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“A grande imprensa é um instrumento de dominação multinacional”: Entrevista com Nilson Lage

Por Rennan Martins | Brasília, 15/12/2014

A popularização da internet e de aparelhos multimídia massificou a produção de informação e registro de toda sorte de acontecimentos, relevantes ou não. As redes sociais abriram espaço para que as pessoas experimentassem novas formas de se relacionar e se articular em torno de objetivos comuns. Estes fatores estão mudando a forma com que os cidadãos lidam com a imprensa, a política, o poder de forma geral.

Este processo de transição e assimilação de uma nova tecnologia pela sociedade levanta uma série de importantes questões. Qual o real potencial da internet? A grande imprensa realmente perdeu capacidade de influenciar a opinião pública? Como era e como é a configuração da mídia em nosso país? Que relação tem a mídia com o poder?

Estas questões tão caras à democracia merecem uma reflexão que nos auxilie no caminho de inclusão social e participação política. Para isso, é preciso ouvir os intelectuais e personalidades que atuaram e atuam no debate público brasileiro.

Conversei então com Nilson Lage, jornalista de larga experiência e professor de obra vastamente citada na academia. Lage diz que a mídia corporativa é a “essência do poder”. Considera que a regulamentação dos meios de comunicação é positiva, mas que não afetará tanto o alinhamento editorial dos veículos. Enxerga ainda que a imprensa latino-americana é coordenada desde Miami, promovendo valores antinacionais e patrocinando a submissão dos povos aos EUA.

Confira a íntegra:

Quais as principais diferenças entre o jornalismo analógico e o digital? Que possibilidades a massificação da internet nos trouxe?

O professor Nilson Lage

A diferença básica é que a veiculação pela Internet eliminou os custos de transmissão (gráfica, eletrônica), distribuição e arquivamento, permitindo a multiplicação dos produtores e reduzindo radicalmente a escala de investimentos necessária a empreendimentos jornalísticos.

A segunda diferença em importância é que, virtualmente, toda a produção (gráfica, sonora, audiovisual) concorre para um só equipamento – o computador. Isso permite a composição dos diferentes media em produtos complexos (a página, o site, o portal, o aplicativo) dirigidos a uma ou a várias formas de exposição (em computador, smartphones, tablets, cinemas etc.)

A terceira diferença é que a Internet abala o conceito antigo de direito autoral, torna-o, em muitos casos, artifício legal contornável e tende a suprimir a apropriação de obras antigas e consagradas em novas edições, reimpressões, regravações etc.; facilita a recuperação de informação em arquivos e subtrai valor comercial de produtos antes muito prestigiados, como dicionários e enciclopédias.

Como você enxerga a inserção da internet e a massa de mídias no debate público? Há mudanças nas estruturas de poder e hegemonia?

É cedo para dizer.

A mudança de quantidade não configurou, por ora, qualidade nova. Os veículos tradicionais mantêm a hegemonia, embora com alguns novos concorrentes.

O sistema de informação pública organizou-se, historicamente, em todos os níveis, em modelo centralizado (poucos produtores → muitos consumidores) com redes de malhas que divergem de pontos bem definidos, baixa interatividade, retorno lento e respostas estocásticas. Assim funcionam os financiamentos, a veiculação publicitária, as fontes profissionais etc.

Uma das consequências é que o acesso à informação primária continua sujeito à mediação de poucos veículos, com privilégio da mídia tradicional. É mais viável negociar a informação (troca de informação por informação ou de informação por outra mercadoria) com poucos agentes, e conhecidos, do que facultar o acesso a número indefinido de incontroláveis interlocutores.

Finalmente, a produção de informação de acesso público é atividade profissional, com sua técnica, ética de convívio e práticas consolidadas. Constata-se que a aparente liberdade que a Internet propicia dá espaço à mistura de verdade e fantasia, constatações e invenções, mundo real e mundos possíveis, diálogo educado e insulto; facilita o reingresso de toda sorte de conceitos e valores abandonados ao longo da História e que se mantinham recessivos na sociedade.

O risco é uma explosão de entropia que resultará inevitavelmente em desinformação de massa.

Quanto à relação da imprensa com a geopolítica. Os conglomerados de mídia corporativa ocidentais atuam como braços do poder? A guerra de informação é real?

São a essência do poder.

Pode-se afirmar que o domínio da cultura saxônica, que antes disputava, no nível acadêmico e no mercado de consumo, com outras fontes – no Ocidente, principalmente, com a cultura francesa – consolidou-se na etapa norte-americana (após a década de 1920 e, sobretudo, da Segunda Guerra Mundial), dada a supremacia na área da informação.

A retórica do jornalismo americano tornou-se padrão de objetividade, impondo antagonismos absurdos (como democracia x comunismo), e ambiguidades surpreendentes (como liberal = socialista, socialista = comunista ou, no Brasil, trabalhismo = comunismo), substituições convenientes (estrangeiro/internacional) etc.

Seguindo o estilo consagrado pela revista Time (1922), a combinação de informação objetiva com adjetivação criativa, metáforas e acumulações de sentido produziu um modelo de relato-comentário da realidade que se mostra dominante, principalmente em revistas se informação geral e suplementos.

Através de mecanismos hábeis e de recursos bem direcionados, transferiu-se a luta política histórica (o conflito de classes e da distribuição de riqueza no mundo) para o universo existencial (a relação ente os sexos, as raças, do homem com a natureza); a escatologia – questão dos fins últimos e causas primeiras da humanidade da vida, do universo – passou do universo religioso para o debate partidário, adquirindo extraordinário potencial de conflito.

Como se dá a relação dos grandes grupos de imprensa com os governos progressistas latino-americanos?

A grande imprensa, coordenada desde Miami pela Associação Interamericana de Imprensa (SIP), por via das associações nacionais, como a ANJ – e, de maneira similar, no setor de rádio e televisão (no Brasil, Abert) – é um instrumento (hoje, o principal) de dominação multinacional, o que determina sua oposição radical ao nacionalismo, ao desenvolvimento econômico autônomo e à integração regional que esses governos patrocinam.

Isto se consolidou historicamente com penetração continental da indústria estrangeira da informação (gravadoras de música, distribuidoras de filmes etc), a partir da década de 1950, e com a orientação empresarial das agências de publicidade, em cuja direção (e na filosofia de trabalho) se concentra a visão mais cínica e reacionária da sociedade – haja visto o papel que tiveram, em fatos ainda recentes no Brasil, expoentes do setor, como Ênio Mainardi ou Ivan Hassolocker, o dirigente do Ibad que ajudou a articular o golpe de 1964.

Impermeável às identidades nacionais, a retórica publicitária vende cosmopolitismo, individualismo, racismo, hedonismo, superficialidade, imoralidade que sequer se assume e, sempre que possível, cultura global amorfa, sem história e sem pátria. Seu discurso é o da irresponsabilidade, da autocomplacência e do escapismo.

É tão enraizado isso que dificilmente se imagina como poderia ser diferente.

Em relação as últimas eleições. Como se deu a cobertura dos fatos políticos? A isenção existiu?

Claro que não, se considerarmos a cobertura em geral. Muitos jornalistas se esforçaram para fazer um trabalho correto, como sempre acontece. Conseguiram, minoritariamente, também como de hábito, mesmo nos momentos mais difíceis.

Sobre a liberdade de imprensa no país. Nossos jornalistas têm liberdade de investigar e escrever? Que poderes mais constrangem os colegas?

A censura empresarial está geralmente introjetada e se implanta através das estruturas hierárquicas que divulgam as linhas editoriais, comandam as redações, supervisionam pautas e avaliam trabalhos. De modo geral, numa espécie de seleção às avessas, os editores principais dos grandes veículos são jornalistas não muito brilhantes, mas bastante domesticados, que operam como via de transmissão das ordens da empresa, assumidas em geral como normas de sua lavra.

A política das redações varia um pouco, da relativa estabilidade aparente (em O Globo, por exemplo) ao estímulo da competição desvairada entre os repórteres (na Folha), com traço generalizado e crescente de insegurança que a concentração empresarial, a equação declinante empregados/candidatos a emprego e a decadência da mídia tradicional acentuam.

A liberdade é das empresas, desde que elas se articulem com os bancos que as financiam e agências que as sustentam, manobrando verbas públicas e privadas.

É sabido que no Brasil muitos políticos detêm concessões de rádios e televisão. Quais as consequências disso? Porque esse assunto tem pouco apelo entre os cidadãos?

Os cidadãos são mantidos na ignorância por um sistema (não só de comunicação, também educacional) que ordena os fatos como convém e oculta os que interessa ocultar.

A posse de veículos por políticos – algo mais generalizado no Brasil do que em outros países – decorre da origem histórica regional da imprensa, de um lado, e da estratégia montada pelas redes que se instalaram no Brasil com modelos e patrocínio estrangeiro, em particular a Rede Globo: ela assegurou sua hegemonia ao articular-se com as oligarquias regionais preexistentes, de que se originam (ou que representam), em sua maioria, os políticos que chegam ao congresso.

Nessas eleições muito se falou sobre a regulamentação dos meios de comunicação. O Brasil precisa dela? Por que?

Sim. Reduzirá ou eliminará a concentração de poder na mão da meia dúzia ou menos de famílias que controlam a informação no Brasil no plano nacional.

No entanto, não creio que afete radicalmente o alinhamento dos media. Por muitos que sejam os veículos e as redes – e por mais que aparentemente estejam competindo – terão traço comum dominante. É como as rádios FM da região metropolitana de São Paulo: são dezenas, como 14 milhões de ouvintes, mas não têm escolha: oferecem música pop-lixo, música brega-lixo, rock-lixo, sertanejo-lixo, mpb-lixo, qualquer coisa-lixo porque tocam o que interessa às gravadoras e por imposição do mercado publicitário, são impotentes para segmentar o público por padrões reais de gosto. Cabe aos ouvintes escolher entre um lixo e outro dentre o que lhe é oferecido ou recorrer ao CD-DVD-pen drive.

Há alguns dias a Comissão Nacional da Verdade publicou seu relatório final. Poderia nos dar um testemunho de como foi a ditadura na visão de um jornalista?

Um processo regressivo.

O Brasil tinha imprensa regionalizada, com correspondente na capital federal e veículos de todos os estados e principais regiões metropolitanas.

Havia jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão cobrindo amplo espectro ideológico dentro da normalidade de uma sociedade capitalista (a imprensa comunista sempre foi insignificante em termos de público): o trabalhismo de Última Hora, o nacionalismo classe-média do Diário de Notícias, a oposição radical e encasacada do Correio da Manhã, o catolicismo progressista (estética e editorialmente) do Jornal do Brasil, o reacionarismo provinciano do Estadão, a picaretagem assumida dos Diários Associados, o golpismo sistemático de O Globo, a criatividade da TV Excelsior etc.

Os militares – não tanto por interesse deles, mas por se deixarem convencer pelo inimigo que supunham amigo – destruíram tudo, e o que havia de liberdade foi quase toda junto.

Hoje em dia vemos toda uma nova geração dos blogueiros, que praticam comunicação sem formação específica, muitos deles com amplo sucesso. Que críticas faria a essas figuras? Que sugestões?

Não creio tanto nessa “falta de formação específica”. Há os cientistas políticos, os panfletários de ideias, os humoristas, os pregadores religiosos, os nefelibatas políticos… Sempre houve. Os que sobreviverem tendem a se profissionalizar.

Jair Bolsonaro e a imbecilidade calculada

Por Rennan Martins | Brasília, 11/12/2014

Bolsonaro e os dois principais bolsonaretes

Na última terça, dia 9, estávamos às vésperas do Dia Internacional dos Direitos Humanos, data que foi também escolhida, por motivos óbvios, para a entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Trata-se de documento com mais de 4 mil páginas, dividido em três volumes, que levou dois anos e sete meses para ser produzido.

Objetivo? “… apurar e esclarecer, indicando as circunstâncias e a autoria, as graves violações de direitos humanos praticadas entre 1946 e 1988 (o período entre as duas últimas constituições democráticas brasileiras) com o objetivo de efetivar o direito à memória e a verdade histórica e promover a reconciliação nacional.”

O Dia Internacional dos Direitos Humanos, por sua vez, instituiu-se baseado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Assembleia Geral da ONU no dia 10 de dezembro de 1948. Estes direitos fundamentais e indivisíveis foram reconhecidos neste histórico documento após o mundo testemunhar as inomináveis atrocidades da Segunda Guerra Mundial.

Um dia antes desta tão importante data, a ex-ministra dos Direitos Humanos e deputada federal pelo Rio Grande do Sul, Maria do Rosário, não se furtou a bandeira que sempre empunhou e discursou na Câmara, falando sobre a importância do relatório que estava em vias de publicação e repudiando com veemência todo o autoritarismo sangrento que a ditadura representa na história do Brasil.

Eis que, após isso, o também deputado Jair Bolsonaro tomou a palavra. Era previsível que fosse atuar como filhote da ditadura, porém, ele foi além. Desenterrou um episódio ocorrido em 2003 quando Maria do Rosário lhe afirmou que ele “promove” a violência com o discurso de ódio que profere a torto e a direito. O deputado deturpou a fala de sua colega e começou com as já costumeiras bravatas, anunciando para a câmera que foi chamado de estuprador. Além disso, o ex-militar a xingou de “vagabunda”, lhe deu um empurrão e disse ainda que não a estuprava porque ela não merecia.

Bolsonaro requentou esta baixaria e a reforçou ontem (10) ao dizer que não a estupraria por ela ser “muito feia”. Também fez questão de deixar claro que não teme processos nem cassação. Esta repugnante figura sabe que tem a cumplicidade da maioria da casa, que manteve silêncio diante de tão escandalosa quebra de decoro parlamentar.

Muitos já notaram, mas é preciso reforçar. Bolsonaro é um oportunista que usa do mesmo discurso intolerante desde a era FHC e colhe os milhares de votos da massa fascista que a imprensa alimenta diuturnamente. Enche a boca pra acusar a esquerda de terrorismo, mas se “esquece” e nem é lembrado de que nos anos 80 queria explodir bombas em quartéis e só não o fez por conta do vazamento do plano.

A imbecilidade desse senhor foi friamente calculada, esses repugnantes pronunciamentos são uma cortina de fumaça que objetiva fazer com que esqueçamos a discussão promovida pelo relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

Não defendo que devamos simplesmente deixar passar batido essas atitudes, devem ser combatidas de todas as formas. No entanto, é preciso esclarecer que Bolsonaro faz o que faz para que não discutamos as 434 mortes e desaparecimentos documentados, os 377 violadores de direitos humanos listados, as 29 recomendações da comissão. O objetivo maior dele é que não nos demos conta que a tortura era Política de Estado durante o regime daqueles que ele exalta e representa.

Assange: Google é mais poderoso do que Vaticano e religião jamais o foram

Via Opera Mundi

“Vigilância em massa funciona como religião. Há uma entidade que tudo vê, é invisível e influi em sua vida, à qual você não pode enganar”, afirmou.

O gigante das buscas Google tem mais poder do que a Igreja jamais teve e exercerá um papel “muito importante” nas eleições de 2016 nos Estados Unidos. As declarações foram proferidas pelo fundador do Wikileaks, Julian Assange, em coletiva de imprensa concedida nesta semana para divulgar seu novo livro “Quando Google encontrou o Wikileaks”.

O também jornalista e ciberativista disse ainda que a empresa trabalha para o governo dos Estados Unidos, como uma agência de inteligência, concretamente para o Departamento de Estado, que dirige a política externa do país.

Assange estudou a trajetória e atividades dos executivos mais importantes do Google: Eric Schmidt, presidente da empresa, e Jared Cohen, diretor do Google Ideias. O resultado foi divulgado nesta quarta-feira durante a videoconferência concedida da embaixada do Equador em Londres, onde recebe asilo político há mais de dois anos. O livro estará disponível no Brasil em fevereiro de 2015.

Schmidt e Cohen tiveram uma longa conversa com Assange em junho de 2011, em sua casa de campo, na Inglaterra, onde cumpria prisão domiciliar. Os executivos foram acompanhados por Lisa Shields e Scott Malcomson, que depois revelaram ser assessores da diplomacia de Washington. “A delegação que me visitou era ¼ do Google e ¾ de representantes do Departamento de política exterior dos Estados Unidos”, disse.

Para expressar o poderio que a empresa possui atualmente, Assange a comparou com o Vaticano e a Igreja Católica. “A vigilância em massa funciona como uma religião: dizemos que há uma entidade que tudo vê e é invisível e influi em sua vida, à qual não pode enganar; o mesmo que tem sido dito pelos curas durante milhares de anos sobre um Deus onipresente e onipotente”, afirmou.

Mas, o domínio do Vaticano “se expressava através de franquias locais e não era fácil que o centro controlasse a periferia, tudo tinha que ser filtrado através de muitos indivíduos e interesses distintos. Não é assim com o Google, onde tudo passa pelo mesmo centro de controle. É como se só existisse um Vaticano com um confessionário direto”, afirmou.

De acordo com o escritor, o “Google é uma isca para atrair os usuários. Ele analisa o uso que os usuários fazem e gera perfis com os quais a NSA (agência de inteligência dos EUA) prevê comportamentos”. A coleta de dados não é feita somente para segmentar a publicidade, como também é vendida ao governo dos Estados Unidos, garantiu.

A serviço da inteligência dos EUA

“O Google será um fator muito importante nas eleições de 2016”. De acordo com Assange, “há uma relação muito estreita e contínua com Washington tanto em nível tecnológico, como ideológico”. E mencionou que muita gente que trabalha na empresa hoje trabalhou anteriormente na equipe da ex-secretária de Estado (2009-2013) e possível candidata pelo partido Democrata à presidência em 2016, Hillary Clinton.

Questionada a respeito das declarações de Assange pela reportagem de Opera Mundi, a assessoria do Google Brasil disse que “não tem nada a comentar” sobre o caso.

De acordo com Assange, o “Google permite que a NSA e o FBI leiam e-mails. Inclusive em uma maçante delegacia de polícia ou em um juizado, é possível ter acesso a esses e-mails sem ordem judicial”, afirmou.

Ele diz ainda que Schmidt não somente é um “gênio da engenharia”, como também é “presidente e fundador da New American Foundation, um think tank (centro de estudos) centrista, agressivo e liberal de Washington”. Cohen, por sua vez, viajou o mundo promovendo os interesses políticos e militares dos EUA.

Assange diz ainda que a conexão entre o Google e o governo dos Estados Unidos remonta ao “próprio nascimento do Google [em 1996], já que ele foi fundado com o dinheiro das bolsas do departamento de Defesa e desde então há uma relação mais ou menos contínua com o Departamento de Estado”.

Vargas, Jango, Lula e Dilma

Por Beto Almeida | Via Carta Maior

Sempre que presidentes brasileiros tomaram medidas em favor dos trabalhadores, houve implacável reação golpista. Na Era Vargas, criadas a CLT, a Petrobrás, a CSN, o salário mínimo, a licença maternidade e o voto feminino, a oligarquia nativa, estimulada pelo imperialismo, chegou até a pegar em armas contra o governo, como na Rebelião Paulista de 32, que Lula, corretamente, apelidou de Contrarrevolução. Foi o período de maiores avanços na industrialização, na educação, nos direitos sociais e trabalhistas com a expansão do estado, sempre enfrentando ruidosa e colonizada oposição conservadora.

Para se ter uma ideia do grau de delírio oposicionista, no mesmo dia em que Vargas assinava decreto criando a Petrobrás, o jornal “O Estado de São Paulo” , publicou editorial criando o que chamou de loucura de Vargas por criar uma empresa petroleira estatal onde sabidamente, dizia, não há petróleo. Com o Brasil transformando-se num grande país petroleiro, o jornalão da oligarquia paulista deveria pedir desculpas ao povo brasileiro, por tamanha desinformação histórica!

Mas, Vargas foi além e também a comunicação e na cultura, adotando medidas estruturantes, seja quando nacionalizou a Rádio Nacional e criou a Rádio Mauá, com os sindicatos na gestão da emissora, seja ao criar o Instituto Nacional de Cinema Educativo, com os geniais Roquete Pinto Humberto Mauro no comando, e, também o Instituto Nacional de Música, com Villa-Lobos a presidi-lo. O império e as oligarquias nativas não perdoaram tanta independência e audácia de Vargas. O golpe de 54 foi trágico: Vargas preferiu a morte, mesmo tendo majoritário apoio popular e até condições para derrota-lo. Porém, descartou a resistência, inclusive armada, conforme sugerida por Tancredo Neves, um de seus ministros.

O Presidente Jango, que quando Ministro do Trabalho de Vargas havia aumentado o salário mínimo em 100 por cento, repetiu o gesto, para desespero das oligarquias. Foi além: aproximou o Brasil da China e da URSS, lançou as Reformas de Base, iniciou a alfabetização em massa, com Paulo Freire. O Presidente dos EUA, Kennedy, que alguns ainda acham um democrata, organizou o golpe para depor Jango, só desferido em 1964, com os EUa já sob o comando de Lyndon Johnson. Apesar de uma popularidade de 73 por cento, o governo Jango sequer cogitou a resistência, tal como aquela heróica que Brizola, em 1961, havia organizado, a partir do Rio Grande do Sul, formando uma rede de rádios em Defesa da Legalidade e a distribuindo armas ao povo organizado e mobilizado, provando ser possível derrotar o golpismo.

O Presidente Lula, quando ameaçado de impeachment, disse: “Não vou me suicidar como Vargas, não vou renunciar como Jânio e não vou sair do país como Jango. Vou convocar os trabalhadores e defender o mandato que o povo me deu pelo voto”. FHC entendeu o recado e desmobilizou a tese do impeachment. Frase atualíssima para Dilma, novo alvo de ações golpistas ou desestabilizadoras. Há ingerências externas para desestabilizar o país, há inequívoca campanha contra a Petrobras, visando paralisar produtivamente o Brasil, bem como a integração econômica latino-americana, bloqueando empresas brasileiras que agem coordenadamente com os Estados da região.

Diante deste quadro complexo e grave, espanta constatar que o PT ainda não organizou sua mídia própria, e que sequer montou um jornal de massas, para o que não é necessário mexer na Constituição. Formar um jornal popular, de ampla circulação – como fez Vargas, com a Última Hora, como fizeram Chávez, Evo, Cristina e Correa – é uma necessidade inadiável, para ter capacidade de informar e organizar o povo brasileiro numa nova Campanha em Defesa da Legalidade, o que será dramaticamente imperativo no próximo período.

Como nos golpes de Estado

Por Paulo Moreira Leite, em seu blog

Oposição mobiliza arruaceiros para impedir Congresso de exercer sua soberania para debater e votar proposta de Dilma sobre orçamento.

Sem votos para impedir uma provável vitória do governo na proposta de eliminar o superávit primário nas contas de 2014, a oposição produziu ontem uma cena preocupante do ponto de vista da democracia.

Mobilizando arruaceiros profissionais e voluntários da baderna, engajados numa dessas ONGs cujo nome parece inspirado em entidades de exilados cubanos da Flórida, parlamentares oposicionistas criaram um ambiente de violência e tumulto nas galerias do Congresso. No final de uma jornada de tensão, conflito e violência, conseguiram impedir que a maioria dos parlamentares presentes cumprissem seu dever constitucional mais elementar: votar, soberanamente, com os votos recebidos do eleitorado, na proposta que julgassem melhor.

Os brasileiros não têm boa memória daqueles momentos em que deputados e senadores foram impedidos cumprir suas obrigações. Na maioria das vezes, foram cenas que antecederam golpes de Estado.

A diferença é que isso costumava ocorrer com a presença intimidadora de soldados pelo Congresso e arredores, numa paisagem ilustrada por tanques e baionetas. Ontem, a coreografia era outra. Lembrava os clássicos assaltos ao poder, de origem fascista, com vocação para atacar instituições democráticas.

O ataque partiu de civis, “presumivelmente assalariados”, nas palavras de Renan Calheiros, presidente do Senado. Conforme Renan, um grupo de 26 pessoas “instrumentalizadas, provocando o Congresso,” impediu os deputados de tomar uma decisão que, conforme cálculo da quase unanimidade dos observadores, seria favorável ao governo.

A baderna foi organizada como um espetáculo de circo amador. Como se o fim do superávit primário fosse um tema tão popular como a taxa de juros e o aumento da gasolina, cidadãos instalados nas galerias montaram um coro de palavrões, vaias e xingamentos destinado a inviabilizar um debate real entre parlamentares.

Quando Renan determinou que as galerias fossem esvaziadas — medida banal em qualquer Congresso do planeta — os cidadãos que logo seriam promovidos a “representantes da sociedade civil” pelos analistas meios de comunicação resolveram ficar onde se encontravam.

No mesmo instante, quinze parlamentares da oposição correram em seu socorro, formando uma espécie de piquete para impedir que fossem removidos pela polícia legislativa. Equipados para poses fotográficas, logo surgiram cidadãos com mordaças vermelhas com a sigla do PT. Tudo ensaiado e dramatizado.

Presente a casa poucos dias depois de ter afirmado que perdeu a eleição para uma “organização criminosa”, Aécio Neves saiu em defesa da baderna. Disse, conforme relato da Folha de S. Paulo: “A população brasileira acordou. As pessoas estão participando do que está acontecendo no Brasil. E algumas querem vir [ao Congresso]. Nós vamos fechar as galerias?”

Com essa postura, o candidato presidencial do PSDB dá um novo passo para se afastar das instituições democráticas. O primeiro foi a tentativa de criminalizar — diretamente — a vitória de Dilma em 26 de outubro. O segundo foi brindar uma iniciativa que em nada contribui para um debate civilizado sobre as necessidades.

“Eu não estou reconhecendo o Aécio,” disse o governador do Ceará, Cid Gomes, em entrevista ao Espaço Público, ontem, na TV Brasil.

Vários personagens e várias cenas se tornaram irreconhecíveis nos últimos dias.

Da mesma forma que o governo tem o direito de tentar suprimir o superávit primário, a oposição tem o direito de tentar o contrário. Faz parte da democracia. Cenas semelhantes ocorrem periodicamente nos Estados Unidos, sempre que a Casa Branca ameaça ultrapassar seu limite de endividamento.

Não faz parte da democracia, porém, tentar impedir o Congresso de funcionar. Quem age dessa forma pratica o mandamento número 1 de toda intervenção antidemocrática, que consiste em respeitar as regras e leis de um país apenas quando lhe convém. Isso só interessa a quem planeja impedir o funcionamento do regime democrático.

Este é o aspecto preocupante da baderna de ontem.

O neodesenvolvimentismo, a conciliação exacerbada e o encurralamento

Por Rennan Martins | Vila Velha, 01/12/2014

Os 12 anos em que o PT esteve a frente do executivo caracterizaram-se por notáveis avanços sociais e massificação do consumo perante as classes menos favorecidas. As reformas produzidas foram fracas e a atuação do partido se deu sem enfrentamento aberto as oligarquias, sempre nas linhas de menor resistência a avanços populares, como bem pontua Giovanni Alves.

Ainda que se valendo de uma estratégia de conciliação exacerbada, desmobilizadora das massas que no fim das contas são a base social do lulismo, o desempenho desta estratégia foi notável, pois, a ditadura militar e os governos neoliberais anteriores praticaram um arrocho representativo ao trabalhador, o que deixou a Lula um cenário em que a margem de manobra era folgada.

Soma-se a isso o cenário favorável internacionalmente. O boom das commodities foi um evento que contribuiu decisivamente para que o Estado pudesse gerir o conflito distributivo – favorecendo o trabalho por meio da política de aumento do salário-mínimo e a camada em situação de pobreza e miséria por meio de uma forte expansão de programas de transferência de renda.

Tudo isto se deu, saliento, sem tocar nos privilégios de uma elite que prega a meritocracia, mas que desfruta de largo financiamento estatal, seja por meio de empréstimos com condições maternais do BNDES, ou ainda pelo escandaloso serviço da dívida pública, que suga mais de 40% do orçamento estatal e vai direto para o bolso dos privilegiados rentistas.

A elevação do padrão de vida do cidadão médio brasileiro se fez inserindo-o no mercado de consumo, com fortes incentivos ao mercado interno, tratou-se de um choque de capitalismo num Estado de bases institucionais oligarcas.

Estes ganhos materiais se deram obedecendo uma lógica puramente mercantil. As grandes cidades foram entregues a projetos de parceria público-privada inteiramente delineados de forma a atender interesses de grandes empreiteiras e concessionárias, a massificação de bens tecnológicos difundiu uma cultura alienante por meio das corporações de mídia vinculadas a interesses privados.

O resultado disso é uma população altamente suscetível a manipulação, de baixo senso crítico e refratária a ação política, vista sob os olhos criminalizantes que a narrativa da imprensa hegemônica impõe. A inclusão, portanto, formou consumidores, não cidadãos.

E eis que a crise de 2008 se mostrou persistente. O cenário internacional se dá com os EUA incapaz de ir além do expansionismo destinado primeiramente a pagar as contas do 1%, a Europa por sua vez afunda nas reformas liberalizantes/austeras, que não fizeram e não farão a iniciativa privada deslocar seu investimento do setor financeiro para o da economia real.

Este prolongamento fez com que o desaquecimento produtivo atingisse também as economias emergentes. Países como Rússia, África do Sul e até mesmo a China se veem com projeções de crescimento bem menos vistosas que anteriormente.

O Brasil também foi tragado por este quadro e este ano expandirá menos de 1%. Isto deu munição ao setor conservador que apostou todas as fichas no discurso do ajuste ortodoxo radical que, segundo eles, traria novamente as condições do retorno do crescimento.

Fazendo uso de sua imprensa amiga e da docilidade do eleitorado a retórica neoliberal, passou perto de levar ao poder um representante nato da elite financista que aqui no Brasil se articulou as dinastias patrimonialistas da política.

A reeleição do projeto neodesenvolvimentista capitaneado por Dilma e seu “militante nº 1”, Lula, se deu apoiada no núcleo duro dos milhões que obtiveram os ganhos materiais do “reformismo fraco”, como define André Singer, e na impressionante mobilização da militância de esquerda, grande responsável pela virada no segundo turno.

Os fracos resultados econômicos de 2014 minaram o apoio político do governo no Congresso Nacional, baseado em amplas concessões ao centro e centro-direita. Junto a isso observa-se o recrudescimento do conservadorismo, que nessas situações marca terreno de forma agressiva no sentido de manter seus ganhos obscenos baseados unicamente nos altos juros por aqui praticados. Esta postura não é nenhuma surpresa, o economista Piketty constata em sua obra O Capital no Século XXI, que nos períodos de baixo crescimento é que se observam os maiores impulsos no sentido da concentração das riquezas.

Temos então o governo encurralado pelos rentistas, pelas forças políticas lobistas e pela imprensa largamente comprometida com interesses antinacionais, financistas e oligárquicos. Estes são os limites do projeto petista, incapaz de avançar sem confronto direto com as classes dominantes.

Se desejam continuar com o viés e apoio popular, terão de encampar uma das três propostas: a auditoria da dívida pública; a reforma política; ou a regulação dos meios de comunicação. Todas as opções mexem num vespeiro de interesses entrincheirados e poderosos, que interditam toda e qualquer proposta de democratização e inclusão social.

Nesta situação há uma perplexidade do Planalto que se vê tentado a dar ainda mais concessões no intuito de ganhar tempo. Ocorre que essa opção lhe fará perder o apoio já ressabiado das massas que reelegeram o projeto. Considerando a tática de atuação nas linhas de menor resistência, a opção que se afigura mais exequível é a reformulação da política de distribuição das verbas de publicidade estatal, o que pode reequilibrar o debate público no sentido de reformular maiorias políticas pelas propostas populares.

Este artigo é largamente inspirado na leitura dos textos do professor Giovanni Alves, que constam em sua coluna no Blog da Boitempo.

A crise ambiental e o impasse ético

Por Rennan Martins | Brasília, 24/11/2014

O uso do “volume morto” no Cantareira. As mudanças climáticas contribuem para episódios de estiagem pronunciada. G1/Reprodução

A pauta das mudanças climáticas se torna cada dia mais relevante. Sociedade civil, lideranças políticas e até mesmo o setor privado já tomam iniciativas, ainda que pontuais, no sentido de reduzir emissões dos gases de efeito estufa e mitigar os efeitos negativos que a inegável subida da temperatura provoca.

O quinto relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), iniciativa da ONU, foi publicado este ano. Trata-se de um sólido documento que reúne e sintetiza milhares de trabalhos científicos de acadêmicos de todo o planeta.

Dentre as principais conclusões deste relatório, temos que é inequívoco que as atividades antrópicas incrementam a temperatura global por meio da emissão desenfreada de gases que intensificam o chamado efeito estufa. Mantido o cenário de crescimento atual das emissões, até 2100 a temperatura poderá subir em 4,8 ºC, isto por sua vez faria com que os oceanos avançassem 82 centímetros nas regiões costeiras.

O impacto deste aumento é representativo e se manifesta influenciando tanto nas interações bioquímicas, dependentes de finas condições ambientais, quanto no equilíbrio macro dos ecossistemas, que vê toda sua dinâmica afetada por conta de fatores que lhes obrigam a alocar energia para adaptações.

O professor do Instituto de Física da USP Paulo Artaxo, um dos colaboradores do IPCC, alerta que “O nível dos oceanos já subiu em média 20 centímetros entre 1900 e 2012. Se subir outros 60 centímetros, com as marés, o resultado será uma forte erosão nas áreas costeiras de todo o mundo. Rios como o Amazonas, por exemplo, sofrerão forte refluxo de água salgada”.

As perspectivas são assustadoras e apelam para que toda a comunidade internacional se volte para a ação efetiva.

Nesse ínterim tivemos o histórico acordo dos EUA e China, os dois maiores emissores de gases do efeito estufa do mundo. Os EUA pretendem reduzir entre 26% à 28% de suas emissões até 2025, em relação ao ano de 2005. A China, por sua vez, definiu que seu pico de consumo das fontes de carbono se dará em 2030, e que até lá aumentará para 20% de sua matriz energética o consumo das fontes “não-fósseis”.

A importância simbólica deste acordo sino-americano é incontestável, no entanto, ele é insuficiente. O engenheiro agrônomo belga Daniel Tanuro, constata em seu artigo que: “De forma a manter uma hipótese razoável de não ir além dos 2 ºC, e respeitando o princípio de ‘responsabilidades diferenciadas’ dos diferentes grupos de países, as emissões dos países desenvolvidos deverão, de acordo com o IPCC, cair entre 25% e 40% até 2020, por comparação a 1990. No caso dos EUA isso significa apontar para emissões entre as 4.665 Gt (-25%) e 3.740 Gt (-40%)… em 2020. Comparemos isto com o acordo: 5.368 Gt de emissões em… 2025.”

O princípio das responsabilidades diferenciadas é o que reconhece que as nações desenvolvidas são as responsáveis pela maioria das emissões realizadas até hoje, e que por isso cabe a elas atuar na vanguarda, reduzindo o consumo de combustíveis fósseis e capturando CO2 da atmosfera. Os países em desenvolvimento, por sua vez, possuem o direito de se desenvolver, de preferência se baseando num modelo de matriz energética diversificada e predominantemente renovável. É o caso do Brasil, que conta com mais de 40% de energia hidrelétrica em sua matriz.

Desde o reconhecimento do sério problema que é o das mudanças climáticas todas as iniciativas se mostram isoladas ou insuficientes, as potências econômicas em seu tempo demonstram fortíssima resistência a mudanças em torno do padrão degradante de produção e consumo vigente.

Muito se é discutido e a ciência fornece inúmeros trabalhos que diagnosticam e sugerem medidas de combate e mitigação dos efeitos do aquecimento global. Todavia, quando sentam a mesa as lideranças mundiais para propor acordos vinculantes, factíveis, nada se concretiza, e não por acaso.

A nossa sociedade baseia-se em valores capitalistas, que são o crescimento infinito, a competição e o individualismo, isto nos leva a um impasse ético. Quando é preciso tomar atitudes firmes em torno da questão ambiental, o que ocorre é um choque com este paradigma. Nenhum Estado quer ficar pra trás no ciclo do consumismo e acumulação, e o resultado é essa abordagem marginal, de efetividade duvidosa.

E é nesse sentido que precisamos superar esse impasse, o que é um desafio muito mais difícil. Somente quando atingirmos o entendimento de que é preciso cooperar em nível internacional, que é necessário basear nossa produção em critérios de eficiência máxima do uso dos recursos, e imperativo abandonarmos o consumismo, que então conseguiremos base sólida de enfrentamento ao maior desafio do século XXI.