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O que está em jogo na Faixa de Gaza

Por Marco Aurélio Garcia, via Opera Mundi

Esta nota estará seguramente desatualizada quando for publicada. Mais de setecentos palestinos – grande parte dos quais mulheres, crianças e anciãos – foram mortos nos bombardeios das Forças Armadas israelenses na Faixa de Gaza desde que, há duas semanas, iniciou-se uma nova etapa deste absurdo conflito que se arrasta há décadas. A invasão do território palestino provocou também mais de 30 mortos entre os soldados de Israel.

Dezenas de palestinos morreram apenas com os ataques de Israel desta quinta-feira (24/07) Agência Efe/Reprodução

O governo brasileiro reagiu em dois momentos à crise. Na sua nota de 17 de julho “condena o lançamento de foguetes e morteiros de Gaza contra Israel” e, ao mesmo tempo, deplora “o uso desproporcional da força” por parte de Israel.

Em comunicado de 23 de julho e tendo em vista a intensificação do massacre de civis, o Itamaraty considerou “inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina” e, uma vez mais, condenou o “uso desproporcional da força” na Faixa de Gaza. Na esteira dessa percepção, o Brasil votou a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (somente os Estados Unidos estiveram contra) que condena as “graves e sistemáticas violações dos Direitos Humanos e Direitos Fundamentais oriundas das operações militares israelenses contra o território Palestino ocupado” e convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas.

A chancelaria de Israel afirmou que o Brasil “está escolhendo ser parte do problema em vez de integrar a solução” e, ao mesmo tempo, qualificou nosso país como “anão” ou “politicamente irrelevante”.

É evidente que o governo brasileiro não busca a “relevância” que a chancelaria israelense tem ganhado nos últimos anos. Menos ainda a “relevância” militar que está sendo exibida vis-à-vis populações indefesas.

Não é muito difícil entender, igualmente, que está cada dia mais complicado ser “parte da solução” neste trágico contencioso. Foi o que rapidamente entenderam o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, depois de suas passagens por Tel Aviv, quando tentaram sem êxito pôr o fim às hostilidades.

Como temos posições claras sobre a situação do Oriente Médio – reconhecimento do direito de Israel e Palestina a viverem em paz e segurança – temos sido igualmente claros na condenação de toda ação terrorista, parta ela de grupos fundamentalistas ou de organizações estatais.

Estive, mais de uma vez, em Israel e na Palestina. Observei a implantação de colônias israelenses em Jerusalém Oriental, condenadas mundialmente, até por aliados incondicionais do governo de Tel Aviv. Vi a situação de virtual apartheid em que vivem grandes contingentes de palestinos. Constatei também que são muitos os israelenses que almejam uma paz duradoura fundada na existência de dois Estados viáveis, soberanos e seguros.

É amplamente conhecida a posição que o Brasil teve no momento da fundação do Estado de Israel. Não pode haver nenhuma dúvida sobre a perenidade desse compromisso.

Temos reiterado que a irresolução da crise palestina alimenta a instabilidade no Oriente Médio e leva água ao moinho do fundamentalismo, ameaçando a paz mundial. Não se trata, assim, de um conflito regional, mas de uma crise de alcance global.

Agência Efe/Reprodução

É preocupante que os acontecimentos atuais na Palestina sirvam de estímulo para intoleráveis manifestações antissemitas, como têm ocorrido em algumas partes, felizmente não aqui no Brasil.

A criação do Estado de Israel, nos anos quarenta, após a tragédia do Holocausto, foi uma ação afirmativa da comunidade internacional para reparar minimamente o horror provocado pelo nazi-fascismo contra judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e socialdemocratas. Mas o fantasma do ressurgimento ou da persistência do antissemitismo não pode ser um álibi que justifique o massacre atual na Faixa de Gaza.

O Brasil e o mundo têm uma dívida enorme para com as comunidades judaicas que iluminaram as artes, a ciência e a política e fazem parte da construção da Nação brasileira. Foi esse sentimento que Lula expressou em seu discurso, anos atrás, na Knesset, quando evocou, por exemplo, o papel de um Carlos e de um Moacir Scliar ou de uma Clarice Lispector para a cultura brasileira. A lista é interminável e a ela se juntam lutadores sociais como Jacob Gorender, Salomão Malina, Chael Charles Schraier, Iara Iavelberg, Ana Rosa Kucinski e tantos outros.

Nunca os esqueceremos.

(*) Marco Aurélio Garcia é assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais

O teatro midiático e político na perseguição a ativistas

Por Raphael Tsavkko, via Correio da Cidadania

Os veículos de comunicação do Grupo Globo têm dado não apenas repetidas amostras de jornalismo rasteiro ou mesmo de anti-jornalismo, mas ainda não conseguiram explicar as informações privilegiadas a que têm acesso, num processo que sequer os advogados de defesa dos acusados o conseguem.

O caso dos 23 perseguidos políticos, que tem em Elisa Quadros, a Sininho, o principal alvo da mídia global, demonstra quão perigosa para a democracia pode ser a relação entre um grupo de comunicação e governos, a polícia e setores do judiciário. Sininho tem sido alvo de acusações que parecem roteiro de novela de péssima qualidade, algo que a Globo tem experiência em produzir.

Roteiro macarrônico de novela de quinta em que uma única pessoa parece ter tomado a frente em uma campanha para queimar edifícios públicos, tocar o terror e tudo isso sem que o real propósito sequer fosse mencionado.

O que moveria Sininho? Qual sua motivação e objetivos? Isto os veículos do Grupo Globo não conseguiram ainda bolar. Os personagens e a trama estão dispostos em um cenário quase apocalíptico, mas ainda não conseguiram encaixar detalhes fundamentais à trama.

Tampouco conseguiram explicar como pessoas que nunca se viram na vida estão relacionadas e como elementos anarquistas teriam função de direção em organizações hierárquicas. O enredo da novela global simplesmente não bate com a realidade, ainda que esta nunca tenha sido a preocupação.

O mais grave, para além da tentativa de criminalização de movimentos sociais – algo corriqueiro na história deste grupo de comunicação que, como outros, apoiou de maneira entusiasmada o golpe militar, os anos de chumbo, as torturas e desaparecimentos políticos, e que com a redemocratização adotou automaticamente a posição de defender a repressão e o aparato policial –, está no acesso privilegiado deste grupo de comunicação ao processo contra os acusados.

Mesmo o desembargador Siro Darlan, responsável pelo habeas corpus de parte dos ativistas ha alguns dias, reclamou da falta de colaboração do delegado responsável pelo caso e que até ele não teve acesso aos documentos. Circulam pelas redes (também redes de amigos e de apoio aos presos políticos e refugiados, como estão sendo considerados) comentários inúmeros de que os advogados de defesa encontram dificuldade para ter acesso ao processo e que a Globo, simplesmente, conhece mais detalhes da acusação do que eles, que têm o dever de defender seus clientes e são impedidos de fazê-lo.

Estivesse o grupo Globo interessado em praticar algo semelhante ao jornalismo, buscaria saber por que do interesse em ligar ativistas dispersos, e muitos sem qualquer conexão entre si, a crimes próximos ao terrorismo, exatamente durante a Copa do Mundo (vale lembrar que as primeiras prisões deste grupo se deram um dia antes da final da Copa), um dos eventos mais importantes para o governo Dilma e considerado essencial enquanto propaganda, em meio a uma grave crise de confiança e governabilidade.

Sininho, esta que sem dúvida é vítima de perseguição midiática que vai além da do grupo Globo, mas conta com a participação da Veja – o protótipo do panfleto de extrema-direita sem qualquer comprometimento com a verdade factual – e de outros meios, foi presa em Porto Alegre. Ela sequer participaria dos protestos durante a final, no Rio de Janeiro, e sua prisão em outro estado denuncia a participação de agentes ou forças muito além que simplesmente as do Rio de Janeiro. Além do mais, os interesses em jogo vão além da Copa, ou mesmo dos interesses imediatos do Rio de Janeiro.

Os protestos que tomaram o país desde junho de 2013 são o alvo. O direito ao protesto em si, à indignação e à insatisfação. O interesse é maior que do Rio ou de São Paulo, é um interesse das elites políticas nacionais e, em especial, da federal, que foi inegavelmente o principal alvo dos protestos que continuaram a varrer o país depois de junho (este que tinha foco muito mais local, ainda que tenha se espalhado, nos preços das passagens do transporte público).

Ações nas mídias sociais como o #NãoVaiTerCopa e o #CopaPraQuem causaram reação raivosa de parte da militância ligada ao governo federal e do próprio governo, que logo criaram “respostas” de gosto e efeito duvidoso, como o #VaiTerCopa ou o mais agressivo, #VaiTerCopaSim, que abriu espaço para mensagens com tom até mesmo ameaçador.

Se por um lado quem estava nas ruas buscava também um diálogo, por outro este espaço nunca existiu. A grande mídia, capitaneada neste caso por Folha de S. Paulo e pela Globo, correu para criminalizar os protestos, mesmo com seus jornalistas sendo alvos preferenciais da barbárie policial. Barbárie esta que chegou a forçar uma mudança de tom da mídia. Porém, não durou muito.

Começado o novo ano, os protestos passaram a atingir algo mais do que os brios ditatoriais de amplos setores midiáticos, mas passaram a atingir o bolso. A Globo (mas não só) investiu pesado na Copa do Mundo e não podia ver seus interesses serem prejudicados por alguns jovens revoltados (sic) que estavam nas ruas. Era o momento de agir.

Não surpreende que hoje o grupo midiático busque chamar os protestos de 2013 de “junho negro”, numa tentativa de deslegitimar a origem mais imediata da insatisfação que explodiu.

Enquanto policiais gravados em vídeo forjando provas e flagrantes ou até participando ativamente de atos de brutalidade contra manifestantes (ou mesmo transeuntes) não causam furor junto à mídia, mas são denunciados e divulgados quase que exclusivamente pelas mídias sociais e veículos alternativos, ativistas são criminalizados.

E a criminalização não vem apenas da mídia, como não vem apenas das autoridades cariocas e fluminenses. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já deixou claro seu apoio à repressão, alegando que não há qualquer ilegalidade, pelo contrário. Mesmo a presidente Dilma Rousseff já se manifestou. Seja de forma indireta, usando seu espaço na internet para louvar a “integração” das forças de segurança (sic) em uma imagem do mapa do Brasil coalhado por policiais e militares (uma imagem de causar calafrios) e o resultado desta nas ruas, seja declarando com todas as letras que seus esforços junto aos de governos estaduais contribuíram para “garantir um padrão de segurança”. Sem dúvida, o padrão do Estado de Exceção.

Como se vê, há um circo montado que vai além das fronteiras do Rio de Janeiro, mas que interessa a diferentes esperas de poder e governo. E interessa à mídia que, neste momento, se alia ao governo federal (e ao PT) na criminalização dos protestos. Os movimentos que estão hoje nas ruas são, em geral, aqueles que o PT não conseguiu cooptar após 12 anos de poder, oferecendo favores e verbas ou à moda antiga, tomando para si ou para aliados direções em sindicatos e movimentos.

Chegamos a ver militantes destacados do Partido dos Trabalhadores criminalizando a greve dos metroviários em São Paulo – uma greve, em tese, contra o PSDB, partido, em tese, inimigo – apenas porque se dava próxima à abertura da Copa do Mundo! Os interesses internos e de manutenção do próprio poder são mais importantes que os interesses de classe e de trabalhadores que historicamente eram apoiados pelo partido.

A mídia em geral possui interesses opostos aos de tais grupos, assim como, neste momento, o PT e o governo federal, que não aceitam verem movimentos além de seu controle, muito menos causando problemas e prejuízos à imagem de Dilma e demais aliados. Neste ponto, há convergência mesmo com o PSDB, historicamente avesso a qualquer tipo de atividade nas ruas que não sejam carros passando – ou parados em engarrafamentos.

O momento é ainda mais dramático porque não apenas verificamos essa confluência de interesses de diversas partes, de diversas esferas e mesmo entre os maiores partidos políticos do país, como também vemos poucas saídas.

Eloisa Samy, David Paixão e Camila Nascimento, três dos 23 perseguidos políticos neste momento, buscaram asilo para fugir da criminalização que enfrentam. O asilo foi negado pelo Uruguai, país com fortes laços com o Brasil, sob argumentos pífios, como chegou a explicar em seu Facebook a professora Daisy Ventura. Os argumentos foram do risível (de que um consulado não seria local para pedido de asilo) ao inacreditável (de que dar o asilo seria reconhecer que o Brasil não seria um país democrático). Oras, o Equador garantiu asilo a Julian Assange, do Wikileaks, em sua embaixada em Londres e em momento algum se aventou a possibilidade de o Equador estar anunciando que a Inglaterra não seria uma democracia. O mesmo vale para a Rússia, que garantiu asilo/refúgio a Edward Snowden.

No fim, os conchavos políticos parecem ter saído mesmo da esfera nacional. Para deleite da mídia, Globo em particular, que pôde narrar toda a saga de Eloisa e demais refugiados para uma audiência ávida e não necessariamente crítica.

A situação dos direitos humanos no Brasil vai de mal a pior (em diversas áreas, desde a questão indígena, passando pelos direitos das mulheres e LGBTs, até culminar na total criminalização do direito ao protesto) e, infelizmente, amplos setores da grande mídia demonstram, entusiasmados, que concordam com tudo. Não aprenderam nada do período em que apoiaram a ditadura. Lembrando que a Rede Globo sequer se desculpou pelo apoio dado – e recebido.

Cabe aos democratas, aos defensores dos direitos humanos e a todos aqueles que ainda acreditam nestes valores, e também na possibilidade de se fazer um jornalismo comprometido com causas sociais e com os interesses da população, lutar contra essa nuvem negra que estacionou sob nossas cabeças. Antes que seja tarde.

O que aconteceu ao avião da Malaysia Airlines?

Por Paul Craig Roberts, via Rede Castor Photo

1ª página do NYTimes de 18/7/2014 já informa que o voo MH17 foi derrubado por míssil. Como?

A máquina de propaganda de Washington está trabalhando em tão alta rotação, que há risco de perdermos os dados e fatos comprovados que já temos.

Um desses fatos é que os federalistas não têm os caros sistemas de mísseis antiaéreos Buk ou não têm pessoal treinado para operá-los.

Outro fato é que os federalistas não têm incentivo ou motivo para, ou interesse em, derrubar avião de passageiros; a Rússia tampouco. Qualquer um sabe ver a diferença em um avião de combate voando baixo e um avião de passageiros a 33 mil pés de altura.

Os ucranianos têm sistemas Buk de mísseis antiaéreos, e uma bateria Buk estava operacional na região e localizada em ponto do qual poderia ter disparado um míssil contra o avião.

Assim como os federalistas e o governo russo não têm incentivo nem motivo para derrubar avião de passageiros, tampouco os tem o governo ucraniano; e, de fato, nem os ensandecidos nacionalistas extremistas ucranianos que formaram milícias para fazer as lutas contra os federalistas que o governo ucraniano não têm interesse em fazer. A menos que haja aí um plano para culpar a Rússia.

Um general russo que conhece o sistema de armas apresentou sua opinião, de que foi erro cometido por militares ucranianos não treinados para usar aquela arma. O general disse que, embora a Ucrânia tenha algumas armas, os ucranianos não foram treinados para usá-las nesses 23 anos desde que a Ucrânia separou-se da Rússia. O general acredita que tenha sido um acidente devido à incompetência.

Sistema de mísseis Buk do exército ucraniano

Essa explicação faz algum certo sentido e com certeza faz muito mais sentido que a propaganda de Washington. O problema com a explicação do general é que não explica por que o sistema Buk de mísseis antiaéreos foi posto próximo de, ou dentro de, território dos federalistas. Os federalistas não têm força aérea. Parece estranho que a Ucrânia mantivesse um caríssimo sistema de mísseis em área na qual não teria uso militar – e em posição na qual poderia ser capturado pelos federalistas.

Como Washington, Kiev e a imprensa-empresa press-tituta [orig. presstitute] também estão obrando na propaganda de que Putin é culpado, ninguém encontrará na mídia norte-americana qualquer informação aproveitável. Teremos de procurar e de construir nós mesmos nossa própria informação aproveitável.

Um modo de fazer isso é perguntar: por que aquele sistema de mísseis estava onde estava? Por que pôr em risco um caríssimo sistema de mísseis, pondo-o num ambiente conflagrado, no qual não teria nenhuma serventia? Incompetência, sim, é uma das respostas; outra resposta é que o sistema de mísseis foi posto ali, para ser usado, porque seria usado.

Seria usado para quê? Noticiosos e provas circunstanciais têm fornecido duas respostas. Uma delas é que os extremistas ultranacionalistas anti-Rússia e pró-EUA & Europa tinham planos para derrubar o avião presidencial de Putin; e teriam confundido o avião malaio e o avião russo.

Como os EUA (e o Wall Street!) “sabiam” que o MH17 havia sido derrubado por míssil no mesmo dia?

A agência Interfax, citando fontes anônimas, aparentemente controladores de tráfego aéreo, noticiou que o avião malaio e o avião de Putin estariam em rotas quase idênticas, com poucos minutos de intervalo entre um e outro. Interfax cita sua fonte:

O que posso dizer é que o avião de Putin e o Boeing malaio cruzaram-se no mesmo ponto no mesmo degrau. Foi perto de Varsóvia, no degrau 330-m, altura de 10.100 metros. O jato presidencial estava nesse ponto às 16h21 hora de Moscou, e o avião malaio, às 15h44 hora de Moscou. Os perfis das aeronaves são semelhantes, as dimensões lineares são muito semelhantes, e as cores, observadas em grande distância, são quase idênticas.

Não encontrei nenhum desmentido oficial russo, mas, segundo noticiários russos, o governo russo informou, em resposta às notícias da agência Interfax, que o avião presidencial de Putin já não voa a antiga rota da Ucrânia desde o início das hostilidades.

Antes de aceitar essa negativa, é preciso ter bem claro que qualquer tentativa pelos ucranianos de assassinar o presidente da Rússia implica guerra – exatamente a guerra que a Rússia quer evitar. Implica também a cumplicidade de Washington na tentativa de assassinato, porque é altamente improvável que os fantoches de Washington em Kiev arriscar-se-iam a cometer ato tão perigoso, se não contassem com o apoio dos EUA.

O governo russo, que é inteligente e racional, com certeza negaria todas as notícias sobre uma tentativa, por Kiev e Washington, de assassinarem o presidente russo. Se não negar, a Rússia fica obrigada a tomar alguma providência – quer dizer: também implica guerra.

A segunda explicação é que os extremistas pró-Europa-EUA que operam por fora do aparelho militar ucraniano oficial tenham concebido um atentado para derrubar um avião de passageiros, para inculpar a Rússia. Se houve um atentado, o mais provável é que tenha sido gerado pela CIA ou por algum braço operativo de Washington; e visaria a forçar a União Europeia a parar de opor-se às sanções de Washington contra a Rússia, além de contribuir para romper valiosos laços econômicos que conectam a Rússia à Europa. Washington está frustrada por suas sanções continuarem a ser unilaterais, sem apoio dos fantoches dos EUA na OTAN, nem de qualquer outro país no planeta, exceto talvez do cachorrinho-de-madame e primeiro-ministro britânico.

David Cameron e Barack Obama

Há muitas provas circunstanciais a favor dessa segunda explicação. Há o vídeo em Youtube apresentado como de uma conversa entre um general russo e federalistas, que falam sobre terem derrubado, por erro, um avião de passageiros. Segundo o noticiário,especialistas que examinaram o vídeo já sabem que foi gravado na véspera, um dia antes de o avião malaio cair.

Outro problema com esse vídeo é que, por mais que se possa crer que os federalistas tivessem confundido um avião de passageiros a 33 mil pés de altitude, com um jato militar de ataque, o general russo jamais os confundiria. A única conclusão é que, ao fazer falar um militar russo (verdadeiro ou falso), para tentar dar credibilidade a um vídeo falso, os falsários erraram e desacreditaram-se, eles mesmos.

A prova circunstancial que o público não especialista pode entender mais facilmente está na sequência de noticiários de televisão produzidos para culpar a Rússia… antes de que se conheça qualquer fato.

Em meu artigo anterior falei de um noticiário da BBC ao qual assisti e que, com certeza, foi integralmente produzido para culpar a Rússia. O programa concluía com um correspondente da BBC, ofegante, dizendo que acabava de assistir ao vídeo em YouTube, e que ali estava a prova do crime e “não resta dúvida alguma” – dizia o jornalista. A prova do crime apareceu para o jornalista da BBC, antes de o governo da Ucrânia e Washington saberem das coisas.

A prova de que Putin fez tudo seria um vídeo filmado antes do ataque ao avião malaio. Todo o noticiário produzido pela BBC e distribuído pela [rede] National Public Radio foi orquestrado para a exclusiva finalidade de “provar”, antes de haver qualquer prova, que a Rússia teria sido responsável.

A 1ª página do Daily News já em 18/7/2014 acusa Putin diretamente

Verdade é que toda a imprensa-empresa ocidental falou como uma só voz: foi a Rússia! E todas as press-titutas/press-titutos continuam a dizer sempre a mesma coisa.

O mais provável é que essa opinião única e uniforme apenas reflita o treinamento pavloviano da imprensa-empresa ocidental que, sempre, automaticamente, se alinha com Washington. Nenhuma “fonte” quer ser criticada por “antiamericanismo” ou quer ver-se isolada da opinião geral, a única que se ouve, a única que se admite, a única que não pode ser contestada, sob pena de o “especialista” receber “nota vermelha” no boletim.

Como ex-jornalista e colaborador dos mais importantes veículos da imprensa-empresa nos EUA, sei muito bem como funcionam.

Por outro lado, se se descontam os condicionamentos pavlovianos – que gera o “jornalismo” de repetição automática – a única conclusão que resta é que todo o ciclo de notícias sobre o avião malaio está sendo orquestrado para inculpar Putin.

Romesh Ratnesar, vice-editor de Bloomberg Businessweek, oferece prova convincente de que, sim, tudo está sendo orquestrado, com o que publicou dia 17/7/2014.

O título da coluna de Ratnesar é “Derrubada do avião malaio atrai desastre para Putin”. Ratnesar não está dizendo que Putin pode estar sendo vítima de um complô. O que ele diz é que antes de Putin ter derrubado o avião malaio,

Romesh Ratnesar

(…) para a vasta maioria dos norte-americanos o comprometimento da Rússia na Ucrânia parecia só ter importância periférica para os interesses dos EUA. Esse cálculo mudou (…). Talvez demore meses, talvez anos, mas a crueldade de Putin voltará a desabar sobre ele. Quando acontecer, a derrubada do MH 17 será afinal vista como o começo do fim de Putin.

 

Fui editor do Wall Street Journal e, naquele tempo, quem me aparecesse com coluna de merda equivalente a essa teria sido demitido(a). Só insinuações, sem nenhuma prova que apoie qualquer coisa. E a mentira-distorção, descarada, segundo a qual o que foi golpe de estado dado por Washington contra a Ucrânia seria “o comprometimento da Rússia na Ucrânia”!

O que estamos testemunhando é a total corrupção do jornalismo ocidental, pela agenda imperial de Washington. Ou os jornalistas alinham-se com as mentiras, ou são atropelados.

Procurem à volta: onde há jornalistas ainda honestos? Quem são? Glenn Greenwald, que enfrenta ataque constante dos próprios colegas jornalistas, os quais, TODOS, são putas, daquelas que fazem qualquer negócio por qualquer dinheiro. E que outro jornalista haveria, cujo nome nos venha à lembrança? Julian Assange, trancado na Embaixada do Equador em Londres, com a vida por um fio pendente de ordens de Washington. E o fantoche britânico não dá a Assange o direito de livre trânsito [até o aeroporto] para que possa assumir o asilo que o Equador lhe garantiu.

A última vez que se viu tal violência no mundo, foi a União Soviética, que exigiu que o governo-fantoche da Hungria mantivesse o cardeal Mindszenty cercado dentro da embaixada dos EUA em Budapeste durante 15 anos, de 1956 até 1971. Mindszenty recebeu asilo político dos EUA, mas a Hungria, obedecendo ordens dos soviéticos, não honrou o direito de asilo – exatamente como faz hoje o palhaço-fantoche britânico obedecendo ordens de Washington, que não honra o direito de asilo que Assange JÁ TEM. (…)

Edward Snowden e Julian Assange

A única mácula na diplomacia de Putin é que a diplomacia de Putin depende de a boa-vontade e a verdade prevalecerem. Mas não há boa-vontade nos EUA, e Washington não tem interesse algum em que a verdade prevaleça. Para Washington só interessa que Washington prevaleça.

Putin não está enfrentando “parceiros” razoáveis, mas todo um ministério da propaganda que faz mira contra ele.

Compreendo a estratégia de Putin, na qual se veem a razão e a razoabilidade russas, contra as ameaças de Washington – mas é aposta muito arriscada. A Europa já há muito tempo é apêndice de Washington, e não há líderes europeus no poder que tenham capacidade e visão suficientes para separar a Europa, de Washington. Além do mais, os líderes europeus são sobejamente subornados para servirem a Washington. Um ano depois de deixar o governo, e Tony Blair já recebia salário de US $50 milhões.

Depois dos desastres que os europeus conheceram, é pouco provável que seus líderes pensem em qualquer outra coisa que não seja aposentadoria confortável. Para isso, nada como empregar-se como serviçal de Washington. Como a extorsão bem-sucedida contra a Grécia, obrada por bancos, o comprova, o povo europeu está reduzido à impotência.

Em Global Research lê-se a declaração oficial do Ministério de Defesa da Rússia.

O ataque de propaganda de Washington contra a Rússia é uma dupla tragédia, porque contribuiu para desviar as atenções para longe da mais recente atrocidade que Israel comete contra os palestinos sitiados no Gueto de Gaza. Israel diz que o ataque aéreo e a invasão da Faixa de Gaza seriam simples esforços para localizar e vedar supostos túneis pelos quais palestinos contrabandeariam armas para dentro de Israel. Basta olhar pela janela em Israel, para ver que não há ataques de palestinos contra israelenses, nem há palestinos massacrando uma geração inteira, mais uma, de palestinos.

Seria de esperar que houvesse pelo menos um jornalista em algum ponto da imprensa-empresa norte-americana, que perguntasse se bombardear hospitais e matar crianças dentro das próprias casas está(ria) ajudando a fechar supostos túneis que chegariam a Israel. Mas já é pedir demais para as press-titutas/press-titutos da imprensa-empresa nos EUA.

A queda do MH17 é um álibi da imprensa-empresa para disfarçar o GENOCÍDIO de Israel em Gaza

E do Congresso dos EUA, então, esperem ainda menos! A Câmara e o Senado já aprovaram resoluções de apoio ao morticínio de palestinos por Israel. Dois Republicanos – o desprezível Lindsey Graham e o frustrante Rand Paul – e dois Democratas – Bob Menendez e Ben Cardin – apresentaram projeto de Resolução ao Senado de apoio ao assassinato premeditado de mulheres e crianças palestinas, por Israel. A Resolução foi aprovada pelo povo “excepcional e indispensável” do Senado dos EUA, por unanimidade.

Como recompensa pela política de genocídio, o governo Obama já está repassando, imediatamente, US$ 429 milhões do dinheiro dos contribuintes norte-americanos, para Israel: é o pagamento pelo mais recente massacre.

Comparem o apoio que o governo dos EUA garante aos crimes de guerra de Israel, e a massacrante campanha de propaganda contra a Rússia, alimentada de mentiras.

Os EUA estamos de volta aos tempos das MENTIROSAS “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein; das “armas químicas” de Bashar al-Assad; das “armas atômicas iranianas”.

Washington mente tanto, há tanto tempo, que já não sabe fazer outra coisa.

Tradução: Vila Vudu

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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano e colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business WeekeScripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que destruíram a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

Aécio gagueja no JN. Obra importante trancada a chave por quatro anos?

Por Fernando Brito, via Tijolaço

Vale a pena ver a reportagem do Jornal Nacional sobre o “Aecioporto”.

Jornalismo, para variar, zero, sem uma apuração sobre coisa alguma, com mais de 24 horas para levantar informações.

Mas, pelo menos, não ocultaram a matéria da Folha de ontem.

Embora nem sequer tenham mencionado que o candidato tucano tem ali, a apenas seis quilômetros, sua fazenda, a qual chama de seu “Palácio de Versalhes”, segundo a tucaníssima revista Piauí.

Dava pena, até, de ver a incapacidade de Aécio Neves respondendo – não a perguntas, que não foram feitas, mas à simples notícia – com declarações genéricas sobre a “transparência” das obras de seu governo.

E falando da importância daquele aeroporto para a pequena Cláudio, com seus 27 mil habitantes.

Não duvidemos.

Mas, se é tão importante assim, porque é que o aeroporto está trancado a chave há quatro anos?

É ridícula a chiadeira sobre o fato de a ANAC ter mandado investigar o uso de um aeroporto não autorizado a operar.

E que, mesmo para particulares eventuais, está operando.

Reproduzo acima a foto do Google, tirada de satélite onde se vê um aviãozinho parado no “aecioporto”.

É pequeno, embora não seja um aeromodelo, como o da galera que vai lá se divertir com seus brinquedos e que a gente já mostrou aqui.

E não podia estar, porque o aeroporto não cumpriu as exigências para operar.

Se a ANAC não investigasse uma denúncia pública de uso irregular de um aeroporto, aí sim é que mereceria críticas.

Aécio precisa acostumar-se à ideia de que este país é uma república, não uma fazenda.

E se preparar para o que vem por aí.

É inevitável o questionamento dos gastos milionários em um aeroporto que é somente uma pista de asfalto como o de uma rua qualquer e que custou o mesmo que um aeroporto completo, com capacidade de receber Boeings 737 da aviação comercial, como mostra o post abaixo.

Embora não muitos, vão existir jornalistas que o indaguem sobre isso.

Rússia: Avião de combate ucraniano voava próximo ao boeing 777 da Malaysia Airlines

Via Telesur

A rota do Boeing 777, voo MH17 da Malaysia Airlines desviou 14 quilômetros ao norte segundo os rastreamentos. (Foto: EFE)

O Ministério da Defesa da Rússia assegurou, nesta segunda, que um avião de combate Su-25 ucraniano voava a cerca de 5 quilômetros da aeronave abatida da Malaysia Airlines. Este tipo de avião é dotado de sistema de mísseis ar-ar R-60, capazes de derrubar alvos à curta distância

O Ministério da Defesa da Rússia informou, nesta segunda, que os sistemas de rastreamento militares russos captaram a movimentação de uma aeronave militar ucraniana, mais precisamente um avião de ataque Su-25, que se aproximou cerca de 5 quilômetros do avião malaio abatido na última quinta.

A rota do boeing se encontrava em área em que operavam as Forças Armadas da Ucrânia, tendo desviado 14 quilômetros para norte.

“Registramos um avião da Força Aérea ucraniana em ascensão, este estava em torno de 3-5 quilômetros de distância”, assinalou.

“As características do Su-25 permitem que este alcance a altura de 10 mil metros, disse o general Andréi Kartopólov.

Explicou ainda que o Su-25 “está dotado de misseis ar-ar R-60 capazes de abater alvos a até 12 quilômetros de distância e impactar seguramente objetos situados a 5 quilômetros”.

“Prova do relatado é um vídeo obtido pelo centro de reconhecimento de Rostov”, afirmou Kartopólov, acrescentando que “Nos interessa saber a resposta da seguinte pergunta: Com que objetivo este avião ucraniano voava numa rota civil e no mesmo nível que o voo do boeing malaio?”

O alto funcionário do exército russo voltou a confirmar que a Rússia não entregou sistemas antiaéreos Buk a milícia popular que atua no leste da Ucrânia.

As equipes de resgate encontraram 282 dos 298 cadáveres das pessoas que se encontravam no avião.

Entrega dos dados sobre a catástrofe

O Ministério da Defesa russo anunciou a entrega, ontem, de todos os materiais relacionados com a catástrofe do Boeing aos especialistas malaios e europeus.

“Os materiais recolhidos pelo Ministério da Defesa russo serão entregues hoje aos especialistas dos principais estados europeus e a Malásia”, declarou Kartopólov na apresentação.

Tradução: Rennan Martins

Os “separatistas pró-Rússia” ajudaram os EUA?

Destroços do boeing 777, voo MH17, da Malaysia Airlines. Euronews/Reprodução

Por Rennan Martins

(Alerta: Texto repleto de ironias)

Enquanto assistimos os EUA, a Ucrânia e toda a mídia ocidental, partes de todo desinteressadas na tragédia, na atrocidade ocorrida com o voo MH17 da Malaysia Airlines, apontar o dedo para Putin e os separatistas do leste, só podemos chegar a conclusão, ainda que sem provas, de que realmente foi a Rússia quem é culpada por este atentado. Neste caso, o que vale é a velha prática da repetição incansável que torna uma mentira, verdade.

Moradores da região de Bagdá observam estragos de explosão na véspera do aniversário de dez anos do início da guerra no país. REUTERS/Mohammed Ameen

Afinal, os anteriores casos de intervenção da OTAN, leia-se Iraque, Afeganistão e Líbia, foram um “sucesso”. As acusações histéricas, bem similares as que vemos atualmente nos noticiários, foram confirmadas e o Ocidente levou dignidade e democracia para os povos.

Deixemos de lado o sumiço da gravação das comunicações entre a aeronave e a torre de controle de Kiev, capital ucraniana. Os “democratas” do Euromaidan, aqueles que em Odessa incendiaram a Casa dos Sindicatos, assassinando 38 pessoas, já comprovaram total lisura e comprometimento com princípios humanistas.

Pravy sector, grupo neonazista que contribuiu no golpe na Ucrânia. Para os EUA, guerreiros da democracia.

Também precisamos ignorar a ausência de imagens e do rastreamento dos três caminhões necessários para operar um sistema antiaéreo Buk: o de comando, o do radar e o de disparo do projétil. É perfeitamente plausível a hipótese dos radares de Kiev e do sistema orwelliano de espionagem de Washington não terem captado estas movimentações.

Após todas as reações internacionais, é imperativa a constatação de que os “separatistas pró-Rússia” prestaram um valioso serviço a seus inimigos.

Na semana passada, antes deste incidente, Washington impunha mais sanções econômicas à Rússia. Seus parceiros da União Europeia preferiram não aderir. No mesmo dia de anúncio das medidas, diversos setores empresariais norte-americanos as desmoralizaram por meio de publicações na mídia corporativa. Alegavam que a Casa Branca se encontrava isolada na iniciativa e que as sanções somente serviam pra que perdessem espaço no mercado para os europeus.

Enquanto pela América Latina, o que se via era Putin percorrendo uma série de países, se aproximando política e comercialmente deles. O BRICS criou o Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo de Reservas Contingentes. Estes fatos denotaram um verdadeiro furo ao bloqueio que EUA/UE estavam impondo à Moscou.

O que ocorreu, com os EUA assistindo impotentes, foi a criação dos primeiros organismos econômico-financeiros internacionais os quais não estarão sob tutela dos próprios. Para Washington, que se guia pelo princípio de contenção e isolamento de qualquer potência que ameace seu posto, o giro de Putin na região que é considerada seu quintal, e a concomitante ascensão formal do BRICS, é interpretado como verdadeira afronta a sua hegemonia.

Relembremos as linhas gerais da doutrina norteadora das relações internacionais dos EUA, a Wolfwoitz:

“Nosso primeiro objetivo é impedir a re-emergência de um novo rival, seja no território da ex-União Soviética ou em qualquer ponto, que represente ameaça da ordem que exerceu, antes, a União Soviética. Essa é a consideração dominante que subjaz à nova estratégia regional de defesa, e exige que trabalhemos para impedir que qualquer potência se imponha, numa região cujos recursos, sob controle consolidado, bastarão para gerar poder global.”

E então temos que, providencialmente, um avião comercial, repleto de civis das mais variadas nacionalidades, foi abatido pelos capangas de Putin. E o que ocorreu posteriormente?

O que vemos agora é a Alemanha, a Inglaterra e a França convencidas de que precisam impor mais sanções à Rússia. Vimos também o congresso norte-americano aprovar medidas de “ajuda” a seu governo vassalo de Kiev. A Ucrânia ainda beneficiou-se de todo ódio que grande parte do ocidente dirige agora aos separatistas, o que ajudará ainda mais no sentido de fecharmos os olhos para as atrocidades que o governo ucraniano comete reiteradamente na região.

Considerando o veredito final, desprovido de provas, de que os “separatistas pró-Rússia” são os autores deste atentado ao voo MH17 da Malaysia Airlines, é forçoso reconhecer ao menos que, os desdobramentos do evento foram completamente pró-EUA. Intrigante.

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PS do autor: O uso excessivo de ironias neste artigo pode ter comprometido seu entendimento. Esclareço.

O que quis dizer foi que é muito mais provável de terem sido os ucranianos quem derrubaram o voo MH17. Eles possuem motivação, já provaram falta de escrúpulo e ainda se beneficiam da situação atual. Talvez nunca saibamos o conteúdo das comunicações entre a aeronave e a torre de controle de Kiev, mas é preocupante o silêncio absoluto em torno do assunto.

O que vejo é o mesmo teatro o qual Washington encenou antes das guerras do Iraque, Afeganistão e Líbia. Tudo indica que este atentado foi uma falsa bandeira, um “empurrãozinho” que a Ucrânia deu aos EUA.

O Decreto 8243, a participação social e a histeria da Casa Grande

Por Jeferson Miola, via Carta Maior

O Decreto 8.243 traduz os pactos anunciados pela Presidente Dilma em junho de 2013, e é uma inspiração para o debate sobre o padrão de democracia que queremos.

“Artigo 1º – Fica instituída a Política Nacional de Participação Social – PNPS, com o objetivo de fortalecer e articular os mecanismos e as instâncias democráticas de diálogo e a atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil”.

O Artigo que abre este texto é a base do Decreto 8243, assinado pela Presidenta Dilma em maio deste ano. A oposição – PSDB, DEM, PPS – lidera movimentos no Congresso para sustar o Decreto presidencial. Com a proposição de Decretos Legislativos [PDC nº 1491 na Câmara e PDS nº 117 no Senado] que visam derrubar a proposta do governo, trancaram a pauta do Congresso, impedindo qualquer votação.

A justificativa do PDC nº 1491 é uma coleção de argumentos reacionários e retrógrados com a linguagem da guerra fria e apegados a uma visão medieval do mundo. Eles argumentam que “O Decreto presidencial corrói as entranhas [sic] do regime representativo, um dos pilares do Estado democrático de Direito ….”.

E, numa espécie de exorcismo, alertam para “os riscos aos quais as políticas públicas passam a se submeter, ante a necessária oitiva das decisões tomadas no âmbito do aberrante ‘sistema de participação social’ ”. Sim, eles dizem: “aberrante ‘sistema de participação social’ ”.

Advertem também para a “clara intenção da Presidente da República: implodir o regime de democracia representativa”. Para eles, é uma “tentativa de subversão da ordem constitucional posta, uma vez que a sanha autoritária da Presidente da República apenas aguarda o instante para se revelar e assumir o seu lugar”. Neste trecho embolorado, só faltou menção ao “ouro de Moscou”.

Defendem “a necessidade de se combater esta insanidade consolidada no Decreto nº 8243”. No dicionário reacionário, traduza-se por insanidade a participação da sociedade e a prática democrática de gestão.

Além disso, consideram a participação uma “ostensiva e flagrante inconstitucionalidade” a ser eliminada, mesmo que tal ato represente “ostensiva e flagrante inconstitucionalidade” que rompe o princípio da autonomia e independência dos Poderes da República.

A histeria da oposição é ainda mais excêntrica quando se sabe que o Decreto 8243 simplesmente articula e integra num sistema nacional, os vários mecanismos de participação previstos na Constituição e nas leis brasileiras.

É bom lembrar que estamos no terceiro milênio, no ano de 2014, no Brasil, América do Sul, e o planeta é a Terra. A despeito da inconformidade dos conservadores, o Brasil que inaugura o século XXI é o país que escolheu Lula e Dilma para liderarem um projeto de mudanças extraordinárias.

Essa é uma realidade insuportável para a elite reacionária que secularmente se valeu da exclusão política e de práticas autoritárias para viabilizar um padrão elevado de acumulação de riquezas e concentração de terras. É compreensível que PSDB, DEM e PPS se desdobrem para interditar esse novo Brasil – eles são saudosos daquele país arcaico da fala grossa e da obediência servil.

Essa elite sempre resistiu a mudanças; o Brasil foi o último país a acabar a escravidão, e a República nasceu abrindo guerra aos pobres – Canudos/Bahia, Chibata/RJ e Contestado/SC. Ao longo da história, subtraíram do povo direitos elementares, como da instrução e do acesso a escolas e Universidades, condenando nosso povo ao analfabetismo durante séculos.

Eles conservam um medo atávico do povo. Para eles, o povo continua sendo o escravo negro da senzala que está sempre prestes a se revoltar. É uma elite que, em pleno século XXI, ecoa as vozes da Casa Grande; se apavora com a possibilidade do povo se reunir, conhecer, participar, opinar, decidir.

Essa elite tolera somente aquela democracia que pode ser controlada, da eleição a cada quatro anos, dominada pelo poder econômico e organizada pelas regras que manejam e controlam.

O Brasil, porém, não é mais a colônia das capitanias hereditárias e da lógica patrimonialista. O país que finalmente é respeitado no mundo, tem hoje um povo que conquistou muito, adquiriu consciência de suas próprias possibilidades e quer mais mudanças para melhorar ainda mais a vida. Um povo que já não tolera o cabresto e o mandonismo, porque anseia por transparência e participação.

A sociedade brasileira não cabe mais dentro desta democracia limitada; quer mais espaço para exibir sua exuberante diversidade e ver atendidas suas urgências. O caminho aberto pela Presidente Dilma é um convite para que todos os Poderes – inclusive Legislativo e Judiciário –, e todas as esferas de governo – municipais e estaduais – aprofundem os mecanismos de expressão ativa da sociedade para aprimorar a gestão pública com transparência e melhorar a qualidade dos serviços públicos.

As experiências exitosas de gestão participativa comprovam a melhora da capacidade de planejamento estatal, a eficiência dos serviços públicos e a eficácia das políticas públicas. Melhoram também os indicadores de desenvolvimento e, em especial, se amplia o combate à corrupção.

A elite egoísta é contra o progresso e a modernização do Brasil com democracia e igualdade. Mas a agenda do país do século XXI é mais democracia, não menos; é mais república, não menos; é mais participação, não menos; é mais direitos, não menos; é mais cidadania, não menos.

O Decreto 8.243 traduz os pactos anunciados pela Presidente Dilma em junho de 2013, e é uma inspiração para o debate público sobre o padrão de democracia que necessitamos para responder aos desafios desse novo Brasil do século 21.

Seu debate amplo cria um ambiente apropriado para a discussão de outra necessidade democrática premente: da reforma política que responda à exigência de uma república moderna e fundada numa democracia que não seja comprada pelo dinheiro.