
ISIS, ou IS em formação. Eles possuem o hábito de divulgar as atrocidades que cometem para fazer propaganda e espalhar o medo. Telegraph/Reprodução
Por Rennan Martins
E eis que, pouco mais de dois anos após encerrar formalmente a última intervenção no Iraque, os EUA se lançam a mais uma de suas empreitadas sangrentas, dessa vez contra os fundamentalistas sunitas do ISIS (Islamic State of Iraq and Syria {ou Levante}- Estado Islâmico do Iraque e da Síria), ou simplesmente IS. O grupo consolidou seu domínio em um terço do território sírio, e um quarto do iraquiano nos últimos meses, sem encontrar grande resistência. Possuem sob controle diversos poços de petróleo – usados para o financiamento da Jihad – e ainda a maior hidrelétrica do Iraque, que fornece água e eletricidade para uma vasta porção do país.

Mapa que mostra a área sob controle do ISIS, uma grande região do Iraque e da Síria. The Economist/Reprodução
As ofensivas iniciaram na sexta-feira e supostamente são direcionadas a infraestrutura de guerra dos militantes do IS no sentido de deter avanços sobre áreas estratégicas e defender minorias religiosas intoleradas pelos jihadistas. Obama sinalizou que não pretende retomar missões por terra, mas que esta operação é de “longo prazo”, o que levanta dúvidas sobre as reais motivações de Washington.
A BBC informa que no sábado (9) os militares alegaram ter destruído tanques e veículos blindados por meio de bombardeios com caças e drones, e que estes ataques visavam libertar a minoria religiosa Yazidi, a qual estava encurralada nas montanhas próximas a cidade de Sinjar, sem água ou comida.
Considerando o quão complexas são as questões étnicas que envolvem o Oriente Médio e que o jogo de interesses geopolíticos norte-americanos passa ao largo do discurso dos direitos humanos e da democracia, resolvi conversar com o sociólogo e especialista em relações internacionais, Marcelo Zero. Nesta pequena entrevista ele nos esclarece – traçando também um panorama maior – que os aliados dos EUA no Oriente Médio, como por exemplo a Arábia Saudita, financiaram largamente o IS no objetivo de derrubar Assad na Síria, o que indica que estão intervindo agora por terem perdido o controle daqueles que antes serviam a seus propósitos.
Confira:
O que é o ISIS? Que políticas este movimento pretende implantar no Oriente Médio?
O ISIS (Islamic State of Iraq and Syria {ou Levante}- Estado Islâmico do Iraque e da Síria) é uma organização que nasceu, declaradamente, em abril de 2013, na Síria. Esse grupo emergiu como uma dissidência da Al-Qaeda iraquiana e síria. É liderado por Abu Bakr al-Baghdadi, um iraquiano sunita de aproximadamente 40 anos, nascido em Samarra, norte de Bagdá.
Logo após a invasão dos EUA ao Iraque, em 2003, Baghdadi se juntou aos jihadistas que passaram a combater a invasão e, posteriormente, o governo xiita do primeiro-ministro Al-Maliki, lá colocado pelos EUA.
Ao princípio, Baghdadi e seu grupo permaneceram fiéis à Al-Qaeda. Mas, ao longo da guerra civil na Síria, na qual ele se envolveu intensamente, suas habilidades táticas e militares o fizeram destacar-se. Tais habilidades tornaram a sua liderança mais atraente para os jovens jihadistas que a liderança tradicional da Al-Qaeda iraquiana de Ayman al-Zawahiri, um teólogo islâmico que não tem habilidades militares semelhantes.
Em março de 2013, ele conseguiu tomar a capital provincial de Raqqa, uma importante cidade síria e a primeira capital de província que caiu nas mãos dos rebeldes sírios. Esse notável êxito militar o catapultou como uma grande referência entre os jihadistas. A partir daí, passou a fazer seu voo solo, independente da Al-Qaeda.
A agenda do Estado Islâmico é, como o próprio nome indica, a criação de um estado islâmico no Levante, regido por uma sharia fundamentalista estrita.
Seu objetivo é radical e seus métodos são drásticos. São fundamentalistas sunitas que rejeitam xiitas, curdos, cristãos, yazidis, turcomenos e quaisquer outros grupos religiosos e étnicos que existem no Iraque e na Síria. Em suas regiões ocupadas, exigem a conversão ao sunismo e às suas leis, sob pena de morte. Também não se acanham em executar sumariamente aqueles que opõem alguma resistência ao seu avanço. Gostam de exibir essas execuções na internet, como forma de difundir terror e pânico.
E quanto à guerra civil na Síria. O ISIS está envolvido?
Sim, esteve e está. O ISIS, agora chamado simplesmente de Estado Islâmico, nasceu e se fortaleceu na guerra civil da Síria. Eles, assim como outros grupos de jihadistas, receberam armas e dinheiro de países aliados dos EUA na região, como Qatar, Arábia Saudita e Kuweit. Ademais, em seus avanços na Síria eles capturaram bancos e poços de petróleo no leste do país. Estima-se que, antes de iniciar a sua campanha no centro do Iraque, o Estado Islâmico já tinha ao redor de U$ 900 milhões. Entretanto, depois de capturar Fallujah, Ramadi e, principalmente, Mosul, segunda cidade do Iraque, o Estado Islâmico teria hoje, segundo algumas estimativas, cerca de US$ 2 bilhões para financiar suas atividades. A maior parte desses recursos vem de poços de petróleo por eles dominados.
É possível afirmar que o financiamento dos EUA aos insurgentes na Síria também auxiliou o ISIS?
Apesar de não haver evidências de um envolvimento direto significativo dos EUA no financiamento e apoio aos jihadistas que combatem Al-Assad, é evidente que os países aliados dos EUA que comprovadamente financiam a guerra civil na Síria o fizeram e fazem com a concordância e o apoio dos EUA, que, até pouco tempo, estavam muito empenhados em derrubar o governo sírio alauíta.
Quem atualmente está a frente do governo do Iraque? Como podemos caracterizar este governo?
O Iraque tem hoje o governo do primeiro–ministro Al-Maliki. Ele chegou ao poder em 2006, numa manobra patrocinada pelos EUA. Após as eleições parlamentares de dezembro de 2005, ganhas pela Aliança do Iraque Unido, foi escolhido primeiro-ministro Ibrahim Al-Jaafari, uma grande liderança xiita. Contudo, os EUA consideraram Al-Jaafari muito próximo à Teerã e acabaram forçando, em abril de 2006, a escolha de Al-Maliki, após uma investigação da CIA que teria revelado que ele era suficientemente independente do Irã.
No entanto, Al-Maliki sempre despertou as antipatias de curdos e sunitas e nunca foi capaz de unir o Iraque. Sua fama de corrupto não ajudou.
Os curdos do norte do Iraque acabaram constituindo uma região independente. As tribos sunitas do centro do Iraque também não se submeteram ao domínio de Al-Maliki. Aos poucos, os sunitas que aceitaram participar do governo do Iraque foram se afastando de Al-Maliki, acusando-o de favorecer os xiitas. Além disso, Al-Maliki nunca conseguiu ter uma relação muito boa com Moqtada al-Sadr’s, uma liderança xiita chave do sul do país, chefe da Mahdi Army, um forte grupo de milícias xiitas armadas.
Assim, quando o Estado Islâmico começou a avançar pelo Iraque, os sunitas, inclusive membros de polícias e do exército, acabaram não se opondo. Muitos até aderiram ao jihadistas.
Na realidade, o avanço do Estado Islâmico à Bagdá foi detido fundamentalmente pelas milícias xiitas da Mehdi Army, e não pelo exército regular iraquiano.
Agora, o Estado Islâmico avança sobre os curdos do norte do Iraque e persegue outras minorias como a dos yazidis, grupo que tem uma religião muito própria, mistura de islamismo com zoroastrismo. Turquia e EUA já estão bombardeando essa região, procurando deter os jihadistas.
Porque os EUA pretendem manter o atual governo iraquiano? Que interesses possuem?
Na realidade, os EUA vêm pressionando Al-Maliki a sair. Ele não serve mais aos propósitos dos EUA no país e na região. Uma opção poderia ser Moqtada al-Sadr’s, que tem o apoio do Irã. Ironicamente, o Irã virou um aliado importante para que os EUA mantenham algum controle sobre o Iraque.
O Iraque, riquíssimo em petróleo (tem a terceira reserva mundial de hidrocarbonetos), é, obviamente, um país-chave do grande Oriente Médio. Os EUA precisam controlá-lo, caso contrário não terão mais influência no Levante, que ficará à mercê dos jihadistas sunitas, de um lado, e do Irã, de outro.
Porque Washington intervém em alguns países dizendo ser eles ditaduras, como por exemplo a Síria, enquanto apoiam outros regimes autoritários como o da Arábia Saudita?
Tais intervenções não têm nenhuma relação com os regimes políticos dos países ou com questões relativas a direitos humanos. Isso serve apenas como justificativa. Os EUA apoiam qualquer regime que os favoreça e combatem quaisquer regimes refratários aos seus interesses. Na América Latina, por exemplo, não se acanharam em derrubar regimes democráticos e instituir ditaduras que os favoreciam. No Oriente Médio, combatem algumas ditaduras, como sem dúvida era a de Saddam Hussein, a quem armaram quando queriam que ele combatesse o Irã, mas não se envergonham em apoiar regimes medievais como o da Arábia Saudita, o dos Emirados Árabes ou o do Kuwait, entre vários outros.
É tudo realpolitik. A Pax Americana prescinde de democracia.




