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O papel da política fiscal no novo desenvolvimentismo

Por Heldo Siqueira

Diretrizes de política econômica no novo desenvolvimentismo

Em busca de uma interpretação que permitisse explicar tanto as crises da década de 1980 quanto a instabilidade que seguiu à década de 1990 alguns autores estão recorrendo ao novo desenvolvimentismo. Trata-se de uma vertente nacionalista (no sentido de resgatar o papel do estado nacional na teoria econômica) da escola keynesiana – liderada pelos professores Bresser-Pereira, Nelson Marconi, com o livro Development Macroeconomics da editora Routledge, e Luiz Fernando de Paula, José Luiz Oreiro e Flávio Basílio da editora da UFPE – que tenta explicar os desequilíbrios macroeconômicos brasileiros a partir de um viés estrutural na economia que mantém o câmbio naturalmente (e não conjunturalmente) valorizado. Ao mesmo tempo, apresenta um papel diferente para a política fiscal e monetária do desenvolvimentismo dos anos 1970.

O Pós-Guerra, velho desenvolvimentismo e o neoliberalismo

O período que começou com o fim da II Guerra Mundial e acabou com as crises do petróleo dos anos 1970 foi marcado por políticas de cunho keynesiano na maioria dos países capitalistas. Naquela época, parecia que os governos haviam encontrado a fórmula mágica para o crescimento indefinido: a ampliação do deficit público. Essa concepção advinha de uma interpretação simplista da teoria keynesiana (o chamado keynesianismo bastardo) e encontrava respaldo absoluto nos governos populistas interessados em utilizar o gasto público para manter-se no poder.

Apesar da interpretação politicamente enviesada dos ensinamentos do economista inglês, o período de consenso keynesiano foi fértil em interpretações alternativas sobre a lógica de desenvolvimento dos países pobres em relação aos ricos. Na América Latina, essa corrente de interpretações era fundamentada nos estudos da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL) e ficou conhecida como desenvolvimentismo, tendo como principais autores Raul Prebich e o brasileiro Celso Furtado. A constatação era que a pobreza dos países advinha da especialização em produtos primários que apresentavam desvalorização contínua em relação aos bens duráveis industriais, relegando os pobres à condição de menos desenvolvidos. Para a solução deste viés, havia três recomendações: i) deficit público para a implementação de obras de infraestrutura e plantas industriais estatais em setores de indústria de base; ii) abertura ao capital internacional para a industrialização nos setores de bens de consumo duráveis; e iii) proteção à indústria nacional através do modelo de substituição de importação.

As crises do petróleo e da dívida no final dos anos 1970 e da década de 1980 marcaram a derrocada dessas e o surgimento da versão moderna do liberalismo. O chamado neoliberalismo, implantado a partir da década de 1990, defendia a privatização das estatais criadas no período anterior e a abertura do mercado nacional para produtos estrangeiros, acabando com a proteção à indústria nacional. Em complemento, houve a utilização do câmbio valorizado para conter a espiral inflacionária que acometia esses países. O resultado dessa combinação de políticas foi a desindustrialização precoce da região e a nova especialização em bens primários. Além disso, o deficit comercial que se seguiu à combinação de abertura econômica e câmbio valorizado implicou em instabilidade.

O novo desenvolvimentismo

A explicação novo desenvolvimentista para esse comportamento da economia diz respeito a questões estruturais e não apenas conjunturais. Assim, países especializados em produtos primários possuem uma vantagem comparativa em relação aos desenvolvidos tão grande na produção de commodities que conseguem manter suas exportações mesmo com taxas de câmbio valorizadas. Como se sabe, a manutenção de taxas de juros internas valorizadas torna as exportações relativamente mais caras, diminuindo em montante e tornando-as inviáveis em alguns casos. Essa falha impede que o mercado de câmbio regule os fluxos de divisas, permitindo que a moeda do país permaneça valorizada indefinidamente. A manutenção do câmbio nesse patamar aumenta artificialmente a renda da população que passa a importar mais e exportar menos nos setores não primários. A esse fenômeno os autores dão o nome de “doença holandesa” (pessoalmente acho um nome horrível). Ou seja, o fluxo de recursos internacionais deixado ao sabor do mercado, ao contrário de estabilizar a economia, gera deficits comerciais permanentes que redundam, necessariamente, em crises. Nos momentos de crise há uma desvalorização abrupta da taxa de câmbio e o processo se reinicia.

O mérito dessa explicação é permitir explicar como o processo de industrialização pregado pelos antigos desenvolvimentistas funcionava e porque deixou de dar certo no Brasil nos anos 1990. A proteção da indústria do modelo de substituição de importações impunha altas tarifas de importação. Uma parte dessas tarifas servia para esterilizar os efeitos da apreciação cambial, colocando em pé de igualdade produtos nacionais e seus concorrentes internacionais. Como a liberalização das tarifas no início dos anos 1990 foi quase completa, os efeitos da “doença holandesa” trouxeram dificuldades para a indústria, a inviabilizando em vários casos. Como uma parte significativa das tarifas protegia indevidamente a indústria, gerando ineficiência, a solução teria sido identificar em qual medida havia a esterilização da estrutura cambial e qual parte seria proteção indevida. Ao mesmo tempo, essa teoria explicou a trajetória de crescimento e crise do país a partir de então, inclusive após a implantação do regime de metas para inflação.

A preocupação dos novos desenvolvimentistas com a indústria reside em três alicerces. O controle tecnológico que representa o setor industrial implica em ganho estratégico do país em relação às negociações de tratados internacionais. Além disso, trata-se da atividade econômica que mais movimenta outros setores, tanto no consumo de insumos quanto no que se refere à diversidade de produção. O terceiro fator é uma consequência dessa abrangência, já que a indústria gera diversos empregos na cadeia de insumos e de serviços.

Para desfazer o nó que representa a falha no mercado de câmbio traz para os empreendimentos industriais, os novos desenvolvimentistas apresentam recomendações diferentes dos antigos desenvolvimentistas. Primeiramente, entende-se que deva haver uma desvalorização cambial para o nível que se chama “câmbio industrial”. Essa taxa torna os investimentos industriais viáveis, esterilizando os efeitos da “doença holandesa”. Como o câmbio tem efeito direto na inflação, o governo precisa realizar um ajuste fiscal que diminua a pressão inflacionária advinda da expansão da demanda estatal. A menor necessidade de financiamento do setor público implicaria em redução das taxas de juros, gerando um ciclo positivo de expansão econômica. Em relação ao velho desenvolvimentismo ao contrário de estimular o investimento com capital internacional, viabiliza os empreendimentos com recursos nacionais. Além disso, tem como alicerces o saneamento do setor público sem a recorrência aos deficits públicos ou em transações correntes.

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Heldo Siqueira é mestre em economia pela UFES e professor da faculdade Cândido Mendes.

O que Vargas ensina para a política atual

Por Roberto Amaral | Via Ramaral.org

Lições de um líder que, pressionado, decidiu montar um ministério de direita.

Getúlio Vargas em visita a Porto Velho em 1940

Todo Príncipe tem inimigos, porque, em regra, governar é tomar partido, por A ou por B, por isso ou por aquilo e atrás de tudo há, sempre, um interesse. Governar, é, pois, administrar interesses. Os inimigos são inevitavelmente nomeados quando o Príncipe escolhe com quem e para quem governar, ou, escolhendo não escolher, caminha indeciso entre os extremos da sociedade de classes e os interesses conflitados dos diversos grupos econômicos e seus tentáculos políticos.

Getúlio fez-se defensor dos pobres e assim despertou a desconfiança da classe média e o mau-humor dos ricos; Miguel Arraes, governador de Pernambuco, atraiu o desagrado dos usineiros e donos da terra, porque assumiu como seus os interesses dos camponeses; pêndulo político, Jânio Quadros decidiu-se pelos empresários e adotou uma política externa independente, com o que ganhou a desconfiança dos trabalhadores e perdeu o apoio dos conservadores.

Casos há em que o prestígio do governante se desgasta na divisão interclasses, pois não é raro o conflito revelar-se entre os setores produtivos e o sistema financeiro. Outras vezes, ao tentar atender igualmente aos interesses de gregos e de troianos (digamos assim: dos operários, da classe média e do grande capital), o Príncipe, pouco cioso na defesa da coisa pública, termina perdendo a confiança de todos e por todos é desamado. Collor, sem clara base social ou econômica de apoio, sem partidos, terminou seu mandato como sabemos.

Nesses casos, quando mais carecia de apoio, o Príncipe não encontrou seus defensores naturais.

O inimigo do príncipe é sempre um grupo de interesse, organizado ou não em torno de um partido. Pode ser uma das várias frações do grande capital, ou os grandes proprietários. O inimigo pode estar dentro ou fora dos muros da cidade. Pode ser um adversário externo, o que, em regra, leva à unidade dos súditos em torno do seu líder, adiando disputas domésticas. Assim, Vargas, que acalentara a expectativa de apoiar o Eixo, unificaria a nação em 1942 com a declaração de guerra à Alemanha, e, mais recentemente, a última ditadura argentina prorrogou sua própria agonia com o massacre de seus praças nas Malvinas. Terminadas as guerras, Vargas é deposto e a Argentina, redemocratizada.

Muitas vezes, esse inimigo – interno ou externo – precisa ser inventado para poder garantir a coesão doméstica, quando o soberano percebe a existência de crise em suas bases. Como justificativa do golpe de Estado que implantou a ditadura do ‘Estado Novo’, os militares brasileiros inventaram em 1937 a iminência de um levante comunista, brandindo estudo elaborado pelo próprio serviço secreto do Exército (refiro-me ao ‘Plano Cohen’ redigido pelo naquela altura capitão Mourão, por ordem de seu comandante, gal. Goes Monteiro). Em 1954 os mesmos adversários, agora para derrubar o presidente constitucional, alegaram a existência de um ‘mar de lama’ inundando os porões do Palácio do Catete, com o que a oposição levantara a classe-média contra Vargas.

Juscelino Kubitschek reencontrou-se com as bases populares que o haviam elegido em 1955 quando seu ministro da Fazenda, conservador, se indispôs com o FMI. Fidel Castro, porém, não precisou inventar a invasão da Baía dos Porcos e o bloqueio econômico-político dos EUA para unificar o povo cubano. Praticamente derrotado, o Bush filho conquistou uma reeleição consagradora beneficiando-se do ataque às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001.

O pior adversário, no entanto, é sempre o que está dentro de casa, faz parte do governo, frequenta os palácios ou integra as fileiras do exército. Dezessete anos passados da instalação do ‘Estado novo’, Vargas lamentaria o concurso dos inimigos íntimos para sua tragédia pessoal, ao presidir, na madrugada de 23 para 24 de agosto a última reunião de seu ministério. Sun Tzu, muitos séculos antes de Mazarini, Pombal e Maquiavel, ensinou que, sem harmonia no Estado, não adianta ter exército; sem harmonia no exército não pode haver formação de batalha. Harmonia não é apenas a paz aparente da ordem interna, mas é também a disciplinada eleição do objetivo comum, aquele que torna secundários todos os demais projetos. As tropas, formando um corpo unido, impedem que os bravos avancem sozinhos (e sejam aniquilados) e que os covardes abandonem a luta, como fizeram os soldados de Ricardo III, deixando-o à mercê de sua má sorte. O Rei Lear foi condenado à tragédia quando, embriagado pelos elogios falsos das filhas cínicas, dividiu o reino da Bretanha.

O que é, porém, harmonia interna? Ora não se trata de conceito de aplicação universal e pacificada.

Getúlio Vargas afagou as classes empresariais e com elas também terçou armas; afagou os trabalhadores e por eles foi amado, afagou amigos e inimigos, foi amado e odiado. Governou sem grandes pesadelos de 1930 a 1945. Mas quando a fortuna se voltou contra si, não lhe foi possível enfrentar a adversidade, pois emergira a dissensão em sua retaguarda: traído dentro do Palácio do Catete (presidência conquistada legitimamente em processo eleitoral democrático), sem controle sobre ações criminosas supostamente praticadas em seu nome e no seu entorno, sob o fogo de uma imprensa vituperina e de uma oposição reacionária clamando junto aos quartéis indisciplinados pelo golpe de Estado, descobriu que não contava com seus ministros: estavam muitos deles entre os conspiradores, negociando sua renúncia. Inclusive o vice-presidente Café Filho. Tardiamente, Vargas compreendeu o significado do isolamento a que fora condenado: sua solidão político-afetiva era uma metáfora de seu distanciamento da sociedade.

Os militares, aliados umas vezes e outras muitas conduzidos pelos líderes da oposição biliar e pela campanha dos grandes meios de comunicação, ao invés de defenderem o mandato de seu comandante, imperativo constitucional, conspiravam contra o Presidente, cujo partido não foi capaz de protegê-lo contra os ataques inimigos, sem limites na injúria, na calúnia e na difamação. Quedou-se acuado como o tatu-bola, enroscado em si mesmo. Ator, sujeito da História desde pelo menos 1930, líder dos trabalhadores, Vargas escolheu entregar-se ao império das circunstâncias. De nada lhe valera a base trabalhista – construída meticulosamente durante o período ditatorial – que não acorreu em defesa de seu mandato. Já havendo perdido o apoio da classe-média, desde sempre incomodada com seus namoros com os ‘marmiteiros’, via agora as massas populares – seu último esteio – também influenciadas pela onda moralista que percorria todos os escaninhos da sociedade, assustada pela campanha de imprensa com ecos no Congresso. Seus fiéis adversários ideológicos de direita encontraram-se nas ruas com o oportunismo e a incompreensão histórica da esquerda comunista, que também decidira fazer-lhe oposição.

Após campanha eleitoral marcada pelo nacionalismo e um sem número de teses comuns à esquerda de então – defesa da Petrobras e do monopólio estatal do petróleo, controle das remessas de lucros ao exterior, aumento real do salário mínimo, participação dos trabalhadores nos lucros das empresas etc. –, Vargas assumira a Presidência (1951) abraçando projetos progressistas e montara, para executá-los, um ministério de direita.

Seria, porém, traído pelo varguismo e a História, agora ingrata, não lhe deu tempo para a auto-crítica.

O anúncio do suicídio inesperado (embora reiteradamente anunciado em sua biografia), levantou como um sopro mágico as massas adormecidas que, como formigueiro atacado, ocuparam as ruas, em desespero, anárquicas, sem rumo, sem alvo, sem perspectivas. Sem azimute político, sem liderança, avançaram ao mesmo tempo sobre os jornais da imprensa golpista e da esquerda comunista, identificada com o golpismo. O despertar da consciência coletiva chegara muito tarde, e agora a mobilização era só uma catarse coletiva inaproveitada, que logo levaria de volta as massas ensandecidas para o sossego medíocre.

Outro príncipe, na História do mesmo país, ele também amado pelos trabalhadores e pelos pobres, viu-se igualmente sob o foco de terríveis ataques orquestrados entre a oposição partidária e os meios de comunicação de massa, agora poderosíssimos. Não lhe acorreu o socorro dos partidos de sua base de apoio, e mesmo o partido que fundara mostrava-se abatido em face das acusações que pesavam sobre seus membros. Ao contrário de muitos de seus antecessores, porém, o Príncipe lembrou-se do Marquês de Pombal e decidiu romper com os áulicos, e trocou a solidão do poder pelo contato com as massas. Simplesmente optou pela Política, decidindo exercê-la na plenitude possível. Foi ouvido pelo país e emergiu vitorioso, nas eleições que se seguiram.

A concentração de poder midiático e a disputa popular

Por Rennan Martins | Vila Velha, 04/03/2015

A reabertura democrática brasileira foi conduzida, nas palavras dos militares, de forma “lenta, gradual e segura”. Esta versão dos fatos dão ideia de que, mesmo lentamente, as estruturas do autoritarismo acabaram dissolvidas pela Constituinte de 88. Infelizmente isso não condiz com a realidade e em pleno 2015 ainda convivemos com diversas instituições oligárquicas, que promovem interesses privados como se fossem públicos e constituem verdadeira trincheira da manutenção de privilégios e desigualdades injustificáveis.

Poderíamos falar do serviço da dívida pública, da polícia militar, mas abordaremos novamente o urgente problema da imprensa nacional. Pra entendermos a situação, é preciso contar a história do surgimento e consolidação deste oligopólio que aí está.

Após o golpe de 64 que destituiu o presidente trabalhista João Goulart, os militares se viram desafiados a consolidar o poder usurpado. Nada melhor e mais típico de regimes ditatoriais que o esmagamento de toda e qualquer voz dissonante, conjugado ao favorecimento dos capazes de promover propaganda do regime, visando convencer corações e mentes dos cidadãos.

E foi isso, precisamente, o que fizeram. Veículos populares como o histórico jornal Última Hora e a então líder de audiência Rede Excelsior de Televisão foram boicotados e perseguidos enquanto os colaboradores do golpismo tinham caminho repleto de facilidades para o crescimento.

Foi neste ínterim que o cartel da informação, hoje fortíssimo, se configurou. À época articulados em torno do famigerado Instituto de Pesquisas Sociais (IPES), impetraram verdadeira operação de engenharia social em torno da fabricação do consenso de que o Brasil precisava combater uma suposta “ameaça comunista”, disfarçando a realidade de que a ditadura serviu para sustar o projeto de desenvolvimento autônomo nacional encarnado em figuras como Getúlio Vargas e Jango.

Atualmente o Brasil convive com o fardo de uma imprensa concentrada nas mãos de algumas poucas famílias. Estas mesmas redes de comunicação aliam-se a certos políticos regionais de forma que o poder da palavra, a promoção de uma visão de mundo específica, é massiva e diuturnamente bombardeada, alienando a sociedade de seus reais obstáculos e desafios. O debate público é pautado ou interditado por essa mídia cartelizada que sonega fatos cruciais a população. Se ontem o IPES unificava a atuação dos magnatas, temos agora o Instituto Millenium, verdadeiro centro de manipulação da realidade.

O caso do escândalo de sonegação bilionária do HSBC, Swissleaks, é significativo nesse contexto. A escassa cobertura feita pela imprensa cartelizada se dá porque os desdobramentos e investigação do esquema de sonegação massiva e internacional pode incriminar os próprios donos dos veículos. Chegamos ao cúmulo inacreditável do jornalista Fernando Rodrigues, do Uol, monopolizar a lista dos mais de 8.000 brasileiros que possuíam conta na Suíça, liberando somente alguns nomes meticulosamente pinçados.

A Rede Globo parece a mais escaldada diante do vazamento desse esquema mundial de dilapidação e saque. Lembremos que a empresa é processada pela sonegação de mais de R$ 600 milhões por conta de manobra realizada em paraísos fiscais para fugir do pagamento dos impostos devidos na compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002. Será que a família Marinho está presente na lista do HSBC?

No tocante a Petrobras, é vergonhosa a campanha em andamento. A grande mídia retrata a mais importante estatal brasileira como agente e não vítima dos desvios praticados. Se aproveitam do desenrolar das investigações para convencer o público leigo de que não temos capacidade para explorar o pré-sal, que devemos entregá-lo aos estrangeiros. Quando da criação da empresa nos disseram que não tínhamos petróleo, quando dos estudos do pré-sal diziam que ele não existia, agora a tese é de que somos incapazes de administrá-lo. Os partidários do atraso estavam errados ontem, não reconhecem e fazem pior, continuam divulgando inverdades hoje, em prejuízo de toda a população.

O que os concentradores de poder político e econômico não contavam era com a possibilidade da virada, do enfrentamento. O avanço tecnológico nos trouxe a internet e a massificação da banda larga, e com ela surgiu uma nova mídia, livre de compromissos escusos, disposta a fazer o contraponto e disputar a hegemonia política na sociedade. O Blog dos Desenvolvimentistas se enquadra nessa proposta.

Somos uma associação que toca este projeto de jornalismo alternativo e independente com doações e contribuições livres dos interessados na construção de um país desenvolvido, justo e soberano. Passamos a admitir publicidade não invasiva para que consigamos complementar os rendimentos.

Na semana passada adicionamos no alto do canto direito do blog uma caixa de doações aos interessados. Pedimos a vocês que nos acompanham e acreditam na proposta, que se disponham a colaborar, basta clicar no box do pagseguro (ou aqui) e proceder conforme as instruções para se aliar a nós nessa batalha pelo aprofundamento da democracia e contra as oligarquias que atravancam e sabotam o desenvolvimento do país.

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Evento histórico lança o movimento Aliança pelo Brasil; confira os vídeos

Via Hildegard Rangel

Eu não poderia deixar de brindar os cariocas e também todos os brasileiros, neste 450º Aniversário da Cidade do Rio de Janeiro, com um presente à altura da comemoração.

Dessa forma, estou postando aqui os vídeos inéditos de um acontecimento importante e pontual, reunindo várias entidades de forte expressão, com apoio da maioria das centrais sindicais, que há de ficar para a história das lutas soberanas do nosso país: o lançamento do Manifesto ALIANÇA PELO BRASIL – EM DEFESA DA SOBERANIA NACIONAL – acontecido esta semana no Clube de Engenharia.

O objetivo é defender a Petrobrás, a Engenharia Nacional, as empresas de construção e os cerca de meio milhão de empregos gerados por elas contra a voracidade estrangeira, que, com apoio de uma mídia oportunista, aproveita-se de um momento de fragilidade (ou até cria/acentua essa fragilidade) para tomar de assalto o nosso setor de óleo e gás e a própria atividade empresarial.

O presidente do clube, Francis Bogossian, abriu o evento pedindo atenção ao momento “gravíssimo” que atravessa a Nação e a seus possíveis desdobramentos futuros, prevendo o risco da paralisação dos investimentos da Petrobrás para o emprego de 500 mil trabalhadores do ramo de engenharia. Para ilustrar, recorreu à imagem: “Não se pode punir os filhos pelos erros dos pais”, e lembrou que a Petrobrás responde por 10% do PIB e 80% dos investimentos do PAC, envolvendo, sobretudo, obras de infraestrutura.

Finalizando seu introito, propôs: “Para salvar bancos, criou-se no Brasil o Proer. Por que não criar um programa para a engenharia nacional, obviamente sem deixar de punir corruptos e corruptores?”.

Em seguida, falou o economista José Carlos de Assis, coordenador do Movimento, expondo sua Justificativa, que aqui está, inicialmente em texto, prosseguindo através da fala do próprio Assis, no vídeo abaixo.

Justificativa do movimento: Coordenador José Carlos de Assis

Defesa da Petrobrás e das políticas centrais para o petróleo, principalmente o Pré-Sal:

1. Garantia do Tesouro, através do BNDES, de assegurar os recursos necessários para as necessidades de caixa de curto prazo e para sustentar os programas de investimento em curso da Petrobrás (mais de 10% da economia brasileira) tendo em vista o objetivo de evitar perdas na paralisação de obras e investimentos, preservando-se a estrutura do emprego em torno da cadeia do petróleo;

2. Comprometimento explícito do Governo com o modelo de operadora única no regime de partilha do Pré-Sal e com a política de conteúdo nacional de equipamentos, sempre tendo em vista a geração e preservação do emprego no Brasil;

3. Comprometimento do Governo com a defesa da Engenharia Nacional, evitando a ruptura da cadeia de pagamentos e recebimentos por simples suspeitas de irregularidades na operação Lava Jata, colocando como condição fundamental o pagamento das folhas salariais na cadeia do petróleo e do setor público;

4. Comprometimento do Governo com as políticas de mobilização dos recursos do pré-sal para educação e saúde públicas;

Abaixo, a série de apresentações começa com a de Reynaldo Barros, presidente do Crea-RJ, sucedido pelos demais anunciados pelo presidente da mesa.

O Ex-ministro Roberto Amaral foi enfático: na sua avaliação já houve um golpe de Estado no País, que estaria sendo dirigido atualmente por um Congresso conservador (o presidente da Câmara) ancorado pela mídia, em detrimento do que o povo decidiu nas últimas eleições.

O físico Luiz Pinguelli Rosa, da Coppe/UFRJ, lembrou que a Petrobrás foi alvo da espionagem dos Estados Unidos.

O presidente do Crea-RJ, Reynaldo Barros (na foto com Francis Bogossian) contabilizou em 30% do PIB a participação conjunta dos setores de óleo, gás e engenharia na economia nacional.

José Carlos de Assis e Roberto Saturnino Braga – Foi uma tônica nos discursos dos participantes a punição dos envolvidos nos episódios de corrupção na Petrobrás.

Na primeira fila do auditório do Clube de Engenharia, o combativo engenheiro Ricardo Maranhão.

Fotos de Marcelo Borgongino

Manifesto ALIANÇA PELO BRASIL – EM DEFESA DA SOBERANIA NACIONAL

A Nação se defronta com um dos maiores desafios de sua história abalada que está por forças internas e externas que ameaçam os próprios alicerces de sua independência e de sua soberania. As investigações policiais em torno de ilícitos praticados contra a Petrobras por ex-funcionários corruptos e venais estão dando pretexto a ataques contra a própria empresa no sentido de transformá-la de vítima em culpada, assim como de fragilizá-la com o propósito evidente de torná-la uma presa fácil para a fragmentação e a desnacionalização.

A Petrobras é a espinha dorsal do desenvolvimento brasileiro. A cadeia produtiva e comercial do petróleo e do setor naval, por ela liderada, representa mais de 10% do produto interno bruto, constituindo a principal âncora da indústria de bens de capital. É uma criadora e difusora de tecnologia, de investimentos e de produtividade que beneficiam toda a economia brasileira. Foi graças aos esforços tecnológicos da Petrobras que se descobriram, em 2006, as reservas do pré-sal, e é ainda graças a sua tecnologia original de produção que o Brasil já retira do pré-sal, em tempo recorde, cerca de 700 mil barris diários de petróleo, que brevemente alcançarão mais de 2 milhões, assegurando autossuficiência e a exportação de excedentes.

Deve-se à Petrobras a existência de uma cadeia produtiva anterior e superior do petróleo e da indústria naval, induzindo o desenvolvimento tecnológico da empresa privada brasileira, gerando emprego e renda que, no caso de empresas nacionais, significa resultados que aqui mesmo são investidos, desdobrando-se em outros ciclos de produção e consumo na economia.

Tudo isso está em risco. E é para enfrentar esse risco que o movimento social e político que estamos organizando conclama uma mobilização nacional em favor da Petrobras, instando o Governo da República a colocar todos os instrumentos de poder do Estado em sua defesa, de forma a mantê-la íntegra, forte e apta a continuar desempenhando o seu papel de líder do desenvolvimento nacional e a enfrentar, por outro lado, o desafio do seu enfraquecimento planejado por forças desnacionalizantes e privatistas internas e externas.

Ao lado da defesa da Petrobras vemos o imperativo de proteger a Engenharia Nacional, neste momento também ameaçada de fragmentação e de liquidação frente ao risco de uma desigual concorrência externa. Repelimos com veemência eventuais atos de corrupção ocorridos na relação entre empresas de engenharia fornecedoras da Petrobras, e seremos os primeiros a apoiar punições para os culpados, mas somos contra a imputação de culpa sem provas, e a extensão de culpa pessoal a pessoas jurídicas que constituem, também elas, centro de geração de centenas de milhares de empregos, de criação de tecnologia nacional e de amplas cadeias produtivas, e de exportação de serviços com reflexos positivos na balança comercial.

Todos que acompanham negociações internacionais conhecem as pressões que recaem sobre o Brasil e outros países em desenvolvimento no sentido de abertura de seu mercado de construção pesada a empresas estrangeiras. Somos inteiramente contrários a isso, em defesa do emprego, da renda e do equilíbrio do balanço de pagamentos. Se há irregularidade na relação entre as empresas de construção e a autoridade pública que sejam sanadas e evitadas. Mas a defesa da Engenharia Brasileira implica a preservação da empresa brasileira à margem de qualquer pretexto.

Não é coincidência os ataques à Petrobras, ao modelo de partilha da produção que a coloca como operadora única do pré-sal, à política de conteúdo local, à aplicação exclusivamente na educação e na saúde públicas dos recursos do pré-sal legalmente destinados a esses setores, à Engenharia Brasileira como braço executivo de grande parte de seus investimentos, e também ao BNDES, seu principal financiador interno, que tentam fragilizar rompendo sua relação com linhas de financiamento do Tesouro: tudo isso faz parte não propriamente de ataques ao governo mas de uma mesma agenda de desestruturação e privatização do Estado em sua função de proteger a economia nacional.

É nesses tópicos mutuamente integrados que concentramos a proposta de mobilização nacional que estamos subscrevendo, e que está aberta à subscrição de outras entidades e de todos os brasileiros que se preocupam com o destino de nossa economia e de nosso país. Estamos conscientes de que o êxito dessa mobilização dependerá da participação do maior número possível de entidades da sociedade civil, de partidos políticos e das cidadãs e cidadãos individualmente. E é da reunião de todos que resultará a afirmação da Aliança pelo Brasil em defesa da Petrobras, do Estado social-desenvolvimentista e de um destino nacional de prosperidade.

Leia mais no Portal do Clube de Engenharia.

Os líderes, a crise e a História: ou terão grandeza, ou serão os coveiros

Por Bob Fernandes | Via Facebook

A lista oficial dos citados na Lava Jato vem aí. A crise mudará de configuração e patamar.

Fernando Henrique, Aécio, Tasso Jereissati, Cassio Cunha Lima e Aloysio Nunes se reuniram na sexta. Do encontro vazou que o PSDB entende não ser um impeachment a saída para a crise.

São várias as leituras e informações para essa “avaliação” vazada. Primeiro, e antes de tudo, há que saber quem pode ser atingido na troca de chumbo.

A crise produz radicalizações por si só, e também por indução dos que apostam no quanto pior, melhor.

Entendem os tucanos: fatos à parte é preciso manter o PSDB distante da pecha de “golpista”…

…Sim, porque se fala em impeachment mesmo antes de se saber quem será ou não denunciado e investigado… e isso como quem vai ali à padaria.

O impedimento levaria Michel Temer à presidência. Ele envolvido, Eduardo Cunha seria presidente. Se também ele cai, seria Renan Calheiros; se não estiver na lista.

Impedimento de presidente e vice antes de meio mandato leva a nova eleição. Já se o PMDB sobreviver e chegar ao poder, o que ganharia o PSDB, se escapar à troca de chumbo?

O partido seria sócio do PMDB e da crise, com imensa responsabilidade e escasso poder… Essa é a avaliação de quem no PSDB tem o hábito da reflexão.

Claro, óbvio, que na Política tudo pode mudar em dias, ou mesmo em horas. Mas, na oposição, quem conhece o Poder já se preocupa com a radicalização, seus rumos e resultados.

Uma coisa são fatos e consequências: investigações, julgamento no Supremo e condenações com instituições em pleno funcionamento.

Outra coisa é apostar na aceleração do confronto, instigar a doença, os ódios e frustrações que já estão nas ruas e redes.

Em meio à crise, que pode ser saudável e estimular avanços, já há quem pense nos ensinamentos das últimas décadas, e do século 20 brasileiro.

Mesmo com idas e vindas, a História define o papel dos seus personagens, e não apenas de políticos e partidos: ou terão grandeza, ou serão os coveiros.

Se a Petrobras fosse privada, não descobriríamos o Pré-Sal: Entrevista com Paulo César Ribeiro Lima

Por Rennan Martins | Vila Velha, 02/03/2015

A estatal brasileira é líder mundial em exploração de águas profundas.

A Operação Lava Jato continua se desdobrando, diversos executivos das empreiteiras permanecem presos. As delações premiadas – veiculadas como verdade absoluta – só beneficiarão os réus caso hajam provas materiais. Todo o país aguarda que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, divulgue a lista dos políticos envolvidos no esquema, evento mais uma vez adiado na última sexta. Enquanto isso, a oposição foi tomada por um súbito desinteresse pela CPI da estatal reinstalada.

O Ministério Público rechaça os acordos de leniência e deseja declarar as empreiteiras inidôneas. A Advocacia-Geral da União, por sua vez, teme os impactos que a paralisação das obras contratadas possam causar na economia e nos empregos ligados ao setor.

Continuando a série de matérias sobre a mais importante estatal brasileira, o Blog dos Desenvolvimentistas publica entrevista com Paulo César Ribeiro Lima, consultor legislativo da Câmara dos Deputados. Lima diz que se a empresa fosse privada jamais teríamos descoberto o Pré-Sal, pede aos brasileiros que saibam separar a Petrobras dos infratores que a saquearam, e teme que decisões irresponsáveis no âmbito das investigações tenham efeito “catastrófico” sobre o país.

Confira a íntegra:

Qual sua opinião sobre o novo presidente da Petrobras, Aldemir Bendine? O que esse nome indica em termos de gestão?

Por não ser um funcionário de carreira da Petrobras, não o conheci quando trabalhei na companhia. O aspecto favorável é que, pelo menos, ele é um funcionário de carreira do Banco do Brasil. O aspecto desfavorável é que ele é proveniente do mercado financeiro.

Por ter trabalhado em um banco, espero que não faça uma gestão “financista”, mas que tenha uma visão estratégica de longo prazo, ao mesmo tempo conciliando com as dificuldades de curto prazo relativas à publicação de um balanço auditado para o ano de 2014.

Que diretrizes seriam as mais adequadas, dado o atual contexto, para fortalecer a empresa?

Depois de publicado o balanço de 2014, as diretrizes devem ser: certificação das reservas, principalmente da província do Pré-Sal, verticalização e integração das atividades, manutenção dos investimentos e dos compromissos que a Petrobras tem com a sociedade brasileira. Agora é tempo de colher os frutos dos grandes investimentos e das descobertas ocorridas nessa província de 2006 a 2014. A Petrobras tinha tudo para entrar em uma era de grandes resultados financeiros, não fosse a operação Lava-Jato.

O propinoduto descoberto pela Lava-Jato influi no preço das ações da Petrobras? Como explicar esta considerável baixa?

Os problemas de superfaturamento e de propinas afetaram muito a imagem da empresa no “mercado”, com forte impacto no preço das ações.

A maior parte dos investidores no mercado acionário tem uma visão de curto prazo e não vê com bons olhos os grandes investimentos estabelecidos nos planos de negócio da Petrobras, pois objetivam receber dividendos o mais rápido possível. Os investimentos consomem os dividendos. Essa visão, absolutamente inadequada, associada aos escândalos da Operação Lava-Jato provocaram essa considerável baixa. Existe um erro histórico de se misturar monopólio no setor petrolífero com mercado de ações.

Como se dá o impacto da atuação do judiciário na economia? A Lava-Jato pode afetar a atividade produtiva?

A atuação impensada do Poder Judiciário e de instituições de outros Poderes pode ter um efeito devastador na economia nacional.

Se as empresas envolvidas na Lava-Jato forem consideradas inidôneas e não puderem ser contratadas pela administração pública, haverá uma grande retração no PIB nos próximos anos. Apesar de pequeno, os investimentos estatais e públicos são fundamentais para a atividade econômica no Brasil.

A AGU propõe um acordo de leniência com as empreiteiras a fim de não inviabilizá-las, enquanto o Ministério Público rechaça a proposta e deseja impor uma multa de mais de R$ 4 bilhões juntamente com a declaração de inidoneidade dos acusados. O que dizer desse conflito? Que medida seria mais vantajosa ao interesse nacional?

Paulo César Ribeiro Lima – Câmara Legislativa

Esse conflito é falso. A Lei nº 12.846, de 1º de agosto de 2013, que dispõe sobre a responsabilização administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, estabelece que, na esfera administrativa, serão aplicadas às pessoas jurídicas consideradas responsáveis pelos atos lesivos multa no valor de 0,1% a 20% (vinte por cento) do faturamento bruto do último exercício anterior ao da instauração do processo administrativo, excluídos os tributos, a qual nunca será inferior à vantagem auferida. A aplicação dessa multa não exclui, em qualquer hipótese, a obrigação da reparação integral do dano causado. No âmbito do Poder Executivo federal, a Controladoria-Geral da União – CGU terá competência concorrente para instaurar processos administrativos de responsabilização de pessoas jurídicas ou para avocar os processos instaurados, para exame de sua regularidade ou para corrigir-lhes o andamento. A CGU poderá celebrar acordo de leniência com as pessoas jurídicas que colaborem efetivamente com as investigações e o processo administrativo. A celebração desse acordo isentará a pessoa jurídica da publicação extraordinária da decisão condenatória e da proibição de receber incentivos, subsídios, subvenções, doações ou empréstimos da área pública. Além disso, a celebração do acordo de leniência poderá reduzir em até 2/3 o valor da multa. Observa-se, então, que o acordo de leniência não afasta a cobrança de multa, apenas permite a redução do valor. Ressalte-se, ainda, que o dano integral tem que ser ressarcido, não sofrendo impacto da existência ou não do acordo de leniência. O que tem sido publicado pela imprensa sobre o acordo de leniência são verdadeiras aberrações.

Seria muito vantajosa ao interesse nacional a celebração de acordos de leniência, de modo a poder isentar ou atenuar as sanções previstas nos artigos 86 a 88 da Lei 8.666/1993 (advertência, multa, suspensão temporária para participar de licitações e contratar com a Administração e declaração de inidoneidade para contratar com a Administração). Dessa forma, combate-se a corrupção, não se impede que a investigação avance na esfera penal, evita-se o fechamento das empresas e mantêm-se os investimentos com recursos materiais e humanos nacionais. O interesse do Estado não é a descontinuidade operacional, mas o cumprimento das regras por parte das empresas. Como o número de empresas envolvidas na Operação Lava-Jato é grande, a declaração de inidoneidade, nesse caso, teria reflexos em outros setores e em toda a cadeia produtiva; seriam punidos os trabalhadores, a economia e a engenharia nacional. Os dirigentes devem ser punidos, as empresas devem pagar as multas cabíveis e demonstrar a mudança de conduta. Decisões irresponsáveis podem gerar consequências catastróficas para o País. O risco da interrupção de obras em andamento, como, por exemplo, aquelas relativas ao Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, bem como de novos investimentos na área de infraestrutura, propulsora do desenvolvimento nacional, deve ser eliminado.

É possível afirmar que há interesses estrangeiros se aproveitando da operação Lava-Jato?

Na Lava-Jato propriamente dita não posso afirmar, mas pode haver interesses estrangeiros na exploração dos grandes reservatórios do Pré-Sal. O enfraquecimento da Petrobras e do Estado facilita o acesso dos estrangeiros ao Pré-Sal.

Diversos analistas afirmam que a Petrobras não tem capacidade de arcar com os investimentos necessários para a exploração do Pré-Sal e por isso defendem a revisão do modelo de partilha em prol do anterior, de concessão. É verdade que a estatal tem limitações nesse quesito? Ela dá conta de ser operadora única?

As primeiras questões a serem analisadas são o ritmo de exploração dos volumes recuperáveis do Pré-Sal e o conteúdo nacional. Se o objetivo do País é ser exportador de petróleo, e com isso formado de preço, não faz sentido se falar em concessão, pois nesse regime a produção é definida pelo contratado. Ao contrário do que se divulga, o modelo de concessão como o do Brasil é raríssimo. Muitos “especialistas” citam que a Noruega, Venezuela, Rússia etc utilizam o modelo de concessão, o que não é verdade. De fato, nenhum país exportador de petróleo utiliza um modelo de concessão como o do Brasil. O mais próximo seria o modelo dos Estados Unidos na sua porção do Golfo do México. Registre-se, contudo, que os Estados Unidos são importadores de petróleo, daí o grande incentivo à produção pelo setor privado. As exportações de petróleo, obviamente, afetam os preços no mercado internacional e, por isso, são controladas pelo Estado. Em países exportadores a produção de petróleo é controlada por meio do monopólio, como na Arábia Saudita; por contratos de partilha de produção, como em Angola; por meio de joint venture como na Venezuela e Noruega; ou por contratos de prestação de serviço, como no Irã. Como tudo indica que o Brasil será exportador de petróleo, o retorno do modelo de concessão em áreas estratégicas não faz o menor sentido. Outra limitação ao crescimento da produção de petróleo não diz respeito propriamente à Petrobras, mas ao conteúdo nacional. Se abrirmos mão dos atuais patamares de conteúdo nacional, podemos acelerar o ritmo do crescimento da produção. Julgo, entretanto, ser importante manter a atual política de conteúdo nacional, mesmo gerando certa restrição ao aumento do ritmo do crescimento da produção.

De fato, a Petrobras tem hoje uma grande carteira de áreas a serem desenvolvidas, o que exige altíssimos investimentos. A extração petrolífera dos reservatórios do Pré-Sal apresenta elevada rentabilidade. Os custos de extração são inferiores a US$ 20 por barril, mas o valor da produção é superior a US$ 50 por barril. Tem-se, então, uma margem de mais de 100%. Sendo assim, o Estado poderia passar a ser investidor no Brasil, a exemplo do que ocorre na Noruega, onde a empresa de propriedade exclusiva do Estado, chamada Petoro, é parceira nos investimentos. Por isso, nas áreas estratégicas da plataforma continental da Noruega existe um regime de joint venture. Caso haja dificuldades de investimento por parte da Petrobras, que inclusive recentemente perdeu o grau de investimento na avaliação de determinada agência de risco, o Estado poderia passar a ser investidor e parceiro da Petrobras por meio, por exemplo, da empresa pública Pré-Sal Petróleo S.A. – PPSA.

Poderia nos explicar a relevância estratégica da Petrobras na economia nacional? Quais são os benefícios que esta empresa traz a população?

A Petrobras é a empresa líder no mundo em tecnologias para produção de petróleo em águas profundas. Talvez essa seja a única área tecnológica em que o Brasil está na liderança mundial. A alta capacitação dos técnicos da Petrobras permitiu a descoberta e o desenvolvimento de grandes reservatórios do Pré-Sal, o que exigiu e ainda exige vultosos investimentos. Também estratégicos são os investimentos da Petrobras na área de refino, com destaque para a Refinaria Abreu e Lima e para o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro. O Plano de Negócios e Gestão – PNG 2014-2018, alinhado ao Plano Estratégico 2030 e com foco no curto e médio prazo, totaliza investimentos da Petrobras de US$ 220,6 bilhões. Estima-se que as atividades das petrolíferas no Brasil, capitaneadas pela Petrobras, representam próximo de 10% do PIB. Isso evidencia a importância dessas atividades. A partir de 2003, a Petrobras passou a estar alinhada aos interesses estratégicos do País. A empresa investiu, em média, cerca de 0,8% do PIB de 2003 a 2006; investiu 1,3% em 2008 e 1,9% em 2009. Houve, no País, o ressurgimento da indústria naval, com aumento de 2 mil empregados para 85 mil.

Além dos benefícios econômicos para o País, a atuação da Petrobras permite que a alta volatilidade dos preços dos combustíveis no mercado internacional não seja repassada para os consumidores. As figuras abaixo mostram que a Petrobras praticou preços no mercado interno, na média, pouco abaixo dos preços do mercado internacional.

De 2005 a 2014, o preço médio de realização da gasolina nas refinarias da Petrobras foi de R$ 1,085, enquanto no porto de Nova Iorque foi de R$ 1,207. Para o óleo diesel, o valor da Petrobras foi de R$ 1,203, enquanto em Nova Iorque foi de R$ 1,299.

Nesse momento, é fundamental que o Ministério Público, o Poder Judiciário e outras instituições tenham percepção das consequências de seus atos para que as decisões não sejam fatais para trabalhadores e empresas, num momento difícil da economia brasileira. Punições são necessárias, assim como alterações no modelo de contratação da Petrobras, mas os trabalhadores não podem pagar a conta pelo que não fizeram e o Brasil precisa dos investimentos no setor petrolífero e em outros.

O que você aconselharia aos brasileiros que se importam com a Petrobras a fazer diante deste quadro?

Em primeiro lugar, que se conscientizem da diferença que existe entre a empresa e alguns ex-funcionários investigados na Operação Lava-Jato. Atualmente, há uma tendência de as pessoas não fazerem essa distinção e a acreditarem que o mal é endêmico e que não há saída para a Petrobras como empresa. Isso não é verdade, pois ela conta com extraordinários ativos, tanto patrimoniais quanto humanos, e não pode ser “resumida” aos acontecimentos extremamente negativos.

Assim, os brasileiros que se importam com a Petrobras devem lutar para que a companhia torne-se ainda mais estatal, forte e sob controle público. Se a Petrobras fosse uma empresa privada, ela não seria líder mundial em águas profundas, nem teriam ocorrido as importantes descobertas na província do Pré-Sal e os altíssimos investimentos nessa província e na área de abastecimento.

Santayana: A “nota” da Petrobras e a “nota” da Moody’s

Por Mauro Santayana | Via Jornal do Brasil

A agência de classificação de “risco” Moody’s acaba de rebaixar a nota de crédito da Petrobras de Baa2 para Ba2, fazendo com que ela passe de “grau de investimento” para “grau especulativo”.

Com sede nos Estados Unidos, o país mais endividado do mundo, de quem o Brasil é, atualmente, o quarto maior credor individual externo, a Moody’s é daquelas estruturas criadas para vender ao público a ilusão de que a Europa e os EUA ainda são o centro do mundo, e o capitalismo um modelo perfeito para o desenvolvimento econômico e social da espécie, que distribui, do centro para a “periferia”, formada por estados ineptos e atrasados, recomendações e “notas” essenciais para a solução de seus problemas e a caminhada humana rumo ao futuro.

O que faz a Petrobras?

Produz conhecimento, combustíveis, plásticos, produtos químicos, e, indiretamente, gigantescos navios de carga, plataformas de petróleo, robôs e equipamentos submarinos, gasodutos e refinarias.

De que vive a Moody’s?

Basicamente, de “trouxas” e de conversa fiada, assim como suas congêneres ocidentais, que produzem, a exemplo dela, monumentais burradas, quando seus “criteriosos” conselhos seriam mais necessários.

Conversa fiada que primou pela ausência, por exemplo, quando, às vésperas da Crise do Subprime, que quase quebrou o mundo em 2008, devido à fragilidade, imprevisão e irresponsabilidade especulativa do mercado financeiro dos EUA, a Moody’s, e outras agências de classificação de “risco” ocidentais, longe de alertar para o que estava acontecendo, atribuíram “grau de investimento”, um dos mais altos que existem, ao Lehman Brothers, pouco antes que esse banco pedisse concordata.

Conversa fiada que também primou pela incompetência e imprevisibilidade, quando, às vésperas da falência da Islândia – no bojo da profunda crise europeia, que, como se vê pela Grécia, parece não ter fim – alguns bancos islandeses chegaram a receber da Moody’s o Triple “A” (ilustração), o mais alto patamar de avaliação, também poucos dias antes de sua quebra.

Afinal, as agências de classificação europeias e norte-americanas, agem, antes de tudo, com solidariedade de “classe”. Quando se trata de empresas e nações “ocidentais”, e teoricamente desenvolvidas – apesar de apresentarem indicadores macro-econômicos piores do que muitos países do antigo Terceiro Mundo – as agências “erram” em suas previsões e só vêem a catástrofe quando as circunstâncias, se impõem, inapelavelmente, seguindo depois o seu caminho na maior cara dura, como se nada tivesse acontecido.

Quando se trata, no entanto, de países e empresas de nações emergentes, com indicadores econômicos como um crescimento de 400% do PIB, em dólares, em cerca de 12 anos, reservas monetárias de centenas de bilhões de dólares, e uma dívida pública líquida de menos de 35%, como o Brasil, o relho desce sem dó, principalmente quando se trata de um esforço coordenado, com outros tipos de abutres, como o Wall Street Journal, e o Financial Times, para desqualificar a nação que estiver ocupando o lugar de “bola da vez”.

Não é por outra razão que vários países e instituições multilaterais, como o BRICS, já discutem a criação de suas próprias agências de classificação de risco.

Não apenas porque estão cansados de ser constantemente caluniados, sabotados e chantageados por “analistas” de aluguel – como, aliás, também ocorre dentro de certos países, como o Brasil – mas também porque não se pode, absolutamente, confiar em suas informações.

Se houvesse uma agência de classificação de risco para as agências de “classificação” de risco ocidentais, razoavelmente isenta – caso isso fosse possível no ambiente de podridão especulativa e manipuladora dos “mercados” – a nota da Moody’s, e de outras agências semelhantes deveria se situar, se isso fosse permitido pelas Leis da Termodinâmica, abaixo do zero absoluto.

Em um mundo normal, nenhum investidor acreditaria mais na Moody’s, ou investiria um “cent” em suas ações, para deixar de apostar e aplicar seu dinheiro em uma empresa da economia real, que, com quase três milhões de barris por dia, é a maior produtora de petróleo do mundo, entre as petrolíferas de capital aberto, produz bilhões de metros cúbicos de gás e de etanol por ano, em sua área, é a mais premiada empresa do planeta – receberá no mês que vem mais um “oscar” do Petróleo da OTC – Offshore Technologies Conferences – em tecnologia de exploração em águas profundas, emprega quase 90.000 pessoas em 17 países, e lucrou mais de 10 bilhões de dólares em 2013, por causa da opinião de um bando de espertalhões influenciados e teleguiados por interesses que vão dos governos dos países em que estão sediados aos de “investidores” e especuladores que têm muito a ganhar sempre que a velha manada de analfabetos políticos acredita em suas “previsões”.

Neste mundo absurdo que vivemos, que não é o da China, por exemplo, que – do alto da segunda economia do planeta e de mais de 4 trilhões de dólares em ouro e reservas monetárias – está se lixando olimpicamente para as agências de “classificação” ocidentais, o rebaixamento da “nota” da Petrobras pela Moody’s, absolutamente aleatório do ponto de vista das condições de produção e mercado da empresa, adquire, infelizmente, a dimensão de um oráculo, e ocupa as primeiras páginas dos jornais.

E o pior é que, entre nós, de forma ridícula e patética, ainda tem gente que, por júbilo ou ignorância, festeja e comemora mais esse conto do vigário – destinado a enfraquecer a maior empresa do país – que não passa de um absurdo e premeditado esbulho.