Luiz Carlos Cruz – O artigo foi publicado em 2011 no blog do Pedro Porfírio.
Creio que muitas considerações citadas, ajudam a decifrar os que ainda ficam perplexos com o enigma de Lula, do neo-PT, da CUT.
Talvez o texto nos ajuda a entender, porque Lula e o neo-PT não abraçam medidas em defesa da Soberania Nacional.
No artigo, são citados o falecido geólogo João Victor, o Fernando Siqueira.
“Por que Lula favoreceu os trustes ao garantir-lhes a devolução em petróleo dos royalties pagos”
Tania Faillace – Uma passada de olhos confere e confirma os rumores já existentes ao final dos anos 70.
Com relação ao PT, foi uma ideia evoluída das comunidades eclesiais de base e sua aproximação com a massa operária (na Europa, nos anos 60, havia os padres operários, já leram a respeito?), que tomou visibilidade na greve de Osasco.
Na fundação, tornaram-se evidentes os grupos interessados na efetivação da proposta: parte do PMDB que queria atrapalhar a ressurreição do Brizola (isso também é verdade, mas somente uma parte dela); a chamada elite operária paulista; uma massa obreirista (obreirista de fato, trabalhadores provindos dos rincões brasileiros mais distantes, que viajaram com uma única refeição por dia, como costumam usar os nordestinos pobres – a lata de farinha com torresmo), e um segmento sindical de vanguarda identificado com essa massa obreirista (como os então representantes do Sul).
Lula não queria, não estava interessado.
Quando o ambiente esquentou, ele foi dormir. Exatamente isso: foi dormir e pediu que não o acordassem.
Foram José Dirceu e José Ibrahim que lhe pediram socorro, quando a rachadura se tornou inevitável pela recusa da ala peemedebista e principalmente da elite sindical paulista, de aceitar a participação dos trabalhadores pobres (nordestinos, paulistas e de outros locais, que constituíam a esquerda junto conosco, do Sul – ainda não havia trotskistas no caldeirão).
Já nos preparávamos para fazer uma reunião paralela no pátio do colégio, quando apareceu Lula e botou água na fervura, abrindo para a conciliação (ele é um verdadeiro mestre, não há como negar).
Quem acabou caindo fora foi aquela ala do PMDB.
Mas já dá para perceber que muitas outras forças, não assumidas, deviam estar presentes. Aliás, essa é a dinâmica de todos os grupos de atuação social, sem exceção.
É assim que os seres humanos se organizam, desde que abandonaram sua inicial formação comunal e democrática da taba e tribo.
Voltamos.
Rogério Lessa – Leio hoje a notícia que o governo “estuda ampliar a participação das estrangeiras de 20% para 49%” em nosso mercado interno para companhias aéreas. Lula e seu grupo não salvaram a Varig, como fez Brizola, que passou aos funcionários o controle da empresa – Brizola fez o mesmo com a Ciferal, no Rio. O PT (o velho e o novo), visto como mais à esquerda do que Brizola, não fez reforma agrária e manteve a base (tripé?) do processo de recolonização/desindustrialização do Brasil. Agora, com o populismo cambial em xeque, a direita usa a inflação contra o governo, sem tocar nas causas dessa inflação, com estagnação.
Tania Faillace – Aconteceu com o PT o mesmo que aconteceu com o trabalhismo, quando Brizola perdeu a sigla para a Ivete Vargas. Foi infiltrado.
O PTB virou sigla para igrejas (?) pentecostais; o PDT virou esconderijo de grandes empresários, o PT atraiu intermediários ainda mais espertos.
Os PCs nunca atraíram elites abonadas, pela rijeza de seus programas, manifestos e regulamentos. Mesmo assim, Aldo Rebello abanou a cauda e seguiu as instruções do agronegócio para elaborar seu Código Florestal.
Vi a carinha dele a dois metros da minha e seu sorriso simpático quando o sabatinamos em Porto Alegre, junto com uma tropa de choque catarinense, do PDT, que me lembrou os tempos da ditadura até pelo jeito de olhar.
Não há organização à prova de infiltração, sequer de arrombamento.
A Igreja foi fundada para promover o amor universal, e criou uma rede de corrupção e banditismo e maus costumes que dariam inveja a Calígula, no Império Romano. Mas pariu alguém como João XXIII, contraditoriamente.
Então, em termos de política, religião, associações sindicais ou de bairro, não há como imitar o torcedor de futebol – ser contra ou a favor só por causa da cor da camiseta.
Temos, sim, a cada vez, que analisar: onde foi o furo?
Quer dizer, onde se perdeu a intenção original? A que ponto ela está perdida ou pode ser resgatada. Conheço um pouco o PDT, mas não tão bem como conheço o PT e o movimento sindical.
E não conheço um filtro infalível para identificar e triar os oportunistas antes que eles entrem em tal e qual organização e a subvertam gradualmente.
Com o tempo, claro, adquire-se experiência e feeling farejador para localizar o safado, por melhor caracterizado que esteja. Mas isso leva tempo.
Deve-se, porém, fugir às generalizações e simplificações, porque elas podem ser ótimas num teste de palavras cruzadas, mas são terríveis para tentar compreender a vida real, que é complexa e contraditória por natureza.
Como lhe disse, sei alguma coisa do PDT, mas não tudo, obviamente, e assisti a injustiças tremendas cometidas por Brizola, que depois deve ter-se arrependido delas, pois acabou cercado por um bando de hienas, que só esperavam usar seu nome para legitimar-se. Era essa a fraqueza do Brizola: ser sensível à lisonja, sem distinguir a admiração sincera da bajulação hipócrita e interesseira. Depois, pela ação do safado, ele o identificava, mas costumava ser tarde. Foi por isso que a Dilma e vários outros saíram do PDT, pois foram atingidos por uma intriga feita por aqueles velhos raposões que cercavam Brizola dia e noite.
Bom, no PT, desde o início havia propostas conflitantes e a luta foi constante, e terminava mais ou menos 0×0 ou 1×1. Até que o Sr. Dirceu foi guindado ao posto de presidente do partido (para pô-lo à disposição de forças opostas). Afastou Frei Betto, que era o superego de Lula, e instalou-se ele.
Assisti pessoalmente a todo o processo posterior, inclusive o momento em que Lula conseguiu que Olívio deixasse de concorrer – estava no corredor da sede de Porto Alegre, junto dos dois, e meti em vão minha colher. Foi quando me “bateu” que algo estava sendo cozinhado.
Sua obra-prima (do Dirceu) foi revogar o manifesto pró-socialista original, e instalar a filiação online, que pode ser útil para uma entidade recolhedora de contribuições benemerentes, mas nunca para uma organização político-ideológica.
O próprio mensalão… aposto qualquer coisa como foi uma artimanha voluntarista. Mensalões existem por todo o canto antes de nascermos, e uma das pegadinhas usuais na Câmara de Porto Alegre, por muito tempo foi identificar o “o homem da mala”. A ponto de haver quem se achegasse (pessoal do público, da galera) e perguntasse: quem é que vai receber hoje? e os circundantes rirem. Até que eles, os corruptores, aperfeiçoassem o sistema, denunciado vezes sem conta ao Ministério Público daqui sem o menor resultado.
Então o mensalão existe por toda a parte, e usando um pouco de habilidade, ninguém prova nada. Por que José Dirceu inventou um sistema transparente, detectável de primeira? Para ser detectado, justamente, e envolver o partido num escândalo de natureza de “propina”, o único escândlo que comove o brasileiro (podem pegar fogo em toda a Amazônia, envenenar a praia de Bertioga, estuprar todas as criancinhas de uma creche, que o brasileiro nem pisca, mas falou em propina, ele salta). E porque o Dirceu dispensou o tesoureiro costumeiro do PT e fez aquela dobradinha Delúbio e Valério? Porque manejava o Delúbio, e conhecia bem o Valério para combinar as coisas com ele, DENTRO DO PSDB.
Evidentemente são deduções ao estilo de Hercule Poirot, mas fáceis de comprovar.
Nós, no Sul, chiamos, pulamos, gritamos, contra a contratação do Valério, mas ele era indispensável para o plano que se tramava.
O mensalão foi feito para ser descoberto. Uma bandeira falsa. E comprometer a eventual esquerda que ainda estivesse dentro do partido. As outras esquerdas são folclóricas, ninguém as leva a sério, e apesar de contarem também com gente boa, não têm estrutura nem cacife para se opor ao golpe que está sendo preparado.
Já ouviu falar do Cabo Anselmo?
Pois refresque a memória a respeito.
O Sr. Dirceu era da direção da UNE. Em 1968, nenhum estudante sabia onde seria o congresso e exatamente quando, até as vésperas. A repressão sabia tudo a respeito. Quem contou? Escolheram um lugarzinho titico, e já no primeiro dia encomendaram desjejum para alguns milhares de pessoas. Os bares da localidade, dizem, tiveram que ir buscar pão em cidades próximas.
Que é que você acha?
Querem despejar a Dilma, tanto para interromper as investigações atuais, como para permitir que seja dado um golpe branco ou sangrento (pouco importa) e assuma alguém mais simpático ao Tio Sam.
Lula pediu a Dilma que afastasse o Mercadante; ela praticamente o mandou lamber sabão – não com essas palavras, claro. Deu para perceber onde se faz um diferencial?
Ontem, num encontro, tive a oportunidade de ver os divisores de águas.
Politica é coisa muito dura. Jogar xadrez é mais fácil porque tem regras certas.