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Leonardo Boff: O que se esconde atrás do ódio ao PT (I e II)?

Por Leonardo Boff | Via Jornal GGN

O que se esconde atrás do ódio ao PT (I)?, por Leonardo Boff

Há um fato espantoso mas analiticamente explicável: o aumento do ódio e da raiva contra o PT. Esse fato vem revelar o outro lado da “cordialidade” do brasileiro, proposta por Sérgio Buarque de Holanda: do mesmo coração que nasce a acolhida calorosa, vem também a rejeição mais violenta. Ambas são “cordiais”: as duas caras passionais do brasileiro.

Esse ódio é induzido pela mídia conservadora e por aqueles que na eleição não respeitaram rito democrático: ou se ganha ou se perde. Quem perde reconhece elegantemente a derrota e quem ganha mostra magnanimidade face ao derrotado. Mas não foi esse comportamento civilizado que triunfou. Ao contrário: os derrotados procuram por todos os modos deslegitimar a vitória e garantir uma reviravolta política que atendesse a seu projeto, rejeitado pela maioria dos eleitores.

Para entender, nada melhor que visitar o notório historiador, José Honório Rodrigues que em seu clássico Conciliação e Reforma no Brasil (1965) diz com palavras que parecem atuais:

”Os liberais no império, derrotados nas urnas e afastados do poder, foram se tornando além de indignados, intolerantes; construíram uma concepção conspiratória da história que considerava indispensável a intervenção do ódio, da intriga, da impiedade, do ressentimento, da intolerância, da intransigência, da indignação para o sucesso inesperado e imprevisto de suas forças minoritárias” (p. 11).

Esses grupos prolongam as velhas elites que da Colônia até hoje nunca mudaram seu ethos. Nas palavras do referido autor: “a maioria foi sempre alienada, antinacional e não contemporânea; nunca se reconciliou com o povo; negou seus direitos, arrasou suas vidas e logo que o viu crescer lhe negou, pouco a pouco, a aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence”(p.14 e 15). Hoje as elites econômicas continuam a abominar o povo. Só o aceitam fantasiado no carnaval. Mas depois tem que voltar ao seu lugar na comunidade periférica (favela).

Lamentavelmente, não lhes passa pela cabeça que “as maiores construções são fruto popular: a mestiçagem racial, que criava um tipo adaptado ao país; a mestiçavel cultural que criava uma síntese nova; a tolerância racial que evitou o descaminho dos caminhos; a tolerância religiosa que impossibiltou ou dificultou as perseguições da Inquisição; a expansão territorial, obra de mamelucos, pois o próprio Domingos Jorge Velho, devassador e incorporador do Piaui, não falava português; a integração psico-social pelo desrespeito aos preconceitos e pela criação do sentimento de solidariedade nacional; a integridade territorial; a unidade de língua e finalmente a opulência e a riqueza do Brasil que são fruto do trabalho do povo. E o que fez a liderança colonial (e posterior)? Não deu ao povo sequer os benefícios da saúde e da educação, o que levou Antônio Vieira a dizer:’Não sei qual lhe faz maior mal ao Brasil, se a enfermidade, se as trevas”(p. 31-32).

A que vêm estas citações? Elas reforçam um fato histórico inegável: com o PT, esses que eram considerados carvão no processo produtivo (Darcy Ribeiro) e o rebutalho social, conseguiram, numa penosa trajetória, se organizar como poder social que se transformou em poder político no PT e conquistar o Estado com seus aparelhos. Apearam do poder, pelo voto, as classes dominantes; não ocorreu simplesmente uma alternância de poder mas uma troca de classe social, base para um outro tipo de política. Tal saga equivale a uma autêntica revolução social, pacífica e de cunho popular.

Isso é intolerável para as classes poderosas que se acostumaram a fazer do Estado o seu lugar natural e de se apropriar privadamente dos bens públicos pelo famoso patrimonialismo, denunciado por Raymundo Faoro.

Por todos os modos e artimanhas querem ainda hoje voltar a ocupar esse lugar que julgam de direito seu. Seguramente, começam a dar-se conta de que, talvez, nunca mais terão condições históricas de refazer seu projeto de dominação/conciliação. Outro tipo de história política dará, finalmente, um destino diferente ao Brasil.

Para eles, o caminho das urnas se tornou inseguro pelo nível crítico alcançado por amplos estratos do povo que rejeitaram seu projeto político de alinhamento neoliberal ao processo de globalização, como sócios dependentes e agregados. O caminho militar será hoje impossível dado o quadro mundial mudado. Cogitam com a esdrúxula possibilidade da judicialização da política, contando com aliados na Corte Suprema que nutrem semelhante ódio ao PT e sentem o mesmo desdém pelo povo.

Através deste expediente, poderiam lograr um impeachment da primeira mandatária da nação. É um caminho conflituoso pois a articulação nacional dos movimentos sociais tornaria arriscado este intento e talvez até inviável.

O ódio contra o PT é menos contra PT do que contra o povo pobre que por causa do PT e de suas políticas sociais de inclusão, foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas. Estas pensam em fazer, com boa consciência, apenas caridade, doando coisas, mas nunca buscando a justiça social.

Antecipo-me aos críticos e aos moralistas: mas o PT não se corrompeu? Veja o mensalão? Veja a Petrobrás? Não defendo corruptos. Reconheço, lamento e rejeito os malfeitos cometidos por um punhado de dirigentes. Devem ser julgados, condenados à prisão e até expulsos do PT. Traíram mais de um milhão de filiados e principalmente botaram a perder os ideais de ética e de transparência. Mas nas bases e nos municípios – posso testemunhá-lo em dezenas de assessorias – vive-se um outro modo de fazer política, com participação popular, mostrando que um sonho tão generoso não se deixar matar assim tão facilmente: o de um Brasil menos malvado, mais digno, justo pacífico. As classes dirigentes, por 500 anos, no dizer rude de Capistrano de Abreu, “castraram e recastraram, caparam e recaparam” o povo brasileiro. Há maior corrupção histórica do que esta?

Voltaremos ao tema.

O que se esconde por trás do ódio ao PT(II)?

Já dissemos anteriormente e o repetimos: o ódio disseminado na sociedade e nas mídias sociais, não é tanto ao PT, mas àquilo que o PT propiciou para as grandes maiorias marginalizadas e empobrecidas de nosso país: sua inclusão social e a recuperação de sua dignidade. Não são poucos os beneficiados dos projetos sociais que testemunharam: “sinto-me orgulhoso não porque posso comer melhor e viajar de avião, coisa que jamais poderia antes, mas porque agora recuperei minha dignidade”. Esse é o mais alto valor político e moral que um governo pode apresentar: não apenas garantir a vida do povo, mas faze-lo sentir-se digno, alguém participante da sociedade.

Nenhum governo antes em nossa história conseguiu esta façanha memorável. Nem havia condições para realizá-la porque nunca houve interesse em fazer das massas exploradas de indígenas, escravos e colonos pobres, um povo consciente e atuante na construção de um projeto-Brasil. Importante era manter a massa como massa, sem possibilidade de sair da condição de massa, pois assim não poderia ameaçar o poder das classes dominantes, conservadoras e altamente insensíveis aos padecimentos do próximo. Essas elites não amam a massa empobrecida. Mas tem pavor de um povo que pensa, pois faz valer seus direitos e pode ameaçar os privilégios dela.

Para conhecer esta anti-história aconselho aos políticos, aos pesquisadores e aos leitores/as que leiam o estudo mais minucioso que conheço:”a política de conciliação: história cruenta e incruenta”, um largo capítulo de 88 páginas do clássico “Conciliação e reforma no Brasil” de José Honório Rodrigues (1965 pp. 23-111). Ai se narra, como a dominação de classe no Brasil, desde Mende de Sá até os tempos modernos, foi extremamente violenta e sanguinária, com muitos fuzilamentos e enforcamentos e até de guerras oficiais de extermínio dirigidas contra tribos indígenas como contra os botocudos em 1808.

Também seria falso pensar que as vítimas tiveram um comportamento conformista. Ao contrário, reagiram também com rebeliões e violência. Foi a massa indígena e negra, mestiça e cabocla a que mais lutou e que foi reprimida cruelmente, sem qualquer piedade cristã. Nosso solo ficou ensopado de sangue.

As minorias ricas e dominantes elaboraram uma estratégia de conciliação entre si, por cima da cabeça do povo e contra o povo, para manter a dominação. O estratagema sempre foi mesmo. Como escreveu Marcel Burstztyn (O país das alianças: as elites e o continuismo no Brasil, 1990): “o jogo nunca mudou; apenas embaralharam-se diferentemente as cartas do mesmo e único baralho.”

Foi a partir da política colonial e continuada até recentemente que se lançaram as bases estruturais da exclusão no Brasil, como foi mostrado por grandes historiadores, especialmente por Simon Schwartzman com o seu “Bases do autoritarismo brasileiro” (1982) e Darcy Ribeiro com seu grandioso “O povo Brasileiro” (1995).

Existe, pois, com raízes profundas, um desprezo pelo povo, gostemos ou não. Esse desprezo atinge o nordestino, tido por ignorante (quando a meu ver é extremamente inteligente, vejam seus escritores e artistas), os afrodescendentes, os pobres econômicos em geral, os moradores de favelas (comunidades), e aqueles que têm outra opção sexual.

Ocorre que irrompeu uma mudança profunda graças às políticas sociais do PT: os que não eram começaram a ser. Puderam comprar suas casas, seu carrinho, entraram nos shoppings, viajaram de avião às multidões, tiveram acesso a bens antes exclusivos das elites econômicas.

Segundo o pesquisador Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade social no Brasil : 45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas 5 mil famílias extensas. Estas são nossas elites. Vivem de rendas e da especulação financeira, portanto, ganham dinheiro sem trabalho. Pouco o nada investem na produção para alavancar um desenvolvimento necessário e sustentável.

Veem, temerosas, a ascensão das classes populares e de seu poder. Estas invadem seus lugares exclusivos. No fundo, começa a haver uma pequena democratização dos espaços sociais.

Essas elites formaram, atualmente, um bloco histórico cuja base é constituida pela grande mídia empresarial, jornais, revistas e canais de televisão, altamente censuradores do povo, pois lhe ocultam fatos importantes, banqueiros, empresários centrados nos lucros, pouco importa a devastação da natureza e ideólogos (não são intelectuais) que se especializaram em criticar tudo o que vem do governo do PT e fornecem superficialidades intelectuais em defesa do status quo.

Esta constelação anti-popular e até anti-Brasil suscita, nutre e difunde ódio ao PT como expressão do ódio contra aqueles que Jesus chamou de “meus irmãos e irmãs menores”, os humilhados e ofendidos de nosso pais.

Como teólogo me pergunto angustiado: na sua grande maioria, essas elites são de cristãos e de católicos. Como combinam esta prática perversa com a mensagem de Jesus? O que ensinaram as muitas Universidades Católicas e as centenas de escolas cristãs para permitirem surgir esse movimento blasfemo, pois, atinge o próprio Deus que é amor e compaixão e que tomou partido pelos que gritam por vida e por justiça?

Mas entendo, pois para elas vale o dito espanhol: entre Deus e o dinheiro, o segundo é primeiro.

Infelizmente.

***

Sugestão via e-mail da participante do grupo Desenvolvimentistas, Fátima Magalhães:

Segue entrevista com o economista Marcio Pochmann e dois artigos do teólogo Leonardo Boff no Jornal GGN que – juntos – talvez possam nos ajudar a refletir na tentativa de entender um pouco mais acerca das tramas tecidas neste delicado momento politico que está a brotar no Brasil. Destas singulares publicações, destaco trechos nos quais o Prof. Marcio Pochmann e o Teol. Leonardo Boff parecem confluir para uma mesma questão central, segundo dados e interpretações que lhes são próprias.

“Nessa primeira década do século 21 a gente conseguiu ter um crescimento econômico importante, forte, significativo, combinado com democracia e política de distribuição de renda, de maneira geral. Esses três elementos, o regime político, o econômico e o social, não se combinaram dessa mesma forma nos últimos 50 anos.”

“Nós somos um país que se constituiu em cima da desigualdade. Nós somos um país herdeiro de quatro séculos de escravidão. A desigualdade é uma marca do Brasil. Na medida em que essa desigualdade começa a ser atacada, de certa maneira, ela termina expressando certo desconforto. Porque há vários sinais de manifestação em relação a essa circunstância.” Marcio Pochmann

“Segundo o pesquisador Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade social no Brasil : 45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas 5 mil famílias extensas. Estas são nossas elites. Vivem de rendas e da especulação financeira, portanto, ganham dinheiro sem trabalho. Pouco ou nada investem na produção para alavancar um desenvolvimento necessário e sustentável.” Leonardo Boff, citando estudo de Marcio Pochmann e cols.

Há uma mudança geográfica no Brasil, aponta Marcio Pochmann

Por Pamela Mascarenhas | Via Jornal do Brasil

Marcio Pochmann. Brics Policy Center

A realidade social brasileira melhorou expressivamente durante a última década e o país diminuiu o grau de exclusão social. A desigualdade regional, contudo, continua marcante, aponta o segundo volume do Atlas da Exclusão Social no Brasil lançado agora pela Cortez Editoria. Marcio Pochmann, um dos coordenadores da obra, em conversa com o JB, destacou a necessidade de políticas que possam ser adotadas regionalmente, de acordo com distintas realidades. Não há, ainda, garantia para esses avanços. Enquanto isso, o país ainda precisa lidar com os efeitos das conquistas, que geraram, entre outras coisas, mudanças geográficas no país, com reflexo no sentimento de representação de novas elites, por exemplo.

“O Brasil convive com uma mudança no próprio regime migratório. Antes, havia uma atração muito grande da população para as regiões Sul, e houve uma migração reversa, de pessoas que voltaram para os seus estados de origem. Então, há uma mudança geográfica no Brasil”, destacou Pochmann. “Em função desse processo de transformação que o Brasil vem vivendo, nós temos o surgimento de novas elites, elites regionais, elites do interior do Brasil, em outros estados, e essas elites, no nosso modo de ver, elas também não encontram muita repercussão nas estruturas de representação que nós temos hoje.”

Para o professor, o mundo inteiro enfrenta agora um quadro dramático, com países de grande peso na economia mundial crescendo bem menos do que cresciam, o que impõe maiores dificuldades. Uma saída pelos países ricos, então, parece improvável. A solução poderia vir de outros como o Brasil, por intermédio de medidas adotadas no âmbito do Brics, por exemplo. “A criação desse banco, do fundo de reserva e agora a possibilidade de criar uma agência de avaliação de risco também no âmbito dos Brics revela o fato mais importante ocorrido, ao meu modo de ver, desde o acordo de Bretton Woods de 1944. Mas ainda é um processo lento.”

O Atlas da Exclusão Social no Brasil Volume 2, diferente da versão lançada em 2014, que se reportava somente aos dados censitários do ano de 2010, apresenta um panorama geral das mudanças sociais que aconteceram no país durante a primeira década do século 21. Os autores, André Campos, Daniel Castro, Ricardo Amorim, Marcos Paulo Oliveira e Rodrigo Coelho analisaram uma década (2000-2010) falam sobre a realidade social brasileira. O livro tem coordenação de Pochmann, Alexandre Guerra e Ronnie Aldrin Silva.

Confira a entrevista com Marcio Pochmann:

JB – Vocês lançam agora o volume 2 do atlas da exclusão social, para atualizar estudos anteriores e dar um filme do 2000-2010, em complemento à fotografia oferecida no volume primeiro. Que filme é esse?

Marcio Pochmann – Os dados que nós dispomos e trabalhamos de forma temática são, na sua grande maioria, fundamentados pelo censo demográfico. Nós tivemos a oportunidade de aplicar essa metodologia pela primeira vez no início dos anos 2000, com base no senso de 2000. Depois, até retroagimos no tempo utilizando sensos anteriores. Então, nós tínhamos mais ou menos uma imagem do que era o Brasil nas regiões fundamentais do século 20, e era uma imagem de desconexão entre o comportamento econômico e o progresso social, mais evidente disso foi em 1980. O Brasil era considerado 8ª economia do mundo e situava no terceiro posto do ranking internacional de desigualdade. Então, essa é uma marca do século passado.

No ano 2000, nós já havíamos observado um retrocesso inclusive do índice econômico e social, porque o Brasil havia sido a 8ª economia nos anos 1980 e no ano 2000 havia retroagido à posição de 13º país, e havia um quadro social mais alarmante do que em 1980 em virtude da expansão do desemprego. Tínhamos em 1980 uma taxa de desemprego de 2,7% da força de trabalho e no ano 2000 uma taxa de desemprego de 15% da força de trabalho. Havia tido uma piora da participação da renda do trabalho na renda nacional, enfim, foi isso que foi exposto naquela publicação.

Agora, é a oportunidade de atualizar essas informações. Se percebe, na verdade, uma inflexão, tanto econômica, quanto social, porque o comportamento de economia da primeira década do século, falando até o ano de 2010, o comportamento econômico foi favorável, digamos assim, e se combinou, inclusive, com uma melhora generalizada nos indicadores sociais.

Nosso entendimento é que o Brasil conseguiu registrar pela primeira vez, nos últimos 50 anos, uma tríade convergente. O que eu quero dizer com isso? Nessa primeira década do século 21 a gente conseguiu ter um crescimento econômico importante, forte, significativo, combinado com democracia e política de distribuição de renda, de maneira geral. Esses três elementos, o regime político, o econômico e o social, não se combinaram dessa mesma forma nos últimos 50 anos.

Se a gente pegar, por exemplo, entre os anos de 1960 e 1970, que foram anos inclusive que o crescimento econômico foi muito mais forte do que o verificado na primeira década deste século, esse crescimento econômico muito mais forte dos anos 60/70 se deu num quadro de regime autoritário, sem participação social, e ao mesmo tempo ausência de políticas de redistribuição de renda. Então, o resultado de crescimento acabou sendo um crescimento econômico bem desassociado de avanços sociais.

Já nos anos 1980 e 1990, que são anos em que o Brasil recupera a democracia e, portanto a participação social mais alongada, lamentavelmente, o Brasil praticamente não cresceu. Então havia democracia, havia contribuição de políticas distributivas que a constituição de 88 estabeleceu, mas não havia o que distribuir porque a economia praticamente não cresceu. Então, somente nesses primeiros anos 2000 é que você terminou tendo a oportunidade de combinar crescimento, democracia e distribuição de renda.

Os resultados finais são resultados bastante interessantes, especialmente numa década, década dos anos 2000, que apontou para, sobretudo, os países ricos, que eram inclusive referência para o Brasil, que eram Estados Unidos, a Europa, de maneira geral, países que havia conseguido reduzir desigualdade, pobreza, crescer de forma sustentada com pleno emprego, eram referência para o Brasil, mas já nos anos 2000 são países que apresentam um sinal inverso, são países que apresentam aumento da pobreza, desigualdade, o crescimento é relativamente muito baixo. Então, de certa maneira, o Brasil assumiu uma posição singular porque conseguiu oferecer resultados que anteriormente se verificava apenas por países ricos, quando agora eles mesmos não conseguem mais oferecer.

Há uma inflexão na trajetória, pelo menos nos últimos 50 anos, que a gente tem condição de analisar com dados oficiais.

O livro fala que é um bom começo ter claro que o Brasil avançou na última década, mas que fez isso de uma maneira desigual, e fala na importância de “enfrentar desigualmente as diferentes misérias”. Como é isso? O país tem ferramentas ou é um caminho ainda distante para acabar com essa marca da desigualdade?

A desigualdade não é uma desigualdade apenas social, mas uma desigualdade territorial. Os indicadores melhoraram, pelo menos aqueles que nós tomamos como referência. Só o indicador de violência que cresceu e coloca o Brasil realmente numa situação internacional bastante desfavorável em relação ao problema da violência. O que o livro quer chamar a atenção é que no Brasil nós não temos experiência de política públicas que seriam adotadas de maneira regional, elas, de maneira geral, são de caráter nacional, olham o Brasil como um todo. E o que nós percebemos é que essas políticas nacionais têm um impacto diferenciado no país em função de realidades distintas.

Mas nós não temos, infelizmente, uma boa capacidade dos estados fazerem uma intervenção mais adequada à realidade em que eles se encontram. Os estados do Brasil tinham uma capacidade de intervenção maior, praticamente, até os anos 1990, e eles foram perdendo capacidade de intervenção, seja por um processo de centralização política seja por programas nos anos 1990, que foram de certa maneira reduzindo a capacidade de intervenção do estado pela centralização que ocorreu especialmente no âmbito da política econômica. Até os anos 1980, por exemplo, cada estado tinha seu banco de desenvolvimento. Hoje, não temos mais banco de desenvolvimento nos estados. Então, a nosso modo de ver, o Brasil precisaria ter um olhar mais regional mais diferenciado, do que tem atualmente a partir das políticas nacionais.

De qualquer forma, foi grande a intensidade das mudanças ocorridas na última década, principalmente na região Norte e Nordeste?

O mais importante é essa inflexão que conseguiu realizar nos anos 2000. Mas, obviamente, como nós partimos de uma base tão grande de desigualdade, é absolutamente necessário que se mantenha essa unidade da democracia, de crescimento econômico, políticas distributivas, para poder fazer com que o Brasil se estabeleça num patamar minimamente civilizado. Porque nós temos ainda indicadores de sociedade muito primitiva.

Um artigo seu do mês passado dizia que esse Brasil menos desigual parece não agradar alguns. Que cenário é este que está montado?

Nós somos um país que se constituiu em cima da desigualdade. Nós somos um país herdeiro de quatro séculos de escravidão. A desigualdade é uma marca do Brasil. Na medida em que essa desigualdade começa a ser atacada, de certa maneira, ela termina expressando certo desconforto. Porque há vários sinais de manifestação em relação a essa circunstância. Nós até estamos fazendo um outro estudo que mostra a mudança no regionalismo brasileiro. O novo federalismo, que aponta justamente certa inversão de protagonismo.

Nós tínhamos, praticamente, a região Sul, São Paulo como protagonistas do Brasil. O que ocorreu, nessa primeira década do século, pelo menos, foi uma expansão econômica mais consistente, com melhores resultados no Nordeste, no Centro-Oeste. O Brasil, inclusive, convive com uma mudança no próprio regime migratório. Antes, havia uma atração muito grande da população para as regiões Sul, e houve uma migração reversa, de pessoas que voltaram para os seus estados de origem. Então, há uma mudança geográfica no Brasil.

Há uma disputa, até porque, em função desse processo de transformação que o Brasil vem vivendo, nós temos o surgimento de novas elites, elites regionais, elites do interior do Brasil, em outros estados, e essas elites, no nosso modo de ver, elas também não encontram muita repercussão nas estruturas de representação que nós temos hoje, sejam eles sindicatos, partidos, enfim, agremiações que são elementos fundamentais para o processo democrático.

O senhor acha que essas conquistas podem ser perdidas?

Não há garantia que elas sejam para toda a vida, até porque a referência que nós tínhamos aqui no Brasil, que eram os países europeus, sobretudo, mesmo os Estados Unidos, convivem com sinais de retrocesso. Então, do meu modo de ver, não há garantia que não seja essa combinação que se mostrou bastante efetiva, de você ter democracia, ter política distributiva e ter crescimento econômico. A falha de uma delas pode certamente comprometer essa trajetória.

Este segundo volume do Atlas também fala de um desgaste próprio desse caminho adotado nos últimos anos. Isso determina a necessidade de uma mudança?

O desgaste se dá pelo fato de que o êxito traçado, pelo menos no nosso modo de ver, nesses primeiros 10 anos do século, é um êxito que encontra limites, porque são avanços que de certa maneira não colocaram em xeque questões históricas mais importantes. Ao nosso ponto de ver, a distribuição das oportunidades seria mais efetiva se nós tivéssemos condições de fazer algumas reformas. São reformas já defendidas há muito tempo, sem que o Brasil tenha tido oportunidade de realizá-las. A mais inegável delas é a própria reforma tributária, que há uma desigualdade enorme na forma com que o Brasil arrecada seus recursos.

Certamente, o que aconteceu na primeira década foi uma certa progressividade no gasto, mas não há progressividade na arrecadação, isso distorce certamente a capacidade do Estado ser mais eficaz nas suas políticas públicas. Nós temos, se a gente olhar o universo de políticas públicas brasileiras, há políticas de corte mais voltadas para a renda. As políticas de assistência social, por exemplo, estão mais voltadas para as regiões mais pobres. Mas quando a gente começa a olhar a política pública, por exemplo, no âmbito da Cultura, os principais teatros, os principais equipamentos culturais não estão nas regiões mais pobres. Não estão nas regiões onde a população mais carente mora. Em geral, os equipamentos de cultura estão nos centros das grandes cidades, nos principais centros onde mora a população com maior poder aquisitivo, de certa maneira privilegiada pela situação que nós temos no Brasil.

Então, nós estamos chamando a atenção para a necessidade de avanços maiores que esses que até o presente momento a gente conseguiu realizar.

O governo estaria estudando a possibilidade de taxação de grandes fortunas também. Isso seria uma forma de contrabalancear essas medidas de política fiscal que afetariam só o trabalhador e o empresário?

O que nós temos visto é que as medidas tomadas até o presente momento elas afetam mais o setor produtivo brasileiro, em particular os trabalhadores e agora numa segunda rodada também os empresários, mas há uma série de outros segmentos que até então não foram atingidos, segmentos em que, de certa maneira, há uma ausência de tributação. Pela questão da justiça fiscal, certamente, seria importante que outras modalidades viessem a ser tomadas.

O livro resgata o diferente posicionamento adotado pelo Brasil em relação a outros países com a crise de 2008, e um esgotamento do Consenso de Washington. O Brasil ainda tem condição de continuar a ser referência, considerando, por exemplo, o novo Banco de Desenvolvimento e o Acordo Contingente de Reserva do Brics? Seria uma alternativa a esse neoliberalismo que não deu certo?

Eu acredito que sim. Eu quero lembrar que nós estamos diante de um quadro dramático. O ambiente internacional é um ambiente de crise fomentada desde 2008, não há saídas ainda sustentáveis. Os países estão crescendo menos. O Brasil cresce hoje 45% do que crescia até 2008. Os Estados Unidos crescem 30% do que crescia até 2008, a China cresce 75% do que crescia até 2008. Então, é um quadro de maiores dificuldades. Entendo ser difícil uma saída pelos países ricos. Até porque eles estão com problemas mais profundos. Então a solução Brics pode ser de fato uma alternativa, até porque parte importante dos fluxos comerciais de investimento vem se dando na região Sul do planeta. O fato da criação desse banco, do fundo de reserva, e agora a possibilidade de criar uma agência de avaliação de risco também no âmbito dos Brics revela o fato mais importante ocorrido ao meu modo de ver desde o acordo de Bretton Woods de 1944, mas ainda é um processo lento, mas pode, em termos médios de longo prazo, ser de fato uma realidade, uma alternativa pro mundo que ainda vive em forte crise.

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Sugestão via e-mail da participante do grupo Desenvolvimentistas, Fátima Magalhães: 

Segue entrevista com o economista Marcio Pochmann e dois artigos do teólogo Leonardo Boff no Jornal GGN que – juntos – talvez possam nos ajudar a refletir na tentativa de entender um pouco mais acerca das tramas tecidas neste delicado momento politico que está a brotar no Brasil. Destas singulares publicações, destaco trechos nos quais o Prof. Marcio Pochmann e o Teol. Leonardo Boff parecem confluir para uma mesma questão central, segundo dados e interpretações que lhes são próprias.

“Nessa primeira década do século 21 a gente conseguiu ter um crescimento econômico importante, forte, significativo, combinado com democracia e política de distribuição de renda, de maneira geral. Esses três elementos, o regime político, o econômico e o social, não se combinaram dessa mesma forma nos últimos 50 anos.”

“Nós somos um país que se constituiu em cima da desigualdade. Nós somos um país herdeiro de quatro séculos de escravidão. A desigualdade é uma marca do Brasil. Na medida em que essa desigualdade começa a ser atacada, de certa maneira, ela termina expressando certo desconforto. Porque há vários sinais de manifestação em relação a essa circunstância.” Marcio Pochmann

“Segundo o pesquisador Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade social no Brasil : 45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas 5 mil famílias extensas. Estas são nossas elites. Vivem de rendas e da especulação financeira, portanto, ganham dinheiro sem trabalho. Pouco ou nada investem na produção para alavancar um desenvolvimento necessário e sustentável.” Leonardo Boff, citando estudo de Marcio Pochmann e cols.

O panelaço segundo Maringoni

Por Gilberto Maringoni | Via DCM

Em algumas capitais – especialmente do sul e sudeste – e em bairros de classe média -, panelaços aconteceram. Em São Paulo, onde ela perdeu por larga margem de Aécio, nada a surpreender. Ainda mais em regiões mais abastadas (moro na zona leste de SP e por aqui nada se ouviu).

Algumas pessoas saíram em blogs, tuíteres e pelo Facebook a vociferar contra o caráter fascista dessas manifestações. Menos, gente. Bater panelas não é em si um gesto fascista. Nas diretas-já, em 1984, houve vários panelaços em cidades médias e grandes e a balbúrdia nada tinha de fascista. Ao contrário.

Há – claro – os valentões de janela, que xingam, pedem intervenção militar e graças do gênero. Os filhotes de Bolsonaro em cruzamento com Alexandre Frota. Exibem uma intolerância atroz e devem ser denunciados. É ainda preciso ver quanto representam entre os raivosos em geral.

Um pedaço da classe média, que tem nojo de pobre, que vê no governo petista fantasmas que não assombram e que é fortemente influenciada pela mídia, decidiu botar sua bílis para fora. Faz parte da boa e velha luta de classes, sempre negada pelos governos petistas e pelo próprio PT, em seu afã de parecer pós-moderno. Sim, ela existe e vai para as ruas no dia 15.

O curioso é que a turma das caçarolas não forma o contingente dos prejudicados por Dilma. Poucos devem estar preocupados co restrições ao seguro-desemprego, às pensões das viúvas etc. Não são os que pagarão um valor na conta de luz que retirará comida da geladeira. Ao contrário. Boa parte integra aquela pequena-burguesia – desculpem o palavrão – que também se beneficia do rentismo proporcionado pelos juros dilmistas em suas aplicações bancárias.

O governo bem faria se operasse uma guinada e desse uma banana para os paneleiros e seus incentivadores, na mídia e no mercado financeiro. Seria pedir muito.

Dilma teria de brigar não apenas com os emergentes que adoram Miami – mais distante com o dólar a R$ 3 – mas com seus financiadores, que colocaram gentilmente R$ 319 milhões em sua caixinha de campanha.

Vamos ver como será 15 de março.

Duas coisinhas, para terminar: panelaço não é fascismo, mas impeachment é golpe.

Diálogos Desenvolvimentistas: Quem banca o seu representante?

Weber Figueiredo – Você já pegou dinheiro do seu próprio bolso para ajudar a eleger algum político em quem confia?

Certamente a imensa maioria nunca fez isso, deixando praticamente todos os candidatos eleitos nas mãos das empresas e negocistas que os financiaram. Só que a TV nunca lhes contou isso.

Portanto, não se espante em ver listas e mais listas de financiamento privado de campanhas eleitorais conforme essa do PSDB e FURNAS, verdadeira ou não. Há décadas essa é a práxis (contrária à democracia) que só será mudada após uma reforma político-eleitoral de verdade e punição severa tanto para os corruptos quanto para os entreguistas do patrimônio nacional.

Defenda um modelo de desenvolvimento com soberania e justiça. Defenda a educação de qualidade para todos, em todos os níveis. Defenda a pesquisa científica e tecnológica como a única forma de gerar riquezas sem cair na armadilha da dependência que gera desemprego, pobreza e criminalidade. Defenda a nossa cultura. Defenda as empresas nacionais que desenvolvem tecnologia e geram milhares de empregos qualificados, a exemplo da estatal Petrobras (nunca defenda os corruptos).

E se você tiver dúvidas, mire-se no exemplo dos países ricos e rejeite a desnacionalização da economia proposta pelos golpistas espertos (e bobinhos distraídos).

Tania Faillace – O livro-de-ouro para passar entre amigos e simpatizantes de campanhas, ação de grupos, etc., há muito deixou de ser passado, e até não é mais conhecido das novas gerações.

Poderia ser interessante ressuscitá-lo em termos modernos e até chegar a um entendimento fiscal para sua classificação como despesa de interesse social, assim como as doações benemerentes.

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Weber Figueiredo é engenheiro e professor da CEFET.

Tania Faillace é jornalista e escritora.

Que tal voltar a fazer política?

Por Geniberto Campos

1. Uma nova ordem moral

Fazer Política no Brasil tornou-se uma gincana pontuada de desafios e obstáculo morais. Ou “éticos”, como preferem alguns sacerdotes do Novo Templo que está sendo erguido. Em cujos alicerces repousam biografias de conhecidos políticos. E estão sendo preparados os lugares dos transgressores da nova ética, os “empreiteiros”.

Para onde estaria sendo conduzido o destino do país, com os critérios agora vigentes no jogo da Política? E uma questão adicional: Quem estaria formulando, aplicando e avaliando as novas regras do jogo?

Quem são e o que pretendem esses novos atores dessa nova e surpreendente forma de fazer política? Que tipo de influência exercem no desenrolar dos acontecimentos e quais são os seus verdadeiros objetivos?

São questões pertinentes, colocadas de forma séria, face às possíveis consequências e desfechos que deverão influir gravemente no futuro do país.

2. As novas regras e os seus a(u)tores

Identifica-se facilmente o Sumo Sacerdote do templo. Com a demonização e o esvaziamento progressivos da política e dos políticos, o papel de comando está estregue à chamada Grande Imprensa, a qual detém há algum tempo, poderes absolutos na construção da Nova Ordem.

Jornais, revistas, TVs, rádios e outros meios de comunicação são os novos atores e autores de um obscuro roteiro, que submete segmentos dos poderes Legislativo e do Judiciário. Sempre dóceis ao seu comando. Progressivamente, os partidos políticos foram perdendo a sua representatividade, e foi, gradativamente, reduzido o seu papel no processo democrático, mesmo legitimado pelo voto popular.

Agindo fora de qualquer controle ou limites legais, este novo e inalcançável poder cria a pauta política e econômica do país, e dispõe ainda da inesgotável capacidade de criar heróis e vilões, manipulados de acordo com os interesses que representam.

Tem-se hoje a impressão que as coisas estão indo longe demais. E que é preciso, dentro dos precisos limites constitucionais, criar mecanismos de contenção deste novo poder, que tudo pode.

3. Os mecanismos sutis de controle da política

Várias são as formas de restrição e controle sutilmente introduzidas no aparato legal e na legislação eleitoral. O brasileiro médio, mal informado e despolitizado, vai aos poucos se acostumando com a “novilíngua” orwelliana. E oferecendo o seu incontido apoio aos novos padrões morais, aplicados à nova forma de fazer política.

Pelos padrões atualmente em vigor os políticos devem ser “ficha limpa”.

“Mensaleiro”, substantivo/adjetivo, qualifica algo próximo à obscenidade. Se faltam evidências legais que comprovem a culpabilidade, é legítimo que o Judiciário recorra ao “domínio do fato”. Se este ainda não é suficiente, o réu será condenado, não pelas evidências nos autos, mas pela “literatura jurídica”.

E quando se imagina que já se viu tudo, a operação “Lava Jato” nos brinda com a “delação premiada”. Esta levada às últimas consequências por alguns agentes públicos que imaginaram dar incentivos financeiros aos delatores. Os novos heróis criados pela imprensa, arrependidos e enojados dos seus crimes, ou melhor pequenos desvios, pretéritos. Então , estamos a criar uma corte de anjos e santos no campo da política. Paramentados com harpas e auréolas.

4. A saída, onde fica a saída?

Finalmente, é justo perguntar: – onde vamos parar com tudo isso?

É este o desafio colocado aos brasileiros que usam mais de dois neurônios para formular seus pensamentos. E um caminho, talvez óbvio se apresenta: que tal voltar a fazer Política? Assim com maiúsculas.

Fazer o retorno ao leito natural do jogo político. Do confronto de ideias e projetos. Do respeito ao adversário. Fazer a retomada da boa e velha Política. Se possível, se afastando definitivamente de uma deslavada e insustentável hipocrisia, a qual tornará o país cada vez mais distante do sonho de se tornar uma grande Nação.

Com a palavra as lideranças políticas e partidárias. E os infatigáveis – imprescindíveis – militantes das causas sociais.

***

Geniberto Paiva Campos é méédico/ex-professor da Universidade de Brasília/Membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz da CNBB.

Lava-Jato: STF divulga a lista de todos os envolvidos e autoriza abertura dos inquéritos

Via STF

O ministro Teori Zavascki é o relator da Lava-Jato no STF

Ministro Teori Zavascki autoriza abertura de inquérito e revoga sigilo em investigação sobre Petrobras

O ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki deferiu nesta sexta-feira 21 pedidos de abertura de inquérito feitos pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, referentes a autoridades com prerrogativa de foro e outros possíveis envolvidos em investigação cujo foco principal são desvios de recursos da Petrobras.

Em todos os casos, o ministro revogou o sigilo na tramitação dos procedimentos, tornando públicos todos os documentos. A instauração de inquéritos foi considerada cabível porque há indícios de ilicitude e não foram verificadas, do ponto de vista jurídico, “situações inibidoras do desencadeamento da investigação”.

Para o ministro Teori, “o modo como se desdobra a investigação e o juízo sobre a conveniência, a oportunidade ou a necessidade de diligências tendentes à convicção acusatória são atribuições exclusivas do procurador-geral da República”, cabendo ao Supremo Tribunal Federal “na fase investigatória, controlar a legitimidade dos atos e procedimentos de coleta de provas”.

O ministro ressaltou que a abertura de inquérito não representa “juízo antecipado sobre autoria e materialidade do delito”, principalmente quando os indícios são fundados em depoimentos colhidos em colaboração premiada: “Tais depoimentos não constituem, por si sós, meio de prova, até porque, segundo disposição normativa expressa, nenhuma sentença condenatória será proferida com fundamento apenas nas declarações de agente colaborador (art. 4º, § 16, da Lei 12.850/2013)”.

Arquivamentos

Referentes ao mesmo tema, foram deferidos ainda seis pedidos de arquivamento de procedimentos preliminares que tramitavam em segredo de justiça. Nas decisões, o ministro argumenta que, de acordo com a jurisprudência da Suprema Corte, é irrecusável, por parte do Tribunal, pedido de arquivamento apresentado pelo procurador-geral da República, ainda que possa eventualmente considerar improcedentes as razões invocadas.

Segredo de Justiça

Todos os procedimentos relacionados à citada investigação, inclusive os que foram arquivados, tiveram o sigilo revogado, por decisão do ministro relator Teori Zavascki, tendo em vista “não haver interesse social a justificar a reserva de publicidade”. “Pelo contrário: é importante, até mesmo em atenção aos valores republicanos, que a sociedade brasileira tome conhecimento dos fatos relatados”, argumentou o ministro. O ministro ressalvou que a lei impõe regime de sigilo ao acordo de colaboração premiada até a decisão de recebimento da denúncia. No entanto, nesses procedimentos, considerando que os colaboradores já têm seus nomes expostos publicamente, pois são réus em ações penais com denúncia recebida, e que o próprio Ministério Público manifestou desinteresse na tramitação sigilosa, “não mais subsistem as razões que impunham o regime restritivo de publicidade”.

ARQUIVAMENTO/ REMESSA

 

PROCESSO

ENVOLVIDO

PROVIDÊNCIA

PET 5253 DELCÍDIO DO AMARAL GÓMEZ ARQUIVADO
PET 5259 ROMERO JUCÁ FILHO ARQUIVADO
PET 5271 ALEXANDRE JOSÉ DOS SANTOS ARQUIVADO
PET 5272 HENRIQUE EDUARDO LYRA ALVES ARQUIVADO
PET 5273 CÂNDIDO ELPIDIO DE SOUZA VACAREZZA REMESSA DOS AUTOS À ORIGEM
PET 5283 AÉCIO CUNHA NEVES ARQUIVADO
PET 5286 JOÃO ALBERTO PIZZOLATTI JUNIOR

PEDRO DA SILVA CORREA DE OLIVEIRA ANDRADE NETO

REMESSA DOS AUTOS AO TRF DA 1ª REGIÃO
PET 5287 CIRO NOGUEIRA LIMA FILHO

AGUINALDO VELLOSO BORGES RIBEIRO

ARQUIVADO E REMESSA DE DOCUMENTOS AO STJ
PET 5559 CÂNDIDO ELPIDIO DE SOUZA VACAREZZA REMESSA DOS AUTOS À ORIGEM

 

 

Pedidos de arquivamento: 6.

 

INSTAURAÇÃO DE INQUÉRITOS

 

PROCESSO

ENVOLVIDOS

PROVIDÊNCIA

PET 5254 JOSÉ RENAN VASCONCELOS CALHEIROS

ANÍBAL FERREIRA GOMES

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5252 ROSEANA SARNEY MURAD

EDISON LOBÃO

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5280 JOÃO ALBERTO PIZZOLATTI JUNIOR

 

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5290 JOÃO ALBERTO PIZZOLATTI JUNIOR

 

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5274 JOSÉ RENAN VASCONCELOS CALHEIROS

ANÍBAL FERREIRA GOMES

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5258 LUIZ LINDBERGH FARIAS FILHO INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5264 VANDER LUIZ DOS SANTOS LOUBET

CÂNDIDO ELPIDIO DE SOUZA VACAREZZA

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5257 GLEISI HELENA HOFFMAN INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5256 HUMBERTO SÉRGIO COSTA LIMA INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5269 SIMÃO SESSIM INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5268 E 5285 ARTHUR CÉZAR PEREIRA DE LIRA

BENEDITO DE LIRA

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5284 ARTHUR CÉZAR PEREIRA DE LIRA

BENEDITO DE LIRA

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5282 JOSÉ MENTOR GUILHERME DE MELO NETO INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5255 EDISON LOBÃO INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5278 EDUARDO CUNHA INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5265 JOSÉ OTÁVIO GERMANO

LUIZ FERNANDO RAMOS FARIA

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5291 JOÃO ALBERTO PIZZOLATTI JÚNIOR

ROBERTO SÉRGIO RIBEIRO COUTINHO TEIXEIRA

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5267 JOÃO ALBERTO PIZZOLATTI JÚNIOR

 

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5294 E 5266 NELSON MEURER INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5261 E 5288 EDUARDO HENRIQUE DA FONTE DE ALBUQUERQUE SILVA

CIRO NOGUEIRA LIMA FILHO

INSTAURAÇÃO: EDUARDO HENRIQUE E ARQUIVAMENTO: CIRO NOGUEIRA
PET 5260 AGUINALDO VELLOSO BORGES RIBEIRO

ALINE LEMOS CORRÊA DE OLIVEIRA ANDRADE

ANÍBAL FERREIRA GOMES

ARTHUR CESAR PEREIRA DE LIRA

CARLOS MAGNO RAMOS

CIRO NOGUEIRA LIMA FILHO

DILCEU JOÃO SPERAFICO

EDUARDO HENRIQUE DA FONTE DE ALBUQUERQUE SILVA

FERNANDO ANTÔNIO FALCÃO SOARES

GLADISON DE LIMA CAMELI

JERONIMO PIZZOLOTTO GOERGEN

JOÃO ALBERTO PIZZOLATTI JUNIOR

JOÃO FELIPE DE SOUZA LEÃO

JOÃO LUIZ ARGÔLO FILHO

JOÃO SANDES JUNIOR

JOÃO VACCARI NETO

JOSÉ AFONSO EBERT HAMM

JOSÉ LINHARES DA PONTE

JOSÉ OLIMPIO SILVEIRA MORAES

JOSÉ OTÁVIO GERMANO

JOSÉ RENAN VASCONCELOS CALHEIROS

LÁZARO BOTELHO MARTINS

LUIZ CARLOS HEINZE

LUIZ FERNANDO RAMOS FARIA

MÁRIO SILVIO MENDES NEGROMONTE

NELSON MEURER

PEDRO DA SILVA CORREA DE OLIVEIRA ANDRADE NETO

PEDRO HENRY NETO

RENATO DELMAR MOLLING

ROBERTO EGÍGIO BALESTRA

ROBERTO PEREIRA DE BRITTO

ROBERTO SERGIO RIBEIRO COUTINHO TEIXEIRA

ROMERO JUCÁ FILHO

SIMÃO SESSIM

VALDIR RAUPP DE MATOS

VILSON LUIZ COVATTI

WALDIR MARANHÃO CARDOSO

INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5263 ANTONIO PALOCCI FILHO REMESSA DOS AUTOS AO JUÍZO DE ORIGEM
PET 5262 VALDIR RAUPP DE MATOS INSTAURAÇÃO E DILIGÊNCIAS
PET 5244 INICIAIS – DELAÇÃO DE ALBERTO YOUSSEF ARQUIVAMENTO
PET 5245 INICIAIS – DELAÇÃO DE ALBERTO YOUSSEF ARQUIVAMENTO
PET 5210 INICIAIS – DELAÇÃO DE PAULO ROBERTO COSTA ARQUIVAMENTO
PET 5208 INICIAIS – DELAÇÃO DE PAULO ROBERTO COSTA ARQUIVAMENTO
PET 5209 INICIAIS – DELAÇÃO DE PAULO ROBERTO COSTA ARQUIVAMENTO

 

 

Inquéritos abertos em 6/3/2015: 21.

INQUÉRITOS JÁ INSTAURADOS

 

PROCESSO

ENVOLVIDOS

PROVIDÊNCIA

INQ 3883 FERNANDO AFFONSO COLLOR DE MELLO DEFERIMENTO DE DILIGÊNCIAS
INQ 3963 ANTONIO AUGUSTO JUNHO ANASTASIA DEFERIMENTO DE DILIGÊNCIAS

 

 

Lava Jato: 45 parlamentares estão em pedidos de investigação no STF

Via Congresso em Foco

Alguns deles teriam agido em conjunto, o que daria ensejo à acusação de formação de quadrilha. Há inquéritos com ao menos quatro nomes correlacionados, informa o Estadão.

Cerca de 45 deputados e senadores estão na lista que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, entregou ao Supremo Tribunal Federal (STF) na última terça-feira (3), com pedidos de investigação por suspeita de envolvimento no esquema de corrupção descoberto na Petrobras. O STF deve autorizar nesta sexta-feira (6) a abertura de inquérito e retirar o sigilo sobre os nomes arrolados por Janot no âmbito da Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, suspeita-se de que os parlamentares tenham agido em conjunto, o que daria ensejo à acusação de formação de quadrilha. Há inquéritos com ao menos quatro nomes correlacionados, informa o Estadão, número suficiente para o enquadramento dos acusados na tipificação penal de organização criminosa, que resulta em penas mais pesadas em caso de condenação.

Como este site adiantou já naquela terça-feira (3), a Procuradoria Geral da República formalizou pedido de abertura de 28 inquéritos contra políticos por indícios de envolvimento no escândalo de desvio de recursos na estatal, em um universo de 54 investigados com ou sem mandato parlamentar. Os processos foram divididos segundo informações reveladas em delação premiada por parte do doleiro Alberto Youssef, operador financeiro do esquema, e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa.

O fato de haver mais investigados do que o número de inquéritos, lembra o Estadão, sinaliza ações com mais de um político suspeito enredado em uma mesma situação. “Não há como não existir uma organização criminosa”, disse ao jornal o criminalista Figueiredo Bastos, advogado de Youssef, para quem o esquema foi urdido para beneficiar grupos políticos com interesse comum. “É exceção quando há agrupamento no Supremo. Isso só acontece quando há forte envolvimento entre pessoas com e sem foro.”