Arquivos da categoria: Manchete

Os dois problemas do Brasil: a direita de dentro e a direita de fora

Por Luciano Wexell Severo | Via Carta Maior

Uma mistura explosiva de direita política raivosa, elite reacionária, imprensa golpista e um governo rendido ao capital especulativo internacional.

Certamente existem muitos problemas no Brasil. Mas, hoje, há dois que poderiam ser considerados os principais. São gravíssimos e imensos. O primeiro é representado pela mistura explosiva de uma direita política raivosa, uma elite reacionária, uma imprensa golpista e uma massa supostamente apolítica. A elite controla a imprensa, a direita controla o parlamento e a imprensa controla a massa. O chamado terceiro turno continua e promete atormentar um governo que recém inicia. A oposição já tentou deslegitimar os resultados das urnas. Depois, fez de tudo para impedir a posse. Agora, quer ganhar no tapetão. O candidato derrotado à vice-Presidência pelo PSDB transpareceu a linha de ação ao expelir que, mais importante do que impeachment, agora o plano é “sangrar a Dilma”.

Os jornalões se atrapalharam feio ao combinar com os policiais a quantidade de presentes nas ruas no dia 15 de março. Ainda assim, foi uma jornada importante. Levar quase duzentas mil pessoas à avenida Paulista tem algum valor. Mesmo que, em sua imensa maioria, se trate de uma elite branca, conservadora, moralista, alienada e noveleira. Foi como um rolezinho de gente diferenciada. Muitas socialites, artistas de reality shows, modelos acompanhantes de luxo, ex-jogadores de futebol, cantoras de músicas de rodeio e descendentes de militares torturadores. Também compareceu o desacreditado ex-cantor Lobão, que havia prometido ir para Miami em caso de nova vitória progressista, em 2014, e ainda não cumpriu.

As gravações dos depoimentos, disponíveis nas redes sociais, demonstram que o mote dos gritos raivosos foi a ameaça comunista, o perigo da revolução, a cubanização e a venezuelanização do Brasil, uma iminente ditadura marxista e o avanço do exército do MST. Sem qualquer vergonha do ridículo, os entrevistados repetiam chavões dignos do período mais assado da Guerra Fria, com meio século de demora. Uma das saídas para o país seria a intervenção militar, bradavam musculosos truculentos, senhoras com uniformes camuflados e moças disfarçadas de Barbie. “Os militares devem assumir o poder até a realização de novas eleições”, recomendava uma jovem de 35 anos, estreante em protestos de rua, que se mostrava fascinada por conhecer o metrô. As explanações são dignas de internação por demência ou até de prisão por incitação ao golpe de Estado.

Esta é a nossa elite culta, estudada e viajada, protetora da sua propriedade privada, sedenta da sua democracia e forjadora da sua liberdade. A cada movimento, exala remordimento e intolerância por ter perdido, na última década, uma reduzida parcela de sua condição de VIP. Não admite que negros e brancos ex-pobres estejam viajando de avião. Não entende como que um ser sem pedigree nem sangue azul possa comprar um carro ou um apartamento com financiamentos do Estado. Não aceita que os filhos de empregadas domésticas, agora melhor amparadas pela lei, estejam estudando medicina nas universidades públicas. Não percebe minimamente o lugar do Brasil no mundo e nem a importância da integração da América do Sul. Contraditoriamente, se vestem de verde e amarelo e cantam o hino nacional, demonstrando um falso nacionalismo, como fizeram seus generais Dutra, Médici e Costa e Silva, além de tantos outros subalternos.

A raiva, o rancor e a cegueira impedem que muitos brasileiros vejam as transformações do país nos últimos 12 anos. Há quem fique triste com o progresso dos outros. Não enxergam ou menosprezam a construção de milhões de residências populares, a geração de milhões de empregos com carteira assinada, o acesso de milhões à eletricidade subsidiada, a inauguração e a potencialização de universidades públicas e de qualidade, a expansão do SUS e o lançamento do “Mais Médicos”, o aumento do poder de compra do salário mínimo, a ativação do mercado interno e a política externa altiva, entre outras conquistas. Nas passeatas, faixas diziam que “Lula e o PT quebraram o Brasil”, sem saber (ou apagando da memória) que, nos anos 1990, o desgoverno de FHC – com o apoio da grande imprensa e de maioria da elite – privatizou o Estado e colocou a economia brasileira de joelhos para o FMI.

As manifestações de 15 de março foram majoritariamente de direita, reacionárias, rancorosas, tristes, conservadoras e racistas. Dizer que o povão insatisfeito estava na rua se trata de um oportunismo deslavado ou de fanatismo anti-Dilma. Além do medo do “comunismo”, o escudo para as mobilizações segue sendo a sigla ICIA (a Inflação, a Corrupção, a Insegurança e o Autoritarismo). Este vem sendo o lema usado pela direita golpista no Brasil, na Argentina, na Venezuela e nos países onde a elite atada ao imperialismo decidiu partir para a ofensiva. É como se a corrupção, que deve ser julgada, tivesse surgido agora. Seguindo o mesmo script moralista da UDN, os maiores corruptos estão denunciando a corrupção.

Mas, e as escandalosas privatizações dos anos 1990? E o caso da telefonia e do grampo do BNDES? E os tucanos Sérgio Motta e Mário Covas? E o propinoduto de Serra e Alckmin? E o mensalão mineiro de Aécio, Azeredo e Anastasia? Naquela época a Polícia Federal e o Ministério Público não podiam investigar como hoje. Os presentes na caminhada dominical da Paulista e de Copacabana não querem saber de corrupção. Querem cortar a cabeça de Lula, do PT e do progressismo. Além disso, é como se a inflação de 7% fosse algo totalmente inaceitável. É inaceitável para o sistema financeiro, que exige a elevação dos juros. O povão ainda não foi para a rua. Não foi exatamente porque é uma parcela da elite tupiniquim a que sobredimensiona a sigla ICIA, bandeira internacional de luta contra os governos progressistas.

No entanto, como se este primeiro problema não fosse imensamente complexo, ainda há um segundo: o governo de Dilma está se distanciando dos seus eleitores e, cada vez mais, rendendo-se aos interesses do capital especulativo internacional e à teologia do mercado. Cada vez que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy Mãos de Tesoura, aparece na mídia é para fazer alguma macaquice tentando alegrar aos seus patrões do sistema financeiro. As declarações que faz têm a função primordial de sinalizar ao mercado que este conta com um aliado incondicional. Economista convencional e ortodoxo, Levy não representa os interesses do Brasil nem dos brasileiros, mas dos seus amos banqueiros e especuladores.

O atual ministro da Fazenda possui estreitos vínculos com o FMI, o BID e o Banco Central Europeu. Serviu ao governo de Fernando Henrique Cardoso e, ultimamente, trabalhou para o Bradesco. Apesar de a presidenta Dilma tentar argumentar o contrário, sem crescimento, a política de valorização do salário mínimo e os programas sociais tendem a ser seriamente comprometidos. O ajuste não é a única opção. É a alternativa mais custosa para a grande maioria dos brasileiros e a mais covarde para a coalizão no governo. Além de covarde, nesta altura do campeonato, é suicida.

Normalmente, os ajustes aprofundam os problemas econômicos, sociais e políticos. Quase sempre, a mal chamada austeridade recai sobre os trabalhadores, a classe média e o setor produtivo, reduzindo as margens de crescimento. O ajuste e a suposta austeridade só serviriam para beneficiar ainda mais o mercado financeiro, que exige taxas de juros altas e o fiel pagamento da dívida pública. Como bem se sabe, isto já vem ocorrendo. Nos ajustes neoliberais, os gastos cortados são com pessoal, com investimentos e com a infraestrutura social. As despesas reservadas para o pagamento de dívida são crescentes e consideradas intocáveis. Por isso, há histeria com relação ao superávit primário, diminuem os investimentos públicos e continuam subindo as taxas de juros. Somente depois da eleição, a SELIC foi elevada em quatro ocasiões. Este aumento serve especialmente para encher as arcas do setor bancário, mas encarece o crédito, reduz o consumo, freia o comércio e desestimula a produção.

A preocupação central da coalizão de poder governante não é com a economia nacional ou com o desenvolvimento das forças produtivas internas. Até agora, a proposta governamental expressava uma ideia vaga de crescimento com transferência de renda, em que todos ganhassem. De fato, foi promovida a melhoria dos indicadores sociais e a ampliação das oportunidades dos mais pobres via transferência de recursos financeiros oriundos de um crescente processo de desnacionalização. Os rendimentos foram um pouco melhor distribuídos, mas não houve melhora na divisão da riqueza e continuaram praticamente livres de impostos os grandes detentores do capital, as maiores fortunas, os latifundiários, as heranças e os exportadores de bens primários. Mas esta estratégia é finita e insustentável. Aliás, o PIB já vem ribanceira abaixo.

Recentemente, vêm sendo ampliadas as concessões de estruturas públicas para usufruto de privados nacionais e estrangeiros. No dia 8 de março, Dilma prometeu, em rede nacional de rádio e televisão, continuar com esta política. Seguindo um caminho oposto ao dos países que historicamente buscaram o desenvolvimento das forças produtivas e uma maior autonomia internacional, o Brasil cede o controle de portos, ferrovias, aeroportos, estradas, hidrelétricas e termoelétricas para conglomerados privados nacionais e empresas estrangeiras. E a maioria dos recursos utilizados pelas concessionárias privadas é oriunda do próprio BNDES. Ou seja, o banco público voltou a financiar um processo de privatização e de desnacionalização da infraestrutura. A economia brasileira, subdesenvolvida e pobre, está financiando as maiores empresas e bancos do mundo.

A retomada do crescimento depende de políticas anticíclicas. Depende do Estado, do planejamento, do fomento à industrialização e da expansão do poder de compra dos trabalhadores. No entanto, na mais recente entrevista de Levy, fica claríssima a sua interpretação: o Capitalismo de Estado, disse, é incompatível com a democracia. Com um discurso de professor de microeconomia de quarta-categoria, falando em termos de homem econômico racional, o ministro considera que o mercado sim seja democrático. “O que a gente tem que fazer é ter preços adequados, que motivem as pessoas a tomarem decisões que vão levar ao crescimento”. Aí fica complicado.

Hoje em dia, os temas centrais da pauta política no Brasil são essencialmente conservadores e sequer se aproximam de assuntos cruciais como reforma agrária e impostos sobre o agronegócio; auditoria da dívida pública; suspensão e revisão das concessões de estruturas públicas para usufruto de privados nacionais ou estrangeiros; fim da ditadura dos meios de comunicação por parte de conglomerados familiares; suspensão do incentivo aos “campeões nacionais” e ao “clube do bilhão”, via financiamentos públicos para oligopólios privados (construção civil, alimentos, siderurgia, bancos, etc.); interrupção dos créditos benevolentes do BNDES para empresas transnacionais instaladas no Brasil; estatização e criação de empresas públicas em setores estratégicos da economia; controle protecionista da taxa de câmbio; redução das taxas de juros; entre outras medidas que são essenciais para que o país cresça, se democratize e se posicione mais soberanamente no cenário mundial.

Mas, de tão longe da realidade atual, a agenda comentada no parágrafo anterior, elementar para a edificação de um projeto de desenvolvimento e de maior autonomia, soa excêntrica e até lunática. Na vida real de Pindorama, a ministra de Agricultura é a senadora Kátia Abreu; os processos de auditoria da dívida pública, realizados na América do Sul e pelo mundo afora, são ignorados; as experiências de leis de democratização dos meios de comunicação, adotadas em diversos países, são menosprezadas. O BNDES libera financiamentos milionários para conglomerados estrangeiros expandirem seus oligopólios e ampliar a drenagem de recursos brasileiros para o exterior. Em um movimento temerário, o governo vem ampliando as margens de participação de capitais estrangeiros no Banco do Brasil e, recentemente, anunciou que abrirá essa possibilidade no caso da Caixa Econômica Federal. A Embrapa caminha no mesmo sentido.

Os volumosos financiamentos do BNDES bem poderiam servir para promover uma industrialização soberana, com empresas estatais ou de capital privado nacional de porte pequeno e médio. Ao invés disso, o dinheiro público vem sendo utilizado para fortalecer pouquíssimos grupos econômicos em setores estratégicos. Agora, esses conglomerados disputam a liderança dos mercados da região e do mundo. O caso das empreiteiras é igualmente escandaloso: ao invés de serem severamente punidas, as gigantes pegas com a mão na massa receberão novos empréstimos públicos para serem “salvas”.

A única saída possível para o governo de Dilma seria pela esquerda. Há poucos meses, as eleições foram vencidas por reduzida margem, com o apoio do povão contra os setores conservadores respaldados pelos grandes conglomerados da mídia. Mas a candidata eleita prometeu não fazer o que, agora, já está fazendo. Assim como havia prometido, em 2010, não entregar o pré-sal aos estrangeiros e o entregou na base da repressão aos manifestantes contrários. Seguir sacrificando o Brasil no altar dos especuladores e das multinacionais só piorará a situação. O ajuste ortodoxo e neoliberal de Joaquim Levy gerará constrangimentos crescentes e fará transbordar a insatisfação até os setores populares. E, aí sim, será um Deus nos acuda.

Um eventual fracasso do progressismo brasileiro teria grandes consequências não apenas para a construção de um país mais democrático e justo. Também haveria forte impacto negativo sobre os vizinhos latino-americanos que, mesmo com muito menos condições materiais que o Brasil, apostam em continuar trilhando um caminho de desenvolvimento autônomo e de inserção soberana no cenário mundial. Caso o governo não reverta o rumo e estabeleça outra agenda, Dilma poderá entrar para a história como a maior responsável por encerrar o áureo período de mudanças iniciado por Lula em 2003. Neste momento, apesar da crescente ofensiva da direita, respaldada pelos grandes meios de comunicação e pelo imperialismo, já parece muito difícil resgatar a coalizão governante do triste encanto das agências de classificação de risco, da panaceia do IDE e do sortilégio do deus mercado. Com as medidas corretas, o primeiro problema poderia ser contornado ou neutralizado. Com ajuste neoliberal, a restauração conservadora se vislumbra no horizonte.

***

Leonardo Wexell Severo é professor do curso de Economia, Integração e Desenvolvimento da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). luciano.severo@unila.edu.br .

A mais maldita das heranças do PT; complementos e análise

A escritora, repórter e documentarista Eliane Brum publicou no último dia 16 um polêmico artigo de título A mais maldita das heranças do PT (disponível neste post) no portal El País Brasil. A análise rendeu ótimos complementos dos colaboradores do Blog dos Desenvolvimentistas, Adriano Benayon, doutor em economia e Tania Faillace, jornalista e escritora.

Confira:

Adriano Benayon – A autora do artigo intitulado A mais maldita das heranças do PT diz algumas coisas muito razoáveis, inclusive apontando a ausência de liderança confiável na esquerda, a que ela se filia. Mas talvez não tenha conhecimento claro de fatos fundamentais, como:

1) a ausência de liderança importante e merecedora de apoio tampouco existe em qualquer segmento do espectro político;

2) isso não ocorreu por acaso, decorre da intervenção permanente do império em nosso País, diretamente e através de seus agentes e cooptados em todas as áreas relevantes para o poder, tanto no setor privado como no setor público;

3) a esta altura do campeonato, o País vem sendo brutal e crescentemente saqueado há mais de 60 anos e está se tornando, na atual conjuntura de intervenção “à la primavera árabe”, “guerra assimétrica”, ou lá o que seja, uma presa praticamente prostrada e inerme, para sofrer bicadas sôfregas dos abutres;

4) esta fase dos abutres está sendo turbinada pela crise financeira, exacerbada como parte da artilharia de apoio à dita intervenção, que visa, entre outras coisas, a assegurar para o império as fabulosas jazidas de petróleo e gás descobertas pela Petrobrás; com a vítima praticamente indefesa, dada sua estrutura econômica quase que terminalmente fragilizada após esses mais de 60 anos;

5) então, nesta altura do campeonato, qualquer liderança nacional seria bem-vinda, independentemente de posições ideológicas, dado que a presa, além do mais, está muitíssimo dividida e desnorteada (outro resultado de ter entregue o mercado em 1955 e do prolongamentos disso);

6) a direção do movimento de libertação nacional precisaria não ser nem de direita, nem de centro, nem de esquerda: deve ater-se aos fatos e principalmente ao fato principal: o império financeiro angloamericano já sugou, já imobilizou a presa, e está chegando à jugular dela: a tendência das novas instituições teria de decorrer deste princípio: esqueça ideias preconcebidas, mas aproveite as experiências históricas de luta antiimperialista em todo o mundo, e, em função disso, faça tudo que seja necessário para livrar-se da imobilização que está sofrendo por parte do império;

6) um ponto em que a autora carece de informação é colocar esperanças em Marina da Silva, uma das agentes mais notórias do imperialismo predador, travestida de ambientalista (claro que talvez só para a minoria que não se desinforma através da grande mídia).

Para finalizar, o próprio título da matéria me desagrada. A herança tenebrosa está longe de ser principalmente do PT. Esse partido é só um dos peões manipulados pelo império, e a esse respeito Lula e Dilma, embora no jogo e tendo cedido demais, imaginando que conseguiriam assentar suas bases de poder, são dos que menos se colocaram inteiramente como servidores do império angloamericano.

Quando, aí por 1963, rejeitou a oferta do general Amaury Kruel, então comandante do 2º Exército (SP), disposto a assegurar-lhe o apoio do Exército ao presidente, se este se afastasse dos comunistas (ou “comunistas”, não sei), Goulart justificou a recusa, dizendo não convir associar-se com sócio mais forte do que ele.

Interessante que os militares que se sucederam na presidência após 1964, cometeram esse erro, associando-se ao império angloamericano. Exceto Castello, nenhum deles queria alinhar-se de todo ao império, mas basta servi-lo em parte para ser dominado. Assim, os militares foram usados e posteriormente descartados. Sarney também.

O mesmo aconteceu com Lula e Dilma. Nem falei de PT, porque, tirante o Dirceu – há mais tempo descartado – o PT é partido muito pobre de quadros dignos de menção. Collor e FHC não precisamos comentar: agentes conscientes do império.

Tania Faillace – Quanto ao fato de que atravessamos uma fase crítica e emergencial, onde o dado/preocupação que se impõe, antes de tudo, é a soberania.

Sequer se pode pensar em “desenvolvimento sustentável” ou mesmo “justiça social”, antes de encarar de frente o risco real que sofre nossa soberania, sem a qual, todas as boas propostas e as boas intenções soçobram antes de dar um passo.

Fica, porém, a evidência de que temos muito poucos instrumentos. O esboço de organização da população trabalhadora através de seus órgãos de representação, esboroou-se com o pluralismo sindical, e o atrelamento político das entidades sindicais às quais os trabalhadores voltaram as costas, por não representarem seus interesses e não trabalharem sequer para a ampliação do número de sindicalizados e sua atuação, já que elas se sustentam comodamente apenas com a contribuição sindical obrigatória, sem precisar atuar, a não ser em eventos e festividades.

Esse esvaziamento dos movimentos classistas, enquanto classe e não meramente postulantes de reivindicações pontuais e específicas, foi acompanhado por igual esvaziamento de entidades profissionais de várias áreas, que polarizaram discussões e frentes de resistência respeitáveis durante o regime autoritário, e levantaram alternativas independentes e autônomas para a nação brasileira.

O mesmo aconteceu com as comunidades eclesiais, e o movimento estudantil, também focos geradores de pensamento e problematização das circunstâncias politicas, sociais e econômicas, no sentido de lhes dar resposta.

Isso foi obtido tanto pelo abastardamento de nossas políticas educacionais, que vinha desde 1970, mas atingiu seu auge nos últimos 10 anos, como ao oligopólio (quase monopólio) dos meios de comunicação de massa e a decomposição estrutural e temática dos partidos – inclusive os de direita – e a passividade assombrosa dos agentes econômicos de pequeno e até médio porte, diante do esmagamento promovido pelos mega-empreendimentos especulativos, inclusive em área de comércio e varejo.

Associações de agentes econômicos fecharam os olhos ao processo de concentração dos negócios, e sua apropriação por elementos alienígenas, fazendo suspeitar que um dado importante da questão é realmente de natureza ética: FALTA DE VERGONHA NA CARA, que vem sendo trabalhada permanente e insidiosamente pela revolução cultural do “politicamente correto” privilegiando a liberdade individual total, inclusive para cometer crimes “de foro íntimo”, como a corrupção moral da juventude, e a insistência no desmonte definitivo da família natural.

Essa estratégia do imperialismo pós-moderno parece ter sido muito eficiente: primeiro conquistar (ou demolir) as mentes, para depois conquistar (sem oposição) os bens materiais.

E embora a priorização destacada pelo Benayon pareça óbvia, não nos oferece uma sugestão prática: como organizar essa resistência contra o esbulho internacional?

O mínimo necessário, que seria garantir a informação sobre os fatos, de maneira ampla, imparcial, completa, para o esclarecimento dos cidadãos, passa inevitavelmente pelo controle social das mídias comerciais, hoje exclusivamente aserviço de seus patrocinadores e outros poderes, aos quais estão criminosamente associadas, conforme as investigações do Lava.Jato estão revelando, embora de forma indireta.

E depois?

A III Guerra Mundial já está aí. Russia faz operações no Ártico com represália às provocações da OTAN em suas vizinhanças. EUA incrementa cada vez mais sua produção e exportação de armas (que poderão ser usadas contra eles mesmos, é bom lembrar), porque é atualmente o único setor dinâmico de sua economia, e que precisa de guerras e mais guerras, ou quadrilhas criminosas e mais quadrilhas criminosas.

Toda essa exposição, mais a do Benayon, e as duas entrevistas que traduzi para o Groups, a da Naomi, e a da representante da ATTAC, Susan George, foram feitas especialmente para lhes tirar o sono. Uma boa insônia pode parir propostas viáveis.

***

A mais maldita das heranças do PT

Por Eliane Brum | Via El País

O maior risco para o PT, para além do Governo e do atual mandato, talvez não seja a multidão que ocupou as ruas do Brasil, mas a que não estava lá. São os que não estavam nem no dia 13 de março, quando movimentos como CUT, UNE e MST organizaram uma manifestação que, apesar de críticas a medidas de ajuste fiscal tomadas pelo Governo, defendia a presidente Dilma Rousseff. Nem estavam no já histórico domingo, 15 de março, quando centenas de milhares de pessoas aderiram aos protestos, em várias capitais e cidades do país, em manifestações contra Dilma Rousseff articuladas nas redes sociais da internet, com bandeiras que defendiam o fim da corrupção, o impeachment da presidente e até uma aterradora, ainda que minoritária, defesa da volta da ditadura. São os que já não sairiam de casa em dia nenhum empunhando uma bandeira do PT, mas que também não atenderiam ao chamado das forças de 15 de março, os que apontam que o partido perdeu a capacidade de representar um projeto de esquerda – e gente de esquerda. É essa herança do PT que o Brasil, muito mais do que o partido, precisará compreender. E é com ela que teremos de lidar durante muito mais tempo do que o desse mandato.

Tenho dúvidas sobre a tecla tão batida por esses dias do Brasil polarizado. Como se o país estivesse dividido em dois polos opostos e claros. Ou, como querem alguns, uma disputa de ricos contra pobres. Ou, como querem outros, entre os cidadãos contra a corrupção e os beneficiados pela corrupção. Ou entre os a favor e os contra o Governo. Acho que a narrativa da polarização serve muito bem a alguns interesses, mas pode ser falha para a interpretação da atual realidade do país. Se fosse simples assim, mesmo com a tese do impeachment nas ruas, ainda assim seria mais fácil para o PT.

Algumas considerações prévias. Se no segundo turno das eleições de 2014, Dilma Rousseff ganhou por uma pequena margem – 54.501.118 votos contra 51.041.155 de Aécio Neves –, não há dúvida de que ela ganhou. Foi democraticamente eleita, fato que deve ser respeitado acima de tudo. Não existe até esse momento nenhuma base para impeachment, instrumento traumático e seríssimo que não pode ser manipulado com leviandade, nem mesmo no discurso. Quem não gostou do resultado ou se arrependeu do voto, paciência, vai ter de esperar a próxima eleição. Os resultados valem também quando a gente não gosta deles. E tentar o contrário, sem base legal, é para irresponsáveis ou ignorantes ou golpistas.

No resultado das eleições ampliou-se a ressonância da tese de um país partido e polarizado. Mas não me parece ser possível esquecer que outros 37.279.085 brasileiros não escolheram nem Dilma nem Aécio, votando nulo ou branco e, a maior parte, se abstendo de votar. É muita gente – e é muita gente que não se sentia representada por nenhum dos dois candidatos, pelas mais variadas razões, à esquerda e também à direita, o que complica um pouco a tese da polarização. Além das divisões entre os que se polarizariam em um lado ou outro, há mais atores no jogo que não estão nem em um lado nem em outro. E não é tão fácil compreender o papel que desempenham. No mesmo sentido, pode ser muito arriscado acreditar que quem estava nos protestos neste domingo eram todos eleitores de Aécio Neves. A rua é, historicamente, o território das incertezas – e do incontrolável.

Há lastro na realidade para afirmar também que uma parte dos que só aderiram à Dilma Rousseff no segundo turno era composta por gente que acreditava em duas teses amplamente esgrimidas na internet às vésperas da votação: 1) a de que Dilma, assustada por quase ter perdido a eleição, em caso de vitória faria “uma guinada à esquerda”, retomando antigas bandeiras que fizeram do PT o PT; 2) a de votar em Dilma “para manter as conquistas sociais” e “evitar o mal maior”, então representado por Aécio e pelo PSDB. Para estes, Dilma Rousseff não era a melhor opção, apenas a menos ruim para o Brasil. E quem pretendia votar branco, anular o voto ou se abster seria uma espécie de traidor da esquerda e também do país e do povo brasileiro, ou ainda um covarde, acusações que ampliaram, às vésperas das eleições, a cisão entre pessoas que costumavam lutar lado a lado pelas mesmas causas. Neste caso, escolhia-se ignorar, acredito que mais por desespero eleitoral do que por convicção, que votar nulo, branco ou se abster também é um ato político.

Faz sentido suspeitar que uma fatia significativa destes que aderiram à Dilma apenas no segundo turno, que ou esperavam “uma guinada à esquerda” ou “evitar o mal maior”, ou ambos, decepcionaram-se com o seu voto depois da escolha de ministros como Kátia Abreu e Joaquim Levy, à direita no espectro político, assim como com medidas que afetaram os direitos dos trabalhadores. Assim, se a eleição fosse hoje, é provável que não votassem nela de novo. Esses arrependidos à esquerda aumentariam o número de eleitores que, pelas mais variadas razões, votaram em branco, anularam ou não compareceram às urnas, tornando maior o número de brasileiros que não se sentem representados por Dilma Rousseff e pelo PT, nem se sentiriam representados por Aécio Neves e pelo PSDB.

Esses arrependidos à esquerda, assim como todos aqueles que nem sequer cogitaram votar em Dilma Rousseff nem em Aécio Neves porque se situam à esquerda de ambos, tampouco se sentem identificados com qualquer um dos grupos que foi para as ruas no domingo contra a presidente. Para estes, não existe a menor possibilidade de ficar ao lado de figuras como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP) ou de defensores da ditadura militar ou mesmo de Paulinho da Força. Mas também não havia nenhuma possibilidade de andar junto com movimentos como CUT, UNE e MST, que para eles “pelegaram” quando o PT chegou ao poder: deixaram-se cooptar e esvaziaram-se de sentido, perdendo credibilidade e adesão em setores da sociedade que costumavam apoiá-los.

Essa parcela da esquerda – que envolve desde pessoas mais velhas, que historicamente apoiaram o PT, e muitos até que ajudaram a construí-lo, mas que se decepcionaram, assim como jovens filhos desse tempo, em que a ação política precisa ganhar horizontalidade e se construir de outra maneira e com múltiplos canais de participação efetiva – não encontrou nenhum candidato que a representasse. No primeiro turno, dividiram seus votos entre os pequenos partidos de esquerda, como o PSOL, ou votaram em Marina Silva, em especial por sua compreensão da questão ambiental como estratégica, num mundo confrontado com a mudança climática, mas votaram com dúvidas. No segundo turno, não se sentiram representados por nenhum dos candidatos.

Marina Silva foi quem chegou mais perto de ser uma figura com estatura nacional de representação desse grupo à esquerda, mais em 2010 do que em 2014. Mas fracassou na construção de uma alternativa realmente nova dentro da política partidária. Em parte por não ter conseguido registrar seu partido a tempo de concorrer às eleições, o que a fez compor com o PSB, sigla bastante complicada para quem a apoiava, e assumir a cabeça de chapa por conta de uma tragédia que nem o mais fatalista poderia prever; em parte por conta da campanha mentirosa e de baixíssimo nível que o PT fez contra ela; em parte por equívocos de sua própria campanha, como a mudança do capítulo do programa em que falava de sua política para os LGBTs, recuo que, além de indigno, só ampliou e acentuou a desconfiança que muitos já tinham com relação à interferência de sua fé evangélica em questões caras como casamento homoafetivo e aborto; em parte porque escolheu ser menos ela mesma e mais uma candidata que supostamente seria palatável para estratos da população que precisava convencer. São muitas e complexas as razões.

O que aconteceu com Marina Silva em 2014 merece uma análise mais profunda. O fato é que, embora ela tenha ganhado, no primeiro turno de 2014, cerca de 2,5 milhões de votos a mais do que em 2010, seu capital político parece ter encolhido, e o partido que está construindo, a Rede Sustentabilidade, já sofreu deserções de peso. Talvez ela ainda tenha chance de recuperar o lugar que quase foi seu, mas não será fácil. Esse é um lugar vago nesse momento.

Há uma parcela politizada, à esquerda, que hoje não se sente representada nem pelo PT nem pelo PSDB, não participou de nenhum dos panelaços nem de nenhuma das duas grandes manifestações dos últimos dias, a de 15 de março várias vezes maior do que a do dia 13. É, porém, muito atuante politicamente em várias áreas e tem grande poder de articulação nas redes sociais. Não tenho como precisar seu tamanho, mas não é desprezível. É com essa parcela de brasileiros, que votou em Lula e no PT por décadas, mas que deixou de votar, ou de jovens que estão em movimentos horizontais apartidários, por causas específicas, que apontam o que de fato deveria preocupar o PT, porque esta era ou poderia ser a sua base, e foi perdida.

A parcela de esquerda que não bateria panelas contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderia, aponta a falência do PT em seguir representando o que representou no passado. Aponta que, em algum momento, para muito além do Mensalão e da Lava Jato, o PT escolheu se perder da sua base histórica, numa mistura de pragmatismo com arrogância. É possível que o PT tenha deixado de entender o Brasil. Envelhecido, não da forma desejável, representada por aqueles que continuam curiosos em compreender e acompanhar as mudanças do mundo, mas envelhecido da pior forma, cimentando-se numa conjuntura histórica que já não existe. E que não voltará a existir. Essa aposta arriscada precisa que a economia vá sempre bem; quando vai mal, o chão desaparece.

Fico perplexa quando lideranças petistas, e mesmo Lula, perguntam-se, ainda que retoricamente, por que perderam as ruas. Ora, perderam porque o PT gira em falso. O partido das ruas perdeu as ruas – menos porque foi expulso, mais porque se esqueceu de caminhar por elas. Ou, pior, acreditou que não precisava mais. Nesse contexto, Dilma Rousseff é só a personagem trágica da história, porque em algum momento Lula, com o aval ativo ou omisso de todos os outros, achou que poderia eleger uma presidente que não gosta de fazer política. Estava certo a curto prazo, podia. Mas sempre há o dia seguinte.

Não adianta ficar repetindo que só bateu panela quem é da elite. Pode ter sido maior o barulho nos bairros nobres de São Paulo, por exemplo, mas basta um pequeno esforço de reportagem para constatar que houve batuque de panelas também em bairros das periferias. Ainda que as panelas batessem só nos bairros dos ricos e da classe média, não é um bom caminho desqualificar quem protesta, mesmo que você ou eu não concordemos com a mensagem, com termos como “sacada gourmet” ou “panelas Le Creuset”. Todos têm direito de protestar numa democracia e muitos dos que ridicularizam quem protestou pertencem à mesma classe média e talvez tenham uma ou outra panelinha Le Creuset ou até pagou algumas prestações a mais no apartamento para ter uma sacada gourmet, o que não deveria torná-los menos aptos nem a protestar nem a criticar o protesto.

Nos panelaços, só o que me pareceu inaceitável foi chamar a presidente de “vagabunda” ou de “vaca”, não apenas porque é fundamental respeitar o seu cargo e aqueles que a elegeram, mas também porque não se pode chamar nenhuma mulher dessa maneira. E, principalmente, porque o “vaca” e o “vagabunda” apontam a quebra do pacto civilizatório. É nesses xingamentos, janela a janela, que está colocado o rompimento dos limites, o esgarçamento do laço social. Assim como, no domingo de 15 de março, essa ruptura esteve colocada naqueles que defendiam a volta da ditadura. Não há desculpa para desconhecer que o regime civil militar que dominou o Brasil pela força por 21 anos torturou gente, inclusive crianças, e matou gente. Muita gente. Assim, essa defesa é inconstitucional e criminosa. Com isso, sim, precisamos nos preocupar, em vez de misturar tudo numa desqualificação rasteira. É urgente que a esquerda faça uma crítica (e uma autocrítica) consistente, se quiser ter alguma importância nesse momento agudo do país.

Também não adianta continuar afirmando que quem foi para as ruas é aquela fatia da população que é contra as conquistas sociais promovidas pelo governo Lula, que tirou da miséria milhões de brasileiros e fez com que outros milhões ascendessem ao que se chamou de classe C. Pessoas as quais é preciso respeitar mais pelo seu passado do que pelo seu presente ficaram repetindo na última semana que quem era contra o PT não gostava de pobres nos aeroportos ou estudando nas universidades, entre outras máximas. É fato que existem pessoas incomodadas com a mudança histórica que o PT reconhecidamente fez, mas dizer que toda oposição ao PT e ao Governo é composta por esse tipo de gente, ou é cegueira ou é má fé.

Num momento tão acirrado, todos que têm expressão pública precisam ter muito mais responsabilidade e cuidado para não aumentar ainda mais o clima de ódio – e disseminar preconceitos já se provou um caminho perigoso. Até a negação deve ter limites. E a negação é pior não para esses ricos caricatos, mas para o PT, que já passou da hora de se olhar no espelho com a intenção de se enxergar. De novo, esse discurso sem rastro na realidade apenas gira em falso e piora tudo. Mesmo para a propaganda e para o marketing, há limites para a falsificação da realidade. Se é para fazer publicidade, a boa é aquela capaz de captar os anseios do seu tempo.

É também por isso que me parece que o grande problema para o PT não é quem foi para as ruas no domingo, nem quem bateu panela, mas quem não fez nem uma coisa nem outra, mas também não tem a menor intenção de apoiá-lo, embora já o tenha feito no passado ou teria feito hoje se o PT tivesse respeitado as bandeiras do passado. Estes apontam o que o PT perdeu, o que já não é, o que possivelmente não possa voltar a ser.

O PT traiu algumas de suas bandeiras de identidade, aquelas que fazem com que em seu lugar seja preciso colocar máscaras que não se sustentam por muito tempo. Traiu não apenas por ter aderido à corrupção, que obviamente não foi inventada por ele na política brasileira, fato que não diminui em nada a sua responsabilidade. A sociedade brasileira, como qualquer um que anda por aí sabe, é corrupta da padaria da esquina ao Congresso. Mas ser um partido “ético” era um traço forte da construção concreta e simbólica do PT, era parte do seu rosto, e desmanchou-se. Embora ainda existam pessoas que merecem o máximo respeito no PT, assim como núcleos de resistência em determinadas áreas, secretarias e ministérios, e que precisam ser reconhecidos como tal, o partido traiu causas de base, aquelas que fazem com que se desconheça. Muitos dos que hoje deixaram de militar ou de apoiar o PT o fizeram para serem capazes de continuar defendendo o que o PT acreditava. Assim como compreenderam que o mundo atual exige interpretações mais complexas. Chamar a estes de traidores ou de fazer o jogo da direita é de uma boçalidade assombrosa. Até porque, para estes, o PT é a direita.

A parcela à esquerda que preferiu ficar fora de manifestações a favor ou contra lembra que tão importante quando discutir a corrupção na Petrobras é debater a opção por combustíveis fósseis que a Petrobras representa, num momento em que o mundo precisa reduzir radicalmente suas emissões de gases do efeito estufa. Lembra que estimular a compra de carros como o Governo federal fez é contribuir com o transporte privado individual motorizado, em vez de investir na ampliação do transporte público coletivo, assim como no uso das bicicletas. É também ir na contramão ao piorar as condições ambientais e de mobilidade, que costumam mastigar a vida de milhares de brasileiros confinados por horas em trens e ônibus lotados num trânsito que não anda nas grandes cidades. Lembra ainda que estimular o consumo de energia elétrica, como o Governo fez, é uma irresponsabilidade não só econômica, mas socioambiental, já que os recursos são caros e finitos. Assim como olhar para o colapso da água visando apenas obras emergenciais, mas sem se preocupar com a mudança permanente de paradigma do consumo e sem se preocupar com o desmatamento tanto da floresta amazônica quanto do Cerrado quanto das nascentes do Sudeste e dos últimos redutos sobreviventes de Mata Atlântica fora e dentro das cidades é um erro monumental a médio e a longo prazos.

Os que não bateram panelas contra o PT e que não bateriam a favor lembram que a forma de ver o país (e o mundo) do lulismo pode ser excessivamente limitada para dar conta dos vários Brasis. Povos tradicionais e povos indígenas, por exemplo, não cabem nem na categoria “pobres” nem na categoria “trabalhadores”. Mas, ao fazer grandes hidrelétricas na Amazônia, ao ser o governo de Dilma Rousseff o que menos demarcou terras indígenas, assim como teve desempenho pífio na criação de reservas extrativistas e unidades de conservação, ao condenar os povos tradicionais ao etnocídio ou à expulsão para a periferia das cidades, é em pobres que são convertidos aqueles que nunca se viram nesses termos. Em parte, a construção objetiva e simbólica de Lula – e sua forma de ver o Brasil e o mundo – encarna essa contradição (escrevi sobre isso aqui), que o PT não foi capaz nem quis ser capaz de superar no poder. Em vez de enfrentá-la, livrou-se dos que a apontavam, caso de Marina Silva.

O PT no Governo priorizou um projeto de desenvolvimento predatório, baseado em grandes obras, que deixou toda a complexidade socioambiental de fora. Escolha inadmissível num momento em que a ação do homem como causa do aquecimento global só é descartada por uma minoria de céticos do clima, na qual se inclui o atual ministro de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo, mais uma das inacreditáveis escolhas de Dilma Rousseff. A síntese das contradições – e também das traições – do PT no poder não é a Petrobras, mas Belo Monte. Sobre a usina hidrelétrica já pesa a denúncia de que só a construtora Camargo Corrêa teria pagado mais de R$ 100 milhões em propinas para o PT e para o PMDB. É para Belo Monte que o país precisaria olhar com muito mais atenção. É na Amazônia, onde o PT reproduziu a visão da ditadura ao olhar para a floresta como um corpo para a exploração, que as fraturas do partido ao chegar ao poder se mostram em toda a sua inteireza. E é também lá que a falácia de que quem critica o PT é porque não gosta de pobre vira uma piada perversa.

A sorte do PT é que a Amazônia é longe para a maioria da população e menos contada pela imprensa do que deveria, ou contada a partir de uma visão de mundo urbana que não reconhece no outro nem a diferença nem o direito de ser diferente. Do contrário, as barbaridades cometidas pelo PT contra os trabalhadores pobres, os povos indígenas e as populações tradicionais, e contra uma floresta estratégica para o clima, para o presente e para o futuro, seriam reconhecidas como o escândalo que de fato são. É também disso que se lembram aqueles que não gritaram contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderiam.

Lembram também que o PT não fez a reforma agrária; ficou aquém na saúde e na educação, transformando “Brasil, Pátria Educadora” num slogan natimorto; avançou muito pouco numa política para as drogas que vá além da proibição e da repressão, modelo que encarcera milhares de pequenos traficantes num sistema prisional sobre o qual o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já disse que “prefere morrer a cumprir pena”; cooptou grande parte dos movimentos sociais (que se deixaram cooptar por conveniência, é importante lembrar); priorizou a inclusão social pelo consumo, não pela cidadania; recuou em questões como o kit anti-homofobia e o aborto; se aliou ao que havia de mais viciado na política brasileira e aos velhos clãs do coronelismo, como os Sarney.

Isso é tão ou mais importante do que a corrupção, sobre a qual sempre se pode dizer que começou bem antes e atravessa a maioria dos partidos, o que também é verdade. Olhar com honestidade para esse cenário depois de mais de 12 anos de governo petista não significa deixar de reconhecer os enormes avanços que o PT no poder também representou. Mas os avanços não podem anular nem as traições, nem os retrocessos, nem as omissões, nem os erros. É preciso enfrentar a complexidade, por toda as razões e porque ela diz também sobre a falência do sistema político no qual o país está atolado, para muito além de um partido e de um mandato.

Há algo que o PT sequestrou de pelo menos duas gerações de esquerda e é essa a sua herança mais maldita. E a que vai marcar décadas, não um mandato. Tenho entrevistado pessoas que ajudaram a construir o PT, que fizeram dessa construção um projeto de vida, concentradas em lutas específicas. Essas pessoas se sentem traídas porque o partido rasgou suas causas e se colocou ao lado de seus algozes. Mas não traídas como alguém de 30 anos pode se sentir traído em seus últimos votos. Este tem tempo para construir um projeto a partir das novas experiências de participação política que se abrem nesse momento histórico muito particular. Os mais velhos, os que estiveram lá na fundação, não. Estes sentem-se traídos como alguém que não tem outra vida para construir e acreditar num novo projeto. É algo profundo e também brutal, é a própria vida que passa a girar em falso, e justamente no momento mais crucial dela, que é perto do fim ou pelo menos nas suas últimas décadas. É um fracasso também pessoal, o que suas palavras expressam é um testemunho de aniquilação. Algumas dessas pessoas choraram neste domingo, dentro de casa, ao assistir pela TV o PT perder as ruas, como se diante de um tipo de morte.

O PT, ao trair alguns de seus ideias mais caros, escavou um buraco no Brasil. Um bem grande, que ainda levará tempo para virar marca. Não adianta dizer que outros partidos se corromperam, que outros partidos recuaram, que outros partidos se aliaram a velhas e viciadas raposas políticas. É verdade. Mas o PT tinha um lugar único no espectro partidário da redemocratização, ocupava um imaginário muito particular num momento em que se precisava construir novos sentidos para o Brasil. Era o partido “diferente”. Quem acreditou no PT esperou muito mais dele, o que explica o tamanho da dor daqueles que se desfiliaram ou deixaram de militar no partido. A decepção é sempre proporcional à esperança que se tinha depositado naquele que nos decepciona.

É essa herança que precisamos entender melhor, para compreender qual é a profundidade do seu impacto no país. E também para pensar em como esse vácuo pode ser ocupado, possivelmente não mais por um partido, pelo menos não um nos moldes tradicionais. Como se sabe, o vácuo não se mantém. Quem acredita em bandeiras que o PT já teve precisa parar de brigar entre si – assim como de desqualificar todos os outros como “coxinhas” – e encontrar caminhos para ocupar esse espaço, porque o momento é limite. O PT deve à sociedade brasileira um ajuste de contas consigo mesmo, porque o discurso dos pobres contra ricos já virou fumaça. Não dá para continuar desconectado com a realidade, que é só uma forma estúpida de negação.

Para o PT, a herança mais maldita que carrega é o silêncio daqueles que um dia o apoiaram, no momento em que perde as ruas de forma apoteótica. O PT precisa acordar, sim. Mas a esquerda também.

Naomi Klein: O sistema capitalista é responsável pelas mudanças climáticas

Podemos deter o aquecimento global?  Só se alterarmos de modo radical nosso sistema capitalista, sustenta a ensaísta Naomi Klein. Numa entrevista ao semanário alemão Der Spiegel, explica porque chegou o momento de abandonar os pequenos passos em favor de um enfoque radicalmente novo.

Isso é detalhado em seu livro recentemente traduzido ao espanhol, Isso muda tudo, o capitalismo contra o clima.

Por que não conseguimos deter a alteração climática?

Má sorte. Mau momento. Muitas coincidências lamentáveis.

A catástrofe equivocada no momento equivocado?

O pior momento possível. A conexão entre gases estufa e aquecimento global vem sendo uma questão política central para a Humanidade desde 1988. Foi precisamente na época em que caiu o Muro de Berlim, e Francis Fukuyama atestou “o fim da História”, a vitória do capitalismo ocidental. Canadá e os EUA assinaram o primeiro acordo de livre comércio, que serviu de protótipo para o resto do mundo.

Assim, você diz, começou uma nova era de consumo e energia precisamente no momento em que a sustentabilidade e a contenção teriam sido mais adequadas?

Exatamente. E foi precisamente nesse momento em que nos disseram que já não havia nada parecido à responsabilidade social e á ação coletiva, e que deveríamos deixar tudo com o mercado. Privatizamos nossas ferrovias e a rede energética, a OMC e o FMI se comprometeram com um capitalismo desregulado (selvagem?) Infelizmente, isso levou a uma explosão das emissões.

Você é ativista e culpa o capitalismo por tudo ao longo dos anos. Atribui-lhe a culpa também da mudança climática?

Não há razão para ironias. Os números contam qual é a história completa. Durtante os anos 90, as emissões elevaram-se na taxa de 1% anual. Desde el año 2000, foram subindo em média 3.4 %. Exportou-se globalmente o modelo americano e se expandiram rapidamente bens de consumo, que imaginávamos essenciais para satisfazer nossas necessidades. Começamos a nos ver essencialmente como consumidores. Quanto a comprar como forma de vida se exporta a todos os rincões do globo, isso exige energia. Muita energia.

Voltemos à primeira pergunta: porque não pudemos deter essa mudança?

Descartamos sistematicamente as ferramentas. Hoje se zomba de todas as normas e regulamentações de toda a espécie. Os gov ernos já não aplicam normas severas que ponham limites às companhias petrolíferas e demais empresas. Essas crises nos caem em cima no pior momento possível. Não temos mais tempo. Estamos num momento de agora ou nunca. Se não agirmos como espécie, nosso futuro está em perigo. Temos que reduzir as emissões de modo radical.

Voltemos a outra pergunta: Você não usa indevidamente a mudança climática para criticar o capitalismo? [1]

Não. O sistema econômico que criamos criou também a mudança climática. Isso eu não inventei. O sistema é prejudicial, a desigualdade econômica é excessiva e a falta de contenção por parte das companhias energéticas é desastrosa.

Seu filho Tomás tem dois anos e meio. Em que espécie de mundo ele viverá em 2030, quando sair da escola?

É isso o que se está decidindo agora mesmo. Vejo sinais de que podería haver um mundo radicalmente diferente do que temos hoje e de que a mudança poderia ser positiva ou extremamente negativa. Já está claro que, pelo menos em parte, será um mundo pior. Vamos sofrer a mudança climática e muitos mais desastres naturais, isso é certo. Mas temos tempo ainda de impedir um aquecimento verdadeiramente catastrófico. Temos tempo de mudar nosso sistema econômica para que não se torne mais brutal e impiedoso ao enfrentar a mudança climática.

Que se pode fazer para melhorar a situação?

Temos que tomar hoje algumas decisões sobre quais valores são importantes para nós, e como queremos realmente viver. E, certamente, há uma diferença entre a temperatura que sobe apenas 2 graus, ou 4 ou cinco a mais. Ainda nos é possível tomar as decisões corretas.

Passaram-se 26 anos desde que se fundou o IPCC (Intergovernamental sobre mudança Climática) em 1988. Sabemos, pelo menos, desde então, que as mudanças de CO2 causadas pela queima de petróleo e carvão são responsáveis pela mudança climática. Mas pouco se fez para encarar o problema. Já não teremos fracassado?

Eu vejo a situação de modo diferente, dado o enorme preço que teremos que pagar. Enquanto tenhamos a menor oportunidade de êxito ou de minimizar o dano, temos que continuar lutando.

Faz vários anos, a comunidade internacional estabelelceu um objetivo parea limitar o aquecimento global a dois graus centígrados. Ainda o considera alcançável?

Bem, ainda é uma possibilidade física. Teríamos que reduzir imediatamente as emissões globais em 6% ao ano. Os países mais ricos teríam que carregar um peso maior, o que significa que os EUA e Europa teríam que cortar emissões entre 8% e 10% ao ano. Imediatamente. Não é impossível, só que é politicamente irreal com nosso atual sistema.

Diz você que nossas sociedades não são capazes disso?

Sim. Necessitamos uma mudança espetacular, tanto na política como na ideologia, porque há uma diferença fundamental entre o que os cientistas nos dizem que temos que fazer e nossa atual realidade política. Não podemos mudar a realidade física, assim temos que mudar a realidade política.

Pode uma sociedade que se centra no crescimento combater de fato com êxito a mudança climática? [2]

Não. Um modelo econômico baseado num crescimento indiscriminado, leva inevitavelmente a um maior consumo e a maiores emissões de CO2. Pode e deve haver crerscimento no futuro em muitos setores de baixas emissões na economia, em tecnologias verdes, em transporte público, em todas as atividades que propiciam serviços, artes e, sem dúvida, na educação. Agora mesmo, o núcleo de nosso produto interior bruto compreende só o consumo, as importações e exportações. Aí deve haver cortes. Qualquer outra proposta seria enganar-se a si mesmo.

O FMI diz o contrário. Diz que o crescimento econômico e a proteção do clima não se excluem mutuamente.

Não analisam os mesmos números que eu. O primeiro problema é que em todas essas conferências sobre o clima, todo o mundo age como se fôssemos chagar a nossa meta por meio de um compromisso próprio e de obrigações voluntariamente aceitas. Ninguém diz às empresas petrolíferas que devem ceder. O segundo problema é que essas empresas lutarão como feras para proteger o que não querem perder.

Seriamente, quer eliminar o livre mercado para salvar o clima?

Não falo de eliminar mercados, mas nos faz falta muito mais estratégia, direção e planejamento, e um equilíbrio muito diferente. O sistema em que vivemos está abertamente obcecado pelo crescimento, considera bom todo o crescimento. Mas há fomas de crescimento que não são boas. Tenho clareza de que minha posição entra em conflito direto com o neoliberalismo. É verdade que, na Alemanha, ainda que vocês tenham acelerado a mudança para a energia renovável, o consumo de carvão está, na verdade , aumentando?

Isso era certo entre 2009 e 2013.

Para mim, isso é a expressão da renúncia a tomar decisões sobre o que é preciso fazer. Alemanha tampouco vai cumprir seu objetivo de reduzir emissões nos próximos anos.

A presidência de Obama foi o que de pior poderia ter acontecido ao clima?

De certo modo. Não que Obama seja pior que um republicano, o que não é, e sim, porque nesses oito anos foram a maior oportunidade desperdiçada de nossas vidas. Havia os fatores certos para uma convergência realmente histórica: consciência, pressa, ânimo, sua maioria política, o fracasso dos Três Grndes Fabricantes de automóveis norteamericanos e até a possibilidade de encarar de vez a mudança climática e o falido mundo financeiro desregulado. Mas quando assumiu o cargo, não teve coragem de agir. Não venceremos essa batalha a menos que estejamos dispostos a dizer porque Obama considerou que o fato de ter controle sobre bancos e companhias de automóveis era mais uma corvéia que uma oportunidade. Estava prisioneiro do sistema. Não quis mudá-lo.

Os EUA e China chegaram finalmente a um acordo inicial sobre o clima em 2014.

O que, certamente, é algo bom. Mas tudo o que pode ser penoso no acordo não entrará em vigor até que Obama termine seu mandato. O que mudou foi que Obama disse: “Nossos cidadãos estão manifestando, não podemos ignorá-los”. Os movimentos de massa são importantes, têm repercussões. Mas, para empurrar nossos líderes até onde têm que chegar, os movimentos devem fazer-se mais fortes.

Qual deveria ser sua meta?

Nos últimos 20 anos, a extrema direita, a absoluta liberdade das empresas petrolíferas e a liberdade do 1% dos super-ricos da sociedade se converteram em norma política. Temos que deslocar de novo o centro político norte-americano da franja direitista a seu lugar natural, o verdadeiro centro.

Senhora, isso não tem sentido, porque é uma ilusão. Pensa você em avançar demais. Se você quer eliminar o capitalismo antes de elaborar um plano para salvar o clima, sabe você que isso não vai acontecer.

Olhe, se você quer deprimir-se, tem muitas razões pra isso. Mas continuará equivocado, porque o fato é que centrar-se em mudanças graduais supostamente viáveis, como o comércio de emissões e a troca de lâmpadas, fracassou miseravelmente. Em parte isso se deve ao fato de na maioria dos países o movimento ambiental permaneceu elitista, tecnocrático e supostamente neutro politicamente durante duas décadas e meia. Já vemos hoje quais são os resultados a que nos levaram o caminho equivocado. As emissões estão aumentando e aqui temos a mudança climática. Em segundo lugar, nos EUA, todas as transformações importantes legais e sociais dos últimos 150 anos foram resultado de movimentos sociais massivos, seja em favor das mulheres, contra a escravidão, ou em prol dos direitos civis. Necessitamos de novo esta fortaleza, e rapidamente, porque a causa da mudança climática é o sistema político e econômico vigentes. Seu enfoque é muito tecnocrático e estreito.

Se tenta você solucionar um problema específico revirando toda a ordem social, não vai resolvê-lo. É uma fantasia utópica.

Se a ordem social é a raiz do problema, é diferente. Olhando de outra perspectiva, nadamos literalmente em exemplos de pequenas soluções: há tecnologias verdes, leis locais, tratados bilaterais e impostos ao CO2. Por que não temos tudo isso em escala global?

Diz você que todos esses pequenos passos – tecnologia verde e impostos ao Co2 e um comportamento ecológico individual – não têm sentido?

Não. Todos deveríamos fazer o que pudéssemos, de certo. Mas não podemos nos engtanar com que isso seja suficiente. O que digo é que esses pequenos passos são muito pequenos, se não se convertem num movimento de massas. Necessitgamos uma transformação econômica e política, que se gaseia em comunidades mais fortes, empregos sustentáveis, maior regulamentação e um afastamento dessa obsessão de crescimento. Essas são as boas notícias. Temos, realmente, a oportunidade de resolver muitos problemas imediatamente.

Não parece contar com a razão coletiva de políticos e empresários.

Porque o sistema não pode pensar. O sistema recompensa a ganância a curto prazo, o que significa dizer, lucros rápidos. Observe Michael Bloomberg, por exemplo…

 …empresario e antigo prefeito de Nova Iorque…

…que entende la gravidade da crise do clima como político. Como empresário, prefere investir num que se especializa em ativos de petróleo e gás. Se uma pessoa como Bloomberg não pode resistir à tentação, se pode concluir, por esse caso, que não é grande a capacidade de auto-conservação do sistema.

Um capítulo especialmente de seu livro é o de Richard Branson, presidente do Grupo Virgin.

Sim, estava esperando.

Branson apresentou-se como um homem que quer salvar o clima. Tudo começou com um encontro com Al Gore.

E em 2006 se comprometeu num ato que acolhia a a Clinton Global Initiative onde investiria 3 bilhões de dólares para pesquisar tecnologias verdes. Naquela época, eu pensava que seria um aporte realmente fantástico. O que não me ocorreu pensar foi “que sujeito tão cínico você é”.

Branson só estava simulando e só investiu uma parte desse dinheiro.

Talvez fosse sincero na ocasião, se investiu uma parte desse dinheiro.

Desde 2006, Branson acrescentou 160 novos aviões em suas numerosas linhas aéreas, e incrementou suas emissões em 40%.

Sim.

Qual a lição dessa história?

Que temos que pôr sob suspeita o simbolismo e os gestos que fazem as estrelas de Hollywood e os super-ricos. Não podemos confundi-los com um plano cientificamente sério para reduzir emissões.

Na América do Norte e Austrália, se gasta muito dinheiro tentando negar a mudança climática. Por que?

É diferente da Europa. Se trata de uma indignação semelhante à de quem se opõe ao aborto e ao controle das armas. Não se trata de que se esteja protegendo um modo que não querem mudar. É que entenderam que a mudança climática põe em cheque o núcleo de seu sistema de crenças contrário ao governo e em prol do livre mercado. De modo que tem que negá-lo para proteger sua própria identidade. Por isso existe essa diferença de intensidade: os iberais querem agir um pouquinho na proteção do clima. Mas ao mesmo tempo, esses liberais têm uma série deoutras questões que figuram de modo mais destacado em sua agenda. Mas temos que entender que os mais duros que negam a mudança climática entre os conservadores, farão tudo o que for possível para impedir que se aja.

Com estudos pseudocientíficos e desinformação?

Com tudo isso, certamente.

Isso explica porque relaciona toas essas questões – meio ambiente, igualdade, saúde pública e trabalho – que são populares entre a esquerda? Por razões puramente estratégicas?

Essas questões têm relação e nos falta mesmo conecta-las no debate. Só há um modo de vencer uma batalha contra um pequeno grupo de pessoas que te enfrentam porque têm muito a perder: há que se iniciar um movimento massivo que abarque a toda aquela gente que tem muito o que ganhar. Só se pode derrotar a quem te nega tudo, se te mostras igualment apaixonado mas também quando es superior em número. Porque na verdade, os que mandam são muito poucos.

Por que não acredita que a tecnologia possa salvar-nos?

Há um grande progresso na armazenagem de energias renováveis, por exemplo, e na eficiência solar. Mas… e na mudança climática? Eu não tenho fé suficiente para dizer: “Como acabaremos inventando alguma coisa na hora, deixemos de lado todos os outros esforços. Isso seria uma insnsatez.

Gente como Bill Gates vê as coisas de modo diferente.

E eu acho ingênuo seu fetichismo tecnológico. Em anos recentes testemunhamos certos fracassos espetaculares, em que alguns tipos mais espertos meteram a mão até o fundo numa escala grandiosa, sem falar dos derivados que desencadearam a crise ou a catástrofe petrolífera da costa de Nova Orleans. Na maioria das vezes, nós destruímos as cosias e não sabemos como consertá-las. Agora mesmo, o que estamos destruíndo é nosso planeta.

Ouvindo-a, se poderia ter a impressão de que a crise do clima é uma questão de gênero.

Por que você diz isso?

Bill Gates diz que temos que avançar e idear novas invenções para controlar o problema, e em última instãncia, esta Terra nossa tão complicada. Por outro lado, diz você: paremos, temos que adaptar-nos ao planeta e nos tornarmos mais leves. As companhias petrolíferas norte-americanas estão dirigidas por homens. E você, uma mulher crítica, a descrevem como uma histérica. Não lhe parece absurdo?

Não. A industrialização em seu conjunto estava ligada com o poder, para ver se seria o homem ou a natureza que dominaria a Terra. A alguns homens parece difícil reconhecer que não temos tudo sob controle, que acumulamos todo esse CO2 ao longo dos séculos, e hoje a T nos diz: olhe, não passas de um convidado em minha casa.

Convidado da Mãe Terra?

Isso não soa lá muito bem. De certo modo, você tem razão. A indústria petrolífera é um mundo dominado pelos homens, muito semelhante ao da altas finanças. É algo do domínio dos machos. A idéia norte-americana eaustsraliana de “descobrir um país infinito do qual se possam extrair inesgotáveis recursos, tem uma história de dominação, que representa tradicionalmente a natureza como uma mulher fraca e torpe1. E a idéia de estar em relação de interdependência com o resto do mundo natural se consider uma debilidade. Por isso é duplamente difícil aos machos-Alfa reconhecer que se equivocaram.

Há em seu livro uma questão de que parece querer desviar-se. Ainda que você critique às empresas, não diz você a seus leitores, que são clientes dessas empresas, que também são culpados. Tampouco diz você alguma coisa do preço que terá de pagar cada um de seus leitores pela proteção do clima.

Oh, eu creio que a maioria das pessoas ficaria encantada de pagar por isso. Sabem que proteção do clima exige um comportament razoável: dirigir menos, voar menos e consumir menos. Ficariam encantados de usar energias renováveis se lhes fossem oferecidas.

Porém a idéia não é o bastante grande, não é?

(riso) Exatamente. O movimento verde levou décadas instruindo as pessoas para que usassem seu lixo como abono, para que reciclasse e andasse de bicicleta. Mas observe o que sucedeu com o clima durante essas décadas.

E sua maneira de viver é benéfica ao clima?

Não o bastante. Ando de bicileta, uso transporte público, converso por Skype, divido um carro híbrido e reduzi meus voos a um décimo do que eream antes de começar esse projeto. Meu pecado está em usar táxis e, desde que saiu o livro, em voar muito. Mas não creio que seja possível ser perfeitamente verde e viver sem emitir CO2, o único fator concernente a essa questão. Se assim fosse, então ninguém poderia dizer uma única palavra [4].

***

Naomi Klein é autora, entre outros livros, de A doutrina do Choque e No Logo.

Tradução: Tania Jamardo Faillace

Notas da tradutora:

[1] Essa intervenção do entrevistador é muito tola. Nossos produtos e nossos dejetos e efluentes são consequência de nosso modelo de vida em sociedade, e esta depende do modelo econômico, social e político que adotamos, sendo o modelo econômico o primeiro condicionante, porque determina os demais.

[2] Essa intervenção do entrevistador é muito tola. Nossos produtos e nossos dejetos e efluentes são consequência de nosso modelo de vida em sociedade, e esta depende do modelo econômico, social e político que adotamos, sendo o modelo econômico o primeiro condicionante, porque determina os demais.

[3] E voltamos a Freud, e a encarar o grande nó existencial e psicológico do indivíduo humano e suas relações parentais: o complexo de Édipo. A desqualificação da mulher, simbolicamente, continua a ser a sujeição da mãe à vontade do filho. A tragédia está equivocada: Édipo não matou o pai, deve, isso sim, ter morto a mãe, mesmo simbolicamente, como ainda hoje faz todos os dias.

[4] Para quem não sacou o gracejo: Naomi se refere, que, ao falar emitimos C02 pela boca. Ao respirar, também.

A comunicação do governo quer sabotar a presidenta?

Por Rennan Martins | Vila Velha, 18/03/2015

Hoje (18) a blogosfera e portais de notícias repercutem um documento de cinco páginas redigido pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Trata-se de um mea culpa que sintetiza e reconhece diversos problemas já diagnosticados pela imprensa alternativa como se fossem novos, adicionando ainda o demérito de não propor sequer uma medida efetiva de combate a narrativa tendenciosa da mídia hegemônica.

O autor inicia o texto dizendo ser lugar-comum acusar a política de comunicação primeiramente sempre que se instala uma crise política, talvez a fim de disfarçar a total ineficácia da gestão. Depois da ressalva, admite falhas e omissões, mas fazendo questão de dividir o ônus com o restante do governo, o que fica claro no trecho:

“A comunicação é o mordomo das crises. Em qualquer caos político, há sempre um que aponte “a culpa é da comunicação. Desta vez, não há dúvidas de que a comunicação foi errada e errática. Mas a crise é maior que isso.”

Após o autodesagravo inicia-se uma longa e dispensável exposição do histórico das redes sociais e seu envolvimento com a disputa política, apontando que as forças da oposição possuem mais orçamento e que esse fator é fundamental em termos de alcance da população, que acaba mais suscetível ao discurso oposicionista pois além disso ainda temos o bombardeio habitual da grande mídia.

O curioso dessa constatação é que a Secretaria de Comunicação é a responsável pela condução da política de publicidade estatal e mesmo assinalando que os veículos de oposição possuem mais envergadura financeira e concentram majoritariamente os anúncios, ainda assim a mudança óbvia não é sugerida. A distribuição estratégica dos recursos de forma a estimular as iniciativas de linha editorial progressista, estas que foram cruciais na reeleição e permanecem sem seu devido reconhecimento, passa longe do documento.

Em seguida a presidenta é informada que a nomeação do banqueiro Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda desmobilizou drasticamente os movimentos que defendiam o governo, dizendo que estes não “compreenderam” a importância do ajuste fiscal. Ora, é justamente por compreender o que significa o senhor Levy na Fazenda que o desânimo tomou conta da militância. Não adianta tapar o sol com a peneira, a promessa eram “Mais Mudanças” e o que veio foi o ajuste fiscal empunhado pela oposição, que oportunista como sempre, ainda se aproveitou pra falar de estelionato eleitoral.

A campanha das denúncias de corrupção também é citada, porém, é crucial lembrar que os ataques lacerdistas dos barões da mídia sonegadora sempre estiveram aí e que nenhuma medida foi tomada da parte do governo para fazer frente a esse jornalismo de esgoto. Muito pelo contrário, a verba publicitária está lá financiando a maior parte deles, a despeito da queda vertiginosa que a internet lhes trouxe em termos de mercado e audiência.

Por fim, mesmo com o óbvio desastre comunicacional do governo, a Secom candidamente defende que se deve fazer mais do mesmo, fortalecendo a Voz do Brasil, o twitter, o facebook, e pasmem, sustentando até mesmo que investir na TV aberta, a mesma que lidera o golpe, é o caminho para “virar o jogo”. A possibilidade de desconcentrar minimamente o orçamento publicitário investindo na imprensa progressista passa longe das “soluções”.

Essa autocrítica pífia, que nada traz de novo e nem ao menos ousa dar uma solução real, é fruto de alguém que não sabe o que está fazendo ou que deseja deixar a crise se perpetuar. Nos dois casos, passou da hora de uma mudança brusca. Como diria Einstein: “Fazer, todos os dias, as mesmas coisas e esperar resultados diferentes é a maior prova de insanidade.”

Uma interpretação do descontrole cambial

Por Heldo Siqueira

O aviso de Mário Henrique Simonsen, de que a inflação aleija mas o câmbio mata, é sempre atual quando tratamos de desenvolvimento macroeconômico. Os economistas do novo desenvolvimentistas também destacam o papel do “câmbio industrial” em neutralizar a doença holandesa e estimular as exportações[1]. O debate torna-se particularmente importante na medida em que vivemos um ciclo de desvalorização do real. O período que se deu entre fevereiro de 2013 e o início março de 2015 o dólar passou de R$ 1,97 para R$ 2,86, em uma desvalorização de 45,1%[2]. Esse cenário recrudesceu-se desde o início do ano, quando a proporção de reais para a moeda americana ainda era de R$ 2,65.

Mesmo assim, segundo o Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, não há crise cambial[3]. Essa afirmação parece estar ancorada na percepção de que há uma tendência de desvalorização de várias moedas em relação ao Dólar e o Real está acompanhando a tendência. A moeda da comunidade europeia, por exemplo, desvalorizou-se 21,4% entre junho de 2014 e março de 2015. No caso do Real, esse valor chegou a 30,1%.

Uma vez que a moeda americana segue é o parâmetro para a conversão de outras é necessário estabelecer outro indicador, além de outras moedas, para tentar entender sua trajetória. Um indicador particularmente interessante é o preço do petróleo. O gráfico 1 mostra a uma comparação entre a trajetória do barril tipo Brent de petróleo frente ao Dólar entre 2002 e 2015 e o Real.

Heldo1

 

Observa-se que a trajetória da moeda brasileira frente o indicador de trajetória do petróleo em Dólares tem uma tendência aproximada. Na crise de 2008 houve uma apreciação do Real, dada a abrupta perda desvalorização do petróleo, que dissipa. O final do ano de 2014 também marca uma nova desvalorização da commodity. Trata-se de uma indicação de que o Dólar está se valorizando frente ao preço do petróleo! A mesma análise pode ser feita para o Euro.Heldo2

Mesmo tendo uma trajetória de desvalorização menos acentuada durante a crise de 2008, o que explica em parte a penúria econômica de alguns dos países que o utilizam frente a crise, observa-se que o Euro também seguiu a trajetória de desvalorização frente ao Dólar que ocorreu no final de 2014. A última comparação que deve ser feita é a do Real com o Euro frente.Heldo3

Nesse caso, pode-se observar ainda outras tendências. Uma desvalorização relativa do Real, entre 2002 e 2005, revertida até a crise econômica de 2008. Posteriormente uma nova apreciação do real que se reverte desde meados de 2013. Mesmo assim, a desvalorização experimentada pela moeda brasileira parece ser equivalente a do Euro. Nesse sentido, a prática de defender a manutenção das taxas de câmbio, apesar de populares em termos políticos, pode ser realmente artificial, como mencionava o Ministro da Fazenda Joaquim Levy em Janeiro[5].

Referências:

[1] https://jlcoreiro.wordpress.com/2015/03/13/os-descalabros-de-edward-amadeo

[2] Os dados são do Ipeadata e do Banco Central, do último dia útil de cada mês até 02/03/2015.

[3] http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/03/depreciacao-do-real-nao-mostra-descontrole-cambial-diz-barbosa.html

[4] Mais especificamente: (1/Brent)x50 . A multiplicação por 50 permitiu melhorar a escala de visualização.

[5] http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/01/levy-diz-nao-ter-intencao-de-manter-cambio-artificialmente-valorizado.html

***

Heldo Siqueira é gremista e apreciador de uma boa feijoada regada a cerveja, também mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professor da Cândido Mendes e Economista do Idaf-ES.

 

O fracasso da austeridade e a urgência de uma alternativa à esquerda

Por Pedro Paulo Zahluth Barros | Via Carta Maior

O governo não foi eleito para sacrificar o país no altar das agências de classificação de risco, mas para avançar o desenvolvimento com inclusão social.

É importante que se recorde qual era o argumento favorável à austeridade em novembro de 2014, quando ficou claro que o governo Dilma faria uma “virada à direita”. Além da repetição da ideologia Tina inaugurada por Margaret Thatcher (“There is no alternative!”), alegou-se também que a austeridade fiscal traria uma recuperação rápida da confiança empresarial. Apesar da desaceleração da atividade e a grande deterioração do saldo comercial já verificadas, afirmava-se que o mero anúncio da austeridade melhoraria a confiança a ponto de, sem muita demora, induzir investimentos privados que recuperariam a economia, elevariam a arrecadação tributária e facilitariam o ajuste fiscal.

Já no comando do Ministério da Fazenda, Joaquim Levy não cometeu ato falho ao alegar em janeiro que poderíamos ter apenas um trimestre de recessão. Embora saiba que uma recessão se conta a partir do segundo trimestre, o fato de pronunciar a palavra proibida mostrava que acreditava exorcizá-la “na lábia”.

Pouco importava que o poder da “fada da credibilidade” contra o movimento indomado de uma economia em desaceleração tenha sido desmoralizado na Europa. Até mesmo o FMI (antigo empregador do ministro da Fazenda) foi obrigado a reavaliar a experiência histórica comprovando que, de expansionista, a austeridade nunca teve nada. Não obstante, dessa vez seria diferente e não teríamos mais que um trimestre de “recessão”.

Ao contrário da “austeridade expansionista”, um conjunto de economistas publicou um manifesto em novembro alegando que ela seria fortemente “pró-cíclica”, ou seja, reforçaria a desaceleração e jogaria a economia em recessão. Vários escreveram que, em seguida, a queda da arrecadação tributária exigiria ainda mais austeridade, em um círculo vicioso que pioraria a confiança de empresários e consumidores e, potencialmente, das agências de classificação de risco que a austeridade busca apaziguar.

Agora que fica mais claro que o anúncio e a efetivação da austeridade não apenas não recuperaram mas contribuíram para que a confiança de empresários e consumidores desabasse, seus defensores reforçam apenas o lado There is no Alternative! da defesa da austeridade: simplesmente não há alternativa.

Para fazer da Tina uma profecia auto-realizada, procuram desmoralizar exatamente aqueles que eram contrários à austeridade alegando que, no fundo, são culpados por ela. Como? Por terem apoiado o governo Dilma, por exemplo na luta contra as taxas de juros elevadas realizada em 2012. Uma prova da continuidade do crime? Terem assinado o manifesto contra a austeridade em novembro de 2014! Como os defensores da austeridade defendem que não há alternativa a ela para resolver o problema fiscal e superar o baixo crescimento, ser contra a austeridade significaria meramente repetir a política econômica fracassada do primeiro governo Dilma…

O neoliberalismo obcecado pela morte da alternativa

Nenhum economista neoliberal se exercita mais nessa ginástica do que Alexandre Schwartsman. Em artigo recente, o sr. Schwartsman mostrou obsessão ao atacar pela quarta ou quinta vez os economistas que assinaram o manifesto e, dessa vez, chamou de “desonestidade” um erro de previsão feita em 2013 por um professor que o assinou. É natural que o acerto da previsão do manifesto quanto ao impacto recessivo da austeridade em 2015 incomode os austeros. Grave é que, diante da recessão, reiterem que a saída é mais superávit primário e elevação de juros.

Para quem não sabe, quando anunciava previsões antes de ser demitido por um grande banco, o sr. Schwartsman fazia várias apostas equivocadas e justificava recomendações de juros mais altos do que a média do mercado. Seria a acusação de desonestidade um ato falho?

É difícil acreditar, mas sua predileção por um mix de política monetária e cambial deletério ao crescimento econômico era tamanha que, pouco depois de propor pela enésima vez aumentar os juros, o sr. Schwartsman criticou o BC em 2011 por supostamente não deixar o dólar mais barato quando já tendia a cair abaixo de R$1,60!

Talvez ignorasse propor, no fundo, o retrocesso à experiência desastrosa dos anos 1990: apreciação cambial, desestruturação industrial, desemprego ascendente, grande deterioração das finanças públicas e déficit crescente de transações correntes, resultando no baixíssimo crescimento. Este será típico do recurso à avalanche de importações, a curto prazo, para controlar a inflação, até que os desequilíbrios resultantes induzam nova depreciação cambial com grande pressão inflacionária. Sintomaticamente, o mesmo sr. Schwartsman criticou o BC há poucas semanas por não elevar suficientemente os juros e, pasmem, por procurar conter o encarecimento do dólar no início da recente escalada que já o fez passar de R$3,10…

Mesmo que não se admita publicamente, um reconhecimento velado do fracasso da austeridade em assegurar a rápida expansão é a conversão parcial de alguns neoliberais à posição novo-desenvolvimentista de Bresser-Pereira, que há muito tempo advoga a depreciação cambial para estimular as exportações. Assim fazendo, os neoliberais quase admitem que a apreciação cambial não só reduziu exportações como estimulou uma avalanche de importações que desestruturou a indústria e machucou o crescimento. Só falta começarem a elogiar, em incomparável heresia, a substituição de importações por produção local, como já fizeram em outros episódios de crise.

Se não provocar problemas para o pagamento da dívida externa privada e não provocar uma grande queda do salário real, a depreciação cambial pode ajudar a mitigar a recessão. No entanto, sendo pouco provável que a economia mundial acelere como em 2004, é improvável que a depreciação cambial traga uma melhoria rápida do saldo comercial e da produção industrial dada a situação em que estão os principais mercados das exportações industriais brasileiras. O baixo preço das commodities, por sua vez, não animará recuperação forte das receitas e do investimento em recursos naturais.

Sendo assim, o governo precisa reconhecer (com transparência!) o fracasso da austeridade em restaurar a confiança empresarial e, antes de matar o paciente, não só mudar a meta fiscal, mas abandonar o diagnóstico de que o gasto privado vai reagir benignamente à contração do gasto público e à elevação de impostos. O ânimo dos empresários, salvo exceções, não depende do ajuste fiscal em si, mas da demanda efetiva corrente e esperada. A capacidade ociosa, os custos tributários e financeiros estão aumentando e a demanda esperada caindo: por que investiriam?

Qual a alternativa?

A prioridade imediata deve ser evitar uma recessão prolongada. Se o ajuste fiscal foi justificado para evitar a perda de “grau de investimento” junto às agências de classificação de risco que substituíram o FMI como mecanismo de blindagem internacional do neoliberalismo, é pouco provável que uma recessão não traga a perda do “grau de investimento”. O governo não foi eleito para sacrificar o país no altar das agências de classificação de risco, mas para avançar o desenvolvimento com inclusão social. Atendendo às exigências de austeridade dos credores e produzindo uma recessão, pode ficar sem nenhum dos objetivos.

Se o governo não quiser arriscar e esperar que um superávit comercial retire o país da recessão, a alternativa é o gasto público.

Não se trata, é claro, de qualquer tipo de gasto público. O fracasso da política econômica do primeiro governo Dilma ocorreu, em parte, porque a composição do gasto mudou. De fato, o governo fez uma aposta privatista que fracassou, não apenas em aproximar politicamente os empresários mas em estimular seus gastos. Embora desonerações tributárias e controle de preços administrados tenham buscado compensar choques inflacionários e diminuir custos para empresas industriais a um grande custo fiscal, não as levaram a um novo ciclo de investimentos em face da capacidade ociosa gerada pelo ciclo anterior, da desaceleração do consumo e da avalanche de importações. Por sua vez, os investimentos privados nas novas concessões em infraestrutura tampouco foram capazes de reverter a desaceleração cíclica reforçada pela contração severa do investimento público em 2011.

Foi o fracasso do tipo de política anticíclica do governo Dilma que levou ao agravamento das contas públicas, e não o contrário: o crescimento mais lento da receita tributária (até sua queda em 2014) reduziu o superávit primário (até o déficit de 2014) embora o ritmo de crescimento do gasto público, e principalmente do investimento público, tenha caído face a média dos últimos dez anos.

Hoje, a busca da meta de superávit primário de 1,2% do PIB a qualquer custo vai piorar a arrecadação tributária ao aprofundar a recessão. Se for para aumentar a dívida pública, é pior fazê-lo como resultado da queda da arrecadação trazida pela recessão e pela elevação dos juros do que através do financiamento de investimentos que evitem a recessão.

Isso leva à política monetária.

Para estimular a economia e evitar a explosão da dívida pública, a taxa de juros básica precisa cair, mesmo porque estamos muito longe de uma inflação de demanda ou de um conflito distributivo incontrolável trazido por sobreaquecimento. A relação dívida pública/PIB só diminuirá quando os juros caírem e quando a retomada do crescimento aumentar a arrecadação.

É claro que que a arrecadação também pode crescer com elevação de impostos. Para não prejudicar o crescimento econômico, contudo, é fundamental aumentar a progressividade tributária com impostos sobre consumo de luxo (importados ou não), grandes fortunas, heranças e rendas pessoais, em troca de maior desoneração para cidadãos de baixa renda. Não adianta reduzir as desonerações tributárias e os subsídios para decisões de investimento e produção se os recursos “poupados” são esterilizados em juros astronômicos canalizados para famílias ricas ao invés de financiar o investimento público ou o gasto social, sem sequer conter o crescimento da dívida pública.

Para o investimento, o candidato óbvio é a infraestrutura urbana, não apenas para mobilidade, sobretudo transporte coletivo, mas também para atacar a crise hídrica, com amplo programa voltado para água e saneamento. Esse programa não pode envolver só grandes obras como canalização de rios ou novos reservatórios e estações de reuso, mas contar com a reforma de vazamentos na rede e subsídios para investimentos em economia de água para grandes consumidores privados e mesmo residenciais (cisternas, leitores individuais de consumo hídrico predial, descargas eficientes etc). Ao centrar em infraestrutura urbana e gestão de recursos hídricos, o governo federal também pode mitigar o corte do investimento de estados e municípios que é resultado quase automático da recessão.

A elevação do investimento em infraestrutura é fundamental para retirar a economia da recessão em que vem entrando. A um prazo maior, contudo, é essencial aproveitar o aumento da competitividade criado pela depreciação cambial para estimular o investimento industrial capaz de recuperar encadeamentos produtivos perdidos em mais de duas décadas de abertura comercial com apreciação cambial. Como a depreciação cambial é necessária mas não suficiente em ramos sujeitos à construção paciente de novas capacitações produtivas, políticas industriais setoriais devem ser combinadas com a negociação direta com filiais estrangeiras para transferência de tecnologias.

Uma vez que o investimento em infraestrutura esbarra nos problemas das grandes empreiteiras que estão sob apreciação policial, judicial e política, é imprescindível negociar acordos de leniência para evitar falências que podem, no limite, paralisar o sistema bancário e levar a uma depressão. Isso não significa perdoar processos criminais, mas evitar que as empresas sejam consideradas inidôneas e, antes disso, que continuem impedidas administrativamente de fornecer serviços a Petrobrás.

Como, ainda assim, o investimento pode não reagir com a urgência necessária, o gasto social em saúde, educação e habitação, assim como as transferências, precisam aumentar. A redistribuição de renda para baixo aumenta a demanda agregada, pois pobres e remediados pouco ou nada poupam, enquanto os mais ricos podem se dar ao luxo de poupar em ativos financeiros e, pior, tendem a fazê-lo quando a incerteza e os juros aumentam, como hoje.

Em suma, taxar e transferir, direta e indiretamente, não é apenas um imperativo de justiça social em uma sociedade como o Brasil. Em um mundo em que a demanda efetiva é a mercadoria mais escassa, ter e estimular um amplo mercado de massas é também uma poderosa política anticíclica, ainda mais quando o dólar caro limita os vazamentos da demanda interna para importações. Se o governo pretende um dia recriar um cenário de crescimento conjunto de lucros e salários, deve começar pelos de baixo, tanto por coerência política quanto por eficácia macroeconômica.

***

Pedro Paulo Zahluth Bastos é professor livre-docente do Instituto de Economia da Unicamp.

A grande imprensa está criando uma legião de midiotas: Entrevista com Luciano Martins Costa

Por Rennan Martins | Vila Velha, 16/03/2015

Indignado segura cartaz que ironiza o feminicídio.

As manifestações de ontem (15) arregimentaram milhares de indignados. Com a camisa da corruptíssima CBF, estes cidadãos se juntaram pra provar a enorme capacidade de mobilização da narrativa hegemônica, e com suas palavras de ordem, reforçar o status quo.

A Globo News fez cobertura cinematográfica dos eventos enquanto seus diversos comentaristas assumiam a condição de porta-vozes da “festa cívica” cobrando atitudes do governo. Por volta das 15:00 anunciaram 240.000 pessoas na Avenida Paulista. Antes das 15:30 já eram 480.000 e faltando alguns minutos pras 16:00 a marca alcançou sensacionais 1 milhão. Além da enorme diferença de projeção em relação a Folha, que calculou 210.000 revoltados, a Globo ainda precisa explicar como 750.000 pessoas desafiaram a física chegando ao mesmo tempo nas redondezas do evento.

Ironias e críticas à parte, a realidade é que a imprensa corporativa intervém decisivamente na sociedade e instituições. A opinião pública(da), quando concentrada nas mãos de um cartel, possui grande poder de agendar e interditar debates ao gosto do dono da editoria. Esta distorção gera efeitos deletérios no processo democrático e de tomada de decisões.

A fim de analisar a fundo essa questão o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou o experiente jornalista, escritor e colunista do Observatório da Imprensa, Luciano Martins Costa. Nos explica ele que desde a redemocratização a imprensa nacional entrou num processo de oligopolização incentivado pela distribuição de concessões a caciques políticos do centrão. Segundo Luciano, este cartel constrói um simulacro de realidade que estimula os cidadãos menos críticos a assumir posições conservadoras e raivosas. O “remédio” então seria “aprender a ler” a mídia, duvidando sistematicamente das notícias, principalmente das apresentadas com mais alarde e dramatização.

Confira a íntegra:

Como vês a atuação da imprensa corporativa brasileira? É possível dizer que existe uma “cartelização editorial”?

Existe uma cartelização editorial desde que a Folha de S. Paulo negociou seu maior comprometimento com a Associação Nacional de Jornais em troca de apoio para a campanha pelo fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista e pela extinção da Lei de Imprensa.

Quais seriam os objetivos e interesses deste alinhamento? As metas estão sendo cumpridas?

O objetivo principal é se contrapor à tendência da sociedade brasileira, no fim dos anos 1990, de questionar o sistema econômico e de exigir a expansão dos direitos formalmente garantidos na Constituinte de 1988. A Constituição, como se sabe, foi feita sob a égide da “sociedade civil organizada”. Acontece que, na época, cerca de 51% da população brasileira era excluída da sociedade e a “sociedade civil organizada” era apenas uma metáfora para as entidades corporativas, como os sindicatos, federações de indústrias, OAB e setores fortemente apoiados por lobbies. O pesquisador Francisco Fonseca demonstrou como a imprensa, na época, deu voz ao chamado “Centrão” para conter o ímpeto progressista da Constituinte em seu início. Esse alinhamento está triunfando ao transformar o Brasil num país conflagrado, com a criação de legiões de midiotas que repetem o discurso raivoso da imprensa.

Seus artigos comentam com regularidade sobre a criação de um “simulacro de realidade”. Como ocorre essa construção? Poderia exemplificar um caso concreto?

Existe o mundo real, onde nos relacionamos e construímos o processo da modernidade, e o ecossistema da comunicação, onde nossas ações, reflexões e escolhas constroem a cultura, que redefine a realidade. A mídia atua, em condições ideais, mediando essa passagem entre duas dimensões da nossa existência, onde as individualidades devem aprender a negociar seus papéis sociais. No Brasil e em alguns outros países, a imprensa adotou um protagonismo central, e em vez de filtrar ou mediar esse processo, interfere na construção de significados que induzem a interpretações viciadas da realidade. O viés conservador, predominante na mídia, martelado diariamente sobre as pessoas, induz a posicionamentos reacionários, defensivos e individualistas. Um exemplo é a manipulação de dados da economia, que faz uma grande parcela da população a acreditar que o Brasil está no fundo do poço. Mesmo pessoas que ascenderam às classes de renda média tendem a se tornar conservadoras quando são convencidas de que estão prestes a perder o que conquistaram graças a seus esforços e com apoio em políticas sociais que antes não existiam. O sujeito acorda, vai para o trabalho (que não existia quando o nível de desemprego era de 18%), segue para a faculdade (a que não tinha acesso antes das políticas sociais criadas na última década) e volta para casa, mas acha que a realidade hoje é pior. Os simulacros de realidade são construídos pela manipulação dos signos que norteiam nossa compreensão da realidade que vivenciamos. A falta de educação cívica faz com que muitos culpem o poder central por carências ou dificuldades que são de responsabilidade estadual, municipal ou mesmo do âmbito privado.

Que influências a sociedade e as instituições sofrem neste contexto?

A sociedade é influenciada na medida em que um grande número de indivíduos perde a noção daquilo que é do interesse coletivo e das responsabilidades individuais na construção de uma sociedade – se não sustentável, pelo menos aceitável. Como o interesse social é difuso, o discurso manipulador da mídia transforma facilmente o sentido dos fatos. Por exemplo, os jornais pegaram o aumento do preço do tomate, há quatro anos, e alardearam que a inflação estava estourando. O pânico levou os produtores e o comércio a buscar se proteger, e isso provocou um aumento nos preços de alguns produtos alimentícios e dos restaurantes. Como nas grandes cidades todo mundo que trabalha fora é obrigado a comer em restaurantes, a sensação de mal-estar se espalhou. Então, a mídia passou a martelar o tema da “inflação de alimentos”. Quando o preço do tomate voltou ao normal, em dez dias, os preços de alimentos baixaram, mas ficou a percepção de um surto inflacionário que só existiu na imprensa. As instituições reagem ao estado de espírito da população, e ao construir uma mentalidade defensiva, a imprensa induz as instituições a adotar políticas conservadoras.

Por exemplo, os jornais fazem grande alarde quando um adolescente participa de um crime, a população pede a redução da maioridade penal, e os parlamentares conservadores correm a propor mudanças na lei. Mas acontece uma chacina, onze pessoas são assassinadas numa rua da periferia de São Paulo numa única noite, e os jornais escondem o fato, porque há indícios de que os crimes foram cometidos por policiais.

O que fazer para “aprender a ler” a imprensa? Quais são os métodos?

Há alguns métodos para “aprender a ler” a imprensa, e nenhum deles dispensa a compreensão de que vivemos numa sociedade altamente complexa, que já não pode ser interpretada corretamente pela linguagem jornalística. O essencial é adotar um procedimento que propus quando era editor executivo do Estado de S. Paulo e responsável pela primeira página: dessacralizar a notícia. Trata-se de treinar a mente para desconfiar de cada detalhe de uma notícia, questionando tudo que parece inverossímil ou fora de contexto. Por exemplo, quando a imprensa quer dar um tom negativo a um indicador econômico, a prática mais comum é mudar os parâmetros de comparação. Então, compara-se, por exemplo, as vendas do comércio em janeiro em relação a dezembro – sabe-se que a economia tem suas sazonalidades, e que o correto é comparar períodos semelhantes, destacando os fatos relevantes que ocorreram entre eles. Por exemplo, os jornais falaram muito do custo de vida entre 2013 e 2014, omitindo o fato que em 2014 houve uma Copa do Mundo no Brasil. Outro exemplo: os jornais destacam que a Bolsa de Valores anda de lado, mas escondem que o Brasil ainda é um dos principais destinos do Investimento Estrangeiro Direto, que é investimento produtivo. A Teoria da Complexidade e algum conhecimento de teorias da comunicação ajudam a enxergar essas distorções.

De que forma o Brasil, um país onde a mídia tem plena liberdade, chegou a este quadro de uma imprensa tão concentrada e de baixa diversidade?

Luciano Martins Costa. UBE

Tudo começou nas negociações para a volta da democracia, quando o Centrão foi cooptado para a ideia de que o Brasil só iria se modernizar com uma imprensa forte. A política de Sarney, distribuindo canais de TV e rádio a políticos em troca de apoio, levou a maioria deles a aceitar a oferta de parceria com a Rede Globo, que reduzia o custo das emissoras e garantia uma marca forte para captar anunciantes. Depois disso, houve uma manobra com dólar – operação que na época era chamada de “bicicletagem” – na qual o governo facilitou para grandes empresas de comunicação o acesso ao dólar oficial, para modernização de equipamentos. Os equipamentos foram superfaturados, o excedente de moeda estrangeira foi para contas no exterior e passaram a alimentar o fluxo de caixa dessas empresas, pelo câmbio paralelo. Essa operação aparece sutilmente no caso Banestado e é um dos segredos que a imprensa quer manter escondidos no escândalo do HSBC. Acho impossível investigar e provar essa história, que me foi contada pelo antigo presidente de uma grande empresa regional de comunicação, que jurava ter sido o único a não entrar nesse jogo.

Como se inserem a internet, as redes sociais e a mídia alternativa nesse cenário?

A Internet e as redes sociais se inserem no processo de redução do papel de mediação. As novas tecnologias permitem que as informações sejam trocadas horizontalmente, entres os indivíduos, e a tendência é que aquilo que chamamos de mídia passe a ter a função de ancorar essas informações, para que as pessoas possam fazer o contexto. Mas um consórcio de economistas ou sociólogos, por exemplo, poderia cumprir esse papel nas suas especialidades. A mídia alternativa só será viável quando assumir uma postura inovadora e parar de imitar a mídia hegemônica. Chamo inovação a determinação de estimular o protagonismo do cidadão e assumir o papel de checar e organizar as informações sem o viés que caracteriza a imprensa predominante.

O que você acha que acontecerá com a TV tradicional e a mídia impressa frente as mudanças que estamos vivenciando?

A TV tradicional estática, ainda é forte porque é usada como o rádio, proporcionando um ruido de fundo para a vida cotidiana, mas a própria evolução da tecnologia está tornando esse meio menos relevantes. Ele sobrevive melhor no campo do entretenimento, e por isso as emissoras apelam para o jornalismo dramatizado ou espetacularizado. A mídia impressa vai sobreviver como um nicho, dirigido essencialmente para as instituições. O cidadão vai se informar cada vez mais pelas redes sociais.

Você é favorável a proposta de regulamentação dos meios de comunicação? Quais seriam as consequências dessa medida?

Sou favorável à regulamentação dos meios de comunicação, à abertura da mídia para o capital estrangeiro (chega de cinismo), à obrigatoriedade de que toda empresa de mídia, a partir de certo porte (faturamento, patrimônio, etc.) seja obrigada a abrir o capital, à licitação pública periódica da radiodifusão, com abertura ampla para participantes, com exceção de entidades religiosas ou partidárias. Além disso, no curto prazo, defendo uma política pública que contemple iniciativas de mídia comunitários, setoriais, etc., como os coletivos de cultura, que teriam um poderoso efeito na educação da sociedade para o uso da mídia.