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Veja continua (inacreditavelmente) pautando a mídia

Por Luis Nassif, em seu blog

Nos anos 2.000, a Folha cometeu o maior erro estratégico da sua história moderna, indo a reboque da revista Veja. Não apenas ela, mas os demais veículos.

Dias desses cruzei com o diretor de redação de uma grande publicação, ferozmente anti-governo. Sem que o provocasse, comentou comigo que Veja não faz jornalismo.

Ou seja, mesmo na frente-mídia montada em 2005, o jornalismo de Veja é motivo de vergonha, a maneira como ideologizam qualquer besteira, o fato de não ter a menor preocupação em se ater aos fatos.

Ou seja, o padrão Veja ajudou a desmoralizar o jornalismo como um todo, lançou ao descrédito todos os grupos de mídia. É só conferir o desafio gigantesco da Folha para recuperar a imagem perdida, tendo que “explicar” aos leitores qual sua posição e qual a dos colunistas.

Aliás, a posição de um jornal não é o que sai nos editoriais (de baixa leitura) mas na cobertura diária.

A repercussão dada ao factoide da Veja desta semana – tratando como escândalo o suposto conhecimento prévio, pelos convocados da CPI da Petrobras, das perguntas que seriam formuladas, beira o ridículo. Escândalo é continuar se valendo de instrumentos de espionagem, mantendo o padrão que, na Inglaterra, levou jornalistas à prisão, e por aqui continua sendo totalmente tolerado.

Ontem um amigo me ligou dizendo que o Jornal Nacional dedicou quase dez minutos de cobertura. O efeito-manada faz com que Estadão e Folha vão atrás.

Não adianta. Mesmo com o Instituto Millenium, com o fórum da ANJ, com os consultores midiáticos, a mídia padece de uma ausência total de visão estratégica. Não tem o menor cuidado ao se misturar com a lama.

Pepe Escobar: A Plutocracia Ocidental lança a caça ao urso

Por Pepe Escobar, via Asia Times Online

O status quo pós-Guerra Fria na Europa Ocidental está morto.

Para a plutocracia ocidental, aquele 0,00001% do topo, os reais Patrões do Universo, a Rússia é a meta final; tesouro imenso de recursos naturais, florestas, água limpa, minérios, petróleo e gás. Mais do que suficiente para levar ao êxtase qualquer jogo de guerra orwelliano/Panopticon NSA-CIA. Como meter as garras e lucrar de tão formidável butim?

Entra em cena a OTAN-Globocop. Nem bem acabaram de terem seus traseiros coletivos chutados por um bando de guerrilheiros de montanha armados com Kalashnikovs, os exércitos da Organização do Tratado Atlântico Norte já lá se vão, pivoteando-se rápido – o mesmo velho jogo Mackinder para Brzezinski – para a Rússia. O mapa do caminho será arrematado na reunião do grupo no início de setembro em Gales.

Entrementes, a tragédia do MH17 passa por rápida metamorfose. Se se combinam (i) as observações no local feitas por investigador canadense da Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE) (assistam cuidadosamente ao vídeo[1]) e (ii) a análise feita por um piloto alemão,[2] surge forte probabilidade que aponta para um jato Su-25 ucraniano que disparou canhão automático de 30mm contra a cabine do MH17, o que levou a descompressão massiva e à queda.

Nada de míssil – nem mesmo algum R-60M ar-ar, e nem se fala de BUK (estrela da boataria inicial frenética disparada pelos norte-americanos). A nova possível narrativa combina perfeitamente com o que disseram testemunhas oculares em matéria da BBC[3] agora famosa por ter sido “desaparecida” da página da BBC. Resumo da ópera: o caso MH17 tem tudo para ter sido operação de ‘falsa bandeira’, desgraçadamente planejada pelos EUA e desgraçadamente executada por Kiev. Não se consegue nem imaginar as repercussões geopolíticas tectônicas se, por acaso, todo o ‘plano’ for exposto em todos os verdadeiros pormenores.

A Malásia entregou os gravadores de voo aos britânicos, o que significa “OTAN”, o que significa que serão manipulados pela CIA. O voo AH5017 da Air Algerie caiu depois do MH17. A análise dos gravadores já foi divulgada. Só falta explicar por que é preciso tanto tempo para analisar/apagar/reescrever os registros das caixas prestas do MH17.

E aí começa o jogo das sanções: a Rússia é culpada de tudo – sem prova alguma –, então, tem de ser castigada. A União Europeia seguiu abjetamente a Voz do Dono e adotou todas as sanções mais linha-dura contra a Rússia que discutiram semana passada.

Mas há buracos. Moscou terá acesso reduzido aos mercados de dólar norte-americano e euro. Bancos estatais russos estão proibidos de vender ações ou títulos do ocidente. Mas o Sberbank, maior banco da Rússia, não foi sancionado.

Quer dizer: no curto e no médio prazo, a Rússia terá de se autofinanciar. Ora, bancos chineses podem facilmente suprir esse tipo de empréstimo. Não esqueçam a parceria estratégica Rússia-China. Como se Moscou precisasse de mais algum aviso de que o único modo de seguir adiante é afastando-se cada vez mais do sistema do dólar norte-americano.

Países da União Europeia serão atingidos. Coisa grossa. A British Petroleum é dona de 20% da Rosneft, e já está com a boca no trombone. ExxonMobil, Statoil norueguesa e Shell também serão afetadas. Nenhuma sanção contra a indústria do gás; mas isso, afinal, já seria impulsionar a estupidez contraproducente da União Europeia para dimensões galácticas. A Polônia – que culpa histericamente a Rússia por todos os males do mundo – recebe da Rússia mais de 80% do gás que consome. E 100%, no caso dos não menos estridentes estados do Báltico, bem como a Finlândia.

O banimento de bens de duplo uso – que tenham aplicações civis e militares – afetará pesadamente a Alemanha, principal exportador da União Europeia para a Rússia. Na defesa, Reino Unido e França sofrerão; o Reino Unido tem nada menos que 200 licenças para vender armas e dispositivos de lançamento de mísseis para a Rússia. Mas o negócio francês de 1,2 bilhão de euros (US$1,6 bilhão) em barcos Mistral de guerra para a Rússia, esse, prosseguirá normalmente.

Enquanto isso, no front da demonização…

O que a Associated Press publica como se fosse “análise” e distribui para jornais e jornalistas em todo o mundo é isso:[4] coleção de clichês desesperadamente à procura de uma ideia. Dmitri Trenin, do Carnegie Moscou Center,[5] sem trair quem lhe paga as contas, acerta umas poucas coisas mas, na maioria, erra. David Stockman[6] pelo menos acerta uma, ao desconstruir as mentiras do Estado-de-Guerra-Perpétua.

Mas quem diz tudo, coisa-com-coisa, é, definitivamente, Sergei Glazyev, conselheiro econômico de Putin.[7] Uma de suas teses centrais é que o business europeu tem de ser realmente muito cuidadoso e proteger seus interesses contra as tentativas dos EUA de “incendiar uma guerra na Europa e uma Guerra Fria contra a Rússia”.

Esse é o conselho bomba atômica recentíssima (de 10/6), oferecido por um Glazyev composto, calmo e claro.[8] Assistam atentamente ao vídeo. É exposição detalhada do que Glazyev vem dizendo já há semanas; misturada com alguns importantes Comentários[9] no blog do Saker, leva a uma conclusão inevitável: setores chaves da plutocracia ocidental querem uma guerra ainda não muito bem definida contra a Rússia. E o Santo Graal do jornalismo (“nunca acredite em coisa alguma, até que haja desmentido oficial”[10]) – já o comprovou que querem.

O plano A da OTAN é instalar baterias de mísseis na Ucrânia; já está sendo discutido em detalhes nas reuniões preparatórias para a reunião de cúpula da OTAN em Gales no início de setembro. Desnecessário dizer, se isso acontecer, já estará muito além da linha vermelha, do ponto de vista de Moscou; implica capacidade para primeiro ataque junto às fronteiras ocidentais da Rússia.

O plano A curto de Washington, enquanto isso, é instalar uma cunha entre os federalistas no leste da Ucrânia e a Rússia. Implica financiar diretamente, progressivamente, o governo de Kiev, ao mesmo tempo em que vai construindo (via conselheiros dos EUA que já estão em campo) e armando pesadamente, um enorme exército ‘por procuração’ para operar à distância (até o final de 2014 serão 500 mil, segundo a projeção de Glazyev). O fechamento da jogada em campo será cercar os federalistas numa área bem pequena. O presidente Petro Poroshensko da Ucrânia já anda dizendo que acontecerá no início de setembro. Se não, até o final de 2014.

Nos EUA e em grande parte da União Europeia está em curso uma grotesquerie monstruosa, que apresenta Putin como o novo bin Laden stalinista. Até aqui, a estratégia de Putin para a Ucrânia tem sido a paciência – que tenho chamado de Vlad Lao Tzu – assistindo enquanto a gangue de Kiev se autoenforca,[11] ao mesmo tempo em que tenta conversar de modo civilizado com a União Europeia para construir alguma solução política.

Agora talvez tenha de encarar uma mudança de jogo, porque aumentam as provas, que a inteligência russa e Glazyev estão fazendo chegar a Putin, de que a Ucrânia é um campo de batalha; que há movimento organizado para uma ‘mudança de regime’ em Moscou; que há projeto para desestabilizar a Rússia; que há, até, possibilidade de uma provocação definitiva.

Moscou, aliada aos BRICS, trabalha ativamente para escapar do sistema do dólar norte-americano – que é a âncora de uma economia de guerra dos EUA baseada na impressão de grandes quantidades de papel verde sem valor real. O progresso é lento, mas tangível; não só os BRICS, mas também aspirantes aos BRICS, o G-77, o Movimento dos Não Alinhados (MNA), todo o Sul Global estão absolutamente fartos dos desmandos e provocações ininterruptas do Império do Caos, e querem outro paradigma nas relações internacionais. Os EUA contam com a OTAN – que manipulam à vontade – e com Israel-cachorro-louco; e talvez com o Conselho de Cooperação do Golfo, as petromonarquias sunitas parceiras na carnificina em Gaza, que podem ser compradas/silenciadas com um tapinha na mão.

Putin deve estar enfrentando tentação sobre humana de invadir o leste da Ucrânia em 24 horas e reduzir a pó as milícias de Kiev. Especialmente ante a cornucópia da demência sempre crescente por ali; mísseis balísticos na Polônia e em breve na Ucrânia; bombardeio indiscriminado contra civis no Donbass; a tragédia do MH17; a demonização histérica, pelo ocidente.

A paciência do urso tem limites

Mas Putin parece que gosta, mesmo, de jogo demorado. A janela de oportunidade para ataque relâmpago já passou; aquele movimento de kung fu que teria paralisado a OTAN onde estivesse, ante um fato consumado, e a limpeza étnica de 8 milhões de russos e russófonos no Donbass nunca teria se desenvolvido.

Seja como for, Putin não “invadirá” a Ucrânia, porque a opinião pública russa não aprova a invasão. Moscou manterá o apoio ao movimento no Donbass que é uma resistência de facto. Lembremos que, mais dois meses, menos dois meses, e entrará em ação o General Inverno naqueles infelizes, saqueados pelo FMI campos ucranianos.

O plano de paz alemão-russo que vazou[12] será implementado sobre o cadáver coletivo de toda a Washington governamental. Esse Novo Grande Jogo, em grande medida, também tem a ver com impedir a integração econômica da Rússia na União Europeia via a Alemanha, parte de uma plena integração eurasiana, que inclui a China e suas muitíssimas Rotas da Seda.

Se o comércio da Rússia com a União Europeia – cerca de US$410 bilhões em 2013 – deve sofrer um golpe por causa das sanções, isso também faz pensar em movimento “Para o Leste!”. Isso implica que a Rússia trabalhará na sintonia fina do projeto da União Econômica Eurasiana.[13] Nada mais de Europa Expandida, de Lisboa a Vladivostok – ideia original de Putin. Entra em cena a União Eurasiana, como irmã em armas das muitas Rotas da Seda da China. Ainda assim, tudo isso faz pensar numa forte parceria Rússia-China no coração da Eurásia – e continua a ser anátema total para os Patrões do Universo.

Que ninguém se engane: a parceria estratégica Rússia-China continuará a andar muito rapidamente – com Pequim em simbiose com os imensos recursos naturais e militares tecnológicos de Moscou. E ainda nem se falou dos benefícios estratégicos. Problema será explicar por que não aconteceu antes, desde o tempo de Genghis Khan. Mas Xi Jinping não está interessado em dar uma de Khan e dominar a Sibéria e o resto todo, adiante.

A Guerra Fria 2.0 é agora inevitável, porque o Império do Caos jamais aceitará a influência da Rússia sobre partes da Eurásia (como tampouco aceita a influência da China). E jamais aceitará a Rússia como parceira igual (excepcionalistas não se dão bem com igualdades). E jamais perdoará Rússia – com China – por ter abertamente desafiado a já rachada ordem mundial excepcionalista imposta pelos EUA.

Se o estado profundo nos EUA, guiado por aquelas nulidades que se fazem passar por líderes, em desespero, der um passo adiante – pode ser um genocídio no Donbass; um ataque da OTAN contra a Crimeia; ou, no pior cenário imaginável, um ataque contra a própria Rússia –, atenção. Porque o urso golpeará.

Referências:

[1] http://www.cbc.ca/news/world/malaysia-airlines-mh17-michael-bociurkiw-talks-about-being-first-at-the-crash-site-1.2721007?cmp=rss&partner=sky

[2] http://www.anderweltonline.com/wissenschaft-und-technik/luftfahrt-2014/shocking-analysis-of-the-shooting-down-of-malaysian-mh17/

[3] https://www.youtube.com/watch?v=zUvK5m2vxro

[4] http://www.washingtonpost.com/world/europe/ap-analysis-putin-cornered-over-ukraine/2014/07/31/dc11e97a-18cd-11e4-88f7-96ed767bb747_story.html

[5] http://carnegie.ru/2014/07/09/ukraine-crisis-and-resumption-of-great-power-rivalry/hfgs

[6] http://davidstockmanscontracorner.com/on-dominoes-wmds-and-putins-aggression-imperial-washington-is-intoxicated-in-another-big-lie/

[7] 18/6/2014, “Para pôr fim às guerras dos EUA em todo o planeta: Assessor de Putin propõe ‘Aliança Antidólar’”, Tyler Durden, ZeroHedge, trad. em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/08/para-por-fim-as-guerras-dos-eua-em-todo_2.html

[8] https://www.youtube.com/watch?v=nWT5HM_NMlI&list=PLHS4KH8qkEfbz57RrnjwbBnmjBLz_A7qU%20-%20t=10

[9] http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2014/07/could-glazev-be-right-request-for-your.html

[10] http://rt.com/uk/176824-cameron-world-war-ukraine/

[11] http://orientalreview.org/2014/07/30/the-slow-motion-collapse-of-the-ukrainian-state-and-the-radas-capitulation/

[12] http://www.independent.co.uk/news/world/europe/land-for-gas-secret-german-deal-could-end-ukraine-crisis-9638764.html

[13] http://rt.com/business/162200-russia-bealrus-kazakhstan-union/

Fabio Hideki Harano, um preso político no Brasil

Por Pedro Abramovay, via Brasil Post

Quando um jornalista foi morto em uma manifestação houve uma justa comoção nacional. Toda vida é sagrada. Mas a morte de um jornalista em uma manifestação atinge algo mais. Atinge a liberdade de imprensa e, portanto, a democracia.

O Brasil tem inúmeras pessoas presas ilegalmente hoje em suas cadeias. Todas essas prisões ilegais devem ser denunciadas. Mas há algo de mais grave na prisão ilegal de um manifestante. Prender alguém para impedir seu direito de manifestação, prender alguém porque não se concorda com sua ideologia é realizar uma prisão política.

Deve haver mais, mas há hoje, pelo menos, um preso político no Brasil. Fabio Hideki Harano. Fabio foi preso no dia 23 de junho em uma estação de metrô em São Paulo. Fábio foi preso em flagrante. Para se realizar uma prisão em flagrante a pessoa tem que estar cometendo o crime naquele momento. O crime do qual Fábio é acusado é o de porte de explosivos. Há um vídeo com a prisão de Fábio. Não há sinal de que os policiais encontraram explosivos ali.

Segundo o secretário de segurança, Fábio foi preso em flagrante por associação criminosa. Para se configurar o crime de associação criminosa Fábio teria que estar reunido com pelo menos mais duas pessoas para o fim específico de cometer o crime na hora em que foi preso. Se ele foi preso em flagrante por isso, quem eram as outras duas pessoas? Elas foram presas? Fugiram?

Há que se ter todo o respeito pelas autoridades policiais e governamentais envolvidas neste caso. Mas os fatos como expostos dão todos os motivos para se acreditar que Fábio é um preso político. Que Fábio não cometeu nenhum crime previsto no Código penal. Que Fábio é um bode expiatório de um Estado amendrontado que necessitava dar uma resposta a manifestações violentas e escolheram Fábio, mesmo que ele não tivesse relação com a violência, para apresentar como troféu.

O governo afirma que Fabio era um black block. Fabio e todos os que o conhecem negam veementemente. Fabio realizou algum ato de violência? Estava portando artefatos explosivos? Coordenou ou liderou ações criminosas? Há que se ter um processo para descobrir. Se não houver processo, se ele foi preso com um flagrante tão mal explicado, ele é um preso político.

A prisão de Fábio atenta contra a sua liberdade. Mas a prisão de Fabio, enquanto não for completamente esclarecida afeta toda a democracia brasileira. Se governantes, com medo de manifestações violentas podem prender cidadãos que não cometeram crimes para dar uma resposta política, o Brasil deixa de ser um Estado de direito. Se os cidadãos brasileiros não se indignarem com uma prisão política como essa, estão dando um cheque em branco para que os governos sejam autoritários.

A Human Rights Watch, uma das principais organizações de Direitos Humanos do mundo, soltou um comunicado, nele se pede para que Fabio seja solto ou que provas sejam apresentadas. Qualquer pessoa presa tem o direito ao devido processo legal. Qualquer pessoa presa tem o direito a ser condenado somente com base em provas. Mas quando uma pessoa está presa por ser um manifestante, exercendo a democracia em sua plenitude, esse direito não é só de Fábio, é de todos nós. O governo deve apresentar provas contundentes de que não houve ilegalidade na prisão e provas dos crimes de que Fábio é acusado. Enquanto não o fizer, Fábio é um preso político.

Uma prisão como a de Fábio nos diminui enquanto democracia. O silêncio perante esta prisão nos diminui enquanto sociedade.

Queda do voo MH17 na Ucrânia: 16 questões centrais que não podem ser ignoradas

Por Julie Lévesque, via Global Research

IB times/Reprodução

Quando tentamos estabelecer quem está por trás do abate ao voo MH17, temos algumas questões centrais e evidências factuais as quais não podem ser ignoradas:

1. A Malaysia Airlines confirmou que o piloto foi instruído a voar a uma altitude mais baixa pela torre de controle de Kiev, quando entrou em espaço aéreo da Ucrânia (Malaysian Airlines MH17 Was Ordered to Fly over the East Ukraine Warzone)

2. A rota do voo foi modificada. Ainda não se sabe de quem partiu esta ordem, mas já se sabe que não foi a Eurocontrol:

O MH17 foi deslocado de sua rota usual a qual passa pela região sudeste, acima do mar de Azov, e então sobrevoou a região de Donetsk. Oblast. (The Flight Path of MH17 Was Changed. July 17 Plane Route was over the Ukraine Warzone)

De acordo com a Malaysia Airlines “A rota de voo usual (acima do mar de Azov) foi declarada segura horas antes pela Organização Internacional de Aviação Civil. A Associação Internacional de Transporte Aéreo também informou que aquele espaço aéreo não estava sujeito à restrições.”

A rota regular do MH17 (e outros voos internacionais) passou mais a sudeste, por cima do mar de Azov, durante um período de 10 dias antes do 17 de julho (dia do desastre). É sabido que a ordem pra mudança da rota não partiu do controle aéreo europeu, o Eurocontrol, enquanto isto, a gravação das comunicações entre o MH17 e a torre de controle de Kiev foi confiscada pelo governo da Ucrânia. A ordem de mudança da rota partiu da torre de controle de Kiev? O piloto foi instruído tomar outra rota? (Malaysian Airlines MH17 Was Ordered to Fly over the East Ukraine Warzone)

3. A presença de uma aeronave militar a jato ucraniana foi confirmada pelo controlador de tráfico aéreo espanhol “Carlos” no aeroporto Borispol, em Kiev, logo após o boeing 777 ter sido abatido, testemunhas locais de Donetsk também confirmaram a informação. (How American Propaganda Works: “Guilt By Insinuation”, Spanish Air Controller @ Kiev Borispol Airport: Ukraine Military Shot Down Boeing MH#17)

O controlador aéreo espanhol usou o twitter pra relatar os acontecimentos em tempo real. Em sua versão, a tragédia não se tratou de acidente, ele afirma que as autoridades ucranianas abateram o MH17 e queriam fazer parecer um ataque dos “separatistas pró-Rússia”. Sua conta do twitter foi derrubada logo em seguida a tragédia. Ainda que as informações por ele prestadas carecem de averiguação, algumas declarações foram confirmadas pela Malaysia Airlines e as autoridades russas.

Houve relatos de que os relatos do controlador espanhol eram falsos e que a conta do twitter residia em Londres. Mesmo com estas informações desencontradas, “Carlos” prestou diversas entrevistas nos últimos 2 a 3 meses, confira a que ele prestou ao RT (Spanish Air Controller @ Kiev Borispol Airport: Ukraine Military Shot Down Boeing MH#17)

4. A Rússia tornou públicas as imagens de satélite e evidências que possui. Estas sugerem que:

a) A junta de Kiev movimentou sistemas antiaéreo Buk em Donetsk e nas regiões próximas a do atentado;

b) Um avião de guerra ucraniano SU-25 voou próximo ao MH17;

c) O relatório apontou a possibilidade de um ataque ar-ar ao MH17;

d) Este relatório apontou ainda inconsistências por parte dos relatos da torre de controle da Ucrânia;

As autoridades russas não chegaram a uma conclusão no tocante a culpa pelo abate da aeronave. (MH17 Show & Tell: It’s the West’s Turn – Russian Satellites and Radars Contradict West’s Baseless Claims)

5. Os EUA, a despeito de seu aparato global de espionagem, não mostrou nenhuma imagem de radar ou satélite a fim de corroborar com suas acusações de que a Rússia, apoiando a oposição do leste ucraniano, foram os responsáveis pelo atentado ao MH17.

Estão os EUA simplesmente lendo blogs? Ou são estes blogs os norteadores da inteligência norte-americana? Ou esses blogs são fabricação da inteligência de Washington para tentar culpar a Rússia? Um deles em particular, o “Ukraine at War”, não passa de uma coleção de informação manipulada e propaganda viciada. As informações por lá veiculadas parecem preceder as declarações da “inteligência norte-americana”. (Assigning Blame to East Ukraine Rebels: US Appeals to “Law of the Jungle” in MH17 Case)

6. “O Ministro da Defesa russo confirmou que no momento do abate ao MH17 havia um satélite dos EUA sobrevoando a área”:

O governo russo apela à Washington que divulgue as fotos e dados capturados pelo seu satélite. (How American Propaganda Works: “Guilt By Insinuation”)

7. Uma fonte da inteligência norte-americana afirma que “Nossas agências de inteligência possuem imagens de satélite que expõem em detalhes a bateria antiaérea que disparou o míssil, porém o sistema parece ter sido operado por tropas do governo ucraniano, vestidos no que parecem ser uniformes ucranianos”. Estas imagens poderiam confirmar as evidências apresentadas pela Rússia as quais mostram a movimentação de sistemas antiaéreos ucranianos na região de Donetsk e proximidades, local da queda do MH17. (Fact number 4, Whistleblower: U.S. Satellite Images Show Ukrainian Troops Shooting Down MH17)

8. A Rússia defendeu a formação de uma equipe de especialistas independes para investigação:

O presidente Putin declarou reiteradas vezes que o trabalho de investigação requer “um grupo representativo de especialistas respondendo as instruções da Organização Internacional da Aviação Civil (ICAO)”. Os pedidos de uma investigação independente especializada, coordenada pela ICAO não demonstram alguém que tenha algo a esconder. (How American Propaganda Works: “Guilt By Insinuation”)

9. Os EUA afirma, sem prova alguma, mas “com confiança”, o envolvimento da Rússia:

No dia 20 de julho, o secretário de Estado John Kerry confirmou que os separatistas pró-Rússia estão envolvidos no atentado a aeronave da Malaysia Airlines, dizendo também que estava “bem clara” a parte da Rússia no caso. Estas são as palavras que usou: “Está bem claro que o sistema (antiaéreo) foi transferido da Rússia para os separatistas. Sabemos disso confiantemente. Sabemos com confiança, com confiança, que os ucranianos não possuíam este sistema nas proximidades, então, obviamente que o dedo aponta para os separatistas.” (Ibid.)

10. As declarações do secretário de Estado John Kerry as quais alegam envolvimento da Rússia no atentado são contraditas por diversas fotos de satélite e testemunhas locais. (Ibid.)

11. Os oficiais de inteligência norte-americanos indicam que não há evidências de que o governo russo envolveu-se no atentado. (US Intelligence on Malaysian Flight MH17: Russia Didn’t Do It. “US Satellite Photos do not Support Obama’s Lies”, O autor refere-se a esta reportagem da Associated Press: US INTELLIGENCE: No ‘Direct’ Russian Involvement In Downing Of MH17)

12. Algumas horas após a queda, as autoridades de Kiev apresentaram um vídeo no qual os separatistas admitem o abate da aeronave, este foi submetido a análise de especialistas os quais concluíram ser o material uma fabricação:

“O segundo fragmento da fita é apresentado como se fosse único, porém, na realidade trata-se de uma emenda de três peças. Uma análise espectral e temporal demonstrou que o diálogo consistiu de cortes de fragmentos unidos. A fita possui algumas pausas curtas que indicam a manipulação: o arquivo de áudio consistiu na gravação de diversos diálogos diferentes”. (Ibid.)

A codificação do vídeo indica que o arquivo foi criado no dia 16 de julho, um dia antes da aeronave ser abatida. Essa informação precisa de maiores confirmações, mas, se mostrar-se acurada, indicaria claramente que as autoridades ucranianas realizaram o atentado e fabricaram as evidências a fim de culpar a oposição. (Did Ukraine Fabricate Evidence to Frame Russia for MH17 Shoot Down?)

13. John Kerry “referiu-se a um vídeo que os ucranianos tornaram público o qual expõe uma unidade SA-11 se dirigindo de volta à Rússia após a queda do boeing 777”. O vídeo foi “postado via facebook na conta do Ministro do Interior da Ucrânia”.

Um outro vídeo do “Buk russo” disponibilizado sugere que os ucranianos estariam exibindo equipamento próprio. (Key Piece of Video “Evidence” for Russian Responsibility for Malaysian Plane Shootdown Debunked)

14. O Promotor Geral da Ucrânia Vitaly Yarema afirmou que os separatistas não possuem sistemas antiaéreos Buk:

“O Ministro do Interior Anton Gerashchenko declarou no dia 17 de julho que o boeing 777 da Malaysia Airlines foi abatido por um sistema de mísseis Buk… Enquanto o Promotor Geral Vitaly Yarema disse, na sexta, ao jornal ucraniano Pravda que: “Após o abate do avião de passageiros, os militares reportaram que os terroristas não possuem sistemas de defesa antiaéreos Buk e os S-300… Estes armamentos não nos foram roubados” (Militias Do Not Have Ukrainian Buk Missile System — Ukraine General Prosecutor)

15. O MH17 está sendo usado para atacar a Rússia economicamente. Ocorreu um aumento nas sanções a despeito da ausência de evidências que culpem o país. Estas medidas objetivam enfraquecer a moeda russa (rublo) e desestabilizar o sistema monetário russo. (The Malaysian Airlines MH17 Crash: Financial Warfare –against Russia, Multibillion Dollar Bonanza for Wall Street)

16. Em 1962, o órgão executivo norte-americano denominado Joint Chief of Staff planejou a Operação Northwoods, que tratou-se de uma missão secreta de “operação de falsa bandeira” na qual uma aeronave civil seria abatida no intuito de culpar o governo cubano. Esta operação objetivava fabricar pretexto pra declarar guerra contra Cuba. (A Implementação desta trapaça foi vetada pelo Presidente John F. Kennedy)

A queda do voo MH17 e as reações das autoridades dos EUA e da grande mídia são fortemente similares ao cenário projetado pela Operação Northwoods. De acordo com o escritor R. Teichmann:

“Entre outras coisas, os documentos apontam o seguinte. Eu (Teichmann) inseri comentários entre parênteses para ilustrar porque o incidente com o MH17 pode ser uma reformulação da proposta da Operação Northwoods:

É possível criar um incidente o qual demonstrará convincentemente que os armamentos cubanos (ou um sistema antiaéreo de mísseis Buk fornecido pela Rússia aos separatistas) atacaram e abateram uma aeronave civil (ou o voo MH17 malaio) em rota, proveniente dos EUA, em direção à Jamaica, Guatemala, Panamá ou Venezuela (ou, atualmente, para Kuala Lumpur).

É possível que criemos um incidente o qual parecerá que os comunistas cubanos (ou dos separatistas do leste ucraniano) tenham abatido um avião civil norte-americano (ou o boeing 777 malaio) em região de águas internacionais (no leste da Ucrânia), que será retratado como um ataque sem motivação. (Framing Russia? Fabricating a Pretext to Wage War: Flight MH-17 and “Operation Northwoods”)

Tradução: Rennan Martins

Bob Fernandes: O “mercado”, que toca o terror na eleição, quebrou o mundo

Por Bob Fernandes, via facebook

O “mercado” não quer Dilma. Isso está nas manchetes há dias, semanas. A Bolsa sobe ou cai a depender de pesquisas que mostram Dilma em baixa ou em alta.

E não só pelos erros do governo Dilma.

Em 2002, em pleno governo Fernando Henrique, o “mercado” fez terror com a hipótese da vitória de Lula. Qual foi o resultado daquele terror todo?

Basta conferir num site de buscas. O governo Fernando Henrique terminou melancólico, com dólar a quase R$ 4, risco-país acima de 4 mil pontos, e inflação de 12, 53% ao ano.

Sobre qualquer assunto que tenha algo a ver com economia, largos setores da mídia dão voz preferencial e, a depender da mídia muitas vezes única, a “especialistas” do “mercado”.

O que é o tal “mercado”?

É o sistema de bancos e demais instituições financeiras. Assim sendo, vale lembrar os custos da crise criada no e pelo “mercado” e que explodiu em 2008.

Mark Anderson, ex-chefe da Standart and Poor’s, o homem que rebaixou a nota de crédito dos EUA, diz que o custo final da crise mundial é de US$ 15 trilhões.

Estima-se que hoje o chamado “mercado de derivativos” seria de US$ 1,2 quatrilhão. Isso é 20 vezes todo o PIB do mundo. Ou seja, é só ficção. É “dinheiro” de mentira.

Isso existe apenas como alavanca para quem pilota o tal “mercado” acumular ainda mais fortuna. Com grandes riscos para o próprio sistema financeiro. Nem se diga para os demais pobres mortais.

Relatório da ONG britânica Oxfam informa: 85 pessoas das 7 bilhões e 200 milhões da Terra têm patrimônio igual à metade da população do mundo.

O 1% mais rico do mundo tem US$ 110 trilhões. O que é 65 vezes mais do que tudo que tem metade da população mundial.

No Brasil, apenas 4 dos bancos tiveram lucro líquido de R$ 50 bilhões em 2013. Isso é mais do que a soma do PIB de 83 países no mesmo ano passado.

Isso é o tal “mercado”. O resto é conversa mole e disputa pelo Poder.

Intenção velada de a Alemanha integrar os Brics assusta os EUA

Por Carl Edgard, via Correio do Brasil

Merkel e Putin, em recente encontro durante reunião de cúpula da União Europeia CdB/Reprodução

Os piores pesadelos do presidente Barack Obama têm ganhado forma, em uma velocidade com a qual ele não contava, no front financeiro. Uma análise do doutor em Estatística Jim Willie, PhD na matéria pela Carnegie Mellon University, nos EUA, afirma categoricamente que a Alemanha está prestes a abandonar o sistema unipolar apoiado pela Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan) e os EUA, para se unir às nações dos Brics, o grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, razão pela qual a agência norte-americana de espionagem NSA ampliou suas escutas à lider germânica Angela Merkel e terminou flagrada por agentes do serviço secreto alemão, após as denúncias do ex-espião Edward Snoden. Em entrevista ao blogueiro Greg Hunter, editor do USA Watchdog, Willie afirmou que a verdadeira razão por trás do recente escândalo de espionagem da NSA, visando a Alemanha, é o clima de medo que ronda o governo norte-americano de que as potências financeiras da Europa estejam procurando fugir do inevitável colapso do dólar.

Editor de um boletim financeiro a partir de Pittsburg, no Estado norte-americano da Pensylvania, Jim Willie afirma que o apoio dos EUA à Ucrânia e as consequentes sanções impostas à Rússia integram o esforço dos EUA de tentar segurar o êxodo europeu no campo econômico e político, em nível mundial. “Aqui está a grande consequência. Os EUA, basicamente, estão dizendo à Europa: você tem duas opções aqui. Junte-se a nós na guerra contra a Rússia. Junte-se a nós nas sanções contra a Rússia. Junte-se a nós nas constantes guerras e conflitos, isolamento e destruição à sua economia, na negação do seu fornecimento de energia e na desistência dos contratos. Junte-se a nós nessas guerras e sanções, porque nós realmente queremos que você mantenha o regime do dólar. (Em contrapartida, os europeus) dizem que estão cansados do dólar… Estamos empurrando a Alemanha para fora do nosso círculo. Não se preocupem com a França, nem se preocupem com a Inglaterra, se preocupem com a Alemanha. A Alemanha tem, no momento, 3 mil empresas fazendo negócios reais, e elas não vão se juntar às sanções”.

Willie continua: “É um jogo de guerra e a Europa está enjoada dos jogos de guerra dos EUA. Defender o dólar é praticar guerra contra o mercado. Você está conosco ou está contra nós?”. Quanto à espionagem da NSA sobre a Alemanha, Willie diz: “(Os espiões norte-americanos) estão à procura de detalhes no caso de (os alemães) passarem a apoiar a Rússia sobre o ‘dumping’ ao dólar. Eu penso, também, que estão à procura de detalhes de um possível movimento secreto da Alemanha em relação ao dólar de união aos Brics. Isto é exatamente o que eu penso que a Alemanha fará”.

Willie calcula que, quando os países se afastarem do dólar norte-americano, a impressão de dinheiro (quantitative easing, QE) aumentará e a economia tende a piorar. Willie chama isso de ‘feedback loop’, e acrescenta: “Você fecha o ‘feedback loop’ com as perdas dos rendimentos causados pelos custos mais elevados que vêm da QE. Não é estimulante. É um resgate ilícito de Wall Street que degrada, deteriora e prejudica a economia num sistema vicioso retroalimentado… Você está vendo a queda livre da economia e aceleração dos danos. A QE não aconteceu por acaso. Os estrangeiros não querem mais comprar os nossos títulos. Eles não querem comprar o título de um banco central que imprime o dinheiro para comprar o título de volta! A QE levanta a estrutura de custos e causa o encolhimento e desaparecimento dos lucros. A QE não é um estímulo. É a destruição do capital”.

Na chamada “recuperação” a grande mídia tem batido na mesma tecla durante anos, Willie diz: “Os EUA entraram em uma recessão da qual não sairão até que o dólar tenha desaparecido. Se calcular-mos a inflação corretamente… Veremos uma recessão monstro de 6% ou 7% agora. Não creio que a situação melhore até que o dólar seja descartado. Portanto, estamos entrando na fase final do dólar”.

“Você quer se livrar de obstáculos políticos? Vá direto para o comércio e negócios. Por que é que a Exxon Mobil continua realizando projetos no Ártico e no mar Negro (na Crimeia) com os russos e suas empresas de energia? Nós já temos empresas de energia dos Estados Unidos desafiando nossas próprias sanções, e mesmo assim estamos processando os bancos franceses por fazerem a mesma coisa. Isso é loucura. Estamos perdendo o controle”, aponta.

Um mundo não norte-americano

No Brasil, a cúpula realizada em Fortaleza, na semana passada, durante a qual foi criado o Novo Banco de Desenvolvimento, chamou a atenção do mundo para o próprio projeto de desenvolvimento do bloco, bem como para o papel da China e da Rússia nesta organização. O vice-diretor do Instituto de Estudos do Extremo Oriente da Academia de Ciências da Rússia, Serguei Luzyanin, anda em paralelo à linha traçada por Willie. Leia, adiante, a entrevista que Luzyanin concedeu à agência russa de notícias VdR:

– Foi referida a criação do embrião “de um mundo não norte-americano”. Porque é que os BRICS não gostam da América do Norte?

– A cúpula brasileira ficou para a história enquanto o mais fértil encontro do “quinteto” – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A sua fertilidade não ficou apenas patente na criação de instrumentos financeiros – o Banco de Desenvolvimento e Arranjo Contingente de Reservas – mas, sobretudo, no nível de empenho dos líderes dos Brics – no auge da Guerra Fria 2.0, quando os norte-americanos tentam esmagar qualquer um que age à revelia das “recomendações” de Washington – em criarem o seu embrião “de um mundo não norte-americano”. No futuro, outros projetos poderão estar ligados ao desenvolvimento dos Brics, como a Organização de Cooperação de Xangai (RIC). O importante é que, de fato, existe a concepção “de um mundo não norte-americano” que se desenvolve ativamente e de forma concreta. Os Brics parecem prestes a se tornar o epicentro deste novo fenômeno. Não é preciso ser um político habilidoso para sentir que os povos e as civilizações dos países em vias de desenvolvimento estão cansados de “padrões norte-americanos” impostos. Aliás, padrões para tudo, economia, ideologia, forma de pensar, os “valores” propostos, vida interna e externa, etc. O mundo inteiro viu pela TV o aperto-de-mão dos cinco líderes dos Brics, ao qual, passado uns dias, se juntou praticamente toda a América Latina. É discutível se, neste impulso comum, existiu uma maior dose de contas pragmáticas ou de solidariedade emocional, mas, uma coisa é certa, nele não houve qualquer amor pela América do Norte. E isso ainda é uma forma polida de colocar as coisas.

– E quanto à adesão da Argentina, quem, no Sul, irá “apoiar” os EUA?

– Para a Índia os Brics são uma oportunidade de reforço na Ásia Austral e de desenvolvimento econômico fora da alçada da Ocidente. A motivação regional é conjugada com expectativas financeiras e tecnológicas que unem a África do Sul e o Brasil. No futuro, o “segmento” latino-americano poderá ser reforçado. Muitos peritos esperam que o “quinteto” seja alargado através da adesão da Argentina ao projeto. Ultimamente tem existido um desenvolvimento fulgurante das relações bilaterais da Rússia e da República Popular da China com países da América Latina, em setores como o tecnológico-militar, comercial, de investimento e energético. Neste quadro, as visitas em Julho de Vladimir Putin e de Xi Jinping marcaram o tendencial círculo de potenciais aliados dos Brics, nomeadamente Cuba, Venezuela, Nicarágua, Argentina, entre outros. Como é sabido, geograficamente, a America Latina “apoia”, a partir do Sul, os EUA. O reforço dos Brics, nessa zona sensível para os norte-americanos, é um trunfo adicional para o mundo em vias de desenvolvimento.

– Relativamente à “descoberta” muçulmana dos BRICS. Como será a institucionalização?

– Também se estuda o prolongamento dos Brics da direção do Islã, onde também existe descontentamento face ao domínio norte-americano. Espera-se que, após a entrada da Argentina, a fila de adesão aos Brics seja engrossada pelo maior, em termos de população, país muçulmano do mundo (cerca de 250 milhões), ou seja, a Indonésia. Ela, seja pela sua ideologia, seja pela ambições, nasceu para aderir ao projeto e assim fechar a região do Sudeste Asiático. O novo governo indonésio confirma a sua intenção de desenvolver o relacionamento com os Brics. A entrada da Indonésia encerrará a “corrente regional” que englobará as principais regiões do mundo. Além disso, cada um dos países dos Brics irá representar a “sua” região, tornando-se no seu líder informal. Brasil a América Latina, RAS a África, Rússia a Eurásia, China o Nordeste da Ásia, Indonésia o sudeste asiático. Os futuros cenários de desenvolvimento do projeto poderão ser diversos. Mas um deles já é atualmente equacionado e de forma bastante concreta. Num futuro próximo, os líderes dos BRICS deverão trabalhar no sentido da institucionalização do projeto, nomeadamente através da criação de um fórum de membros permanentes (atualmente são cinco Estados), e um fórum de observadores e de parceiros de diálogo.

– Há alguma chance de os EUA dialogarem?

– É possível que, com tempo, os EUA sejam obrigados a dialogar com os Brics. Porém, não parece ser algo que venha a ter lugar num futuro próximo. Hoje o projeto está em ascensão. Ele combina, organicamente, as vantagens de diversas civilizações, economias e culturas políticas. Aqui não existem imposições nem domínios de um só país. É claro que existem incongruências, algumas “divergências e visões diferentes quanto à concretização de alguns projetos internacionais. Mas não são diferendos estratégicos. Trata-se de questões objectivas, que surgem, normalmente, nas relações internacionais do mundo político. Os Brics acabam por ser o reflexo bastante preciso do nosso mundo multifacetado e bastante complexo.

Os EUA e a Operação Condor: “o maldito jogo de xadrez da morte”

Por Leonardo Wexell Severo, via Brasil de Fato

Por Carlos Latuff

Livro Os anos do lobo, da premiada escritora e jornalista argentina Stella Calloni, revela “a conspiração assassina” contra a democracia na região

“A Operação Condor foi uma conspiração assassina entre serviços de segurança da Argentina, Chile, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia, destinada a rastrear e eliminar adversários políticos sem preocupar-se com as fronteiras ou os limites. Operação Condor era o código para aquela multinacional do crime, cuja origem estava nas imensas oficinas da Agência Central de Inteligência (CIA) e do Burô Federal de Investigação (FBI), nos Estados Unidos”.

O “maldito jogo de xadrez da morte” foi descrito pela premiada escritora e jornalista argentina Stella Calloni em seu livro Os anos do lobo – Operação Condor (Peña Lillo – Ediciones Continente, Buenos Aires, 1999), no qual expõe “a política exterior de Washington em carne viva”.

Prefaciada por Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz de 1980, a obra descreve com riqueza de detalhes o envolvimento dos Estados Unidos na sequência de golpes, particularmente no Cone Sul.

No ano em que se completam 50 anos da derrubada do governo de João Goulart, a publicação é mais do que um estímulo à reflexão sobre os interesses geopolíticos do imperialismo e das suas transnacionais.

De acordo com Stella, “os EUA proporcionaram inspiração, financiamento e assistência técnica à repressão e podem haver plantado as sementes da Operação Condor. A CIA promoveu uma maior coordenação entre os serviços de Inteligência da região. Um historiador estadunidense atribui a uma operação da CIA a organização das primeiras reuniões entre funcionários de segurança uruguaios e argentinos para vigiar os exilados políticos. A CIA também atuou como intermediária nas reuniões entre os dirigentes dos esquadrões da morte brasileiros, argentinos e uruguaios”.

Porém, assegura a autora, “os Estados Unidos fizeram mais do que organizar os encontros: a equipe de serviços técnicos da CIA subministrou equipamentos de tortura elétrica a brasileiros e argentinos e ofereceu assessoramento sobre o grau de choques que o corpo humano poderia resistir”. Afinal, conforme advertiam os professores dos torturadores: “o ser vivo pode dar informação e um cadáver não”.

“Os agentes de segurança latino-americanos também receberam treinamento da CIA quanto à fabricação de bombas, na sede da Oficina de Segurança Pública do Departamento de Estado do Texas”, informa ainda Stella.

O alerta de Perón

“As mãos dos Estados Unidos estão manchadas com o sangue de milhares de latino-americanos caídos na luta pela liberdade e independência”, já alertava o líder argentino Juan Domingo Perón, ressaltando que “se equivocam os que afirmam a respeito dos EUA que estamos vivendo um período de calma”.

“Que calma é esta quando estão realizando todo tipo de atividades secretas, suborno de políticos e funcionários governamentais, assassinatos políticos, atos de sabotagem, fomento do mercado negro e penetração em todas as esferas da vida política econômica e social? Sobre nossos países voam aviões militares dos Estados Unidos enquanto nosso solo permanece em poder de seus monopólios, com bases militares”, denunciava Perón.

Naquele início dos anos de 1970, enquanto organizava a implementação da política de terrorismo de Estado dos EUA – chamadas candidamente de “ações encobertas” – contra o governo de Salvador Allende, no Chile, o diretor da CIA, Richard Helms, abriu o jogo: “É imperativo que estas ações se implementem clandestinamente e com segurança, de maneira que a mão estadunidense e seu governo permaneçam bem ocultos”.

Arquivos do horror

A maior parte das informações sobre a Operação Condor veio dos “Arquivos do Horror”, descobertos pelo professor e escritor paraguaio Martin Almada, no dia 7 de dezembro de 1992, em uma delegacia de polícia de Assunção. Preso e torturado durante três anos, exilado por 15 anos, Almada teve sua mulher morta pela ditadura de Stroessner.

Stella repercute as palavras de Almada: “Ali estavam as gravações de meus próprios gritos, quando me torturavam, que fizeram escutar a minha esposa Celestina, que morreu do coração ao não poder resistir àquela tortura psicológica”.

Os documentos encontrados por Almada eram arquivos, correspondências, livros de entradas e saídas de prisioneiros, controle de fronteiras, cartas e informes entre os ditadores, os chefes militares e de segurança dos países da região, fotografias, fitas cassete, vídeos, fichas de ‘colaboradores especiais’, dados de ‘agentes especiais’ e até mesmo correspondências trocadas por Stroessner com o alto mando militar. Na luta para passar uma borracha em passado tão comprometedor, assegura Stella, “os mesmos interesses que possibilitaram o crime se encarregaram de minimizar o valor documental do achado”.

Entre outras provas desta “corporação internacional da morte”, como foi reconhecida pelo The Washington Post, encontram- se “cartas do coronel Robert Scherrer, do Burô de Investigações dos Estados Unidos, dirigidas a funcionários de Stroessner desde a sede diplomática em Buenos Aires”. Elas confirmavam que este era um “homem-chave”, e que sabia muito bem o que significava a Operação Condor. “Mais ainda, alimentava com informes e solicitações de informes os criminosos, assim como outros funcionários estadunidenses e de distintos países.”

Os anos do lobo: os interesses geopolíticos do imperialismo e das suas transnacionais. Foto: Reprodução.

Roda da morte

Não restam dúvidas, esclarece a escritora, que foi no ano de 1974 que a roda da morte começou o seu giro mais “espetacular”, “pela transcendência política das vítimas”.

Em 30 de setembro de 1974, o general chileno Carlos Prats, que, entre outros cargos, havia sido ministro de Defesa de Allende, e que estava exilado na Argentina, foi assassinado junto a sua esposa, Sofia Cuthbert, em Buenos Aires. Uma bomba estourou embaixo de seu automóvel quando regressava de uma reunião com amigos.

Em 19 de dezembro de 1974 foi assassinado em Paris, França, o coronel uruguaio Ramón Trabal, que não se mostrou disposto a participar no mais obscuro da repressão no seu país. Trabal havia confessado suas simpatias pelo movimento dos militares de esquerda em Portugal e pelos setores progressistas em seu país.

“Porém, na realidade, foi o assassinato de Orlando Letelier, ex-ministro da Defesa e embaixador do Chile, em setembro de 1976, em Washington, no chamado ‘Bairro das Embaixadas’, que pôs em evidência a Operação Condor. Uma bomba colocada – como se demonstraria logo – por um grupo operativo do qual participavam Michael Towley (ex-agente da CIA), enviados especiais da ditadura chilena e terroristas cubanos anticastristas matou Letelier e sua ajudante Ronni Moffit.”

Um dos casos que tiveram mais “difusão pública”, recorda a escritora, foi o do sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Diaz e seus dois filhos, Camilo, de oito anos, e Francesca, de três, em 12 de novembro de 1978, em Porto Alegre.

“Nesta operação, participaram um grupo de contrainformação da ditadura uruguaia e do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) do Brasil, que tiveram sob sua responsabilidade o sequestro e a entrega a seus colegas do Uruguai”, relata Stella.

Após ser torturado na sede do DOPS da capital gaúcha e nos quartéis de Montevidéu, o casal ficou preso cinco anos sob a mentirosa acusação de que tentou entrar no Uruguai “portando armamentos, documentos falsos e propaganda subversiva”. Os filhos só não tiveram o mesmo final trágico de outras centenas de crianças, arrancadas das famílias para serem criadas pelos algozes de seus pais e de seu país, porque um telefonema anônimo levou jornalistas a denunciarem o caso, que logo ganhou repercussão internacional.

Após serem libertados em 1983, antes mesmo da queda da ditadura uruguaia, Lilian e Universindo se adiantaram a denunciar a barbárie. Entre as ações assassinas, Lilian citou os “voos da morte” nos quais os fascistas descartavam os patriotas.

Da mesma forma, lembra Stella Calloni, pairam fortes suspeitas sobre a participação da “Condor” nas “catástrofes aéreas” que custaram a vida, em 1981, do presidente do Equador Jaime Roldós – que se opunha às petroleiras estadunidenses – e do líder da revolução panamenha Omar Torrijos, que garantiu a retomada do Canal.

Manipulação midiática

O papel dos grandes conglomerados midiáticos na derrocada das democracias da região, via fabricação da “opinião pública” para justificar “intervenções”, é bem lembrado ao longo da obra.

“A operação contra o Chile tem sido básica para analisar a importância da manipulação dos meios de comunicação para fins de desestabilização e guerra”, descreve Stela.

Nesse sentido, a escritora cita o sociólogo estadunidense Fred Landis, que analisou o papel da CIA sobre a mídia contra Allende, apontando a escolha pelo Comitê de Inteligência do Senado dos EUA, já em 1974 – isto é, um ano após o golpe no Chile –, para um estudo em que, “pela primeira vez, um governo estadunidense dava caráter oficial a um informe sobre atividades secretas da Agência Central de Inteligência dos EUA”.

Diante da sequência de crimes, Perón lembrava que “cada vacilação, cada dia perdido, cada passo atrás na luta contra a penetração imperialista” representava “um êxito para aqueles que descaradamente seguem explorando nossa riqueza, enriquecendo-se até com o nosso sangue e nossa grandeza espiritual”.

Quanto a cifras exatas do genocídio, Stela responde que, “ainda que resulte doloroso fazer uma soma nessas circunstâncias, podemos chegar à conclusão que mais de 400 mil latino-americanos foram vítimas de uma política de Estado terrorista, cuja base foi desenhada em Washington”.