Arquivos da categoria: Posição

Para que serve previsão econômica se são banqueiros que dão as cartas

Por J. Carlos de Assis

Em 12 de abril de 2015, portanto há mais de seis meses, iniciei dessa forma um artigo que circulou nesse blog sob o título “Ainda há tempo de interromper o grande desastre”:

“A economia brasileira teve uma contração de 0,2% em 2009, em pleno mundo conturbado com quedas ainda maiores devidas ao início da grande crise financeira planetária. Até que nos saímos bem no início. Fizemos nossa lição keynesiana, tanto do lado do consumo (aumento da bolsa família, aumento do salário mínimo)  quanto principalmente do lado do investimento (forte injeção de recursos do Tesouro no BNDES, que por sua vez, em 2009 e 2010, financiou em torno de 180 bilhões de reais adicionais nos dois anos).

A situação agora é simplesmente desesperadora. Tivemos estagnação no ano passado e o Governo já fala em queda do PIB de 0,2%.  Isso ainda reflete um extremo otimismo. Se for mantido o ajuste-Levy/Barbosa, teremos uma contração de uns 2%, no mínimo, por culpa exclusivamente desse senhor que partilha os ideais dos assassinos de Chicago que sujaram a mão de sangue no Chile de Pinochet no experimento de uma economia desumana do tipo da que nos querem impor. Sobre a estagnação do ano passado e o ajuste Levy/Barbosa, vem um terremoto muito maior: o estrago econômico da Lavajato na cadeia produtiva do petróleo, que representa mais de 13% da economia brasileira  e que, por isso mesmo, nos pode arrastar numa crise sistêmica, levando também bancos. Se nada for mudado, teremos uma contração global da ordem de 4% a 5%.”

No início de setembro, justificando que estava, com meus artigos, simplesmente repetindo os mesmos argumentos sem qualquer efeito prático, escrevi, sob o título “Meu último artigo sobre política econômica até o grande desastre”:

“Estou comunicando ao editor, através deste artigo, que não mais escreverei sobre política econômica neste blog até o cumprimento definitivo do grande desastre. O grande desastre a que me refiro é o resultado da política econômica de Joaquim Levy, a sanha persecutória de empresas dos promotores da Lavajato e o carry over sobre 2015 da estagnação econômica do ano passado. Ao todo, uma contração de no mínimo 5% do PIB, elevando a taxa de desemprego a algo como 15 a 20%.

Nada que eu viesse a escrever alteraria esse quadro. Nada que qualquer dos meus colegas economistas progressistas vierem a dizer muda o nosso destino. A única mudança possível seria uma virada de orientação de Joaquim Levy, ou uma decisão da Presidenta de removê-lo da Fazenda ou, ainda, uma diretiva do PT para que ela respeite os compromissos históricos do partido com o crescimento econômico. Claro que nada disso vai acontecer. Portanto o grande desastre é inevitável. Passaremos, todos, pelo inferno, menos os bancos.”

Bem, o desastre chegou e eu decidi voltar a escrever com a intenção nada modesta de contribuir de alguma forma para a superação da crise. Contudo, se alguém ainda tem dúvida de que o desastre chegou, consulte comunicado de ontem da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda assinalando que o efeito da operação Lavajato sobre o PIB este ano será contração de 2,1%. Considerando que ainda teremos ainda os números do quarto trimestre, não será surpresa se a contração devida apenas à Lavajato sejam os 3% que previ.

Não só isso. O FMI, que sempre se esforça por melhorar os indicadores, fez uma projeção oficial de contração total da economia brasileira de 3% em 2015. É claro que isso é uma subestimação. Não está embutido nessa estatística todo o efeito do ajuste Levy, com seus brutais cortes de investimentos e de outros gastos públicos, ajudando – com a Lavajato – a travar a economia nacional de uma forma generalizada. Enfim, não gosto nada da ideia de que acertei nas previsões. Preferia ter errado em favor de um desempenho melhor.

A questão agora não é propriamente quem previu o que, mas o que fazer de agora para frente. A solução, estejam certos, não virá pela política. É que praticamente todas as instituições da República perderam totalmente a credibilidade. Temos que criar uma instituição nova a partir das bases da sociedade. Em outras palavras, é o momento da regeneração das instituições republicanas através da instituição do pacto social entre as classes fundamentais da sociedade, trabalhadores e empresários.

Isso não acontecerá por acaso: líderes trabalhistas e empresariais já começaram a falar a respeito. Eles tem interesses concretos comuns: o emprego e a retomada do crescimento econômico. Na medida em que vençam desconfianças recíprocas, poderão propor soluções práticas como a regeneração da Petrobrás e da cadeia produtiva do petróleo, e inspirar o Governo numa virada da política econômica, revertendo um processo no qual apenas os banqueiros e os financistas tem vantagens inequívocas.

***

José Carlos de Assis é economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor, entre outros livros de economia política, do recém-lançado “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, ed. Textonovo.

Brasileiros devem acompanhar definição de regras para pré-sal

Por Rogério Lessa | Via AEPET

É importante prestar atenção às providências relacionadas à Portaria 453, publicada no Diário Oficial da União de 24 setembro e assinada pelo ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, que cria uma comissão para definir, em 60 dias, as regras para comercialização do petróleo e gás produzidos no pré-sal.

Apesar de ser um procedimento previsto em lei, a coordenação do processo pelo ministro deve ser acompanhada com cuidado, já que Braga tem se manifestado favoravelmente a flexibilização da Lei de Partilha e iniciativas como a do senador José Serra (PSDB-SP), que pretende acabar com a obrigatoriedade de a Petrobrás ser sócia em todos os empreendimentos no pré-sal e responder sempre por pelo menos 30% de participação nesses projetos.

A portaria determina que o Ministério das Minas e Energia, a Agência Nacional de Petróleo e a Pré-Sal Petróleo apresentem propostas definindo as diretrizes para comercialização do petróleo e gás produzidos sob regime de partilha – que voltaram a pertencer à União.

Ao contrário da lei que vigora para as jazidas do pós-sal, sancionada por Fernando Henrique Cardoso em 1997, que quebrou o monopólio estatal e permitiu que estrangeiros se apossassem – em óleo – do petróleo do Brasil; a Lei da Partilha de 2010 procurou retomar para o país o controle da produção e a propriedade do petróleo extraído do subsolo .

Segundo o ato publicado no D.O., vai ser criado um grupo de trabalho com representantes do ministério das Minas e Energia, da ANP e da Pré-Sal Petróleo – que terá o prazo de dois meses para apresentar sugestões que serão entregues ao Conselho Nacional de Política Energética.

A área de Libra, no pré-sal da Bacia de Santos, encontra-se em desenvolvimento sob regime de partilha. Ele é o maior campo até agora descoberto na camada pré-sal, tem reservas recuperáveis estimadas em 20 bilhões de barris (uma Noruega), e a exploração ainda está no início, na fase de delimitação da jazida – que com certeza é maior do que todas as até agora descobertas no pré-sal do Golfo do México, também muito promissor.

Já há poços recém perfurados com vazão estimada de 50 mil barris/dia de óleo de boa qualidade, mas os testes de produção do campo só começam mesmo a partir do ano que vem. Operado pela Petrobrás, como determina a Lei da Partilha, os técnicos garantem que Libra estará produzindo petróleo comercialmente a partir de 2020.

Atualmente a Lei da Partilha é alvo de pelo menos seis projetos que querem revogá-la e estão em discussão no Senado e na Câmara dos Deputados, sendo os dois principais os patrocinados pelo senador José Serra (PSDB-SP), o PLS-131, e o projeto do deputado Mendonça Filho (DEM-PE), de número 6.796, na mesma direção.

STF determina bloqueio e sequestro de R$ 9,6 mi de contas de Cunha na Suíça

Via Uol Notícias

Teori Zavascki

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Teori Zavascki determinou o bloqueio e o sequestro dos recursos mantidos pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), em contas na Suíça – no total de 2,4 milhões de francos suíços ou R$ 9,6 milhões.

A decisão atende a pedido da PGR (Procuradoria Geral da República). Os procuradores temiam que, com a transferência da investigação para o Brasil, o dinheiro fosse desbloqueado e pudesse ser movimentado.

Com o sequestro, os recursos serão depositados numa conta judicial e ficarão indisponíveis até o fim do processo.

O pedido de novo bloqueio dos recursos foi apresentado pela PGR na sexta-feira passada. São duas contas, uma em nome de Cunha e outra da mulher do deputado, Cláudia Cordeiro Cruz, no banco Julius Baer. “Há a possibilidade concreta de que ocorra o desbloqueio das contas, com a consequente dissipação dos valores depositados nas contas bancárias estrangeiras”, disse o órgão no pedido.

O processo foi transferido para a PGR por autoridades suíças já que o presidente da Câmara é brasileiro, está no país e não poderia ser extraditado para a Suíça.

No pedido, o procurador-geral da República em exercício, Eugênio Aragão, diz que não há dúvidas em relação à titularidade das contas. “Há cópias de passaportes – inclusive diplomáticos – do casal, endereço residencial, números de telefones do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto”, diz. Seu patrimônio estimado, à época da abertura da conta, era de aproximadamente US$ 16 milhões.

Na semana passada, em nota à imprensa, Cunha reafirmou que não tem contas no exterior e nunca recebeu “vantagem de qualquer natureza”.

Roosevelt, as hidrelétricas e o “estoque de vento”

Por Ivo Pugnaloni

A presidente Dilma e o setor elétrico oficial precisam refletir mais sobre o papel de Roosevelt e das hidrelétricas dos Estados Unidos no enfrentamento e superação da grande crise econômica de 1929. E como as hidrelétricas foram uma das principais armas da vitória sobre os alemães na segunda guerra e da transformação dos EUA em maior potencia mundial.

Na ultima sexta-feira, com o reservatório cheio, a hidrelétrica Itaipu passou a verter fora o excedente de água de 1.342 metros cúbicos por segundo, que suas turbinas já cheias de agua, não tem capacidade de usar para a geração de mais energia. Isso equivale a duas vezes a vazão das cataratas do Iguaçu.

Mais uma vez fica provado que o que falta no Brasil não é a agua, não são as chuvas, mas sim construir outras novas hidrelétricas, espalhadas por todo o território nacional, que reservem a água da chuva nas regiões aonde ela cair, para compensar as secas regionais que enfrentamos. Gerada a energia nas regiões onde está chovendo mais, facilmente ela poderá ser despachada para as regiões que enfrentam secas, como o sudeste, aliviando a seca dos reservatórios destas regiões, permitindo até mesmo que se encham com as poucas chuvas que sempre caem. Isso agora é possível pois nos últimos doze anos, nosso sistema de transmissão foi extremamente reforçado e melhorado.

Essa água reservada e espalhada não servirá só para gerar energia, mas para abastecer a população das cidades e permitir outros usos do precioso líquido, estimulando o desenvolvimento regional e local, com atividades como a irrigação, a piscicultura, a fruticultura, entre tantas outras atividades.

Ou seja, estimulando tudo aquilo que não querem permitir pessoas e organizações que, sob o disfarce da defesa da ecologia, recebem verbas do exterior em dólares, libras esterlinas e euros para impedir que a energia elétrica no Brasil seja produzida com nossos abundantes recursos hidráulicos renováveis. Muitas das quais passaram a dedicar-se à “militância verde” devido à degradação dos costumes políticos e à falta de opções mais claras de atuação partidária.

O objetivo consciente ou inconsciente desse “movimento”, passou a ser na prática, que nosso país dependa, para gerar energia elétrica, cada vez mais, de combustíveis fósseis importados, fornecidos pelas empresas que dominam o mercado de derivados de petróleo.  Afinal, as fontes eólica, solar e da biomassa, além de serem ainda pequenas em volume no Brasil, são altamente cíclicas em sua produção média de energia, pela falta de vento, sol e pela entressafra da cana, variações sobre as quais não temos controle ( “não dá para estocar vento”) fazendo com que em determinadas épocas do ano, sua produção caia a níveis muito baixos. Fato inegável, mas quase desconhecido pela desinformação da sociedade, que as faz depender então das caríssimas termoelétricas fósseis para suplementar sua produção.

Não precisamos mencionar que as empresas que produzem esses combustíveis são as mesmas empresas que “espontaneamente” e “caridosamente”, “investen no proteçon du meio embienti no Brazil”, pagando polpudas verbas para contratar técnicos e militantes para esta causa “simpática” e “internacional”…

Mas esse “movimento” não funciona apenas no Brasil, mas em todos os países aonde ainda existam potenciais hidroelétricos disponíveis grades ou pequenos para construir. Tudo isso não é feito apenas para vender mais derivados de petróleo, mas para aumentar a dependência desses países, impedindo que usem a energia barata das hidrelétricas para produzir produtos que iriam chegar com diferenciais de competitividade, aos mercados internacionais, concorrendo com produtos dos países onde situam-se suas sedes.

Uma guerra industrial, ao final.

Na semana passada o ministro Eduardo Braga por sua vez, viajou aos EUA, para convencer investidores norte-americanos a participarem do leilão de usinas hidrelétricas que por estarem em operação há mais de 60 anos, já foram amortizadas duas vezes.

Para completar o nosso noticiário, nos últimos dias, a presidenta Dilma falou na ONU sobre as vantagens das hidrelétricas, gerando vídeos bem humorados nas redes sociais por que, ao responder a uma pergunta, ela disse que as hidrelétricas são as mais baratas fontes de geração de energia, deixando escapar uma frase célebre de que “não podemos estocar vento”.

Uma frase meio confusa, que deu origem a centenas de vídeos com cineastas amadores correndo pelas ruas, enchendo com vento sacos plásticos, latas de cerveja e caixotes de papelão. Embora o fato em si seja verdadeiro, – pois os reservatórios das hidrelétricas são a única forma viável e barata de armazenar energia gerada pelos ventos – foi uma linguagem simples, usada pela presidenta da república, que motivou os deboches dos internautas.

Para que o Brasil discutisse a razão pela qual não aproveitamos o enorme potencial hidrelétrico de que dispomos, isso foi muito bom.

Tornando-se virais, essas gozações podem ter levado mais pessoas a pensar um pouco, sobre as seguintes questões:

a)    “Será que no Brasil ainda existem lugares para construir hidrelétricas viáveis?”;

b)    “De quantos MW dispomos ainda para construir em hidrelétricas?”

c)     “Qual é a lei que nos proibiu construir reservatórios para aproveitar esses potenciais?”

d)    “Porque os consumidores brasileiros pagam hoje a energia mais cara do mundo?”

Enquanto defendia as hidrelétricas, mesmo de forma confusa, a frase de Dilma levantou o debate, que o governo precisa fazer de forma organizada e não amadora para explicar como é possível que a EPE e a ANEEL, órgãos do governo, tomando decisões equivocadas e consideradas ilegais pelo TCU, vinha impedido as pequenas hidrelétricas de concorrerem nos leilões de energia durante tantos anos, fixando-lhes preços-teto inexequíveis e mesmo impedindo o trâmite dos seus projetos, alegando “falta de pessoal”?

Por que razão, no Brasil, áreas do governo federal parecem dedicar indisfarçável má vontade contra empresas que pretendam construir novas hidrelétricas de pequeno porte, com reservatórios menores do que 15 campos de futebol?

Talvez Dilma tivesse se confundido e estivesse nervosa por estar preocupada com o sucesso  leilão do próximo dia 6 de novembro, pois como pode um governo querer atrair novos investidores para operar hidrelétricas, se funcionários do mesmo governo até pouco perseguiam ( e alguns ainda parecem querer perseguir) os atuais investidores?

Por exemplo, atribuindo a eles os elevados custos do GSF, que são motivados, antes de tudo pela equivocada superestimação da garantia física das UHEs e a estranha subestimação do Índice Custo Benefício das termoelétricas fósseis e das eólicas, sendo que suas metodologias de cálculo foram  fixadas pela própria EPE, em suas Notas Técnicas DEE-RE 0099/08 e 0102/08, que não consideraram nem mesmo as perdas elétricas do sistema.

Deveríamos aprender algo com Roosevelt?

Os Estados Unidos são um grande país. E tem muito a nos ensinar. Roosevelt é até hoje o mais popular e considerado presidente americano, tendo governado o país em dois períodos extremamente críticos. Por isso, Dilma e todos nós deveríamos conhecer mais sobre sua obra.

Retirando o país da crise causada pela Grande Depressão de 1929, o presidente democrata Franklin Delano Roosevelt, recuperou economia americana, preparando-a para vencer a segunda guerra mundial e tornar-se a maior economia do mundo.

Através do programa “New Deal”, Roosevelt investiu em um tipo de PAC, enchendo os EUA de obras públicas, mas reformou o sistema financeiro, reduzindo as extraordinárias margens de lucro de alguns bancos, que continuaram lucrando mesmo no meio da maior crise do planeta, enquanto milhares de pequenos bancos iam à ruína e a população sofria com a fome, o desemprego, a falta de uma casa para morar.

 

Roosevelt, que se confessava um admirador e amigo de Getúlio Vargas, diminuiu para oito horas a jornada de trabalho, criando programas sociais, inclusive para os imigrantes, propostas que encontraram  ferrenha oposição dos republicanos, que não lhe davam a menor trégua.

 

Roosevelt investiu em infraestrutura, rodovias, portos, aeroportos, barragens, saneamento e irrigação, programas habitacionais e na construção de novos hospitais, escolas e outros equipamentos sociais, numa época em que mais de 3000 bancos haviam sido fechados.

 

Mas, no nosso caso, é preciso notar bem que ele investiu principalmente, em dezenas de grandes, médias e pequenas usinas hidroelétricas.

 

Seu objetivo era a geração imediata de novos empregos, pois a população americana sofria com a miséria e o desemprego causado pela Grande Depressão de 1929, quando até o Central Park, em Nova York, serviu de acampamento com barracas de lona para milhares de famílias que perderam suas propriedades.

 

Roosevelt e a Eletrificação Rural: eletricidade para todos também no campo.

Visando produzir alimentos de baixo custo e manter no campo os agricultores , Roosevelt criou a REA (Rural Electrification Administration) encarregada de construir linhas de distribuição de energia elétrica de baixo custo para os pequenos e médios produtores rurais.  A REA construiu as linhas que as distribuidoras não queriam construir por achar aquele mercado pouco lucrativo. Ela treinou os novos consumidores a produzir ovos e frangos, proteínas que faltavam aos americanos das cidades, pois Roosevelt percebeu que a energia elétrica no campo produziria alimentos baratos na cidade.

 

Ele criou o slogan “Um poste em cada fazenda, coloca um frango em cada panela”.

 

O programa foi um sucesso, atendendo 99% dos agricultores até 1950, pois a REA usou projetos simplificados nas regiões rurais.  Os transformadores tinham apenas 2 kW, mas eram  bastante fortes para suportar as pequenas cargas como lâmpadas, rádios, geladeiras e bombas de poço, típicas do consumidor  rural.

 

A REA atraiu críticas ácidas das distribuidoras quando estimulou a criação de cooperativas de eletrificação rural. Com elas os próprios agricultores compraram materiais, serviços e empréstimos bancários. E ainda podiam atuar na construção das redes  como empregados e voluntários, reduzido o custo de suas instalações.

 

Para Roosevelt, Luz para Todos não bastava. Era preciso eletricidade a baixo custo

 

Roosevelt percebeu que deveria baixar o custo da energia gerada, mas não com decretos que estimulassem o desperdício,  mas com geração hidrelétrica, pois nas cidades, onde estavam os geradores das distribuidoras privadas, a energia produzida era quase toda de origem termoelétrica, usando carvão ou derivados de petróleo.  Roosevelt percebeu que se existisse energia barata para atender o consumidor rural, tal fato provocaria crescimento da economia nas cidades, pois afinal, se a energia fosse ao campo, provocaria a produção de todo tipo de máquinas agrícolas elétricas, eletrodomésticos, geladeiras, instalações para granjas de leite, de frango, suínos, bovinos. E isso criaria mais empregos nas fábricas das cidades!

 

Para construir hidrelétricas que usavam água, que era pública e gratuita e não petróleo ou carvão que tinham donos, Roosevelt criou a Tenessee Valey Autorithy, ou TVA, empresa que trabalha até hoje não apenas na geração de grandes quantidades de energia hidrelétrica, mas no controle ambiental e na extensão rural, cuja história mereceria outro artigo, tal sua eficácia nos campos da irrigação, da contenção de cheias, no combate às secas, da piscicultura, na produção de fertilizantes, na recuperação do solo, no treinamento dos agricultores para as boas práticas ecológicas de conservação e manejo do solo.

 

Pouca gente se dá conta, mas vários historiadores americanos, dizem que sem a criação da TVA e de suas hidrelétricas, os nazistas alemães teriam vencido a segunda guerra mundial, pois produzir alumínio, essencial para construir caças e bombardeiros, só é possível com a energia barata das hidrelétricas. E sem forças aéreas, não há possibilidade de vitória em uma guerra. Roosevelt sabia que Alemanha, já havia aproveitado todos os seus recursos hidrelétricos.

 

Talvez por isso, a TVA construiu e opera até hoje, trinta das maiores hidrelétricas existentes em solo americano, que são consideradas parte do sistema de defesa do país, por gerarem a energia barata que os EUA precisaram no pós-guerra para completar sua industrialização. E precisam até hoje.

 

Programas sociais no entorno dos reservatórios: uma missão lucrativa para as hidrelétricas

 

Empréstimos subsidiados e outros incentivos para as atividades agrícolas aumentaram a produção de alimentos e os empregos no campo, freando o êxodo rural, reduzindo os problemas sociais nas cidades.  Roosevelt criou a Previdência Social, o seguro desemprego e o seguro para idosos acima de 65 anos nos EUA. Interessante notar que a redução da jornada de 14 para 8 horas de trabalho, além de forte caráter humanitário, foi uma medida extremamente inteligente, pois estimulou a automação de atividades manuais devido ao custo das novas leis sociais, exigindo mais investimento em energia elétrica.

 

Graças a tudo isso, Roosevelt é até hoje o presidente mais popular dos Estados Unidos. Mas naquele tempo, além de forte poder de comando sobre seu funcionalismo, que cumpria de fato todas as suas ordens, sem vacilar, pois o tempo era de crise e de guerra, Roosevelt deveu o seu apoio popular às “Fireside Chats”, suas conversas ao pé do fogo, que as rádios transmitiam pois traziam sempre novos anúncios e comerciais. Roosevelt morreu em 12 de abril de 1945, menos de um mês antes da rendição da Alemanha.

 

Seu sucessor foi um general de exercito, o republicano Dwight Eisenhower, condecorado como herói, pela invasão da Normandia, executada com a ajuda indispensável de aviões construídos com alumínio produzido pela energia hidrelétrica barata que Roosevelt havia planejado.

 

Que lições do presidente Roosevelt o Brasil deveria estudar e aprender?

Em primeiro lugar, que não há progresso verdadeiro e sustentável num país do tamanho do Brasil sem o aproveitamento ótimo do seu enorme potencial hidrelétrico remanescente de 155 GW. Bem como, dos benefícios trazidos pela construção de reservatórios que permitam armazenar a agua, depois usá-la, limpá-la e devolve-la ao seu leito natural, mais limpas do que antes.

Em segundo lugar, que o aproveitamento dos potenciais hidrelétricos ao invés de “acabar com a natureza” como dizem os desinformados, na verdade cria extensas áreas de preservação permanente ao longo das margens, totalmente repovoadas com a fauna e a flora nativas, que são vigiadas e monitoradas, tudo sem custo para o governo, que são as chamadas APPs, unidades de conservação conforme a Lei 9535.

Em terceiro lugar, que ao constituírem um lago artificial, as hidrelétricas podem estimular e permitir dezenas de atividades econômicas e ambientais altamente sustentáveis, que criam novos empregos, oportunidades e receita, como a piscicultura, a fruticultura, a irrigação, o turismo, o lazer e várias outras ligadas ao manejo da floresta original replantada e ao monitoramento ambiental.  E isso tudo poderia ser feito a baixíssimo custo aproveitando os quase 1.200 lagos já existentes.

Em quarto lugar, que no Brasil, há mais de cinquenta anos, as hidrelétricas usam tecnologia totalmente nacional, gerando mais de 100.000 empregos, inteligência e expertise que não podem simplesmente desaparecer pela ação e/ou omissão de funcionários que dediquem sua maior simpatia individual por outras fontes de geração.

Roosevelt deveria inspirar Dilma e nossos dirigentes?

Apesar de programas sociais como “Luz para Todos” e a construção das mega-usinas de geração na Amazônia guardarem certas semelhanças com as ações de Roosevelt, a presidenta Dilma pode até dizer que é uma fã das hidrelétricas, mas algumas áreas estratégicas do governo preferem seguir orientações muito diferentes da sua. Outras ainda parecem detestar essa fonte genuinamente nacional e preferir o exemplo de Eike Batista “que defendia uma térmica na boca de cada poço de “shale gas”, o gás do fracking, que este sim é uma violenta e terrível forma de poluir não apenas os rios, mas os lençóis freáticos e até mesmo os aquíferos mais profundos.

A presidenta pode até ter dito na ONU que dá valor às hidrelétricas,  mas em vários órgãos do governo, principalmente na EPE, nota-se que é clara preferência por outras fontes, ditas mais “modernas”, mais “na moda”, mais “fashion” que infelizmente implicam no consumo exagerado de energia termoelétrica fóssil no período em que ocorre a drástica queda de sua produção, que se dá nos períodos mais úmidos do ano. Quando as hidrelétricas, se existissem em quantidade adequada ao crescimento do mercado consumidor, estariam em seus máximos.

Apesar desse fato, apesar dessa estranha antipatia contra as hidrelétricas que atinge o principal núcleo do planejamento do setor elétrico, a presidenta deveria determinar a realização de uma campanha de esclarecimento bem feita, sem improviso, de caráter educativo, ambiental e nacional, em defesa do que é nosso,

Em tempos de crise, essa campanha deveria mostrar que, segundo metodologia utilizada pelo BNDES para o calculo dos empregos diretos, indiretos e por efeito renda,  apenas as 810 pequenas hidrelétricas que temos para construir gerariam 200.000 novos postos de trabalho regular, representando investimentos superiores a 75 bilhões de reais.

Como é possível que os ministros da fazenda e do planejamento não saibam disso e pretendam “economizar” cortando recursos exatamente para a área de licenciamento ambiental que, se tivesse dinheiro e estrutura, poderia ter licenciado mais hidrelétricas de pequeno porte e feito fazer o Brasil economizar 106 bilhões de reais em 2013 e 124 bilhões em 2014?

E acima de tudo: por que o governo federal não cumpre o inciso XII do artigo 21 da Constituição Federal que obriga a União a repassar recursos aos Estados Federados para que estes equipem seus órgãos de licenciamento ambiental com pessoal e estrutura suficientes?

A “questão ambiental” é na verdade, falta de recursos para os órgãos licenciadores.

As pequenas hidrelétricas só não andam mais rápido devido à falta de estrutura dos órgãos estaduais de licenciamento. Elas não tem “problemas ambientais”. Quem tem problemas são os governos, que ao impedir as hidrelétricas de funcionar, negando verbas ao licenciamento ambiental, obrigam as poluentes termelétricas a funcionarem o ano todo, gerando gases de efeito estufa, mas irrigando campanhas políticas.

Importante perceber também que os quase 10 GW de novos potenciais dessas pequenas usinas, cujos reservatórios são menores em média do que 15 campos de futebol aguardam quase todos, apenas o licenciamento ambiental de órgãos que dependem de governos estaduais que não veem a geração de energia elétrica como obrigação.  Afinal, está na constituição federal, no inciso XII de seu artigo 21, que compete à União e não aos Estados, explorar os serviços e instalações de energia elétrica.

Nesse caso, os Estados e a União se esquecem de que a constituição manda que isso deva ser feito em articulação como os estados onde se situem os potenciais energéticos. Mas basta consultar o Portal da Transparência do Ministério do Planejamento para ter certeza que, descumprindo a Constituição, a União não contribui com nenhum centavo para melhorar a estrutura dos órgãos ambientais estaduais.

Ou seja, “atirando no próprio pé” a União não ajuda em nada os Estados a ajudá-la a aproveitar seus próprios potenciais hidráulicos! Por isso, parece até que é a União quem não quer explorar esse potencial que atinge mais de 155 GW, o que equivale a mais de 10 usinas de Itaipu, total disponível no site do SIPOT da ELETROBRÁS na internet.

O mais incrível é que essa “economia” com o licenciamento de geração de energia ocorre apesar da União haver repassado em 2014 mais de 332 bilhões de reais, 9% do total do seu orçamento, aos estados.

Na área do judiciário e do ministério público, caberia perguntar: de quem seria a obrigação constitucional de defender os interesses difusos dos 200 milhões de brasileiros que estão pagando energia sete vezes mais cara de origem termoelétrica fóssil e tendo seu ar atmosférico poluído pelos 124 bilhões de reais em combustíveis queimados por essas usinas em apenas um ano?

Para entender essas estranhas atitudes, omissões e desacertos, vale lembrar que tudo isso é muito conveniente. Para alguns.

Afinal há muitos políticos que são sócios de termoelétricas fósseis. E os tesouros estaduais e federais ganham com o ICMS sobre os combustíveis consumidos por elas…Já a pobre agua, não tem ICMS…

A esse respeito, o Tribunal de Contas da União, nos Acordãos  2.164/08, 1.196/2010 e 1.171/14 já detectou essas estranhas dificuldades das hidrelétricas em concorrer de igual para igual nos leilões de energia devido às falhas nos processos de seu licenciamento ambiental. E já cientificou e requereu informações dos titulares do MME, da ANEEL e da EPE sobre o que eles pensam fazer com as falhas que vem ocorrendo nos leilões,  quando existe pouca oferta de hidrelétricas porque os procedimentos de licenciamento ambiental apresentam falhas perfeitamente evitáveis. Mas ainda assim o assunto parece não ter ainda interessado ao Ministério Público Federal.

Resultado dessa política energética maluca, que despreza riqueza brasileira e favorece a importação de combustíveis fósseis importados : no próximo leilão de fevereiro, estão habilitados 21.000 MW de eólicas, mas em contrapartida, anulando os efeitos benéficos dessa fonte renovável, quase igual volume de térmicas fósseis, com 21.700 MW, contra 3.000 MW de biomassa, 1000 MW de pequenas hidrelétricas e apenas 562 MW de hidrelétricas médias e grandes.

 

Num quadro assim, podemos pensar: há uma estatização em curso ?

Será que o governo atual, por ( teoricamente ) ser mais à esquerda, estaria guardando para as estatais esse enorme potencial de 155 GW e não quer que os empresários privados invistam nele? Estará em curso uma reestatização disfarçada de crise provocada? Será que esses valores milionários que estão sendo cobrados ilegalmente das pequenas usinas através do GSF, segundo a justiça, teriam a finalidade de assustar os empreendedores menores, para que vendam sua usinas a preço vil? Como um governo pode querer atrair novos investidores se trata os atuais dessa forma?

Será que essas “falhas no licenciamento’ de que fala o TCU desde 2009, e que fazem os consumidores pagar sete vezes mais pela energia termelétrica fóssil não existem apenas porque essas falhas no nosso licenciamento ambiental “são boas” para os países fornecedores de combustível?

Ou será que elas persistem porque se não existissem seria difícil manter, no mercado cativo, muitos consumidores de mais de 500 kW, que poderiam comprar energia das PCHs e CGHs, segundo o decreto 5163/04?

Dentre os mais prejudicados por estes defeitos aparentemente fáceis de consertar no licenciamento, estão os consumidores industriais de energia, que poderiam ter, nas novas PCHs, energia pelo menos 50% mais barata, o que tornaria seus produtos mais competitivos,  participando dos leilões do mercado livre para poderem fugir do monopólio da energia cara e poluente, criado por aqueles que desprezam as lições de sabedoria e patriotismo em favor do uso das hidrelétricas que nos deixou Franklin Delano Roosevelt.

***

Ivo Pugnaloni é engenheiro eletricista, presidente do grupo ENERCONS. Foi presidente da COPEL DISTRIBUIÇÃO, diretor de planejamento da COPEL e é diretor-presidente a Associação Brasileira de Fomento às Pequenas Centrais Hidrelétricas e CGHs. – ABRAPCH.

Petrobras já tem proposta de compra de fatia da BR

Por Rodrigo Polito, Cláudia Schuffner, André Ramalho e Rafael Rosas | Via Valor Econômico

O conselho de administração da Petrobras se reúne amanhã e vai avaliar, entre outros temas, uma primeira proposta de compra de uma fatia de até 25% na BR Distribuidora. Uma fonte a par do assunto, que preferiu não revelar o nome da empresa interessada, disse que existe a possibilidade de que a negociação avance e seja concluída ainda este ano. Com a entrada do sócio estratégico, mais adiante a empresa deverá fazer um IPO para cada negócio vinculado à rede de postos.

Se concretizada, a operação reforçará o caixa da estatal brasileira e alavancará o programa de venda de ativos da companhia. A venda de uma fatia da BR ganha ainda mais peso num momento em que o governo do Estado da Bahia e a Termogás entraram com ações contrárias à principal negociação em curso pela Petrobras ­ a venda de 49% da Gaspetro para a Mitsui. A disputa promete atrapalhar um negócio estimado em R$ 2 bilhões.

Existe, ainda, a expectativa de que a Petrobras anuncie até o fim do ano outras duas vendas de ativos: a rede postos da América do Sul (excluída a carteira de ativos da Argentina) e um dos campos de petróleo colocados à venda pela companhia, provavelmente Tartaruga Verde, previsto para entrar em produção em 2017, no pós­sal da Bacia de Campos. O Valor apurou que a estatal conta com essas duas operações para fechar a meta de venda de ativos de 2015, revisada este mês de US$ 3 bilhões para US$ 700 milhões.

A Petrobras ainda discute alguns termos do negócio da BR, entre eles, a definição sobre se o novo sócio terá ou não a opção de se tornar majoritário na distribuidora de combustíveis no futuro. Na última semana, a estatal informou que a diretoria executiva havia autorizado a busca de parceiro estratégico para a BR e que o assunto seria apreciado pelo conselho de administração na próxima reunião.

Entre outros pontos da extensa pauta do encontro de conselheiros amanhã, está, segundo fontes, a proposta de mudança do estatuto da companhia, para que cerca de 50 gerentes executivos passem a ter responsabilidade estatutária sobre seus atos. De acordo com uma fonte a par do assunto, porém, não está certo se haverá uma deliberação sobre o assunto na reunião de sexta­feira ou se o tema será apenas apresentado e discutido.

Hoje, está prevista reunião do conselho de administração da BR Distribuidora. No encontro, os integrantes do colegiado devem debater sobre a definição de um novo presidente para a companhia, em substituição a José Lima de Andrade Neto, que renunciou ao cargo em setembro. No entanto, não está certo de que os conselheiros já façam a escolha na reunião desta quinta­feira.

A Korn Ferry, empresa de “headhunter”, chegou a ser contratada para seleção de candidatos ao comando da BR, mas, segundo uma fonte, o salário­teto oferecido para o presidente da companhia é baixo para os padrões do mercado e tem dificultado a atração de executivos da iniciativa privada.

A decisão de buscar um sócio estratégico para a BR já era avaliada pela companhia há alguns meses, mas a procura ganhou corpo após a Petrobras ter decidido adiar a oferta pública de ações (IPO) da distribuidora.

O banco JP Morgan avalia que 49% da BR Distribuidora, a partir da entrada de um sócio e do IPO, renda à Petrobras cerca de US$ 5 bilhões. Com meta de obter até US$ 700 milhões com venda de ativos neste ano, a companhia anunciou até o momento apenas dois negócios, que totalizam US$ 126 milhões: uma fatia de 20% nos campos de Bijupirá e Salema, na Bacia de Campos, por US$ 25 milhões para a PetroRio (ex­ HRT); e os ativos de exploração e produção na Bacia Austral, na Argentina, para a Companhia Geral de Combustíveis, por US$ 101 milhões.

Recurso para Estatuto da Família ir a plenário já tem mais de 100 assinaturas

Via Agência Brasil

Foto: Agência Câmara

Eram necessárias 51 assinaturas de parlamentares favoráveis ao recurso pedir a retirada do efeito terminativo do projeto de lei aprovado por comissão da Câmara.

A deputada Erika Kokay (PT-DF) disse hoje (21) que já conseguiu mais de uma centena de assinaturas de parlamentares favoráveis ao recurso que retira o efeito terminativo do Estatuto da Família, aprovado no dia 24 de setembro, por 17 votos a 5, pela comissão especial que discute a matéria.

Para que o projeto de lei seja também apreciado pelo plenário da Câmara antes de ser enviado ao Senado, eram necessárias pelo menos 51 assinaturas no requerimento, número que corresponde a 10% dos deputados federais.

O prazo para apresentação do requerimento é de até cinco sessões, contadas a partir da última segunda-feira (19). “Já obtivemos mais do que o dobro do necessário, mas ainda não divulgaremos nomes, nem o número exato para evitar pressões [para a retirada de algumas assinaturas]”, disse Érika Kokay à Agência Brasil.

O texto do relator, deputado Diego Garcia (PHS-PR), define família como o núcleo formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou de união estável, e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus filhos. Em algumas oportunidades, a deputada Erika Kokay disse que, se aprovado, esse estatuto “nascerá morto”, uma vez que será barrado no Supremo Tribunal Federal (STF), corte que já se manifestou favoravelmente à união civil homoafetiva.

Em decisão sobre uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin 4.277), ajuizada pela Procuradoria-Geral da República, o então ministro do STF Ayres Britto declarou que nenhum dos dispositivos da Constituição Federal que tratam da família proíbe a formação a partir de uma relação homoafetiva. Segundo Ayres Brito, diferentemente da Constituição de 1967, que previa a família constituída somente pelo casamento, a versão de 1988 evoluiu para dar ênfase à instituição da família, independentemente da preferência sexual de seus integrantes.

Mídia estimula ódio e populismo judicial, afirma ex-ministro Nelson Jobim

Por Sérgio Rodas | Via Conjur

Há setores da imprensa que estimulam o ódio e o usam para justificar a violação de direitos, garantias e regras processuais. Depois que o problema é resolvido, fica somente o ódio, e as regras apoiadas para aquele momento passam a ser usadas em outras circunstâncias,  institucionalizando o populismo Judiciário. Este é o raciocínio do ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim sobre o cenário brasileiro e a operação “lava jato”, exposta nesta semana no II Colóquio Sobre o STF, promovido pela Associação dos Advogados de São Paulo, na capital paulista.

Nós não podemos legitimar o espetáculo em processos criminais, diz Jobim.

“O que chama a atenção é que sempre se legitima o espetáculo. Nós não podemos legitimar o espetáculo em processos criminais, porque isso é contrário ao processo democrático e à presunção de inocência”, afirmou Jobim citando a sede por prisões rápidas, o que “é muito bom quando acontece com os outros”, mas “só até ocorrer contigo”.

Na opinião dele, que também foi ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-1997) e da Defesa nas gestões de Lula e Dilma Rousseff (2007-2011), se fala muito sobre corrupção no Brasil, mas não sobre as causas dela. Segundo Jobim, o combate eficaz à prática requer examinar em que circunstâncias ocorrem esses atos e por quê.

Tal como o ministro do STF Luís Roberto Barroso, Jobim vê diferenças entre o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, em 1992, e o momento atual, no qual se discute uma eventual queda de Dilma. Mas, ao contrário de Barroso, ele não enxerga com bons olhos a presente situação. Isso porque, para o ex-ministro da Justiça, não há uma convergência de interesses que permita a superação da crise, como ocorreu no governo Itamar Franco, quando forças políticas antagônicas se uniram para fazer a transição até as eleições de 1994.

Reunião do STF

Cármen Lúcia ressalta importância do princípio do respeito à pluralidade.

No mesmo evento, a ministra do STF Cármen Lúcia disse que os juízes brasileiros têm o desafio de lidar com a pluralidade, uma vez que no país há múltiplas realidades que coexistem, com pessoas de diferentes raças, sexualidades, idades e situações financeiras e educacionais.

Cármen Lúcia ressaltou a importância do princípio constitucional do respeito à pluralidade, algo que “é imprescindível às democracias”. E somente quando as pessoas realmente aprenderem a respeitar os outros e tolerar as diferenças é que o Brasil vai passar a uma nova fase de sua história, com pleno respeito aos direitos humanos, opinou a ministra.

Seu antigo companheiro de corte Cezar Peluso avaliou que o devido processo legal é a “garantia das garantias”, da qual derivam todas as outras proteções constitucionais. De acordo com ele, uma decisão judicial só é justa quando respeita a ampla defesa e o contraditório, e, com isso, faz uma reconstrução verossímil dos fatos da causa.

Devido processo legal é a “garantia das garantias”, afirma Peluso.

O também ministro aposentado do STF Carlos Ayres Britto mostrou seus dotes de poeta em sua palestra, abusando de metáforas e comparações. Ele declarou que o Supremo se legitima sendo fiel à Constituição e promovendo a unidade do Judiciário e o equilíbrio entre os poderes.

Ao encerrar o seminário, o ex-membro do STF Sepúlveda Pertence afirmou que o fato de a jurisprudência do tribunal ter deixado de aceitar o Habeas Corpus como substitutivo de Recurso Ordinário foi um “tiro no pé do ministro Marco Aurélio, um dos mais liberais da história do Supremo”. Segundo Pertence, essa a medida, “a rigor, obriga o tribunal a analisar cada recurso para checar as ilegalidades”, não servindo como uma boa “jurisprudência defensiva”.

Outro que criticou esse precedente do STF foi o criminalista Alberto Zacharias Toron, que destacou que a decisão trouxe de volta a regra do Ato Institucional 6, de 1969, na ditadura militar, que proibia o manejo do HC originário, substitutivo do Recurso em Habeas Corpus. O advogado ainda disse que por mais que o Brasil tenha uma democracia, os direitos e garantias do processo penal não são respeitados. Por causa disso, Toron disse entender quando profissionais mais velhos garantem que era mais fácil advogar no regime militar do que hoje em dia.