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Harvey: A violência nas ruas e o fim do capital

Por David Harvey, via Blog da Boitempo

[9 de junho de 2014, foto de Mídia NINJA]

O artigo a seguir é um trecho editado do mais recente livro de David Harvey, 17 contradições e o fim do capitalismo, em que o geógrafo britânico identifica e disseca didaticamente todas as contradições do capital segundo a análise feita por Marx – para ele, seriam exatamente dezessete. Neste trecho, que a Boitempo antecipa com exclusividade em seu Blog, Harvey procura tecer os fios de um novo humanismo revolucionário, entre a contraditória proliferação de ONGs e as explosões violentas nas ruas, no Brasil e no mundo.

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Em poucas palavras, o problema com a tradição humanista é que ela não internaliza uma boa compreensão de suas próprias e inescapáveis contradições internas – algo mais claramente evidenciado no caso da contradição entre liberdade e dominação. O resultado é o que Frantz Fanon caracterizou como “humanitarismo insípido”. Há evidências suficientes disso em seu revival recente. A tradição burguesa e liberal de humanismo secular acaba formando uma base ética piegas para uma moralização ineficaz sobre o triste estado do mundo e para a construção de campanhas, igualmente ineficazes, contra os males da pobreza crônica e da degradação ambiental.

É provavelmente por essa razão que o filósofo francês Louis Althusser lançou sua ferrenha e influente campanha na década de 1960 para extirpar do marxismo todo o falatório sobre socialismo humanista e alienação. O humanismo do jovem Marx, conforme expresso nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, insistia Althusser, estaria separado do Marx científico d’O capital por uma “ruptura epistemológica” – algo que estaríamos ignorando a prejuízo próprio. O humanismo marxista, ele escrevia, é pura ideologia, teoricamente vazio e politicamente enganoso – se não mesmo perigoso. A devoção de um dedicado marxista como Antonio Gramsci ao “humanismo absoluto da história humana” era, na visão de Althusser, completamente deslocada.

O enorme aumento e a natureza das atividades compactualizantes das ONGs humanistas ao longo das últimas décadas parece sustentar as críticas de Althusser. O crescimento do complexo “caridoso-industrial” reflete principalmente a necessidade de aumentar a “lavagem de consciência” para uma oligarquia mundial que vem dobrando sua riqueza e poder de anos em anos em meio à estagnação econômica. Seu trabalho tem feito muito pouco ou quase nada para lidar com a degradação e despossessão humana, ou com a degradação ambiental que se alastra. Isto se dá, estruturalmente, porque as organizações anti-pobreza precisam operar sem jamais intervir na continuada acumulação de riqueza, de onde tiram seu próprio sustento. Se todos que trabalhassem em uma organização anti-pobreza passassem, da noite para o dia, a promover políticas anti-riqueza, logo nos veríamos vivendo em um mundo bem diferente. Pouquíssimos doadores caridosos – nem mesmo Peter Buffett, eu suspeito – iriam financiar uma coisa dessas. E as ONGs, que agora estão no centro do problema, não iriam de todo modo querer isso (apesar de haver muitos indivíduos no interior do mundo das ONGs que estariam dispostos a tal, mas que simplesmente não podem).

Fanon, é claro, choca muitos humanistas liberais com seu endosso de uma violência necessária e sua rejeição da via conciliatória. Como, ele se pergunta, a não-violência é possível numa situação estruturada pela violência sistemática exercida pelos colonizadores? Que sentido tem uma população faminta declarar greve de fome? Por que, como Herbert Marcuse se perguntava, deveríamos ser persuadidos pelas virtudes de tolerância para com o intolerável? Em um mundo dividido, onde o poder colonial define os colonizados como subumanos e malvados por natureza, a conciliação é impossível.

Não levanto a questão da violência aqui, tampouco o fez o próprio Fanon, porque sou ou ele era favorável a ela. Ele a sublinhou porque a lógica das situações humanas tão frequentemente se deteriora a ponto de não restar nenhuma outra opção. Até Ghandi reconheceu isso.

Mas a ordem social do capital é essencialmente muito diferente de suas manifestações coloniais? Aquela ordem certamente buscou se distanciar, em casa, do cálculo cruel da violência colonial (algo como um mal necessário a ser aplicado sobre os outros, incivilizados, ‘de lá’ para seu próprio bem). Ela teve de disfarçar, em casa, a inumanidade descarada que demonstrava no exterior. ‘Do lado de lá’ as coisas poderiam ser deslocada para fora de nosso campo de visão e de audição. Só agora, por exemplo, a violência cruel da supressão britânica do movimento Mau Mau no Quênia na década de 1960 está sendo completamente reconhecida.

Quando o capital passa perto de tal inumanidade em casa ele tipicamente elicia uma resposta semelhante àquela dos colonizados. Na medida em que ele abraçou a violência racial em casa, como o fez nos Estados Unidos, produziu movimentos como os Panteras Negras e a Nação de Islã com seus lideres como Malcom X e, em seus últimos dias, Martin Luther King, que viu a ligação entre raça e classe e sofreu as consequências decorrentes. Mas o capital aprendeu uma lição. O quanto mais raça e classe se entrelaçam, mais rápido o pavio revolucionário queima.

Mas o que Marx deixa tão claro em O capital é a violência diária constituída na dominação do capital sobre o trabalho no mercado e no ato de produção, bem como no terreno da vida diária. Quão fácil não é pegar descrições das condições de trabalho contemporâneas, por exemplo, nas fábricas de eletrônicos de Shenzesn, nas fábricas de roupas em Bangladesh ou as confecções clandestinas de Los Angeles, e encaixá-las, sem prejuízo, no clássico capítulo de Marx sobre a jornada de trabalho n’O capital? Quão surpreendentemente fácil não é pegar as condições de vida das classes trabalhadoras, dos marginalizados e desempregados em Lisboa, São Paulo e Jacarta, e as justaporem à clássica descrição de Engels em 1844 em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra?

O privilégio e o poder oligárquicos da classe capitalista estão levando o mundo em uma direção semelhante em quase toda a parte. O poder político – sustentado por uma vigilância, um policiamento e uma violência militarizada intensificantes – está sendo usado para atacar o bem-estar de populações inteiras tidas como dispensáveis. Diariamente testemunhamos a desumanização sistemática de povos descartáveis. Implacável, o poder oligárquico está agora sendo exercido por uma democracia totalitária destinada a interromper, fragmentar e suprimir qualquer movimento político coerente organizado contra a riqueza (como o occupy, por exemplo). A arrogância e o desprezo com que os afluentes agora veem os menos abastados – mesmo quando (particularmente quando) em disputa uns com os outros por trás de portas fechadas para mostrar quem pode ser o mais caridoso de todos – são fatos notáveis de nossa atual condição.

A “lacuna de empatia” entre a oligarquia e o resto é imensa, e não para de crescer. Os oligarcas confundem renda superior com valor humano superior e consideram seu sucesso econômico como evidência de seu conhecimento superior do mundo (ao invés de produto de seu controle superior sobre as artimanhas da contabilidade e sobre determinadas ferramentas legais). Eles não sabem ouvir o sofrimento do mundo porque não podem e não vão deliberadamente confrontar seu papel na construção dessa situação. Eles não vêem e não podem ver suas próprias contradições. Os bilionários irmãos Koch doam caridosamente a uma universidade como a MIT ao ponto de construírem uma linda creche para o corpo docente merecedor de lá enquanto simultaneamente esbanjando incontáveis milhões de dólares em apoio financeiro a um movimento político (liderado pela facção do Tea Party) no congresso estadunidense que corta vale-alimentação e nega bem-estar, suplementos nutricionais e creches para milhões vivendo na ou perto da miséria absoluta.

É num clima político como este que as erupções violentas e imprevisíveis que estão ocorrendo por todo o mundo episodicamente (da Turquia e do Egito ao Brasil e à Suécia só em 2013) parecem mais e mais como tremores prévios de um terremoto vindouro que fará das lutas revolucionárias pós-coloniais da década de 1960 parecerem brincadeira de criança. Se há um fim do capital, então isto é certamente de onde ele virá e suas consequências imediatas dificilmente se provarão felizes para qualquer um. Isso é o que Fanon tão claramente nos ensina.

A única esperança é que a massa da humanidade verá o perigo antes que a podridão vá longe demais e o dano humano e ambiental se torne grande demais para consertar. Diante do que o Papa Francisco com razão chama de “globalização da indiferença”, é imperativo que as massas globais, como Fanon bem disse, “resolvam despertar, sacudir o cérebro e cessar de tomar parte no jogo irresponsável da bela adormecida no bosque.” (Os condenados da terra, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968, p.85). Se a bela adormecida despertar a tempo, então talvez possamos esperar um final mais com cara de conto de fadas. O “humanismo absoluto da história humana”, escreveu Gramsci, “não visa a resolução pacifica das contradições existentes na história e na sociedade mas, ao contrário, é a própria teoria dessas contradições”. A esperança está latente nelas, disse Bertolt Brecht. Existem suficientes – dezessete – cativantes contradições no interior no domínio do capital para semear o solo da esperança.

* Este artigo é um trecho editado do livro 17 contradições e o fim do capitalismo (Boitempo, no prelo). A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

Porque a grande mídia parou de falar sobre o voo MH17, abatido na Ucrânia?

Por Niles Williamson, via Resistir

O silêncio ensurdecedor da grande mídia e do governo dos EUA acerca da investigação do abate ao voo MH17 da Malaysian Airlines, há um mês, dá sinais de encobrimento.

Nas horas e dias que se seguiram ao crash, sem uma única sombra de evidência, responsáveis dos EUA alegaram que o jacto de passageiros fora derrubado por um míssil terra-ar SA-22 disparado do território mantido por separatistas pró russo no Leste da Ucrânia. Eles lançaram uma campanha política a fim de obter duras sanções económicas contra a Rússia e fortalecer a posição militar da NATO na Europa do Leste.

Capa da ‘Der Spiegel’, 28/Julho/14. Apanhando a pista, os cães de ataque da CIA nos media estado-unidenses e europeus acusaram sem rodeios o presidente russo Vladimir Putin pelo crash. A capa da edição de 28 de Julho da revista alemã Der Spiegel mostrava as imagens das vítimas do MH17 circundando grossas letras vermelhas com o texto “Stoppt Putin Jetzt!” (Travem Putin agora!). Um editorial de 26 de Julho de The Economist declarava Putin como autor da destruição do MH17, enquanto a capa da revista morbidamente sobrepunha a cara de Putin a uma teia de aranha, denunciando a “teia de mentiras” de Putin.

Alguém que comparasse a demonização de Putin pelos media com o tratamento que deram a Saddam Hussein ou Muammar Gadafi tem de concluir que Washington estava a lançar uma campanha pela mudança de regime na Rússia tal como aquelas que executaram na Líbia e no Iraque – desta vez, loucamente, empurrando os Estados Unidos rumo à guerra com uma potência nuclear armada, a Rússia.

Contudo, depois de terem transformado o crash num casus belli contra a Rússia, os media dos EUA subitamente deixaram completamente de falar no assunto. O New York Times não considerou apropriado imprimir nem uma palavra sobre o crash do MH17 desde 7 de Agosto.

Não há qualquer explicação inocente para o súbito desaparecimento do MH17 dos media e da atenção política. A caixa negra do avião esteve durante semanas na Grã-Bretanha para exames e os satélites e radares militares estado-unidenses e russos estiveram a esquadrinhar intensamente o Leste da Ucrânia no momento do crash. A afirmação de que Washington não tem conhecimento pormenorizado das circunstâncias do crash e das várias forças envolvidas não é crível.

Se a evidência que está nas mãos de Washington incriminasse a Rússia e as forças apoiadas pela Rússia, ela teria sido divulgada para alimentar o furor dos media contra Putin. Se não foi divulgada, isto é porque a evidência aponta para o envolvimento do regime ucraniano de Kiev e dos seus apoiantes em Washington e nas capitais europeias.

Desde o princípio, a administração Obama nunca apresentou evidência para apoiar as acusações incendiárias de que Putin fora responsável pelo crash do MH17. No seu comunicado à imprensa de 18 de Julho, no dia seguinte ao crash, o presidente Obama declarou que ainda era “demasiado cedo para sermos capazes de imaginar que intenções tiveram aqueles que podem ter lançado este míssil superfície-ar”.

Apesar de cinicamente explorar o crash para pressionar e ameaçar a Rússia, Obama advertia que “provavelmente haverá desinformação” na cobertura do crash. Num reconhecimento indirecto de que não tinha provas para apoiar suas afirmações, ele disse: “Em termos de identificação específica de que indivíduos ou grupo de indivíduos ou pessoal ordenaram o ataque, como aquilo aconteceu, são coisas que penso estarem ainda sujeitas a informação adicional que estamos a reunir”.

Neste evento, a desinformação sobre o crash do MH18 veio da própria administração Obama. O secretário de Estado John Kerry prosseguiu em 20 de Julho num ataque nos media, argumentando que os separatistas pró russos e o governo russo eram responsáveis pelo derrube.

A única evidência que ele apresentou foram uns poucos dúbios “registos nos media sociais” postados na Internet. Ele apresentou registos áudio não autenticados de separatistas a falaram de um crash de avião, áudio editado e divulgado pela agência de inteligência SBU da Ucrânia, a qual trabalha estreitamente com a CIA; vídeo clips do YouTub a mostrar um camião a transportar equipamento militar não identificado ao longo de uma estrada; e uma desmentida declaração em media social a afirmar que a responsabilidade do derrube do avião atribuía-se ao líder separatista Igor Strelkov.

Muito rapidamente, a narrativa do governo dos EUA sobre o MH17 começou a entrar em colapso. Num comunicado de imprensa de 21 de Julho, a porta-voz do Departamento de Estado e antiga analista da CIA para o Médio Oriente, Marie Harf, declarou que as conclusões da administração Obama quanto ao derrube do avião foram “baseadas em informação aberta a qual é basicamente de senso comum”. Desafiada por repórteres a proporcionar evidência, ela admitiu que não podia: “Sei que é frustrante. Acreditem-me, tentámos obter tanto quanto era possível. E por alguma razão, por vezes não podemos”.

Depois de um mês, durante o qual Washington fracassou em apresentar evidência para apoiar suas acusações contra Putin, está claro que a ofensiva política dos governos NATO e a histeria dos media contra Putin eram baseadas em mentiras.

Se separatistas pró russos dispararam um míssil solo-ar, como afirma o governo dos EUA, a Força Aérea teria imagens na sua posse confirmando isso sem sombra de dúvida. O Defense Support Program da US Air Force utiliza satélites com sensores infra-vermelhos para detectar lançamentos de mísseis em qualquer lugar sobre o planeta e os postos de radar estado-unidenses na Europa teriam rastreado o míssil quando ele atravessava o céu. Estes dados de satélite e radar não foram divulgados, porque seja o que for que mostrem não se ajusta à narrativa cozinhada pelo governo dos EUA e os media.

O que aflorou, ao invés, foi uma série de evidências a apontarem para o papel do regime de Kiev apoiado pelos EUA no derrube do MH17. No dia seguinte ao de Kerry ter feito suas observações, os militares russos apresentaram dados de radar e de satélite indicando que um caça a jacto SU-25 ucraniano estava na vizinhança imediata e ascendia em direcção ao MH17 quando ele foi derrubado. A afirmação não foi corrigido e muito menos refutada pelo governo americano.

O denunciante da NSA William Binney e outros agentes aposentados da inteligência americana emitiram uma declaração no fim de Julho pondo em causa os dados dos media sociais apresentados por Kerry e pedindo a publicação de imagens de satélite do lançamento do míssil. Eles acrescentaram: “Estamos a ouvir indirectamente de alguns dos nossos antigos colegas que o que o secretário Kerry está a apregoar não se enquadra com a inteligência real”.

Em 9 de Agosto, o New Straits Times, da Malásia, publicou um artigo acusando o regime de Kiev pelo derrube do MH17. Declarava que a evidência do sítio do crash indicava que o avião fora derrubado por um caça ucraniano com um míssil seguido por fogo pesado de metralhadora.

Se bem que seja demasiado cedo para dizer conclusivamente como o MH17 foi derrubado, a preponderâncias das evidências aponta directamente para o regime ucraniano e, para além dele, o governo americano e as potências europeias. Eles criaram as condições para a destruição do MH17, apoiando o golpe dirigido por fascistas em Kiev no mês de Fevereiro que levou ao poder o actual regime pró ocidental. Os media ocidentais portanto apoiaram a guerra do regime de Kiev no Leste da Ucrânia para eliminar a oposição ao putsh, transformando a região na zona de guerra em que foi abatido o MH17.

Após o assassínio das 298 pessoas a bordo do MH17, no qual desempenharam um papel importante ainda que por explicar, os governos e as agências de inteligência ocidentais aproveitaram a tragédia numa manobra precipitada e sinistra para escalar ameaças de guerra contra o regime Putin. O silêncio indica consentimento e o silêncio ensurdecedor dos media ocidentais sobre a questão do envolvimento de Kiev no crash do MH17 atesta a criminalização não só da política externa do establishment como também dos seus lacaios dos media e de toda a classe dominante.

A aparente contradição do setor financeiro

Por Rennan Martins | Brasília, 20/08/2014

Ao observarmos a imprensa econômica tradicional – porta-voz do setor financeiro e suas necessidades – notamos que no Brasil e em outros países da América Latina ela exerce uma forte pressão no sentido da ortodoxia, da austeridade. Enquanto na Europa, o que se assiste é esta mesma imprensa clamar por intervenção estatal, por políticas expansionistas.

O Valor Econômico do dia 13/08 publicou reportagem assinada por Ribamar Oliveira, intitulada Agosto e setembro serão cruciais para o superavit. A palavra “crucial” já indica o quanto valorizam esta questão, mas outros sinais também são dados. O artigo menciona que o caixa acumulado no primeiro semestre foi baixo, e que neste o esforço tem sido maior, explicando ainda que o governo precisa de “R$ 65,4 bilhões para alcançar a meta, ou R$ 10,9 bilhões de superavit primário por mês de julho a dezembro.” A meta de superavit foi definida em 1,9% do PIB, ou 80,8 bilhões de reais. Há espaço também para uma chantagem, quando lemos que “A eventual frustração da meta e sua repercussão junto aos agentes do mercado poderá resvalar no debate da eleição presidencial.”

O Financial Times, por sua vez, publicou artigo de título Europe now needs full-blown QE no último dia 14. Este foi traduzido pelo Valor no dia seguinte. Podemos notar, novamente, o grau de relevância da questão já no título, pois a necessidade dos Quantitative Easing – ou afrouxamento quantitativo – é tida como imediata, imperativa. O texto inicia taxando de não funcionais as políticas liberalizantes/austeras tomadas após a crise de 2008, aponta queda de 0,2% na economia alemã no segundo trimestre e reclama que os rendimentos dos títulos de dez anos do país foram abaixo de 1% pela primeira vez na história.

Passa pela França nos informando que a redução do deficit público não alcançará sua meta de 3,8%, nos explicando que há três trimestres a economia por lá não dá “sinais vitais”, chegando a Itália pra mencionar que a recessão já é realidade. A narrativa segue, julgando os programas liberalizantes “politicamente dolorosos”, para em seguida profetizar que o Banco Central Europeu “será obrigado, a certa altura, a adotar o afrouxamento quantitativo para salvar a economia real.”

Considerando que, segundo o portal Trading Economics, a razão dívida/PIB do Brasil é de 56,8%, a da Alemanha de 78,4%, a da França 91,8% e a da Itália de 132,6%, porque por aqui a responsabilidade fiscal é tão valorizada, enquanto na Europa – muito mais endividada – o setor financeiro quer mais gastos estatais?

Mais ainda, porque a liberalização – tão exaltada pela grande mídia brasileira – e praticada pela União Europeia não criou um cenário de investimentos atraente a iniciativa privada? Porque o empresariado internacional pede agora por injeção de dinheiro público?

A razão que leva os investidores, e consequentemente seus grupos de mídia, a adotar uma postura que aparenta contradição pro Brasil e pra Europa não possui ligação alguma com compromisso público e saúde da economia real. A financeirização da economia – posta em prática após a onda neoliberal que varreu o mundo – é a explicação para este fenômeno.

No Brasil, a Internacional do Capital Financeiro exige o superavit primário com tanta veemência simplesmente porque por aqui conseguem extrair muito bons dividendos comprando títulos da dívida pública de juros altíssimos. Um superavit cada vez maior, portanto, só aumenta seus rendimentos.

Já na Europa – onde os juros são de ínfimos 0,15% – o capital financeiro também não quer investir, quer “afrouxamento quantitativo pleno”. Esta expressão eufemista se traduz no pagamento de dívidas bancárias privadas com dinheiro público.

A resposta para este estranho comportamento é encontrada quando notamos para onde vai o dinheiro do superavit e do afrouxamento quantitativo. Vão para os mesmos bolsos de sempre. O dos banqueiros.

A financeirização da economia habituou a iniciativa privada, a Internacional do Capital Financeiro, a obter altos rendimentos sem correr riscos. Eles não mais pretendem investir em atividades produtivas, geradoras de emprego e renda. Seja aqui ou na Europa, usam de todo o seu lobby corruptor pra se manter as custas do dinheiro público dos Estados subservientes.

Rússia busca alternativas ao petrodólar

Por Heloísa Villela, via Brasil Econômico

Vários autores e analistas já dão como certo o fim do sistema implantado nos anos 70 e que tanto lucro deu até agora aos Estados Unidos

Com mais de 1.000 mortos nas regiões de Donetsk e Lugansk, a Ucrânia marcha em direção ao caos. Nem mesmo um comboio de ajuda humanitária, enviada pela Rússia, tem permissão de Kiev para chegar à zona do conflito. A imprensa ocidental não se cansa de dizer que Putin se prepara para jogar o exército russo na crise fomentada pelos Estados Unidos e pela Europa. Me parece que dessa vez Washington comprou uma briga na qual já tem derrota garantida. Tudo é uma questão de tempo. A briga não é exclusivamente com a Rússia mas Moscou pode dar o empurrão decisivo.

Vários autores e analistas já dão como certo o fim do sistema implantado nos anos 70 e que tanto lucro deu até agora aos Estados Unidos. A hegemonia do dólar tem os dias contados, dizem eles. Resta saber apenas por quanto tempo ele ainda vai se manter como a moeda referência para a maior parte das transações mundiais.

Foi nos anos 70, sob a liderança de Richard Nixon e do estrategista Henry Kissinger, que os Estados Unidos romperam com a equivalência entre dólar e ouro que balizava os valores das moedas mundiais. Encurralados quando a economia sangrava por conta dos gastos com a guerra do Vietnã e o mundo correu para converter dólares em ouro para se garantir, Nixon deu um basta. Cortou a ligação entre metal precioso e verdinhas. Deixou o dólar flutuar. Mas se preveniu. Ele precisava alimentar a demanda por dólares no mundo. Por isso, fechou um acordo com a Arábia Saudita. Em troca de armas e da promessa de defesa eterna, conseguiu que os sauditas passassem a fechar contratos de exportação de petróleo exlusivamente em dólares. Assim, todos os clientes dos sauditas teriam que comprar a moeda americana para adquirir o combustível. Fechado o acordo, em 1974 ele já estava em pleno funcionamento. No ano seguinte, os demais produtores de petróleo aderiram. Nascia o chamado petrodólar.

Mas e a Rússia com isso?

A Rússia de Putin ameaça Washington porque tem feito de tudo para fugir do domínio do dólar na economia mundial. Fechou acordo com a China para aumentar o percentual das trocas comerciais entre os dois países realizadas em rublos ou yuans. Nada de dólar. Fechou com os BRICS a criação de um banco de desenvolvimento que vai livrar os países membros das condições catastróficas impostas pelo FMI toda vez que faz um pacote de ajuda financeira. E as operações não terão como base o dólar e sim algo como o ouro ou a energia. Na contra-ofensiva das sanções impostas a Moscou por conta da Ucrânia, que a União Europeia se viu coagida a seguir, a Rússia respondeu: suspendeu a compra de alimentos dos países que aderiram e já está ampliando o comércio com outros parceiros, como o Brasil, para substituir o que comprava da Europa. Que o digam os produtores brasileiros de carne e de frango.

No fim, as sanções contra a Rússia já estão surtindo efeitos negativos… na Europa. Na quinta-feira da semana passada saiu a notícia: pela primeira vez em um ano, a economia da Alemanha encolheu e isso paralisou a fraca recuperação econômica que a União Europeia vinha experimentando. A Alemanha é a maior parceira comercial da Rússia na UE e é a principal economia do grupo. Se a Alemanha sofre, arrasta com ela toda a Europa. Até onde vai a crença política da Europa na necessidade de isolar a Rússia enquanto a interligação econômica entre eles é cada vez maior e mais vital? Enquanto isso, os Estados Unidos espionam Angela Merkel e acusam a Rússia, sem provas, de estar por trás da queda do voo da Malaysian Airlines na Ucrânia… Me parece que os Europeus estão acumulando uma pilha de motivos para confiar cada vez menos no grande parceiro norte-americano.

Porém, o medo é grande já que os Estados Unidos deram demonstração de força inequívoca contra o último aventureiro que tentou enfrentar abertamente o domínio econômico dos petrodólares. É o que hoje alguns jornalistas e escritores apontam como a verdadeira causa da invasão do Iraque depois dos atentados do 11 de setembro. No livro “Petrodollar Warfare” (poderia ser traduzido como “A Guerra do Petrodólar”), William Clark diz que no dia 24 de setembro de 2000 Saddam Hussein saiu de uma reunião de gabinete e anunciou que ia abandonar o dólar em favor do euro nas exportações de petróleo. De fato, até o ano 2002 ele fez a conversão completa. Em 2003, o país foi invadido, Saddam fugiu, se escondeu em um buraco e acabou enforcado. No dia 5 de junho de 2003 o jornal Financial Times anunciava a volta do Iraque ao mercado internacional de petróleo fechando os contratos, como manda o figurino, em dólares novamente. A conclusão do autor, e de outros analistas, é de que o Iraque serviu de exemplo para quem tentar abandonar a moeda americana. Mas Irã, Síria, Venezuela e Coreia do Norte fizeram o mesmo. E são os grandes inimigos de Washington.

Energia e dólares estão na base de grandes disputas e conflitos. A maior reserva mundial de gás natural foi descoberta em uma área que liga Qatar e Irã. O governo iraniano fechou acordo com Iraque e Síria para construir um gasoduto e levar o combustível à Europa. O gasoduto da amizade, para uns, ou o gasoduto islâmico, para outros. Submetido a um embargo econômico desde 2002, o Irã precisa de uma saída para vender o gás que até recentemente trocava por ouro como forma de fugir das sanções. Mas Washington eliminou essa saída também barrando as trocas com metais preciosos.

A saída do Irã é se juntar aos vizinhos e para isso tem o apoio da Rússia e da China. Dois países que têm todo o interesse de criar alternativas aos domínio econômico dos Estados Unidos. Putin, me parece, está bem mais investido nesta guerra do que no conflito armado na Ucrânia.

Bombas de Ódio

Por Marcelo Zero, via facebook

Virou tradição. Mal se acerca o período eleitoral e surgem as bolinhas de papel que se transmutam em tijolos autoritários, quando não em bombas terroristas.

Em 2010, a sutil aterrissagem de bolinha em insigne calva lustrosa transmutou-se em gravíssimo atentado político, com direito a tomografia e amplíssimo espaço na mídia. Faltou pouco para transformarem Rio de Janeiro em Sarajevo e José Serra no arquiduque Francisco Fernando (Franz Ferdinand). Felizmente, a bolinha não serviu de estopim para a Primeira Guerra Civil brasileira.

Em 2014, já temos várias bolinhas.

A de Pasadena quer transformar um bom negócio, que virou mau negócio com a crise, e que agora voltou a ser um bom negócio, num negócio escabroso. É uma bolinha com ares de grande importância, que tem até a sua própria CPI. Rende dividendos para quem quer botar a mão no Pré-Sal, mas atinge a Petrobras, maior empresa do país. A bolinha pouco se importa, pois não é papel dela defender o Brasil.

Temos também a bolinha da “troca de figurinhas” entre a Petrobras e a assessoria do PT no Senado. Essa é uma espécie de bolinha falsamente ingênua: finge desconhecer o que todo o mundo sabe. Que a situação e a oposição, numa CPI, trocam informações e combinam estratégias com seus depoentes.

É também uma bolinha muito mal informada. Um mês antes dela aparecer, o Painel da Folha publicou a informação de que o governo de São Paulo vinha treinando parlamentares para defendê-lo na CPI do “trensalão”. Todo o mundo achou banal. Mas depois a bolinha se escandalizou com a mesma banalidade, no caso da CPI da Petrobras, e gritou “fraude”. Fraude mesmo é essa bolinha muito seletiva.

Em tempos recentes, surgiu a bolinha da Wikipédia, uma bastante ridícula. E olha que o páreo é duro! Querem transformar a “rede de informática do Planalto”, uma rede acessada por milhares de computadores, tablets e smartphones, inclusive de muitos visitantes, em “Planalto” e “Dilma”. Querem transmutar um ato isolado em “política” contra a “liberdade de imprensa”.

Ora, seria necessário um grau extremo de parvoíce para se fazer uma política desse tipo com base em alguns perfis da Wikipédia, uma bagunça informativa, elaborada com fontes anônimas, que ninguém leva muito a sério. No caso em questão, as informações críticas, gotas num generoso oceano de elogios, passaram despercebidas por mais de um ano. Mas a bolinha, muito oportuna, decolou, deixando para trás e para o olvido mal explicados aeroportos.

Nos últimos dias, apareceu, no chorume digital em que se transformaram as redes sociais, a bolinha do atentado contra o candidato Eduardo Campos. Mal foi anunciada a trágica morte do candidato, e surgiram especulações ridículas e piadas de extremo mau gosto sobre o acidente. Uma lei que surgiu da CPI do Apagão Aéreo, em 2007, elaborada pela Aeronáutica com base na Convenção de Chicago sobre Aviação Civil, foi apresentada como evidência do atentado, por prever a proteção das fontes de informação ao longo da investigação de acidentes aéreos. Essa bolinha patética sequer se deu o trabalho de ler a lei sancionada em maio. Se tivesse, teria visto que o art.88-D da lei prevê que, em caso de indício de delito, os investigadores da Aeronáutica são obrigados de comunicar o fato à autoridade policial competente. Além disso, os relatórios da investigação, bastante detalhados, são públicos. Só um forte ódio e uma débil cabeça podem explicar especulações desse tipo.

Entretanto, se as bolinhas são, em si, pequenas e ridículas, o dano que elas causam é substancial. E não é apenas ao governo ou ao PT. O dano maior, imensurável, é o dano à democracia.

Pois elas distorcem a informação e contaminam o clima político do país. Elas são verdadeiras bombas de ódio.

Na falta de propostas, para além das prometidas “medidas impopulares”, só resta à oposição e a sua mídia atacar o governo e sua base com fantasmas morais, evocados por um neoudenismo tardio. Na ausência de agenda estratégica, apela-se para a agenda mesquinha e baixa das delegacias de polícia. Na falta de fatos a seu favor, cria-se o factoide contra o governo. Na falta de esperança, busca-se instilar o ódio contra o governo. Na ausência de grandes ideias, apela-se para a pequenez das banalidades. Na falta de informação veraz, equilibrada e ampla, lançam-se as bolinhas de papel.

Afinal, o importante é derrotar o “lulopetismo”, seja de que forma for, seja com que candidato(a) for.

Democracias precisam de imprensa atuante e crítica, mas também de imprensa responsável, que cumpra seu dever de bem informar a população. Veículos de informação que não informam e se dedicam a fabricar escândalos com fins eleitoreiros e a incitar o ódio não contribuem para a democracia. Contribuem para a crescente degradação do clima político do Brasil.

Por isso, hoje não há mais debates, há discussões acaloradas entre surdos. Não há mais adversários, há inimigos a serem destruídos. Não há mais tolerância, há um ódio espesso que se infiltra nas redes sociais e se espalha pelas ruas. Não há mais política, há uma guerra insensata que ameaça a governabilidade e o futuro do país. Nessa guerra, não há “terceira via” e “nova política”. A oposição, e seus candidatos, só têm um lado: o lado do antipetismo. A agenda básica é uma só: acabar com o PT e com o “bolivarianismo que tomou conta do Brasil”, como assinalou, de forma sincera e cândida, a nova tábua de salvação da direita brasileira.

No Brasil atual, precisaríamos que a informação fosse respeitada como direito fundamental, cujo proprietário é o cidadão, o qual também tem o direito relacionado de demandar que a informação oferecida pelos jornalistas seja verdadeira, no caso das notícias, e honesta, no caso das opiniões, sem interferências externas, tanto das autoridades públicas quanto do setor privado.

Em vez disso, temos uma espécie de lodo político que impede a circulação do oxigênio da democracia, a informação veraz, ameaçando sufocá-la. Com efeito, esse lodo político criado por veículos de comunicação que apostam no ódio e na desinformação ameaça engolir não apenas os suínos que nele chafurdam, mas a democracia brasileira e a todos nós.

E esse, meus caros, é um mal que dista muito de ser banal. Essas bolinhas são bombas que explodem todos os dias no coração da democracia do Brasil.

Equador “não pedirá permissão” a ninguém para fazer negócios com a Rússia

Via RT

O presidente do Equador, Rafael Correa, assegurou que “não pedirá permissão” a ninguém para vender alimentos a “países amigos”, se referindo ao esforço que a União Europeia vem fazendo no sentido de impedir que países latino-americanos se aproveitem do embargo russo a produtos europeus.

Interpelado numa coletiva de imprensa sobre o eventual mal-estar que poderia gerar a postura do Equador frente a União Europeia, Correa disse não estar ciente de queixas das instituições europeias sobre o tema, pontuando que, caso ocorram, receberam a resposta oportuna. “Até onde sei a América Latina não é parte, ao menos até hoje, da União Europeia”, assinalou.

Essa semana a Financial Times publicou, citando alguém do alto escalão da União Europeia, que a possibilidade da América Latina tomar o lugar da União Europeia no mercado de alimentos da Rússia causa preocupação a Bruxelas, que planeja manter negociações políticas para dissuadir a algum dos países latino-americanos de aumentar suas exportações a Rússia.

O ministro equatoriano do Comércio Exterior, Francisco Rivadeneira, considera que seu país tem uma grande oportunidade de aumentar suas exportações para a Rússia depois que Moscou tomou a “decisão de comprar da América Latina”. Nesse sentido, o funcionário adiantou que quito pode oferecer a Moscou hortaliças, frutas e produtos marinhos, e que a lista específica das possíveis propostas se encontra em estudo.

A Rússia proibiu por um ano a importação de carnes de boi, porco e aves, verduras, hortaliças, frutas, pescado, queijos, leite e produtos lácteos provenientes dos EUA, da União Europeia, Austrália, Canadá e Noruega, em resposta as sanções que estes países lhe impuseram.

Tradução: Rennan Martins

O Estadão e suas mentiras no caso do pagamento com cartões

Por Rennan Martins

Que a grande mídia esqueceu o que quer dizer jornalismo sabemos. Mas, a proximidade das eleições tem tornado a manipulação, as mentiras e distorções ainda mais descaradas. A velha direita está encarniçando.

O caso do projeto de decreto legislativo PDS 31/2013, de autoria do senador Roberto Requião (PMDB-PR), é uma aula de desinformação. A mentira começa já na manchete. Passemos, pois, a análise, comparemos o folhetim partidário publicado pelo Estadão com o Relatório sobre a Indústria de Cartões de Pagamento, produzido pelo Banco Central, em conjunto com a Secretaria de Acompanhamento Econômico, e a Secretaria de Direito Econômico, em 2010.

A manchete do artigo que consta no Estadão assim informa: Senado aprova cobranças mais caras de quem pagar com cartão. Quando prosseguimos a leitura vemos que o primeiro parágrafo já desmente a manchete, o autor – que por sinal não teve coragem de assinar o texto – muda o tom e fala de “preços distintos para pagamentos realizados com dinheiro ou cartão de crédito”.

O que faz o decreto legislativo PDS 31/2013 é permitir que o comerciante desconte o custo embutido da transação financeira com a operadora do cartão no caso da compra ser realizada em dinheiro. Na realidade, esta é uma vantagem tanto para consumidor quanto para lojista, já que aumenta a flexibilidade do preço, das negociações. O que a Resolução 34/1989 do Conselho Nacional de Defesa do Consumidor faz é não permitir a diferenciação dos preços em cartão e em dinheiro, que na prática encarece a mercadoria.

Quando analisamos o documento citado, primeiramente descobrimos que o mercado de cartões brasileiro é extremamente concentrado, com Visa e Mastercard respondendo por mais de 90% dos cartões ativos, o que é definido como um “duopólio”. Isto em si já é um grande problema.

Então, na página 9, encontramos a real razão da histeria das empresas de cartão de crédito, que usam a mídia corporativa como porta-voz: “A principal preocupação da indústria em permitir a diferenciação de preços é que a utilização de cartões de pagamento seja desestimulada”. Ou seja, o que essas empresas não querem é competir, não querem perder a cartelização que a Resolução 34/1989 induz.

A fim de embasar ainda mais sua mentira, o Estadão pediu a opinião da coordenadora da Associação de Consumidores Proteste, Maria Inês Dolci, que declarou que “o cartão de crédito é um meio de pagamento à vista como qualquer outro”. Esta afirmação não se sustenta diante de uma pequena pesquisa.

Na página 7 do mesmo relatório, descobrimos que “Nas transações com cartão de crédito no Brasil, o prazo entre a data da compra e a data do crédito ao estabelecimento, é, em geral, de trinta dias”. O Estadão quer nos enfiar goela abaixo que receber à vista é o mesmo que receber após trinta dias.

O documento do Banco Central aponta ainda que sob a regra atual quem paga à vista pode subsidiar, financiar quem paga por meio do cartão de crédito, explicando que permitir o pagamento diferenciado será vantajoso pois reduzirá “a possibilidade de subsídio cruzado dos consumidores que não utilizam cartão (majoritariamente população de menor renda) para os consumidores que utilizam (majoritariamente população de maior renda)”. Trocando em miúdos, não permitindo preços diferentes abrimos espaço pra transferir dinheiro de pobres para ricos.

A conclusão do relatório é que o mercado dos cartões de pagamento atualmente é ineficiente, que entre outros problemas temos “forte evidência de que a regra do não sobrepreço traz distorções ao mercado e prejuízo ao consumidor”.

Permitir a diferenciação dos preços fará com que as empresas tenham de tornar mais vantajoso pagar com o cartão, o que se refletirá em descontos nas taxas e vantagens para o consumidor. E é justamente isso que as empresas e o patronato não querem. Desejam manter seus privilégios e altos lucros, em detrimento daqueles que pagam a conta, você.