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Urgência nas discussões sobre a água

Por Júlio Ottoboni | Via Envolverde

Um dos maiores especialistas em sensoriamento remoto do país e chefe do departamento de distribuição de imagens de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Paulo Roberto Martini, alerta para o agravamento da crise hídrica e a necessidade premente de água voltar as agendas em todos os setores da sociedade, principalmente dos poderes públicos.

“Toda abordagem feita até agora é que entraremos num quadro mais agudo, é preciso voltar o tema para as agendas e tomar decisões sem desvios políticos ou econômicos”, observou o pesquisador.

Martini é geógrafo por formação acadêmica, além de ter especialização em Remote Sensing Technology pela Remote Sensing Technology Center Of Japan Restec, em Política e Planejamento Estratégico pela Escola Superior de Guerra e mestrado em Sensoriamento Remoto pelo Inpe. Além de ser um dos mais antigos funcionários do instituto e coordenador do projeto Panamazônia.

Qualificação não lhe falta fazer uma série de alertas, já que acompanha com grande interesse a escassez de chuvas no sudeste do país, em particular na região de São Paulo. Segundo ele, as imagens de satélites mostram que o volume de água está diminuindo há alguns anos, inclusive a cor da água, que é um indicativo para os especialistas na leitura e interpretação das imagens.

“Quando o reservatório está cheio, a cor da água aparece preta na imagem. Mas quando está mais rasa a cor predominante é azul turquesa, agora quando surge completamente branca é que a água está completamente poluída”, explicou.

Atualmente as represas estão divididas, pelas imagens de satélites, entre brancas e azuis. As águas se tornam esbranquiçadas nas imagens de satélites pela presença de um espécie de planta monofilética, que se espalha com uma velocidade muito grande em águas poluídas. Martini lembra que o declínio da qualidade da água da represa Billings ocorreu no começo dos anos 2000, quando sua superfície ficou totalmente clara.

“É preciso repensar esse processo todo da água, mas num regime de urgência, não temos mais tempo para postergações”, observou o pesquisador, que há exatos 20 anos efetuou uma série imensa de cálculos para estabelecer que o Rio Amazonas era o maior em extensão em todo mundo. E foi além, que o derretimento das neves eternas naCordilheira dos Andes poderia ser um indicativo que o complexo do Amazonas estava em seu apogeu hídrico.

O pesquisador do Inpe pede não só atenção para a questão do aquecimento global, já que cerca de 80% da população mundial se diz “muito preocupada” com os efeitos da mudança climática. De acordo com pesquisas recém divulgadas, embora esse alerta tenha chegado até as pessoas, menos da metade delas apoia um imposto sobre o carbono para diminuir as emissões.

O levantamento realizado em 79 países de forma simultânea teve seus resultados publicados no site da “World Wide Views on Climate and Energy”.

Aquecimento das águas atlânticas

Martini também apresenta um situação que tem afligido os meteorologistas e climatologistas. A formação, até o momento inexplicável, de grandes piscinas de água quente na porção mais ao sul do Oceano Atlântico. Essa alteração no gradiente térmico da Temperatura da Superfície do Mar (TSM) tem impedido a chegada das frentes frias até o continente, que são responsável por grande parte das chuvas em São Paulo.

“Eu tento pegar indicadores geológicos como esses aquecimentos do Atlântico Sul, como depósitos aluvionares marinhos com mais de 12 mil anos e mais novos, entre 8 e 7 mil anos, quando o mar cobriu a enseada de Santos e grande parte do litoral, até Marajó”, comentou sobre um possível estudo sobre um possível ocorrência histórica.

Essa subida dos níveis dos mares se deu pelo aquecimento global, queda no volume das calotas polares e consequência aumento da água liquefeita, além da expansão física da água aquecida. Os estudos iniciais nos aluviões nas áreas costeiras não apresentam ainda correlação com a mudança no regime de chuvas e, consequentemente, o nível das represas atuais, embora isso possa ser comprovado com pesquisas mais aprofundadas.

“Esses aquecimentos anormais do Atlântico precisam ser estudados, pois a estiagem que ocorreu se deu também por esse fenômeno. As massas de ar frio não conseguem chegar até a porção continental, onde acaba encontrando um gradiente térmico mais quente e provoca as chuvas. Essas piscinas de água quente estão bloqueando a entrada das frentes e com isso ocorre a estiagem. Mas é cedo ainda para termos qualquer prognóstico sobre esse fenômeno”, afirmou Martini.

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Júlio Ottoboni é jornalista e especialista em jornalismo científico.

Mudanças climáticas: estudo sugere que uma em cada seis espécies está ameaçada de extinção

Por Tomi Mori | Via Esquerda.net

Pela primeira vez na história, é a ação humana, organizada num tipo determinado de estrutura social, a capitalista, que pode levar à aniquilação da vida no planeta, incluindo a extinção da própria espécie humana.

A águia da Nova Zelândia, a maior águia de que se tem notícia, foi extinta ao redor de 1400. Pode ter pesado de 10 a 15 quilos e as suas asas abertas poderiam ter chegado a três metros.

Em estudo recente, publicado na Science, o pesquisador Mark C. Urban, da Universidade de Connecticut, nos EUA, afirmou que “O resultado sugere que os riscos de extinção vão acelerar-se com a futura temperatura global, ameaçando uma em cada seis especies sob as atuais políticas.”

A importância do estudo de Urban reside no facto de acrescentar mais um alerta cientifico sobre a ameaça que as mudanças climáticas representam para a vida no planeta.

A extinção das espécies: um número inacreditável

Quando falamos de extinção, as imagens que nos vêm à cabeça são as da matança das baleias, dos golfinhos, dos pandas, tigres e, recentemente dos orangotangos e ursos polares.

Mas, se considerarmos os números que podem representar a vida no planeta, a catástrofe ecológica atinge, já, um número inacreditável.

Segundo o cientista Edward O. Wilson, no seu livro “Future of life”, “quantas espécies existem no mundo? Algo em torno de 1,5 e 1,8 milhão foram descobertas e receberam nomes científicos. As estimativas, dependendo do método utilizado, variam de 3,6 milhões a 100 milhões ou mais. A média das estimativas é pouco maior do que 10 milhões, mas poucos especialistas arriscariam a sua reputação insistindo nesse valor ou qualquer outro, mesmo com relação ao próximo milhão. A verdade é que mal começámos a explorar a vida na terra.”

Como vemos, os números são incríveis, já que incluem animais, plantas, e microrganismos que sequer vemos e, também, sabemos que parte dessa vida já está extinta e o resto pode desaparecer nos próximos anos. Ainda de acordo com Wilson, “podemos dizer com segurança que, pelo menos, um quinto das espécies de plantas e animais podem desaparecer ou estar próximas da extinção em 2030 e metade até o final do século.

A extinção das espécies animais ou vegetais avançou de forma rápida durante o seculo XX, com a expansão capitalista, e continua de forma dramática durante o atual. O facto de os números existentes não serem grandes provoca uma ilusão, já que decretar uma espécie extinta é um processo que leva anos, até se confirmar que não existe mais nenhum espécime. O outro motivo que algumas espécies contam com apenas um indivíduo ou alguns indivíduos, que já não podem mais reproduzir-se. Outra parte diz respeito às espécies que foram extintas sem que tenham sido descobertas ainda e, que, finalmente serão classificadas no futuro com a descoberta de seus restos.

O capitalismo acelera a extinção da vida no planeta

A extinção da vida faz parte da história do planeta. A mais famosa delas é a extinção de seres como os dinossauros, que povoa, inclusive, o imaginário das nossas crianças, ainda que essas não tenham consciência do fenómeno. Foi uma extinção massiva, cuja causa permanece indefinida, ainda que uma grande parte da comunidade cientifica acredite que foi provocada pela queda de um gigantesco meteorito.

A águia da Nova Zelândia, a maior águia de que se tem notícia, foi extinta ao redor de 1400. Pode ter pesado de 10 a 15 quilos e as suas asas abertas poderiam ter chegado a três metros. Foi classificada cientificamente, após a sua extinção, por Julius von Haast, em 1871, através de restos encontrados por F. Fulereno. No caso dessa águia, a extinção pode ter sido provocada pela ação humana, que dizimou uma ave dessa região, que poderia ter sido item principal de sua alimentação.

As engrenagens sociais que levaram o navegador português Fernão de Magalhães à aventura da circunavegação foram um marco importante na história humana. A partir desse ponto, em poucos séculos chegaríamos à atual globalização e, nesse trajeto, foram deixados um rastro que se mantém interminável de extinção da vida.

O predomínio do atual modo de produção capitalista acentuou a devastação da vida. Isso pode ser confirmado na afirmação de Mike Barrat, diretor do WWF (World Wide Fund for Nature – em português: Fundo Mundial para a Natureza): “nós perdemos metade da população animal”, referindo-se aos últimos 40 anos, em artigo publicado pelo The Guardian.

O avanço do capitalismo em todo o planeta e o crescimento populacional, com os atuais 7 mil milhões de habitantes, tem devastado com rapidez avassaladora a natureza. A destruição do meio-ambiente para a extração dos recursos naturais – madeira, minério – e também para a expansão urbana, bem como atividades agrícolas e pecuárias. E é essa mesma destruição ambiental para a manutenção da sociedade industrial que também é responsável pela atual catástrofe climática.

Segundo o estudo de Urban, os riscos de extinção são maiores na América do Sul, Austrália e Nova Zelândia.

“Os estragos já feitos não podem ser reparados em nenhum espaço de tempo significativo para a inteligência humana. Os registos fósseis mostram que uma nova flora leva milhões de anos para evoluir para a riqueza do mundo anterior ao homem.”, afirma Wilson no seu livro “The diversity of life”.

Ainda que toda esta discussão se mantenha polémica, principalmente pela existência de interesses económicos opostos, pela primeira vez na história é a ação humana, organizada num tipo determinado de estrutura social, a capitalista, que pode levar à aniquilação da vida no planeta, incluindo a extinção da espécie humana.

Essa realidade já é compreendida por milhões de pessoas no planeta; no entanto, não existe uma resposta para a seguinte pergunta: “Quanto tempo nos resta?” Mas todos os dados científicos mostram que não é tanto tempo assim.

Brasil conseguiu praticamente erradicar extrema pobreza, diz relatório do Banco Mundial

Via Portal R7

Estudo mostra que cerca de 60% dos brasileiros passaram a um nível de renda maior.

Brasil conseguiu praticamente erradicar a extrema pobreza no País. Getty Images

Análises do novo relatório do Banco Mundial mostram que o Brasil conseguiu praticamente erradicar a extrema pobreza. O País também conseguiu fazer isso mais rápido do que os países vizinhos.

Além disso, o Brasil também melhorou o desempenho de toda a região da América Latina e do Caribe. O estudo mostra que entre os anos de 2001 e 2013, o percentual da população vivendo em extrema pobreza caiu de 10% para 4%.

Ainda segundo o estudo, de 1990 a 2009, cerca de 60% dos brasileiros passaram a um nível de renda maior. Ao todo, 25 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema ou moderada.

Até o ano de 1999, os índices de extrema pobreza no Brasil e do resto da região eram semelhantes: em torno de 26%. Em 2012, aconteceu uma redução maior no percentual do Brasil, atingindo 9,6%, ante 12% da região.

Em relação à mobilidade social, o Brasil está em terceiro lugar. Ficando atrás, apenas, de Chile e Costa Rica. A melhora no desempenho do País se deve ao crescimento econômico do Brasil a partir de 2001, às políticas públicas como o Bolsa Família e o Brasil sem Miséria e ao aumento das taxas de emprego.

A evolução do salário mínimo também é destacada pelo estudo, que fortaleceu o poder de compra dos brasileiros.

A mais maldita das heranças do PT; complementos e análise

A escritora, repórter e documentarista Eliane Brum publicou no último dia 16 um polêmico artigo de título A mais maldita das heranças do PT (disponível neste post) no portal El País Brasil. A análise rendeu ótimos complementos dos colaboradores do Blog dos Desenvolvimentistas, Adriano Benayon, doutor em economia e Tania Faillace, jornalista e escritora.

Confira:

Adriano Benayon – A autora do artigo intitulado A mais maldita das heranças do PT diz algumas coisas muito razoáveis, inclusive apontando a ausência de liderança confiável na esquerda, a que ela se filia. Mas talvez não tenha conhecimento claro de fatos fundamentais, como:

1) a ausência de liderança importante e merecedora de apoio tampouco existe em qualquer segmento do espectro político;

2) isso não ocorreu por acaso, decorre da intervenção permanente do império em nosso País, diretamente e através de seus agentes e cooptados em todas as áreas relevantes para o poder, tanto no setor privado como no setor público;

3) a esta altura do campeonato, o País vem sendo brutal e crescentemente saqueado há mais de 60 anos e está se tornando, na atual conjuntura de intervenção “à la primavera árabe”, “guerra assimétrica”, ou lá o que seja, uma presa praticamente prostrada e inerme, para sofrer bicadas sôfregas dos abutres;

4) esta fase dos abutres está sendo turbinada pela crise financeira, exacerbada como parte da artilharia de apoio à dita intervenção, que visa, entre outras coisas, a assegurar para o império as fabulosas jazidas de petróleo e gás descobertas pela Petrobrás; com a vítima praticamente indefesa, dada sua estrutura econômica quase que terminalmente fragilizada após esses mais de 60 anos;

5) então, nesta altura do campeonato, qualquer liderança nacional seria bem-vinda, independentemente de posições ideológicas, dado que a presa, além do mais, está muitíssimo dividida e desnorteada (outro resultado de ter entregue o mercado em 1955 e do prolongamentos disso);

6) a direção do movimento de libertação nacional precisaria não ser nem de direita, nem de centro, nem de esquerda: deve ater-se aos fatos e principalmente ao fato principal: o império financeiro angloamericano já sugou, já imobilizou a presa, e está chegando à jugular dela: a tendência das novas instituições teria de decorrer deste princípio: esqueça ideias preconcebidas, mas aproveite as experiências históricas de luta antiimperialista em todo o mundo, e, em função disso, faça tudo que seja necessário para livrar-se da imobilização que está sofrendo por parte do império;

6) um ponto em que a autora carece de informação é colocar esperanças em Marina da Silva, uma das agentes mais notórias do imperialismo predador, travestida de ambientalista (claro que talvez só para a minoria que não se desinforma através da grande mídia).

Para finalizar, o próprio título da matéria me desagrada. A herança tenebrosa está longe de ser principalmente do PT. Esse partido é só um dos peões manipulados pelo império, e a esse respeito Lula e Dilma, embora no jogo e tendo cedido demais, imaginando que conseguiriam assentar suas bases de poder, são dos que menos se colocaram inteiramente como servidores do império angloamericano.

Quando, aí por 1963, rejeitou a oferta do general Amaury Kruel, então comandante do 2º Exército (SP), disposto a assegurar-lhe o apoio do Exército ao presidente, se este se afastasse dos comunistas (ou “comunistas”, não sei), Goulart justificou a recusa, dizendo não convir associar-se com sócio mais forte do que ele.

Interessante que os militares que se sucederam na presidência após 1964, cometeram esse erro, associando-se ao império angloamericano. Exceto Castello, nenhum deles queria alinhar-se de todo ao império, mas basta servi-lo em parte para ser dominado. Assim, os militares foram usados e posteriormente descartados. Sarney também.

O mesmo aconteceu com Lula e Dilma. Nem falei de PT, porque, tirante o Dirceu – há mais tempo descartado – o PT é partido muito pobre de quadros dignos de menção. Collor e FHC não precisamos comentar: agentes conscientes do império.

Tania Faillace – Quanto ao fato de que atravessamos uma fase crítica e emergencial, onde o dado/preocupação que se impõe, antes de tudo, é a soberania.

Sequer se pode pensar em “desenvolvimento sustentável” ou mesmo “justiça social”, antes de encarar de frente o risco real que sofre nossa soberania, sem a qual, todas as boas propostas e as boas intenções soçobram antes de dar um passo.

Fica, porém, a evidência de que temos muito poucos instrumentos. O esboço de organização da população trabalhadora através de seus órgãos de representação, esboroou-se com o pluralismo sindical, e o atrelamento político das entidades sindicais às quais os trabalhadores voltaram as costas, por não representarem seus interesses e não trabalharem sequer para a ampliação do número de sindicalizados e sua atuação, já que elas se sustentam comodamente apenas com a contribuição sindical obrigatória, sem precisar atuar, a não ser em eventos e festividades.

Esse esvaziamento dos movimentos classistas, enquanto classe e não meramente postulantes de reivindicações pontuais e específicas, foi acompanhado por igual esvaziamento de entidades profissionais de várias áreas, que polarizaram discussões e frentes de resistência respeitáveis durante o regime autoritário, e levantaram alternativas independentes e autônomas para a nação brasileira.

O mesmo aconteceu com as comunidades eclesiais, e o movimento estudantil, também focos geradores de pensamento e problematização das circunstâncias politicas, sociais e econômicas, no sentido de lhes dar resposta.

Isso foi obtido tanto pelo abastardamento de nossas políticas educacionais, que vinha desde 1970, mas atingiu seu auge nos últimos 10 anos, como ao oligopólio (quase monopólio) dos meios de comunicação de massa e a decomposição estrutural e temática dos partidos – inclusive os de direita – e a passividade assombrosa dos agentes econômicos de pequeno e até médio porte, diante do esmagamento promovido pelos mega-empreendimentos especulativos, inclusive em área de comércio e varejo.

Associações de agentes econômicos fecharam os olhos ao processo de concentração dos negócios, e sua apropriação por elementos alienígenas, fazendo suspeitar que um dado importante da questão é realmente de natureza ética: FALTA DE VERGONHA NA CARA, que vem sendo trabalhada permanente e insidiosamente pela revolução cultural do “politicamente correto” privilegiando a liberdade individual total, inclusive para cometer crimes “de foro íntimo”, como a corrupção moral da juventude, e a insistência no desmonte definitivo da família natural.

Essa estratégia do imperialismo pós-moderno parece ter sido muito eficiente: primeiro conquistar (ou demolir) as mentes, para depois conquistar (sem oposição) os bens materiais.

E embora a priorização destacada pelo Benayon pareça óbvia, não nos oferece uma sugestão prática: como organizar essa resistência contra o esbulho internacional?

O mínimo necessário, que seria garantir a informação sobre os fatos, de maneira ampla, imparcial, completa, para o esclarecimento dos cidadãos, passa inevitavelmente pelo controle social das mídias comerciais, hoje exclusivamente aserviço de seus patrocinadores e outros poderes, aos quais estão criminosamente associadas, conforme as investigações do Lava.Jato estão revelando, embora de forma indireta.

E depois?

A III Guerra Mundial já está aí. Russia faz operações no Ártico com represália às provocações da OTAN em suas vizinhanças. EUA incrementa cada vez mais sua produção e exportação de armas (que poderão ser usadas contra eles mesmos, é bom lembrar), porque é atualmente o único setor dinâmico de sua economia, e que precisa de guerras e mais guerras, ou quadrilhas criminosas e mais quadrilhas criminosas.

Toda essa exposição, mais a do Benayon, e as duas entrevistas que traduzi para o Groups, a da Naomi, e a da representante da ATTAC, Susan George, foram feitas especialmente para lhes tirar o sono. Uma boa insônia pode parir propostas viáveis.

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A mais maldita das heranças do PT

Por Eliane Brum | Via El País

O maior risco para o PT, para além do Governo e do atual mandato, talvez não seja a multidão que ocupou as ruas do Brasil, mas a que não estava lá. São os que não estavam nem no dia 13 de março, quando movimentos como CUT, UNE e MST organizaram uma manifestação que, apesar de críticas a medidas de ajuste fiscal tomadas pelo Governo, defendia a presidente Dilma Rousseff. Nem estavam no já histórico domingo, 15 de março, quando centenas de milhares de pessoas aderiram aos protestos, em várias capitais e cidades do país, em manifestações contra Dilma Rousseff articuladas nas redes sociais da internet, com bandeiras que defendiam o fim da corrupção, o impeachment da presidente e até uma aterradora, ainda que minoritária, defesa da volta da ditadura. São os que já não sairiam de casa em dia nenhum empunhando uma bandeira do PT, mas que também não atenderiam ao chamado das forças de 15 de março, os que apontam que o partido perdeu a capacidade de representar um projeto de esquerda – e gente de esquerda. É essa herança do PT que o Brasil, muito mais do que o partido, precisará compreender. E é com ela que teremos de lidar durante muito mais tempo do que o desse mandato.

Tenho dúvidas sobre a tecla tão batida por esses dias do Brasil polarizado. Como se o país estivesse dividido em dois polos opostos e claros. Ou, como querem alguns, uma disputa de ricos contra pobres. Ou, como querem outros, entre os cidadãos contra a corrupção e os beneficiados pela corrupção. Ou entre os a favor e os contra o Governo. Acho que a narrativa da polarização serve muito bem a alguns interesses, mas pode ser falha para a interpretação da atual realidade do país. Se fosse simples assim, mesmo com a tese do impeachment nas ruas, ainda assim seria mais fácil para o PT.

Algumas considerações prévias. Se no segundo turno das eleições de 2014, Dilma Rousseff ganhou por uma pequena margem – 54.501.118 votos contra 51.041.155 de Aécio Neves –, não há dúvida de que ela ganhou. Foi democraticamente eleita, fato que deve ser respeitado acima de tudo. Não existe até esse momento nenhuma base para impeachment, instrumento traumático e seríssimo que não pode ser manipulado com leviandade, nem mesmo no discurso. Quem não gostou do resultado ou se arrependeu do voto, paciência, vai ter de esperar a próxima eleição. Os resultados valem também quando a gente não gosta deles. E tentar o contrário, sem base legal, é para irresponsáveis ou ignorantes ou golpistas.

No resultado das eleições ampliou-se a ressonância da tese de um país partido e polarizado. Mas não me parece ser possível esquecer que outros 37.279.085 brasileiros não escolheram nem Dilma nem Aécio, votando nulo ou branco e, a maior parte, se abstendo de votar. É muita gente – e é muita gente que não se sentia representada por nenhum dos dois candidatos, pelas mais variadas razões, à esquerda e também à direita, o que complica um pouco a tese da polarização. Além das divisões entre os que se polarizariam em um lado ou outro, há mais atores no jogo que não estão nem em um lado nem em outro. E não é tão fácil compreender o papel que desempenham. No mesmo sentido, pode ser muito arriscado acreditar que quem estava nos protestos neste domingo eram todos eleitores de Aécio Neves. A rua é, historicamente, o território das incertezas – e do incontrolável.

Há lastro na realidade para afirmar também que uma parte dos que só aderiram à Dilma Rousseff no segundo turno era composta por gente que acreditava em duas teses amplamente esgrimidas na internet às vésperas da votação: 1) a de que Dilma, assustada por quase ter perdido a eleição, em caso de vitória faria “uma guinada à esquerda”, retomando antigas bandeiras que fizeram do PT o PT; 2) a de votar em Dilma “para manter as conquistas sociais” e “evitar o mal maior”, então representado por Aécio e pelo PSDB. Para estes, Dilma Rousseff não era a melhor opção, apenas a menos ruim para o Brasil. E quem pretendia votar branco, anular o voto ou se abster seria uma espécie de traidor da esquerda e também do país e do povo brasileiro, ou ainda um covarde, acusações que ampliaram, às vésperas das eleições, a cisão entre pessoas que costumavam lutar lado a lado pelas mesmas causas. Neste caso, escolhia-se ignorar, acredito que mais por desespero eleitoral do que por convicção, que votar nulo, branco ou se abster também é um ato político.

Faz sentido suspeitar que uma fatia significativa destes que aderiram à Dilma apenas no segundo turno, que ou esperavam “uma guinada à esquerda” ou “evitar o mal maior”, ou ambos, decepcionaram-se com o seu voto depois da escolha de ministros como Kátia Abreu e Joaquim Levy, à direita no espectro político, assim como com medidas que afetaram os direitos dos trabalhadores. Assim, se a eleição fosse hoje, é provável que não votassem nela de novo. Esses arrependidos à esquerda aumentariam o número de eleitores que, pelas mais variadas razões, votaram em branco, anularam ou não compareceram às urnas, tornando maior o número de brasileiros que não se sentem representados por Dilma Rousseff e pelo PT, nem se sentiriam representados por Aécio Neves e pelo PSDB.

Esses arrependidos à esquerda, assim como todos aqueles que nem sequer cogitaram votar em Dilma Rousseff nem em Aécio Neves porque se situam à esquerda de ambos, tampouco se sentem identificados com qualquer um dos grupos que foi para as ruas no domingo contra a presidente. Para estes, não existe a menor possibilidade de ficar ao lado de figuras como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP) ou de defensores da ditadura militar ou mesmo de Paulinho da Força. Mas também não havia nenhuma possibilidade de andar junto com movimentos como CUT, UNE e MST, que para eles “pelegaram” quando o PT chegou ao poder: deixaram-se cooptar e esvaziaram-se de sentido, perdendo credibilidade e adesão em setores da sociedade que costumavam apoiá-los.

Essa parcela da esquerda – que envolve desde pessoas mais velhas, que historicamente apoiaram o PT, e muitos até que ajudaram a construí-lo, mas que se decepcionaram, assim como jovens filhos desse tempo, em que a ação política precisa ganhar horizontalidade e se construir de outra maneira e com múltiplos canais de participação efetiva – não encontrou nenhum candidato que a representasse. No primeiro turno, dividiram seus votos entre os pequenos partidos de esquerda, como o PSOL, ou votaram em Marina Silva, em especial por sua compreensão da questão ambiental como estratégica, num mundo confrontado com a mudança climática, mas votaram com dúvidas. No segundo turno, não se sentiram representados por nenhum dos candidatos.

Marina Silva foi quem chegou mais perto de ser uma figura com estatura nacional de representação desse grupo à esquerda, mais em 2010 do que em 2014. Mas fracassou na construção de uma alternativa realmente nova dentro da política partidária. Em parte por não ter conseguido registrar seu partido a tempo de concorrer às eleições, o que a fez compor com o PSB, sigla bastante complicada para quem a apoiava, e assumir a cabeça de chapa por conta de uma tragédia que nem o mais fatalista poderia prever; em parte por conta da campanha mentirosa e de baixíssimo nível que o PT fez contra ela; em parte por equívocos de sua própria campanha, como a mudança do capítulo do programa em que falava de sua política para os LGBTs, recuo que, além de indigno, só ampliou e acentuou a desconfiança que muitos já tinham com relação à interferência de sua fé evangélica em questões caras como casamento homoafetivo e aborto; em parte porque escolheu ser menos ela mesma e mais uma candidata que supostamente seria palatável para estratos da população que precisava convencer. São muitas e complexas as razões.

O que aconteceu com Marina Silva em 2014 merece uma análise mais profunda. O fato é que, embora ela tenha ganhado, no primeiro turno de 2014, cerca de 2,5 milhões de votos a mais do que em 2010, seu capital político parece ter encolhido, e o partido que está construindo, a Rede Sustentabilidade, já sofreu deserções de peso. Talvez ela ainda tenha chance de recuperar o lugar que quase foi seu, mas não será fácil. Esse é um lugar vago nesse momento.

Há uma parcela politizada, à esquerda, que hoje não se sente representada nem pelo PT nem pelo PSDB, não participou de nenhum dos panelaços nem de nenhuma das duas grandes manifestações dos últimos dias, a de 15 de março várias vezes maior do que a do dia 13. É, porém, muito atuante politicamente em várias áreas e tem grande poder de articulação nas redes sociais. Não tenho como precisar seu tamanho, mas não é desprezível. É com essa parcela de brasileiros, que votou em Lula e no PT por décadas, mas que deixou de votar, ou de jovens que estão em movimentos horizontais apartidários, por causas específicas, que apontam o que de fato deveria preocupar o PT, porque esta era ou poderia ser a sua base, e foi perdida.

A parcela de esquerda que não bateria panelas contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderia, aponta a falência do PT em seguir representando o que representou no passado. Aponta que, em algum momento, para muito além do Mensalão e da Lava Jato, o PT escolheu se perder da sua base histórica, numa mistura de pragmatismo com arrogância. É possível que o PT tenha deixado de entender o Brasil. Envelhecido, não da forma desejável, representada por aqueles que continuam curiosos em compreender e acompanhar as mudanças do mundo, mas envelhecido da pior forma, cimentando-se numa conjuntura histórica que já não existe. E que não voltará a existir. Essa aposta arriscada precisa que a economia vá sempre bem; quando vai mal, o chão desaparece.

Fico perplexa quando lideranças petistas, e mesmo Lula, perguntam-se, ainda que retoricamente, por que perderam as ruas. Ora, perderam porque o PT gira em falso. O partido das ruas perdeu as ruas – menos porque foi expulso, mais porque se esqueceu de caminhar por elas. Ou, pior, acreditou que não precisava mais. Nesse contexto, Dilma Rousseff é só a personagem trágica da história, porque em algum momento Lula, com o aval ativo ou omisso de todos os outros, achou que poderia eleger uma presidente que não gosta de fazer política. Estava certo a curto prazo, podia. Mas sempre há o dia seguinte.

Não adianta ficar repetindo que só bateu panela quem é da elite. Pode ter sido maior o barulho nos bairros nobres de São Paulo, por exemplo, mas basta um pequeno esforço de reportagem para constatar que houve batuque de panelas também em bairros das periferias. Ainda que as panelas batessem só nos bairros dos ricos e da classe média, não é um bom caminho desqualificar quem protesta, mesmo que você ou eu não concordemos com a mensagem, com termos como “sacada gourmet” ou “panelas Le Creuset”. Todos têm direito de protestar numa democracia e muitos dos que ridicularizam quem protestou pertencem à mesma classe média e talvez tenham uma ou outra panelinha Le Creuset ou até pagou algumas prestações a mais no apartamento para ter uma sacada gourmet, o que não deveria torná-los menos aptos nem a protestar nem a criticar o protesto.

Nos panelaços, só o que me pareceu inaceitável foi chamar a presidente de “vagabunda” ou de “vaca”, não apenas porque é fundamental respeitar o seu cargo e aqueles que a elegeram, mas também porque não se pode chamar nenhuma mulher dessa maneira. E, principalmente, porque o “vaca” e o “vagabunda” apontam a quebra do pacto civilizatório. É nesses xingamentos, janela a janela, que está colocado o rompimento dos limites, o esgarçamento do laço social. Assim como, no domingo de 15 de março, essa ruptura esteve colocada naqueles que defendiam a volta da ditadura. Não há desculpa para desconhecer que o regime civil militar que dominou o Brasil pela força por 21 anos torturou gente, inclusive crianças, e matou gente. Muita gente. Assim, essa defesa é inconstitucional e criminosa. Com isso, sim, precisamos nos preocupar, em vez de misturar tudo numa desqualificação rasteira. É urgente que a esquerda faça uma crítica (e uma autocrítica) consistente, se quiser ter alguma importância nesse momento agudo do país.

Também não adianta continuar afirmando que quem foi para as ruas é aquela fatia da população que é contra as conquistas sociais promovidas pelo governo Lula, que tirou da miséria milhões de brasileiros e fez com que outros milhões ascendessem ao que se chamou de classe C. Pessoas as quais é preciso respeitar mais pelo seu passado do que pelo seu presente ficaram repetindo na última semana que quem era contra o PT não gostava de pobres nos aeroportos ou estudando nas universidades, entre outras máximas. É fato que existem pessoas incomodadas com a mudança histórica que o PT reconhecidamente fez, mas dizer que toda oposição ao PT e ao Governo é composta por esse tipo de gente, ou é cegueira ou é má fé.

Num momento tão acirrado, todos que têm expressão pública precisam ter muito mais responsabilidade e cuidado para não aumentar ainda mais o clima de ódio – e disseminar preconceitos já se provou um caminho perigoso. Até a negação deve ter limites. E a negação é pior não para esses ricos caricatos, mas para o PT, que já passou da hora de se olhar no espelho com a intenção de se enxergar. De novo, esse discurso sem rastro na realidade apenas gira em falso e piora tudo. Mesmo para a propaganda e para o marketing, há limites para a falsificação da realidade. Se é para fazer publicidade, a boa é aquela capaz de captar os anseios do seu tempo.

É também por isso que me parece que o grande problema para o PT não é quem foi para as ruas no domingo, nem quem bateu panela, mas quem não fez nem uma coisa nem outra, mas também não tem a menor intenção de apoiá-lo, embora já o tenha feito no passado ou teria feito hoje se o PT tivesse respeitado as bandeiras do passado. Estes apontam o que o PT perdeu, o que já não é, o que possivelmente não possa voltar a ser.

O PT traiu algumas de suas bandeiras de identidade, aquelas que fazem com que em seu lugar seja preciso colocar máscaras que não se sustentam por muito tempo. Traiu não apenas por ter aderido à corrupção, que obviamente não foi inventada por ele na política brasileira, fato que não diminui em nada a sua responsabilidade. A sociedade brasileira, como qualquer um que anda por aí sabe, é corrupta da padaria da esquina ao Congresso. Mas ser um partido “ético” era um traço forte da construção concreta e simbólica do PT, era parte do seu rosto, e desmanchou-se. Embora ainda existam pessoas que merecem o máximo respeito no PT, assim como núcleos de resistência em determinadas áreas, secretarias e ministérios, e que precisam ser reconhecidos como tal, o partido traiu causas de base, aquelas que fazem com que se desconheça. Muitos dos que hoje deixaram de militar ou de apoiar o PT o fizeram para serem capazes de continuar defendendo o que o PT acreditava. Assim como compreenderam que o mundo atual exige interpretações mais complexas. Chamar a estes de traidores ou de fazer o jogo da direita é de uma boçalidade assombrosa. Até porque, para estes, o PT é a direita.

A parcela à esquerda que preferiu ficar fora de manifestações a favor ou contra lembra que tão importante quando discutir a corrupção na Petrobras é debater a opção por combustíveis fósseis que a Petrobras representa, num momento em que o mundo precisa reduzir radicalmente suas emissões de gases do efeito estufa. Lembra que estimular a compra de carros como o Governo federal fez é contribuir com o transporte privado individual motorizado, em vez de investir na ampliação do transporte público coletivo, assim como no uso das bicicletas. É também ir na contramão ao piorar as condições ambientais e de mobilidade, que costumam mastigar a vida de milhares de brasileiros confinados por horas em trens e ônibus lotados num trânsito que não anda nas grandes cidades. Lembra ainda que estimular o consumo de energia elétrica, como o Governo fez, é uma irresponsabilidade não só econômica, mas socioambiental, já que os recursos são caros e finitos. Assim como olhar para o colapso da água visando apenas obras emergenciais, mas sem se preocupar com a mudança permanente de paradigma do consumo e sem se preocupar com o desmatamento tanto da floresta amazônica quanto do Cerrado quanto das nascentes do Sudeste e dos últimos redutos sobreviventes de Mata Atlântica fora e dentro das cidades é um erro monumental a médio e a longo prazos.

Os que não bateram panelas contra o PT e que não bateriam a favor lembram que a forma de ver o país (e o mundo) do lulismo pode ser excessivamente limitada para dar conta dos vários Brasis. Povos tradicionais e povos indígenas, por exemplo, não cabem nem na categoria “pobres” nem na categoria “trabalhadores”. Mas, ao fazer grandes hidrelétricas na Amazônia, ao ser o governo de Dilma Rousseff o que menos demarcou terras indígenas, assim como teve desempenho pífio na criação de reservas extrativistas e unidades de conservação, ao condenar os povos tradicionais ao etnocídio ou à expulsão para a periferia das cidades, é em pobres que são convertidos aqueles que nunca se viram nesses termos. Em parte, a construção objetiva e simbólica de Lula – e sua forma de ver o Brasil e o mundo – encarna essa contradição (escrevi sobre isso aqui), que o PT não foi capaz nem quis ser capaz de superar no poder. Em vez de enfrentá-la, livrou-se dos que a apontavam, caso de Marina Silva.

O PT no Governo priorizou um projeto de desenvolvimento predatório, baseado em grandes obras, que deixou toda a complexidade socioambiental de fora. Escolha inadmissível num momento em que a ação do homem como causa do aquecimento global só é descartada por uma minoria de céticos do clima, na qual se inclui o atual ministro de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo, mais uma das inacreditáveis escolhas de Dilma Rousseff. A síntese das contradições – e também das traições – do PT no poder não é a Petrobras, mas Belo Monte. Sobre a usina hidrelétrica já pesa a denúncia de que só a construtora Camargo Corrêa teria pagado mais de R$ 100 milhões em propinas para o PT e para o PMDB. É para Belo Monte que o país precisaria olhar com muito mais atenção. É na Amazônia, onde o PT reproduziu a visão da ditadura ao olhar para a floresta como um corpo para a exploração, que as fraturas do partido ao chegar ao poder se mostram em toda a sua inteireza. E é também lá que a falácia de que quem critica o PT é porque não gosta de pobre vira uma piada perversa.

A sorte do PT é que a Amazônia é longe para a maioria da população e menos contada pela imprensa do que deveria, ou contada a partir de uma visão de mundo urbana que não reconhece no outro nem a diferença nem o direito de ser diferente. Do contrário, as barbaridades cometidas pelo PT contra os trabalhadores pobres, os povos indígenas e as populações tradicionais, e contra uma floresta estratégica para o clima, para o presente e para o futuro, seriam reconhecidas como o escândalo que de fato são. É também disso que se lembram aqueles que não gritaram contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderiam.

Lembram também que o PT não fez a reforma agrária; ficou aquém na saúde e na educação, transformando “Brasil, Pátria Educadora” num slogan natimorto; avançou muito pouco numa política para as drogas que vá além da proibição e da repressão, modelo que encarcera milhares de pequenos traficantes num sistema prisional sobre o qual o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já disse que “prefere morrer a cumprir pena”; cooptou grande parte dos movimentos sociais (que se deixaram cooptar por conveniência, é importante lembrar); priorizou a inclusão social pelo consumo, não pela cidadania; recuou em questões como o kit anti-homofobia e o aborto; se aliou ao que havia de mais viciado na política brasileira e aos velhos clãs do coronelismo, como os Sarney.

Isso é tão ou mais importante do que a corrupção, sobre a qual sempre se pode dizer que começou bem antes e atravessa a maioria dos partidos, o que também é verdade. Olhar com honestidade para esse cenário depois de mais de 12 anos de governo petista não significa deixar de reconhecer os enormes avanços que o PT no poder também representou. Mas os avanços não podem anular nem as traições, nem os retrocessos, nem as omissões, nem os erros. É preciso enfrentar a complexidade, por toda as razões e porque ela diz também sobre a falência do sistema político no qual o país está atolado, para muito além de um partido e de um mandato.

Há algo que o PT sequestrou de pelo menos duas gerações de esquerda e é essa a sua herança mais maldita. E a que vai marcar décadas, não um mandato. Tenho entrevistado pessoas que ajudaram a construir o PT, que fizeram dessa construção um projeto de vida, concentradas em lutas específicas. Essas pessoas se sentem traídas porque o partido rasgou suas causas e se colocou ao lado de seus algozes. Mas não traídas como alguém de 30 anos pode se sentir traído em seus últimos votos. Este tem tempo para construir um projeto a partir das novas experiências de participação política que se abrem nesse momento histórico muito particular. Os mais velhos, os que estiveram lá na fundação, não. Estes sentem-se traídos como alguém que não tem outra vida para construir e acreditar num novo projeto. É algo profundo e também brutal, é a própria vida que passa a girar em falso, e justamente no momento mais crucial dela, que é perto do fim ou pelo menos nas suas últimas décadas. É um fracasso também pessoal, o que suas palavras expressam é um testemunho de aniquilação. Algumas dessas pessoas choraram neste domingo, dentro de casa, ao assistir pela TV o PT perder as ruas, como se diante de um tipo de morte.

O PT, ao trair alguns de seus ideias mais caros, escavou um buraco no Brasil. Um bem grande, que ainda levará tempo para virar marca. Não adianta dizer que outros partidos se corromperam, que outros partidos recuaram, que outros partidos se aliaram a velhas e viciadas raposas políticas. É verdade. Mas o PT tinha um lugar único no espectro partidário da redemocratização, ocupava um imaginário muito particular num momento em que se precisava construir novos sentidos para o Brasil. Era o partido “diferente”. Quem acreditou no PT esperou muito mais dele, o que explica o tamanho da dor daqueles que se desfiliaram ou deixaram de militar no partido. A decepção é sempre proporcional à esperança que se tinha depositado naquele que nos decepciona.

É essa herança que precisamos entender melhor, para compreender qual é a profundidade do seu impacto no país. E também para pensar em como esse vácuo pode ser ocupado, possivelmente não mais por um partido, pelo menos não um nos moldes tradicionais. Como se sabe, o vácuo não se mantém. Quem acredita em bandeiras que o PT já teve precisa parar de brigar entre si – assim como de desqualificar todos os outros como “coxinhas” – e encontrar caminhos para ocupar esse espaço, porque o momento é limite. O PT deve à sociedade brasileira um ajuste de contas consigo mesmo, porque o discurso dos pobres contra ricos já virou fumaça. Não dá para continuar desconectado com a realidade, que é só uma forma estúpida de negação.

Para o PT, a herança mais maldita que carrega é o silêncio daqueles que um dia o apoiaram, no momento em que perde as ruas de forma apoteótica. O PT precisa acordar, sim. Mas a esquerda também.

Anúncio nas redes sociais promete pagar pela morte de líder do MST

Via Adital

Circula pelas redes sociais da Internet um anúncio que diz “Stédile vivo ou morto”. Apresentando João Pedro Stédile como líder do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] e “inimigo da Pátria”, o autor oferece uma recompensa de R$ 10 mil para quem atender ao seu pedido. “Em outras palavras, incentiva e promete pagar para matar uma pessoa, no caso Stédile, da coordenação nacional do MST”, afirma o Movimento em nota.

Haveria indícios de que a ação criminosa partiu da conta pessoal no Facebook de Paulo Mendonça, guarda municipal de Macaé (Rio de Janeiro). E foi, imediatamente, reproduzida pela maioria das redes sociais que, diariamente, destilam ódio contra os movimentos populares, migrantes, petistas e, agora, especialmente, contra a presidenta Dilma Rousseff [Partido dos Trabalhadores – PT]. São as mesmas redes sociais, em sua maioria, que estão chamando a população para os atos do próximo dia 15 de março, para exigir a saída de Dilma do cargo de Presidenta da República, eleita legítima e democraticamente em 2014.

O MST informa que já foram tomadas as providências, junto às autoridades, para que o autor do cartaz e todos os que estão fazendo sua divulgação, com o mesmo propósito, sejam investigados e responsabilizados criminalmente, uma vez que são autores de crime de incitação à pratica de homicídio.

Para o Movimento, o panfleto é apenas um reflexo dos setores da elite brasileira, que estão dispostos a promoverem uma onda de violência e ódio, com o intuito de desestabilizar o governo e retomar o poder, de onde foram afastados com a vitória petista nas urnas, em 2002.

“Para estes setores não há limites, nem sequer bom senso. Recusam-se a aceitar a vontade da população, manifestada no processo democrático de eleger seus governantes. Deixam-se levar por instintos golpistas, embalados pelo apoio e a conivência da mídia conservadora e antidemocrática. Usam a retórica do combate a corrupção e da necessidade de afastar os que consideram estarem destruindo o país, para flertar com a ruptura democrática. Posam de democráticos esquecendo que os governos da ditadura militar também diziam ser”, assinala a nota.

Leia a íntegra da nota do MST.

Qual modelo de sociedade é perfeito?

Por Tania Jamardo Faillace | Porto Alegre, 15/03/2015

A questão que nos vem angustiando há séculos, em busca da melhor proposta para o melhor mundo possível, dá-se menos em razão da proposta em si, que na metodologia a ser usada para obter a adesão e o consenso, e a aplicação de uma proposta de contrato social que se adeque às necessidades e aspirações das pessoas.

Uma das questões – e não das menores – é como você irá propor um novo contrato que se oponha radicalmente ao que hoje existe, sem ser através da ruptura violenta, – maneira pela qual ocorrem todas as revoluções sociais, sejam populares ou de elite.

Sim, há necessidade de mudar o foco, as metas e diretrizes da sociedade em pauta para chegar onde desejamos.

E daí? Como conseguir isso? Vamos, atualmente, dizer às mega-empresas que elas não devem mais prezar seus lucros e, sim, sua colaboração com as demais pessoas da sociedade onde se estabelecem?

E elas vão aceitar tais argumentações, por quê? Quer mudar quem está por baixo, não quem está ganhando ou acha que está.

Todos os partidos e religiões que se constituíram a partir do que se chama a Antiguidade, propuseram exatamente isto: um novo pacto social.

Mas há uma grande diferença entre o pacto que pode ser fechado numa Assembléia ou até numa Constituinte, e como as coisas funcionam na realidade das transações humanas e econômicas e políticas.

O capitalismo tem como característica a apropriação do produto do trabalho social por uma única pessoa ou grupo econômico, ao invés da distribuição equitativa entre os produtores. Pagas as despesas, inclusive os salários, o que sobra são os lucros, apropriados pelo dono, sejam pessoas ou corporações. Esse lucro pode ser apropriado para o uso pessoal dos donos, ou reinvestido na empresa ou em outras, ou formar um cabedal para aplicações futuras.

No socialismo – que ainda não existe, só na cabeça das pessoas, – esse produto do trabalho social seria distribuído equitativamente entre os produtores reais, uma vez quitadas as despesas. Conforme as regras e normas decididas entre todo o grupo, a distribuição poderia ser total, ou reservar-se uma parte para reinvestimento e continuidade das operações.

O mais próximo disso é a cooperativa AUTÊNTICA, bicho raríssimo, porque, quando criada numa sociedade geralmente capitalista, o sistema hegemônico trata de mantê-la sob controle, ou subornando/cooptando suas direções, ou impondo legislações restritivas que a impedem de concorrer no mercado geral em igualdade de condições. É o que acontece no Brasil.

Uma outra opção é o burocratismo estatal que alguns consideram socialismo, mas não é, uma vez que a direção é centralizada e de natureza político-partidária e não de associação livre, com bases atuantes.

O arcabouço estatal é fundamental para dar coesão ao todo social, organizar e compatibilizar as partes num conjunto harmônico e colaborativo. Mas quando se estabelece na formatagem de uma empresa capitalista, até em suas funções e organograma, se transforma insensivelmente em capitalismo de Estado.

Porém, como seu objetivo não é obter lucros, mas prestar serviços, seus funcionários não se identificam com os macro-propósitos e se comportam como quaisquer funcionários em quaisquer empresas – sem compromisso, e sem qualquer poder de influir no gerenciamento do objeto.

A empresa estatal como empresa definidamente de cunho econômico (caso da Petrobrás, por exemplo) merece um capítulo à parte, que não vai ser aqui.

Isso foi muito discutido nos séculos XIX e XX entre os espartaquistas (grupo da Rosa de Luxemburgo) e no início da revolução bolchevique (Alexandra Kollontai).

O capitalismo de Estado, – que, à primeira vista, pode ser confundido com socialismo, – por sua estruturação vertical, rapidamente se converte em burocratismo, e é aquilo que sabemos.

Mesmo que, em teoria, seja possível fazer uma combinação sábia entre o trabalho individual (aquele que envolve todas as fases da criação do produto, seja intelectual ou material, como texto, invento, artesanato), o trabalho cooperativado, e a ordenação estatal, (a mais capaz de atender a interesses gerais de tipo estratégico), há que se observar que lidamos com o elemento humano, que é instável.

Fiscalizações (no sentido do controle das operações para não emperrarem) e revisões permanentes (para garantir as necessárias adaptações e ajustes a novas circunstâncias) são indispensáveis, e certamente precisam da atenção de todo o corpo social.

Não há sistema à prova de erros ou deturpações. A conscientização e o compromisso das pessoas com o projeto/proposta, mais o gerenciamento permanente são incontornáveis. Ou existem, ou tudo vem abaixo.

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Tania Jamardo Faillace é jornalista e escritora de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Fundadora nacional do Partido dos Trabalhadores, participante da antiga Cooperativa dos Jornalistas de POA, militante sindical (Jornalistas e Intersindical de Porto Alegre), participante do movimento de Renovação Sindical, nos anos 80, jornalista de área técnica/econômica/geral/cidade/polícia, ativista social, autora de seis livros publicados de ficção (novelas,romance,contos) e de um folhetim inédito sobre o Brasil dos anos 70, construído através de 15 anos de pesquisas de campo sobre a realidade brasileira.

América Latina alcança meta mundial de redução da fome, mas prossegue com desigualdades

Por Marcela Belchior | Via Adital

Desde 1990, países trabalham pelo cumprimento da meta. Foto: Reprodução.

Relatório publicado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) aponta a América Latina como a primeira e única região do mundo que alcançou, de maneira antecipada, a meta dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Grande parte dos países da região cumpriu o fim de redução da fome, estabelecido pela Cúpula Mundial da Alimentação (CMA). Segundo a organização, nenhuma outra parte do globo está sequer próxima da conquista.

A meta estipulada pelos ODM é de, no período de 1990 a 2015, reduzir à metade a prevalência de pessoas que sofrem da fome no mundo. Até 2014, no entanto, a América Latina já conseguiu reduzir esta proporção de 14,4% para 5,1%, superando a meta. Nesse mesmo sentido, a CMA propôs que, no mesmo período de tempo, fosse reduzido à metade o número absoluto de pessoas com fome. Também aí os países latino-americanos foram além, diminuindo esse índice de 60,3 milhões de pessoas subalimentadas, em 1990, para 29,5 milhões, no ano passado.

Na comparação do avanço relativo dos países da região, é possível observar que nove países alcançaram 100% do objetivo de redução da subalimentação. São eles Argentina, Brasil, Chile, México, Uruguai, Venezuela, Nicarágua, Panamá e Peru. Os seis primeiros, inclusive, chegaram a uma redução da prevalência da fome abaixo dos 5% da população, percentagem considerada muito além do esperado.

Nos casos da Nicarágua e do Peru, recebem destaque especial na comparação com as circunstâncias de partida dos países. Em 1990, o primeiro país centro-americano registrava 54,4% da população sofrendo de fome. Em 2014, esse índice foi reduzido para 16,8%. Já na nação sul-americana a diminuição nos últimos 24 anos foi de 34,4% para apenas 8,7%.

As nações que ainda não alcançaram a meta estão muito próximas de realizá-la em 2015. A Bolívia já avançou em 97,3% do objetivo, enquanto Honduras caminhou 94,7% e a Colômbia marca o índice de 94,4% de cumprimento. Outros quatro países tiveram avanços limitados e se considera improvável que alcancem o objetivo dentro do prazo estabelecido: Paraguai, com 87,15%; Equador, com 84,5%; El Salvador, com 33,3%; e Guatemala, com apenas 8% de avanço.

Chama a atenção o caso da Costa Rica, único país da região que não apenas não reduziu como aumentou os índices de fome entre a população. A percentagem de costarriquenhos subalimentados foi incrementada em 0,7% durante os últimos 24 anos, passando de 5,2% para 5,9%.

América Latina tem grande produção alimentícia, mas distribuição de riquezas é desigual. Foto: Reprodução.

Para a FAO, o avanço no enfrentamento da fome na região se deve ao compromisso político dos governos, à mobilização de toda a sociedade, ao reforço de sistemas de proteção social, com medidas para apoiar a produção (especialmente a agricultura familiar), além do desenvolvimento e fortalecimento dos marcos legais que permitem consolidar as conquistas e dotar recursos orçamentários à causa.

Esse panorama positivo e esperançoso para a suplantação de um dos mais graves problemas da humanidade, porém, continua marcado por desigualdades. Ainda que haja avanços nas políticas sociais e econômicas, a fome persiste na região. Segundo o diretor-geral da FAO, José Graziano, as causas da fome de 29,5 milhões de pessoas na América Latina não estão na falta de alimentos, mas porque parte da população não tem acesso a eles. “Na América Latina, há uma disponibilidade de alimentos como não existe em nenhuma outra parte do mundo”, destaca Graziano. Segundo ele, o problema no continente é a distribuição da riqueza e o emprego precário. “Porque os salários são muito baixos devido ao excedente de mão de obra”, acrescenta.

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Marcela Belchior é jornalista da Adital. Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), estuda as relações culturais na América Latina.