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Kobane liberada: Forças curdas expulsam o Estado Islâmico da cidade

Por Joris Leverink | Via Passa Palavra

Depois de 134 dias de resistência, as forças curdas do YPG/YPJ finalmente expulsaram o Estado Islâmico para fora de Kobane. Embora a batalha tenha sido ganha, a luta continua.

Hoje, a resistência curda e seus camaradas de Kobane conseguiram o inimaginável: expulsar os combatentes do Estado Islâmico (ISIS) da cidade.

Depois de 134 dias de batalhas ferozes entre as forças curdas do YPG (Unidades Populares de Defesa) e do YPJ (Unidades Femininas de Defesa), tropas Peshmerga e elementos do Exército Sírio Livre por um lado, e do ISIS, por outro lado, parece que os últimos bairros da cidade que estavam sob controle dos militantes jihadistas foram finalmente libertados.

Enquanto o porta-voz oficial do YPG, Polat Can, anunciou a liberação completa da cidade via Twitter, as mídias sociais estão fervilhando com imagens de combatentes da resistência comemorando, tanques do ISIS queimados e, claro, a icônica bandeira vermelha, verde e amarela do TEVDEM, o Movimento por uma Sociedade Democrática, tremulando no topo da Mishtenur, a colina estrategicamente importante com vista para a cidade.

O avanço do ISIS sobre Kobane se iniciou em meados de setembro, quando suas forças conseguiram conquistar, em questão de dias, a região rural ao redor da cidade, antes de marcharem sobre o próprio centro urbano. No processo, centenas de milhares de pessoas foram forçadas a sair de suas casas, fugindo em terror dos jihadistas fortemente armados, que deixavam pouco pelo caminho a não ser carnificina e destruição.

Cerca de 260 mil pessoas procuraram refúgio na fronteira com a Turquia, mas várias centenas de combatentes da resistência ficaram para trás para proteger a cidade. Com pouco mais a não ser seus fuzis AK-47 e uma firme determinação para deter o avanço do ISIS em Kobani, os homens e mulheres do YPG/YPJ conseguiram evitar o ISIS de adicionar mais uma cidade à sua longa lista de vitórias militares nos últimos meses.

A resistência dos combatentes curdos contra o ISIS foi prejudicada pelas políticas da vizinha Turquia, que manteve a sua fronteira com a cidade sitiada hermeticamente fechada, impedindo que qualquer ajuda chegasse até a resistência, enquanto, ao mesmo tempo, muitas fontes e observadores fizeram menção de seu suposto apoio militar, logístico e médico aos jihadistas.

Nos últimos meses, os combatentes curdos e seus apoiadores da região e de todo o mundo se reuniram no lado turco da fronteira para expressar seu apoio e solidariedade com a resistência. A batalha em Kobane não só destacou a eficácia das milícias curdas como uma das poucas forças armadas na região capaz de combater o ISIS, mas, mais importante, trouxe a atenção global para a difícil situação do povo de Rojava e sua revolução social focada em democracia direta, igualdade de gênero e sustentabilidade ambiental.

Embora a vitória em Kobane seja, sem dúvida, de importância crucial para a guerra contra o ISIS e uma razão importante para a celebração, deve ser salientado que a luta está longe de terminar. A maioria das mais de 300 aldeias que fazem parte do cantão de Kobane permanecem sob o controle do ISIS e, enquanto este continua a ser o caso, a grande maioria dos refugiados na Turquia não será capaz de voltar para suas casas.

Além disso, a cidade libertada de Kobane agora está em ruínas. Os contínuos bombardeios de morteiro, tiros de artilharia pesada e ataques com carros-bomba do ISIS, combinados com os bombardeios aéreos da coalizão liderada pelos EUA alvejando posições do ISIS na cidade, destruíram bairros inteiros.

A libertação de Kobane é uma vitória de importância do ponto de vista da estratégia militar. Mas mais importante: é uma vitória simbólica da democracia sobre o autoritarismo; do pluralismo sobre o fascismo; da liberdade sobre a repressão – e, acima de tudo, uma vitória que mostrou ao mundo o verdadeiro poder daqueles que lutam pela libertação genuína em oposição ao fanatismo daqueles que lutam por pouco mais que crenças fraudulentas.

Enquanto Kobane estava sob cerco, nos cantões vizinhos de Afrin e Cezire a revolução continuou: conselhos populares foram criados, cooperativas de trabalhadores foram desenvolvidas e as mulheres começaram a participar ativamente nos processos decisórios que lançam as bases para uma nova sociedade onde o poder é exercido pelos de baixo e não pelos de cima.

O grande desafio para o povo de Kobane e, possivelmente, um teste crucial para a força da revolução está à frente: não só a cidade, mas toda uma sociedade terá que ser reconstruída praticamente do zero.

O povo de Kobane provou sua força no campo de batalha e sua heróica resistência contra todas as probabilidades tornou-se um farol de esperança para todos os que creem que a luta contra as forças repressivas do fascismo, sob qualquer forma, pode ser vencida.

A atenção internacional que a batalha de Kobane recebeu pode agora ser usada para mostrar ao mundo que o povo de Rojava não está apenas liderando o caminho na luta contra o extremismo do ISIS, mas também na luta contra as forças do imperialismo, do capitalismo e do patriarcado que têm dado origem a muitos dos males que assolam atualmente as sociedades de todo o mundo – e no Oriente Médio, em particular.

Bijî Berxwedane Kobani!

Bijî Berxwedane YPG!

Bijî Berxwedane YPJ!

Bijî Berxwedane Rojava!

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Joris Leverink é um jornalista freelancer correspondente em Istambul, editor da ROAR Magazine e colunista da TeleSUR em inglês.

Traduzido pelo Passa Palavra. O original encontra-se disponível aqui.

Cúpula da Celac discute redução de pobreza, índice estagnado na região há dois anos

Por Vanessa Martina Silva | Via Opera Mundi

Reunido na Costa Rica, bloco cogita aproximação com China, que possui elevadas taxas de crescimento, para conseguir manter investimentos sociais em meio à crise econômica.

Presidente dos 33 países que integram a Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos) se reunirão de quarta (28/01) a quinta-feira (29/01) na Costa Rica na 3ª reunião de cúpula do bloco para debater, entre outros temas, a redução da pobreza. Considerado um dos maiores trunfos dos governos da região nas últimas décadas, o combate à miséria está estagnado desde 2012, de acordo com informe recente divulgado pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe).

Coordenadores nacionais dos 33 países estão reunidos desde domingo (25/01) na Costa Rica. Agência Efe

De acordo com o estudo da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e o Caribe) divulgado nesta segunda-feira (26/01) com dados de 2014, 28% da população da América Latina está em situação de pobreza, ou 167 milhões de pessoas. Em 2002, 48,4% dos latino-americanos eram pobres, mas após expressiva redução, o índice não sofre alteração desde 2012. A entidade, assim como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), foi convidada a participar da reunião da Celac.

Esse será o principal assunto debatido na Costa Rica, justamente em um momento em que os países da região enfrentam redução nos níveis de crescimento de sua economia. De acordo com o Banco Mundial, houve uma desaceleração de 0,8% na economia dos países, que afetou principalmente os sul-americanos, como é o caso de Venezuela, Argentina e Brasil.

Dessa forma, os presidentes trocarão informações e experiências entre os integrantes do bloco e debaterão alianças possíveis com países fora da região para auxiliar a meta de erradicar a pobreza.

Analistas declaram que redução do crescimento da região pode afetar políticas de redução da pobreza. Agência Efe

O chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, disse que a Celac irá propor como meta transformar a região em zona livre de pobreza extrema. Segundo Patiño, para atingir tal objetivo é necessário aproximar-se da China, que segue com elevadas taxas de crescimento econômico e tem sinalizado uma aproximação da América Latina, como ficou evidente com a realização do fórum China-Celac, realizado no começo do ano, quando o presidente chinês, Xi Jinping, anunciou que vai investir na região US$ 250 bilhões em dez anos.

Brasil na Celac

Com participação confirmada pelo Itamaraty, a presidente brasileira, Dilma Rousseff, vai debater alguns resultados alcançados com os principais programas sociais desenvolvidos ao longo do seu primeiro governo e que permitiram ao país retirar milhões de pessoas da pobreza, e o país do Mapa da Fome Mundial, além de elevar o poder aquisitivo da população.

De acordo com o subsecretário-geral da América do Sul, Central e Caribe do Itamaraty, embaixador Antônio Simões, “além dos avanços em políticas sociais, a delegação brasileira aproveitará a oportunidade para discutir com os outros países a possibilidade de intensificar a cooperação nas áreas de agricultura familiar, direito dos afrodescendentes, desenvolvimento sustentável e energético”.

Declarações de Simões sobre a Celac:

Bloqueio a Cuba e terrorismo

Outro tema que deverá ser debatido na cúpula é a aprovação de uma resolução sobre a necessidade de acabar com o bloqueio econômico e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba.

O tema, será debatido com a presença do presidente cubano, Raúl Castro, que já chegou na Costa Rica e se reunirá pela primeira vez com seus homólogos desde que anunciou a retomada das relações diplomáticas com os Estados Unidos, fato também saudado pelo texto aprovado previamente.

O documento, que será submetido aos mandatários, também pede que o presidente dos EUA, Barack Obama, tome todas as medidas que estão ao seu alcance para modificar substancialmente a aplicação do bloqueio contra Cuba.

Em outro projeto de declaração, os chanceleres também se pronunciaram energicamente sobre a necessidade de excluir Cuba da lista dos países que promovem terrorismo, mantida pelo Departamento de Estado dos EUA.

Por quê o Brasil abraça enquanto a Europa se afasta da austeridade?

Por Rennan Martins | Vila Velha, 26/01/2015

Da Grécia sopram os renovadores ventos do Syriza, que elegeu o maior número de cadeiras do parlamento e deve indicar Alexis Tsipras para o cargo de primeiro-ministro. Tendo como principal bandeira o repúdio as “reformas” e a austeridade, os gregos têm agora a oportunidade de trilhar um novo caminho e provar que economia não é somente fazer sacrifícios ao Mercado e esperar a mão invisível agir.

A própria Europa lentamente se afasta do receituário neoliberal, a despeito das objeções de Berlim e sua dura mandatária, Angela Merkel. O Banco Central Europeu anunciou que a partir deste mês de março até setembro de 2016 injetará no mercado 60 bilhões de euros mensais por meio da compra de dívidas públicas e privadas, principalmente dos bancos, pivôs da quebradeira de 2008.

Caminhando no sentido oposto estamos nós, Brasil. Capitaneados pelo garoto de Chicago, Joaquim Levy, tiveram início os cortes de gasto público, aumento de juros e impostos e “flexibilização” de direitos trabalhistas. Enquanto a presidenta estava prestigiando a posse do colega Evo Morales na Bolívia, nosso superministro dizia à plutocracia que o modelo de seguro-desemprego brasileiro está “completamente ultrapassado”.

Os observadores mais atentos notaram este movimento aparentemente contraditório, onde o velho continente ensaia políticas expansionistas tentando incentivar a produção, emprego e renda, enquanto por aqui abraçamos a cartilha das reformas liberalizantes. Ora, se na imprensa nos ditam que a economia é a ciência do inexorável, que cabe ao cidadão somente aceitar os desígnios dos oráculos, como entender este giro?

Há pouco mais de cinco meses redigi um artigo intitulado “A aparente contradição do setor financeiro” onde, pela análise de trechos do Financial Times e Valor Econômico daqueles dias já se notava que o onisciente Mercado exigia ajuste e arrocho para o Sul Global e expansionismo aos desenvolvidos.

À época conferimos os dados da dívida pública em relação ao PIB destes países, pois, nos ensinam que o critério do quanto pode dispor um Estado é diretamente ligado a sua situação fiscal, ou seja, quanto, proporcionalmente, de tudo que se produz em um ano num país equivale a seu endividamento.

O portal Trading Economics oferece uma didática tabela onde podemos comparar este quesito entre várias nações ao redor do planeta. Olhemos então a situação do Brasil em comparação a alguns europeus, exemplos de países sensatos quando o assunto é economia, segundo a imprensa hegemônica.

Em dezembro de 2013 a relação dívida/PIB brasileira era de 56,8%. Na França temos 92,2%, Alemanha? 76,9%, a Itália deve 132,6% de tudo que produz, enquanto a Grécia está na impressionante cifra de 174,9%.

Ora, conforme as aulas de senhores como o global Sardenberg, a macroeconomia funciona como as finanças familiares ou pessoais. O que faz uma pessoa ou família quando se endivida? Um ajuste, corta aqui e ali para sobrar receita que cubra a dívida contraída. Diante disso, pergunto. Quem é o mais indicado para um ajuste segundo os números expostos? Porque os europeus não conseguiram pagar suas dívidas e retomar o crescimento depois de tantos anos ajustando?

A macroeconomia não é equivalente às finanças pessoais nem familiares, essa comparação é somente um artifício que ajuda a enfiar goela abaixo do cidadão o arrocho. Quando o Estado, principal agente econômico de um país, faz cortes, a demanda interna cai, este declínio é notado pelo empresariado que também segura o investimento, afinal, porque produzir se há recessão? Ninguém se propõe a investir quando a demanda correspondente, que dará o retorno financeiro, é incerta.

A Europa tenta, com as medidas expansionistas, aquecer o mercado por meio do aumento da demanda, que incentivará a produção e também o pagamento de impostos, que poderão por sua vez sanear a considerável dívida que possuem. Porém, neste quadro há um ardil do capital financeiro, demais habituado a especular, a lucrar com atividades que em nada contribuem para a mesa e o bem-estar da sociedade.

O dinheiro público que a partir de março pagará as contas privadas dos bancos encontrará fértil terreno nos países que seguem a cartilha da “confiança” no mercado. Aqui no Brasil o capital estrangeiro vê um país de altíssimas taxas de juros liderado por um ministro da Fazenda dedicado a fazer todas as vontades da plutocracia.

Temos então que o dinheiro da expansão europeia aqui aplicado numa generosa Selic de 12,25% renderá gordos dividendos aos banqueiros. Notaram o movimento? O BCE cede ao capital financeiro os recursos do afrouxo quantitativo, este é deslocado para locais onde o rentismo é bem remunerado, como no Brasil ou na Rússia, os bancos então enchem a burra sem nada produzir. Neste ínterim, fiquemos com a nova regra econômica que o professor Belluzzo sabiamente denunciou: “o povo que se lixe”.

“Davos é apenas mais um instrumento de articulação dos interesses capitalistas”: Entrevista com Flavio Lyra

Por Rennan Martins | Vila Velha, 22/01/2015

O glamouroso Fórum Econômico Mundial de Davos iniciou ontem e são previstas atividades até o próximo sábado. Todo ano os magnatas se juntam nos alpes para de discutir seus interesses e promover a imagem de suas empresas, aproveitando é claro pra dar os já desacreditados discursos de que possuem algum compromisso com o mundo que lhes cerca.

Enquanto isso, a desigualdade atinge níveis ainda mais alarmantes, as projeções da Oxfam – ONG especializada em estudos de riqueza e desigualdade – são de que em 2016 o 1% ultrapassará os 99% em riqueza absoluta, concentradíssima. Aqui no Brasil diversos analistas muito bem adestrados, defensores incondicionais da plutocracia, perdem tempo com críticas a presidenta por conta dela ter preferido a posse de seu colega e presidente da Bolívia, Evo Morales, ao Fórum dos privilegiados.

Para discutir a conjuntura internacional e os dilemas da economia neste ano ainda em início, entrevistei o doutor em economia pela Unicamp, Flavio Lyra. O heterodoxo Lyra duvida da capacidade do Fórum de dar respostas concretas aos problemas socioeconômicos atuais, faz pesadas críticas a guinada conservadora da política econômica nacional e crê que ela acarretará em recessão e desemprego.

Confira:

Diante dos novos rumos que o ministro Joaquim Levy tem dado a economia, o Brasil se aproxima ou afasta do Fórum de Davos? Quais são as vantagens e desvantagens de se alinhar aos ditames ortodoxos?

Tanto na teoria, quanto na prática o pensamento neoliberal está em profunda crise, pois já não consegue dar respostas minimamente convincentes para a grande e crescente concentração da riqueza e da renda no mundo e para a incapacidade das economias desenvolvidas de se manterem crescendo, haja vista a estagnação da Europa e do Japão e a, ainda,, indefinida situação dos Estados Unidos. O Forum de Davos vai ter que dar muitas cambalhotas para tentar desvencilhar-se do contundente discurso de Thomas Piketty, em seu já famoso “Capital no Século XXI”, que mostra claramente a forte propensão à concentração da renda e da riqueza no mundo. Isto num contexto de estagnação econômica.

O ministro Joaquim Levy e os ortodoxos que o cercam, meteram-se numa grande arapuca, porquanto, escravos de um pensamento econômico em crise, estão sendo chamados a dar resposta a problemas para os quais não estão preparados, pois o desgastado discurso da austeridade fiscal está desmoralizado pela experiência recente da Europa. Até parece que Dilma, agiu maquiavelicamente, ao entregar Levy a corda para ele se enforcar, pois não dá para vislumbrar nenhuma chance de recuperar o crescimento da economia brasileira com um choque fiscal que vá diminuir a demanda interna num momento de estagnação do comércio internacional e de baixa competitividade da indústria brasileira. Quando a crise se aprofundar, Levy corre o risco de ser enxotado pela mesma elite que ainda está batendo palmas por sua designação para o comando da economia. É uma questão de meses.

Os neoliberais mais espertos já estão preparando o discurso para se defenderem do fracasso do “arrocho fiscal”. Uns, como Monica de Bolle, já afirmam que é preciso maior abertura da economia, outros estão dizendo que é preciso realizar mais ajustes microeconômicos, sem o que a situação pode piorar. A verdade, é que já estão colocando os salva-vidas para quando o barco afundar. Se os economistas heterodoxos nos chegam a parecer confusos, por vezes, Os ortodoxos estão inteiramente perdidos, pois não sabem como conciliar os interesses do capital financeiro, aos quais são, indiscutivelmente, submissos e os interesses do capital produtivo crescentemente em dificuldades, face ao excesso de capacidade produtiva na economia internacional.

Como se explica o paradoxo entre o discurso de Dilma durante as campanhas e a prática adotada após a reeleição? Porque o governo deu uma guinada conservadora?

Não vejo uma resposta simples. Minha hipótese é que o grupo político que cerca a presidente percebeu que não havia clima político na sociedade para prosseguir com a orientação que vinha sendo adotada, embora se trate de uma orientação que procurava conciliar aspectos ortodoxos e heterodoxos da política econômica. Entregaram os anéis com medo de entregar os dedos. Uma interpretação maquiavélica, entretanto, não está fora de cogitação: na suposição de que o arsenal de política econômica ortodoxa vai agravar a crise, caberia aguardar o momento propício para retomar as políticas heterodoxas, sob as pressões da sociedade, insatisfeita com o agravamento da crise, Trata-se esta, porém, de uma aposta arriscada, pois o agravamento da crise pode muito bem ser atribuível à gestão de Dilma que, supostamente, não permitiria realizar todos as reformas neoliberais consideradas necessárias.

A presidenta Dilma preteriu o Fórum Econômico a fim de comparecer a posse do presidente boliviano, Evo Morales. O que indica essa atitude? Como podemos interpretá-la?

Dá para supor a intenção de não se comprometer com a política econômica que está sendo colocada em prática, por considerá-la com grande probabilidade de fracassar.

Quais são as perspectivas para a economia brasileira em 2015? É possível retomar o crescimento ainda esse ano?

O quadro recessivo só vai aprofundar com o aumento dos juros, o corte dos gastos públicos e a retração do BNDES. A inflação vai acelerar-se. Mas, tudo isto faz parte do manual neoliberal, que visa atingir o emprego e os salários, na esperança de melhorar a competitividade da produção industrial. Esperança vã, a meu ver, pois a queda da demanda interna vai aumentar os custos unitários.

A indústria brasileira será beneficiada pela subida do dólar? A retração tem chance de ser revertida?

Tenho dúvidas que o dólar vá se valorizar, principalmente agora que a Europa e o Japão vão afrouxar a política monetária para tentar sair da recessão. A recuperação da competitividade da indústria brasileira vai ter que ser buscada pelo aumento do investimento, a inovação tecnológica e a redução de custos dos serviços, inclusive de infraestrutura.

Quais são os efeitos do ajuste econômico que está entrando em vigor?

Vai produzir recessão e gerar um clima de protestos e acirramento dos conflitos entre grupos e classes sociais. Lamentavelmente, o presidente da Fiesp continua pleiteando a redução da carga tributária como a solução dos problemas da indústria.

A ONG Oxfam, especializada em estudos de desigualdade e distribuição de riqueza, afirma que em 2016 o 1% acumulará mais recursos que os 99% restantes da população. Como chegamos a esse ponto? Quando o bolo finalmente será distribuído?

Conforme mostra Thomas Piketty, em seu livro ” Capital no Século XX!”, não há como ser diferente enquanto o crescimento da renda do capital se der a taxa mais alta do que a taxa de crescimento econômico. Mantidas as instituições atuais a renda do capital alcança 5% ao ano, e o crescimento econômico médio, sequer se aproxima dessa taxa. As instituições na etapa atual do desenvolvimento capitalistas estão organizadas para privilegiar a valorização do capital financeiro.

Apesar de a desigualdade ser um tema cada vez mais pautado, pouco se vê de medidas práticas para combatê-la. O debate econômico precisa de mudanças? Que caminhos e ideias precisamos discutir mais?

Não vejo saída para questão da desigualdade, sem mudanças políticas importantes que reforcem a participação da população no poder e nas próprias organizações econômicas. Só o avanço democrático pode abrir espaço para tais mudanças.

O Fórum de Davos tem capacidade de enfrentar os dilemas da segunda maior crise do capitalismo? Porque?

Tenho seríssimas dúvidas! Davos é apenas mais um instrumento de articulação dos interesses capitalistas, para reforçar o poder das grandes corporações internacionais no controle da economia mundial e no fortalecimento do capital privado internacional.

Petrobras: Por que a mídia a transformou de símbolo em ‘Geni’?

Por Helio Silveira e Rogerio Lessa Benemond | Via PDT

A Petrobras se tornou o principal alvo do oligopólio da mídia brasileira por ser vítima de um amplo e longo esquema de corrupção, felizmente descoberto pela atuação livre da Polícia Federal e do Judiciário.

No entanto, de vítima a empresa como um todo passou a ser tratada como “lixo” pelas técnicas da comunicação. Logo a empresa do orgulho nacional descobridora do PRÉ-SAL, garantia e lastro da economia nacional para os próximos 50 anos, é reduzida perante a opinião pública a uma pobre Geni, da “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque.

Às vésperas da eleição no 2ºturno, em um jogo pesado, foi divulgada a notícia que teria vazado do depoimento do ex-diretor da empresa, Paulo Roberto de Costa, segundo a qual Lula e Dilma sabiam dos desvios. Após as eleições, tudo foi desmentido pelo próprio Costa sem maiores consequências para os caluniadores.

2 – A técnica do mar-de-lama

A descoberta dos esquemas de desvios de recursos, nos quais são utilizadas empresas e instituições públicas, tem vindo a público durante os governos petistas. Antes, porém, dificilmente se conseguia quórum para instalações de CPI’s. Tampouco agiam os órgãos do Judiciário ou a Polícia Federal. Hoje, ainda que sejam encerradas quando atingem certo clímax, as CPI’s têm “ensinado” como se desenvolve a sistemática dos desvios.

Lembremos a do “Banestado”, quando nos foi apresentada a arte da transferência ilegal de recursos para o exterior (Alberto Youssef já estava envolvido), lavados para depois voltarem, ou não, travestidos de “investimentos externos”. Ou a da “CPI do Cachoeira” em que o oligopólio das mesmas empreiteiras estava envolvido nas obras públicas engordadas pelo organograma da Copa. Ou a do Mensalão, quando, à falta de uma radical mudança da legislação eleitoral, aprendemos a lógica da “institucionalidade perversa” em que o tripé dos oligopólios (mídia, bancos e grandes empresas, sobretudo empreiteiras) financia políticos e depois recebem retornos na forma de verbas publicitárias, política de juros altos e encomendas-financiamentos oficiais.

A Petrobras estava, sim, sendo utilizada pelo modus operandi do tripé. Tomamos conhecimento dos modos de desvios de recursos através de falsas consultorias e falsas empresas daqui e do exterior. Hoje sabemos como o oligopólio das empreiteiras escolhe previamente a vencedora da licitação e depois distribui partes das encomendas entre as demais. Aprendemos que existe a “indústria do aditivo”, em que o baixo preço vitorioso é depois engordado por diversos aditivos e quanto mais a obra demora mais gordo se tornam os aditivos.

Sim, aprendemos que a Petrobrás estava sendo saqueada, que bom que foi descoberto, vamos acompanhar para que ela seja “higienizada”. Mas vamos ficar em alerta, pois queremos mantê-la NACIONAL. Queremos vê-la reestruturada administrativamente para limpar os malfeitos organizacionais, a excessiva terceirização, os elevados altos salários dos executivos para “acumpliciar” os fracos corações e mentes.

Queremos ver separados o joio (corruptos e corruptores) do trigo (uma Petrobras de excelência e seu eficiente corpo técnico). Não vamos nos deixar enganar pelos mesmos que querem denegri-la, afundá-la no “conto do mar-de-lama”, o mesmo que levou seu criador, Getúlio Vargas, ao suicídio, há mais de 50 anos, para mantê-la viva! Sabemos que existe uma estratégia para privatizá-la porque a Petrobras é operadora e a única a deter o conhecimento da região geológica do PRÉ-SAL.

3 – O que nos escondem ou querem que esqueçamos

Diante da técnica de divulgar à exaustão e até ampliar em manchetes e/ou noticiários, os esquemas sujos, utilizam a estratégia de metralhar diariamente com “lama” a imagem da Petrobras para transformar o orgulho do público em vergonha em relação à empresa.

Emanuel Cancella, diretor do SINDIPETRO RJ, nos lembra que nos vazamentos do Wikileaks os estrangeiros alertavam na ocasião do leilão de Libra para tomar cuidado para não despertar o orgulho nacional (http://www.aepet.org.br/site/faixalivre/pagina/286/Programa-Faixa-Livre-12122014) em relação à empresa para não inviabilizar a operação.

Querem minar o orgulho nacional em relação à empresa cujo corpo técnico foi descobrir petróleo na Bacia de Campos a 2 mil metros de profundidade, nos anos 80 (pós-sal), quando dependíamos fortemente do petróleo, desde a alta de 73 e que nos levou à rendição perante os bancos externos na crise de 82.

Querem minar nosso orgulho pela empresa que, pela genialidade de sua equipe técnica, intuiu que havia petróleo a 7 mil metros de profundidade no PRÉ-SAL e, por ser estatal, investiu US$ 260 milhões no furo exploratório para confirmar a tese. Dificilmente uma empresa privada arriscaria bancar e testar uma tese de seus funcionários!

Querem que esqueçamos que com alguns poços do PRÉ-SAL, conforme Fernando Siqueira vice-presidente da AEPET, já alcançamos reservas de 70 bilhões de barris de petróleo suficiente para atendimento dos próximos 50 anos de nossas necessidades. Fernando Siqueira acredita que o PRÉ-SAL ainda não totalmente dimensionado pode nos revelar reservas de até 300 bilhões de barris. Este é um dos principais objetivos da destruição da imagem da Petrobras. Querem desacreditá-la com a finalidade de privatizar ou transferir a exploração do imenso campo para interesses externos.

Querem que nos esqueçamos que nosso verdadeiro risco como Nação (risco soberano) é o déficit na conta de Transações Correntes, razão de todas as nossas crises: a de 1929, a de 1982 e a de 1998/99. O déficit de 2014 poderá atingir US$ 86 bilhões, um valor arriscado que indica preocupações. No entanto, se atingirmos maiores níveis de reservas ajuda a mitigar o risco soberano!

Querem esconder que a polêmica Refinaria Abreu Lima já está operando e produzindo Diesel, substituindo importações!

Querem nos esconder que os poços do PRÉ-SAL, que diziam ser de complexa exploração, já estão atingindo mais de 400 mil barris/dia.

4 – Petróleo abaixo de US$ 50 o barril inviabiliza o PRÉ-SAL?

O petróleo é a commodity mais estratégica do mundo e para garantir reservas, historicamente, nações foram à guerra e nações foram destruídas. O petróleo é insumo de mais de 3 mil produtos, além da energia dos transportes ainda está inserido na alimentação do gado, nos fertilizantes nos plásticos e borrachas sintéticas e na indústria farmacêutica.

É possível que uma recessão velada no mundo deu a base para a queda da cotação, mas muito provavelmente, o que está acontecendo é “dumping” geopolítico. Existem razões conhecidas para desestabilizar nações produtoras como a Rússia, a Venezuela e o Irã. Mas um choque deflacionário no principal insumo do mundo pode causar efeitos não “desejados” na estratégia política e jogar o mundo de uma recessão velada para uma explícita. O tiro pode sair pela culatra!

Informações técnicas nos garantem que cotações no nível entre US$ 50/60 não inviabiliza o PRÉ-SAL e parece difícil sustentar este verdadeiro “dumping geopolítico” no médio prazo – logo veremos a cotação no nível de pelo menos US$ 70/80.

Mesmo se acontecer uma grande depressão mundial e a cotação cair para níveis muito abaixo de US$ 50 (por exemplo, ao mínimo de novembro de 2008, quando o a cotação atingiu US$ 32,40) ainda assim vale a regra, uma empresa de Estado Nacional, da mesma forma que arriscou, prospectou e achou o PRÉ-SAL com perfuração-teste de US$ 260 milhões, só entraria em falência ou seria desmobilizada por uma decisão política do Estado Nacional.

Antes disso, pode ser capitalizada por decisão estratégica para sustentar um período crítico. Ainda poderia mais, por exemplo adquirir posições acionárias estratégicas no setor de petroquímica a preços baixos, para aguardar a retomada econômica. Em setembro de 2001, o governo dos EUA adquiriu ações das companhias aéreas e vendeu tempo depois com bons retornos.

5 – O que fazer diante do atual imbróglio policial e jurídico?

5.1 – A diretoria da Petrobras está colocada em suspeição. E oito das dez principais empreiteiras que executam os investimentos físicos da empresa, estão com executivos presos!

5.2 – O baixo nível das cotações do petróleo, prejudica o faturamento e o nível dos negócios!

5.3 – E o endividamento externo, a baixa cotação da ação da empresa, as investigações pela SEC dos EUA podem causar o rebaixamento do “rating” e a exigência de pagamento antecipado, colocando a empresa como insolvente!

Entendemos que a Petrobras está em situação emergencial e de risco máximo, encontra-se paralisada e isso poderá levá-la a uma situação extrema. É a situação que desejam os interesses difusos internos e externos que querem vê-la afundada no mar-de-lama e impedida de desenvolver a exploração do PRÉ-SAL!

Quer dizer, então, que aqui no Brasil estamos condenados sempre a ver malfeitos nas encomendas públicas? O advogado e professor de direito Modesto Carvalhosa diz que não e apresenta em sua elucidativa entrevista ao programa Roda Viva em 15-12-2014, como usar os mecanismos legais para acabar com a relação perversa entre empresas públicas e empreiteiras nacionais (https://www.youtube.com/watch?v=yxm8136VMW4&feature=youtu.be). A Petrobrás conforme o advogado e professor de direito Modesto Carvalhosa [dos 23 aos 24 minutos] é uma empresa de Estado é o braço operacional do Monopólio Estatal do Petróleo garantido pela Constituição.

Entendemos que ela é a Operadora do PRÉ-SAL, no mínimo em 30%, mas no caso do leilão de Libra, infelizmente, 60% foi garantido para empresas chinesas e europeias. Entretanto, o alvo da cobiça é 100% do PRÉ-SAL!

Não estamos vendo ação do governo e isso nos angustia! A Petrobras está “sangrando” e o Estado seu dono, inerte!

Voltemos ao professor Modesto Carvalhosa citando seus comentários de sua elucidativa entrevista ao programa Roda Viva:

A Petrobras está em situação emergencial e de risco máximo, encontra-se paralisada e isso poderá levá-la a uma situação extrema. No entanto, a Lei Anticorrupção já está em vigência desde fevereiro de 2014 e prevê a punição da pessoa jurídica, independente do dolo dos administradores que serão julgados pelo código penal. Então, o que aparentemente pareceria uma agressão, no caso, à Petrobras, na verdade a defende, uma vez que ao puni-la como também as empreiteiras com multas muitas vezes pecuniárias, pelos contratos dolosos, não as paralisa! E, sejamos realistas, no caso das empreiteiras é melhor puni-las do que as considerarmos inidôneas para futuros contratos com instituições públicas, pois isto garantira automaticamente o mercado público às empreiteiras estrangeiras.

Carvalhosa diz que a lei anticorrupção pode ser aplicada já [dos 3:15 aos 5:00 minutos; dos 10:20 aos 11:30 minutos e dos 47 aos 49 minutos], ao contrário dos membros do TCU/CGU que dizem que falta a regulamentação para aplicação. Isso prejudica o funcionamento normal das empresas com prejuízos para a economia. No caso da aplicação da Lei Anticorrupção permite o Acordo de Leniência (equivalente ao acordo de delação premiada, no caso da pessoa física) o que elimina o risco de dissolução da empresa por parte do Ministério Público.

Carvalhosa, junto com o reitor da Universidade Cândido Mendes do RJ – Cândido Antônio Mendes – e outros, fizeram parte do grupo de notáveis da sociedade civil destacados para a Comissão Especial de Investigação, criada no Governo de Itamar Franco para investigar casos de corrupção e como evitá-las, sobre este episódio, escreveu “O Livro Negro da Corrupção” (disponível em: http://www.muco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=491:relancamos-o-livro-negro-da-corrupcao&catid=41:livro-negro-da-corrupcao&Itemid=60). Ele cita que ao final dos trabalhos e como era final do Governo Itamar, o presidente entregou o trabalho da Comissão ao FHC, o presidente eleito que, conforme Carvalhosa, demitiu a Comissão sem nenhum agradecimento e “arquivou” o relatório final. Carvalhosa cita que a Comissão sugeria a declaração de inidoneidade às empreiteiras contratadas pelo DNER e empresas farmacêuticas fornecedoras aos ministérios correspondentes [dos 17:30 aos 20:15 minutos].

Sobre FHC, em resposta ao repórter Frederico Vasconcelos da Folha de S. Paulo [dos 16:52 aos 17:28], Carvalhosa confirma que no seu governo quando da regulamentação da Petrobras na lei que criou a ANP permitiu onde estava determinado que a empresa poderia ter a concorrência simplificada no caso de compra de materiais fosse introduzido “e de obras” o que Carvalhosa denominou como fraude [dos 20:15 aos 21:30]!

Carvalhosa, em resposta ao repórter Rodolfo Borges do El País [dos 33:05 aos 33:53], afirma que a corrupção dos contratos poderia ter terminado com a aplicação das regras do relatório da CEI que FHC “arquivou”. Ele diz que se FHC desse continuidade a declaração de inidoneidade poderia ser introduzido o ”Performance Bond” (sugestão das próprias empreiteiras para negociar a não imputação da inidoneidade) instrumento utilizado nos EUA, desde 1897, que elimina a interlocução das empresas públicas e governos quando da contratação de obras junto às empreiteiras. Trata-se, da operação, de quando da concorrência ganha, a empreiteira inclui a seguradora que vai garantir o “Performance Bond” ou seja a seguradora ressarcirá ao governo por qualquer não cumprimento do contrato seja por atraso, má qualidade da obra etc. A seguradora, por sua vez, cobrará da empreiteira os recursos ressarcidos ao governo o que poderá até levar a empresa à falência.

Se tivesse sido aplicado no Governo de FHC o instrumento do “Performance Bond”, Carvalhosa afirma que não teríamos, hoje o fato lamentável que assistimos na Petrobras. Ele fala que lá fora as nossas empreiteiras quando ganham concorrências públicas seguem o dispositivo contratual de apresentar a Seguradora bancadora do “Performance Bond” [dos 33:53 aos 36:50]. Carvalhosa afirma que a falta do “Performance Bond” e a “instituição negativa” da renovação dos aditivos fazem com que as obras se perenizem e não sejam concluídas tais como a ferrovia Norte-Sul, a transposição das águas do S. Francisco e o encarecimento da refinaria Abreu Lima [dos 59:30 a 1:00:55].

Em outro episódio do governo de Itamar Franco, ao estar diante de “especulações” de corrupção do seu ministro Chefe da Casa Civil e amigo particular Hargreaves no caso da “CPI dos Anões”, afastou-o do cargo constituiu uma comissão de investigação que, ao concluir os trabalhos, declarou a não existência de provas contra Hargreaves, que foi imediatamente reconduzido ao cargo.

Assim, tendo em vista as orientações de Modesto Carvalhosa e lembrando os atos adotados por Itamar Franco, vemos todas as condições para tirar a Petrobrás do imbróglio que ameaça até sua existência como de criar uma situação de risco soberano.

6 – Para sair da emergência

A saída desta situação emergencial sugere alguns passos que nada teriam de original, a começar pelo afastamento da diretoria da Petrobras e a instituição de um comitê gerenciador composto por notáveis reconhecidos pela sociedade civil. Caberia também à presidente Dilma Rousseff a aplicação da Lei Anticorrupção, tanto à Petrobras quanto sobre as empreiteiras.

O governo, então, assumiria a dívida externa da Petrobras nos mesmos termos e prazos do contrato original, trocando-a por empréstimo do BNDES em reais. De sua parte, a Petrobras se comprometeria a pagar em reais o equivalente ao valor em dólares, já que as receitas do PRÉ-SAL são referenciadas naquela moeda.

Em seguida, o passo mais importante: a recompra das ações da Petrobras pela União, conforme a legislação da CVM/SEC.

7 – Conclusões

A Presidente, ao anunciar as medidas sugeridas, tiraria imediatamente a Petrobras da inércia e do “sangramento” em que se encontra.

As consequências são lógicas:

7.1 – O anúncio do afastamento da atual diretoria, mostrará ação por parte do Estado, dono da Empresa. O fato de o governo estar em transição facilitaria a troca ou manutenção da atual diretoria após os resultados da investigação. O simples fato da atuação do governo já valorizará a cotação da ação da Petrobras.

7.2 – A Lei Anticorrupção e a penalização das envolvidas elimina o risco de dissolução das empresas permitindo, após as mudanças dos envolvidos, que as empresas continuem funcionando com seus bons técnicos. A aplicação do “Acordo de Leniência (equivalente a delação premiada)” permitirá que as empresas reduzam suas penalidades e voltem à operação o mais rápido possível. É imprescindível a aplicação do dispositivo do “Performance Bond”, que eliminaria, conforme Modesto Carvalhosa, o risco de corrupção nos novos contratos. A aplicação da Lei eliminaria o risco sistêmico de declaração de idoneidade de um setor com grande participação no PIB.

7.3 – A Presidente como representante do Estado, dono da Petrobras, ao anunciar a troca do endividamento em dólares para reais, simplesmente eliminaria o risco soberano. Considerando que o endividamento gira em torno de US$ 110 bilhões e se adicionarmos mais o comprometimento de um terço das reservas com operações de “swap” cambial por parte do Banco Central significa dizer que dois terços das reservas brasileiras poderiam trocar de mãos rapidamente numa subida exagerada do dólar frente a esses riscos. Então, é de extrema responsabilidade o Estado assumir o endividamento em dólar da Petrobras e trocar por reais.

Evidentemente, seria necessário abrir uma exceção ao BNDES do seu compromisso de austeridade com o trio econômico, tendo em vista o risco sistêmico envolvido. Por outro lado, isso também não é original é uma simples troca de moedas nos contratos, muito mais leve que a injeção maciça de recursos que o Tesouro norte-americano e o FED injetaram nos bancos privados para mitigar o risco sistêmico em 2008. Na ocasião foi comentado que os bancos privados eram grandes demais para quebrarem!

7.4 – O anúncio de compra de ações por conta do Estado Brasileiro, dono da Petrobras é outra medida que gera imediata mitigação de riscos, e em conjunto com as outras medidas farão com que a subida das cotações, incentivando mais brasileiros a comprarem as ações, eleve o valor da empresa, melhorando o ânimo dos negócios.

Enfim, a subida do valor da Petrobras fará com que ela volte a ser o orgulho nacional e a vitória contra os seus detratores conhecidos.

(*) Helio Pires da Silveira é economista (aposentado) do BNDES e Rogerio Lessa Benemond é jornalista da Aepet.

A Petrobrás e a campanha do capital internacional: Entrevista com Fernando Siqueira

Por Rennan Martins | Vila Velha, 20/01/2015

Charge de Carlos Latuff

Prossegue a oportunista campanha da imprensa que instrumentaliza as revelações do esquema de corrupção atuante na Petrobras para justificar a desnacionalização e entrega do petróleo brasileiro ao cartel internacional, ainda mais corruptos, já que se apoiam também em guerras e no uso de mercenários para garantir seus interesses em diversas partes do mundo.

Cumprindo nossa missão de fazer o contraponto à narrativa hegemônica, atuando na guerrilha semiológica, como propôs Umberto Eco, o Blog dos Desenvolvimentistas segue colhendo e disseminando informações a fim de retratar o mundo de uma perspectiva que não a dos poderosos, essa já fartamente propagandeada.

É pra isso que entrevistei mais uma vez Fernando Siqueira, vice-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET). Siqueira defende que se deve investigar cada indício de corrupção, mas que a Petrobras é vítima dos saqueadores, “e não um antro de corrupção como eles tentam mostrar”. Ressalta que é uma companhia em melhor situação que as outras cinco grandes petrolíferas internacionais, lastreada em 84 bilhões de barris, e é justamente por essa riqueza que é tão atacada.

Confira essa importante entrevista:

Qual a posição da AEPET em relação ao cartel/propinoduto que saqueou a Petrobras?

Achamos essa prática execrável, que deve ser punida com o máximo de rigor e prisão de todos os envolvidos. Em todo o Brasil. O ponto positivo é que a operação lava-jato trouxe as informações necessárias, inclusive dos corruptores, o que só foi possível com as delações premiadas. Vimos denunciando em todas as AGO´s (Assembleia Geral Ordinária, anual, dos acionistas) os indícios da corrupção (por exemplo, a cartelização pela prática de EPCismo – contratação de obras por pacote fechado – que sistematizou a cartelização). Mas não dispúnhamos das provas concretas. Sabíamos que o Duque (segundo dizem, concunhado do Zé Dirceu), o Paulo Roberto, o Barusco tinham procedimentos suspeitos, mas faltavam as provas. Agora temos a chance de deflagrar um combate sem tréguas à corrupção. Em todos os segmentos do País. Mas alguns membros do Ministério Público têm alertado para o risco de impunidade. A sociedade não pode aceitar um novo Satiagraha, que deu em nada.

Procedem os rumores de que a estatal está atolada em dívidas?

A Companhia tem realmente uma grande dívida. Porque tem a maior carteira de campos de petróleo a serem postos em produção. Portanto é uma dívida positiva, visto que é uma dívida para investimentos, os quais dão retorno superior a 80% ao ano. O retorno demora um pouco, mas já temos uma produção superior a 700 mil barris por dia no pré-sal. E o pré-sal já tem uma reserva descoberta de cerca de 70 bilhões de barris, que somada aos 14 bilhões pré-existentes, chegam a 84 bilhões de barris. Portanto, a dívida, além de ser positiva, tem um grande lastro.

O que explica a grande queda nos preços das ações da estatal? Em que extensão o escândalo de corrupção influencia nessa questão?

Há vários fatores. A queda do preço internacional do petróleo (temporária), a explicitação da nefasta corrupção, além da campanha sistemática da mídia defensora do capital internacional. Eles querem tirar a Petrobrás da condição de operadora única do pré-sal, pois isto inibe os dois focos de corrupção: superdimensionamento dos custos de produção, ressarcidos em petróleo e a medição fraudulenta da produção. Embora haja corrupção dessas empreiteiras em todos os segmentos do País, a da Petrobrás foi exacerbada ao máximo para desmoralizar a empresa. Na realidade a Petrobrás é vítima, e não um antro de corrupção como eles tentam mostrar. Ela tem 88000 empregados sérios, honestos e competentes.

Na esteira das revelações do esquema muitos analistas criticaram o modelo de partilha. Que pensa a AEPET sobre o atual modelo de exploração?

O modelo de partilha, não é o ideal, faltando, inclusive fixar o percentual do óleo-lucro que fica com a União. Mas é muito melhor do que o de concessão que eles defendem. A concessão dá todo o petróleo para quem produz. Por ela, o Brasil fica com 10% de royalties e cerca de 20% em impostos – tudo em dinheiro. No mundo, os países exportadores ficam com a média de 80% do petróleo produzido. Em nossa visão o modelo ideal é a volta do modelo existente antes da era FHC, previsto no artigo 177 da Constituição Federal de 1988: o Monopólio Estatal do Petróleo, conforme constava na Lei 2004/53. Ou a contratação por prestação de serviços, como é na Venezuela.

A proposta de retorno do regime de concessões interessa ao país? Quem ganha e quem perde com este modelo?

O modelo de concessão é pernicioso para o País, é puro entreguismo, pois conforme dito acima, só favorece as concessionárias integrantes do cartel internacional, em detrimento do povo brasileiro. Quem ganha com esse modelo é esse cartel do petróleo e os defensores do modelo, que, provavelmente, não fazem essa defesa gratuitamente.

A narrativa da grande mídia retrata nossa estatal como se estivesse à beira da falência. Por quê? Com que objetivos?

Faz parte da campanha do capital internacional. A Petrobrás, comparada às cinco grandes companhias petrolíferas internacionais, está muito melhor que elas. Aumentou suas reservas, aumentou a produção, o faturamento bruto, enquanto as outras têm indicadores negativos nesses quesitos. Ela ainda tem 70 bilhões de barris de petróleo descobertos no pré-sal, que fazem dela uma potência econômica e tecnológica. Aliás, ela poderia estar bem melhor se o Governo Dilma, por ditames eleitoreiros, não a houvesse obrigado a importar derivados e revender para suas concorrentes por preços inferiores. Segundo o Conselheiro Administrativo eleito, Silvio Sinedino, presidente da Aepet, esse rombo já atingiu a R$ 60 bilhões.

Que postura devem assumir os brasileiros que valorizam uma Petrobras forte e nacional?

Devem assumir a sua defesa como vítima da corrupção e combater sem tréguas essa prática. Lembrar que a Companhia é a mais estratégica do País e que ela pode alavancar o desenvolvimento tecnológico, econômico e financeiro, gerando empregos, tecnologia e desenvolvimento sustentado. Gosto sempre de citar a Noruega, que passou de segundo país mais pobre da Europa para o mais evoluído do Planeta: tem o melhor IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – de todos por cinco anos consecutivos, o melhor bem-estar social e a segunda renda per capta do planeta. Por que a Noruega cresceu assim? Porque soube usar o petróleo que descobriu no Mar do Norte na década de 70. Desenvolveu-se magistralmente e criou um fundo soberano pós-petróleo, que já chega a US$ 900 bilhões. E nós temos muito mais petróleo do que eles, além de imensas riquezas fora do ramo petróleo – minérios, biodiversidade, água.

O saldo devedor das democracias liberais

Por Rennan Martins | Vila Velha, 19/01/2015

O professor Zizek brindou-nos com seu elucidativo artigo “Pensar o atentado ao Charlie Hebdo”, onde traz diversas reflexões pertinentes a sociedade ocidental e seu relacionamento com o islamismo e o povo muçulmano. No último parágrafo lemos uma intrigante conclusão, que diz:

“O que Max Horkheimer havia dito sobre o fascismo e o capitalismo já nos anos 1930 – que aqueles que não estiverem dispostos a falar criticamente sobre o capitalismo devem se calar sobre o fascismo – deve ser aplicada também ao fundamentalismo de hoje: quem não estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal deve também se calar sobre o fundamentalismo religioso.”

De fato, a democracia liberal está num processo de desgaste e perda de legitimidade frente aos cidadãos, tanto que muito se discute a dita “crise de representatividade”, ou seja, a incapacidade deste arranjo institucional de responder aos anseios da população.

É possível notar que, historicamente, as elites detentoras do poder político e econômico tentaram por diversos meios tutelar os processos de abertura e aprofundamento democrático, impondo mecanismos que afunilam e até mesmo bloqueiam as reivindicações das massas.

No caso das democracias liberais dos países desenvolvidos, que tiveram muitas de suas instituições copiadas pelas nações do Sul Global, a degeneração se deu tanto internamente quanto no âmbito externo, onde a agressividade dos EUA e União Europeia recrudesce, visando garantir interesses econômicos e geopolíticos num momento em que se vive a segunda maior crise do capitalismo.

Internamente temos as configurações que permitiram influência demasiada do poder econômico nos processos decisórios e eleições no intuito de compensar o perigoso sufrágio universal. Este poder por sua vez corrompe tanto os políticos quanto o próprio sistema, garantindo que as “decisões democráticas” sempre favoreçam os interesses da oligarquia patrocinante das campanhas eleitorais e do lobby.

Soma-se a isso a imprensa corporativa, que é uma verdadeira agência de publicidade, promovendo com eficácia e fervor os interesses de seus patrões, reproduzindo um pensamento único que retrata o mundo sempre do prisma neoliberal em termos econômicos, e conservador no âmbito social.

Exemplo ilustrador desse quadro é a pesquisa dos professores Martin Gilens, de Princeton, e Benjamin I. Page, da Northwestern Universisty, que focou na “maior democracia do mundo”, a norte-americana. Nela fizeram um levantamento exaustivo de 1.779 questionários sobre políticas públicas, entre 1981 e 2002. O que constataram foi um poder de influência que varia diretamente com o tamanho da conta bancária, ou seja, uma oligarquia. Diante disso, assim discorreram:

“… acreditamos que se os processos decisórios são dominados por poderosas organizações empresariais e um pequeno número de americanos influentes, temos que as pretensões democráticas americanas estão seriamente ameaçadas.”

Na frente internacional, esta ainda mais importante pra pensarmos os últimos acontecimentos, temos ainda menos distribuição de poder. As democracias liberais portam-se tiranicamente em relação aos Estados em desenvolvimento, fazendo de tudo para esmagar qualquer indício de nacionalismo e anseio por um desenvolvimento autônomo, de propostas que divergem das oferecidas pelo globalismo do FMI e Banco Mundial. Em suma, o respeito a autodeterminação dos povos inexiste.

O atentado a Charlie Hebdo é exposto como fruto de um pretenso “choque de civilizações” onde caberia ao ocidente desenvolvido impor belicamente toda sua “civilidade”, ganhando, neste ínterim, o controle de preciosos recursos, principalmente energéticos. Mas isso é só um detalhe.

A Al-Qaeda do Iêmen é a mais nova cabeça da Hidra a ser cortada, porém, a narrativa hegemônica “esquece” que o extremismo era minoritário e desprovido de recursos, até que foi treinado e financiado pelas potências ocidentais e monarquias sunitas locais a fim de que a desestabilização por eles promovida catalisa-se a promoção de seus interesses. O fato do Estado Islâmico ter recebido rios de dinheiro europeu e norte-americano é pouquíssimo mencionado, e assim mais uma intervenção militar genocida se avizinha.

Como diz a frase a atribuída a Einstein, loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual. Há um quinhão de responsabilidade a ser cobrado das democracias liberais, e a liquidação da fatura é urgente.