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Sonegação milionária da Globo começa a ser divulgada

Por Rafael Zanvettor, via Caros Amigos

Globo não pagou imposto pela aquisição dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002

Foram divulgadas, nesta quinta-feira (17) pelo blog O Cafezinho, 29 páginas do processo da Receita Federal contra a Rede Globo. O relatório divulgado comprova que as organizações Globo criaram um esquema internacional envolvendo diversas empresas em sedes por todo o mundo para mascarar a compra dos direitos da Copa do Mundo de 2002. O objetivo principal seria o de sonegar os impostos que deveriam ser pagos à União em pela compra dos direitos.

A expectativa é que os primeiros documentos viessem a público no domingo, pouco depois da final da Copa, mas, por questões de segurança, a divulgação aconteceu nesta quinta-feira.

Operação

A engenharia da Globo para disfarçar a operação envolveu dez empresas criadas em diferentes paraísos fiscais. Todas essas empresas pertencem direta ou indiretamente à Globo, segundo os documentos. O esquema funcionava de modo que o dinheiro para a aquisição dos direitos era pago através de empréstimos entre empresas pertencentes à Globo sediadas em outros países. Deste modo, a empresa brasileira TV Globo, não gastava dinheiro diretamente com a operação. Posteriormente, as empresas que detinham os direitos de transmissão eram compradas pela TV Globo.

“Essa intrincada engenharia desenvolvida pelas empresas do sistema Globo teve, por escopo, esconder o real intuito da operação que seria a aquisição pela TV Globo dos direitos de transmitir a Copa do Mundo de 2002, o que seria tributado pelo imposto de renda”, afirma em relatório do processo o auditor fiscal Alberto Sodré Zile.

Com o esquema, o sistema Globo incorre em simulação e evasão tributária, ou seja, sonegação. O imposto sobre importâncias remetidas ao exterior para aquisição de direitos de transmissão de evento esportivo são de 15%; no caso da empresa beneficiária estar sediada em paraísos fiscais, esta taxa passa a ser de 25%, caso da Globo.

Débito ao País

O cálculo do imposto de renda devido pela empresa chega a 183.147.981, 20 milhões de reais com base no valor pago pela compra, de 732.591.924,140 milhões de reais. Além do imposto devido, a empresa também deve pagar uma multa, que por se tratar de caso que envolve sonegação, chega a 274.721.970,05 milhões de reais. A este valor podem ser acrescidos os juros de mora, como descrito em processo divulgado no ano passado, de 157.230.022,58 milhões de reais. Deste modo, o valor total do débito da Globo com a população brasileira chega ao valor de 615.099.957,16 milhões de reais, sem contar a correção.

Voo MH17 da Malaysia Airlines é abatido sobre zona de guerra na Ucrânia. Quem está por trás disto? Cui bono?

Por Tony Cartalucci, via Global Research

Nenhuma outra conjuntura desde o início da crise ucraniana seria mais conveniente, para a OTAN e o governo subserviente de Kiev, do que a atual para a queda do Boeing 777 da Malaysia Airlines.

A cartada final dos EUA havia sido outra rodada de sanções, a qual foi imediatamente ridicularizada e definida como impotente e inefetiva. Até mesmo os interesses corporativo-financeiros condenaram estas sanções, clamando serem “unilaterais” e, portanto, limitavam empreendimentos norte-americanos com a Rússia deixando os competidores europeus livres para ocupar o espaço. Uma política de confronto, contenção e enfraquecimento da Rússia exigiria sanções multilaterais de suporte quase unânime – porém, o ímpeto para este tipo de sanções não existia – até agora.

A US Federal Aviation Administration declarou interditado o espaço aéreo ucraniano há 3 meses

De fato, agora as estrelas se ajustaram para a OTAN. Enquanto a Federação de Administração da Aviação dos EUA (FAA) declarou interditado o espaço aéreo ucraniano para todas as aeronaves sob sua jurisdição, outros voos prosseguiram passando pela zona de guerra por meses. O The Atlantic, em artigo intitulado, “The FAA’s Notice Prohibiting Flights Over Ukraine”, assim publicou:

As autoridades da aviação tinham conhecimento de que aquela área era perigosa?

Sim, certamente sabiam. Há quase três meses, na seção “Special Rules” de seu site, a US Federal Aviation Administration ordenou aos pilotos, empresas, voos oficiais norte-americanos, e a todos sob sua jurisdição, que não voassem sobre a Ucrânia.

Os separatistas usam sistemas de defesa portáteis que não podem alcançar 33.000 pés

Há meses os separatistas do leste ucraniano têm abatido helicópteros, aviões de guerra e de transporte de equipamentos militares – sempre usando diversos modelos de misseis antiaéreos portáteis a homens – todos incapazes de atingir o malasiano 777 que voava a aproximadamente 33.000 pés – muito acima dos armamentos antiaéreos portáveis por homens.

O sistema responsável por atingir o voo MH17 foi o sofisticado Buk, com mecanismo de guia por radar, um veículo do porte de um tanque de guerra, que porta um sistema antiaéreo. O New York Daily News, em artigo de título “Malaysia Airlines plane feared shot down in Ukraine near Russian Border”, publicou:

Anton Gerashenko, um assessor do ministro do interior da Ucrânia, disse via facebook que o avião estava voando a uma altitude de 33.000 pés quando foi atingido por um míssil proveniente de um sistema antiaéreo Buk, reportou a Interfax, agência de notícias ucraniana.

O sistema antiaéreo Buk

Não está claro se os separatistas do leste ucraniano possuem algum sistema antiaéreo Buk – e mesmo possuindo, também é duvidosa a possibilidade de terem pessoal capaz de manter e operar estes. Se possuem algum sistema Buk, poucos saberiam. Kiev afirma que estes sistemas foram cedidos pela Rússia – negando, então, tacitamente, que tenham perdido algum destes de seu arsenal. Mesmo que a Rússia tenha cedido armamentos aos separatistas, não seriam sistemas Buk, pois, estes deveriam ser encaminhados diretamente a Moscou após o primeiro uso.

Cui Bono? A quem interessa esta tragédia?

A mais forte jogada russa até o momento foi o poder de restringir a OTAN, após a prória OTAN levar a Ucrânia ao caos apoiando neo-nazis armados durante o “Euromaidan”, isto ocorre desde o fim de 2013. A Rússia certamente não jogaria fora esta cartada cedendo armamentos deste porte aos separatistas que já estavam abatendo com sucesso os veículos aéreos militares de Kiev por meio dos misseis portáteis.

A Rússia e os separatistas do leste ucraniano nada possuem a ganhar abatendo um avião civil, mas sim tudo a perder – enquanto se olharmos pro lado oposto – verificamos que ganham a OTAN e o regime golpista de Kiev. O fato deste avião abatido ser outro boeing 777 malasiano – o segundo perdido este ano em circunstâncias extraordinárias – mostrou-se muito conveniente e acabou por ganhar máxima atenção dos propagandistas do Ocidente. Agora, possuem toda a atenção do mundo para, com ela, culpar a Rússia e os separatistas anti-Kiev do leste ucraniano.

O ímpeto necessário para unir a Europa e outros aliados do Ocidente em torno da OTAN e assim dar base a uma intervenção mais direta dos EUA na Ucrânia está em todas as manchetes, correndo o mundo. Se a queda do voo MH17 não foi um trágico caso de erro de identificação, então, temos que o maior beneficiado da atual configuração é, sem dúvida, a OTAN.

Os BRICS e a esquerda da mais-valia relativa

Por João Valente Aguiar, via Passa Palavra

Planalto/Reprodução

Os eixos fundamentais da esquerda da mais-valia relativa nos BRICS

Nos últimos anos muito se tem escrito sobre a esquerda nacionalista portuguesa e sobre os impasses que ela coloca. Ora, o maior perigo do nacionalismo no seio da esquerda não é apenas a difusão de variadas formas de irracionalismo. É também o perigo de, a pouco e pouco, levar os próprios contestatários a raciocinar nos moldes preconizados pelos nacionalistas: a discussão centrada nos assuntos do país de origem.

Para fugir a esta “armadilha” escrevi este breve artigo sobre o facto de, neste século, ser uma parte da esquerda (a esquerda da mais-valia relativa) quem mais tem contribuído para a expansão do capitalismo em alguns dos países emergentes. Combinando a mais-valia relativa com a mais-valia absoluta, sob a hegemonia da primeira, e articulando o Estado central às prerrogativas de expansão das empresas, é nos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que uma modalidade da esquerda dos gestores tem conseguido fornecer oxigénio à modernização capitalista. Esta é a esquerda dos gestores da mais-valia relativa, uma modalidade quase ausente em Portugal.

Seria demasiada coincidência se a ascensão dos BRICS não tivesse nada a ver com a presença de uma esquerda da mais-valia relativa na governação destes países. Desde o caso do PT no Brasil à reconversão do PC chinês, passando pela coligação de esquerda que governa a África do Sul, sem esquecer os ex-KGBs que estão no centro de poder da Rússia ou o governo do Partido do Congresso Indiano que governo o país até Maio passado, parece-me que a constituição de uma esquerda capaz de articular eficazmente o Estado e as empresas é parte relevante no processo de evolução do capitalismo no século XXI. Será da articulação entre Estados repressivos e ditatoriais (como o caso chinês e russo) e da criação de condições para o desenvolvimento pleno dos negócios das empresas (das ONGs às grandes transnacionais) que o capitalismo encontrará fôlego para um novo ciclo económico de expansão. A juntar a isto parece estar a ocorrer uma integração internacional cada vez mais interpenetrada e sólida tanto entre os BRICS, como entre cada uma destas economias e outros países emergentes.

Temos assim uma esquerda dos gestores, uma esquerda que, sem esquecer a mais-valia absoluta, se tem centrado na expansão da mais-valia relativa, precisamente porque se mostrou capaz de, por um lado, absorver os protestos sociais e, por outro, fortalecer o aparelho de Estado no sentido deste proporcionar melhores condições infra-estruturais e de financiamento para as empresas. Parece aqui contrariar-se a tese dicotómica e mecânica que contrapunha Estado e mercado. Pelo contrário, o sucesso económico dos BRICS contraria esse dualismo estéril, convocando a reflectir sobre as implicações e as reais relações entre o aparelho de Estado e as empresas. Esquerda, Estado e empresas são, nos BRICS, partes constitutivas e necessariamente interdependentes de um mesmo sistema de poder. A esquerda tem sido nos BRICS a vanguarda do Estado que, por sua vez, actua no sentido de fornecer condições materiais e políticas para o avanço do poder e dos investimentos das empresas.

Ao mesmo tempo, esta esquerda dos gestores tem sido inovadora política e socialmente.

Num primeiro âmbito repare-se que esta esquerda não é uma mera cópia da tecnocracia europeia ou norte-americana, apesar das suas cordiais relações de classe. Esta esquerda dos gestores surgiu fundamentalmente em países que tiveram algum tipo de movimentação operária de base nas décadas anteriores (lutas operárias no final dos anos 80 no ABC paulista; lutas de base aquando da Revolução Cultural tanto contra “elementos burgueses” como contra o Estado maoísta; lutas contra o apartheid na África do Sul; lutas no Leste europeu contra a burocracia soviética; lutas seculares camponesas na península indiana) e soube utilizar o recuo das lutas sociais para introduzir elementos da lean production toyotista em variados sectores.

Num segundo âmbito percebe-se que esta esquerda utiliza o Estado como trave central da sua actuação estratégica. Mas seria um erro reduzir a actuação desta esquerda a um estatismo clássico de nacionalizações e de recurso à violência para reprimir manifestações de rua. Pelo contrário, esta esquerda tem sido capaz de, num mesmo passo, financiar ONGs e movimentos sociais e introduzir elementos dirigentes destas estruturas na cadeia central de poder. Associado a isto, esta esquerda da mais-valia relativa diverge da esquerda estatista europeia na medida em que o Estado não se expande por via da retracção da iniciativa privada, mas procurando o crescimento de ambas. Esta articulação institucional expressa-se, no plano internacional, na facilidade com que a tecnocracia dos BRICS participa em investimentos transnacionais junto da tecnocracia norte-americana e europeia. É, portanto, no pulsar dos processos de transnacionalização global com os blocos europeu e norte-americano e dos processos de transnacionalização intra-BRICS e com os restantes países emergentes que esta esquerda dos gestores tem desempenhado um papel incontornável para a expansão do capitalismo. Uma expansão de um ponto de vista mais vasto (peso tendencialmente crescente dos BRICS na taxa de crescimento do PIB mundial), mas também ao nível da implementação de sistemas de organização eficientes no interior das suas maiores empresas. Neste momento, os BRICS parecem estar mais avançados na consolidação de alianças económicas entre si do que, por exemplo, o acordo de comércio livre entre a União Europeia e os Estados Unidos. Ao nível económico, a União Europeia, constituída por Estados com muito maior proximidade geográfica, cultural e política, não tem conseguido finalizar o seu projecto de integração económica e política a um ritmo desejável, que lhe permita acompanhar os seus competidores. Portanto, a evolução das economias deve quase tudo a dinâmicas de índole socioeconómica. A discussão no plano cultural ou geoestratégico só serve para obscurecer as dimensões político-estruturais e económicas em causa.

Com efeito, na próxima secção vou abordar muito sucintamente dois episódios concretos mas que, vistos numa perspectiva estrutural, apresentam alguns dos contornos fundamentais do papel da esquerda da mais-valia relativa na basculação do toyotismo para novos pólos de acumulação capitalista.

Dois exemplos de como a conjuntura se articula com a estrutura

Passa Palavra/Reprodução

Há pouco mais de um mês ocorreram importantes greves na China:

«Simplesmente, ainda não houve uma greve desta dimensão e magnitude na China moderna. Enquanto as greves na China normalmente terminam assim que há resposta às reivindicações sobre um determinado assunto, esta greve é indefinida e em escalada: uma espécie de negociação coletiva através do motim. Aqui as reivindicações são mais estruturais; os trabalhadores rejeitaram as migalhas caídas da mesa dos patrões e o protesto alastra às províncias vizinhas. As mudanças na produção chinesa podem repercutir-se na produção global. Como assinalou Jacques Rancière: “A dominação do capitalismo a nível global depende da existência de um Partido Comunista Chinês que fornece às empresas capitalistas deslocalizadas trabalho barato e preços baixos, privando os trabalhadores do direito à auto-organização”. Devido às greves, o salário médio na China subiu 17% por ano desde 2009, e é hoje cinco vezes maior do que era em 2000».

Não vou aqui discutir o seu potencial de elevação das lutas para os próximos tempos, mas como este tipo de mobilizações sociais se insere na estrutura mais vasta que tenho vindo a comentar.

Para começar, reafirmo que é nos países de crescimento da mais-valia relativa que ocorrem as maiores lutas sociais. Os trabalhadores lutam mais quando há crescimento económico e vêem que, como diz o texto, «as migalhas caídas da mesa dos patrões» não chegam para satisfazer o direito a uma vida digna. Pelo contrário, em períodos de crise económica os trabalhadores, justificadamente, têm medo de perder o emprego, de perder salários, querem agarrar-se ao que ainda os pode “safar”. As crises económicas geram movimentos de força da classe dominante e ampliam a fragmentação dos trabalhadores. Por isso é que a resposta dos trabalhadores nas crises é genericamente pontuada pelo erguer das bandeirolas nacionais e dos patrioteirismos. Neste caso na China, pelo contrário, o que anima a luta daqueles trabalhadores é a reivindicação concreta laboral e não as tretas da soberania ameaçada e da ingerência externa. São a vida e as suas condições concretas que mobilizam as lutas que ou rompem com o capitalismo ou o modernizam, obrigando as empresas a fazer concessões mas a aumentar a produtividade do trabalho.

Por isso é que as lutas sociais autónomas são sempre positivas. Na melhor das hipóteses podem desaguar numa nova sociedade. Na pior das hipóteses, obrigam os gestores a reformular os mecanismos de extracção do excedente económico.

De referir que o sucesso do capitalismo chinês se deve à inovadora articulação entre os mecanismos mais modernos da mais-valia relativa (investimento massivo, lean production, empresariado moderno, internacionalização da economia) e os mecanismos mais terríveis da mais-valia absoluta (sectores com baixos salários, repressão laboral, Estado totalitário, ausência de liberdades democráticas). Ao mesmo tempo, como as lutas sociais não conseguiram romper esta articulação, fornecem uma base sólida para obrigar as empresas a responder às reivindicações laborais com um aumento da produtividade, conferindo um ainda maior dinamismo ao sistema. Mas ainda há quem à esquerda ache que o capitalismo está “ligado à máquina”…

Um segundo exemplo vem do Brasil, onde a Câmara dos Deputados aprovou um Plano Nacional de Educação em que é estabelecida a meta de, em 2024, o Estado brasileiro atingir um investimento de 10% do PIB em educação. Propaganda para ver se contraria os protestos nas ruas antes e durante o Mundial de Futebol, ou uma real intenção de prosseguir nos trilhos da mais-valia relativa? Provavelmente as duas coisas, já que, em contextos de crescimento económico, a consagração parcial de reivindicações é sempre parte estruturante de uma nova alavancagem do desenvolvimento económico.

Passa Palavra/Reprodução

Se esta proposta de Dilma Rousseff se concretizar, é mais um caso notável de um partido e de uma governação de esquerda que souberam, num mesmo movimento, revigorar a classe dos gestores, modernizar a economia e qualificar a força de trabalho, aproveitando a contestação da rua como motor relevante de todo este processo. A meu ver é impossível desligar a força transformadora do PT no capitalismo brasileiro (e mundial) sem se fazer referência, por um lado, ao papel dos movimentos sociais de 1985 a 2002 e, por outro, à capacidade que esse partido teve posteriormente para ir contendo e absorvendo a contestação social que ocorreu fora dos movimentos controlados pelos seus dirigentes. Pelo meio ainda conseguiu burocratizar e governamentalizar uma série de movimentos, bem como não tem tido grandes problemas em usar a força policial. Mas o essencial do processo iniciado em 2002 com a eleição de Lula da Silva passou pelo que escrevi na antepenúltima frase e que volto a mencionar: é um caso notável de um partido e de uma governação de esquerda que souberam, num mesmo movimento, revigorar a classe dos gestores, modernizar a economia e qualificar a força de trabalho, aproveitando a contestação da rua como motor relevante de todo este processo. PT, a esquerda dos gestores da mais-valia relativa no Brasil.

Para terminar

Num outro artigo escrevi que «dada a inseparabilidade do Estado e da economia capitalista, a esquerda dos gestores, seja qual for a sua forma histórica específica, situa-se dentro dos processos de reconversão institucional do capitalismo a partir do aparelho de Estado». Não me irei alongar sobre o assunto mas lembrar que, apesar de esta esquerda se concentrar em postos-chave do Estado, isso não significa que seja este o centro da acumulação de capital. Ao contrário das experiências capitalistas de Estado do passado, há uma integração e uma ampliação de interesses entre os gestores localizados no Estado central, nos sindicatos, nos movimentos e nas empresas. É isso que permite que a esquerda dos gestores esteja a ser bem-sucedida na internacionalização das empresas. Uma lista das 100 empresas mais desafiantes compilada pelo Boston Consulting Group incluía 58 provenientes do continente asiático, onde a China e a Índia despontavam. Em consonância, 83 das 500 empresas listadas pelo índice Fortune 500 localizam-se nas economias emergentes asiáticas da China, Índia, Malásia e Tailândia. Isto demonstra duas coisas. Primeiro, o capitalismo continua a expandir-se e os países governados pela esquerda dos gestores estão na vanguarda desse processo. Segundo, a integração mundial das economias emergentes, especificamente as que são lideradas pela esquerda dos gestores, não tem ocorrido com significativas fricções. Pelo contrário, a integração económica tem sido acompanhada por uma integração dos gestores. É a diversidade política, territorial e de origem que tem fortalecido a classe capitalista dos gestores no plano global e não o contrário. É a plasticidade social e institucional que proporciona aos gestores actuar em cada vez mais tabuleiros territoriais e sociais e, a partir daí, podem expandir as relações sociais capitalistas.

São Francisco que me perdoe, mas é de uma pobreza franciscana que ainda haja à esquerda quem ache que na China apenas imperem «condições que abriram portas a que hoje um chinês monte um computador a troco de uma tigela de arroz». O mais poderoso dos BRICS tem crescido exponencial e ininterruptamente durante três décadas e ainda há quem ache que isso apenas se deveria a aspectos unicamente derivados da mais-valia absoluta. Hoje existem transnacionais colossais de todos os BRICS precisamente porque articulam a mais-valia absoluta com a mais-valia relativa, mas tendo esta como ponta-de-lança. Seria impossível as transnacionais competirem internacionalmente e numa tal vastidão de mercados e de investimentos se apenas se alicerçassem nos mecanismos da mais-valia absoluta. Não é por acaso que, em conjunto, a «China e a Índia esperam atingir, em 2020, cerca de 1 bilião de consumidores de classe média», o que representará um mercado de 10 triliões de dólares. São muitas tigelas de arroz…

Passa Palavra/Reprodução

Por outro lado, se o modelo chinês (como o dos BRICS no seu conjunto) fosse apenas esse das tigelas de arroz, então Tiananmen não teria sido um ponto de viragem no capitalismo chinês mas o primeiro episódio para uma renovada stalinização da sua economia. No seio dos mecanismos da mais-valia relativa os momentos de repressão dos trabalhadores são isso mesmo, momentos para derrotar lutas sociais pela violência para subsequentemente absorverem aspectos dessas lutas para ampliar o sistema de extracção da mais-valia. Por exemplo, e continuando na China, Tiananmen não apenas não se repetiu como doravante explodiriam centenas de greves reivindicativas que permitiram ao Estado e às empresas responder com o aumento da produtividade do trabalho. Num contexto histórico em que os salários cresceram, só uma produtividade mais elevada poderia compensar esse aumento de custos (momentâneos) para os capitalistas. Ora, este é o mecanismo da mais-valia relativa, o da modernização capitalista, o eixo prevalecente no desenvolvimento económico dos BRICS.

Na Europa a esquerda dos gestores da mais-valia absoluta continuará a apostar na divisão nacional dos trabalhadores. Nos BRICS a esquerda dos gestores da mais-valia relativa continuará a expandir as relações capitalistas. Numa parte do globo, os gestores e candidatos a gestores fomentam a fragmentação dos trabalhadores. Noutra parte do globo, a outra esquerda dos gestores tem aproveitado as lutas sociais e o seu património passado para incrementar a mais-valia relativa. É possível uma esquerda sem gestores?

Bob Fernandes: O “povo” deu aulas ao “topo” e à política com a Copa

Por Bob Fernandes, via facebook

No jornalismo, por questões de espaço, tempo e técnica, a realidade é fatiada. Em matérias e títulos distintos.

Cada reportagem trata de um assunto que se encerra em si mesmo… Isso é Copa, aquilo é política, isso é economia…

Na vida, na real, tudo é parte inseparável do todo.

As eleições estão ai. Páginas escritas nessa Copa deixam ensinamentos para a Política, e para o “topo”. Ensinam sobre quem soube jogar.

O Brasil recebeu 1 milhão de visitantes. Pesquisa do Datafolha diz: 83% dos estrangeiros aprovaram a Copa.

Os estrangeiros perceberam os altos custos, a desigualdade social, a insegurança… mas 95% querem voltar ao Brasil.

Impressionantes 95% disseram que a recepção a eles foi “ótima” ou “boa”. Performance extraordinária em qualquer lugar do mundo.

Quem recebeu os visitantes foi um conjunto de instituições, e o coletivo de cidadãos que chamamos de “o povo brasileiro”.

Note-se: num país onde 50 mil pessoas são assassinadas a cada ano, nada de grave aconteceu ao longo de um mês com esse 1 milhão de visitantes.

Disputas entre torcidas, farras homéricas Brasil afora, e foi no trânsito que dois argentinos, jornalistas, perderam a vida.

Espancamentos em manifestações, prisões arbitrárias, os assassinatos nossos de cada dia, tudo isso se deu entre brasileiros… Aprendamos algo com isso.

Aprenderam sobre o Brasil e sua gente bilhões de pessoas que acompanharam a Copa e o rosário de notícias.

Se os alemães souberam vender e comprar simpatia, quem recebeu bem 1 milhão de hóspedes também soube jogar.

Essa lição de maturidade coletiva deve ser assimilada pela Política, e pelo “topo”.

Pelos que anunciaram e apostaram no caos.

E por quem tenha sonhando em obter dividendos com a eventual glória alheia.

A eleição está ai. Virá a marquetagem, vendedores e vendedoras de fumaça.

Vai errar quem duvidar de novo da capacidade de entender, decidir e agir do chamado “povo brasileiro”.

As sabatinas de Aécio e Eduardo Campos

Por Paulo Nogueira, via DCM

Aécio na sabatina. DCM/Reprodução

A não ser que uma grande surpresa ocorra, Dilma se reelegerá presidente em outubro, e provavelmente no primeiro turno.

Sua maior arma não é nada ligado a ela diretamente. Nestes seus anos, a economia cresceu pouco, a inflação teve alguns espasmos e o Brasil deixou de ser o menino prodígio que foi, sob Lula, aos olhos do chamado mercado internacional. Não bastasse isso, há um desgaste na própria esquerda, por conta da repressão policial em manifestações de protesto.

O grande trunfo de Dilma está na fraqueza extraordinária de seus principais adversários, Aécio e Eduardo Campos.

Nos Estados Unidos, aconteceu uma coisa semelhante nas últimas eleições presidenciais. Obama levou menos por seus mérito e mais pela ruindade extrema de seu adversário republicano, Mitt Romney.

Em sua apoteose ao contrário, Romney disse que caso se elegesse iria esquecer quase metade dos americanos, exatamente os mais necessitados.

As duas sabatinas recém-promovidas por um grupo de marcas jornalísticas estampam o deserto de ideias que são Aécio e Campos.

Vejamos, primeiro, Aécio. O maior destaque que o UOL conseguiu dar às falas de Aécio foi o compromisso de que ele manteria o Bolsa Família e o Mais Médicos.

Será que ele e equipe não têm uma única ideia de programa social para apresentar aos eleitores?

Pelo visto, não.

E a sociedade clama por fatos novos na área social, coisas que beneficiem os mais pobres e reduzam a desigualdade brutal do país.

Não é apenas a falta de novas propostas que incomoda. Aborrece também a maneira com que Aécio abraça programas que ele execrou antes, e que simplesmente não existiriam se ele tivesse poder para bloqueá-los.

O Bolsa Família era o Bolsa Esmola. E o Mais Médicos era um insulto à classe médica brasileira. Não, mais que isso: a todos nós, brasileiros, vivos e mortos.

Pois de repente o Mais Médicos fica bom, e Aécio garante sua manutenção a cada entrevista mais profunda que dá.

Eu respeitaria a mudança de opinião se ela fosse precedida de um honesto pedido de desculpas. “Amigas e amigos: errei na avaliação do Bolsa Família e do Mais Médicos. Achei que eram ruins coisas que eram boas e podem ser ainda melhores. Perdão.”

Mas não. Mais um pouco e Aécio vai posar como autor das ideias.

Segundo relatos publicados no UOL, a plateia teve um papel importante na sabatina de Aécio.

Boa parte dela era composta de líderes do PSDB. Um deles era Serra, que chegou atrasado. A composição favorável da audiência levou a palmas em dose generosa. E também a comentários entre os presentes como este registrado pelo UOL: “Pena que os entrevistadores são petistas.”

Pausa para rir.

Um dia antes, o sabatinado fora Eduardo Campos. Para ser mais que um figurante de olhos azuis nas eleições, Campos tem que apresentar ideias novas.

Mas de novo: quais?

A frase considerada mais importante pelos editores da sabatina dizia mais ou menos o seguinte: “Dilma vai ser a primeira pessoa, desde a redemocratização, a entregar o país pior do que recebeu.”

É a chamada platitude, chavão, lugar comum. Como não tem tanto tempo assim no programa eleitoral gratuito, Campos tem que se concentrar em suas ideias. Todos sabem – afinal ele é candidato de oposição – que ele tem má opinião sobre Dilma.

Pode e deve ganhar tempo, portanto, sem repetir o que já é de conhecimento universal.

O momento mais revelador da sabatina de Campos veio na forma de um número milionário. Ele disse que iria construir 4 milhões de casas.

Promessas desse gênero remetem a velhas campanhas, em que os candidatos pareciam acreditar poder vencer uma eleição usando um número maior do que o de seus adversários.

Ou não tão velhas assim.

É um clássico, nas eleições de 2010, a promessa de Serra de que não apenas iria manter como dobraria o Bolsa Família.

Já ali Dilma mostraria ter sorte no quesito adversários.

FMI empurra Ucrânia para “suicídio voluntário”

Via Diário Liberdade

Meramente ilustrativa

Ucrânia – Redecastorphoto – [Michael Hudson] Os alfarrábios pós-bolha assumem que chegamos ao “fim da história”, no que tenha a ver com grandes problemas. Mas ainda falta desmascarar e criticar o grande quadro: o modo pelo qual Wall Street financeirizou o domínio público para inaugurar uma economia neofeudal de pagar pedágio [orig. toll-booth] aos rentistas, ao mesmo tempo em que privatizou o próprio governo que, nos EUA, passou a ser governado pelo Tesouro e pelo Federal Reserve.

A história em que ninguém toca é a história de como o [vaidoso, presunçoso, "ético", moralista, metido a besta] capitalismo industrial [liberal] sucumbiu a um capitalismo financeiro insaciável e insustentável, o qual – perfeito neo “estágio final”! – é jogo de soma zero (só um ganha e, esse, leva tudo) jogado pelo capitalismo – de – cassino baseado em trocas de papéis “derivativos” e fundos hedge, as mais novas “inovações” da jogatina e da agiotagem.

Michael Hudson, 20/5/2009, Counterpunch, em: “The Toll Booth Economy” trecho aqui traduzido e acrescentado [NTs].

O “apoio” ocidental permitirá novos empréstimos pelo FMI e pelos europeus para segurar a moeda ucraniana, até que os oligarcas ucranianos possam transferir com segurança o dinheiro deles para bancos britânicos e norte-americanos – explica o economista Michael Hudson a RT.

RT: O senhor pode resumir para nós as etapas tentadas e testadas que resultarão dos empréstimos pelo FMI à Ucrânia, com o melhor do patrimônio público da Ucrânia sendo transferido para proprietários privados ocidentais – a função “quebra-joelho” do FMI, como o senhor a definiu memoravelmente?

Michael Hudson: O princípio básico a ter em mente é que a finança hoje é guerra, por meios não militares. O objetivo de empurrar o país até que se perca no endividamento, é conseguir arrancar dele o superávit econômico, apossando-se, logo depois, da propriedade nacional. A principal propriedade nacional a ser “obtida” é aquela que gere exportações e divisas (moeda estrangeira). No caso da Ucrânia, significa a manufatura concentrada no leste e as empresas de mineração – itens que, hoje, estão em mãos dos oligarcas. Para os investidores estrangeiros, o problema é como transferir para mãos estrangeiras esses bens e a renda que eles geram – numa economia cujos pagamentos internacionais estão presos em déficit crônico, resultado da fracassada “restruturação” pós-1991. É onde o FMI entra.

O FMI não foi criado para “consertar” déficits domésticos de governos. Os empréstimos que o FMI faz têm destino definido: têm de ser usados para pagar credores externos, sobretudo para manter a taxa de câmbio do país. O efeito, quase sempre, é subsidiar capital especulativo que voa para fora do país – com juros cambiais maiores; para os depositantes e credores sobram menos dólares ou euros. No caso da Ucrânia, entre os credores estrangeiros estaria a Gazprom, que já recebeu alguma coisa. O FMI transfere um crédito para sua “conta Ucrânia”, a qual então paga credores estrangeiros. O dinheiro realmente jamais chega à Ucrânia ou a outros países que tomam empréstimos do FMI. É depositado em contas de estrangeiros, inclusive governos estrangeiros tomadores, como no caso dos empréstimos do FMI à Grécia. Esses empréstimos vêm com “condicionalidades”, condições impostas para obter o empréstimo. Uma dessas “condicionalidades” é a que impõe a “austeridade”. Esse processo de novos empréstimos aumenta o endividamento – o que força o governo a apertar cada vez mais o orçamento, trabalhar com déficits orçamentários menores e vender patrimônio público.

RT: A Ucrânia deve esperar o chamado “efeito-FMI”, com 1/5 da população empurrada para emigrar. Quais as consequências de o país ver partir a parte de melhor formação educacional e profissional da população?

MH: A Ucrânia já depende do dinheiro que os emigrados mandam para casa, que já chega a 4% do PIB (cerca de US$ 10 bilhões/ano.) A maior parte desse dinheiro vem da Rússia, o restante da Europa Ocidental. O efeito dos planos de austeridade do FMI é forçar maior número de ucranianos a emigrar à procura de emprego. E eles terão de mandar para as famílias parte do dinheiro que ganhem fora da Ucrânia, o que fortalecerá a moeda ucraniana na relação com o rublo e com o euro.

 

RT: Em que sentido as ferramentas do FMI são, na realidade, “armas de destruição em massa”, como o senhor escreveu? [1]

MH: Déficits mais baixos de orçamento provocam “austeridade” e desemprego ainda mais profundos. O resultado é uma espiral econômica para baixo. Menos renda, menos arrecadação de impostos. Então os governos são mandados equilibrar os orçamentos… com a venda de patrimônio público – principalmente monopólios existentes, cujos compradores podem aumentar os preços, para fazer aumentar os lucros e o saque econômico. O efeito disso é converter a economia numa economia de “pagar pedágio” aos rentistas. As estradas públicas recebem “postos de [pagar] pedágio”, outros sistemas de transporte, água, esgotos, são privatizados. Isso faz aumentar o custo de vida, e, portanto, o custo do trabalho – mas os salários são reduzidos e reduzidos, sangrados pela austeridade financeira que faz encolher os mercados e eleva o desemprego.

RT: Pode-se dizer que o FMI é “arma de destruição em massa” também em sentido mais literal. A organização ameaçou publicamente e chantageou a Ucrânia; disse que teria de “redesenhar” o pacote de ajuda, a menos que Kiev fizesse guerra contra os ucranianos no leste do país e impedisse os protestos. Essa atitude não converte o FMI em criminoso, literalmente, no mínimo cúmplice ou instigador de guerra e assassinato?

MH: A “condicionalidade” do FMI prevê que assim estaria “pacificando” o leste da Ucrânia. Nessa retórica orwelliana, pode-se pacificar a ferro e fogo; pacificação à bala é a paz dos cemitérios.

O único meio pelo qual se pode alcançar paz econômica e política real é uma federalização da Ucrânia, com unidades independentes, mas coligadas, de modo que cada região consiga ser independente dos cleptocratas em Kiev – a maioria dos quais “nomeados” pelo ocidente.

Quanto às acusações de práticas criminosas, sempre dependem do acusador, do procurador e da corte! Até hoje, nenhum país acusou o FMI por crimes de guerra ou por crime econômico. O máximo que os eleitores podem fazer é rejeitar governos que se rendam às condições que o FMI imponha. Muitos eleitores que podem votarão “com os pés” e andarão para bem longe das urnas eleitorais, simplesmente abandonarão a economia que naufraga. Portanto, o que se deve reconhecer a favor do FMI é que a Ucrânia e outros dos seus “clientes” estão cometendo suicídio voluntariamente. Não se pode dizer que estejam sendo assassinados. A austeridade é uma política. Só raramente os neoliberais armam-se e assassinam governantes que se oponham à austeridade.

Mas, sim, foi exatamente o que aconteceu no Chile, em 1974, no governo de Pinochet. O governo dos EUA estava, então, sim, por trás dos assassinatos. Nesse sentido, pode-se dizer que a Ucrânia é replay do Chile (e do Brasil/1964 [Nrc]) há quarenta anos.

RT: Todos conhecem os efeitos da austeridade na Grécia e em outros países; pesquisas mostram que muitos ucranianos rejeitam a austeridade; hoje, até o FMI já admite que a austeridade não funciona. Por que os governantes da Ucrânia insistem nisso? Será que receberam “garantias” e já têm emprego prometido no ocidente, depois que forem expulsos de seus países, talvez, pelas urnas?

MH: Os líderes ucranianos são, praticamente todos, cleptocratas. O objetivo deles não é ajudar o país, mas ajudar a consolidar o próprio poder. O objetivo deles não é ajudar o país, mas ajudar a consolidar o próprio poder deles. George Soros escreveu que o melhor modo de eles fazerem isso é encontrar sócios ocidentais. Assim os EUA e a Europa terão meios para apoiar os cleptocratas, no processo de fecharem o cerco à economia. Apoio ocidental garantirá mais empréstimo à moda FMI para reforçar a moeda ucraniana, de modo que os ucranianos possam levar seu dinheiro em segurança para o ocidente, para bancos britânicos e norte-americanos.

RT: O senhor entende que a União Europeia chegará a acolher a Ucrânia como membro pleno, para que, nos termos do acordo de associação, os estados-membros possam arrancar do país a melhor parte de seu patrimônio e usar seus trabalhadores como algo bem próximo de mão de obra escrava, pagando-lhes o salário mínimo ucraniano de 91 centavos de dólar por hora de trabalho?

MH: A União Europeia, de fato, nem tem interesse em admitir a Ucrânia como membro. Há uma Política Agrícola Comum [orig.Common Agricultural Policy (CAP)], subjacente à criação entre França e Alemanha, do Mercado Comum em 1957, que define o oeste da Ucrânia como rica terra ocidental; e aquela área ainda é, até hoje, área predominantemente rural. O que os investidores estrangeiros querem é comprar a Ucrânia e “refeudalizar” o país, criando grandes estabelecimentos comerciais rurais, grandes fazendas. Mas a UE dificilmente fornecerá os subsídios necessários para financiar a mecanização e investimentos em capital, para a agricultura na Europa Ocidental.

A União Europeia não precisa integrar formalmente a Ucrânia, para beneficiar-se do trabalho barato. Basta arruinar a economia ucraniana, como arruinaram a economia grega, da Irlanda, da Letônia, para que os trabalhadores ucranianos tenham de partir para o ocidente. E os trabalhadores de maior mobilidade são, tradicionalmente, a geração que está hoje na casa dos 20 anos, a mais bem formada que o país produziu, que fala vários idiomas e tem as competências que mais fazem falta no ocidente.

RT: O senhor escreveu que a Ucrânia “deve ter consultado os EUA”, para explodir aquele gasoduto. O senhor acha que a OTAN apoiará qualquer coisa, até o terrorismo, para tornar o gás russo menos “confiável”, sobretudo num momento em que as gigantes norte-americanas do fracking estão empenhadas em campanha gigante de propaganda & publicidade (“Relações Públicas”) na Europa?

MH: Os EUA pressionaram a Europa para que tornasse ainda mais custosa a economia europeia e dependente das exportações de gás dos EUA. O objetivo principal foi privar a Rússia de divisas. O que a OTAN pensa é, essencialmente, o que o primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk tuitou na 2ª-feira, 16/6/2014: a Ucrânia “não continuará a subsidiar a Gazprom [ao ritmo de] US$5 bilhões/ano, para que a Rússia [com esse dinheiro] consiga armar-se outra vez contra nós”.

A posição dos EUA hoje é a mesma de 1991: sem manufatura a Rússia não pode ser potência militar séria capaz de se autodefender. E sem comprar tecnologia estrangeira e sem vastos subsídios estatais – como os governos de EUA e europeus asseguram às suas respectivas economias nacionais – a Rússia não conseguirá criar manufatura. Assim sendo, a OTAN está hoje dedicada a tentar impedir que a Rússia ganhe dinheiro suficiente para modernizar sua economia, sob o pressuposto de que:

(1) qualquer potência industrial sempre é potencialmente potência militar; e de que

(2) qualquer potência militar pode ser usada para construir a própria independência política, que afastará qualquer país da esfera de influência dos EUA.

RT: Algo mais que o senhor queira acrescentar?

MH: O que está em questão é se as economias, em todo o mundo deixarão o poder da finança continuar a desmontar e minar o poder de governos eleitos e, portanto, a minar o poder da própria democracia. Governos são soberanos. Nenhum governo precisa, de fato, pagar sua “dívida externa” ou submeter-se a políticas que minam os três pilares que definem um estado: a capacidade para criar a própria moeda; para impor impostos e para declarar guerra.

O que está em disputa é quem manda no mundo: o 1% que existe como oligarquia financeira, ou os governos progressistas eleitos. Os conjuntos de objetivos de um lado e do outro são antitéticos: melhorar os padrões de vida da população e ampliar a independência nacional; ou render-se a uma economia rentista, à austeridade e a dependência.

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Nota dos tradutores

[1] 13/5/2014, Michael Hudson, “The New Cold War’s Ukraine Gambit”, cap. do livro Flashpoint in Ukraine (Stephen Lendman, Ed.).

Juca Kfouri: o que fica pro futebol brasileiro

Por Juca Kfouri, via Blog da Boitempo

O que é pior, o vira-latismo ou o puxa-saquismo? Se o primeiro se confundir com espírito crítico certamente o segundo é pior, porque mera bajulação. Comecemos pelo começo: a imagem do Brasil depois da Copa é muito melhor do que, com carradas de motivos, se imaginava antes dela. Fez-se, em resumo, um bom anúncio do país. Porque houve a festa que se imaginava que haveria nos estádios e não houve a tensão prevista fora dele.

Por incrível que possa parecer, Joseph Blatter, o poderoso chefão da Fifa, tinha razão: a sedução do futebol falou mais alto, ainda mais porque, paradoxalmente, se a Copa não apresentou nenhuma seleção inesquecível, mostrou jogos formidáveis, como uma homenagem ao país que já foi o do jogo bonito. Repita-se para suavizar o que virá a seguir: o Brasil ganhou a 20a Copa do Mundo da Fifa e ainda por cima prendeu gente dela que há décadas atenta contra a economia popular, um legado inestimável, exemplar, digno de ser aplaudido de pé assim como a hospitalidade nacional.

Tamanhas vitórias não escondem as derrotas e aqui não se fará nenhuma menção, além desta, à goleada alemã. Por falar nisso, em alemães, nossa Copa foi muito melhor que a da África do Sul, mas não foi, como organização, melhor que a de 2006. Claro, da Alemanha se espera perfeição e a Alemanha esteve perto disso. Do Brasil esperava-se uma catástrofe e o Brasil ficou longe disso. Contudo, na Alemanha não foram construídos elefantes brancos como os de Manaus, Cuiabá, Natal e Brasília, cujas contas jamais serão pagas a não ser que ocorra mais um milagre brasileiro.

Lá não morreram tantos trabalhadores, nem caiu viaduto com duas mortes, nem se desalojou tantas famílias, nem nada custou tanto a ponto de a nossa Copa ter superado o custo dos três últimos torneios e nenhum estádio foi invadido por torcedores como o Maracanã pelos chilenos. Tampouco faltou luz no jogo de abertura. Esquecer tais fatos em nome da imagem externa é que é o verdadeiro vira-latismo, como se a aprovação estrangeira nos bastasse.

É verdade sim que o governo federal, um mês antes de a Copa começar, partiu em busca de empatar um jogo que perdia por 4 a 0 e que conseguiu vencer, digamos,por 6 a 5 — o que exige elogios ao ataque assim como críticas à defesa. Ocorre que há quem queira fazer apenas elogios e outros que só desejam criticar, todos movidos ou por cegueira partidária ou por outros interesses.

Não se trata de negar o sucesso da Copa, mas de dizer que poderia ser melhor. Tudo, aliás, sempre pode ser melhor, por melhor que tenha sido. Trata-se de não esquecer o quanto custou em vidas e dinheiro, em desalojamentos e atrasos, em remendos de última hora, uma porção de coisas para as quais os estrangeiros não estão nem aí, mas que devem preocupar os que estão aqui e que, enfim, pagarão a conta. Porque outro legado da Copa é a consciência de que megaeventos são muito bons para quem os promove e para as celebridades que gravitam em torno,mas não são necessariamente bons para quem os recebe, razão pela qual será excelente se os próximos forem submetidos à consulta popular.

O turista que veio não se hospedou nos melhores hotéis nem comeu nos melhores restaurantes, preferiu albergues ou sambódromos, lanchonetes ou churrasquinhos de gato. Até mesmo os aeroportos inconclusos (o de Brasília é simplesmente espetacular, registre-se) suportaram bem a carga,entre outras razões porque o movimento foi menor que o normal neste período.

Em resumo: o Brasil ganhou a Copa de virada e o resultado pode ser considerado excepcional, digno de comemoração para irritação dos vira-latistas. Mas não foi de goleada como bimbalham os puxa-sacos. Além do mais, se o jogo acabou para o mundo, segue correndo no nosso campo. A um custo que ainda será mais bem apurado.

Democratizar o futebol brasileiro

O resultado em campo e a eliminação do Brasil não alteram, em nada, a minha opinião sobre a crise existencial que arrasa o futebol brasileiro há mais de uma década. O buraco é muito mais embaixo. Os que dirigem o futebol nacional não deram as caras, se esconderam em ambas oportunidades. Como de costume, evitaram e evitarão ao máximo falar sobre as propostas para o futuro pois não entendem bulhufas do que deve ser feito. Entendem de política, de se manter no poder, de explorar o futebol, de mamar nas tetas da vaca. E como disse o senhor José Maria Marin na primeira reunião do Bom Senso na CBF: “Posso afirmar que não temos nada a aprender com ninguém de fora, principalmente no futebol. Sempre tivemos os melhores do mundo no Brasil. Já vencemos cinco vezes a Copa”.

Ninguém tem necessidade daquilo que desconhece. “Coitado”, ele e seus pares achavam que tudo ia muito bem e que o talento bruto resolveria a questão. Não fazem ideia de que a Seleção Brasileira é o menor, apenas a ponta do iceberg (incrível dizer isso depois de tomar de 7), dos problemas do nosso futebol. Devemos aceitar esta derrota como mais uma das muitas importantes lições que a Copa nos trouxe até aqui. Se a procura por um legado era apenas para justificar o excesso dos gastos públicos, agora passou a ser o último lampejo de dignidade. Então proponho uma solução ao caos, DEMOCRATIZEM A CBF e salvem o futebol brasileiro.

Campeões, Bicampeões, Tricampeões, Tetracampeões, Pentacampeões, vocês que construíram o futebol brasileiro dentro de campo, estão convocados. Precisamos de vocês, precisamos ainda mais dos que já provaram sua capacidade fora de campo, gerindo, planejando, vivenciando o que há de melhor no futebol contemporâneo mundial.

Leonardo, Raí, Cafu, Juninho Pernambucano, Kaká, Ricardo Gomes, Roque Junior, Edmilson, Juninho Paulista, Vagner Mancini, Tite, Paulo Autuori e tantos outros, venham, passou da hora de discutirmos um plano de desenvolvimento nacional do futebol, de criarmos regras e licenças para capacitar os novos treinadores, de formar melhor as nossas jovens promessas, de desenvolver ou resgatar o estilo de jogo brasileiro, de proteger as boas práticas de gestão, de punir os infratores, de trazer a família de volta aos estádios de futebol, etc…

Se a CBF não promove esse debate, montemos a nossa Seleção fora dos gramados para desbancar a paralisia da entidade e desatar os nós das amarras políticas que impedem o desenvolvimento, a transparência e a democracia do nosso futebol.

Não os queremos apenas para que deem a cara e tenham a imagem explorada como aconteceu com alguns de nossos companheiros nos últimos anos. Queremos sua experiência, sua paixão pelo esporte, sua alma vencedora e incansável para concretizar mudanças significativas a longo prazo. Acadêmicos, cientistas, estudiosos também são bem vindos, o conhecimento de vocês é fundamental na construção de um novo rumo.

À imprensa e ao torcedor, digo: Não esperem milagres, não acreditem em soluções mágicas como uma simples troca de comissão técnica ou o aparecimento de um novo Neymar. Se o planejamento e o trabalho forem executados por pessoas competentes, apaixonadas e com conhecimento técnico em cada uma das diversas dimensões do futebol, ainda assim, levaremos pelo menos 10 anos para chegar lá. Uma caminhada de mil milhas começa com um simples primeiro passo.

Dilma e Aécio

A presidenta Dilma Rousseff está convocando o Bom Senso FC para uma reunião na sexta-feira da semana que vem para dar prosseguimento à conversa iniciada no último dia 26 de maio, quando se manifestou solidária com o movimento e convencida de que o legado da Copa do Mundo para o futebol brasileiro deve ser a urgente reforma de seus métodos de gestão e a correspondente democratização de suas práticas.

“Agora que temos os estádios, como fazer para mantê-los lotados?”, pergunta a presidenta ao mesmo tempo em que responde: “A grande lição da Copa é a necessidade de reformar o futebol brasileiro”.

Aécio Neves é amigo de José Maria Marin e o homenageou, escondido, no Mineirão. Deu-se mal porque o que escondeu em sua página na internet, Marin mandou publicar na da CBF. Aécio também é velho amigo de baladas de Ricardo Teixeira e acaba de dizer que o país não precisa de uma “Futebras”, coisa que ninguém propôs e que passa ao largo, por exemplo, das propostas do Bom Senso FC.

Uma agência reguladora do Esporte seria bem-vinda e é uma das questões que devem surgir neste momento em que se impõe um amplo debate sobre o futuro de nosso humilhado, depauperado e corrompido futebol. Mas Aécio é amigo de quem o mantém do jeito que está. Não está nem aí para os que reduziram nosso futebol a pó.

*- Este artigo é uma compilação de textos extraídos do Blog do Juca Kfouri.