Arquivos da categoria: Slideshow

Barões da mídia na lista do HSBC – tem mais caroço neste angu

Via Portal Vermelho

Estão na lista nomes dos proprietários do Grupo Folha (inclusive do atual presidente da Folha de S. Paulo, Luiz Frias), a família Saad – proprietária da Band e a falecida Lily Marinho, viúva de Roberto Marinho.

No dia 27 de fevereiro o Notas Vermelhas perguntava: “Por que O Globo e a mídia hegemônica escondem o ‘Suiçalão’?” Agora está explicado: na lista com os nomes dos donos das contas do HSBC em Genebra (usadas para lavar dinheiro e sonegar imposto) constam barões da mídia brasileira. Mas tem muito mais caroço neste angu.

A lista com os nomes dos correntistas brasileiros do HSBC só estava em poder do grupo Folha e depois do grupo Globo, escolhidos a dedo por uma organização “independente” (ICIJ) de jornalistas investigativos. Os grupos Folha e Globo davam explicações absurdas para justificar a divulgação de apenas alguns nomes. Amaury Ribeiro Jr., autor do livro Privataria Tucana, era membro do ICIJ e também estava atrás dos nomes.

Depois de escrever uma carta esculhambando a “dona” da lista na ICIJ, e pedindo seu desligamento da organização, Amaury continuou tentando o acesso aos nomes dos correntistas brasileiros. O autor da Privataria Tucana é talvez o mais competente repórter investigativo do Brasil e a lista, tudo indica, já tem outra cópia, desta vez nas mãos certas. Antevendo o que pode acontecer se Amaury estiver de fato com a lista e, de mais a mais, sabendo também que é inevitável que cedo ou tarde a lista caia no domínio público, o grupo Folha e o grupo Globo se anteciparam e divulgaram parte da verdade, apenas como álibi. A tática é sem dúvida inteligente, mas é como a velha peneira tentando tapar o velho sol, não consegue nublar o fato de que buscaram até o último momento sufocar a verdade.

Pesos pesados da mídia na lista

Todos se lembram dos incríveis argumentos da ombudsman da Folha para justificar o vazamento seletivo de nomes da lista, como os de donos de concessões de ônibus no Rio de Janeiro, enquanto outros eram preservados. Mas agora, misteriosamente, o critério foi revisto e o site UOL (Grupo Folha), por exemplo, informa que “ao menos 22 empresários do ramo jornalístico e seus parentes, além de 7 jornalistas, estão na relação dos que mantinham contas na agência do HSBC em Genebra, na Suíça”.

Estão na lista nomes dos proprietários do Grupo Folha (inclusive do atual presidente da Folha de S. Paulo, Luiz Frias), a família Saad – proprietária da Band e a falecida Lily Marinho, viúva de Roberto Marinho. Sabem o que alegou, na matéria do UOL, a família Frias, sobre as contas na Suíça? Pois não é que eles “informam não ter registro da referida conta bancária”? Agora, imaginem se é qualquer outro – que não seja tucano é claro – que vem com uma desculpa esfarrapada desta. A manchete irônica da Folha de S. Paulo de domingo seria: “Fulano diz que não lembra se tinha conta na Suíça”.

Os caroços do angu

Outros nomes da lista envolvem gente ligada à TV Verdes Mares, à Rede Transamérica, ao Grupo Abril (olha a Veja aí, gente) e à Jovem Pan. O nome do apresentador Carlos Massa, o Ratinho, também está lá. O membro do conselho editorial do grupo Abril (Veja) e um dos colunistas mais raivosos da direita, José Roberto Guzzo, sempre a bradar contra a “corrupção”, também consta da lista, cujo campeão é Aloysio de Andrade Faria, dono da Rede Transamérica, com US$ 120,5 milhões.

Não temos dúvidas de que tem muito mais caroço neste angu. Uma pergunta óbvia, que um jornalista investigativo realmente independente faria seria: qual a relação destas contas com o processo de privatização na era FHC? Como esta, existem ainda dezenas de outras perguntas a serem respondidas. A este respeito recomendamos a leitura de uma interessante especulação feita pelo blog Ponto e Contraponto. De qualquer maneira, com o que já se sabe espera-se para breve que o sempre atento, imparcial e destemido Ministério Público Federal tome rápidas providências. Espera-se, também para breve, uma visita do coelhinho da páscoa.

O Brasil que queremos

Por Ronaldo Campos Carneiro

Coube a um estadista sociólogo lançar as bases da legislação de proteção social e a um retirante nordestino com pouca instrução, mas marcante sensibilidade humana, reunir toda esta legislação e ampliar as bases daquilo que é conhecido hoje como Bolsa Família, passando de alguns milhões para muitos milhões de beneficiários. Desde então, este programa tem moldado a estrutura de poder neste País. Não vai ser diferente nesta eleição. Acredito mesmo que o sucesso de programas sociais pode ser medido por quantas pessoas deixam o programa e não por quantas são adicionadas.

Apresento, adiante uma sugestão para a evolução do programa Bolsa família, em linha com as manifestações de rua de meados do ano passado, onde um enorme contingente de pessoas protestou contra a situação geral de forma difusa, sem foco, sem uma clara ideia de rumos a seguir – todos sabiam que algo estava errado mas não exatamente o que. O fato é que capitalismo e socialismo são remédios amargos na historia da humanidade que estão com prazo de validade vencido.

Proponho um novo pacto social, refletido num contrato de trabalho de adesão voluntária, onde nutrição, saúde e educação – aos empregados e todos seus dependentes – passam a ser responsabilidades do processo produtivo comprados no livre mercado privado e o governo, reduzindo a tributação correspondente.

Não falamos de filantropia, mas num novo conceito de trabalho humano como processo de transformação de energia humana em energia física ou intelectual. Trata-se de substituir a cambiante lógica de ideias – ideologia – pela invariável lógica da vida – biologia, ou ainda, buscar a inclusão por direito natural e não por consumo.

A liberação total de preços e salários conduzirá, inexoravelmente, ao pleno emprego produtivo.

Somente com pleno emprego não precisamos da supervisão do estado – mão invisível age de forma inexorável.

Certamente o empresário não ira agir por filantropia, é o pleno emprego produtivo que será o fiador deste Pacto Social.

“Fazemos caridade quando não conseguimos impor a justiça. Porque não é de caridade que necessitamos. A justiça vai às causas; a caridade, aos efeitos”. Escritor francês Victor Hugo

Vamos avaliar os efeitos desta proposta na sociedade brasileira:

Garantia de vida e progresso a todos – sustentabilidade – fome, saúde e educação não são variáveis de mercado, mas necessidades biológicas;

Lucro diretamente vinculado a saúde humana;

Mais comida na boca de crianças e menos recursos na mão de políticos inescrupulosos;

Corrupção tendendo a zero – acabam as necessidades politicas de compra de consciências – troca de favores, jatinhos forrados de dinheiro vivo: na cueca nas meias!!! Enfim toda a indignidade que envergonha a todos, alguns se locupletando a custa do sacrifício de todos. Cessam também a presença de aproveitadores no meio politico onde só fazem negociatas em beneficio próprio. Seca a fonte de dinheiro no meio politico e burocrata. Nesta nova conjuntura as pessoas vão se dar conta de como a segunda profissão mais antiga do mundo – políticos aproveitadores – guarda uma semelhança incrível com a primeira!!! Estas vendem o corpo e aqueles vendem a consciência!!!

Economia totalmente privatizada – garantia de eficiência e eficácia. Um mito econômico que perpassa mentes, muitas vezes brilhantes, é uma falácia, uma mentira que empresas estatizadas são do povo. A única participação do povo na compra de gasolina é pagar o alto preço na bomba do posto. Estatal só serve para políticos aproveitadores colocarem apaniguados, parentes, amigos, negociatas: vide a ponta do iceberg em escândalos um atrás de outro inflando o preço da gasolina que pagamos. Os mexicanos, com ironia, traduzem esta necessidade politica: “Fora do orçamento não tem salvação”.

Outra falácia econômica muito disseminada, sem nenhuma base conceitual sólida, fracassada no mundo inteiro, consiste na crença numa mistura de mercado com intervenção do estado – neoliberalismo – ou socialismo de mercado, isto só conduz a pobreza e burocracia. O chamado mercado sob supervisão do governo é uma justificativa para defesa dos interesses de plutocratas, das empresas e super-ricos que chamam a isto de democracia social para enganar os eleitores. Isto não tem nada a ver com teoria econômica, mas tudo a ver com manutenção de poder. Fora da economia de mercado não tem solução. A melhor relação qualidade/preço só acontece num ambiente de livre mercado onde predomina a meritocracia e a saudável concorrência

Estatizantes são ingênuos, mal intencionados ou usam de desonestidade intelectual. Não suportam meia hora de discussão racional.

Sugiro ainda que os PhD´s que vão assumir o comando da economia façam um curso de humanidades, pois o capitalismo existe para lidar com o dinheiro e não com seres humanos. Aliás, capitalismo é a exploração do homem pelo homem, socialismo é o inverso.

“O trabalho existe antes, e é independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho, e jamais teria existido sem a prévia existência do trabalho. O trabalho é superior ao capital, e merece muito mais consideração”.

Esta verdade expressa por Abraham Lincoln deve ser resgatada por todos aqueles zumbis que estão vagando perdidos e descolados de conceitos básicos da economia.

Ao valorizar o superávit primário, vale dizer, pagamento dos juros devidos, estes operadores mágicos da economia se esquecem de que só o trabalho consegue gerar capital e que este nada mais é que trabalho acumulado. Tão importante quanto pagar os juros aos banqueiros é resgatar a enorme divida social, algo como superávit primário para quitação da dívida e inclusão social – buscando aumentar os brasileiros no mercado de trabalho e gerar mais capital.

A competição de mercado que se assiste hoje é como uma corrida de atletismo: alguns de barriga cheia e com acesso aos sistemas de saúde e de educação, disparados lá na frente; e uma multidão de excluídos lá atrás: o mínimo decente e justo é colocá-los na mesma linha de partida ou igualar as oportunidades na largada.

Pretendo com estas linhas, contribuir para o debate racional de ideias para que nossos filhos, netos e bisnetos possam viver num mundo com mais oportunidades e decência. Buscar a inclusão social por direito natural e não pelo consumo. Quero ter orgulho de meu país. Faço minhas as palavras de Lya Luft – O Brasil que podemos ter:

“Quero um pais integrado no contexto global mais civilizado, não obtuso e à margem, não ofuscado pela ideologia ou caprichos, não alardeando um ufanismo descabido e pobre, mas aberto ao intercambio com os países mais avançados, mais livres e mais justos, sendo ouvido, respeitado e admirado por vencer a alienação e o atraso.”

“Toda verdade passa por três estágios. Primeiro é ridicularizada. Segundo, enfrenta uma violenta oposição. Finalmente é aceita como evidente” Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão.

***

Araújo Bento – Claro que todos nós cidadãos brasileiros queremos um Brasil melhor. Anseio isto desde os anos 1950 quando estava ainda no colégio e notamos que esse processo foi interrompido com a tentativa de golpe militar contra Getúlio Vargas na madrugada de 24 de agosto de 1954, lembramos muito bem dessa data.

Concordo com muitas coisas do texto que o ilustre economista enviou mas discordo na questão dos preços dos derivados. Você se enganou nesse ponto.

Desde a época dos governos militares, após a crise mundial do petróleo, a Petrobras recebe em torno de 25% do preço na bomba. A diferença do preço são impostos e subsídios, incluindo o subsídio ao diesel para manter a matriz dos transportes, o subsídio ao glp (gás de cozinha) que é considerado um subsídio social, e outros subsídios que vieram caindo como o tempo como o subsídio ao álcool e o subsídio à nafta que caiu na década de 1990 por conta das privatizações das megapetroquímicas que pertenciam a Petrobras.

Portanto, meu amigo, você se equivocou ao citar o ônus à estatal sobre o preço na bomba. A Petrobras recebe hum real e quinze centavos por litro da “gasolina a”, ou seja, da gasolina ainda não misturada ao álcool, que por exigência ambiental, desde 1982, é adicionado 22% de álcool na gasolina. O álcool tem oxigênio na molécula e isso torna a combustão da mistura menos poluente, a diferença sobre os preços na bomba continua sendo impostos e subsídios que existem há quatro décadas. Portanto, é injusto atribuir a estatal o ônus do preço final da gasolina.

A grande imprensa está criando uma legião de midiotas: Entrevista com Luciano Martins Costa

Por Rennan Martins | Vila Velha, 16/03/2015

Indignado segura cartaz que ironiza o feminicídio.

As manifestações de ontem (15) arregimentaram milhares de indignados. Com a camisa da corruptíssima CBF, estes cidadãos se juntaram pra provar a enorme capacidade de mobilização da narrativa hegemônica, e com suas palavras de ordem, reforçar o status quo.

A Globo News fez cobertura cinematográfica dos eventos enquanto seus diversos comentaristas assumiam a condição de porta-vozes da “festa cívica” cobrando atitudes do governo. Por volta das 15:00 anunciaram 240.000 pessoas na Avenida Paulista. Antes das 15:30 já eram 480.000 e faltando alguns minutos pras 16:00 a marca alcançou sensacionais 1 milhão. Além da enorme diferença de projeção em relação a Folha, que calculou 210.000 revoltados, a Globo ainda precisa explicar como 750.000 pessoas desafiaram a física chegando ao mesmo tempo nas redondezas do evento.

Ironias e críticas à parte, a realidade é que a imprensa corporativa intervém decisivamente na sociedade e instituições. A opinião pública(da), quando concentrada nas mãos de um cartel, possui grande poder de agendar e interditar debates ao gosto do dono da editoria. Esta distorção gera efeitos deletérios no processo democrático e de tomada de decisões.

A fim de analisar a fundo essa questão o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou o experiente jornalista, escritor e colunista do Observatório da Imprensa, Luciano Martins Costa. Nos explica ele que desde a redemocratização a imprensa nacional entrou num processo de oligopolização incentivado pela distribuição de concessões a caciques políticos do centrão. Segundo Luciano, este cartel constrói um simulacro de realidade que estimula os cidadãos menos críticos a assumir posições conservadoras e raivosas. O “remédio” então seria “aprender a ler” a mídia, duvidando sistematicamente das notícias, principalmente das apresentadas com mais alarde e dramatização.

Confira a íntegra:

Como vês a atuação da imprensa corporativa brasileira? É possível dizer que existe uma “cartelização editorial”?

Existe uma cartelização editorial desde que a Folha de S. Paulo negociou seu maior comprometimento com a Associação Nacional de Jornais em troca de apoio para a campanha pelo fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista e pela extinção da Lei de Imprensa.

Quais seriam os objetivos e interesses deste alinhamento? As metas estão sendo cumpridas?

O objetivo principal é se contrapor à tendência da sociedade brasileira, no fim dos anos 1990, de questionar o sistema econômico e de exigir a expansão dos direitos formalmente garantidos na Constituinte de 1988. A Constituição, como se sabe, foi feita sob a égide da “sociedade civil organizada”. Acontece que, na época, cerca de 51% da população brasileira era excluída da sociedade e a “sociedade civil organizada” era apenas uma metáfora para as entidades corporativas, como os sindicatos, federações de indústrias, OAB e setores fortemente apoiados por lobbies. O pesquisador Francisco Fonseca demonstrou como a imprensa, na época, deu voz ao chamado “Centrão” para conter o ímpeto progressista da Constituinte em seu início. Esse alinhamento está triunfando ao transformar o Brasil num país conflagrado, com a criação de legiões de midiotas que repetem o discurso raivoso da imprensa.

Seus artigos comentam com regularidade sobre a criação de um “simulacro de realidade”. Como ocorre essa construção? Poderia exemplificar um caso concreto?

Existe o mundo real, onde nos relacionamos e construímos o processo da modernidade, e o ecossistema da comunicação, onde nossas ações, reflexões e escolhas constroem a cultura, que redefine a realidade. A mídia atua, em condições ideais, mediando essa passagem entre duas dimensões da nossa existência, onde as individualidades devem aprender a negociar seus papéis sociais. No Brasil e em alguns outros países, a imprensa adotou um protagonismo central, e em vez de filtrar ou mediar esse processo, interfere na construção de significados que induzem a interpretações viciadas da realidade. O viés conservador, predominante na mídia, martelado diariamente sobre as pessoas, induz a posicionamentos reacionários, defensivos e individualistas. Um exemplo é a manipulação de dados da economia, que faz uma grande parcela da população a acreditar que o Brasil está no fundo do poço. Mesmo pessoas que ascenderam às classes de renda média tendem a se tornar conservadoras quando são convencidas de que estão prestes a perder o que conquistaram graças a seus esforços e com apoio em políticas sociais que antes não existiam. O sujeito acorda, vai para o trabalho (que não existia quando o nível de desemprego era de 18%), segue para a faculdade (a que não tinha acesso antes das políticas sociais criadas na última década) e volta para casa, mas acha que a realidade hoje é pior. Os simulacros de realidade são construídos pela manipulação dos signos que norteiam nossa compreensão da realidade que vivenciamos. A falta de educação cívica faz com que muitos culpem o poder central por carências ou dificuldades que são de responsabilidade estadual, municipal ou mesmo do âmbito privado.

Que influências a sociedade e as instituições sofrem neste contexto?

A sociedade é influenciada na medida em que um grande número de indivíduos perde a noção daquilo que é do interesse coletivo e das responsabilidades individuais na construção de uma sociedade – se não sustentável, pelo menos aceitável. Como o interesse social é difuso, o discurso manipulador da mídia transforma facilmente o sentido dos fatos. Por exemplo, os jornais pegaram o aumento do preço do tomate, há quatro anos, e alardearam que a inflação estava estourando. O pânico levou os produtores e o comércio a buscar se proteger, e isso provocou um aumento nos preços de alguns produtos alimentícios e dos restaurantes. Como nas grandes cidades todo mundo que trabalha fora é obrigado a comer em restaurantes, a sensação de mal-estar se espalhou. Então, a mídia passou a martelar o tema da “inflação de alimentos”. Quando o preço do tomate voltou ao normal, em dez dias, os preços de alimentos baixaram, mas ficou a percepção de um surto inflacionário que só existiu na imprensa. As instituições reagem ao estado de espírito da população, e ao construir uma mentalidade defensiva, a imprensa induz as instituições a adotar políticas conservadoras.

Por exemplo, os jornais fazem grande alarde quando um adolescente participa de um crime, a população pede a redução da maioridade penal, e os parlamentares conservadores correm a propor mudanças na lei. Mas acontece uma chacina, onze pessoas são assassinadas numa rua da periferia de São Paulo numa única noite, e os jornais escondem o fato, porque há indícios de que os crimes foram cometidos por policiais.

O que fazer para “aprender a ler” a imprensa? Quais são os métodos?

Há alguns métodos para “aprender a ler” a imprensa, e nenhum deles dispensa a compreensão de que vivemos numa sociedade altamente complexa, que já não pode ser interpretada corretamente pela linguagem jornalística. O essencial é adotar um procedimento que propus quando era editor executivo do Estado de S. Paulo e responsável pela primeira página: dessacralizar a notícia. Trata-se de treinar a mente para desconfiar de cada detalhe de uma notícia, questionando tudo que parece inverossímil ou fora de contexto. Por exemplo, quando a imprensa quer dar um tom negativo a um indicador econômico, a prática mais comum é mudar os parâmetros de comparação. Então, compara-se, por exemplo, as vendas do comércio em janeiro em relação a dezembro – sabe-se que a economia tem suas sazonalidades, e que o correto é comparar períodos semelhantes, destacando os fatos relevantes que ocorreram entre eles. Por exemplo, os jornais falaram muito do custo de vida entre 2013 e 2014, omitindo o fato que em 2014 houve uma Copa do Mundo no Brasil. Outro exemplo: os jornais destacam que a Bolsa de Valores anda de lado, mas escondem que o Brasil ainda é um dos principais destinos do Investimento Estrangeiro Direto, que é investimento produtivo. A Teoria da Complexidade e algum conhecimento de teorias da comunicação ajudam a enxergar essas distorções.

De que forma o Brasil, um país onde a mídia tem plena liberdade, chegou a este quadro de uma imprensa tão concentrada e de baixa diversidade?

Luciano Martins Costa. UBE

Tudo começou nas negociações para a volta da democracia, quando o Centrão foi cooptado para a ideia de que o Brasil só iria se modernizar com uma imprensa forte. A política de Sarney, distribuindo canais de TV e rádio a políticos em troca de apoio, levou a maioria deles a aceitar a oferta de parceria com a Rede Globo, que reduzia o custo das emissoras e garantia uma marca forte para captar anunciantes. Depois disso, houve uma manobra com dólar – operação que na época era chamada de “bicicletagem” – na qual o governo facilitou para grandes empresas de comunicação o acesso ao dólar oficial, para modernização de equipamentos. Os equipamentos foram superfaturados, o excedente de moeda estrangeira foi para contas no exterior e passaram a alimentar o fluxo de caixa dessas empresas, pelo câmbio paralelo. Essa operação aparece sutilmente no caso Banestado e é um dos segredos que a imprensa quer manter escondidos no escândalo do HSBC. Acho impossível investigar e provar essa história, que me foi contada pelo antigo presidente de uma grande empresa regional de comunicação, que jurava ter sido o único a não entrar nesse jogo.

Como se inserem a internet, as redes sociais e a mídia alternativa nesse cenário?

A Internet e as redes sociais se inserem no processo de redução do papel de mediação. As novas tecnologias permitem que as informações sejam trocadas horizontalmente, entres os indivíduos, e a tendência é que aquilo que chamamos de mídia passe a ter a função de ancorar essas informações, para que as pessoas possam fazer o contexto. Mas um consórcio de economistas ou sociólogos, por exemplo, poderia cumprir esse papel nas suas especialidades. A mídia alternativa só será viável quando assumir uma postura inovadora e parar de imitar a mídia hegemônica. Chamo inovação a determinação de estimular o protagonismo do cidadão e assumir o papel de checar e organizar as informações sem o viés que caracteriza a imprensa predominante.

O que você acha que acontecerá com a TV tradicional e a mídia impressa frente as mudanças que estamos vivenciando?

A TV tradicional estática, ainda é forte porque é usada como o rádio, proporcionando um ruido de fundo para a vida cotidiana, mas a própria evolução da tecnologia está tornando esse meio menos relevantes. Ele sobrevive melhor no campo do entretenimento, e por isso as emissoras apelam para o jornalismo dramatizado ou espetacularizado. A mídia impressa vai sobreviver como um nicho, dirigido essencialmente para as instituições. O cidadão vai se informar cada vez mais pelas redes sociais.

Você é favorável a proposta de regulamentação dos meios de comunicação? Quais seriam as consequências dessa medida?

Sou favorável à regulamentação dos meios de comunicação, à abertura da mídia para o capital estrangeiro (chega de cinismo), à obrigatoriedade de que toda empresa de mídia, a partir de certo porte (faturamento, patrimônio, etc.) seja obrigada a abrir o capital, à licitação pública periódica da radiodifusão, com abertura ampla para participantes, com exceção de entidades religiosas ou partidárias. Além disso, no curto prazo, defendo uma política pública que contemple iniciativas de mídia comunitários, setoriais, etc., como os coletivos de cultura, que teriam um poderoso efeito na educação da sociedade para o uso da mídia.

Qual modelo de sociedade é perfeito?

Por Tania Jamardo Faillace | Porto Alegre, 15/03/2015

A questão que nos vem angustiando há séculos, em busca da melhor proposta para o melhor mundo possível, dá-se menos em razão da proposta em si, que na metodologia a ser usada para obter a adesão e o consenso, e a aplicação de uma proposta de contrato social que se adeque às necessidades e aspirações das pessoas.

Uma das questões – e não das menores – é como você irá propor um novo contrato que se oponha radicalmente ao que hoje existe, sem ser através da ruptura violenta, – maneira pela qual ocorrem todas as revoluções sociais, sejam populares ou de elite.

Sim, há necessidade de mudar o foco, as metas e diretrizes da sociedade em pauta para chegar onde desejamos.

E daí? Como conseguir isso? Vamos, atualmente, dizer às mega-empresas que elas não devem mais prezar seus lucros e, sim, sua colaboração com as demais pessoas da sociedade onde se estabelecem?

E elas vão aceitar tais argumentações, por quê? Quer mudar quem está por baixo, não quem está ganhando ou acha que está.

Todos os partidos e religiões que se constituíram a partir do que se chama a Antiguidade, propuseram exatamente isto: um novo pacto social.

Mas há uma grande diferença entre o pacto que pode ser fechado numa Assembléia ou até numa Constituinte, e como as coisas funcionam na realidade das transações humanas e econômicas e políticas.

O capitalismo tem como característica a apropriação do produto do trabalho social por uma única pessoa ou grupo econômico, ao invés da distribuição equitativa entre os produtores. Pagas as despesas, inclusive os salários, o que sobra são os lucros, apropriados pelo dono, sejam pessoas ou corporações. Esse lucro pode ser apropriado para o uso pessoal dos donos, ou reinvestido na empresa ou em outras, ou formar um cabedal para aplicações futuras.

No socialismo – que ainda não existe, só na cabeça das pessoas, – esse produto do trabalho social seria distribuído equitativamente entre os produtores reais, uma vez quitadas as despesas. Conforme as regras e normas decididas entre todo o grupo, a distribuição poderia ser total, ou reservar-se uma parte para reinvestimento e continuidade das operações.

O mais próximo disso é a cooperativa AUTÊNTICA, bicho raríssimo, porque, quando criada numa sociedade geralmente capitalista, o sistema hegemônico trata de mantê-la sob controle, ou subornando/cooptando suas direções, ou impondo legislações restritivas que a impedem de concorrer no mercado geral em igualdade de condições. É o que acontece no Brasil.

Uma outra opção é o burocratismo estatal que alguns consideram socialismo, mas não é, uma vez que a direção é centralizada e de natureza político-partidária e não de associação livre, com bases atuantes.

O arcabouço estatal é fundamental para dar coesão ao todo social, organizar e compatibilizar as partes num conjunto harmônico e colaborativo. Mas quando se estabelece na formatagem de uma empresa capitalista, até em suas funções e organograma, se transforma insensivelmente em capitalismo de Estado.

Porém, como seu objetivo não é obter lucros, mas prestar serviços, seus funcionários não se identificam com os macro-propósitos e se comportam como quaisquer funcionários em quaisquer empresas – sem compromisso, e sem qualquer poder de influir no gerenciamento do objeto.

A empresa estatal como empresa definidamente de cunho econômico (caso da Petrobrás, por exemplo) merece um capítulo à parte, que não vai ser aqui.

Isso foi muito discutido nos séculos XIX e XX entre os espartaquistas (grupo da Rosa de Luxemburgo) e no início da revolução bolchevique (Alexandra Kollontai).

O capitalismo de Estado, – que, à primeira vista, pode ser confundido com socialismo, – por sua estruturação vertical, rapidamente se converte em burocratismo, e é aquilo que sabemos.

Mesmo que, em teoria, seja possível fazer uma combinação sábia entre o trabalho individual (aquele que envolve todas as fases da criação do produto, seja intelectual ou material, como texto, invento, artesanato), o trabalho cooperativado, e a ordenação estatal, (a mais capaz de atender a interesses gerais de tipo estratégico), há que se observar que lidamos com o elemento humano, que é instável.

Fiscalizações (no sentido do controle das operações para não emperrarem) e revisões permanentes (para garantir as necessárias adaptações e ajustes a novas circunstâncias) são indispensáveis, e certamente precisam da atenção de todo o corpo social.

Não há sistema à prova de erros ou deturpações. A conscientização e o compromisso das pessoas com o projeto/proposta, mais o gerenciamento permanente são incontornáveis. Ou existem, ou tudo vem abaixo.

***

Tania Jamardo Faillace é jornalista e escritora de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Fundadora nacional do Partido dos Trabalhadores, participante da antiga Cooperativa dos Jornalistas de POA, militante sindical (Jornalistas e Intersindical de Porto Alegre), participante do movimento de Renovação Sindical, nos anos 80, jornalista de área técnica/econômica/geral/cidade/polícia, ativista social, autora de seis livros publicados de ficção (novelas,romance,contos) e de um folhetim inédito sobre o Brasil dos anos 70, construído através de 15 anos de pesquisas de campo sobre a realidade brasileira.

Morales diz que Obama deve pedir “perdão” à Venezuela antes de cúpula

Via Agência Efe

O presidente da Bolívia, Evo Morales, exigiu nesta sexta-feira que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, “peça perdão” à Venezuela por suas “ameaças” antes da Cúpula das Américas, e advertiu que se não fizer isso terá que enfrentar os “presidentes anti-imperialistas” na reunião do Panamá.

Em entrevista coletiva na cidade de Cochabamba, Morales criticou o fato dos EUA terem declarado estado de emergência nacional pelo “risco” de que a situação na Venezuela representa para sua segurança.

Evo diz que obama “ameaçou” o país. EFE/Hugo Ortuño

Morales afirmou que a os EUA não são “apenas uma ameaça para a Venezuela, mas para a América Latina”.

A Cúpula das Américas será realizada entre os dias 10 e 11 de abril.

Além disso, o governo americano ampliou as sanções a vários funcionários venezuelanos incluídos em uma lei aprovada em dezembro do ano passado por Washington.

Morales afirmou que com esta decisão os Estados Unidos estão “planejando a intervenção militar na Venezuela”.

Segundo o governante boliviano, todos os países “rejeitaram essa ameaça”, por isso, segundo sua opinião, será “melhor” para o presidente Obama “chegar bem” na Cúpula das Américas para debater sobre outros temas de desenvolvimento.

Segundo sua opinião, “o melhor sinal” que o governo americano pode enviar para a região é suspender o embargo econômico a Cuba antes da reunião de chefes de Estado no Panamá.

 

Rio: denunciados PMs envolvidos na morte de mulher arrastada por viatura

Por Vladimir Platonow | Via Agência Brasil

O Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro denunciou dois policiais militares pela morte da auxiliar de limpeza Cláudia Ferreira, baleada em um tiroteio com traficantes no Morro da Congonha, em Madureira, na zona norte do Rio, em 2014.

Claudia foi arrastada por cerca de 350 metros pela viatura policial, ao cair da mala do veículo, quando era levada para um hospital. Os policiais Rodrigo Boaventura e Zaqueu Pereira Bueno foram denunciados por homicídio doloso qualificado. A notícia foi divulgada hoje (12) pelo MP.

A 2ª Promotoria do 3º Tribunal do Júri entendeu que houve dolo eventual na conduta dos policiais, pois eles assumiram o risco de causar morte ao fazer disparos de fuzil em uma situação em que qualquer pessoa que passasse pelo local poderia ser atingida.

O MP concluiu que Rodrigo e Zaqueu, e mais quatro PMs que participaram da ação, alteraram o cenário do crime, na medida em que removeram o corpo de Claudia do local onde ela foi baleada, colocando-o no interior da viatura, a pretexto de socorrê-la, mesmo sabendo que já se encontrava morta.

Também foi denunciado o traficante Ronald Felipe dos Santos, por tentativa de homicídio qualificado contra os policiais e por associação para o tráfico. Na época do crime, a defesa dos policiais alegou que o motorista da viatura não se deu conta de que a porta traseira do veículo estava aberta e que Claudia estava sendo arrastada na pista. De acordo com a defesa, o motorista só descobriu isso quando foi alertado por outro policial.

A corrupção varejista e a solução real

Por Rennan Martins | Vila Velha, 13/03/2015

Ilustração de Daniel Kondo

E eis que finalmente tivemos acesso a íntegra da tão especulada lista de Janot, na qual a procuradoria-geral da República indicou ao STF os nomes dos políticos citados nas delações premiadas da Lava Jato, dizendo ainda contra quem havia indícios suficientes para abertura de inquérito e quais deles se recomendava o arquivamento das denúncias.

A cobertura realizada pela imprensa corporativa deu a impressão de que o Partido dos Trabalhadores seria majoritário, que podíamos esperar até mesmo o nome da presidenta Dilma Rousseff caso levássemos em conta o panfleto de campanha da Veja. A realidade pregou uma peça nos oportunistas e quem lá se achou foi o próprio senador Aécio Neves, acompanhado de 33 parlamentares do PP, herdeiro do Arena, que por sua vez fora o partido sustentáculo da ditadura militar.

A despeito da concretude dos fatos a hipocrisia permanece soberana no debate. A narrativa midiática continua partidarizando a questão e fazendo os leigos pensarem que a corrupção é um problema de “decência”, “ética” e “bons costumes”. Enquanto isso, a CPI da Petrobras dá show de incredibilidade, conseguindo a façanha de unir situação e oposição na defesa do lobista Eduardo Cunha, mal disfarçando que congressistas citados nos autos integram a comissão, ou seja, investigam a si mesmos.

Os indignados, que no próximo domingo darão sua demonstração de força, não deram maior amostra de coerência. Enquanto batiam panelas não atinaram que o candidato que apoiaram nas últimas eleições consta na lista, que os próximos na linha de poder – que assumiriam num eventual impeachment – são o vice-presidente Michel Temer e o presidente da câmara Eduardo Cunha, ambos do PMDB e também no meio. Está na hora dos revoltados online acharem outro motivo para histeria, pois o quadro prova que contra a corrupção é que não é.

O que esta crise nos expõe é que o esquema de propinoduto instalou-se em nossa maior estatal após o governo FHC mudar a lei de contratações, tornando desnecessária a licitação, o que abriu brecha para todo tipo de negociata e acordo entre a iniciativa privada e os agentes públicos. Os que bancaram essa medida tinham consciência de seu poder destrutivo e a intenção era após a vinda à tona dos desvios vir candidamente a público com a “solução”: privatizar a Petrobras.

Agora estes mesmos senhores se aproveitam do clima pesado e em conjunto com a mídia aliada espalham aos quatro ventos que não temos condição de bancar os investimentos necessários para a exploração do pré-sal, que precisamos entregá-lo as petroleiras estrangeiras. O senador José Serra já levantou a bandeira.

É preciso ressaltar a sociedade que a corrupção que representa a entrega de mais de 80 bilhões de barris com potencial de bancar saúde, educação e um salto tecnológico nacional é infinitamente mais perversa que essa que assistimos.

O Brasil tem uma ótima oportunidade de combater o histórico patrimonialismo e promiscuidade entre setor público e privado empunhando uma reforma política que proíba o financiamento de campanha por empresas, mecanismo chave de toda troca de favores escusos. Aproveitemos a crise para aperfeiçoar a democracia e fortalecer a Petrobras, não nos deixemos levar pelos arroubos falso moralistas.