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“O combate ao terrorismo é usado como desculpa para afirmação dos interesses geoestratégicos dos EUA”: Entrevista com Marcelo Zero

Por Rennan Martins | Vila Velha, 16/01/2015

Ronald Reagan e os talibãs, na época em que os EUA considerava-os “guerreiros da liberdade”

Na semana passada ocorreu em Paris o terrível ataque a redação do Charlie Hebdo, como todos sabem. Desencadeou-se então uma enormidade de discussões que vão desde se somos ou não Charlie, passando pela liberdade de expressão versus o discurso de ódio, desembocando na história e geopolítica que envolve o ocidente e os povos muçulmanos.

Muitas das opiniões caíram no intolerante e fácil julgamento que atribui ao Islã a responsabilidade pelo terrorismo. Este tipo de posicionamento é o que mais contribui para a violência, seja por meio do revanchismo ou pela legitimação de intervenções militares.

Para além das interpretações superficiais e buscando uma visão abrangente dessa problemática, entrevistei Marcelo Zero, sociólogo e especialista em relações internacionais. Zero considera que o terrorismo cresceu “exponencialmente” após as guerras que visavam combatê-lo, que as posições da extrema-direita saem fortalecidas após esse atentado, e nos alerta para o fato de que o terror é um conceito usado ao bel-prazer dos EUA a fim de conduzir intervenções que atinjam seus objetivos geopolíticos e econômicos.

Confira:

Com a ocorrência de mais este terrível atentado, dessa vez em Paris, o que se espera dos países da OTAN como resposta?

Até pouco tempo, a OTAN não se envolvia de forma significativa em atividades de contraterrorismo. O entendimento era o de que a organização existia para proteger o Atlântico Norte de ameaças externas, e não de ameaças internas. Além disso, a OTAN entendia o terrorismo como um método de luta, e não como um inimigo concreto e definido a ser combatido.

Entretanto tudo isso mudou com o 11 de setembro. A OTAN entendeu que os EUA foram atacados de fora, por forças da Al-Qaeda ligadas ao Taliban do Afeganistão. O atentado contra as Torres Gêmeas fora, assim, um agressão externa perpetrada por um inimigo concreto e identificável.

A partir desse evento, a OTAN passou a se envolver cada vez mais em atividades de contraterrorismo e na chamada Guerra Contra o Terror.

Em 2010, na reunião de Cúpula de Lisboa, a OTAN definiu seu novo Conceito Estratégico. Conforme essa nova estratégia, o terrorismo não é mais um simples instrumento operacional e tático de conflitos assimétricos difusos, mas sim uma “ameaça direta aos cidadãos dos países da OTAN e à estabilidade e prosperidade internacionais”. Dessa forma, desde 2010 que o terrorismo tem, clara e formalmente, absoluta centralidade na ação estratégica da OTAN.

A resposta da OTAN, em linha com a da França e dos EUA, será, sem dúvida, fortalecer e intensificar suas atividades de contraterrorismo, tanto no plano interno dos países que compõem a organização, tanto no plano externo, particularmente no Iêmen e na Síria.

Que propostas e forças políticas ganham projeção agora? Haverá uma onda islamofóbica na Europa?

Do ponto de vista político, as forças que ganham com esse atentado são, sem dúvida, as forças ligadas à direita e à extrema direita, tradicionalmente islamofóbicas e racistas. Marine Le Pen, em particular, que cresceu bastante nas últimas eleições, deve se fortalecer ainda mais.

Na realidade, a recessão vem provocando um recrudescimento dos sentimentos anti-imigrantes e xenófobos em toda a Europa.

O atentado, obviamente, tende a intensificar essa onda de intolerância contra outras religiosidades, culturas e etnias.

O problema maior não é, contudo, a onda de intolerância e islamofobia, que parece minoritária, mas sim a reação dos governos a ela. No caso da França, o governo socialista de Hollande provavelmente incorporará algumas medidas típicas da direita, como forma de conter o avanço eleitoral e político dessas forças.

Qual o significado do ato ocorrido em Paris que reuniu diversas lideranças mundiais? É possível uma resposta bélica por parte do ocidente?

A resposta bélica já existe. A Guerra ao Terror é constante e sistemática, embora oculta da grande mídia ocidental. Praticamente toda semana algum “alvo” dessa guerra é bombardeado ou atacado de alguma forma, seja no Paquistão, no Afeganistão, na Síria, no Iraque, na Palestina, no Iêmen, etc.

Somente no Iêmen houve 117 ataques, nos últimos 5 anos, com a morte de mais de 1.100 pessoas, pelo menos. A maior parte desses ataques foi feita com o uso de dos chamados drones, veículos não-tripulados controlados por operadores em território norte-americano.

Evidentemente, é de esperar uma intensificação desses ataques, particularmente no Iêmen, sede mais relevante da chamada Al-Qaeda da Península Arábica, invocada pelos irmãos Kouachi no atentado, e que se responsabilizou pelo ato.

Não acredito, no entanto, numa operação militar convencional, pois o governo corrupto do Iêmen coopera com os EUA na Guerra contra o Terror.

Porque Netanyahu recebeu tanto destaque na passeata e no evento ocorrido em seguida na Grande Sinagoga de Paris? Há algum significado nisso?

Embora tenha se afirmado que Hollande não queria Netanyahu na passeata, o fato concreto é que Israel é visto como um grande aliado das potências ocidentais na Guerra Contra o Terror. A contrainteligência e o contraterrorismo da França, dos EUA, etc. precisam dos serviços e da expertise fornecidos por Israel. Israel é o grande parceiro estratégico dos EUA e da Europa no Oriente Médio.

Como podemos entender o conceito de terrorismo? Procedem as alegações de que os governos fazem uso político do termo?

O combate ao terrorismo é usado como desculpa para afirmação dos interesses geoestratégicos dos EUA a aliados no mundo.

Até hoje, a ONU não conseguiu produzir uma conceituação sobre o que é, de fato, o terrorismo. Grupos que são considerados terroristas por Israel e os EUA, como o Hamas e Hezbollah, são muitas vezes considerados como “combatentes da libertação”, por outros.

Tecnicamente, o terrorismo é somente uma tática de luta. Ele não tem um conteúdo político específico.

Qual o esquema de operação da Al-Qaeda? Existe uma estrutura centralizada que coordena as ações do grupo?

Não, não há. A Al-Qaeda reúne, na realidade, diversas organizações difusas e descentralizadas. Não há uma hierarquia e uma estrutura organizacional fixa. Seria mais preciso se falar em “Al-Qaedas”, e não numa só organização. Daí a dificuldade em combatê-la. Esses grupos têm autonomia política e operacional. Há também disputas internas entre eles. O Estado Islâmico, por exemplo, surgiu como dissidência da Al-Qaeda na Síria.

Quanto a dita Guerra ao Terror. Ela conseguiu sufocar o terrorismo em alguma medida? Quais são os reais objetivos dessa guerra?

Os fatos mostram que não. Ao contrário, a Guerra contra o Terror e as invenções militares no Oriente Médio a ela associadas só fizeram aumentar a violência e as atividades dos grupos fundamentalistas. São os casos, por exemplo, das intervenções desastradas no Iraque e na Síria. Nesses países, as mortes já ascendem, em conjunto, a 700 mil pessoas e as atividades terroristas dos grupos islâmicos fundamentalistas aumentaram exponencialmente.

Reforço, o combate contra o terrorismo na realidade é usado como escusa para a derrubada de regimes que são considerados hostis pelas potências ocidentais, particularmente os EUA. Nesse processo, muitas vezes se incentivam grupos fundamentalistas que fazem oposição a esses regimes. Foi o caso do Estado Islâmico, grupo terrorista financiado e incentivado pelos EUA porque esteve e está envolvido na guerra contra o regime sírio de Al-Assad.

Convém lembrar que o Taliban é resultado, em grande parte, do apoio que os EUA deu aos mujahedin que, na década de 80, combatiam os soviéticos no Afeganistão.

Trata-se de um padrão repetitivo e preocupante de intervenção que desestabiliza politicamente a região e incentiva a violência e o terrorismo.

É possível atribuir o terrorismo a filosofia muçulmana em si?

Não, claro que não. A religião muçulmana já deu grandes exemplos históricos de tolerância. Numa época em que os cristãos promoviam Cruzadas, o Islã abrigava pacificamente, em muitas de suas grandes cidades, bairros judaicos e cristãos.

Na Espanha, que esteve durante séculos sob domínio muçulmano, houve convivência pacífica entre cristãos, judeus e árabes, nas cidades controladas pelos califados. Os cristãos não eram obrigados a se converter à religião muçulmana e existiam templos cristãos que funcionavam livremente, assim como sinagogas.

Os judeus eram particularmente valorizados, pois dominavam o árabe e o castelhano, além do idioma hebreu. A Inquisição, recorde-se, é uma invenção do cristianismo.

De onde provém a interpretação fundamentalista do islã que rege o EI e Al-Qaeda?

Como toda grande religião que se espraia no tempo e no espaço, o Islã produziu muitas interpretações, variantes, seitas e cismas. O mesmo aconteceu e ainda acontece com o cristianismo, por exemplo. No Islã, há sunitas, xiitas, salafistas, alauítas, etc. No cristianismo, há católicos e uma infinidade de variantes do protestantismo.

A interpretação fundamentalista do Islã, ou melhor, as interpretações fundamentalistas do Islã nascem de uma leitura rigorosa e literal do Corão e da Sunnah, combinada, muitas vezes, com leis e costumes tribais. Em alguns países, como a Arábia Saudita, a lei religiosa, a sharia ou charia, é aplicada totalmente, sendo a única fonte do direito. Já em vários outros países, a fonte do direito é secularista. Em outros, há uma mistura.

É controverso, no entanto, se essas interpretações fundamentalistas dão realmente suporte religioso ou moral às atividades violentas de grupos como o Estado Islâmico.

Do ponto de vista social e cultural, no entanto, essa violência está muito ligada às condições socioeconômicas de muitas populações islâmicas, excluídas do desenvolvimento, bem como aos conflitos políticos e geopolíticos presentes, sobretudo, no Grande Oriente Médio.

A violência não nasce da religião em si. A religião é apenas usada para justificá-la.

Nos últimos dias muito se falou sobre a Al-Qaeda do Iêmen, que seria uma das células mais ativas. Em que se baseiam essas afirmações? Que interesses o ocidente tem naquele país?

De fato, há muita atividade desse tipo no Iêmen. Esse país é, na realidade, bastante pobre. Sua renda per capita, segundo o critério PPP, é de apenas US$ 2.500 dólares, uma ninharia na afluente Península Arábica. Suas fontes de petróleo são escassas e estão diminuindo, embora ainda sejam responsáveis por cerca de 25% do PIB ienemita. A economia do Iêmen sofreu muito com a Guerra do Golfo, já que seus trabalhadores que estavam no Iraque e no Kuwait, responsáveis pelo envio de divisas para o país, tiveram que retornar à casa com o conflito.

A importância do Iêmen para o Ocidente tange à sua localização estratégica no estreito de Ormuz, rota entre a Ásia e a Europa por onde passam diariamente 17 bilhões de barris de petróleo, e à necessidade de manter a Península Arábica sob a órbita geopolítica ocidental e longe do extremismo islâmico.

Juiz cita deputado Freixo para ser ouvido em julgamento de ativistas

Por Vladimir Platonow | Via Agência Brasil

O juiz Flavio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, pediu que o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) seja ouvido no processo que julga 23 ativistas políticos. De acordo com despacho do magistrado, a inquirição do parlamentar foi uma demanda da defesa dos réus, entre eles, Elisa de Quadro Pintos Sanzi, a Sininho.

Itabaiana ressaltou que o deputado tem a prerrogativa de combinar o dia, a hora e o local para ser ouvido. Contudo, o juiz salientou que deverá ser um lugar com capacidade para abrigar o número de advogados que acompanham o caso, além de ter condições técnicas para permitir a gravação da audiência. A assessoria de Freixo confirmou o recebimento do despacho e disse que ele está à disposição da Justiça.

O juiz presidiu hoje (15) mais uma audiência de instrução e julgamento dos manifestantes que respondem processo por associação criminosa e por atos praticados desde os protestos de junho de 2013 até os dias que envolveram a final da Copa do Mundo, no ano passado. Foram ouvidas testemunhas de defesa dos ativistas.

Do lado de fora do Tribunal de Justiça, cerca de 50 manifestantes fizeram um protesto contra o processo que visa a incriminar os ativistas, alguns deles presos. Sininho está foragida, depois de receber ordem de prisão, por ter participado de um ato cultural em frente à Câmara Municipal, quando havia ordem judicial proibindo-a de integrar manifestações.

França envia porta-aviões para o combate ao Estado Islâmico no Iraque

Por Marlene Carriço | Via Observador

O Presidente francês François Hollande prometeu ainda rever o ritmo de redução de militares fixado na lei de programação militar. AFP/Getty Images

O Presidente francês, François Hollande, anunciou esta quarta-feira que vai reforçar a operação militar contra as forças do Estado Islâmico no Iraque. E vai já enviar o porta-aviões Charles de Gaulle.

Depois dos atentados na semana passada em Paris, François Hollande anunciou esta quarta-feira que o porta-aviões Charles de Gaulle vai reforçar a operação militar francesa contra as forças do Estado Islâmico, no Iraque. Num discurso perante centenas de militares, feito a bordo do grande navio de propulsão nuclear, o chefe de Estado francês justificou a decisão com a necessidade de maior eficácia no combate aos jihadistas naquela região.

“A situação no Médio Oriente justifica a presença do Charles de Gaulle. Poderemos levar a cabo as operações no Iraque com mais intensidade e eficácia”, afirmou Hollande, citado pelo El País, acrescentando que a luta contra os terroristas deve ser levada a cabo tanto em solo francês como no exterior. “Temos de responder aos ataques lançados no interior, mas que podem ter sido comandados de muito longe, e assim foram reivindicados. Temos de conter as ameaças vindas do exterior”.

Segundo Hollande, o porta-aviões é um “instrumento de força e potência”, que mostra a “capacidade política, militar e diplomática” do país. O navio de guerra, com 40.000 toneladas e 260 metros de comprimento pode transportar 21 aviões e vários helicópteros, dará “informação valiosa” para melhorar a intervenção armada no Iraque. Nesta sua missão no Médio Oriente, o porta-aviões será acompanhado por um submarino nuclear, uma fragata e um navio de provisões.

O anúncio de Hollande ocorreu um dia depois de a Assembleia Nacional aprovar, praticamente por unanimidade, a continuação dos bombardeios franceses contra o Estado Islâmico no Iraque, iniciados em 19 de setembro. A França foi o primeiro país a unir-se aos Estados Unidos na coligação contra o Estado Islâmico no Iraque. Nessa operação participam nove caças-bombardeiros dos Emirados Árabes e seis da Jordânia, apoiados por outros aviões de reconhecimento e reabastecimento em voo, assim como por uma fragata antiaérea.

O presidente reiterou que se deve estar simultaneamente atento às ameaças que chegam do interior e do exterior, e explicou que a decisão de recorrer ao porta-aviões é tomada com o objetivo de fazer frente ao terrorismo. Hollande lamentou ainda que a comunidade internacional não tenha reagido “no momento devido” no conflito da Síria. Paris já era a favor de bombardeios contra o regime sírio, no verão de 2013 e o envio não chegou a acontecer porque Washington e Londres se recusaram a participar da operação.

Perante as Forças Armadas, Hollande prometeu ainda rever o ritmo de redução de militares fixado na lei de programação militar, que estabelece a redução de 34 mil efetivos nos próximos seis anos.

Washington configurou 2015 para ser um ano de conflito; esse conflito pode ser intenso

Por Paul Craig Roberts | Via Oriente Mídia

Washington é a causa do conflito que vem sendo promovido já a algum tempo. A Rússia estava muito fraca para fazer qualquer coisa a respeito de quando o governo Clinton começou a empurrar a OTAN para junto das fronteiras russas, assim como de quando ele ilegalmente atacou a Iugoslávia desmembrando o país em pedaços menores, mais fáceis a serem controlados.

A Rússia também ainda continuava muito enfraquecida para poder fazer alguma coisa de quando o governo de George W. Bush se retirou do acordo ABM, [Acordo regulamentando a quantidade e o uso dos mísseis anti-balísticos] e de quando o mesmo começou a organizar a colocação de bases militares americanas, contendo mísseis anti-balísticos, nas fronteiras russas. Washington mentiu para a Rússia dizendo que o objetivo da colocação dessas bases seria o de proteger a Europa dos não-existentes ICBMs nucleares do Irã. [ICBM sendo então um míssel intercontinental anti-balístico]

Entretanto, na Rússia compreendeu-se que o real objetivo dos Estados Unidos era o de degradar a capacidade retaliatória da Rússia, aumentando dessa maneira a capacidade de Washington para coagir o país a entrar em acordos que comprometeriam a sua soberania.

No verão de 2008 a Rússia já tinha o seu poder como que restabelecido. Por ordens de Washington o exército da Geórgia, equipado e treinado pelos Estados Unidos e Israel, atacou a separatista República da Ossécia do Sul na madrugada de 8 de agosto, matando 8 membros das forças da paz assim como pessoas da população civíl. Sectores dos militares russos reagiram imediatamente a isso e dentro de poucas horas o exército da Geórgia, treinados pelos acima mencionados, tinha sido completamente derrotado. A República da Ossécia do Sul, na Geórgia, estava novamente em mãos russas, como essa província sempre tinha estado, desde pelo menos desde os séculos 19 e 20.

Putin deveria ter deixado Mikheil Saakashvili – esse fantoche americano instalado no poder como presidente da Geórgia pela “Revolução Rosa” a qual foi instigada por Washington – ser enforcado. Entretanto, num erro estratégico, a Rússia retirou suas forças deixando o governo fantoche de Washington no lugar para causar futuros problemas para a Rússia.

Washington faz muita pressão para incorporar a Geórgia na OTAN e isso principalmente para poder pôr mais bases militares na fronteira russa. Tem-se entretanto também aqui que, na época do sucedido, Moscou via a Europa como bastante mais independente de Washington do que ela realmente era, acreditando que mantendo boas relações com a mesma iria impedir bases militares americanas a serem estabelecidas na Geórgia.

Hoje em dia o governo russo já não tem mais nenhuma ilusão quanto a Europa ser capaz de uma política exterior independente. O Presidente Vladimir Putin da Rússia declarou publicamente que a Rússia tinha compreendido que diplomacia com a Europa não fazia muito sentido, e isso porque os políticos europeus estavam representando mais os interesses de Washington do que os da Europa.

O Ministro dos Negócios e Relações Exteriores da Federação Russa, Sergei Lavrov, reconheceu recentemente que a categorização da Europa como uma entidade constituida por Nações Captivas tinha deixado claro para a Rússia que gestos de boa vontade da Rússia quanto a mesma não poderiam produzir, nessas circunstâncias, desejados efeitos diplomáticos.

Com o evaporar-se das ilusões de que diplomacia com o ocidente iria produzir soluções pacíficas, e com a realidade reafirmando-se, começou então a escalação da demonização de Vladimir Putin por Washington em conjunto com seus países vassálos. Tem-se Hillary Clinton nesse cenário até chamando Putin, de Hitler.

Enquanto Washington incorpora as ex-partes constituintes da Rússia e do império soviético no seu próprio império, e bombardeia sete outros países, Washington ao mesmo tempo vai declarando que Putin é militarmente muito agressivo, e que ele tem intenções de reconstruir o império soviético.

Washington arma o sistema neo-nazi, que Obama estabeleceu na Ucrânia, enquanto erradamente declara que Putin invadiu e anexou províncias ucranianas. Todas essas bramantes mentiras repetem-se, aos milhares, e em éco, pela mídia prostituta do ocidente. Nem mesmo Hitler teve a sua disposição uma tal complacente mídia como Washington.

Todos os esforços diplomáticos da Rússia tem sido bloqueados por Washington, acabando-se por se poder contar o resultado como zero e nada mais. Dessa maneira a Rússia foi forçada, pela realidade, a atualizar sua própria doutrina militar. A nova doutrina, aprovada em 26 de dezembro, afirma que os Estados Unidos e a OTAN constituem a principal ameaça militar para a existência da Rússia, como país independente e soberano.

O documento russo declara a doutrina de guerra de Washington – na qual a aceitação da idéia de um ataque preventivo, a colocação de mísseis anti-balísticos [ditos de defesa mas na realidade de agressão], assim como a contínua construção das forças da OTAN, e a intenção dos americanos de colocarem armas no espaço – como uma clara indicação de que Washington está se preparando para atacar a Rússia.

Washington também está a conduzir guerra político-econômica contra a Rússia, tentando destabilizar a economia russa com sanções e ataques a moeda russa, o rublo. O documento russo reconhece que a Rússia enfrenta ameaças de mudança de regime [lê-se ameaças de golpe de estado] por parte do ocidente. Esse objetivo seria então conseguido através de “ações com a finalidade de violentamente mudar a ordem constitucional russa, com a destabilização da realidade político-social, da desorganização do funcionamento das instituições governamentais, e das principais e cruciais instituições civis e militares, assim como da infraestrutura informal da Rússia.”

As organizações não governamentais estrangeiras, ONGs, e a mídia russa, que é dirigida como propriedade de estrangeiros, são instrumentos nas mãos de Washington, que usam esses instrumentos para destabilizar a Rússia.

As agressivas e irresponsáveis diretivas políticas de Washington contra a Rússia fez por ressuscitar a corrida de armamentos nucleares. A Rússia agora está desenvolvendo dois novos sistemas ICBM [de mísseis intercontinentais anti-balísticos] e em 2016 deverá colocar sistemas de armamentos designados a neutralizar os sistemas de mísseis anti-balísticos dos Estados Unidos. Em resumo, os instigadores de guerra que governam em Washington puseram o mundo a caminho do armageddon nuclear.

Tanto o governo da Rússia como o da China já compreenderam que suas respectivas existências estão sendo ameaçadas pelas ambições de hegemonia, ou seja de dominância, de Washington. Larchmonter apresentou relatórios que mostravam que, partindo do princípio de Washington ter planos para marginalizar os dois países, tanto a Rússia quanto a China decidiram-se por unificar suas economias, criando sectores de uma economia conjunta, conquanto também unificando seus comandos militares. Daqui por diante tem-se então que a Rússia e a China estarão andando conjuntamente, tanto no plano econômico como no militar.

http://www.mediafire.com/view/08rzue8ffism94t/China-Russia_Double_Helix.docx

Essa união do Urso Russo com o Dragão Chinês reduz o sonho dos conservativos americanos quanto a um “século americano” a um puro disparate. Larchmonter caracteriza isso assim: “Os Estados Unidos e a OTAN precisariam do Arcanjo Miguel para derrotar essa união Sino-Russa, mas ao que tudo indica o Arcanjo Miguel já está alinhado com o Urso Russo, e sua cultura ortodoxa. Não há armas, estratégias ou tácticas concebíveis que possam, num futuro próximo, conseguir causar maiores estragos a essas duas economias emergentes, agora que estão atuando em parceria.”

Larchmonter tem esperanças na nova geopolítica criada pela atuação conjunta da Rússia e da China. Eu não tenho nada contra essa sua conclusão, mas se os arrogantes conservativos compreenderem que as suas diretivas políticas para uma hegemonia mundial encontraram agora um inimigo que não poderão derrotar, eles irão pressionar para um ataque nuclear preventivo, antes que o comando unitário Russo-Chinês esteja operacional. Para se proteger contra um ataque à-surpresas, a Rússia e a China fariam melhor em operar em completa e total prontidão nuclear.

A economia dos Estados Unidos – na realidade a inteira ocidente-orientada economia indo do Japão a Europa – é um castelo de cartas. Desde que o declínio econômico começou, a cerca de 7 anos atrás, a inteira economia ocidental foi dirigida para o apoio de uns poucos bancos super-dimensionados, ao crédito soberano, e para o apoio do U.S. dólar. Em consequência disso as próprias economias assim como a capacidade das populações para manejar a situação foram se deteriorando.

Os mercados financeiros baseiam-se agora em contínuas manipulações e não em fundamentos sóbrios. Tem-se depois aqui que essas manipulações são insustentáveis. Com o débito explodindo os juros reais negativos não fazem sentido. Com a renda real do consumidor, assim também como o seu crédito real, e a real venda de produtos no comércio de varejo estagnados, ou em queda branta, o mercado de valores, fundos e ações, não pode ser outra coisa que uma bolha [a ser furada].

Com a Rússia e a China, assim como outros países, distanciando-se do uso do dólar no mercado internacional, e com a Rússia desenvolvendo uma alternativa rede bancária internacional SWIFT, enquanto os BRICS desenvolvem alternativas ao FMI e ao Banco Mundial, de quando outras partes do mundo desenvolvem seus próprios cartões de crédito e sistemas de Internet, o dólar americano, conjuntamente com as moedas do Japão e da Europa – que estão sendo imprimidas para sustentar o valor de câmbio do dólar – poderiam vir a experimentar uma dramática queda no mercado de câmbio, o que faria com que a economia de importação-dependente do ocidente se tornasse disfuncional.

Na minha opinião tomou muito tempo para que a Rússia e a China compreendessem a perversidade e malevolência que controla Washington. Por conseguinte, ambas estão a arriscar um ataque nuclear antes da total operacionalidade da implementação de sua defesa conjunta. Como a economia do ocidente é como um castelo de cartas, a Rússia e a China poderiam pô-la em colápso antes que os neoconservativos pudessem levar o mundo a guerra. Como a agressão de Washington contra os dois países é clara como cristal, não deixando nem sombras de dúvidas, tanto a Rússia como a China teriam todo o direito de tomar medidas defensivas.

Como os Estados Unidos estão conduzindo uma guerra financeira contra a Rússia, essa poderia reivindicar que arruinando a economia russa o ocidente a depravou da sua capacidade de pagar seus empréstimos aos bancos ocidentais. Se isso não fosse o suficiente para quebrar os fragilmente capitalizados bancos europeus, a Rússia poderia declarar que os países da OTAN – agora oficialmente reconhecidos pela nova doutrina de guerra da Rússia como inimigos do estado – tinham colocado a Rússia na situação de que ela não mais poderia apoiar a agressão da OTAN contra si, através de vender gás natural aos países membros dessa organização. Caso o fechamento de muitas das indústrias europeias, o aumento do desemprego e as quebras dos bancos não resultassem na dissolução da OTAN, e portanto ao fim das ameaças,os chineses poderiam começar a agir.

Os chineses tem um grande número de bens, valores e títulos denominados em dólares. Como os agentes da Reserva Federal [os denominados bancos de ouro ou bullion banks] inundam os futuros mercados com massivas quantidades de papéis de valor – “shorts”, em períodos de pouca atividade com a finalidade de abaixar o preço do ouro, a China poderia então inundar o mercado, em poucos minutos, com os seus papéis denominados em dólares com o equivalente a anos de flexibilização quantitativa, ou seja, massiva impressão de dólares.

Se a Reserva Federal, FED, [12 bancos particulares] rápidamente então criasse os dólares com os quais pudessem comprar essa massiva quantidade de papéis de valor da China, que no caso seriam os papéis denominados como “Treasuries” – para que o castelo de cartas deles não se desmoronasse – os chineses então poderiam inundar o mercado de divisas, mas dessa vez com os dólares que se lhes pagam pelos títulos. Conquanto a Reserva Federal pode imprimir dólares com os quais comprar os papéis denominados Treasuries, a Reserva Federal (FED) não pode imprimir moedas estrangeiras com as quais comprar os dólares.

O dólar entraria em colápso e com ele o poder do “Hegemon” – do Dominador. A guerra teria acabado sem um único tiro, ou míssel deslanchado.

Do meu ponto de vista, e nessa situação, tanto a Rússia quanto a China teriam uma obrigação moral em relação ao mundo quanto a impedir a guerra nuclear, que os conservativos que controlam as diretivas políticas dos Estados Unidos tem a intenção de deslanchar, simplesmente através de responder, a altura, a guerra econômica de Washington.

Tanto a Rússia quanto a China não deveriam dar avisos prévios. Aqui exige-se ação determinada. Agir passo a passo não seria o suficiente. A descarga deverá ser solta de vez. Com 4 U.S. bancos mantendo os papéis denominados “derivados” – os quais totalizam em muitas vezes o PIB do mundo – a explosão financeira seria equivalente a uma nuclear.

USA estaria terminado e o mundo salvo.

Larchmonter tem razão. 2015 pode ser um muito bom ano.

***

Paul Craig Roberts, “Washington Has Shaped 2015 to Be a Year of Conflict. The Conflict Could Be Intense”- Strategic Culture Foundation, 29-12-2014.

Traduzido e síntese por Anna Malm, artigospoliticos.com, para Mondialisation.ca

A mídia brasileira está usando o sangue do Charlie em causa própria

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Enquanto isso, no Brasil…

Um jornalista britânico pergunta, no Independent, se haveria a mesma comoção se o atentado contra o Charlie Hebdo tivesse como alvo uma publicação de extrema direita.

Respondo com uma pergunta.

Alguém consegue imaginar uma marcha, no Brasil, que congregue pessoas emocionalmente arrasadas que segurem cartazes que digam: “Sou a Veja?” Ou mesmo: “Sou a Globo?” Ou ainda: “Sou a Folha?”

Ou indo para pessoas físicas. Feche os olhos e veja multidões com cartazes assim: “Eu sou Jabor”. Ou: “Eu sou Merval”. Ou: “Eu sou Reinaldo Azevedo”. Ou: “Eu sou Sheherazade”.

A direita tem poder e dinheiro, mas não comove ninguém. Não muito tempo atrás, festas nas ruas celebraram na Inglaterra a morte de Margaret Thatcher.

Testemunhei uma delas, em Trafalgar Square, berço da majestosa coluna de Nelson, o almirante que impôs a primeira grande derrota à França de Napoleão.

As grandes empresas de jornalismo do Brasil e seus porta-vozes – os reais chapas brancas da mídia — são o exato oposto do Charlie. Defendem um mundo de privilégios que provocava vômitos mentais nos cartunistas mortos.

Isso não tem impedido a mídia brasileira de usar a tragédia do Charlie, cinicamente, em causa própria.

O sangue dos cartunistas franceses vem sendo utilizado sobretudo para barrar a discussão em torno da regulação da mídia no Brasil.

A liberdade de expressão pela qual morreram os jornalistas do Charlie seria, aspas, e pausa para uma gargalhada, ameaçada pela regulação.

Já que falamos de Nelson, evoquemos também Wellington, o herói inglês de Waterloo: quem acredita nisso acredita em tudo.

A “liberdade de expressão” pela qual se batem as empresas jornalísticas brasileiras pode ser resumida assim: vale tudo para defender os próprios privilégios.

Você pode assassinar reputações sem prova e sem consequências jurídicas. Você pode usar concessões públicas como rádios e tevês como arma de propaganda contra ideias e pessoas que representam ameaças, reais ou imaginárias, às mamatas. Você pode concentrar o direito à opinião em quatro ou cinco famílias. Você pode formar monopólio impunemente.

Você pode tudo, em suma – e sem contrapartida. Numa disputa com dois barões da mídia na década de 1930, o então premiê britânico Stanley Baldwin produziu uma frase ainda hoje amplamente citada no Reino Unido.

Depois de dizer que os jornais de ambos eram na realidade “máquinas de propaganda” para servir a interesses pessoais, e não públicos, Baldwin afirmou: “O que os donos desses jornais querem é poder, mas poder sem responsabilidade, coisa que no correr dos tempos tem sido o atributo das marafonas.”

De Baldwin para cá, a opinião pública inglesa esteve constantemente vigilante em relação aos barões da mídia.

O último deles, Rupert Murdoch, virou um pária social depois que os ingleses souberam os métodos que um jornal seu empregava para obter furos.

Sob a fúria da opinião pública, Murdoch foi obrigado a fechar o jornal, e jamais voltou a ter um vestígio do poder e da influência que tivera na Inglaterra.

Ainda em consequência do escândalo, a Inglaterra se pôs a discutir, prontamente, uma nova regulação da mídia. Os detalhes finais estão sendo elaborados, mas essencialmente foi decretado o fim da auto-regulação por ter se provado pateticamente ineficaz.

No Brasil, não chegamos ainda, neste terreno, aos anos 1930 de Baldwin.

Que presidente brasileiro ousou dizer a barões – e à sociedade, principalmente — as verdades que Baldwin disse?

Diversos ocupantes do Planalto não apenas silenciam como patrocinam os barões com o Bolsa Imprensa, o dinheiro público farto e constante que sempre abastece as grandes empresas na forma de publicidade federal.

É esse estado de coisas que a mídia está defendendo mais uma vez, com o caso do Charlie – e não, não e ainda não a “liberdade de expressão”.

Pepe Escobar: Quem se beneficia com o assassinato de Charlie?

Por Pepe Escobar | Via Rede Castor Photo

Putin é culpado. Desculpe, mas não foi Putin. Afinal de contas: quem atacou no coração da Europa não foi a Rússia. Foi um comando de estilo pró-jihadi. A quem o crime beneficia? Cui bono?

Planejamento e preparação cuidadosos; Kalashnikovs; foguetes lançadores de granadas; balaclavas; coletes à prova-de-balas estampados com camuflagem de deserto e estofados com revistas velhas; botas de uso do exército; fuga, que parece a cereja do bolo: num Citroen preto. E o toque final no bolo mortal: apoio logístico perfeito, sem falhas para a execução do ataque, em Paris. Um ex-comandante militar francês, Frederic Gallois, chamou atenção para a aplicação perfeita da “técnica de guerrilha urbana” (onde se metem aqueles notórios “especialistas” ocidentais em contraterrorismo, quando se precisa deles?).

Para uns, falavam francês perfeito; para outros, francês arrevesado. Seja como for, o que interessa é que pronunciaram a palavra mágica: “Somos a Al-Qaeda”. Melhor ainda: disseram a um homem na rua: “Diga à mídia que é a Al-Qaeda no Iêmen”, o que significa, na terminologia do terror norte-americano, Al-Qaeda na Península Árabe [orig. al-Qaeda in the Arab Peninsula (AQAP)], que mantinha o cartunista e editor de Charlie Hebdo, Stephane Charbonnier (“Charb”), numa lista de alvos devidamente promovida pela revista Inspire, publicada em papel caríssimo, da AQAP. Acusação: “Insultar o Profeta Maomé”.

E para garantir que todos ficassem com os perpetradores bem impressos na memória, os assassinos também disseram “Allahu Akbar”, “Matamos Charlie Hebdo” e “Vingamos o Profeta”.

Caso resolvido? Ora, em apenas poucas horas a Polícia francesa já havia identificado dois suspeitos (de sempre?): os irmãos franco-argelinos Said e Cherif Kouachi. O terceiro homem – o suspeito de dirigir o Citroen preto, 18 anos, Hamyd Mourad – logo se apresentou à polícia com um álibi indestrutível. Significa que o terceiro homem permanece não identificado.

Os irmãos Cherif Kouachi, 32 (E) e Said Kouachi, 34

Todos usavam balaclavas. Os irmãos Kouachi não foram capturados. Mas a Polícia parece saber muito bem quem são. Porque encontraram um documento de identidade esquecido no Citroen preto (é a correria de executar atentado terrorista bem na hora do rush). Como é possível que ninguém soubesse de nada antes da carnificina?

Não demorou para a biografia de Cherif Kouachi aparecer em todos os jornais e telas. Estava numa lista global de procurados. Com seis outros, foi condenado em maio de 2008 a três anos de prisão por “terrorismo”. De fato, entregou uma dúzia de jovens franceses, através demadrassas no Egito e na Síria, a ninguém menos que Abu Musab al-Zarqawi, o ex-chefe da Al-Qaeda no Iraque morto por um míssil dos EUA e pai espiritual do Estado Islâmico/ Daesh/ ISIS/ ISIL.

Também imediatamente, já havia uma narrativa completa, pronta para consumo de massas. O ponto-chave: a Polícia francesa privilegia a hipótese de “terrorismo islâmico”. Segundo “especialistas” da Polícia, pode ter sido ataque “ordenado do exterior e executado por jihadistas que retornaram da Síria e escaparam à Polícia”, ou podem ser “idiotas da periferia que se autorradicalizaram e conceberam esse ataque militar em nome da Al-Qaeda”.

Esqueçamos a opção dois, por favor: é claro que foi serviço de profissionais. E se se considera a opção um, a coisa aponta – e que mais poderia ser? – para revide. Sim. Podem ter sido mercenários do Daesh/ISIS/ISIL treinados pela OTAN (detalhe crucialmente importante: a mesma OTAN da qual a França é membro) na Turquia e/ou na Jordânia. Mas a coisa pode também ser ainda mais imunda, porque pode, sim, ser operação “doméstica”, mascarada sob falsa bandeira, obra de agentes passados ou atuais de Forças Especiais francesas.

Culpe o Islã!

Como se podia prever, os divulgadores-promotores do islamofascismo estão em altíssima rotação, aproveitando o dia/semana/mês/ano. Para trolls/hordas e imbecis em geral, que se orgulham do próprio QI abaixo de protozoários, se há dúvidas, demonize o Islã. É tão conveniente esquecer que milhões nunca contabilizados nas áreas tribais do Paquistão e pelos mercados de rua no Iraque continuam a padecer a mesma dor devastadora nos corações e mentes, porque também são vítimas descartáveis do pensamento jihadista – “cultura de Kalashnikov”, como se diz no Paquistão – que beneficia sempre diretamente ou indiretamente o “ocidente”, já há décadas. Pensem nos drones norte-americanos que dronam ritualmente, sem parar, civis paquistaneses, iemenitas, sírios e líbios. Pensem em Sadr City, que conheceu carnificinas mais de dez vezes piores que a de Paris.

O que o presidente francês François Hollande definiu como “ato de barbarismo excepcional” – e é – não se aplica quando o “ocidente, com a França na linha de frente, do rei Sarkô ao general Hollande em pessoa, arma, treina e controla por controle remoto degoladores/ mercenários que “operam” sem parar, da Líbia à Síria. Ah, sim! Matar civis em Trípoli ou Aleppo é perfeitamente normal. Atrevimento é matar civis em Paris.

Por tudo isso, e no coração da Europa, é revide. As pessoas nos Waziristões sentem-se exatamente assim, quando uma festa de casamento é incinerada por um míssil Hellfire. Paralelamente, é absolutamente impossível que a oh-tão-sofisticada rede ocidental de inteligência não tenha sabido que o revide estava sendo preparado – e que nada tenha feito para impedir que se consumasse (como é possível que os bodes expiatórios da hora, os irmãos Kouachi, não estivessem presos?).

É claro que a ultra-complexa e elaborada rede ocidental de contraterrorismo – tão eficiente para nos pôr nus em todos os aeroportos – sabia que a coisa estava sendo preparada; mas na guerra-de-sombras, a “al-Qaeda” é organização guarda-chuva, com miríades de nomes derivados, inclusive o “renegado” Daesh/ ISIS/ ISIL, todos usados como exército mercenário e conveniente ameaça doméstica ativa “contra nossas liberdades”.

Quem lucra mais?

A think-tank-lândia norte-americana, também previsivelmente, está ocupadíssima divulgando o drama de uma “divisão intra-muçulmanos” que dá muito espaço geopolítico a ser explorado pelos jihadistas – e, isso, para sugar o mundo ocidental para dentro de uma guerra civil muçulmana. É ideia absolutamente ridícula.

O Império do Caos, já durante os anos 1970s, andou ocupadíssimo cultivando a cultura jihadi/ Kalashnikov, para lutar contra qualquer coisa, da URSS a movimentos nacionalistas em todo o Sul Global. “Divide e governa” sempre foi usado para soprar as chamas das guerras “intra-islâmicas”, desde o governo Clinton tornando-se íntimo dos Talibã, até o governo Cheney – ajudado pelos vassalos do Golfo Persa – trabalhando para inflar o cisma sectário que separaria sunitas e xiitas.

Cui Bono – quem mais se beneficia? – com o assassinato de Charlie? Só todos cuja agenda é a demonização do Islã. Nem os fanáticos mais descerebrados encenariam aquela carnificina na redação de uma revista francesa, só para mostrar às pessoas que os acusam de ser bárbaros que eles são, sim, bárbaros. A inteligência francesa, pelo menos, já concluiu que não foi coisa de explosivos grudados na cueca: foi trabalho de profissionais. E acontece exatamente poucos dias depois de a França reconhecer o estado palestino. E poucos dias depois de o general Hollande exigir o fim das sanções contra a “ameaça” russa.

Os Masters of the Universe que movimentam as alavancas reais do Império do Caos estão enlouquecendo ante o caos sistêmico que já está generalizado e que eles, até há bem pouco tempo, ainda tinham a ilusão de que controlavam. Que ninguém se engane: o Império do Caos fará o que puder para explorar o ambiente pós-Charlie – e seja revide ou operação ‘’interna’’ clandestina.

O governo Obama já está mobilizando o Conselho de Segurança da ONU. O FBI está “ajudando” os investigadores franceses.

Como disse, em formulação memorável, um analista italiano, os jihadistas não invadiram a sede de um fundo-abutre: atacaram a sede de uma revista de sátiras. É claro que não se trata de religião: trata-se de geopolítica linha duríssima. Faz-me lembrar David Bowie:“This is not rock’n roll. This is suicide” [Não é rock’n roll. É suicídio].

O governo Obama já está mobilizado para oferecer “proteção” – à moda máfia – a uma Europa Ocidental que já está começando (só começando) a divergir da ideia pré-fabricada da tal “ameaça” russa. E bem nesse instante, quando o Império do Caos mais precisa, eis que o maligno “terô” [“terror”, como Bush pronuncia a palavra (NTs)] mais uma vez ergue a cabeçorra.

Mas, sim, #souCharlie. Não só porque eles nos faziam rir, mas porque foram usados como cordeiros sacrificiais numa imunda, muita imunda, suja, terrível, infindável, guerra de sombras.

Tradução: Vila Vudu

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Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.

Charlie Hebdo e a moral dupla do Ocidente

Por Rennan Martins | Vila Velha, 09/01/2015

A França e o mundo assistiram em choque o ataque de extremistas à redação do semanário satírico Charlie Hebdo. Armados de fuzis AK-47, dois homens que o governo francês alega serem franco argelinos invadiram a sede da publicação por volta das 11:30 locais e assassinaram oito jornalistas, dois policiais, um visitante e um transeunte que se encontrava nas imediações do prédio.

No momento que traço estas linhas a imprensa corporativa dá ampla cobertura ao cerco que a polícia francesa fez a fábrica onde dizem estar os suspeitos com reféns. A ostensiva busca realizada nas horas subsequentes mobilizou 88.000 homens das forças de segurança.

Conhecida por um humor corrosivo e politicamente incorreto, Charlie Hebdo possui cerca de três décadas de história na qual publicou charges que atingem e por vezes ofendem a diversos setores da sociedade. Apesar de ligada à extrema-esquerda, a revista muitas vezes se alinhou a pura intolerância em desenhos islamofóbicos e anti-minorias.

Independente do quão desrespeitosos e ofensivos eram os cartoons, é fundamental deixar claro que este atentado é injustificável, monstruoso e que só alimenta ainda mais a violência. Essencial também é lembrar que o terrorismo islâmico mata sobretudo os próprios muçulmanos. Em entrevista à Revista Fórum, o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, explana:

“No ano passado, foram 18 mil pessoas mortas no mundo por atentados terroristas – são dados oficiais. Quantas pessoas morreram na Europa? Nenhuma. Quantos atos terroristas foram praticados por islâmicos na Europa? Nenhum. Houve vários atentados terroristas na Europa, classificados oficialmente como terrorismo, a grande maioria atribuída a grupos separatistas, e nenhum islâmico. Há um exagero da ameaça islâmica. Há muito preconceito e pouca informação.”

Preocupante, no entanto, é a postura das lideranças ocidentais e a narrativa promovida pela imprensa hegemônica. A abordagem das autoridades e dos veículos evidencia o quão hipócrita e circunstancial é a moral em voga.

Todo o teatro teve reinício e mais uma vez se fala nos EUA e aliados como baluartes da democracia e justiça, restando ao “mundo islâmico” o papel de povo que inveja nossas “liberdades”. A Globo News gasta longos minutos falando de controle de fronteiras, fazendo o jogo fácil de colar na testa do estrangeiro a alcunha de mal. Ora, os suspeitos Chérif e Said Kouachi nasceram na França, são apenas descendentes de árabes. No que o recrudescimento da fiscalização auxiliaria?

É preciso evidenciar os dois pesos e medidas com que a OTAN trata o terrorismo, o uso político que fazem do fenômeno. A população tem o direito de saber que o ocidente tem parte e alimenta o terror quando este convém a seus objetivos geopolíticos.

A Al Qaeda era insignificante até serem financiados e treinados, ainda nos anos 80, pela inteligência norte-americana. Enquanto as ações do talibã serviam aos interesses de desestabilizar o arquirrival, à época a URSS, Bin Laden era retratado como guerreiro da liberdade.

A grande mídia não é exemplo de independência, pratica autocensura e até mesmo espalha mentiras quando estas servem ao Poder. Não nos esqueçamos que a Guerra no Iraque foi legitimada por diversos boatos sobre inexistentes armas de destruição em massa amplamente veiculados por nossos “jornalistas”. Esta intervenção vitimou mais de 110.000 civis.

O Estado Islâmico ganhou poderio e atualmente se consolida, mas somente teve condições para isso após os EUA e as monarquias sunitas locais os financiarem largamente no intuito de que a desestabilização promovida gerasse dividendos geopolíticos e econômicos. O EI só foi alçado a condição de “ameaça a civilização” após passarem a atuar em regiões inconvenientes.

No mesmo dia do ataque à Charlie Hebdo, a Agência Efe informa que os jihadistas do Boko Haram mataram centenas de pessoas na cidade de Baga, nordeste da Nigéria. Onde estão o repúdio e horror das autoridades? As vítimas nigerianas são de menor valor?

A sociedade civil precisa abrir os olhos e se mobilizar para impedir que esse atentado seja instrumentalizado pela extrema-direita, que já se movimenta para avançar na agenda bélica e xenófoba. Como diz o brilhante professor Chomsky, a melhor forma do ocidente combater o terrorismo é deixando de promovê-lo.