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Aliança pelo Brasil: Tiro dos golpistas pode sair pela culatra

Por Rogério Lessa | Via AEPET

Reunidos no Clube de Engenharia, Rio, na tarde-noite de quarta-feira (25), no lançamento da campanha Aliança Pelo Brasil, em defesa da Petrobrás e da Engenharia e Soberania nacionais, diversos representantes de entidades e movimentos da sociedade civil, liderados pelo próprio Clube, AEPET e entidades sindicais, entre outros, disseram um sonoro NÃO à corrupção e à tentativa de desestabilização política e econômica do País através do enfraquecimento da maior empresa do Brasil, a Petrobrás, de seu corpo técnico e da engenharia nacional.

As propostas giraram em torno da formação de uma unidade para a resistência à campanha sistemática de uma mídia golpista e seus financiadores, locais e estrangeiros, interessados principalmente em acabar com o regime de partilha, bem como atacar a Petrobrás como operadora única do pré-sal e as políticas de conteúdo nacional. A estratégia golpista, além de não ser novidade, estaria em curso também na Argentina e na Venezuela, segundo alguns oradores.

O presidente do Clube de Engenharia, Francis Bogossian, classificou o momento como “gravíssimo”, com possíveis desdobramentos futuros. “Não se pode punir os filhos pelos erros dos pais”, disse, referindo-se ao risco da paralisação dos investimentos da Petrobrás para o emprego 500 mil trabalhadores do ramo de engenharia. A Petrobrás responde por 10% do PIB e 80% dos investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que envolve, sobretudo, obras de infraestrutura. “Para salvar bancos, criou-se no Brasil o Proer. Por que não criar um programa para a engenharia nacional, obviamente sem deixar de punir corruptos e corruptores?”, indagou Bogossian.

Já Felipe Coutinho, presidente da AEPET, lembrou que o Brasil não foi convidado a ter engenheiros e teve que desafiar uma injusta divisão internacional do trabalho. “Defendemos a função social das empresas de engenharia, que pré-supõe o afastamento dos cartéis, que ficaram com 90% do que foi superfaturado, e dois caminhos para essas empresas: a gestão direta dos trabalhadores e a estatização de pelo menos uma, para que o Estado tenha parâmetros inclusive para contratar futuramente empreiteiras privadas”, defendeu o presidente da AEPET.

“O tiro dos golpistas pode sair pela culatra, pois a Petrobrás é patrimônio do povo. O processo regressivo instalado com a Carta aos Brasileiros e com a aliança PT-PMDB pode se inverter”, resumiu Coutinho, que sonha ver a Petrobrás 100% pública, controlada socialmente.

Por sua vez, o ex-ministro Roberto Amaral, avalia que já houve um golpe de Estado no País, que estaria, segundo ele, sendo dirigido atualmente por um Congresso conservador ancorado pela mídia, em detrimento do que o povo decidiu nas últimas eleições.

O físico Luiz Pinguelli Rosa, da Coppe/UFRJ, lembrou que a Petrobrás foi alvo da espionagem dos Estados Unidos, enquanto o presidente do Crea-RJ contabilizou em 30% do PIB a participação conjunta dos setores de óleo, gás e engenharia na economia nacional.

Discursaram também representantes do Sindipetro, da UNE, da CUT e de outras entidades. Houve unanimidade nas análises a respeito do grave momento político, que inclui a tentativa de um golpe branco, em detrimento de princípios constitucionais elementares e do Estado democrático de direito.

Leia abaixo o manifesto que inaugura a ALIANÇA PELO BRASIL:

EM DEFESA DA SOBERANIA NACIONAL

A Nação se defronta com um dos maiores desafios de sua história abalada que está por forças internas e externas que ameaçam os próprios alicerces de sua independência e de sua soberania. As investigações policiais em torno de ilícitos praticados contra a Petrobras por ex-funcionários corruptos e venais estão dando pretexto a ataques contra a própria empresa no sentido de transformá-la de vítima em culpada, assim como de fragilizá-la com o propósito evidente de torná-la uma presa fácil para a fragmentação e a desnacionalização.

A Petrobras é a espinha dorsal do desenvolvimento brasileiro. A cadeia produtiva e comercial do petróleo e do setor naval, por ela liderada, representa mais de 10% do produto interno bruto, constituindo a principal âncora da indústria de bens de capital. É uma criadora e difusora de tecnologia, de investimentos e de produtividade que beneficiam toda a economia brasileira. Foi graças aos esforços tecnológicos da Petrobras que se descobriram, em 2006, as reservas do pré-sal, e é ainda graças a sua tecnologia original de produção que o Brasil já retira do pré-sal, em tempo recorde, cerca de 700 mil barris diários de petróleo, que brevemente alcançarão mais de 2 milhões, assegurando autossuficiência e a exportação de excedentes.

Deve-se à Petrobras a existência de uma cadeia produtiva anterior e superior do petróleo e da indústria naval, induzindo o desenvolvimento tecnológico da empresa privada brasileira, gerando emprego e renda que, no caso de empresas nacionais, significa resultados que aqui mesmo são investidos, desdobrando-se em outros ciclos de produção e consumo na economia.

Tudo isso está em risco. E é para enfrentar esse risco que o movimento social e político que estamos organizando conclama uma mobilização nacional em favor da Petrobras, instando o Governo da República a colocar todos os instrumentos de poder do Estado em sua defesa, de forma a mantê-la íntegra, forte e apta a continuar desempenhando o seu papel de líder do desenvolvimento nacional e a enfrentar, por outro lado, o desafio do seu enfraquecimento planejado por forças desnacionalizantes e privatistas internas e externas.

Ao lado da defesa da Petrobras vemos o imperativo de proteger a Engenharia Nacional, neste momento também ameaçada de fragmentação e de liquidação frente ao risco de uma desigual concorrência externa. Repelimos com veemência eventuais atos de corrupção ocorridos na relação entre empresas de engenharia fornecedoras da Petrobras, e seremos os primeiros a apoiar punições para os culpados, mas somos contra a imputação de culpa sem provas, e a extensão de culpa pessoal a pessoas jurídicas que constituem, também elas, centro de geração de centenas de milhares de empregos, de criação de tecnologia nacional e de amplas cadeias produtivas, e de exportação de serviços com reflexos positivos na balança comercial.

Todos que acompanham negociações internacionais conhecem as pressões que recaem sobre o Brasil e outros países em desenvolvimento no sentido de abertura de seu mercado de construção pesada a empresas estrangeiras. Somos inteiramente contrários a isso, em defesa do emprego, da renda e do equilíbrio do balanço de pagamentos. Se há irregularidade na relação entre as empresas de construção e a autoridade pública que sejam sanadas e evitadas. Mas a defesa da Engenharia Brasileira implica a preservação da empresa brasileira à margem de qualquer pretexto.

Não é coincidência os ataques à Petrobras, ao modelo de partilha da produção que a coloca como operadora única do pré-sal, à política de conteúdo local, à aplicação exclusivamente na educação e na saúde públicas dos recursos do pré-sal legalmente destinados a esses setores, à Engenharia Brasileira como braço executivo de grande parte de seus investimentos, e também ao BNDES, seu principal financiador interno, que tentam fragilizar rompendo sua relação com linhas de financiamento do Tesouro: tudo isso faz parte não propriamente de ataques ao governo mas de uma mesma agenda de desestruturação e privatização do Estado em sua função de proteger a economia nacional.

É nesses tópicos mutuamente integrados que concentramos a proposta de mobilização nacional que estamos subscrevendo, e que está aberta à subscrição de outras entidades e de todos os brasileiros que se preocupam com o destino de nossa economia e de nosso país. Estamos conscientes de que o êxito dessa mobilização dependerá da participação do maior número possível de entidades da sociedade civil, de partidos políticos e das cidadãs e cidadãos individualmente. E é da reunião de todos que resultará a afirmação da Aliança pelo Brasil em defesa da Petrobras, do Estado social-desenvolvimentista e de um destino nacional de prosperidade.

Brasil de 200 bilhões de barris

Por Paulo Metri | Via Correio da Cidadania

O setor do petróleo fornece um farto material para a constatação da ganância humana. Com a pretensão de trazer alguma explicação para o que acontece nestes dias com o Brasil, sem existir preocupação alguma da mídia para explicar, defendo a tese de que ocorreu uma rápida ascensão do nosso país no ranking daqueles atrativos para o capital internacional. Até 2006, era um país com abundância de recursos naturais, território e um razoável mercado consumidor. Mas ele não possuía petróleo em quantidade suficiente para se tornar grande exportador. Era fornecedor de minérios e grãos não tão valiosos no mercado internacional quanto o petróleo. Implícito está que o preço do barril irá subir brevemente para algum valor, pelo menos, em torno de US$80.

A partir dos anos 90, o Brasil perdeu graus de soberania e passou a ser um exemplar subalterno do capital internacional. Por exemplo, tem uma lei complacente de remessa de lucros, permite livre trânsito de capitais, não protege a empresa nacional genuína, tem uma política de superávit primário e câmbio que tranquiliza os rentistas, permite a desnacionalização do parque industrial, oferece a subsidiárias estrangeiras benefícios fiscais e creditícios, tem uma mídia hegemônica pertencente a este capital, que aliena a sociedade, e possui uma defesa militar incipiente. Assim, pode-se dizer que, após 1990, a sociedade brasileira passou a ter uma maior sangria de suas riquezas e seus esforços para o exterior. Este era o Brasil subalterno, que só tinha 14 bilhões de barris de petróleo, suficientes somente para 17 anos do seu consumo.

Em 2006, descobre-se o Pré-Sal, que pode conter de 100 a 300 bilhões de barris de petróleo, dos quais 60 bilhões já foram descobertos – e em menos de dez anos. Ao mesmo tempo, começou-se a recuperar a proteção à industria nacional, com a proibição da compra de plataformas de petróleo no exterior. Também, decidiu-se recompor as Forças Armadas, com o desenvolvimento de submarinos e caças no país, e, também, novos equipamentos de defesa para o Exército. Recentemente, decidiu-se desenvolver um avião militar de transporte de carga.

O Brasil, que já vinha participando do Mercosul, amplia sua interação soberana em outros fóruns internacionais, como a Unasul, a Celac e os Brics, contrariando interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Recentemente, um banco e um fundo monetário dos Brics foram criados. Ocorreu no período, também, a mudança da política externa do Brasil, que buscou a aproximação com os países em desenvolvimento da África, do Oriente Médio e de outras regiões, sem hostilizar os Estados Unidos, a Europa e o Japão. A presidente Dilma propôs aos países da ONU uma ação conjunta para conter a espionagem internacional, que tem participação da CIA e da NSA, do governo dos Estados Unidos.

Com a descoberta do Pré-Sal, abandona-se o modelo das concessões, que permitia a quase totalidade do lucro e todo o petróleo irem para o exterior. Adota-se o modelo do contrato de partilha para esta área, que é melhor do que a concessão. No contrato de partilha, uma parte adicional do lucro, acima do royalty, vai para o fundo social e parte do petróleo vai para o Estado brasileiro. Decidiu-se também escolher a Petrobras para ser a operadora única do Pré-Sal, o que é importante para maximizar a compra de bens e serviços no país. No leilão de Libra, foi formado um consórcio com a participação de duas petrolíferas chinesas, fugindo-se ao esquema de só participarem empresas ocidentais. No final do ano de 2014, quatro campos do Pré-Sal, que somam cerca de 14 bilhões de barris, foram entregues diretamente à Petrobras, sem leilão, o que contrariou as petrolíferas estrangeiras que desejavam vê-los leiloados.

A partir da descoberta do Pré-Sal, a Quarta Frota da Marinha dos Estados Unidos é reativada em 2009, o presidente norte-americano Barack Obama vem ao Brasil em 2011 e seu vice-presidente se transforma em figura fácil de ser encontrada aqui. Ele se reúne diretamente com a presidente da Petrobras, o que é muito estranho. O governo norte-americano procura levar a qualquer custo a presidente Dilma para uma visita oficial aos Estados Unidos, com direito a jantar na Casa Branca, considerada uma honraria sem igual. Por esta e outras razões, FHC gostaria muito de o Pré-Sal ter sido descoberto no seu mandato, mas ele só se preocupava em preparar a Petrobras para a privatização. Surpreendentemente, meu candidato a um prêmio das Nações Unidas para grandes promotores da paz no mundo, Edward Snowden, nos informa que até os telefones da presidente Dilma foram interceptados pela inteligência estadunidense.

O tempo passa e chega o momento de nova eleição presidencial no Brasil. O capital internacional de forma geral e, especificamente, o capital do setor petrolífero, com grande influência na Casa Branca, quiseram aproveitar esta eleição para mudar algumas regras de maior soberania, estabelecidas nos últimos anos, inclusive as do Pré-Sal. Além disso, o capital internacional quer eleger um mandatário do Brasil mais subserviente. Assim, explica-se a campanha de muito ódio e enorme manipulação executada pela mídia deste capital no período eleitoral. Possivelmente, a NSA e a CIA, utilizando empresas estrangeiras aqui estabelecidas, devem tê-las incentivado a contribuir com recursos para eleger os seus candidatos em 2014, formando uma bancada no Congresso Nacional que é um misto de entreguistas com alienados corruptos, porém, muito fiéis aos doadores de campanha.

Com o acontecimento independente da descoberta dos ladrões na Petrobras, aliás, muito bem-vindo pelos estrategistas do roubo do petróleo nacional, o terceiro turno da campanha presidencial tomou corpo na mídia, assim como a tarefa de confundir a população para acreditar que a Petrobras rouba dinheiro do povo e não são os ladrões ocupantes de cargos nela que roubam.

Com uma Petrobras fraca, de preferência até privatizada, fica mais fácil levar o petróleo do Pré-Sal. Um fato importante é que, no governo FHC, existiram denúncias que a Polícia Federal e o Ministério Público pareceram ser ineptos e a mídia criminosamente benevolente com o governo. Uma destas denúncias foi a de compra de votos para a reeleição, que, mesmo com um réu confesso declarando ter recebido dinheiro para votar a favor da reeleição, nada teve de apurada; já a mídia, deu divulgação mínima e o Ministério Público não apresentou denúncia à Justiça.

Enfim, para o bem ou para o mal, tudo mudou de figura. Morreu o Brasil de só 14 bilhões de barris de petróleo. Ele terá, brevemente, uma reserva de 200 bilhões de barris, que corresponderá a uma das três maiores do mundo e irá requerer muitas medidas de soberania, se é que a sociedade brasileira deve usufruir desta riqueza. Assim, agora, na visão do capital internacional, o Brasil não chega a estar se tornando um país antagônico, como China, Rússia, Irã e Venezuela, mas está criando regras e tomando medidas hostis a este capital. Está-se no estágio da busca da cooptação dos poderes e do controle da população pela mídia do capital.

Contudo, a população não está, na sua imensa sabedoria, acreditando tanto na mídia. Se a população não der apoio para o plano do impeachment da presidente, novas tramas poderão acontecer, como uma “primavera brasileira para tirar os ladrões da Petrobras do governo”. Eventualmente, será um golpe de Estado dado pelo Congresso com o apoio da mídia. O povo precisa não dar apoio à quebra do regime democrático e não apoiar também governantes que permitam a perda do Pré-Sal.

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Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania, acesse o blog o autor.

Paralíticos Gregos vs Donas de Casa do HSBC

Por Rui Dourado | Via Aventar

Ouvimos José Rodrigues dos Santos a fazer eco das vozes que apontam como principal problema da crise grega exemplos como o dos falsos paralíticos. O argumento cola bem quando se quer atiçar pobres contra pobres, mas a verdade é que o subsídio atribuído aos falsos paralíticos que enganavam fisco grego não se compara nem de perto nem de longe com o roubo gigantesco das “donas de casa” da HSBC. Dona de casa era uma das profissões virtuais declaradas por clientes do HSBC que na verdade eram industriais, artistas, jornalistas, princesas, traficantes de armas ou de droga. É esta diferença de campeonatos entre os paralíticos e as donas de casa que ajuda a compreender melhor a crise grega. As contas “especiais” (contas artilhadas para fugir ao fisco) do HSBC relacionadas com a Grécia ascendem a mais de 2,3 mil milhões de euros (~2,6 mil milhões de dólares). Por exemplo, um dos apanhados, o grego Lavrentis Lavrentiadis tinha sete contas no HSBC com ligações a outras contas bancárias (paraísos fiscais) onde detinha 4,6 milhões de dólares. O senhor Lavrentiadis não era paralítico, mas em 2012 foi acusado de fraude, lavagem de dinheiro, participação em associação criminosa e de emprestar a si próprio, cerca de 600 milhões de euros, através de um banco do seu próprio grupo. Esteve 18 meses em prisão preventiva e vai ser julgado em março deste ano.

Em Portugal, as denuncias de fraude favoritas dos ultraliberais são os beneficiários do rendimento de inserção, os desempregados e pessoas de baixa. São eles que destroem o estado, são eles que desmotivam a sociedade, não querem trabalhar, fomentam preguiça, etc. Ora, em média o rendimento de inserção é da ordem dos 90€ mensais. Só o montante total das contas especiais da HSBC relacionadas com Portugal ascendem a cerca de 850 milhões de euros, ou seja cerca de três vezes o orçamento de estado para o rendimento de inserção. E convém sublinhar que a fraude das contas especiais do HSBC é apenas uma pequena parte da fraude fiscal relativa a esse anos.

A grande preocupação dos ultraliberais são as migalhas, porque o bolo já é deles.

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Acesse o blog Aventar.

O euro em fase terminal

Por Jorge Bateira | Via Resistir.info

Um governo de ruptura deve, à cabeça, nacionalizar os bancos e instituir o controlo dos movimentos de capitais.

Quando participei no primeiro debate televisivo realizado em Portugal sobre o euro (“Prós e Contras”, 15/Abril/2013), afirmei que a moeda única iria acabar. Da mesma forma que a Inglaterra de 1931 não aguentou a política de austeridade imposta por um sistema monetário que excluía a desvalorização da moeda – no padrão-ouro, o reequilíbrio externo teria de ser alcançado por redução dos salários, a chamada “desvalorização interna” –, também nos nossos dias, um dos países sujeitos à política cruel imposta pela UE acabará por sair. O primeiro será a Grécia, os outros vão a seguir, ao ritmo do respectivo ciclo político.

Entretanto, o discurso do medo voltará às televisões. Dir-nos-ão que sair do euro é uma calamidade porque perderemos metade do poder de compra, que os bancos vão falir e perderemos as nossas poupanças, que o Estado não pagará aos funcionários públicos e pensionistas, que seremos excluídos dos mercados para todo o sempre e, argumento último de quem está inseguro, que a Alemanha nos invadirá para restabelecer a ordem. Do serviço público de televisão, gerido por comissários políticos, não se pode esperar uma informação isenta e fundamentada. Não haverá recolha de depoimentos de especialistas estrangeiros que ponham em causa o pensamento dominante, não haverá debate honesto com uma participação plural que ultrapasse o discurso partidário rotineiro. Dos canais privados também não podemos esperar que cumpram as exigências básicas de pluralismo, nem que as autoridades competentes o exijam. O que temos visto fala por si. Aliás, os analistas que ocupam o palco estão no bolso dos grupos económicos e da finança. Um governo de salvação nacional também terá de resgatar a comunicação social e pô-la ao serviço do interesse público.

Recordemos então algumas ideias simples que os portugueses não têm direito a debater nos media de grande audiência. Quando Portugal sair do euro, todos os contratos realizados sob jurisdição nacional ficam automaticamente redenominados em novos escudos, segundo a jurisprudência internacional ( lex moneta, 1 escudo = 1 euro). Assim, todos os empréstimos bancários, depósitos, salários, pensões, preços nas lojas, etc., passam a escudos e, a partir desse dia, o Estado apenas paga e recebe em escudos. O Estado fica sem problemas de liquidez porque os seus défices – necessários para estimular a economia – ficam cobertos por financiamento interno, quer do sector privado, que procura obrigações do Tesouro para aplicações seguras, quer do Banco de Portugal, a entidade pública que emite moeda. Portanto, sair do euro significa a libertação do país dos humores dos mercados financeiros. Quanto às necessidades de financiamento em outras moedas, os últimos dias mostraram–nos que os EUA estão dispostos a ajudar para evitar o recurso aos seus rivais. Note-se que os BRIC têm agora um banco que é alternativa ao FMI.

Um governo de ruptura deve, à cabeça, nacionalizar os bancos e instituir o controlo dos movimentos de capitais. Seria vantajoso comprá-los em bolsa, à cotação do momento, e proceder à sua recapitalização, tudo com emissão monetária. A inflação será o custo a pagar para recuperarmos a soberania. Mas será um custo transitório (inicialmente, cerca de 12%, muito menos nos dois anos seguintes) que pode ser distribuído com justiça social através de compensações a atribuir aos rendimentos mais baixos. A classe média/alta, vendo os seus desempregados recuperarem a dignidade de voltar a trabalhar em condições decentes, aceitará de bom grado alguma perda temporária de poder de compra. Como seria de esperar, o novo paradigma da política económica dará prioridade ao emprego, ao contrário da finança, que diaboliza a inflação e acha inevitável este desemprego típico dos anos trinta do século passado.

À medida que se forem abrindo espaços de debate público informado sobre o que significa sair do euro, os portugueses ficarão cada vez mais receptivos à proposta de uma Europa de países soberanos. Por muito que custe aos federalistas, não creio que os portugueses queiram viver num protectorado sujeito a diktats.

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Jorge Bateira é economista, coautor do blog Ladrões de Bicicletas.

Grécia X Troika: confronto adiado

Por Antonio Martins | Via Outras Palavras

Desafiante, o ministro grego Varoufakis anuncia que não se curvará. Manterá a promessa?

Nas medidas que Atenas anunciará esta noite estará chave para saber se tremeu, diante da ditadura financeira. Embate convida a refletir sobre caminhos da transformação política.

Os analistas da política europeia, e os que acompanham as lutas sociais contra a ditadura das finanças, aguardam com expectativa um conjunto de medidas econômicas que o governo grego anunciará ainda nesta segunda-feira. O conteúdo deste “pacote” indicará se Atenas cedeu aos 19 ministros europeus, que se uniram há três dias para pressioná-la a desistir da rebeldia contra as medidas de “austeridade”; ou se, ao contrário, mantém a luta por resgatar os direitos sociais e a democracia, colocando-os acima dos interesses dos mercados financeiros. Examinar as circunstâncias que antecedem o anúncio das medidas é útil para compreender a situação concreta da Grécia e seu novo governo. Também ajuda a examinar os caminhos complexos das lutas anticapitalistas contemporâneas – em especial as que buscam enxergar dinheiro e dívida de forma não-convencional.

Eleito em 25 de janeiro, formado majoritariamente por um partido inovador denominado Syriza (sigla de Coalizão de Esquerda Radical), o novo governo grego entusiasmou os que buscam alternativas ao sistema quando adotou, logo após assumir, medidas corajosas. Suspendeu as privatizações em curso (de portos, aeroportos, estradas, uma empresas de energia elétrica e uma refinaria de petróleo). Anunciou a volta do fornecimento de energia para 300 mil famílias que ficaram no escuro por inadimplência. Propôs reverter a redução de mais de 20% no salário mínimo, adotada em 2010, por exigência dos credores, em contrapartida a um empréstimo de 250 bilhões de euros. Apresentou estas primeiras medidas como apenas o primeiro passo para algo maior: renegociar a dívida grega; rejeitar o acordo que hoje a representa (denominado “Programa de Assistência Econômica e Financeira”), e que dá à chamada Troika (União Europeia, Banco Central Europeu – BCE – e FMI) direito de intervir na política econômica do país.

Mas, aparentemente, Atenas tinha menos força do que pensava para alcançar este segundo objetivo. As primeiras medidas encantaram a esquerda, mas enfureceram a Troika. Na semana passada, duas reuniões do conselho dos dezenove ministros das Finanças da zona do euro (o chamado “eurogrupo”) procuraram enquadrar o Syriza. Os governos que tentam sufocar a dissidência grega lançaram mão de dois instrumentos.

O primeiro é o vencimento da dívida grega, que ocorre no próximo sábado (28/2). A falta de um acordo tornaria Atenas inadimplente. Duas semanas antes, o BCE agiu para tornar este evento dramático. Decidiu que, em caso de inadimplência, deixaria de oferecer, aos debilitados bancos gregos, a linha de crédito que os mantém à tona. A notícia precipitou os riscos de crise bancária. Desde dezembro, quando tornou-se clara a hipótese de vitória eleitoral do Syriza, os gregos ricos passaram a sacar maciçamente suas economias dos bancos, num movimento que converteu-se em avalanche na semana passada.

Realizadas em Bruxelas, terça e sexta-feira, as reuniões do “eurogrupo” foram, por isso, comparadas a negociações entre um refém e seus sequestradores. Dezoito ministros exigiam de Atenas a submissão cabal ao Programa de Assistência Econômica e Financeira. Sozinho, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, resistiu o quanto pôde.

Ao final, chegou-se a um compromisso complexo. Varoufakis aceitou uma prorrogação, por quatro meses, do Programa – o que o Syriza havia anunciado anteriormente que não faria. Porém, o fez em condições muito distintas das que prevaleciam até então. Nos termos em que foi redigido, o documento já não menciona a obrigação da Grécia a um “superávit primário” de 3% ao ano, que estrangularia as despesas públicas e as chances de enfrentar a “austeridade”. Além disso, não caberá à Troika – e sim ao governo grego – apresentar as medidas com as quais pretende assegurar a estabilidade financeira do país. Os 18 ministros irão se pronunciar amanhã – quando analisarão, via conferência telefônica, a proposta de Atenas. Em princípio, poderão rejeitá-la.

É este pacote que se aguarda, para as próximas horas. Ao falar aos jornalistas em Bruxelas, na sexta-feira, Varoufakis mantinha-se desafiante. Afirmou que não se deveria esperar, de seu governo, medidas praticadas pelos anteriores – como redução de gastos sociais ou aumento do imposto sobre valor agregado (semelhante ao ICMS brasileiro). Previu, ao contrário, ações para ampliar a cobrança de tributos sobre os ricos (atualmente, poupados pelo frágil sistema de arrecadação da Grécia) e para ampliar o combate à crise humanitária desencadeada pela “austeridade”.

A concessão parcial de Varoufakis decepcionou parte das correntes do Syriza. O deputado Manolis Glezos, que tem 92 anos e é um herói da resistência grega contra a ocupação nazista, propôs protestos contra a assinatura do acordo. A Plataforma de Esquerda, um grupo interno importante anunciou que os parlamentares associados a ela votarão, no Parlamento, contra o gesto do governo.

Mas se a atitude antecipada sexta-feira pelo ministro das Finanças for mantida hoje, quando o pacote de Atenas for finalmente apresentado, esta noite, é provável que esta oposição se amenize. Começará então uma disputa prolongada entre a Grécia e os que querem submetê-la. No confronto, ambos os lados estarão correndo contra o tempo. Fragilizados economicamente há anos, os gregos sofrerão desgaste pela incapacidade de cumprir todas as suas promessas. Em contrapartida, os demais governos europeus enfrentam resistência crescente às políticas de corte de direitos sociais e favorecimento à aristocracia financeira.

Aqui parece residir, aliás, a incógnita decisiva. Esta oposição europeia poderá converter-se em mobilizações sociais e em eleição de novos governos dispostos a desafiar a Troika? Se isso não ocorrer, os gregos terão pouca munição, diante de um adversário muito mais poderoso. Mas se forem capazes de manter a altivez até despertar as sociedades europeias de um longo imobilismo, a aristocracia financeira estará em apuros.

A seca não vem da Amazônia

Por Vinícius Gorczeski e Bruno Calixto | Via Amazonidade

Popularizou-se no mundo a teoria segundo a qual a seca no Sudeste seria efeito do desmatamento no Norte. O problema, porém, tem outras causas.

A maior crise hídrica da história do Brasil é culpa do governo, de São Pedro, das mudanças climáticas ou de seu vizinho gastador? Existe uma corrente crescente de sem-água que acreditam que a causa da seca histórica está em outro lugar. Ela seria consequência do desmatamento na Amazônia. A explicação inspira campanhas de ONGs como o Greenpeace e a WWF. Uma pesquisa feita pelo Instituto ReclameAqui a pedido de ÉPOCA mostra que 40% dos cidadãos dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro dizem que a devastação na Amazônia é uma das principais causas da seca. Reportagens sobre isso apareceram em veículos da imprensa internacional, como a BBC, o jornal britânico The Guardian e o americano Wall Street Journal.

A tese influente surgiu em uma entrevista coletiva do pesquisador Antonio Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no dia 30 de outubro de 2014 em São Paulo. Ele apresentava seu estudo O futuro climático da Amazônia. A pesquisa aprofunda uma função conhecida da floresta. A mata gera a umidade que forma as chuvas da Região Norte e também viaja para o sul do continente, engrossando as nuvens na Bolívia, no Paraguai, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil. O estudo descreve um risco real de que, com menos floresta, esse sistema entre em colapso. Não avalia se o processo já estaria em andamento. Mas, em entrevistas a jornalistas, Nobre foi menos cauteloso que seu estudo. “A seca no Sudeste tem relação direta com o desmatamento na Amazônia.” Procurado por ÉPOCA, Nobre endossou que o desmatamento lá é a principal razão para a falta de chuvas cá. Suas declarações repercutiram.

A atmosfera, no entanto, é mais complexa. Na verdade, como explicam climatologistas e meteorologistas, as vilãs da história são as áreas de alta pressão atmosférica formadas sobre o continente. O fenômeno impediu a entrada, no Sudeste, de frentes frias vindas do sul e de ventos úmidos oriundos da Amazônia, segundo Franco Villella, do Instituto Nacional de Meteorologia. O bloqueio espantou os cientistas porque, embora seja comum no inverno, ocorreu em janeiro de 2014 e repetiu-se em 2015. Prever fenômenos como esse é mais arriscado que cravar a temperatura do próximo domingo. “A seca tem razões de escala global, que precisam ser mais bem estudadas. Não dá para atribuir a ocorrência ao desmatamento na Amazônia, como não se pode afirmar que seja um efeito do aquecimento global”, diz Villella. Foram necessários três anos para que uma agência americana elaborasse um estudo realmente abrangente que explicasse uma das piores secas da história californiana, que começou em 2011.

O desmatamento na Amazônia ainda é alto, e a fiscalização tem de melhorar. Mas faz anos que seu ritmo cai. A área de florestas derrubadas baixou de 29.000 quilômetros quadrados em 1995 para 4.800 em 2014. Se o desmatamento na Amazônia fosse a causa da seca no Sudeste, a primeira região afetada seria o entorno da floresta. As chuvas se reduziriam drasticamente na Bolívia e no Paraguai. Nesses locais, aconteceu o oposto. O desvio do fluxo de chuvas que iria para o Sudeste foi demonstrado por dados do Inpe e do Sistema de Proteção da Amazônia. Os ventos chuvosos rumaram para Rondônia, Bolívia e Peru em janeiro de 2014 e em 2015.

O Brasil tem sete biomas, todos importantes para o clima. É normal que as atenções se concentrem na Amazônia. A derrubada de árvores centenárias, gigantescas e raras no Norte comove mais do que o desmatamento no Cerrado ou na Mata Atlântica, ambos mais relevantes para proteger os mananciais que abastecem o Sudeste. O bioma amazônico é o único a ter um fundo de recursos. Criado em 2008, seu caixa registra R$ 1 bilhão, e dele saíram R$ 390 milhões até dezembro. Para quem milita pela conservação e por mais pesquisas na Amazônia, é tentador associar, numa única narrativa dramática, os dois grandes fenômenos: a devastação na Amazônia e a seca no Sudeste. Uma história tão cativante tem alto poder de captação de recursos de entes públicos e privados.Também é um jeito de as ONGs ambientalistas fazerem o morador da cidade grande sentir na pele os efeitos da destruição na longínqua Região Norte. A estratégia, entretanto, é arriscada.

Usar argumentos sem embasamento contribui com a ignorância científica da população e pode atrapalhar uma boa causa. A tese desastrada sobre a seca ter nascido na Amazônia poderá, no futuro, ser usada contra os ambientalistas. O relatório de Nobre é relevante: ele atesta a importância da Amazônia para o fluxo de chuvas na América do Sul. Sem ela, Sudeste, Sul e vastas áreas em países vizinhos se tornariam desertos. Não é preciso mais que isso para convencer a sociedade.

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Sugerido por Anderson Marques, autor do blog Amazonidade.

O petróleo, a hegemonia e a distribuição do poder

Por Rennan Martins | Vila Velha, 18/02/2015

A ordem global unipolar, irradiada desde Washington e possibilitada após a queda da URSS em 1991, chega a nossos dias seriamente debilitada, o que por sinal comprova a falsidade da pretensiosa tese de Fukuyama, postulante do fim da história.

As cada vez mais recorrentes crises financeiras provocadas por um capitalismo altamente desregulado, conjugadas a crises sociais decorrentes de desastrosos planos de liberalização e austeridade, somam-se as crises humanitária e ambiental, frutos, em seu tempo, das guerras expansoras de mercado e da superexploração de recursos naturais, necessária num sistema onde a lógica predominante é a do crescimento infinito.

Os desmandos e arbitrariedades de uma potência que instrumentaliza os conceitos de democracia e direitos humanos objetivando impor sistemas e governos que lhes garantam hegemonia política e econômica, aliados a negligência do vencedor que se julga incontestável, foram fértil terreno de construção de projetos políticos alternativos, principalmente no que se refere a América Latina e aos países em desenvolvimento de maneira geral.

Eis que estes projetos chegaram ao poder em diversas partes do mundo e iniciou-se a construção de alianças e instituições alheias as receitas ocidentais que constam no FMI e Banco Mundial. Acontecimentos emblemáticos deste movimento foram a Cúpula Celac-China e o acordo dos BRICS para a criação do Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo de Reservas Contingentes. Essas instâncias de cooperação internacional constituem verdadeiro terremoto geopolítico que atinge frontalmente o projeto de globalização encabeçado pelos EUA e União Europeia.

Um dos produtos naturais desta realocação de poder é a desdolarização da economia mundial, pois, os governos do Sul Global não mais pretendem se manter expostos a inconsequente política do FED, que exporta problemas internos, fazendo com que outros países paguem a conta de uma economia imensamente endividada. Há também uma crescente desconfiança em relação ao real valor do dólar, dado que a moeda não possui lastro e os EUA a imprimem a torto e a direito para cumprir seus compromissos.

A fuga do petrodólar causa graves preocupações a uma Casa Branca de influência declinante, que responde escalando as hostilidades, intervenções e manobras econômico-financeiras, estas com fins claramente políticos.

Desde o início de 2014 os EUA coordenam, com os eternos aliados na Arábia Saudita, a inundação do mercado de petróleo que derrubou o preço do barril em mais de 50%. Esta medida afeta diretamente regimes de alta dependência das receitas do petróleo e derivados, entre eles, não por acaso, a Rússia e a Venezuela. Outras ações desestabilizadoras se somam a campanha, inclusive em países aparentemente não envolvidos, caso do Brasil.

OTAN, Rússia e Ucrânia

A Rússia enfrenta a expansão da OTAN até sua imediata fronteira desde o golpe orquestrado que se deu na Ucrânia. Após a derrubada do avião civil voo MH17 da Malaysia Airlines, uma verdadeira operação de falsa bandeira realizada pela Junta de Kiev, obteve-se o pretexto para a imposição de sanções e histérico bombardeio midiático sobre a “agressão russa”, que curiosamente jamais mostra imagens e vídeos das supostas tropas moscovitas invadindo território ucraniano.

A operação mal esconde a intenção real de Washington, que é controlar o fluxo de gás natural russo até a Europa. O FMI anunciou há poucos dias uma “ajuda” de US$ 17,5 bilhões ao governo ucraniano presidido pelo magnata Petro Poroshenko, colaborador da CIA desde no mínimo 2006, segundo vazamentos do Wikileaks. A mais importante contrapartida para os “parceiros” ocidentais é a “reforma do setor energético”, que evidentemente privatizará o setor, entregando-o a corporações norte-americanas.

É também significativo que o secretário de Estado ianque, Johnn Kerry, tenha sido excluído das negociações do segundo acordo de cessar-fogo de Minsk, o que denota que era visto como parte não cooperante. Somado ao fato dos EUA terem anunciado o envio de 600 militares a Ucrânia para fins de treinamento das forças locais, entende-se bem quem está forçando o conflito para a via bélica.

Venezuela e a oposição cooptada

O projeto chavista/bolivariano liderado pelo presidente eleito democraticamente Nicolás Maduro é alvo de incessante intervenção estrangeira, que se materializa numa oposição altamente ligada e financiada por interesses norte-americanos. A maior jazida petroleira do mundo é venezuelana e esta é a causa concreta de tanta sanha.

No ano passado a Venezuela enfrentou violentos protestos oposicionistas que incendiaram prédios públicos, armazéns e escolas e assassinavam motoqueiros que eram atingidos no pescoço por arames farpados estendidos nos piquetes. A desonestidade da oposição ficou evidente quando descobriu-se que diversas fotos por eles divulgadas como se fossem dos confrontos locais nada mais eram que imagens retiradas de buscas na internet.

Atualmente o governo local passa por sérios problemas financeiros por conta da redução no preço do barril, o que dá abertura a mais inquietações que serão outra vez aproveitadas por interesses escusos.

Brasil, Petrobras e corrupção

Por aqui a Operação Lava-Jato expõe as entranhas do esquema de propinas instalado há muito na Petrobras e nas grandes empreiteiras. As revelações, que poderiam servir para um amplo debate sobre a reforma do sistema político e a separação mais criteriosa do setor público e privado, são distorcidas e transformadas em ataque ao regime de partilha e ao próprio governo, que bancou esta legislação e a destinação de recursos do pré-sal para a educação.

A mídia brasileira, que segundo o professor Nilson Lage é “coordenada desde Miami pela Associação Interamericana de Imprensa”, pinta a baixa das ações da estatal como fruto do esquema de corrupção descoberto e não pela queda geral do setor causada pela sobreoferta do mercado de petróleo. O nível de enviesamento do noticiário e consequente alienação dos cidadãos é tão preocupante que muitos chegam a ridicularizar os que falam de interesses estrangeiros intervindo na Petrobras, esquecendo que há poucos meses descobriu-se o esquema de espionagem da National Security Agency à estatal. Enquanto isso, a Petrobras se torna a maior produtora de petróleo entre as empresas de capital aberto, descobre novas reservas e é premiada por conta das tecnologias de ponta que desenvolve.

O sucesso inegável da empresa é escondido pelos veículos submissos e cobiçado pelo capital internacional, que se satisfaz com as difamações e inverdades difundidas enquanto atua pelo lobby para primeiramente quebrar o monopólio de operações da estatal no país e em seguida acumular forças para privatizá-la, culminando no total controle dos mais de 80 bilhões de barris do pré-sal.

O desafio do tempo

O fator chave desta ofensiva é que a estratégia de manter a superprodução petroleira e o baixo preço do barril não pode ser mantida indefinidamente por conta dos efeitos colaterais que lhe são inerentes. Os atuais preços inviabilizam a exploração do petróleo não convencional – que é a aposta norte-americana para a independência energética – e atingem a saúde das finanças sauditas. Ou seja, Washington sabe que essa guerra econômica possui prazo, sob pena de arruinar setores chaves da economia nacional e enfraquecer a Arábia Saudita, parceiros fundamentais no que se refere a manutenção do dólar como moeda padrão para transações de petróleo e derivados.

A conjuntura é, portanto, de aumento da agressividade ianque frente aos que divergem das regras do “livre” mercado (livre somente se manipulado pelos próprios), e ainda mais hostilidade e ingerência aos que ousam negociar petróleo em moedas que não o dólar.

As nações atingidas recorrem, por sua vez, ao apoio da China por meio de empréstimos e aumento de comércio entre as partes. A Venezuela já obteve ajuda financeira de Pequim, enquanto a integração econômica sino-russa se dá em velocidade crescente. No entanto, a atuação chinesa não se trata de solidariedade, os estrategistas chineses têm interesse em substituir o dólar, substituindo-o por um yuan lastreado em ouro, e sabem ainda que se derrubado o governo russo, os próximos a serem submetidos a “disciplina” são eles.

Depreende-se deste quadro a inevitabilidade da ascensão de uma ordem global multipolar, a qual é adiada de todas as formas por um império declinante em influência política e econômica, mas, ainda assim, a mais ameaçadora força militar planetária. A integração e cooperação entre os países do Sul Global terminará por isolar os EUA, mais cedo ou mais tarde, e então entraremos numa era em que o poder estará distribuído com maior equidade, abrindo novas possibilidades de organização econômica e social.