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Carta aos jornalistas da Globo e da Abril

Por J. Carlos de Assis | Via Jornal GGN

Caríssimos,

Vocês perderam a eleição. Protagonizaram a campanha mais sórdida jamais realizada por órgãos de imprensa em toda a história da República, e assim mesmo perderam. Tentaram envenenar a opinião pública brasileira contra uma candidatura, distorceram fatos, inventaram outros, e orquestraram no mesmo diapasão uma opinião seletiva sobre inquéritos policiais em andamento, atropelando todos os protocolos de comportamento ético de uma imprensa que, mesmo não sendo nunca imparcial na opinião, deveria ao menos tentar sê-lo no noticiário.

Entretanto, não escrevo para celebrar a sua derrota. Muitos já o tem feito. Ao contrário, tomo a liberdade de lhes escrever pelo cuidado que tenho com o seu destino. Gosto da alta qualidade material dos produtos que oferecem à sociedade. As novelas da Globo são sem paralelo no mundo. Os casos de ficção e mesmo as reportagens especiais são de categoria internacional. O mesmo se aplica às revistas não ideológicas da Abril. Contudo, tudo isso está sendo colocado em risco pelo jornalismo sórdido que vocês praticam.

Tenho idade para ter visto muitos impérios jornalísticos brasileiros que se destruíram, ou que foram destruídos pela concorrência. O seu pode ser o próximo. Vocês, nessa campanha presidencial, ao escolheram um lado com o sectarismo principista de um Estado Islâmico, foram além da crítica ao governo para atacar as próprias bases do Estado democrático. Vocês foram ao extremo de subverter o processo judicial envolvendo o poder da República que deveria ser o mais respeitado, a Justiça, em maquinações eleitoreiras rasteiras e macabras. Não fosse a internet, depurando o noticiário, e vocês teriam ganho.

Sei que o caminho suicida que escolheram era uma aposta na candidatura que lhes parecia a mais adequada para tirá-los das dificuldades empresariais e afastar o risco de uma regulamentação mais democrática da mídia. No primeiro caso, o fato de ambas as organizações serem os beneficiários das duas maiores contas de publicidade do governo parece não lhes ser satisfatório. Ou querem mais ou tem medo de perder o que tem. No segundo caso, o risco é um marco regulatório que quebre o monopólio de algumas mídias.

Sim, porque os verdadeiros democratas brasileiros não querem muito mais do que aquilo que os norte-americanos têm. Não me consta que a NBC, a ABC ou a CNN sejam proprietárias de jornais e revistas nos Estados Unidos. Por outro lado, não me consta que o New York Times ou o Wall Street Journal sejam donos de televisões e rádios. Quebrar o monopólio jornalístico da Globo no Brasil não seria diferente do que Cristina Kirchner fez com o Clarín na Argentina, e isso, é preciso reconhecer, simplesmente segue o padrão americano e não tem nada a ver com violação da liberdade de imprensa.

Esta é uma questão política da mais alta relevância, e se alguém, de um ponto de vista imparcial, analisa a campanha presidencial que acaba de ser encerrada encontra amplas justificativas para querer a busca de um marco regulatório adequado. Entretanto, isso é também uma questão econômica, tendo em vista a concorrência no mundo da mídia. A articulação de jornal, televisão e rádio traz óbvias vantagens comerciais monopolísticas para seu dono, além de um inequívoco poder político que pode ser manipulado contra concorrentes, mas também contra a democracia.

Trabalhei sete anos no Jornal do Brasil até pouco antes do início de sua decadência. O JB, quando lá entrei no começo dos anos 70, era dono absoluto do mercado de pequenos anúncios. Quando muitos, e esse era o caso, era a melhor fonte de receita do jornal porque o anúncio era pago adiantado na boca do caixa. Pois bem, a certa altura O Globo decidiu entrar pra valer no mercado de pequenos anúncios. Se fosse jornal contra jornal, tudo bem. Mas o Globo lançou todo o peso da televisão para anunciar seus classificados. Aos poucos, liquidou com o negócio do JB, que não tinha televisão para defender-se.

Esse pequeno incidente revela o verdadeiro poder dos monopólios midiáticos. Quando se trata de política, esse poder é multiplicado. Basta lembrar das consultas obrigatórias que os presidentes faziam a Roberto Marinho sobre iniciativas importantes no tempo em que ele estava em pleno vigor físico. Os herdeiros estão longe da habilidade política do pai, e estão entrando num terreno perigoso de oposição sistemática ao governo. Isso acontece sobretudo na Veja e, principalmente, no Jornal da Globo.

Quando William Waack, Carlos Alberto Sardenberg e Arnaldo Jabor extrapolam sua função de apresentadores e comentaristas para assumirem o papel de doutrinadores raivosos contra a política externa ou interna do governo, manipulando descaradamente o noticiário, é, em sua essência, uma violação das regras de concessão pública de televisão e põem em risco uma organização que, fora da política, é líder absoluta da produção audiovisual na América Latina. Acho que interessa a todos os brasileiros que essa liderança seja conservada e ampliada. Espera-se que o jornalismo da Globo e de Veja não ponham tudo a perder, não junto ao governo, mas junto a telespectadores, leitores e anunciantes, sendo varrido da cena pelo noticiário plural da internet.

J. Carlos de Assis – Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.

A velha mídia tem credibilidade?

Por Ricardo de Barros Bonchristiani Ferreira | Via Observatório da Imprensa

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o acesso à internet no Brasil cresceu 143,8% de 2005 a 2011. A proporção de internautas no Brasil chegou a 50,1%, em 2013. Não é pouca coisa num país de dimensões continentais, forte desigualdade social e uma população de mais de 200 milhões de pessoas. Um dos inegáveis efeitos dessa democratização é o acesso a fontes alternativas de notícias. A opinião,que antes era formada, basicamente, a partir do Jornal Nacional e revista Veja (maior audiência e maior circulação do país, respectivamente) tem agora portais, sites, blogs e redes sociais contribuindo para sua análise. Se você é a favor da multiplicidade de discursos, com liberdade de expressão para todos, então essa é uma ótima notícia.

Mas, se você olhar pelo ponto de vista dos jornalões… Não é de hoje que a relevância da mídia pulverizada via web representa uma forte ameaça ao poderio hegemônico dos mais tradicionais jornais, canais de TV e revistas de todo o mundo. Nos últimos anos, eles precisaram montar seus sites, liberar notícias de graça (com comentários), aumentar a participação do leitor e reduzir drasticamente o volume de exemplares impressos (alguns extinguiram de vez a versão impressa). Tudo para tentar manter suas posições no mercado jornalístico. No Brasil, os maiores e principais jornais, revistas e canais de TV, são comandados por apenas seis famílias e uma “igreja”: Abravanel (SBT), Civita (Abril), Frias (Folha), Marinho (Organizações Globo), Mesquita (O Estado de S.Paulo), Saad (Band) e Record (Universal). Esses grupos, bem como seus ancestrais, mantiveram por décadas seguidas o monopólio da formação da opinião pública no Brasil.

O problema deles é que a crescente inserção digital permite que qualquer estudante, empresário, jornalista, padeiro ou faxineiro divulgue informações e fatos que não ganharam destaque nesses veículos, contestando versões e reportagens que seriam encaradas como verdade absoluta. Muitos sites e blogs independentes dessas estruturas já ganharam corpo, com públicos próprios que não vão aceitar mais como 100% da verdade o que aparecer na mídia tradicional, simplesmente porque agora eles têm acesso às outras faces das notícias, o que antes era muito improvável.

Além disso, os sites independentes passaram a “furar” os grandes. Estão mais próximos dos fatos e noticiam antes, mais rápido e sem ter que passar por uma grande estrutura. Hoje, muitas vezes, uma notícia que surge em um blog marginal e termina por pautar a grande mídia. É um sinal de que o pêndulo detentor da opinião pública brasileira aos poucos se afasta das sete famílias.

Uma regulamentação mais decente

Nestas eleições, combates nas redes sociais foram travados usando links de matérias “jornalísticas” como provas para argumentações. Nesse momento, levanta-se a questão da credibilidade dessas matérias. Uma notícia publicada na Folha tem o mesmo peso de uma divulgada pela Record? Uma notícia do G1 tem o mesmo peso de uma do blog Mídia Sem Máscara? Em resumo: uma notícia de um site da mídia tradicional tem mais valor do que uma da nova mídia? Evidente que o peso da repercussão instantânea é maior nos sites dos grandes. Mas, e o peso da verdade?

Há “zilhares” de exemplos de verdades manipuladas pela grande mídia nas últimas décadas por simples irresponsabilidade ou para atender aos interesses políticos do veículo (e não o interesse da sociedade), mas são exemplos totalmente desconhecidos do grande público. Só para citar os mais recentes, podemos lembrar que o Brasil da grande mídia jamais conseguiria sediar uma Copa do Mundo em 2014. Já o caso mais recente é a histórica matéria “Eles sabiam de tudo”, sobre Lula e Dilma, publicada em Veja. Um perfeito manual inverso de jornalismo: “como não fazer”. Não se trata de ser contra ou a favor do viés político, pois os veículos têm liberdade (apesar das acusações de que vivemos numa ditadura) para assumir suas ideologias e muitos o fazem. Errado é alardear imparcialidade e não ser imparcial.

Pior ainda é publicar “reportagens” (entre aspas mesmo) sem checar a veracidade dos fatos, ou a confiabilidade da fonte, buscando influenciar fortemente resultados de uma eleição presidencial. No caso específico, o próprio advogado representante do doleiro Alberto Youssef, Antonio Basto, disse: “Asseguro que eu e minha equipe não tivemos nenhuma participação nessa divulgação distorcida.” Logo, é mentira. O pior é que tem gente que gosta de ser enganada. Checagem dos fatos e confiabilidade da fonte são coisas básicas, mas que podem ser relativizadas quando o objetivo não é fazer jornalismo.

Diante desse e de muitos outros maus exemplos de jornalismo da mídia tradicional, está claro que é preciso regulamentação mais decente para impedir que a mídia faça de trouxa toda uma população, sem limite nenhum para inventar o que quiser. Está claro também, que desprezar o que se diz em blogs e sites alternativos é besteira, pois a informação pode e deve ser conhecida por todos os ângulos possíveis. Aí, sim, podemos orientar nossas opiniões.

A crise hídrica na cidade mais atingida, Itu-SP: Entrevista com Mário Giannetti

Por Rennan Martins | Brasília, 04/11/2014

A população de Itu está numa situação caótica e não há perspectivas de solução para a falta d’água. (Itu Vai Parar/Reprodução)

Nós, brasileiros, aprendemos desde cedo que somos a terra da abundância. Varrer a calçada com água corrente da mangueira, banhos longos e nenhuma preocupação com vazamentos é ainda a tônica cultural de muito cidadãos. Aliado a isso temos uma economia predatória que faz uso de tecnologias ineficientes que geram desperdícios de grande escala.

É nesse contexto que assistimos, perplexos, a crise hídrica mais séria da história. Num cenário em que a imprensa, comprometida por interesses partidários, sonega informações sobre o real quadro da escassez, cabe a iniciativas independentes a missão de retratar o quadro a sociedade.

E é por isso que entrei em contato com o arquiteto e ativista Mário André Giannetti, ele é morador de Itu, a cidade mais atingida pela escassez hídrica. Envolvido nos movimentos Itu Vai Parar e Conselho Popular de Itu – Água, Giannetti nos traz informações impressionantes de uma cidade que já não tem água nas torneiras há muito. A situação é calamitosa e serve de alerta a toda a população.

Confira a íntegra:

Há quanto tempo Itu passa por essa escassez de água?

A água sempre foi notícia em Itu, temos problemas com o abastecimento há pelo menos 40 anos. Existe um estudo que prova que esse problema deve-se única e exclusivamente à má gestão do sistema e desvios de dinheiro. Nessa atual estiagem temos relatos de racionamento desde o ano passado, 14/12/2013. Esse racionamento passou a ser mais sistemático a partir de fevereiro desse ano com racionamento todas as noites; ficou mais intenso em maio, quando a água vinha dia sim e dia não; ficou crítico em julho quando a água passou a vir a cada 3 ou 4 dias; até chegarmos na atual fase de desabastecimento total que se iniciou em outubro e permanecemos até hoje sem uma gota de água nas torneiras.

Qual é a rotina do racionamento? Como fazem pra ter acesso a água?

Todos temos que nos virar para arrumar água. Pela cidade existem algumas bicas com água de poços artesianos que estão bastante disputadas chegando a 2 horas de fila. Outros sortudos conhecem alguém que tem poço artesiano. Maior dificuldade passam os mais carentes que chegam a coletar água suja de córregos com garrafas pets e a transportar água com carrinho de mão.

E quanto aos conflitos por conta da água. Tem ocorrido? A população está conseguindo se adaptar?

Os conflitos d’água começam a ficar cada vez piores como furtos de galões d’agua nas bicas, roubam a água de dentro da caixa d’agua de quem comprou; roubos e sequestros de caminhões-pipa para abastecer determinadas ruas; população revoltada sem saber o que fazer devido ao silêncio das instituições que não estão dando respostas adequadas, colocam fogo em pneus e lixeiras como forma de protesto.

Que medidas a prefeitura e o governo do estado têm implementado pra combater essa crise? Elas são efetivas?

A prefeitura de Itu foi e está sendo omissa até o presente momento. Cidades que não estão em estado tão crítico já decretaram Estado de Calamidade Pública. Suspeita-se que aqui isso não ocorra devido às irregularidades no contrato de concessão da antiga autarquia do SAAE para a empresa Águas de Itu. Pedimos para ver esse contrato já fazem 7 meses e até hoje não apareceu, lembrando que pela Lei da Transparência ele deveria ser entregue em 15 dias.

Por conta disso pedimos a intervenção do governo do estado mas esse muito pouco fez: disponibilizou um pouco de dinheiro, alguns caminhões pipa e caixas d’agua.

No momento as medidas que a prefeitura está tomando são: transportar e distribuir de maneira nada transparente 3 milhões de litros d’agua por dia em caminhões pipa sendo que a demanda da cidade é de 20 milhões de litros e, começaram a duas semanas, à pedido da sociedade organizada, a espalhar caixas d’agua de 20.000L pela cidade para aumentar o número de pontos de coleta.

A imprensa passou a cobrir este problema somente após as eleições. Você considera que houve um silenciamento deliberado por parte dos jornais? Há influência política na abordagem do tema?

Com certeza há muita influência política sobre o tema. Para se ter uma ideia o CQC veio fazer uma matéria sobre o problema na cidade. A matéria iria ao ar na segunda feira da semana das eleições e não foi. Acredito que não foi porque um dos principais responsáveis pela crise, o ex-prefeito que fez a concessão, estava se candidatando a uma vaga de Deputado Federal e seria impossível fazer a matéria sem apontar os culpados. Deixaram para soltar a matéria somente duas semanas após ter passado as eleições.

Outro exemplo está acontecendo na cidade de São Paulo, aonde o governador reeleito se negou a fazer o racionamento até passar as eleições, uma irresponsabilidade assustadora para uma cidade com 16 milhões de habitantes que correm o risco de ficar sem água.

Existe perspectiva de abastecimento a longo prazo? O enfrentamento do problema vai além do paliativo?

Existem muitos projetos que podem ser postos em prática mas a prefeitura não pode fazer nada porque o setor foi entregue a uma empresa privada. Nesse momento a empresa Águas de Itu está colocando em prática um projeto de canalização de água do Rio Mombaça, um projeto ruim, muito mal estudado e superfaturado. Uma coisa que essa empresa poderia fazer e não o faz é o desassoreamento dos reservatórios, agora que está tudo seco seria o melhor momento, mas, por motivos que ninguém entende isso não está sendo feito.

Estudando Getúlio, Dilma faz mistério sobre os ministérios

Via Brasil 247

Foi um recado; presidente volta de descanso na Bahia carregando tomo final de biografia de Getúlio Vargas; como o líder de massas que criou as bases do salto econômico do Brasil na década de 1950, presidente ganha tempo, estuda aliados, mede adversários e sabe que segredo do sucesso do segundo mandato está na economia; “Tudo a seu tempo”, dizia GV, de poucos confidentes; novo ministério de Dilma é envolto em mistério; ela mal dá pistas sobre os novos nomes; passado trabalhista em nova floração?

Numa situação na qual sabia que seria fotografada, a presidente Dilma Rousseff voltou de seu descanso na Bahia com o terceiro tomo da biografia de Getúlio Vargas na mão esquerda. Ela, que escolheu o trabalhismo para militar após sua incursão pela luta armada e três anos de prisão sob a ditadura militar, mandou, naquele gesto, uma série de recados sofisticados.

“Tudo ao seu tempo”, costumava dizer Getúlio, diante de decisões fundamentais que lhe eram cobradas por aliados e adversários. Como ele, a presidente, no pouco que falou sobre a primeira tarefa decisiva que tem pela frente, igualmente já pediu tempo. Contra opinião dos que entendem que a presidente deveria escolher e empossar de imediato uma nova equipe econômica, Dilma disse com todas as letras que só o fará depois que a primeira quinzena de novembro passar.

Para que não restassem duvidas, antes de decolar para o litoral baiano, ela chamou ao seu gabinete o ministro Guido Mantega que entrou para a conversa como titular da Fazenda e saiu de lá com o mesmo status. Nem mesmo a reunião do G-20, marcada para os dias 15 e 16 próximos, na Austrália, fez a presidente se apressar. Mais do que mostrar ao mundo um novo ministro, Dilma quer que Mantega cumpra seu ciclo sem uma interrupção abrupta, em reconhecimento pelos resultados que, mesmo debaixo de críticas de todos os tipos, renderam a ela a reeleição.

Era assim, também, com Vargas. Com poderes ditatoriais ou democráticos, ele nunca demonstrou pressa em eliminar quadros de seu governo. Esperava por um acidente de percurso ou pelo desgaste natural mais extremo do auxiliar até removê-lo. E desde que tivesse um nome de substituto que lhe parecesse melhor.

CHAVE DO SUCESSO – Dilma vai indo por esse caminho. Ninguém na República pode afirmar que a presidente já escolheu seu futuro ministro da Fazenda. O que se sabe é que não será Mantega, mas entre os nomes ventilados até agora – do presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, do ex-presidente do BC Henrique Meirelles ou do ex-secretário executivo da Fazenda Nelson Barbosa – para o lugar dele, nenhum foi anunciado.

A presidente, por seu lado, não tem feito questão de emitir pistas, ao contrário. Sabe-se nos bastidores, apenas, que as restrições dela a Meirelles teriam ficado no passado, assim como a confiança, no presente, em Nelson Barbosa permanece. Sobre Trabuco, o que se tem é o desencorajamento da ideia, de maneira sutil, pelo próprio candidato involuntário, que tem um banco com quase 100 mil funcionários e 20 milhões de clientes para tocar para a frente pelos próximos dois anos. Uma surpresa não está descartada.

No livro que está lendo, de autoria do historiador Lira Neto, o derradeiro da trilogia de vida do ex-presidente, narram-se os acontecimentos de devolveram Vargas, de maneira espetacular, pelo voto democrático, ao poder. Houve na campanha de 1950, com posse em 31 de janeiro do ano seguinte, semelhanças com o pleito que reelegeu Dilma, em 2014, especialmente na dureza dos debates entre os partidos. A presidente tem tudo para estar se identificando cada vez mais com seu antecessor histórico.

Igualmente, Dilma parece estar dizendo que, como Vargas, pretende escolher nomes entre aliados que acelerem o processo de desenvolvimento econômico ao extremo. Logo em seus primeiros meses de poder redivivo, Getúlio, que já sabia os caminhos da burocracia estatal, avançou por atalhos que proporcionaram, ao longo da década de 1950, um grande salto de modernização ao País. Ele, que jogava com o tempo, sabia, paradoxalmente, que não tinha tempo a perder para corresponder às expetativas. Com Dilma o mesmo se dá. Ela prometeu, até mesmo com o aval de Lula, fazer um segundo mandato melhor do que o primeiro. Vargas tinha para si o mesmo desafio em relação a seus tempo de ditador no Estado Novo dos anos 1930-1940.

O livro na mão é o mesmo que tem sido citado por Lula nos últimos tempos, com admiração. O ex-presidente nunca, como agora, referiu-se com tanto carinho a Vargas. Neste ponto, o recado da presidente parece ser o de que, ainda que atribua-se a ela a frase de que “Dilma quer ser mais Dilma”, a afinidade com Lula está cada vez mais profunda. Ambos estão bebendo da mesma fonte.

Sem um grande anteparo perto de si, Getúlio viu-se a tal ponto acuado pela rudeza das oposições que, em 24 de agosto de 1954, tirou sua própria vida para entrar para história. Dilma, é claro, não resistiu a torturas e reinventou-se na democracia para ter o mesmo fim. Mas ela também está cercada de indícios e fatos que mostram que a oposição pretende recrudescer nos ataques ao governo.

Para se vacinar contra os efeitos das cargas negativas da oposição, a presidente mandou dizer que vai montar “um ministério estrelado”, de ampla sustentação política. Não quer, como Gegê, como o então presidente era carinhosamente chamado, ver-se numa situação sem saída. Nessa estratégia, contar com Lula seria abrir um guarda-chuva contra as intempéries previstas. Talvez a maior lição que a vida de Getúlio Vargas pode dar a ela é a de não se deixar isolar.

No melhor estilo getulista, Dilma deverá ver com bom grado a iniciativa de seu partido de transformar sua posse num evento de massas. Ela demonstrou em campanha que pretende governar próxima aos movimentos populares e aos sindicatos, assim como fazia o velho chefe trabalhista. Tal qual ele acreditava, soa possível, para ela, proteger o trabalho sem prejudicar o capital, e contar com os investidores sem abandonar os trabalhadores. Uma habilidade que distinguiu Getúlio entre todos os demais presidentes – e que Dilma, ao carregar com ela a biografia do homem que mudou o curso da história do Brasil, dá mostras de que está estudando.

Em meio a todo o mistério com que ela mesma faz questão de envolver a montagem de seu ministério, a pista dada pela presidente não foi pequena.

Nelson Barbosa é o favorito de Dilma para a Fazenda

Por André Barrocal | Via Carta Capital

Nelson Barbosa é cotado para Ministério da Fazenda

O economista Nelson Barbosa é o favorito de Dilma Rousseff para ocupar o ministério da Fazenda no próximo governo. Foi com o nome dele na cabeça que a presidenta viajou na última quarta-feira, 29, para a base naval de Aratu, em Salvador, a fim de descansar uns dias da estafante reeleição e de começar a amadurecer ideias para a futura equipe.

A nomeação de Barbosa não é, contudo, um fato consumado. Antes de decidir-se, é provável que Dilma ouça o ex-presidente Lula em algum momento após encerrar seu retiro neste domingo, 2. E ele tem ideias próprias, como a de que seria aconselhável o governo reabrir canais de diálogo com o setor privado, sobretudo o sistema financeiro, indicando um representante empresarial para o cargo.

Dilma, conta um ministro, considera a seleção do substituto de Guido Mantega na Fazenda como “a” escolha de seu segundo mandato. Ela reconhece que o PIB pífio e o distanciamento do setor privado quase inviabilizaram a sobrevivência do projeto governista inaugurado em 2003. E que esta situação, expressa na apertada vitória, impõe mudança de rumo. Mas tal mudança, diz o ministro, não pode passar um sinal de rendição. Dilma acha que derrotou não só o PSDB, mas o próprio “mercado”, inimigo do Planalto.

Número dois na Fazenda nos 29 meses iniciais do atual governo, Barbosa é o predileto de Dilma por algumas razões. É um economista desenvolvimentista como a presidenta. Já conhece a máquina pública federal, experiência importante numa área hoje a exigir medidas rápidas. Está acostumado com o estilo detalhista e centralizador da mandatária.

De quebra, ele conta com um defensor importante, o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Uma das vozes mais ouvidas por Dilma, Mercadante tem dito no Planalto ser favorável à escolha de Barbosa para o cargo que um dia ele mesmo cobiçou.

Tempos atrás, Dilma já tinha tentado ter Barbosa por perto novamente. Autorizou a então chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, a sondá-lo para ser secretário-executivo da pasta. Ele não aceitou, segundo um ministro, por acreditar na repetição de um dos mais fortes motivos de sua saída: o choque com secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustín.

Amigo de Dilma, Augustín sempre prevaleceu em resoluções presidenciais em assuntos em que Barbosa pensava diferente. Por isso, é praticamente certo que o secretário deixará o cargo caso o ex-companheiro volte à Fazenda. A saída já deverá por si servir como um calmante no “mercado”. Augustín personifica a criticada “contabilidade criativa” nas contas públicas.

Do ponto de vista de Dilma, Barbosa tem ainda a favor uma vantagem simbólica. Como é ligado ao Instituto Lula, onde participa de reuniões sobre economia, sua escolha não poderia ser interpretada como algum tipo de ruptura entre criador e criatura. Uma circunstância valiosa levando-se em conta a visão de Lula sobre o atual momento e o protagonismo político que ele terá a partir de 2015.

O ex-presidente acredita que Dilma precisa abrir o governo a todos os setores econômicos, um pouco como ele fez ao assumir o Planalto em 2003, quando montou uma equipe com um industrial no Ministério do Desenvolvimento, um ruralista na Agricultura e um banqueiro no Banco Central.

Nos últimos dias, especulou-se sobre Lula ter sugerido para a Fazenda o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco. Há razões para supor que a sugestão partiu mesmo dele. Quando o nome surgiu na mídia, um ministro de Dilma que trabalhou com Lula comentou com um assessor que era coisa do ex-presidente. Um conselheiro de Lula diz não ver problema na escolha de Trabuco. Em 2013, Lula sugeriu a Dilma que trocasse Mantega pelo banqueiro Henrique Meirelles, seu chefe do BC de 2003 a 2010.

Pelo que se ouve em salas do Planalto, Dilma parece ter recebido com perplexidade a sugestão de indicar Trabuco. Ela até gosta dele, a quem já recepcionou no Palácio. Mas como nomear um banqueiro após sua campanha – desenhada e executada inclusive com a participação de Lula – ter amaldiçoado Neca Setúbal, apoiadora de Marina Silva, e Armínio Fraga, aliado de Aécio Neves?

É verdade que há elementos capazes de minimizar a contradição. Trabuco não é um falcão do sistema financeiro. Formou-se em uma faculdade de filosofia e fez pós-gradução em sócio-psicologia. Comanda um banco algo mais afinado com clientes de baixa renda, e nem é dono da instituição. Insuficiente, porém, para Dilma. Quando no ano passado Lula sugeriu-lhe Meirelles, ela disse a um ministro que seria “renunciar a um pedaço do seu governo”. É como vê a situação agora.

Resta saber como Dilma e Lula vão se entender. E o suspense deve-se manter ainda por umas duas semanas. Nos dias 15 e 16, haverá reunião de Cúpula do G20, o grupo dos vinte países das maiores economias do planeta, em Brisbane, na Austrália. Dilma irá acompanhada de Guido Mantega. Se o substituto do ministro for anunciado antes disso, Mantega terá pouca autoridade moral no encontro.

Jornadas de Junho, eleições e “mudanças”

Por Rennan Martins | Brasília, 28/10/2014

A coisa mais absurda que tenho visto é a leitura das Jornadas de Junho como uma demanda conservadora, um sinal de que a juventude sinalizava o desejo de eleger para o executivo alguém à direita de Dilma. Isso é uma tentativa de apropriação do significado ainda não totalmente desvendado do evento.

Façamos uma revisão dos acontecimentos a fim de entender que a pauta de junho de 2013 era essencialmente progressista, só tendo sido manobrada posteriormente pela imprensa.

A prefeitura de São Paulo havia aumentado de R$ 3,00 para R$ 3,20 a tarifa do transporte público na cidade. Isso levou o Movimento Passe Livre às ruas para deter esta medida e pedir a estatização do serviço e a tarifa zero.

O que se observou em seguida foi a polícia de Alckmin agir com a brutalidade habitual. Em conjunto, tentou-se pintar o quadro do movimento como de vândalos, rebeldes sem causa, tanto o é que o crápula do Jabor desprezou o movimento e disse que era “só por vinte centavos”.

A tentativa de desmoralizar o MPL e creditar a eles a culpa pela repressão deu errado por conta da contra-narrativa feita pela mídia alternativa da internet. As transmissões em streaming, relatos e fotos deixaram óbvio que a PM estava descendo o cacete nos manifestantes.

E foi ao reparar tamanha brutalidade estatal que a juventude de outras localidades solidarizou-se com os paulistas. Fomos às ruas indignados com a violência gratuita das forças de “segurança”. Fato ilustrativo disso é que aqui em Brasília falava-se em “revolta do vinagre”. O vinagre, por sua vez, servia pra respirar entre o lacrimogêneo. Os vidros do produto estavam sendo confiscados pela polícia, como se isso fosse “subversivo”.

Após o alastre irresistível dessa indignação e a esquerda nas ruas demandando melhorias no transporte público e o fim da violência da PM, a grande mídia notou que não havia mais como esconder os acontecimentos. Resolveram então se aproveitar do quadro.

Nossa imprensa é historicamente ligada as forças mais conservadoras do país. A Globo, Folha, Estadão e cia se criaram nas asas da ditadura. E o que fizeram foi retratar as manifestações como uma juventude indignada “contra a corrupção” e a”roubalheira”. O objetivo era esvaziar a pauta real, factível e transformar o evento numa “festa cívica” e”patriótica”, algo como os Caras Pintadas.

Não existe ninguém abertamente favorável a corrupção, o que existe é gente que só é contra ela no discurso, sem nada propor para coibi-la. Esses são os oportunistas. Quem é honestamente contra a corrupção sabe que ela é sistêmica e quer medidas práticas para combatê-la, como por exemplo o fim do financiamento de campanhas políticas por empresas.

Dessa forma, um movimento que era abertamente de esquerda, que exigia a estatização do transporte público e depois protestava contra a violência policial, tornou-se algo vazio, e foi somente aí que o anti-petismo entrou em cena.

É simplesmente impossível conceber que o MPL e a massa que se levantou contra a repressão desmedida queria eleger um partidário do governador responsável pela polícia mais assassina do país.

As Jornadas de Junho, originalmente, clamavam por melhorias nos serviços públicos, por infraestrutura, por acesso à cidade. Isso não tem ligação alguma com os partidários do PSDB que gritaram “Viva a PM!” na revolução da Lacoste conclamada pelo príncipe FHC nos últimos dias.

Ninguém consciente foi às ruas ano passado querendo um neocoronel no Palácio do Planalto.

O recado das ruas, urnas e redes

Por Rennan Martins | Brasília, 27/10/2014

A eleição mais acirrada desde a redemocratização deixou-nos uma série de sinais e desafios. A voz das ruas, redes e urnas posicionou-se, e é de fundamental importância dar ouvidos a ela. A participação social ampla é um dos pontos-chave se pretendemos construir um país solidário, justo e plural.

A primeira coisa mais notável dessa eleição é o fato dos cidadãos não mais confiarem na grande mídia. A reeleição de Dilma deixou claro que os brasileiros já notaram que nossa imprensa age partidariamente, que tenta influir de forma suja no desenrolar de nossa democracia. A resposta que deram a este latifúndio da voz foi uma clara rejeição.

O elitismo e o preconceito de classe também foram derrotados. Uma parte do eleitorado tucano influiu de forma decisiva na derrota do próprio candidato. Com suas intervenções de ódio contra nordestinos, gays e outras minorias promoveram uma ampla contrapropaganda. Sem dúvida muitos viram o teor destes comentários e preferiram manter-se ao lado do atual governo.

Outro sinal importante dado pelos eleitores é de que desprezam o falso moralismo. O resultado das urnas deixou claro que a população não se deixa mais levar por moralismo de ocasião, por surtos éticos puramente eleitoreiros. Qualquer candidato que queira disputar o Palácio do Planalto precisa entender que não serão discursos rasos de “limpeza” que os catapultará. O brasileiro entendeu que o combate a corrupção se dá com atitudes, não com retórica.

A vitória de Dilma indica que o povo é consciente de que o país avançou, que o nível de vida das pessoas melhorou. Isso não significa, porém, que há conformismo. O que se pretende é a continuidade da inclusão social, do crescimento econômico que não deixa de lado as pessoas.

A derrota de Aécio é também um claro não ao projeto que quer sujeitar o povo aos “fundamentos macroeconômicos”. O brasileiro entendeu que há divergências entre o mercado e os interesses populares, e assim declarou que não mais deseja o país submetido a ajustes ditados por tecnocratas de instituições internacionais especializadas no arrocho.

A reeleição também sinaliza que o país vê com bons olhos a postura pró-ativa e independente do Brasil no cenário internacional. A cooperação Sul-Sul, a integração latino-americana o BRICS foram aprovados. A construção de uma ordem internacional multipolar foi compreendida e recebeu seu voto de confiança.

Dilma irá para seu segundo mandato com enormes desafios. A economia precisa de novas bases que criem condições para mais um ciclo de crescimento e desenvolvimento. O país necessita com urgência de reformas que tornem nossa democracia mais próxima dos anseios dos cidadãos.

Em termos econômicos, o desafio é romper em definitivo com o neoliberalismo, assumir de vez que perseguimos outro modelo, de prioridades diversas. É preciso deixar claro que essa proposta prevê o lugar do Estado na economia, que não se quer relegar tudo ao mercado, que a esfera pública não será mínima.

Quanto as reformas, Dilma deu ênfase de que pretende deflagrar a reforma política, a mais estratégica delas. O fim do financiamento de campanhas por pessoas jurídicas é um dos mais importantes pontos que devem ser perseguidos.

A imprensa brasileira também precisa ser revista. As verbas publicitárias estatais devem ser distribuídas seguindo princípios inclusivos, democráticos e plurais. A grande mídia não mais dialoga com a realidade, atua a margem dela, com objetivos próprios. Incentivar outras visões e desconcentrar os anúncios estatais é fundamental para nossa democracia.

Como já dito acima, os desafios continuam enormes. Os brasileiros que desejam o bem comum certamente permanecerão debatendo, se engajando, fazendo política a todo o tempo.