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A estratégia dos Estados Unidos para a América Latina

Via Carta Maior

Documentos do Wikileaks revelam um plano detalhado para derrubar os governos eleitos dos países latino-americanos e até mesmo o assassinato de Evo Morales.

No recém terminado verão europeu, o mundo viu como a Grécia tentou se opor às chantagens das instituições internacionais que obrigaram o país a aceitar um pacote de novas medidas de austeridade. O endividado Estado grego não pode se negar a cumprir as ordens da Troica conformada pelos credores. Depois do referendo convocado pelo governo de Alexis Tsipras, o Banco Central Europeu privou a economia grega de liquidez, o que intensificou a recessão e transformou o resultado do voto popular numa farsa.

Uma batalha similar pela independência das nações vem sendo travada na América do Sul, durante os últimos 15 anos. Apesar das tentativas de Washington de destruir a “dissidência estatal” em vários países utilizando as mesmas técnicas empregadas contra Atenas, a fortaleza da América Latina vem suportando a pressão. Essa batalha épica vem promovida longe dos olhos dos cidadãos e foi confirmada por documentos do arquivo do Departamento de Estado norte-americano, filtrados pelo WikiLeaks. Alexander Main e Dan Beeton ofereceram uma interessante reconstrução desses acontecimentos em seu livro “WikiLeaks: o mundo segundo o Império Estadunidense”.

Os autores argumentam que o neoliberalismo se impôs na América Latina antes de Berlim e Bruxelas humilharem a democracia na Grécia. Através da coação exercida pelos Chicago Boys – jovens economistas latino-americanos que regressam aos seus países depois de estudar nos Estados Unidos –, Washington conseguiu difundir a austeridade fiscal na América do Sul, entre outros princípios ideológicos: a desregulação, o livre comércio, o sucateamento do setor público e posterior privatização, em processos realizados entre os Anos 80 e 90. O resultado foi similar ao que se viu na Grécia: o estancamento do crescimento, o aumento da pobreza, a deterioração das condições de vida de milhões de pessoas e uma série de novas oportunidades para os investidores internacionais e corporações multinacionais. Porém, como consequência disso, alguns candidatos contrários ao regime neocolonial começaram a ganhar as eleições e a oferecer resistência à política exterior dos Estados Unidos, colocando em prática suas promessas eleitorais de redistribuição social e redução da pobreza.

Entre 1999 e 2008, esses candidatos ganharam eleições na Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Honduras, Equador, Nicarágua e Paraguai. Grande parte dos esforços do governo norte-americano para subverter a ordem democrática desses países e voltar a impor o regime neoliberal são agora de domínio público, graças às filtragens do WikiLeaks, que revelaram a verdade sobre o presidente George W. Bush e o começo do mandato de Obama. Washington deu apoio estratégico e material aos grupos de oposição, alguns deles claramente antidemocráticos e violentos. Os telegramas também revelaram a natureza dos emissários ideológicos estadunidenses da Guerra Fria, que atualmente elaboram estratégias neocoloniais na América do Sul. Os autores do livro afirmam também que os meios de comunicação corporativos são parte da estratégia expansionista.

O caso emblemático de Evo Morales na Bolívia 

No final de 2005, Evo Morales ganhou as eleições presidenciais com a promessa de reformar a Constituição, garantir os direitos dos indígenas e lutar contra a pobreza e o neoliberalismo. No dia 3 de janeiro de 2006, dois dias depois do seu juramento como presidente, ele recebeu o embaixador estadunidense, David N. Greenlee, que explicou a visão que a Casa Branca tinha para o futuro da Bolívia. A assistência multilateral à Bolívia, segundo o embaixador, dependia do “bom comportamento” do governo de Morales. “Ele lembrou da importância crucial das contribuições dos Estados Unidos para instituições financeiras internacionais como o Banco de Desenvolvimento Internacional (BID), o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI)”, dos quais a Bolívia dependia. “Quando pensar no BID, você deve lembrar dos Estados Unidos”, disse o embaixador. “Isto não é uma chantagem, é a simples realidade”, comentou.

Contudo, Morales manteve suas promessas eleitorais em matéria de regulação dos mercados de trabalho, nacionalização do gás e do petróleo e a cooperação com Hugo Chávez. Em resposta a essas ações de Morales, Greenlee sugeriu um “menu de opções” para tentar obrigar a Bolívia a se curvar diante da vontade do governo dos Estados Unidos. Algumas dessas medidas eram: vetar todos os empréstimos multilaterais em dólares, postergar o plano de alívio da dívida multilateral, diminuir o financiamento da Corporação do Desafio do Milênio (que pretende acabar com a pobreza extrema) e cortar o “apoio material” às forças de segurança da Bolívia.

Poucas semanas depois de assumir o cargo, Morales anunciou o rompimento de contratos de empréstimo com o FMI. Anos mais tarde, Morales aconselhou a Grécia e outros países europeus endividados a seguir o exemplo da Bolívia e “se livrar economicamente dos caprichos do Fundo Monetário Internacional”. O Departamento de Estado norte-americano reagiu financiando a oposição boliviana. As forças políticas opositoras da região da Meia Lua começaram a receber mais ajuda. Segundo uma mensagem enviada em abril de 2007, a chancelaria dos Estados Unidos considerava que a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) “deveria fortalecer os governos regionais, como forma de combater o governo central”.

O informe de 2007 da USAID menciona 101 remessas de dinheiro, com um total de 4,06 milhões de dólares, “para ajudar os governos das províncias a operar estrategicamente”. O dinheiro da Casa Branca também foi destinado aos grupos indígenas locais que fossem “contra a visão das comunidades indígenas defendida por Evo Morales”. Um ano depois, os departamentos da Meia Lua estavam em aberta rebelião contra o governo de Morales e promoviam um referendo sobre a autonomia, num contexto de protestos violentos que acabaram com a vida de ao menos vinte partidários do governo.

Esta tentativa de golpe de Estado fracassou graças à pressão dos presidentes da América do Sul, que emitiram uma declaração conjunta de apoio ao governo constitucional da Bolívia. Mas os Estados Unidos não se deram por vencidos e continuaram em comunicação constante com os líderes do movimento separatista da oposição. Segundo Alexander Main e Dan Beeton, durante os acontecimentos de agosto e setembro de 2008, diferente do que mostravam em sua postura oficial, o Departamento de Estado norte-americano levou a sério a possibilidade de um golpe de Estado na Bolívia, ou até mesmo de assassinato do presidente Evo Morales. “O Comitê de Ação de Emergência, junto com o Comando Sul dos Estados Unidos, desenvolveu um plano de resposta imediata para o caso de uma emergência repentina, que inclui uma tentativa de golpe de Estado e uma operação para matar o presidente Morales”, diz a mensagem da Embaixada dos Estados Unidos em La Paz.

Promoção da democracia

Posteriormente, alguns dos métodos de ingerência implantados na Bolívia se aplicaram em outros países, com governos de esquerda ou forte participação dos movimentos sociais. Por exemplo, depois da volta dos sandinistas ao poder na Nicarágua, em 2007, a embaixada dos Estados Unidos em Manágua lançou um programa de apoio intensivo à Aliança Liberal Nicaraguense (ALN), principal partido da direita opositora.

Ameaça bolivariana

Durante a Guerra Fria, a suposta ameaça da União Soviética e a expansão do comunismo cubano serviram para justificar um grande número de intervenções políticas dos Estados Unidos com o objetivo de eliminar governos de esquerda e implantar regimes militares de direitas. Da mesma forma, as filtragens do WikiLeaks mostram como “o fantasma do bolivarianismo” venezuelano foi utilizado na década passada para justificar a intromissão em temas internos de governos encabeçados por líderes antineoliberais. Assim, Washington se dedicou a uma batalha oculta contra os governos da Bolívia, “que caiu nos braços da Venezuela” e do Equador, que realizava a função de “porta-voz de Chávez”.

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Tradução: Victor Farinelli

Ocupação de sem-teto em São Paulo ajuda refugiados sírios a recomeçar a vida

Via RBA

Sírios fazem comidas tradicionais e vendem por encomenda (Danilo Ramos / RBA)

Ao todo, 60 sírios foram recebidos na ocupação Leila Khaled. Coordenadores cobram da prefeitura a criação de uma feira onde os refugiados possam comercializar produtos.

São Paulo – O endereço é na rua Conselheiro Furtado, no centro de São Paulo. Lá, em uma ocupação de famílias sem-teto do movimento Terra Livre, vivem 100 pessoas que aguardam uma resolução do poder público para um dos principais problemas da capital paulista: habitação. Para uma parte delas, no entanto, o lugar tem um significado especial. É lá que 60 refugiados sírios foram acolhidos e poderão recomeçar a vida após cruzarem milhares de quilômetros para salvarem suas vidas, fugindo do conflito no país.

Expulsos pelo fogo cruzado e após perderem suas casas em ataques e bombardeios, os sírios encontraram na ocupação Leila Khaled um novo lar, compartilhando o espaço com famílias brasileiras também excluídas do acesso à cidade, pela especulação imobiliária. “Eu não imaginava que o Brasil fosse tão desigual. Na Síria não há casas vazias. A vida é mais simples, mas a pobreza é menor. Com um salário mínimo se vivia muito bem”, diz o refugiado Abu Mohamed, que está há dois meses na ocupação, com a esposa e mais seis filhos, com idades entre 13 e 23 anos.

A maioria dos refugiados da Ocupação Leila Khaled possui uma história bastante peculiar: apesar de terem nascido na Síria, eles são palestinos cujas famílias estavam refugiadas no país desde 1948, quando foram expulsas pela criação do Estado de Israel. Durante o episódio, pelo menos 800 mil pessoas se tornaram refugiadas. Hoje, 67 anos depois, são 5 milhões. Com o estouro do conflito, em 2011, os campos foram atacados e eles se tornaram duplamente refugiados.

“A essa altura, eu deveria estar formado em Direito, com meu próprio escritório, que eu me organizava para abrir”, conta o refugiado sírio Wessam Othman, de 33 anos, há um ano no Brasil. Desde 2013, ele e mais 50 mil pessoas tiveram que deixar o campo onde viviam, a sete quilômetros da capital síria, Damasco. Ele e a família se mudaram para a cidade e abriram uma pequena loja de roupas. Com a intensificação do conflito, a situação tornou-se insuportável, e ele veio para o Brasil com o primo tentar recomeçar a vida. “Deixei minha mãe e oito irmãos na Síria. Assim que eu garantir moradia e trabalho vou trazê-los”, planeja.

Ao contrário do que a maioria imagina, não é tão difícil para os sírios chegarem ao Brasil: a viagem de avião, com escadas em Dubai, Marrocos ou na Europa fica entre US$ 700 e US$ 1 mil e acaba sendo uma opção melhor para os que conseguiram salvar alguma economia, já que a maioria dos países europeus complica a emissão dos vistos e que as viagens por terra para os países vizinhos são inseguras, concentradas na máfia das redes de coiotes.

O Brasil é principal destino dos refugiados sírios no continente americano. Segundo o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), já foi concedido refúgio para 2.097 sírios, número superior aos dos Estados Unidos e muitos países da Europa. Embaixadas do Brasil no Líbano, Jordânia e Turquia já forneceram 7.752 vistos autorizando viagens para o Brasil.

Para facilitar a situação, em setembro, o governo brasileiro prorrogou por mais dois anos a concessão de visto especial, por razões humanitárias, a pessoas afetadas pelo conflito armado na República Árabe Síria. O representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), Andrés Ramirez, chegou a afirmar que o Brasil dá um exemplo de acolhida humanitária. “São os países ricos, em geral, que têm que aprender com o Brasil a como implantar ações receptivas, principalmente porque essas pessoas não vêm para tentar uma vida melhor, mas para salvar suas vidas. O Brasil está oferecendo um bom exemplo”, disse.

“Eu tentei entrar em quase todos os países da Europa, mas ninguém me concedeu visto, porque sou sírio. Cruzei a fronteira a pé para a Jordânia em uma viagem de quatro dias, tentando salvar minha vida. Fui vítima de muito preconceito, mas aqui me senti acolhido”, diz o refugiado Alaa Alzubi, há três meses no Brasil. “Daqui eu não acompanho as notícias da guerra, porque é muito forte para mim. Eu vivia no fogo cruzado, ouvia bombas e explosões a todo momento. Tinha sempre muito medo.”

Dia a dia

Grande parte dos refugiados que vive na ocupação trabalha ou faz bicos, a maioria em restaurantes de comida árabe. Outros começam pequenos negócios, em especial como barbeiros, cozinheiros ou entregadores de comida. Todos os serviços oferecidos pelos refugiados estão disponíveis na página da ocupação do Facebook, e podem ser contratados pelo telefone disponibilizado nos anúncios.

Uma das propostas dos coordenadores da ocupação, apresentada ontem (2) à prefeitura, é a criação de uma feira de cultura síria e palestina, onde os refugiados poderiam comercializar alimentos e produtos tradicionais. “Vejo com bons olhos a possibilidade, é uma iniciativa muito interessante. Queremos incluí-los nos projetos municipais de economia solidária, mas a feira também parece uma boa opção”, afirma o coordenador de Políticas para Migrantes da Secretaria Municipal de Direitos Humanos, Paulo Illes.

“Cobramos também da prefeitura um mutirão de atendimento médico e dental para os refugiados da ocupação e a contratação de tradutores para os Centros de Apoio ao Trabalho e Empreendedorismo, para auxiliá-los a conseguir uma vaga. Junto ao governo federal cobramos, sobretudo, a revalidação de diplomas de formação”, afirma um dos coordenadores da ocupação, Hasan Zarif.

O prédio de dez andares foi ocupado em junho deste ano pelo movimento Terra Livre e com o apoio do Movimento Palestina para Todxs (Mopat). Os moradores são responsáveis pela manutenção do edifício e tomam as decisões coletivamente em assembleias. O objetivo não era abrigar refugiados sírios, mas devido à situação de vulnerabilidade em que eles se encontravam, as portas foram abertas.

“Pela nossa rede de contatos, começamos a receber a notícias da chegada dos sírios. A maioria deles estava em pequenos hotéis na região do Brás, pagando valores abusivos, em condições muito precárias de habitação. Frente a essa realidade, os convidamos para vir para cá. Há uma fila de mais 60 pessoas, mas neste momento, não temos como acolhê-las”, conta Zarif.

Conflito na Síria

Teve início em 15 de março de 2011, durante a Primavera Árabe. O governo liderado com mãos de ferro pelo partido Baath há quase 50 anos reprimiu os protestos com violência, obrigando os manifestantes a reagir. O regime do presidente Bashar al-Assad passou a controlar as grandes cidades e as estradas mais importantes do país e tem usado a fome e a miséria para punir a população civil.

Em 2012, A Cruz Vermelha e a ONU classificaram os conflitos como guerra civil e começaram a cobrar aplicações do Direito Humanitário Internacional para investigar crimes de guerra. Porém, as missões diplomáticas têm fracassado. De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, no primeiro trimestre de 2014, pelo menos 140 mil pessoas morreram – 7 mil crianças e 5 mil mulheres.

Bancada empresarial tenta usar projeto do PPE para mexer com a CLT

Via RBA

Segundo sindicalistas, relator tenta emplacar mudança em direitos trabalhistas, tentadas desde a era FHC, em programa pensado para proteger postos de trabalho em situações de crise.

Sindicalistas consideram que relatório de Daniel Vilela (PMDB-GO) embute tentativa de reforma trabalhista. LUCIO BERNARDO JR/CÂMARA DOS DEPUTADOS

A tentativa de alterar o Programa de Proteção ao Emprego (PPE), em discussão no Congresso, provocou protestos dos presidentes da CUT, Vagner Freitas, e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques. Os dirigentes identificam uma manobra parlamentar para permitir que a negociação de acordos coletivos prevaleça sobre a legislação, afrouxando a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Isso aconteceu em reunião da Comissão Mista da Medida Provisória 680/15, que institui o PPE, ao aprovar  hoje (1º) relatório do deputado Daniel Vilela (PMDB-GO). Uma das emendas permite uma mudança tentada desde o governo Fernando Henrique Cardoso. “Colocaram uma emenda que não se relaciona com o programa, que não estava em discussão. Ela introduz um novo procedimento nas relações capital e trabalho, que é a prevalência do negociado sobre o legislado, fazendo uma reforma trabalhista sem discussão, o que não poderemos aceitar”, afirmou Rafael, que acompanhou a votação e se disse indignado com a manobra.

O dirigente ressaltou que a medida provisória do PPE foi criada para evitar demissões em razão da queda de atividade econômica. E observou que houve muitos debates entre representantes de trabalhadores, empresários e governo para se chegar ao teor do programa. “O objetivo é preservar empregos em momentos de crise. Estamos fechando posição contrária, entre as centrais sindicais, a essa alteração que tenta aproveitar o programa para fazer passar uma reforma atropelada, sem debate.”

“Não foi para isso que nós fizemos o PPE”, reforçou o presidente da CUT. “Estão usurpando as conquistas dos trabalhadores. Queremos ampliar e, não, tirar direitos”, afirmou Freitas, anunciando uma reunião com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), nesta sexta-feira.

O vice-presidente da Comissão, deputado Afonso Florence (PT-BA), apresentou um destaque para retirar a mudança – que foi rejeitado por 12 votos a 8. No caminho contrário, foi acatado outro destaque – apresentado pelo deputado Efraim Filho (DEM-PB) – que  retirou da MP  a garantia de que o conjunto de normas estabelecidas em acordo coletivo deva ser, globalmente, mais benéfico do que as leis relacionadas, o que, na avaliação dos sindicalista, “piorou” ainda mais o texto. “Parece que quando os patrões têm maioria não há abertura para diálogo e composição. Chegamos a propor criar uma comissão específica para discutir esse assunto separadamente, pra amadurecer o debate, mas eles perceberam que tinham maioria e votaram”, disse o deputado.

Os sindicalistas pretendem fazer corpo a corpo no Congresso com objetivo de evitar que o PPE seja “desvirtuado”. Na avaliação de Rafael Marques, a conduta da maioria da comissão mista foi uma demonstração de que as forças conservadoras do Congresso Nacional estão em plena atividade. “Temos o Congresso mais conservador dos últimos tempos, que não se cansa tentar atacar os direitos que foram conquistados pelos trabalhadores. Primeiro foi o projeto da terceirização, agora essa tentativa de desfigurar o PPE”, disse o líder metalúrgico.

Outras alterações na MP, que dizem respeito ao funcionamento do programa, foram consideradas positivas. O relatório final ampliou o prazo para empresas participarem do programa – de 12 meses (seis meses com uma renovação) para 24 meses. E estendeu em um ano o período de adesão ao PPE, até 31 de dezembro de 2016. A MP segue agora para ser analisada e votada pelo plenário da Câmara.

O grande pacto social com as FARC na Colômbia ignorado pela mídia

Por J, Carlos de Assis

O mais importante acontecimento para a América do Sul em sete décadas, o acordo entre o Governo colombiano, considerado de direita, e a guerrilha das FARC, de extrema esquerda, está passando praticamente despercebido da Grande Mídia brasileira, e portanto da sociedade como um todo, a despeito da presença em Bogotá da Presidenta Dilma. É que os governos Lula e Dilma tiveram importante papel no estímulo a esse acordo, que foi coroado agora com a cobertura física da Abimaq-Associação Brasileira da Indústria de Máquinas.

Numa conversa por telefone ontem, o presidente da Abimaq, Carlos Pastoriza, estava exultante. Como parte do acordo, indústria brasileira de máquinas fornecerá os equipamentos necessários para que a antiga guerrilha se transforme em bases de agricultura familiar nos territórios antes sob seu controle. Algo semelhante, no Governo Lula, foi feito com países africanos, numa base subsidiada. No caso colombiano, um país mais rico, os termos se aproximarão mais das condições de mercado em taxas de juros.

É um resultado espetacular da diplomacia presidencial brasileira. Estamos contribuindo para o fim de uma guerrilha de 70 anos, que teve momentos críticos de banho de sangue e que em outros momentos parecia insolúvel. Claro, o presidente Santos desempenhou um papel crucial nisso por desconsiderar o conselho anacrônico dos abutres de seu próprio sistema militar que, sob conselho norte-americano, queriam uma saída exclusivamente militar para o conflito. Diga-se de passagem, saída impossível.

Estive na Colômbia em 2011 a convite de uma universidade da Noruega que teve participação decisiva no equacionamento posterior do conflito armado. Meu tema, para uma plateia de 35 generais das três Armas, era integração da América do Sul. Fiz o discurso óbvio segundo o qual não haveria efetiva integração sul-americana sem solução do conflito das FARC, sendo que, a meu juízo de não especialista, não haveria solução militar para o conflito da guerrilha. Encontrei um público militar surpreendentemente receptivo. Embora, claro, desconfiado de Hugo Chavez, na época, pelo radicalismo que consideravam anticolombiano.

O fato é que o processo de paz progrediu, e temos um resultado espetacular que transcende em muito o acordo de normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos. Neste caso, tivemos um movimento de cúpula no nível diplomático. No caso das FARC, significa um compromisso pelas bases, um desarmamento físico de milhares de guerrilheiros e uma atitude negociadora de suas lideranças dispostas a um acordo de interesse comum com o Governo. Em uma palavra, o pacto social. Só quem não está vendo a dimensão histórica desse acontecimento é a Grande Mídia brasileira. Ela só se emociona quando os EUA estão interessados, e este, como se trata de acordo de paz, e não de guerra, não lhes interessa.
No rápido telefonema que troquei com Pastoriza, concluímos que, para além do acordo de exportação de equipamentos, de interesse objetivo para as FARC e para a indústria brasileira, talvez o significado político maior do que acontece na Colômbia é o exemplo de coroamento de um longo processo negociador que culminou com um grande pacto social entre correntes inicialmente ultra divergentes. Isso é um exemplo para nós, na medida em que, embora sem guerrilha, estamos num estado de pré-convulsão social, no qual as instituições centrais do Estado já não se entendem entre si e se derretem perante o povo, o que exige um esforço de acordo nos níveis mais básicos da sociedade, entre as classes empresariais e de trabalhadores.
Nas discussões que tenho tido com cientistas políticos, economistas políticos, líderes trabalhistas, líderes empresariais, parlamentares, encontro grande convergência com essa análise. O que a Colômbia está ganhando depois de um longo processo de guerra civil, nós podemos ganhar sem guerra civil. No plano teórico, essa análise é muito bem aceita. No plano emocional, ainda não. A maioria das pessoas, independentemente do nível social, acredita no surgimento de um avatar, um salvador da pátria que venha no resgatar do caos institucional em que vivemos. É uma ilusão. Quando esse derretimento institucional geral descer para o nível das classes sociais, em luta direta entre si e desconfiada uma da outra inicialmente, só restarão duas saídas: ou o pacto social entre elas, reordenando o Estado, ou uma convulsão social que levará à guerra civil, à volta dos militares e à ditadura.

P.S. Voltarei ao tema crucial da moeda e do controle de capitais oportunamente.

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*José Carlos de Assis é jornalista, economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor, entre outros livros de economia política, de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.

América Latina, Brasil e o progressismo ameaçado: Entrevista com Bruno Lima Rocha

Por Rennan Martins | Brasília, 04/10/2015

A persistência da crise econômica global gerou uma segunda onda recessiva que desta vez atingiu os países em desenvolvimento. Se antes eram somente a Europa e os EUA que se viam em dificuldades, agora temos Brasil e América Latina forçados a se adaptar ao cenário de baixa na demanda das commodities, enquanto a China revê para baixo suas projeções de crescimento.

Nesse cenário temos ainda forte instabilidade geopolítica causada pela perda de poderio e capacidade de liderança dos norte-americanos, fruto da falência do modelo de globalização imposto depois da queda da URSS. Esta conjuntura pressiona os governos progressistas da América Latina, que chegaram ao poder no final do século XX e início deste século XXI justamente com a missão de construir uma alternativa ao Consenso de Washington. A dependência tecnológica e inserção subserviente de suas economias cobra a fatura na forma de bloqueio dos avanços e perigo de retrocessos no tocante as conquistas sociais.

Para discutir este complexo e turbulento cenário o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e relações internacionais, também editor do site Estratégia & Análise. Lima Rocha considera que a guinada à direita do governo brasileiro pode se refletir em todo o continente por conta de nossa liderança regional, lembra que os governos progressistas de forma geral não contestaram a divisão internacional do trabalho que nos lega a condição de exportador de bens primários, e vê no “reboquismo” um fator de exclusão do povo e vulnerabilidade dos presidentes latino-americanos.

Confira a íntegra:

Na última década a América Latina vivenciou a chegada de diversos governos de caráter progressista (em intensidades variáveis) ao poder. Como explicar esse fenômeno? Quais foram as principais conquistas destes governos?

BLR: Eu posso reconhecer que estes governos como de dois tipos: os de centro-esquerda (não-classistas), tal seria o caso de Brasil, Argentina, Uruguai e Chile e os de corte nacional-bolivariano, mais propriamente dito de linha chavista, como é o caso de Bolívia, Equador e Venezuela liderando. Também tivemos – temos governos – semelhantes ou aproximados em El Salvador e Nicarágua, mas com um programa muito brando, mais abrandado do que o venezuelano por exemplo. E, por fim, casos de golpes de Estado contra este tipo de governo como foi o caso de Paraguai e Honduras. Estes governos, e aí podemos traçar uma linha geral entre todos, têm como ponto comum uma reação latino-americana ao neoliberalismo dos anos ’90, a sensação terrível de fim da história e terra arrasada, como foi magistralmente narrada no filme de Fernando Pino Solanas, de 2003, o já clássico “Memoria del saqueo”. Para entendermos o que cada um destes países teve de fazer para conseguir em um período assemelhado emplacar governos de centro-esquerda com inflexões semelhantes (em graus distintos, indo do Chile à Venezuela) seria preciso estudar cada sociedade em específico. Mas, reforço, o traço comum entre todos é uma reação dentro dos limites da democracia representativa e com tensão dentro das regras, abordando da Constituição aos intentos de nova institucionalidade. A principal conquista dentre todos estes governos foi na melhoria significativa das condições materiais de vida sem, no entanto, interromper o ciclo de primarização de nossas economias e menos ainda com o devido protagonismo do povo organizado pressionando estes governos para um caminho menos atrelado ao eleitoralismo e mais vinculados a conquistas de tipo direto.

Concomitante aos avanços assistimos também contradições. Quais as limitações e paradoxos dos governos progressistas latino-americanos?

BLR: Como eu citei acima, eu diria que novamente, cada país merece um estudo em separado e este é o grande dilema dos estudos comparados. Mas, já que estamos considerando a América Latina como ela de fato é, um bloco e um Continente em disputa e concepção semelhante, eu diria para ser sintético que aquilo que se chamava no Brasil de Jango de “reboquismo”, no período do “manda brasa presidente”, é a mazela mais importante reconhecida nestes governos. Temos pouco ou quase nenhum protagonismo popular e por vezes, a Razão de Estado entra em conflito direto com a defesa de interesses ancestrais, como é o caso de Belo Monte por exemplo. Eu tampouco trabalharia com a tese de contradições e sim de concepção construída, onde a guinada rumo ao centro opera como um voto de confiança na institucionalidade das transições democráticas ou da versão oligárquica das democracias. Eu diria que a maior contradição, aí sim contradição interna de projeto, foi buscar uma imaginária burguesia nacional desenvolvimentista ou autônoma ou nacionalista e esta simplesmente ou não existe ou é irrelevante. Dentro dessa busca insana somada às pressões das balanças comerciais, não demos na última década ou década e meia – a contar com a vitória eleitoral de Chávez em 1998 – com inflexões importantes no campo da informação e do conhecimento e tampouco criamos uma co-dependência nas cadeias produtivas e de alto valor agregado dentro do Continente. Ao contrário, toda a América Latina hoje fica interdependente de exportações e de investimentos chineses e os governos em geral, não ultrapassam a maldição continental da síntese entre extrativismo, exploração de recursos hidro-minerais, combustível fóssil ou de agricultura empresarial de escala para exportação.

Atualmente diversos destes governos passam por crises econômicas e políticas. Que fatores atuam nesse quadro?

 

Professor Bruno Lima Rocha

BLR: É interessante notarmos como as perguntas são concatenadas assim como as respostas. Um dos pontos cruciais é a dependência de exportação de matéria-prima, tal como o cobre no Chile, grãos, gás e petróleo na Argentina, o mesmo no Brasil, petróleo e gás na Venezuela, Bolívia e Equador e assim o padrão vai se repetindo. A crise econômica se dá porque não temos projeto próprio de desenvolvimento como capitalismo periférico – no caso brasileiro semi-periférico e com a liderança brasileira, entrando todos os países por tabela no G-20 e BRICS – e menos ainda de uma nova economia de base sustentável e controle social pleno. O caso mais emblemático é a recuperação da YPF pelo Estado argentino e depois o absurdo acordo com a Chevron. Deveríamos ter, no mínimo, uma cota de partida para investimentos comuns, uma espécie de Celac ou Unasur petroleira. Nem isso. Quanto às crises políticas, aí novamente chegamos a um dilema típico da América Latina. As oligarquias, o andar de cima, a soma de classe dominante + elite dirigente + tecnocracia de portas giratórias com o capital transnacional e seus representantes e intermediários políticos entendem que, e de forma acertada, na América Latina, o governo que tem continuidade e distribui renda acaba conservando uma reserva eleitoral, bloqueando de fato a alternância do poder apregoada nas democracias liberais. Assim, de um lado, a cooptação dos governos através do Poder Executivo e as políticas de centro isolam uma esquerda mais legítima, ou ao menos autônoma, que não vai subordinar os interesses de classe e povo pela “tal da governabilidade”; e, logicamente, o arrivismo é algo inerente à política profissional e a conversão de gente de direita ao governo de turno isola militantes históricos ou correntes mais programáticas. De outro, os ataques são múltiplos, incluindo os partidos midiáticos, como o Grupo Diários América, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e a forte presença de capital transnacional (e financeiro) na composição acionária dos oligopólios de mídia de cada um de nossos países. Por fim, de forma mais ou menos acentuada, temos a presença planetária de capitais voláteis a assolar nossas soberanias e coagir decisões de governo.

Como explicar tais conflitos sob a perspectiva geopolítica? É possível dizer que há ingerência estrangeira nesse processo? (Se sim ou não, cite elementos que corroborem com a tese).

BLR: Sim há ingerência estrangeira indireta ou direta, variando o país. Nota-se de forma mais direta na Venezuela, por exemplo, ou no caso de Honduras e Paraguai e os respectivos golpes de Estado. Já no Brasil e na Argentina, o que ocorre é a presença de emissários e pessoas de confiança dos EUA na figura de operadores do mercado financeiro e seus representantes políticos no velho jogo do entreguismo ou, como é o termo em castelhano, vende pátria. O jogo geopolítico dentro dos marcos do capitalismo se dá com a criação da Aliança do Pacífico (que interessa diretamente aos EUA e é conveniente para a China) em contraposição ao Mercosul por exemplo. O jogo se dá em maior escala, com a guerra fria comercial entre China e EUA e a reaproximação diplomática entre os governos de Obama e Raúl Castro. Eu diria que a presença de transnacionais e de bancas privadas assim como disputas comerciais importantes – tal como fora no Leilão do Campo de Libra e o debate em torno do regime de partilha, concessão ou monopólio integral – sempre será um imperativo para a tentativa de ingerência ou pressão. Basta ver a presença de tropas terrestres dos EUA ao redor da Amazônia legal brasileira a projeção de poder naval dos EUA e de seu aliado incondicional, a Inglaterra, no sistema de defesa do Atlântico Sul. Mas, eu diria que a maior pressão externa se dá de forma indireta, com a estrutura de mentalidades das elites latino-americanas (como um todo) e da brasileira em particular – parecida com a venezuelana – que são muito alinhadas ideologicamente ao Ocidente e com a ideia de globalização neoliberal transnacional por consequência.

Qual a relação entre o Mercosul e a Unasul e de que tratam estes blocos? Existe algum nível de diálogo deles com o BRICS?

BLR: Se pusermos em uma escala de propostas de integração e organicidade, eu diria que é uma idealização de círculos concêntricos, onde está o Mercosul, na sequência a Unasul e depois a Celac. A integração proposta pelo Mercosul é bem interessante mas passa pelo poder de veto dos sócios menores, no caso, o empresariado argentino para com o sócio maior, o Brasil. A Unasul é mais um intento do que uma realidade e todo este movimento diplomático passa por interromper a Operação Panamericana e o atrelamento dos Estados latino-americanos para a Doutrina Monroe contemporânea, ou integração forçosa como previsto no Consenso de Washington e Documento de Santa Fé I e II. A Unasul ganharia materialidade se o Banco do Sul tivesse uma maior envergadura, uma espécie de BIRD entre nós mesmos e operasse em investimentos estratégicos, como já foi citado no caso dos campos petrolíferos de Vaca Muerta (Argentina) e Libra (Brasil). E, a relação destes blocos com os BRICS eu considero mais apropriado responder na pergunta abaixo.

De que forma se insere o Brasil e o ciclo petista nesse tabuleiro? É possível nos ver como liderança regional?

BLR: Sim, somos liderança regional ainda que uma boa parte dos brasileiros que consomem informação deste nível sequer admita esta realidade. O Brasil se insere no cenário internacional moderno com mais força justamente no ciclo petista e com a ampla política externa de autonomia pela diversificação e a criação dos BRICS. A materialidade deste “bloco” se dá em termos concretos com o novo banco de desenvolvimento e o fundo de contingência. É preciso entender que tanto o Mercosul, como a Unasul e mesmo a Celac se veem “representados” nesta possibilidade de relações com os derrotados da Guerra Fria hoje potências econômicas e/ou militares (caso da Rússia, Índia e China, nesta ordem, e proporcionalmente da África do Sul) através da presença e liderança brasileira. Nós exerceríamos maior liderança se houvesse maior capacidade de investimento e presença brasileira através do Banco do Sul como complemento do Banco dos BRICS. Como tudo isso ainda é muito inicial, ainda corre-se o risco real dos BRICS operarem como um braço ampliado dos interesses chineses e dentro desta projeção alguns países estão jogando como é o caso já citado da reaproximação de Cuba com os EUA, muito em função do novo canal interoceânico – que vai cruzar a Nicarágua – e terá a força protetiva da Rússia através de convênios com Manágua. Neste caso, houve um giro importante nos governos petistas, mais acentuado durante o período de Lula, quando o Brasil protagonizou uma ampla investida diplomática abrindo parcerias e mercados focando na relação Sul-Sul. Mas, como a presença chinesa é muito relevante acabamos todos nós latino-americanos ficando meio esmagados entre a China e a permanente projeção de poder dos EUA e do capital transnacional – volátil em especial.

Que interesses econômicos e geopolíticos o Brasil desperta no cenário internacional? Como o governo tem a eles reagido?

BLR: Para a dimensão geopolítica, interesse é um conceito absoluto. Pela lógica da geopolitik o Brasil desperta cobiça pelo seu enorme território (com maior ênfase na parte menos povoada e com ainda cobertura vegetal, caso da Amazônia Legal); pela soberania da plataforma continental ampliada (Amazônia Azul) por sua população de porte razoável e ainda vigoroso mercado interno; por seus gigantescos recursos e capacidade instalada ou a ser instalada, incluindo a infra-estrutura ainda inconclusa e por sua capacidade projeção pela via do poder “brando” (soft power), o que faz com que aparentemente nossa sociedade tenha ainda abismos sociais mas um elevado grau de tolerância se comparada com outras sociedades de base sectária. Entendo que oficialmente o país reage mal a isso, até porque a composição de governo de centro e policlassista inibem maiores confrontos. As forças armadas – pela lógica da geopolítica – necessitariam maior envergadura e um grau de independência tecnológica sempre existente em potencial, mas nunca alcançado. Tal é o caso da base de lançamento de foguetes de Alcântara, o acidente (ou sabotagem) e o atraso da retomada da mesma. Os exemplos são inúmeros e passam por esta condição de que na América Latina, o nacionalismo não se coaduna com as oligarquias, pertencendo mais ao campo das lutas populares. Assim como nenhuma força reacionária é de fato anti-imperialista, o mesmo ocorre com os governos de grande coalizão de classe como é o ciclo petista sob pacto lulista.

Diante de um quadro de recessão econômica a presidente optou por uma guinada conservadora na política econômica. Que efeitos o arrocho tem sobre o cenário político interno e externo? O não crescimento brasileiro afeta a América Latina?

BLR: Vamos seguir a máxima dos EUA, “para onde vai o Brasil vai a América Latina”, e logo, para onde o Brasil não vai a América Latina tampouco se encaminha. A guinada conservadora da presidente Dilma em seu segundo mandato é uma inflexão importante para deslegitimar seu governo. Não é “apenas” a massa trabalhadora e o andar debaixo do país que sofrerá as consequências do “ajuste”, mas o conjunto do Continente vai se deparar com um Chicago Boy (Joaquim Levy) à frente da maior economia regional. Chicago Boy esse, que é do Bradesco, tem carta quase em branco de Dilma e que não leva em conta o desenvolvimento latino-americano dentro de sua proposta à frente da pasta. É mais do mesmo, mas agora sob a roupagem de combater o golpe e se posicionar contra o retrocesso neoliberal, que também está representado no atual governo. Tamanha contradição e incoerência desmobilizam e podem ser o efeito necessário para abrir mais campo à esquerda do governo de centro e ex-esquerda. O problema é que isto se verifica em todos os campos, pois com a ausência de um projeto de desenvolvimento e a subordinação ao capital financeiro, a continuidade do pacto de classes do lulismo não consegue sequer favorecer seu principal “cliente”, o agente econômico de capital brasileiro (em geral familiar, perdulário e parasita do Estado, como aliás é a característica dos grandes conglomerados capitalistas). O ambiente doméstico e o cenário interno, portanto não são nada convidativos para o segundo “cliente” mais importante do pacto lulista, que é a massa de atingidos positivamente pelos programas de governo e a política econômica anti-cíclica e mesmo a anterior que visava gerar emprego direto e melhoria na qualidade material das condições de vida. Essa multidão de 44 milhões de brasileiros posta dentro do mundo do capitalismo pleno está e é desorganizada e indefinida ideologicamente. Logo, anuncia para os vizinhos que o desenvolvimento de um capitalismo semi-periférico não traz consigo nenhuma garantia sequer de manutenção das melhorias que vieram.

É sabido que as economias latino-americanas tiveram bons ventos quando do boom das commodities, apoiado principalmente na demanda chinesa. É possível dizer que há uma relação de dependência desses países com Pequim? Como estão reagindo frente ao desaquecimento chinês?

BLR: Como disse antes, entendo que as respostas estão concatenadas com as perguntas e, assim, creio que o grosso desta já foi aqui contestada. O problema é de outra envergadura e tem relação com o modelo de desenvolvimento que queremos, se é que queremos apenas um modelo e que este, mesmo dentro do capitalismo, está distante de entrar no primeiro time da divisão internacional do trabalho, que é a cadeia de valor estratégico da informação e conhecimento, além de um ganho de escala com produtividade nacional – hoje inexistente. A reação está sendo muito ruim, até porque temos de fato economia primarizadas, sobreviventes da sanha privatista neoliberal, mas de boa convivência com o capital nacional e mesmo o transnacional gerando emprego direto. Sim, há uma relação de perigosíssima dependência para com a economia chinesa e, logo, para com os desígnios de Beijing que comanda e centraliza as decisões estratégicas daquele país. E, como já disse antes, a reação está se dando de forma equivocada, em especial no Brasil, quando temos um giro ainda mais à direita, sendo que o agente econômico brasileiro deseja desregular a força de trabalho e avançar na loucura insana da terceirização incontrolada.

Quais são os principais desafios a serem enfrentados pelos governos progressistas diante deste quadro? Que fazer para permanecer na rota da inclusão social e autonomia?

BLR: No caso eu entendo que a única garantia de manter as políticas públicas e a orientação para o emprego direto é justamente não ficar a reboque dos governos de turno e menos ainda ir fazer coro com a oligarquia ou os setores neoliberais. Temos na América Latina a péssima experiência do reboquismo ou da presença de lideranças carismáticas que não promovem uma nova institucionalidade justamente por sua presença tão gravitante. Logo, a autonomia e independência de classe, além de um elevado grau de unidade nas lutas populares e um modelo de desenvolvimento que abra caminhos para além do capitalismo periférico seria o mínimo para colocar o direito coletivo e os interesses das maiorias à frente e acima dos pactos de governabilidade e o jogo cínico do Sistema Internacional. A pressão do andar debaixo pode colocar contra a parede os governos “progressistas” para que estes, no mínimo, atendam o interesse da maioria e se arrisquem um pouco mais. Mas, como nos ensina a história política brasileira, qualquer programa social – mesmo quando reformista – não repousa na condução de um bom articulador e sim na capacidade avançada do povo em luta. Governos ainda mais fortes e carismáticos, como o da Venezuela pós-Chávez, poderiam aproveitar a oportunidade da tensão interna e promover uma democratização das bases sociais do chavismo, transformando-as em bolivarianas. E lá, infelizmente, se vê justamente o oposto. Precisávamos impor condições de uma política econômica de duas vias, uma que garantisse no ambiente interno uma rede de proteção ampliada (como na agricultura familiar, camponesa e ecológica) e outra, que para o ambiente externo, diminuísse o grau de dependência tecnológica das cadeias de valor da indústria. Ainda assim, insisto, qualquer medida de governo se tiver caráter avançado, só será garantida no médio prazo se a base social não depender deste mesmo governo para se mobilizar e possa confrontar este governo caso veja seu interesse direto sendo atingido ou mesmo ameaçado. Embora tudo isso exista de forma embrionária e com alguns casos de sucesso e vitória – como a conquista da reforma educacional chilena após as duas rebeliões dos secundaristas, sendo a primeira em 2007 em pleno governo Bachelet – há que se reconhecer que ainda estamos distantes de termos amplos movimentos populares em unidade de luta e com capacidade resolutiva de envergadura. Uma grande responsabilidade desta ausência está justamente na política centralizadora e no reboquismo aos governos de centro e ex-esquerda da América Latina.

O Estado e a esquerda

Por Prabhat Patnaik, via Resistir.info

A atitude maoísta para com o Estado indiano é clara. Empenhado numa luta armada para o derrube do mesmo, os maoístas vêem este Estado como o seu inimigo. O que dizer acerca, contudo, daquele segmento da esquerda que não está empenhado na luta armada mas participa em eleições parlamentares, que por vezes constitui governos ao nível de estado e que actua de acordo com a Constituição? Será que ele considera aceitável o Estado indiano? E uma vez que de acordo com a sua análise, este Estado é um Estado burguês (ou um Estado “burguês-latifundiário”), comprometido com a defesa da propriedade capitalista, será que a “esquerda parlamentar” reconciliou-se então à preservação do sistema capitalista na Índia?

Se bem que muitos responderiam a esta pergunta pela afirmativa, a própria esquerda negaria veementemente esta acusação. Ela argumentaria que permanece tão comprometida como sempre com o derrube do capitalismo e do Estado burguês e que aceitar o Estado indiano burguês (e ocasionalmente mesmo a ser parte dele, uma vez que governos estaduais não estão fora do âmbito do Estado), é apenas um meio de operar a partir de dentro da ordem, para obter o requisito do apoio popular a fim de derrubar a própria ordem. E para obter este apoio, ela opera não só na arena parlamentar como também em outras esferas onde procura fortalecer movimentos populares.

Este era o argumento que o não dividido Partido Comunista havia avançado quando cancelou a Luta Armada em Telangana e em 1952 disputou as primeiras eleições gerais no país sob a nova Constituição. Contudo, este argumento provoca uma imagem bizarra, de um Partido pacientemente “à espera”, ou a trabalhar diligentemente em direcção ao desenlace, onde receberá como prémio apoio público adequado, um tanto como o “virtuoso” que recebe um prémio no “dia do julgamento”. Uma tal imagem é obviamente inaceitável para a esquerda, o que significa que este argumento não pode ser tão simples; ele tem de ser complementado por um argumento mais amplo. Este argumento mais amplo pode, na minha opinião, ser esboçado como se segue.

O Estado burguês não é uma coisa imobilizada. Ele pode assumir perfis e aparências diversas. Uma ditadura fascista é um Estado muito mais burguês (onde monopólios estão directamente envolvidos com o exercício do poder do Estado), tal como um “Estado Previdência” social-democrata, uma vez que ambos estão comprometidos com a defesa e promoção da propriedade capitalista. Por outras palavras, a forma e o conteúdo do Estado burguês muda ao longo do tempo e esta mudança é conduzida por dois factores: um são as mudanças “espontâneas” que ocorrem na natureza do capitalismo, as quais a esquerda acredita estarem a ascender a partir das tendências imanentes do capital, a partir da lógica interna do seu funcionamento, tal como o capitalismo da “livre competição” do tempo de Adam Smith deu lugar ao capitalismo monopolista. E o outro factor é o grau de resistência e pressão popular que é aplicado sobre o Estado.

O capitalismo tipicamente quer que a intervenção do Estado seja para promover e fomentar a lógica interna do seu funcionamento ao invés de transgredi-la. Ele está continuamente a tentar assegurar que a pressão popular sobre o Estado seja mantida sob controle, que a necessidade para o Estado de adoptar medidas em resposta aos desejos do povo e contra as exigências do capital seja anulada. Em suma, ele está sempre a tentar atenuar a democracia.

Este facto por vezes é articulado abertamente. Em 2006, por exemplo, quando o governo Vajpayee na Índia venceu as eleições, The Wall Street Journal lamentou este desenvolvimento e, candidamente, observou que não se deveria permitir que só o eleitorado escolhesse o governo. Ao invés, todos os “participantes” (“stakeholders”), incluindo “investidores”, deveriam ter uma palavra na matéria! Mais recentemente, na Europa, na esteira do referendo na Grécia, o eleitorado foi descrito como um “aborrecimento” pelos porta-vozes da finança.

Naturalmente, mudanças tais como a de 2006, não afectam necessariamente os “investidores”. O governo seguinte, desde que não afaste o país do turbilhão dos fluxos financeiros globais (que a globalização, o resultado da lógica de funcionamento do capital, necessariamente implica), é constrangido a prosseguir as mesmas políticas depois de vencer a eleição, por medo de que qualquer desvio das mesmas ofenda o capital financeiro e, com isso, provoque saídas de capital e uma crise financeira. Mas isto apenas sublinha o facto de que os caprichos do capital financeiro suprimem as exigências do povo numa economia exposta aos fluxos financeiros globais, isto é, que tal exposição atenua a democracia. Não importa quem o povo eleja, não importa que compromissos foram assumidos junto ao povo antes das eleições, o governo recém-eleito necessariamente trai estes compromissos desde que retenha as mesmas ligações externas do anterior (como o Syriza na Grécia acabou de demonstrar).

Mas com êxito ou não, a resistência do povo actua como um contrapeso contra esta tendência “espontânea” do capital para atenuar a democracia e, em certas conjunturas específicas, ela demonstra-se mais poderosa. O período do pós guerra na Europa – quando a resistência interna na classe trabalhadora (Winston Churchill, recordem-se, perdeu as eleições britânicas efectuadas imediatamente após a guerra devido ao horror da classe trabalhadora em relação às suas políticas sócio-económicas), e o temor do Comunismo, forçou o capital a fazer concessões – é um exemplo óbvio de uma tal conjuntura. A “gestão da procura” keynesiana e o “Estado Previdência” foram seus produtos.

Por outras palavras, naquele período o Estado burguês, sem deixar de ser um Estado burguês, foi empurrado a uma direcção previdenciária (welfarist) sob a pressão popular e contra os desejos da própria burguesia. Numa data posterior, com o capital tornando-se globalizado em consequência das suas próprias tendências imanentes, nem o poder do Estado-nação nem o do movimento da classe trabalhadora (o qual continua a ser organizado em bases nacionais) foi suficientemente poderoso para impedir a imposição da sua agenda. A “espontaneidade” do sistema reafirmou-se livrando-se da interferência do Estado contra a sua lógica interna, a qual dirige-se para o enfraquecimento da resistência e dos direitos dos trabalhadores, para a criação de um exército de reserva de trabalho, para repelir medidas de Estado previdência e para uma atenuação da democracia.

Uma vez que as tendências espontâneas do capital são sempre para pressionar o Estado burguês em direcção ao autoritarismo, a defesa e aprofundamento do seu conteúdo democrático, através da mobilização da resistência popular, torna-se uma tarefa da esquerda. A esquerda, portanto, não está preocupada apenas em calmamente reunir suas forças dentro do corpo de alguma entidade imobilizada (fixed) chamada Estado burguês, até que estas forças se tornem suficientemente fortes para derrubar aquele Estado. Ela está preocupada em defender a todo momento o conteúdo democrático do Estado burguês contra a tentativa da própria burguesia de corroer esse conteúdo.

Dito de modo diferente, dentro do objectivo estratégico global de substituir o Estado burguês existente, defender o conteúdo democrático do sistema constitucional-político contra a tentativa da burguesia para empurrá-lo numa direcção mais autoritária, torna-se uma táctica essencial na luta para a ultrapassagem do Estado burguês. Isto acontece porque tal luta em defesa do conteúdo democrático do Estado burguês também se torna uma luta contra os escalões dominantes da burguesia que estão por trás do ímpeto autoritário.

Na verdade, paradoxalmente, defender o que quer que exista de conteúdo democrático no Estado burguês é uma intervenção poderosa e eficaz no combate global contra o Estado burguês. Isto acontece porque este modo de superar o Estado burguês actua como uma restrição contra a imposição numa data posterior de qualquer nova espécie de autoritarismo, de qualquer ditadura totalitária. E isto envolve em todas as etapas mobilizar grandes massas de povo, junto com outras formações políticas que também se oponham ao autoritarismo, o que lhe dá uma potência muito maior.

Tudo isto é ilustrado vivamente na actual situação indiana. Para executar “reformas” neoliberais tais como tomar terras de camponeses sem o seu consentimento (um exemplo do que Marx chamou “acumulação primitiva de capital”) e introduzir “flexibilidade no mercado trabalho” (o que significa reduzir os direitos e a resistência dos trabalhadores), que estão de acordo com as tendência imanentes do capital, a Índia corporativa apoiou nas últimas eleições uma formação política suportada por uma organização comunal-fascista cujo objectivo confessado continua a ser a criação de uma “Nação Hindu” (” Hindu Rashtra“). Esta aliança corporativa-comunal que adquiriu poder já está a desviar o país bastante significativamente numa direcção autoritária. É importante nesta conjuntura que ao invés de menosprezar qualquer conteúdo democrático que exista dentro do Estado, tratando-o como “impostura”, a esquerda defenda este conteúdo democrático do Estado burguês. O conteúdo democrático do Estado burguês, por outras palavras, torna-se um canteiro para a luta de classe. Só defendendo a democracia a esquerda pode esperar transcender o sistema.

Serra valoriza o equilíbrio fiscal acima da própria Nação

Por José Carlos de Assis

O depoimento do senador José Serra na audiência pública proposta pelo senador Paulo Paim nesta segunda-feira para discutir a política do petróleo foi uma combinação vulgar de arrogância e má fé. O palestrante agrediu verbalmente os que discordam de seu projeto para o petróleo, mesmo antes que o tenham caracterizado como fruto do oportunismo e do entreguismo mais deslavado, e acabou por deixar a descoberto a intenção oculta de aproveitar a fraqueza circunstancial da Petrobrás para destruí-la de vez.

A lógica subjacente ao projeto de Serra, de se acabar com o regime de partilha na produção do pré-sal e voltar ao nefasto regime de concessões, é que a Petrobrás já não tem dinheiro para fazer os investimentos necessários no primeiro caso, devendo repassar às empresas estrangeiras o filé mignon de nossas descobertas petrolíferas. Ele pensa assim, naturalmente, porque é um fiscalista ortodoxo alinhado até a alma ao neoliberalismo, advogado, sem o dizer claramente, do Estado mínimo.

Serra simplesmente ignora o Projeto Requião. E o ignora porque acha que Estado quebra. Não acredita nas virtudes  keynesianas do déficit público como meio virtuoso de tirar um país, ou uma empresa pública, da recessão ou da depressão. Não compreende que a dívida pública é para servir o Estado em momentos de crise, e não que o Estado deve ficar a serviço da dívida. Esqueceu, ou nunca prestou atenção na política econômica brasileira de 2009 e 2010, quando a decisão de transferência de 180 bilhões de dólares (deficitários) do Tesouro para o BNDES, e deste para o setor produtivo, rendeu à economia e à sociedade um crescimento do PIB de 7,5% em 2010, com surpreendente queda na relação dívida/PIB.

É justamente essa receita que queremos aplicar no caso da Petrobrás seguindo a prescrição do Projeto Requião. Não haveria aumento da dívida pública líquida, pois seria criado um ativo no BNDES contra o passivo emprestado pelo Tesouro, sendo os recursos usados para irrigar a cadeia estrangulada do petróleo. Serra, o fiscalista mor da República,  que em outro projeto  idiota quer estabelecer um teto para a dívida pública seguindo a risca as propostas por enquanto derrotadas do Tea Party norte-americano, imagina a política fiscal como um jogo de contabilidade, ignorante que parece ser da economia política por trás dela. Por isso ele acha que a Petrobrás quebrou, e, com ela, o Estado brasileiro.

Seu discurso é mentiroso. Alegou que, se tivesse sido eleito presidente, teria entre suas três prioridades o investimento na infraestrutura. Não consigo acreditar nisso porque Serra matou o único grande projeto de infraestrutura do Governo Sarney, a Ferrovia Norte-Sul. Tenho boa memória e o vi, pessoalmente, no plenário da Câmara, colher assinaturas de colegas para cancelar os recursos propostos para a ferrovia pelo Executivo. Sua justificativa? Equilíbrio fiscal, como sempre. O projeto até hoje não se completou.

Insisto que, seguindo a linha do Projeto Requião, a Petrobrás, assim como toda a cadeia do petróleo, poderão ser reestruturas sem necessidade de fatiamentos e venda de ativos, e também de empréstimos por parte de bancos estrangeiros. Mais do que isso, a política de partilha poderá ser conservada sem nenhum problema. A única preliminar essencial para o projeto é uma faxina em regra na governança da Petrobrás pois não é possível que o Tesouro, através do BNDES, lhe empreste os recursos necessários e por lá ainda andem cúmplices ocultos dos quatro bandidos que usaram da Petrobrás para enriquecimento pessoal e de apaniguados, gerando o escândalo da Lavajato.

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José Carlos de Assis é economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor, entre outros livros, o recém-lançado “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.