade da usurpação. Também pretendem legitimar uma séria de bombardeios à Síria, atacando finalmente o exército sírio diretamente, dado que seus exércitos privados e os milhares de mercenários treinados e financiados por não bastam para a missão. Estes fascistas transnacionais absorveram há muito a verdadeira oposição síria, e levam a cabo o mesmo que sempre fez o fascismo: ser o elemento de choque do capital contra as forças populares, o cavalo de batalha da destruição social.

Por isso que a Síria é hoje um dos lugares chave onde se decide o destino da luta contra a destruição fascista, que também deseja desmantelar o Estado sírio (e com isso, destruir também os oleodutos que vem desde a Ásia Central até o Mediterrâneo, controlados pela Rússia). Caída a Síria, Israel se veria praticamente como o único Estado local (além das barbaras monarquias do Golfo, aliadas). É o projeto do Grande Israel dono da Ásia Ocidental.

Outro lugar vital onde se batalha contra o fascismo transnacional é a Ucrânia. Ainda que nossos doutrinadores da grande mídia insistam em pintar a imagem de russos malvados, a verdade é que na Ucrânia empreendeu-se um golpe de Estado contra um presidente eleito democraticamente,  golpe este financiado pelos EUA, com o apoio das organizações nazis locais. Eis que os EUA traiu novamente a Europa, a despeito dos mais de 60 milhões de mortos, preço pago para acabar com o nazismo. Essa é a cortesia dos “país da Liberdade”.

Com a intervenção na Ucrânia, Washington trata de separar a Europa da Rússia, assim como se põe militarmente as portas de Moscou. Este quadro, por sua vez, torna a Europa isolada do mundo asiático e ancorada aos países anglo-saxões decadentes. Uma integração ou coordenação com a Rússia, como sabe muito bem a classe capitalista alemã, poderia proporcionar a Europa a energia que tanto necessita, e também uma via aos mercados asiáticos, assim como segurança militar (os europeus não necessitariam destes enormes gastos militares propostos pelos EUA.).

Isto sem mencionar a própria Ucrânia, onde o Tratado de Livre Comércio com a Europa, o qual Yanukóvich se negou a assinar por um mínimo de dignidade, terminará de liquidar uma economia em coma: plantações de primavera devastadas, cultivos de vegetais arruinados, quase total falta de crédito, graves problemas com o gás, inflação dos combustíveis. Nada tem ajudado economicamente a Junta de Kiev, apesar das promessas do FMI e da UE. A condição imposta é a de que “tenha o controle de todo o território”. É muito provável que vejamos autênticos levantes populares por lá, consequências deste panorama.

Rússia, em seu turno, aguenta como pode. E ainda que seja por interesses particulares, também combate o fascismo transnacional na Europa (fascismo ocidental – cristão) e na Ásia (fascismo oriental – islâmico). Moscou se encontra tendo de frear suas vitórias na Ucrânia e na Síria, para colaborar com o que resta do Estado do Iraque no combate ao fascismo islâmico (oportuno lembrar neste ponto do Afeganistão, antes, quando aliado a URSS, e o atual, depois da intervenção do “Ocidente”).

Não estamos falando aqui de uma relação dos “bons contra os maus”, mas sim de questões geoestratégicas integradas. Enquanto a economia norte-americana vem perdendo dominância e necessitando de recursos alheios, Rússia e China juntas detém a maior parte dos recursos do mundo e suas economias possuem melhores perspectivas de futuro. É por essa razão que alguns estão interessados na guerra e outros não. E o quadro é justamente o oposto do retratado pelos meios de comunicação de massas.

Rússia e China não param de estabelecer entre si diferentes acordos e convênios, assim como expandem suas redes nos grandes mercados asiáticos, construindo assim o principal núcleo econômico do mundo. A Organização de Cooperação de Shangai é só um exemplo desta integração.

Na Europa, é cada vez mais certo que se não mudarmos radicalmente os rumos políticos e econômicos, rapidamente sofreremos outro cataclismo financeiro, e desta vez os Estados já consumiram todas os “extintores” de dinheiro que tinham para apagar o fogo (transferindo nosso dinheiro ao mundo financeiro-bancário e, por consequência, ao Grande Capital).

Os grandes falcões dos EUA estão dispostos a levar uma guerra devastadora a Europa. Possuem sua lógica e motivos. Porém, quanto aos líderes europeus, porque precisam seguir nesse aterrorizante jogo suicida?

Frente ao fascismo transnacional que recruta as populações, onde está o internacionalismo dos povos?

*Professor de Sociologia da Universidad Jaume I de Castellón.

Tradução: Rennan Martins

Eleições no Brasil: Marina Silva e a CIA-EUA é ‘caso’ antigo

Por Nil Nikandrov | Via Strategic Culture e O Empastelador

Marina Silva é atual candidata do Partido Socialista à presidência do Brasil. Em meados dos anos 1980s, ela já atraíra a atenção da CIA, quando frequentava a Universidade do Acre. Naquele momento, estudava marxismo e tornara-se membro do Partido Comunista Revolucionário, clandestino. Durou pouco aquele ‘compromisso’: ela rapidamente se transferiu para a ‘proteção do meio ambiente’ na Região Amazônica. Os serviços especiais dos EUA sempre tiveram interesse muito especial naquela parte do continente, na esperança de construírem meios para controlar a área no caso de emergência geopolítica. A CIA fez contato com Marina Silva. Não por acaso, em 1985 ela alistou-se no Partido dos Trabalhadores (PT), o que lhe abriu novas possibilidades de crescimento político.

Em 1994, Marina Silva foi eleita para o senado brasileiro, com fama de ativista apaixonada a favor da proteção ao meio ambiente. Foi quando começaram a circular informações sobre laços entre Marina Silva e a CIA. Em 1996, ela recebeu o Goldman Environmental Prize.[1] E recebeu inúmeras outras importantes condecorações: é praxe, quando se trata de ‘candidatos’ que a CIA tem interesse em promover, que o ‘candidato’ seja coberto de medalhas e condecorações.

Marina Silva serviu como ministra do gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até que, interessada em ‘voos mais altos’, e preterida, ela abandonou o Partido dos Trabalhadores e mudou-se para o Partido Verde, de início dedicada a protestar contra políticas ambientais apoiadas pelo PT. Foi realmente um choque, na política brasileira, que a ex-ministra tenha mudado tão completamente de lado, depois de quase 30 anos de atividade a favor do Partido dos Trabalhadores.

Nas eleições de 2010, a candidata da CIA obteve quase 20 milhões de votos, como candidata do Partido Verde; na sequência, para as eleições de 2014, aceitou lugar na chapa de Campos, como vice-presidenta, quando fracassaram seus esforços para criar seu ‘não partido’, mas ‘rede’, chamada “Sustentabilidade”. Dilma Rousseff, candidata do PT contra a qual se alinhavam já em 2010 todas as demais candidaturas, trazia planos para dar continuação às políticas independentes do presidente Lula. Nada disso interessava a Washington em 2010, como tampouco interessa hoje, em 2014.

Daquele momento até hoje, as relações entre Brasil e EUA só fizeram piorar, resultado do escândalo da espionagem & escutas clandestinas. A Agência de Segurança Nacional dos EUA espionou a presidenta Dilma Rousseff e membros de seu gabinete. A presidente brasileira chegou a cancelar visita oficial que faria aos EUA, como sinal de protes. Os EUA jamais apresentaram pedido de desculpas ou comprometeram-se a pôr fim às atividades de espionagem. A presidenta Dilma, então, agiu: denunciou as atividades da Agência de Segurança Nacional e da CIA dos EUA na América Latina e tomou medidas para aumentar a segurança nas comunicações e controle sobre representantes dos EUA ativos no Brasil. Obama não gostou.

As eleições presidenciais no Brasil estão marcadas para 5 de outubro. E Washington está decidida a fazer de Dilma Rousseff presidenta de mandato único. Não há dúvida alguma de que os serviços especiais já iniciaram campanha para livrar-se da atual governante brasileira. Começaram a agir com movimentos de protesto ditos ‘espontâneos’, que encheram algumas ruas e foram amplamente ‘repercutidos’ na imprensa, nos quais os ‘manifestantes’ pedem mudanças (aparentemente, qualquer uma, desde que implique ‘mudança de regime’) e o fim das “velhas políticas” [de fato, nenhuma política é ou algum dia será ‘mais velha’ que o golpismo orquestrado pela CIA no Brasil e em toda a América Latina (NTs)]. Ouviram-se grupos de jovens em protestos contra a propaganda e os símbolos dos partidos políticos, especialmente do PT.

Não se sabe até hoje de onde surgiram os recursos com os quais Marina Silva começou a organizar sua ‘rede’ Sustentabilidade. A nova ‘organização’ visava a substituir os partidos tradicionais, que a candidata declarou ‘velhos’. Tendo obtido 19 milhões de votos, o que lhe valeu o 3º lugar nas eleições passadas, ela contudo não conseguiu cumprir todas as exigências legais para criar oficialmente sua nova ‘rede’. Até que a tragédia que matou Eduardo Campos e seis outras pessoas, perto de São Paulo, mês passado, deu a Marina Silva uma surpreendente segunda chance para tentar chegar à presidência do Brasil. Para conseguir ser a primeira mulher mestiça a chegar à presidência do Brasil, terá de derrotar a primeira mulher que chegou lá antes dela, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, PT; além o candidato Aécio Neves do PSDB, partido pró-business, que hoje amarga um 3º lugar nas pesquisas. A Casa Branca tem-se sentido frustrada.

Dia 13 de agosto, a campanha eleitoral presidencial no Brasil foi lançada em área de incerteza, quando um jato que conduzia o candidato do partido socialista, Eduardo Campos, tombou sobre bairro residencial próximo de São Paulo. Morreram o candidato e seis outras pessoas, passageiros e da tripulação, no acidente que pode ter acontecido por causa do mau tempo, quando o Cessna preparava-se para pousar. As mortes geraram uma onda de comoção nacional, que provavelmente evoluirá para especulações sobre o efeito que terão nas eleições do próximo 5 de outubro. A presidenta Rousseff declarou três dias de luto oficial por Campos, ex-ministro do governo do presidente Lula. A aeronave passara por manutenção técnica regular e nenhum problema foi detectado. De estranho, só, que o gravador de vozes da cabine do avião não estava operando, o que gerou suspeitas. O gravador operara normalmente e gravara várias conversações na cabine, mas nada gravou no dia da tragédia. O avião já passara por vários proprietários (empresários norte-americanos e brasileiros, representantes de empresas de reputação duvidosa), antes de chegar à campanha dos candidatos Eduardo Campos e Marina Silva.

Para alguns comentaristas brasileiros, há forte probabilidade de que tenha havido um atentado, que resultou no assassinato de Eduardo Campos. Antes da tragédia, o avião foi usado pela agência antidrogas dos EUA, Drug Enforcement Administration (DEA). Enviados de antigos proprietários do avião tiveram acesso ao local do acidente, sob os mais diferentes pretextos. Difícil não conjecturar se teria havido agentes dos EUA por trás da tragédia. Mas ainda não se sabe exatamente sequer o que aconteceu. Saber quem fez, se algo foi feito, demorará ainda mais.

O avião decolou do Rio de Janeiro, onde opera uma estação da CIA, em território do consulado dos EUA. Não há dúvidas de que aquele escritório é usado pela Agência. Talvez os serviços especiais do Brasil devessem dar atenção especial a personagens que rapidamente deixaram o país, imediatamente depois da tragédia em Santos. A morte de Eduardo Campos teve efeito instantâneo sobre a candidatura do Partido Socialista: Eduardo Campos jamais passara dos 9-10% de preferência nas pesquisas, mas Marina Silva rapidamente surgiu com 34-35%, na votação em primeiro turno. Agora, se prevê que a eleição seja levada para o segundo turno.

O principal problema de Marina Silva é que é sempre difícil entender quais seriam suas reais intenções e projetos. É uma espécie de ‘imprecisão’ que se observa constantemente no discurso de candidatos promovidos pelos EUA. Marina Silva mudou de lado, sempre muito dramaticamente, inúmeras vezes. Ao unir-se a Eduardo Campos, por exemplo, a candidata várias vezes se manifestou a favor de manter bem longe do Brasil as ideias de Chavez (Hugo Chavez – falecido presidente da Venezuela, conhecido pelas convicções socialistas e políticas de esquerda). Mas ela serviu ao governo do presidente Lula, conhecido e muito respeitado defensor do chavismo. (…)

De fato, ao tempo em que a campanha avança e as eleições aproximam-se, Marina Silva vai-se tornando cada vez mais neoliberal. Já disse que não vê sentido em fazer dos BRICS um centro de poder multipolar, nem em apressar a implementação de medidas já decididas dentro do bloco, como criar um banco de desenvolvimento, um fundo de reserva, etc. Já manifestou ‘dúvidas’ sobre o Conselho Sul-americano de Defesa, e diz, em discussões com assessores íntimos, que quer dar menos atenção ao Mercosul e à Unasul (União das Nações Sul-americanas, união intergovernamental em que se integram duas uniões aduaneiras, o Mercosul e a Comunidade de Nações Andinas, como parte do processo de integração sul-americana). Para Marina Silva, mais importante é desenvolver relações bilaterais com os EUA.

Fato é que os brasileiros estão já habituados a quase 20 anos de progresso social no país, com os governos do presidente Lula e da presidenta Rousseff. A população é ouvida, as reformas acontecem, o que foi prometido está sendo construído, o Brasil vive tempos de estabilidade e de avanços.

Se Marina Silva chegar à presidência (George Soros, magnata norte-americano, investidor e filantropo, tem alimentado a campanha dela com quantidade significativa de fundos), deve-se contar com o fim de vários programas sociais e políticos, o que pode vir a gerar grave descontentamento popular. Há quem diga que os escritórios dos EUA no Brasil estão repletos de agentes dos serviços especiais, encarregados de ‘gerar’ ‘protestos’ naquele país.

[1] Sobre o prêmio, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Goldman_Environmental_Prize . Além de Marina Silva, outro brasileiro recebeu esse prêmio, um “Carlos Alberto Ricardo”, fundador da ONG “Instituto Socioambiental”, em 1992, como se lê em http://en.wikipedia.org/wiki/Carlos_Alberto_Ricardo [NTs].

* Nil Nikandrov é jornalista, russo, trabalha em Moscou e cobre questões de política latino-americana; é conhecido crítico da devastação que governos neoliberais promoveram em economias nacionais por todo o planeta. É autor da primeira biografia de Hugo Chávez em russo (NTs, com informações de http://www.4thmedia.org/category/nil-nikandrov/).

Tradução: Vila Vudu

Rússia: A “histeria militar da OTAN” mina qualquer esperança de paz na Ucrânia

Por Jon Queally | Via Commom Dreams e Rede Castor Photo

Sergei Ordzhonikidze, Vice-Secretário Geral da Câmara Pública da Rússia

Em resposta a ameaças da OTAN, de que expandirá suas capacidades militares na direção leste, a Rússia reagiu ontem, 3ª-feira (2/9/2014), dizendo que tais movimentos só provocarão uma recalibração das forças militares da Federação Russa.

A reação, que mobilizou o alto comando militar russo, veio pouco antes de reunião de cúpula da OTAN, marcada para essa semana e depois de fala do Secretário-Geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, de que uma força “avançada” de 4 mil soldados e de “resposta rápida” seria posicionada no leste da Europa.

O Vice-Secretário Geral da Câmara Pública, Sergei Ordzhonikidze, disse à agência estatal de notícias que os planos de Rasmussen não passam de “histeria militar” e implicam trair promessas históricas. Disse que, diante disso, só restava à Rússia a alternativa de tomar medidas recíprocas, também pelo seu lado.

Quando tropas da OTAN se aproximarem de nossas fronteiras, é claro que teremos um plano implantado, disse Ordzhonikidze. Há ameaça real, se temos tropas estacionadas junto às nossas fronteiras. Lembro do compromisso da OTAN, de que não expandiria o território do bloco na direção leste… Agora, só nós resta impedir, seja como for, essa expansão da OTAN.

Secretário-Geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen

Rasmussen começou a falar da “expansão” da OTAN para o leste exatamente na semana passada, em entrevista convocada com jornais europeus. Aquelas “novidades” viraram manchete exatamente quando o Presidente Vladimir Putin da Rússia e Petro Poroshenko da Ucrânia, estavam reunidos em Minsk, Bielorrússia, para a primeira reunião presidencial para começar a discutir uma saída para a terrível crise na Ucrânia. A “oportunidade midiática” escolhida a dedo por Rasmussen e o “ocidente” não passou despercebida pelo Ministro Sergei Lavrov, das Relações Exteriores da Federação Russa.

Fato muito interessante – disse Lavrov na 3ª-feira (2/9/2014), em entrevista ao vivo transmitida pela TV – é que essa iniciativa da OTAN apareça imediatamente depois da reunião em Minsk, quando começou o processo do Grupo de Contato que tenta chegar a um acordo aceitável para todos, na atual crise da Ucrânia.

Lavrov classificou as declarações de EUA e a fala de Rasmussen sobre expansão da OTAN como esforço consciente para minar até esses primeiros frágeis esforços em direção à paz entre rebeldes ucranianos no leste e o governo em Kiev.

É muito lamentável que esse ânimo para reforçar as posições do “partido da guerra” seja tão empenhadamente estimulado por Washington e outras capitais europeias, e cada vez mais frequentemente também por Bruxelas e pelos quartéis generais da OTAN, de onde sai o Secretário-Geral, com notícias que absolutamente ele não é autoridade competente para distribuir – disse Lavrov.

Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Federação Russa

Em comentários separados, o Vice-Secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Mikhail Popov, disse a RIA Novosti que, em resposta ao ímpeto expansionista da OTAN, já há planos em preparação para modificar a doutrina militar da Rússia.

Esses planos − disse ele − foram desencadeados por fatores geopolíticos, inclusive essa movimentação da OTAN próxima das fronteiras russas e a situação na Ucrânia.

(…)

Tradução: Vila Vudu