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A América Latina na dinâmica da guerra global

Por Jorge Beinstein | Via Resistir.info

Tudo ao mesmo tempo: em meados do mês de Março de 2015 os Estados Unidos deram um salto qualitativo de claro perfil belicista nas suas acções contra a Venezuela, também desenvolvem exercícios militares em países limítrofes com a Rússia na chamada operação “Atlantic Resolve”, algumas dessas operações são realizadas a uns 100 quilómetros de São Petersburgo [1] , além disso intensificam-se informações acerca de uma nova ofensiva do governo de Kiev contra a região do Donbass [2] , aumenta a circulação de naves de guerra da NATO no Mar Negro, continuam as velhas guerras imperiais no Iraque e no Afeganistão às quais acrescentou-se a seguir a ofensiva contra a Síria (passando pela Líbia)… e muito mais…

Evidentemente o Império está lançado numa catastrófica fuga militar para a frente estendendo suas operações a todos os continentes, encontramo-nos em plena guerra global. Nem os grandes meios de comunicação, nem os dirigentes internacionais mais importantes registaram publicamente o facto, todos falam como se vivêssemos em tempos de paz, só em alguns poucos casos surgem alguns deles a advertir sobre o perigo de guerra mundial ou regional. Uma excepção recente é a do Papa Francisco quando afirmou que actualmente nos encontramos perante “uma terceira guerra mundial” que ele descreve como a desenvolver-se “por partes” ainda que sem designar os contendores e fazendo vagas referências à “cobiça” e a “interesses espúrios” com a linguagem confusa e jesuítica que o caracteriza [3] .

A cada mês acrescenta-se algum novo indiciar que anuncia a proximidade de uma nova recessão global muito mais forte e extensa que a de 2009. O capitalismo, a começar pelo seu polo imperialista, foi-se convertendo velozmente num sistema de saqueio onde a reprodução das forças produtivas fica completamente subordinada à lógica do parasitismo. As elites imperiais e suas lumpen-burguesias satélites “necessitam” super-explorar até ao extermínio seus recursos naturais e mercados periféricos para sustentar as taxas de lucro do seu decadente sistema produtivo-financeiro.

As tendências globais rumo à decadência económica exprimem-se de múltiplas maneiras no dia a dia. Dentre elas, a volatilidade dos preços das matérias-primas, o petróleo por exemplo, chave mestra da economia mundial, cujo estancamento extractivo (que não conseguiu ser superado pelo show mediático em torno do “milagroso” petróleo de xisto) combina-se com desacelerações da procura internacional como ocorre actualmente. A isso somam-se golpes especulativos e geopolíticos que convertem os mercados em espaços instáveis onde as manobras de curto prazo impõem a incerteza.

O curto-prazismo especulativo hegemónico engendra pacotes tecnológicos depredadores como a mineração a céu aberto, a fracturação hidráulica ou a agricultura com base em transgénicos acompanhados por operações políticas e comunicacionais que degradam, desarticulam sistemas sociais procurando convertê-los em espaços indefesos diante dos saqueios.

O optimismo económico da época do auge neoliberal deu lugar ao pessimismo do “estancamento secular” agora apregoado pelos grandes peritos do sistema [4] . Eles indicam que a salvação do capitalismo não chegará a partir da economia condenada a sofrer recessões ou crescimentos insignificantes, o melhor é nem falar demasiado desses tristes temas. Então a guerra ascende ao primeiro plano, algum massacre protagonizado por tropas regulares ou mercenários, algum bombardeio, alguma ameaça de ataque na Europa do Leste, Ásia, África ou América Latina. Os meios de comunicação nos esmagam com essa notícias, contudo ninguém fala da guerra global.

Tudo acontece como se a dinâmica da guerra se houvesse autonomizado mas empregado um discurso embrulhado, difícil de entender. Mas assim como os super-poderes dos homens de negócios dos anos 1990 não eram independentes e sim compartilhados no interior de uma complexa trama de poderes (políticos, mediáticos, militares, etc) que em termos gerais costuma-se denominar como “classe dominante”, também a aparente autonomia do militar dificulta-nos ver as redes mafiosas de interesses onde se borram as fronteiras entre os seus componentes. As elites da era neoliberal sofreram mudanças decisivas, experimentaram mutações que as converteram em classes completamente degeneradas que, cada vez mais, só podem recorrer à força bruta, à lógica da guerra. Não se trata portanto de a componente militar se autonomizar e sim, antes, de que as elites imperialistas se militarizam. Elas já não seduzem com ofertas de consumo mais algumas doses de violência, agora só propagam o medo, ameaçam com as suas armas ou utilizam-nas.

Progressismos latino-americanos 

Dentro desse contexto global devemos avaliar os progressismos latino-americanos [5] que se instalaram na base das crises de governabilidade dos regimes neoliberais.

Os bons preços internacionais das matérias-primas durante a década passada, somados a políticas de contenção social dos pobres, permitiram-lhes recompor a governabilidade dos sistemas existentes. Em alguns desses casos desenvolveram-se ampliações ou renovações das elites capitalistas e em quase todos eles prosperaram as classes médias. Os governos progressistas iludiram-se supondo que as melhorias económicas lhes permitiram ganhar politicamente os referidos sectores mas, como era previsível, ocorreu o contrário: as camadas médias iam para a direita e, enquanto ascendiam, olhavam com desprezo os de baixo e assumiam como próprios os delírios mais reaccionários das suas burguesias. A explicação é simples, na medida em que são preservados (e ainda fortalecidos) os fundamentos do sistema e em que seus núcleos decisivos radicalizam seus elitismo depredador seguindo a rota traçada pelos Estados Unidos (e “Ocidente” em geral) produz-se um encadeamento de subculturas neo-fascistas que vão desde acima até abaixo, desde o centro até as burguesias periféricas e desde estas até suas camadas médias. Na Venezuela, Brasil ou Argentina as classes médias melhoravam seu nível de vida e ao mesmo tempo despejavam seus votos nos candidatos da direita velha ou renovada.

Estabeleceu-se um conflito interminável entre governos progressistas que tornavam governáveis os capitalismos locais e direitas selvagens ansiosas por realizar grandes roubos e esmagar os pobres. O progressismo, confrontado politicamente com essa direita qualificada de “irresponsável”, cujos fundamentos económicos respeitava, chantageava aqueles na esquerda que criticavam sua submissão às regras do jogo do capitalismo utilizando o papão reaccionário (“nós ou a besta”), acusando-os de fazerem o jogo da direita. Na realidade o progressismo é um grande jogo favorável ao sistema e em última análise à direita, sempre em condições de retornar ao governo graças à moderação, à “astúcia” aparentemente estúpida dos progressistas que por vezes conseguem cooptar esquerdas claudicantes cuja obsessão em “não fazer o jogo da direita” (e simultaneamente integrar-se no sistema) é completamente funcional à reprodução do país burguês e em consequência a essa detestável direita.

Agora o jogo começa a esgotar-se. Os progressismos governantes, com diferentes ritmos e variados discursos, acossados pelo arrefecimento económico global e pelo crescente intervencionismo dos Estados Unidos, vão perdendo espaço político. Em vários casos suas dificuldades fiscais pressionam-nos a ajustar despesas públicas (e de modo algum a reduzir os super lucros dos grupos económicos mais concentrados), a aceitar as devastações da mega-mineração ou a adoptar medidas que facilitam a concentração de rendimentos. No Brasil, o segundo governo Dilma colocou um neoliberal puro e duro no comando da política económica, encurralado por uma direita ascendente, uma economia oscilando entre o estancamento e a recessão e uma intervenção norte-americana cada vez mais activa. No Uruguai o novo governo de Tabaré Vazquez mostra um rosto claramente conservador e no Chile a presidência Bachelet não precisa correr demasiado à direita, depois da sua rosada demagogia eleitoral afirma-se como continuidade do governo anterior e em consequência, passada a confusão inicial, herdará também a hostilidade de importantes faixas de esquerda e dos movimentos sociais.

Na Argentina, o núcleo duro agro-mineral exportador-financeiro e os grupos industriais exportadores mais concentrados estão mais prósperos do nunca enquanto a ingerência norte-americana amplia-se conduzindo o jogo de títeres políticos rumo a uma ruptura ultra-direitista. Na Venezuela a eterna transição rumo a um socialismo que nunca acaba de chegar não conseguiu superar o capitalismo ainda que torne caótico o seu funcionamento, forjando desse modo o cenário de uma grande tragédia. Por enquanto só a Bolívia parece salvar-se da avalanche, afirmando-se na maior mutação social da sua história moderna sem superar o âmbito do subdesenvolvimento capitalista mas recompondo-o integrando as massas submersas, multiplicando por mil o que havia feito o peronismo na Argentina entre 1945 e 1955 (de qualquer forma isso não a liberta da mudança de contexto regional-global).

Na América Latina assistimos a um processo de crise muito profundo onde convergem progressismos declinantes com neoliberalismo integralmente degradados, como na Colômbia ou no México, conformando um panorama comum de perda de legitimidade do poder político, avanços de grupos económicos saqueadores e activismo imperialista cada vez mais forte.

A este panorama sombrio é necessário incorporar elementos que dão esperança, sem os quais não poderíamos começar a entender o que está a ocorrer. Por debaixo dos truques políticos, dos negócios rápidos e das histerias fascistas aparecem os protestos populares multitudinários, a persistência de esquerdas não cooptadas pelo sistema (para além dos seus perfis mais ou menos moderados ou radicais), a presença de insurgências incipientes ou poderosas (como na Colômbia).

Nem os cantos de sereia progressistas nem a repressão neoliberal puderam fazer desaparecer ou marginalizar completamente esses fantasmas. Realidade latino-americana que preocupa os estrategas do Império, que temem o que consideram como sua inevitável arremetida contra a região possa desencadear o inferno da insurgência continental. Nesse caso o paraíso dos grandes negócios poderia converter-se num grande atoleiro onde afundaria o conjunto do sistema.

Geopolítica do Império, integrações e colonizações 

A estratégia dos Estados Unidos aparece articulada em torno de três grandes eixos; o transatlântico e o transpacífico que apontam num gigantesco jogo de pinças contra a convergência russo-chinesa centro motor da integração euro-asiática. E a seguir o eixo latino-americano destinado à recolonização da região.

Os Estados Unidos tentam converter a massa continental asiática e sua ampliação russo-europeia num espaço desarticulado, com grandes zonas caóticas, objecto de saqueio e super-exploração.

Os recursos naturais, assim como os laborais, desses territórios constituem seu centro de atenção principal, na elipse estratégica que cobre o Golfo Pérsico e a Bacia do Mar Cáspio estendendo-se em direcção à Rússia encontram-se 80% da reservas globais de gás e 60% das de petróleo e na China habitam pouco mais de 230 milhões de operários industriais (aproximadamente um terço do total mundial).

A América Latina aparece como o pátio traseiro a recolonizar. Ali se encontram, por exemplo, as reservas petrolíferas da Venezuela (as primeira do mundo, 20% do total global), cerca de 80% das reservas mundiais de lítio (num triângulo territorial compreendido pelo Norte do Chile e Argentina e pelo Sul da Bolívia) imprescindível na futura indústria do automóvel eléctrico, as reservas de gás e petróleo de xisto do Sul argentino, fabulosas reservas de água doce do aquífero guarani entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina.

Uma das ofensivas fortes do Império na década passada foi a tentativa de constituição da ALCA, zona de livre comércio e investimentos que significava a anexação económica da região por parte dos Estados Unidos. O projecto fracassou, a ascensão do progressismo latino-americano somado à emergência de potências não ocidentais, sobretudo a China, e o atolamento estado-unidense na sua guerra asiáticas foram factores decisivos que em diferentes medidas debilitaram a investida imperial.

Mas a partir da chegada de Obama à presidência os Estados Unidos desencadearam uma ofensiva flexível de reconquista da América Latina: foi posta em marcha uma complexa mescla de pressões, negociações, desestabilizações e golpes de estado. Os golpes brandos com êxito em Honduras e no Paraguai, as tentativas de desestabilização no Equador, Argentina, Brasil e sobretudo na Venezuela (onde vai-se perfilando uma intervenção militar), mas também a tentativa em curso de extinção negociada da guerrilha colombiana e a domesticação de Cuba fazem parte dessa estratégia de recolonização.

A mesma é implementada através de uma sucessão de tentativas suaves e duras tendente a desarticular as resistências estatais e os processos de integração regional (Unasul, Celac, Alba) e extra-regionais periféricos (BRICS, acordos com a China e a Rússia, etc) assim como a bloquear, corromper ou dissolver as resistências sociais e as alternativas políticas mais avançadas, em curso ou potenciais. Tentando levar avante uma dinâmica de desarticulação mas procurando evitar que a mesma gere rebeliões que se propaguem como um rastilho de pólvora numa região actualmente muito inter-relacionada.

Sabem muito bem que em muitos países da região a substituição de governos “progressistas” por outros abertamente pró imperialistas significa a ascensão de camarilhas enlouquecidas que a curto prazo causariam situações de caos que poderiam desencadear insurgências perigosas. Alguns estrategas do Império acreditam poder neutralizar esse perigo com o próprio caos, desenvolvendo “guerras de quarta geração” instalando diferentes formas de violência social desestruturante combinadas com destruições mediático-culturais e repressões selectivas. Nesse sentido, o modelo mexicano é para eles (por agora) um paradigma interessante.

Temem por exemplo que um cenário de caos fascista na Venezuela derive numa guerra popular que os obrigaria a intervir directamente num conflito prolongado, o que somado às suas guerras asiáticas os conduziria a uma super extensão estratégica ingovernável. É por isso que consideram imprescindível obter o apaziguamento da guerrilha colombiana, potencial aliada estratégica de uma possível resistência popular venezuelana.

O panorama é completado com o processo de integração colonial dos países da chamada Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile). A isso somam-se os tratados de livre comércio de maneira individual com países da América Central e outros como o Chile e a Colômbia e o velho tratado entre EUA, Canadá e México.

Integração colonial e desarticulação, manipulação do caos e fortalecimento de pólos repressivos, Capriles mais Peña Nieto, Ollanta Humana mais Santos mais bandos narco-mafiosos… tudo isso dentro de um contexto global de decadência sistémica onde a velha ordem unipolar declina sem ser substituída por uma nova ordem multipolar. Tentativa de controle imperialista da América Latina submersa na desordem do capitalismo mundial.

O cérebro do Império não consegue superar as mazelas do seu corpo envelhecido e enfermo, os delírios reproduzem-se, as fugas para a frente multiplicam-se. Evidentemente encontramo-nos num momento histórico decisivo.

Referências:

[1] Finian Cunningham, “NATO’s Shadow of Nazi Operation Barbarossa”, Strategic Culture Foundation, 13/03/2015;

[2] Colonel Cassad, “Ukraine: Reprise de la guerre au printemps?”, http://lesakerfrancophone.net/ le 13 mars 2015;

[3] “El papa Francisco advirtió que vivimos una tercera guerra mundial combatida ‘por partes’ “, http://www.lanacion.com.ar , 13 de septiembre de 2014;

[4] Laurence H Summers, “Reflections on the ‘New Secular Stagnation Hypothesis’” y Robert J Gordon, “The turtle’s progress: Secular stagnation meets the headwinds” en “Secular Stagnation: Facts, Causes, and Cures”, CEPR Press, 2014;

[5] Utilizo o termo “progressista” no sentido mais amplo, desde governos que se proclamam socialistas ou pró socialistas como na Venezuela ou Bolívia até outros de corte neoliberal-progressista como os do Uruguai ou Brasil.

***

Jorge Beinstein é doutor em economia e professor catedrático das universidades de Buenos Aires e Córdoba, na Argentina, e de Havana, em Cuba. É autor de Capitalismo senil: a grande crise da economia global, publicado no Brasil pela editora Record (2001). Dirige o Instituto de Pesquisa Científica da Universidade da Bacia do Prata e publica regularmente em Le Monde Diplomatique (em castelhano).

Nova teoria sobre a morte de Osama Bin Laden

Por Cristina F. Pereda | Via El País Brasil

Um homem passa perto das ruínas da casa em que vivia o líder da Al Qaeda em Abbottabad (Paquistão). / SULTAN DOGAR (EFE)

Um artigo de conceituadíssimo jornalista põe em xeque a versão oficial sobre o assassinato do então líder da Al Qaeda pelos EUA.

As diferentes teorias sobre quem ordenou a morte do ex-presidente John F. Kennedy continuam vivas mais de 50 anos depois de seu assassinato em uma rua de Dallas. Umas elucubrações que logo podem abrir caminho a novas conjeturas sobre o final de Osama Bin Laden no Paquistão. No domingo, dia 10, o prestigioso jornalista norte-americano Seymour Hersh publicou uma nova versão, segundo a qual o relato oficial defendido pela Casa Branca nos últimos quatro anos é falso.

Segundo Hersh, os EUA teriam contado com a ajuda direta dos serviços de inteligência paquistaneses para acabar com a vida do cérebro dos atentados de 11 de Setembro. O líder da Al Qaeda estava preso desde 2006. Seu encontro ocorreu graças a um informante do Paquistão, não a uma operação da CIA. E tudo ocorreu graças a um acordo entre os dois países.

Mas, ao contrário de outros grandes trabalhos de Hersh, ganhador do Prêmio Pulitzer em 1970, várias vozes rechaçaram imediatamente sua versão. A Casa Branca assegura que as revelações carecem de fundamento. Um ex-agente da CIA declarou a POLITICO que “todos os dados são incorretos”. “Há muitos erros e afirmações sem base neste texto e não dá para comprová-los um por um”, concluiu Ned Price, porta-voz de Segurança Nacional da Casa Branca, em um comunicado.

O autor de reportagens de investigação de impacto, como as revelações da prisão de Abu Graib no Iraque, em uma série de reportagens para a revista The New Yorker em 2004, ou o massacre de My Lai no Vietnã em 1969, não desfrutou da mesma reação com seu último trabalho. Hersh baseia sua investigação nas afirmações de fontes anônima: um ex-agente da CIA e dois consultores “que tiveram acesso às informações”.

“A Casa Branca ainda mantém que foi uma operação norte-americana e que os oficiais do Exército do Paquistão e seu Serviço de Inteligência não foram avisados com antecedência. Isso é falso”, diz Hersh. Para ele, a versão oficial “poderia ter sido escrita por Lewis Carroll”. O jornalista duvida que Bin Laden teria escolhido uma pequena localidade a pouco mais de 60 quilômetros de Islamabad “como o lugar mais seguro para viver e liderar as operações da Al Qaeda”.

Hersh defende que Bin Laden vivia nesse complexo em Abbottabad como prisioneiro do serviço secreto paquistanês (ISI), que o mantinha recluso para poder utilizar sua figura como moeda de troca com a Al Qaeda, e que eles não só conheciam a operação que terminou em sua morte, também chegaram a colaborar, abrindo caminho aos Navy SEALs norte-americanos.

A pista sobre a localização de Bin Laden não chegou graças a uma operação da CIA que rastreou sua rede de comunicações, mas pela confissão de um agente da inteligência paquistanesa que visitou a Embaixada dos EUA no Paquistão e pediu parte dos 25 milhões de dólares de recompensa em troca da informação. A morte de Bin Laden não ocorreu depois de um enfrentamento com os Navy SEALS que chegaram até o terceiro andar da casa, a verdade é que ele foi executado.

Hersh confirmou que foi o presidente Obama que ordenou a operação que acabou com a morte do líder da Al Qaeda e que as forças especiais dos Navy SEALs se encarregaram de realizá-la. No entanto, teria sido essencial a cooperação da inteligência paquistanesa.

“O assassinato de Osama Bin Laden”, publicado na The London Review of Books, defende que o ISI contava com um agente infiltrado no complexo residencial de Bin Laden e que respondeu a todas as dúvidas da CIA para preparar o ataque. O Paquistão teria ordenado, além disso, a saída de todos os guarda-costas de Bin Laden “assim que ouvissem os primeiros helicópteros” e que fosse cortada a luz elétrica na cidade horas antes de começar o ataque.

Hersh teria trabalhado nessa investigação, de mais de 10.000 palavras, durante os últimos anos. No entanto, ela foi rechaçada pela revista The New Yorker. Ali, ele havia publicado em 2012 uma informação exclusiva sobre o treinamento de forças iranianas em bases militares de Nevada que nunca foi confirmada de maneira oficial. Um ano depois, o jornalista colocou em dúvida os relatórios sobre ataques com armas químicas na Síria baseando-se, mais uma vez, em fontes anônimas.

Nesta ocasião, Hersh se apoiou em outros testemunhos como os oferecidos em uma reportagem da The New York Times Magazine em 2014 ou nas queixas do ex-secretário de Defesa, Robert Gates, que denunciou em suas memórias, – “Duty” – que alguns dos fatos descritos por membros do Governo naqueles primeiros instantes não eram corretos.

A crise interna, a Petrobras e o BRICS: Entrevista com J. Carlos de Assis

Por Rennan Martins | Vila Velha, 11/05/2015

Parceria estratégica Brasil-China é a solução para a economia nacional?

A vinda de Joaquim Levy e sua ortodoxia para a Fazenda significa continuidade da política econômica petista, não mudança. Os juros estratosféricos visam tão somente atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos, e a dinâmica da inflação no Brasil é ligada aos preços administrados e ao alto grau de indexação. O ajuste fiscal e a Operação Lava Jato podem custar 5% do PIB, um desastre recessivo.

Essa é a visão do jornalista, economista e professor da Universidade Estadual da Paraíba, José Carlos de Assis. Em entrevista ao Blog dos Desenvolvimentistas, além de analisar o cenário econômico nacional, falamos de geopolítica e conjuntura global.

Ativo na imprensa alternativa, onde publica artigos regularmente, Assis considera que a partilha é o regime certo para o pré-sal e taxa de “oportunismo deslavado” as recentes iniciativas que visam flexibilizá-lo. Enxerga nessa ofensiva forte influência de interesses externos, e indica uma parceria estratégica com a China como a saída para a recuperação da economia brasileira.

Confira a íntegra:

Como explicar o giro ortodoxo da política econômica do governo? Que efeitos ainda serão sentidos por conta do ajuste?

Não há giro. Há uma continuidade. Em matéria de política econômica o Governo Dilma não é muito diferente do de Lula. Lembram-se do Palocci? Qual a diferença entre o Levy e ele? A situação conjuntural é que mudou. Antes, nos aproveitamos do boom das commodities e acumulamos grandes superávits comerciais; agora, estamos numa terrível situação no balanço de pagamentos devida a uma política cambial estúpida, que vinha de antes. De fato, neste primeiro trimestre, o déficit em conta-corrente acumulado em 12 meses atingiu US$ 101,6 bilhões. É um desastre anunciado.

As perspectivas são negras, se os atores da economia real, empresários e trabalhadores, não se juntarem para convencer o setor público que, se não houver intervenção dele, vamos para uma contração da economia da ordem de 5 a 6% – 0% de carry over do crescimento zero em 2014, 2% negativos do efeito Levy e menos 3% do efeito Lava Jato, que está sendo devastador.

Enquanto se aperta a economia real, os juros sobem e o serviço da dívida vai às alturas. Essas decisões são contraditórias? A economia feita com os cortes será perdida nos gastos financeiros?

A única coerência é ditada pela situação externa: na medida em que se tem déficits em conta-corrente elevadas, o Governo tem que atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos. Como desestruturamos nossa indústria e o boom das commodities acabou, resta-nos apenas aumentar os juros. E aumentar os juros, obviamente, nada tem a ver com controle de inflação. É para atrair dinheiro especulativo e assim fechar a conta externa.

Por que a subida dos juros parece não fazer efeito sobre a inflação? Haveriam métodos diferentes pra combater a subida dos preços?

A política de juros altos, como disse, não tem nada a ver com a inflação. É um remendo para atrair dinheiro especulativo a fim de fechar o balanço de pagamentos. Enquanto isso a inflação vai evoluindo segundo sua própria lógica, que é a dos preços administrados e da indexação generalizada, mesmo que nem toda formal.

Em paralelo ao recuo econômico, cresce a aderência a mudanças nas regras de exploração do pré-sal e na política de conteúdo nacional. O que desencadeou esse processo? Que interesses se beneficiam disso?

É o mais deslavado oportunismo por parte das forças externas e internas que querem destruir a correta política de petróleo. É repulsivo que um sujeito como o senador Serra, que fez a lei dos genéricos, esteja nessa.

Procedem as alegações de que a Petrobras não tem caixa pro montante de investimentos necessários no pré-sal?

É verdade, não tem caixa. Mas tem patrimônio para suportar um nível de endividamento muito maior do que tem, favorecendo a retomada dos investimentos. O correto seria o Tesouro passar recursos para o BNDES, e o BNDES os repassar à Petrobrás, para que a empresa escape das injunções bancárias e de agências de risco, que não passam de agentes do charlatanismo mais deslavado.

José Carlos de Assis

Quais serão as consequências da eventual “flexibilização” do regime de partilha e da política de conteúdo nacional?

Em ambos os casos, seria uma perda injustificável por parte dos que defendem o emprego e as empresas internas. Não falo de empresas nacionais, pois só subsistem algumas poucas, mas de empresas internas, ou seja, instaladas no Brasil, gerando emprego e renda aqui dentro. A política de conteúdo nacional é fundamental para sua sobrevivência, e a sobrevivência de centenas de milhares de empregos, já que as internacionais pressionariam para trazer tecnologia e mão de obra de fora.

Enquanto isso, o cenário internacional é de acirramento de conflitos por recursos estratégicos. De que forma se insere a nossa crise interna no tabuleiro geopolítico?

Boa parte das pressões exercidas sobre a Petrobrás se deve a razões geopolíticas. Os EUA e seus acólitos europeus tentam atrair a Rússia para uma guerra na Ucrânia, a fim de (tentar) estrangulá-la economicamente, o que torna a política brasileira de adesão aos BRICS uma atitude hostil: o amigo de meu inimigo é meu inimigo. Sem o correto entendimento dessa questão, não entenderemos jamais as pressões americanas e europeias para nos impedir de consolidarmos os BRICS, usando inclusive forças políticas internas consideráveis, sobretudo por meio do PSDB.

Quanto as iniciativas do BRICS de fundar um Banco de Desenvolvimento e criar seu arranjo de reservas contingentes. Como essas propostas afetam a arquitetura político-econômica global?

Vai ser a primeira mudança significativa na arquitetura financeira internacional criada pelos anglo-americanas em Bretton Woods em seu próprio interesse. Em outras palavras, criará condições para o início da execução de políticas monetárias soberanas nos BRICS e nos demais países em desenvolvimento, tendo em vista o apoio a ser dado a políticas econômicas de interesse nacional.

Quais seriam os passos mais apropriados para o Brasil frente a esse quadro?

Sem dúvida nenhuma, um acordo estratégico com a China, em bases produtivas, não comerciais. Estou participando de um esforço nesse sentido, pelo qual proporemos à China que nos abra uma linha de crédito considerável para financiarmos produção destinada à própria China, de metais e de commodities e produtos agrícolas industrializados, ancorada em grandes financiamentos também em energia e logística. Esperamos ter a proposta pronta para a chegada do Primeiro Ministro chinês, com uma grande comitiva de empresários, a partir do próximo dia 18.

O filantrocapitalismo, ou como os ricos herdarão a Terra

Por Guillermo Hernández Banderas | Via IHU

O filantrocapitalismo, categoria na qual se encaixa a figura de George Soros (foto), foi aceito na sociedade atual como substituto da redistribuição da riqueza por parte do Estado. Assim, vê-se numa perspectiva mais que positiva a atuação deste tipo de figura, independentemente das consequências econômicas que tenham provocado.

Atualmente, é comum ver nos meios de comunicação figuras econômicas como Bill GatesWarren Buffet ou George Soros sendo apresentados como grandes filantropos. Este tratamento, tão somente com estas três figuras, nos concede uma miríade de exemplos suficientes para realizar estudos de grande envergadura, embora este não seja um deles. Trata-se de três das 10 pessoas mais ricas do mundo e, por conseguinte, três dos maiores produtores de desigualdade mundial neste momento de crise sistêmica. Mas há uma figura que pode ser destacada acima das demais: a de George Soros. A razão principal é que Soros foi discípulo direto de um dos mais importantes filósofos e cientistas do século XX, Karl PopperSoros, por sua vez, também produziu bibliografia acadêmica, embora, evidentemente, não no mesmo nível do seu mestre.

Confere-se a George Soros, de origem húngaro-judaica e de nacionalidade estadunidense – uma série de ocupações, de financista a filósofo, de magnata a escritor. É, atualmente e segundo a Forbes, o 10º indivíduo mais rico do mundo com mais de 24 bilhões de dólares em um contexto no qual as 80 pessoas mais ricas do mundo possuem o equivalente às 3,5 bilhões de pessoas mais pobres, ou seja, a metade da população mundial. O que dá um resultado de cerca de 200 milhões de pobres por cada um desses 80 indivíduos mais ricos do mundo.

Esta fortuna tem três marcos fundamentais que o próprio Soros reconhece em sua obra A crise do capitalismo global, que são: a quebra do Banco da Inglaterra em 1992, a crise financeira no mercado asiático em 1997 e a crise do rublo na Rússia em 1998. Todas elas provocadas intencionalmente pelo próprio Soros, como ele mesmo reconhece, com métodos provavelmente imorais, e como também afirmam analistas financeiros tanto privados como públicos.

Por outro lado, a Real Academia Espanhola define filantropo como a “pessoa que se distingue pelo amor aos seus semelhantes e por suas obras pelo bem da comunidade”. Se este conceito for cotejado com os três acontecimentos previamente enumerados, não há a necessidade de uma análise profunda para ver que se está incorrendo em um paradoxo. Mas esta atitude por parte dos meios de comunicação tem um objetivo muito claro: legitimar ações, provavelmente imorais, dos mais ricos do mundo e, além disso, gerar um marco cognitivo e discursivo que leve o consumidor destes meios de comunicação a vincular as grandes fortunas ao trabalho caritativo em grande escala. Em suma, criar a concepção de que estes personagens produzem igualdade no longo prazo, e não desigualdade. Mas, se estudarmos as três crises provocadas por Soros e suas consequências, esta concepção não se sustenta.

As três crises de Soros

  • Quebra do Banco da Inglaterra, em 1992

Em uma época em que os hedge funds não eram conhecidos, Soros, em 24 horas – a quarta-feira negra –, foi capaz de ganhar um bilhão de dólares mediante a especulação financeira de divisas. A Inglaterra encontrava-se em um momento de fragilidade econômica, motivo pelo qual Soros decidiu agir em benefício próprio, e a ordem que ele deu em sua fundação foi a de ir à jugular. As consequências diretas foram a perda de mais de 3,3 bilhões de libras dos contribuintes na Inglaterra. As consequências indiretas para a sociedade, muito mais complexas de se analisar, repercutiram nas posteriores privatizações de serviços públicos e cortes em políticas sociais. Assim, Soros diz textualmente sobre a sua atuação na falência: “Se tivesse que me ver confrontado com indivíduos e não mercados, não teria podido esquivar o problema moral de escolher entre duas alternativas. Bendigo o céu por ter me guiado para os mercados financeiros nos quais nunca tive que manchar as mãos” (Toussaint, 2002, p. 144).

  • Crise asiática de 1997

Nesta crise Soros agiu com uma técnica similar àquela empregada na Inglaterra cinco anos antes, mas desta vez naMalásia. Aquele que fora o primeiro ministro malaio em 1997, Mahathir Bin Mohamad, apontou Soros como responsável pela crise monetária de seu país e pela posterior queda das economias do sudeste asiático. Posteriormente, a crise se estenderia a países como a TailândiaCoreia do SulIndonésia ou Filipinas. Assim,Maricela Reyes López afirma em seu livro Impacto social da crise financeira e econômica na Ásia que o impacto social que esta crise teve foi fundamentalmente sobre as camadas mais vulneráveis da sociedade. Ela indica como nestes países se produz um aumento generalizado do desemprego – somente em 1998, assinalou a Organização Internacional do Trabalho, o total de desempregados aumentou em 10 milhões de trabalhadores –, ao mesmo tempo que o da taxa de pobreza, que atingiu níveis anteriores a 20 anos, como assinalou o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Diante desta situação e as acusações de MahathirSoros, em uma entrevista concedida aJennifer Hewett, em novembro de 1997, respondeu: “Se houve alguma vez um homem que se encaixasse no estereótipo do conspirador judeuplutocrático do mundo sionista bolchevique, este homem sou eu”.

  • Crise do rublo de 1998

Após os dois precedentes previamente explicados, a figura de Soros já era das mais reconhecidas e influentes no mundo das finanças. Este decidiu afirmar que os mercados financeiros russos se encontravam na fase terminal e que era necessário desvalorizar o rublo entre 15% e 25%. Apenas alguns poucos dias depois, o rublo caiu 31%, o que levou o vice-diretor do Fundo Monetário InternacionalStanley Fisher, a culpar o mesmo Soros por esta desvalorização monetária. A especulação levada a cabo pelos mercados financeiros e patrocinada por Soros fez com que a bolsa caísse 20% e a Rússia teve que pedir um empréstimo de 22,6 bilhões de dólares. Mas, afora o aumento de preços – a inflação era de 300% – ou a quebra de bancos, a importância fundamental residiu na drástica redução do nível de vida da população russa. Assim, uma das conclusões que o próprio Soros tirou desta crise foi que não importa absolutamente se tens razão ou não: o que importa é quanto dinheiro ganhas quando tens razão e quanto dinheiro perdes quando estás equivocado.

O filantrocapitalismo

Está claro que se alguém estuda a figura de George Soros e depois ouve o tratamento dado pela mídia, como o El PaísEl MundoABCLa RazónLa Vanguardia ou mesmo o jornal Público, ou publicações econômicas como El Econónimo ou Expansión, não pode, ao menos, colocar-se a possibilidade de que existem interesses além do direito à informação. A postura nos meios de comunicação do estado espanhol é simplesmente unânime diante deste tipo de figura. A capacidade crítica, fundamental para o exercício da atividade jornalística, é nula, não existe. Mas isso deve ter uma explicação.

A explicação baseia-se na aceitação do filantrocapitalismo como substituição da redistribuição da riqueza por parte do Estado, inclusive como substituto da partilha em base à discriminação positiva nos países anglo-saxões. O termo filantrocapitalismo foi cunhado por Matthew Bishop, editor do The Economist, em seu livro Filantrocapitalismo: como os ricos podem salvar o mundo. A estratégia consiste no investimento conjunto das pessoas mais ricas do mundo para maximizar os lucros destas inversões sociais. A esta estratégia já se uniram relevantes multimilionários como, além do próprio SorosBill e Melinda GatesMark ZuckerbergGeorge Lucas e Mellody HobsonDave Goldberg eSheryl SandbergPaul E. SingerJeff SkollPaul AllenRichard e Joan BransonSteve Bing e John Caudwell, entre outros. Em princípio, de onde venha o dinheiro que posteriormente será investido não parece representar nenhum problema de coerência teórica nem ética. Esta forma de agir também lhes proporciona uma melhora na sua imagem pessoal e investimentos em responsabilidade social corporativa para suas empresas, holdings, fundações…

Soros investe na Espanha

Para finalizar, é necessário informar que, desde o começo de 2014, George Soros começou a se interessar pelo investimento especulativo na Espanha. A entrada de Soros deu-se logo no mais alto nível das finanças na Espanha, e em menos de dois anos já investiu 500 milhões de euros no Banco Santander, 400 milhões de euros na recente privatização (OPV) da AENA, no negócio das energias renováveis da ACS, uma parceria com Florentino Pérez, 200 milhões de euros na Endesa e 175 milhões no Bankia. Mas a Espanha sofre uma crise econômica, social e cultural sem comparação desde a Guerra Civil espanhola, devida, em sua maior parte, à bolha imobiliária no mercado espanhol e que explodiu em 2008. Agora, com os preços da habitação em patamares mínimos, começam a receber investimentos especulativos. Assim, Soros já possui 3% da FCC, das irmãs Koplowitz, e um investimento de ao menos 700 milhões de euros.

Por outro lado, foi criado um fundo imobiliário, a Azora, uma empresa de investimentos na qual investiu outros 500 milhões de euros e cuja equipe também assessora, que é composta, entre outros, por representantes do Goldman Sachs, assessores esses, por sua vez, responsáveis pela atual crise mundial.

Diante da ausência de mudanças estruturais nesta crise sistemática, a solução parece ser deixar entrar capital de referências da especulação mundial com um longo passado na produção de falências em outras zonas geopolíticas. Assim, uma futura quebra devida à especulação com as mesmas bases que produziram a atual crise, não seria, em nenhum caso, uma hipótese absurda. Figuras como a de Soros, que exemplifica perfeitamente a elite extrativa, são consideradas como necessárias para uma saída “coerente” e “suave” da crise e não como as principais causadoras da mesma. Caso esta lógica reinar, a próxima crise terá características similares à atual. Mas, neste caso, se partirá de um nível inferior das condições materiais objetivas das classes trabalhadoras.

***

Tradução: André Langer

Para mais informações:

SOROS, George. A crise do capitalismo global. Rio de Janeiro: Campus, 1999.

TOUSSAINT, Eric. A bolsa ou a vida. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.

Zelotes: Se bancos pagassem dívidas, questão fiscal seria resolvida, diz senador

Via Jornal do Brasil

Otto Alencar (PSD-BA) chama atenção para débito de R$ 565 bi em processos no Carf.

Se apenas uma pequena parte das grandes empresas e bancos do país com dívida junto à União pagasse seus débitos, o ajuste fiscal proposto pelo governo federal não seria mais necessário, alerta o senador Otto Alencar (PSD-BA). Levantamento feito por ele aponta que entre os processos que tramitam no Carf — alvo da Operação Zelotes da Polícia Federal — de cobrança em impostos e multas, 780 processos são referentes a empresas que devem mais de R$ 100 milhões, um montante de R$ 357 bilhões, bem mais do que se pretende economizar com os ajustes fiscais. Para o senador, o Carf precisa ser extinto, ou pelo menos reformado, já que sua configuração permite a interferência direta de interesses de empresas e bancos privados, justamente os maiores devedores.

O Carf deveria ser um conselho para negociar dívidas com a Receita, contudo, tem servido para outros fins, alertou o senador em entrevista à TV Senado. O conselho, criado em 2008 por Medida Provisória, é um órgão paritário, ou seja, é compostos por membros do Fisco, auditores fiscais; e por representantes dessas empresas, advogados tributaristas na maioria dos casos.

“Se somente as empresas da Avenida Paulista resolverem pagar o que devem ao erário, resolve o ajuste fiscal”, ressaltou o senador, chamando a atenção para os 780 processos que representam uma dívida de R$ 357 bilhões em impostos e multas. “Esse conselho nunca julgou os grandes (empresários e banqueiros), postergou as decisões de julgamento dos atos de infração o tempo inteiro, tanto é que resultou na Operação Zelotes.”

Os 4.295 processos de dívidas inferiores a R$ 100 milhões somam R$ 125 bilhões; os 13 mil de dívidas inferiores a R$ 10 milhões, R$ 43 bilhões; e os 93 mil processos inferiores a R$ 100 mil, R$ 9 bilhões. “Só que estava se cobrando só para os pequenos, para os grandes fazia recurso, não avaliava recurso, e ficava nessa situação.”

O Ministério da Fazenda abriu consulta pública sobre a proposta de reforma do Regimento Interno do Carf, que recebe sugestões até segunda-feira (11). De acordo com o presidente do Carf, Carlos Alberto Freitas Barreto, em comunicado sobre a ampliação do prazo da consulta pública, que seria encerrada nesta segunda-feira (4), a consulta já teve elevado nível de adesão.

A defesa do imperialismo do dólar

Por Mike Whitney | Via Resistir.info

“A ‘necessidade’ de o Fed ter um papel ainda mais activo, enquanto os estrangeiros abrandam ainda mais a compra da nossa divisa, é para travar a corrida da desvalorização cambial que ocorre no mundo desenvolvido – uma corrida que está a precipitar-nos para o fim do actual regime de divisas”. 

– Stephanie Pomboy, MacroMavens 

“Seja o que for que os nossos correspondentes ocidentais nos digam, 
podemos ver o que se está a passar. A NATO está a montar 
descaradamente as suas forças na Europa de Leste, 
incluindo as áreas do Mar Vermelho e do Mar Báltico. 
As suas actividades operacionais e de treino em combate estão a aumentar”. 

– Presidente russo Vladimir Putin

Se houvesse uma forma de os Estados Unidos poderem concretizar os seus objectivos a longo prazo e, simultaneamente, evitarem uma guerra com a Rússia, fa-lo-iam. Infelizmente, isso não é uma opção e por isso vai haver um confronto entre os dois adversários com armas nucleares em algum momento no futuro próximo.

Passo a explicar: A administração Obama está a tentar reequilibrar a política dos EUA mudando o foco da atenção do Médio Oriente para a Ásia, que, segundo se prevê, será a região de maior crescimento no próximo século. Chama-se a esta mudança de política o “pivô” para a Ásia. A fim de beneficiar do grande crescimento da Ásia, os EUA planeiam incrementar a sua presença neste continente, expandir as suas bases militares, reforçar alianças bilaterais e acordos comerciais e assumir o papel-chave da segurança regional. O objectivo nada secreto desta política é a “contenção” da China, ou seja, Washington quer preservar a sua posição de única superpotência mundial, controlando o crescimento explosivo da China. (Os EUA querem uma China fraca, dividida, que faça o que lhe mandarem).

A fim de atingir os seus objectivos na Ásia, os EUA precisam de empurrar a NATO mais para Leste, apertar o seu cerco à Rússia e controlar o fluxo do petróleo e do gás de Leste para Oeste. Estas são as pré-condições necessárias para instituir o domínio hegemónico no continente. E é por isso que a administração Obama está tão interessada em apoiar o governo torpe da junta de Kiev; é porque Washington precisa das tropas de choque neonazis de Poroshenko para arrastar a Rússia a um conflito na Ucrânia que esgote os seus recursos, desacredite Putin aos olhos dos seus parceiros comerciais da UE e crie o pretexto para posicionar a NATO na fronteira ocidental da Rússia.

A ideia de que o exército pró-Obama na Ucrânia está a defender a soberania do país é uma charlatanice pura. O que se passa nos bastidores é que os EUA estão a tentar combater um declínio económico irreversível e uma parte sempre contracção do PIB global, em permanente redução, através da força militar. Assistimos hoje na Ucrânia a uma versão do século XXI do Grande Jogo, implementado por fantasistas políticos e com dificuldades financeiras, que acham que podem atrasar o relógio para o tempo do apogeu pós II Guerra Mundial do Império americano, quando o mundo era a pérola da América. Graças a Deus, esse período acabou.

Não se esqueçam que as gloriosas forças armadas americanas passaram os últimos 13 anos a lutar no Afeganistão com pastores de cabras calçados com sandálias num conflito que, na melhor das hipóteses, pode ser caracterizado como um impasse. E agora a Casa Branca quer conquistar a Rússia?

Estão a ver a loucura desta política?

Foi por isso que o secretário da Defesa, Chuck Hagel, foi demitido na semana passada, porque não se mostrou suficientemente ansioso para prosseguir nesta política louca de reforçar as guerras no Afeganistão, no Iraque, na Síria e na Ucrânia. Toda a gente sabe que é verdade, a administração nem sequer tentou negá-lo. Preferem agarrar-se a palhaços enraivecidos, como Susan Rice e Samantha Power, do que a um veterano condecorado que tem mais credibilidade e inteligência no dedo mindinho do que toda a equipa de Segurança Nacional de Obama, em conjunto.

Portanto, Obama está agora totalmente rodeado por imbecis defensores da guerra, que subscrevem o mesmo conto de fadas de que os EUA vão reduzir a Rússia a pó, derrubar Assad, redesenhar o mapa do Médio Oriente, controlar o fluxo de gás e de petróleo do Médio Oriente para os mercados da UE, e estabelecer miríades de bases pela Ásia onde podem manter um controlo apertado sobre o crescimento da China.

Diga-me, caro leitor, isso não lhe parece um pouco improvável?

Claro que a claque de Obama pensa que tem tudo sob controlo, porque, bem, porque é o que lhe têm dito para pensar e porque isso é o que os EUA têm de fazer se quiserem manter a sua posição excelsa enquanto única superpotência mundial, quando o seu significado económico no mundo está a declinar paulatinamente. Este é o problema. A nação excepcional está a tornar-se cada vez menos excepcional e é isso que tem preocupado a classe política, porque vêem os graffiti nas paredes e eles dizem: “Gozem enquanto dura, porque já não vão ser o número um por muito mais tempo”.

Os EUA também têm aliados nesta louca cruzada, nomeadamente Israel e a Arábia Saudita. Os sauditas têm sido especialmente prestimosos ultimamente, inundando o mercado com petróleo para fazer baixar os preços e esmagar a economia russa. (Na sexta-feira, os preços de referência do crude caíram ao nível do preço de há quatro anos, com o preço do crude Brent a baixar para os 69,11 dólares por barril). A administração Obama está a usar o clássico golpe duplo das sanções económicas e da quebra das receitas do petróleo para forçar Moscovo a retirar-se da Crimeia, para que Washington possa avançar com o seu arsenal nuclear para uma distância mínima de Moscovo. Aqui está algo do Guardian:

“Pensem em como a administração Obama vê o estado do mundo. Quer que Teerão desista do seu programa nuclear. Quer que Vladimir Putin se retire da Ucrânia oriental. Mas, depois das recentes experiências no Iraque e no Afeganistão, a Casa Branca não está interessada em pôr as botas americanas no terreno. Em vez disso, e com a ajuda do seu aliado saudita, Washington está a tentar baixar o preço do petróleo, inundando de crude um mercado já débil. Como os russos e os iranianos são profundamente dependentes das exportações do petróleo, a presunção é que assim será mais fácil lidar com eles.
John Kerry, o secretário de Estado dos EUA alegadamente fechou um acordo com o rei Abdullah em Setembro, segundo o qual os sauditas venderiam o crude abaixo do preço de mercado. Isso ajudaria a explicar porque é que o preço tem estado a descer numa altura em que, dadas as convulsões no Iraque e na Síria provocadas pelo ‘estado islâmico’, o natural seria que estivesse a subir”.
Stakes are high as US plays the oil card against Iran and Russia , Larry Eliot, Guardian )

E há mais, de Patrick L. Smith, do Salon:

“Menos de uma semana depois da assinatura do Protocolo Minsk, Kerry fez uma viagem pouco noticiada a Jedá para se encontrar com o rei Abdullah na sua residência de Verão. Quando acabou por ser noticiada, foi justificada como fazendo parte da campanha de Kerry para garantir o apoio árabe na luta contra o ‘estado islâmico’”.
Alto lá. A visita não foi só por causa disso, é o que me dizem minhas fontes de confiança. A outra metade da visita teve a ver com o desejo inabalável de Washington de arruinar a economia russa. Para isso, Kerry disse aos sauditas 1) para aumentar a produção, e 2) para reduzir o preço do crude. Não se esqueçam destes números pertinentes: os sauditas precisam de um preço de menos de 30 dólares/barril para equilibrar o orçamento nacional, enquanto os russos precisam de 105 dólares.
Pouco depois da visita de Kerry, os sauditas começaram de facto a aumentar a produção – em mais 100 mil barris por dia durante o resto de Setembro, segundo parece, para virem a aumentar ainda mais…
Pensem nisto. O Inverno está a chegar, há graves interrupções de produção no Iraque, na Nigéria, na Venezuela e na Líbia, há outros membros da OPEP aos gritos a pedir um alívio e os sauditas fazem movimentos de recuo que levam a uma maior descida dos preços? Façam as contas, pensando no itinerário oculto de Kerry e, para vos ajudar, ofereço-vos isto de uma fonte extremamente bem posicionada nos mercados de produtos: ‘Há agora mãos muito poderosas a pressionar o petróleo na oferta global, escreveu noutro dia essa fonte num e-mail”.
What Really Happened in Beijing: Putin, Obama, Xi And The Back Story The Media Won’t Tell You , Patrick L. Smith, Salon)

A equipa de Obama conseguiu convencer os nossos bons amigalhaços, os sauditas, a inundar o mercado de petróleo, a baixar os preços e a precipitar a economia russa no abismo. Simultaneamente, os EUA intensificaram as sanções económicas, fizeram tudo o que puderam para sabotar o gasoduto South Stream da Gazprom (que contornaria a Ucrânia e forneceria o gás natural à Europa através dum caminho pelo Sul) e convenceu o parlamento ucraniano a leiloar 49 por cento dos direitos de leasing e das instalações de armazenagem subterrâneas a empresas estrangeiras pertencentes a privados.

Gostam disto? Assim, os EUA desencadearam uma guerra devastadora contra a Rússia que tem sido totalmente omitida pelos meios de comunicação ocidental. Estão surpreendidos?

Washington está determinado a bloquear ainda mais a integração económica da Rússia na União Europeia, a fim de fazer desabar a economia russa e pôr o capital estrangeiro a controlar a distribuição regional da energia. Tem tudo a ver com o eixo. Os rapazes do grande capital acham que os EUA têm que ser o eixo para a Ásia. para poderem manter o seu papel no próximo século. Todos estes ataques não provocados a Moscovo baseiam-se nessa estratégia louca.

Mas as pessoas na UE não vão ficar irritadas quando não puderem obter a energia de que precisam (aos preços que querem) para os seus negócios e para aquecer a casa?

Washington acha que não. Washington acha que os seus aliados no Médio Oriente podem satisfazer as necessidades de energia da UE sem qualquer dificuldade. Vejam este trecho de um artigo do analista F. William Engdahl:

“… estão a aparecer pormenores dum novo segredo e de um acordo bastante estúpido Arábia Saudita-EUA sobre a Síria e o chamado ‘estado islâmico’. Envolve o controlo do petróleo e do gás de toda a região e o enfraquecimento da Rússia e do Irão, pela inundação saudita do mercado mundial com petróleo barato…
A 11 de Setembro, o secretário de estado Kerry encontrou-se com o rei saudita Abdullah no seu palácio do Mar Vermelho. O rei convidou o antigo chefe dos serviços secretos sauditas, o príncipe Bandar, para assistir. Foi preparado um acordo que previa o apoio saudita a ataques aéreos sírios contra o ISIS com a condição de Washington dar apoio aos sauditas para derrubar Assad, um firme aliado da Rússia e também do Irão, e um obstáculo aos planos sauditas e dos Emirados Árabes Unidos para controlar o mercado emergente do gás natural da UE e destruir o comércio lucrativo da Rússia com a UE. Uma notícia no Wall Street Journal fazia notar que tinha havido meses de trabalho nos bastidores entre os líderes americanos e árabes, que acordaram na necessidade de cooperar contra o ‘estado islâmico’ mas não como nem quando.
O processo deu aos sauditas a possibilidade de arrancar aos EUA o compromisso de reforçar o treino para os rebeldes lutarem contra o Sr. Assad, cuja queda os sauditas continuam a considerar uma prioridade absoluta”. ( The Secret Stupid Saudi-US Deal on Syria , F. William Engdahl, BFP)

Portanto, as guerras na Ucrânia e na Síria não são conflitos separados de modo algum. Fazem parte da mesma guerra global por recursos que os EUA têm desencadeado nos últimos 15 anos. Os americanos planeiam cortar o fluxo de gás russo e substitui-lo pelo gás do Qatar que atravessará a Síria e entrará no mercado da UE depois de Assad ser derrubado.

Eis o que se está a passar: os problemas da Síria começaram pouco depois de ela ter anunciado que ia participar de um “gasoduto islâmico” para transferir o gás natural do reservatório de gás de South Pars, ao largo da costa do Irão, através do Iraque e da Síria, que viria a ligar ao lucrativo mercado da Grécia e da UE. Segundo o autor Dmitri Minin:

“Um gasoduto a partir do Irão seria altamente lucrativo para a Síria. A Europa também ganharia com isso, mas há nitidamente no ocidente quem não goste da ideia. Os fornecedores de gás, aliados do ocidente no Golfo Pérsico, também não ficaram satisfeitos, nem a Turquia, o transportador de gás número um, porque ficaria fora do jogo”.
The Geopolitics of Gas and the Syrian Crisis: Syrian “Opposition” Armed to Thwart Construction of Iran-Iraq-Syria Gas Pipeline , Dmitri Minin, Global Research)

Dois meses depois de Assad ter assinado o acordo com o Iraque e o Irão, rebentou a rebelião na Síria. É uma grande coincidência, não acham? É curioso como este tipo de coisas acontece tão frequentemente quando os líderes estrangeiros não afinam com Washington.

Mas há mais de Minin:

“O Qatar está a fazer tudo o que pode para torpedear a construção do gasoduto, incluindo armar os combatentes de oposição na Síria, muitos dos quais vêm da Arábia Saudita, do Paquistão e da Líbia…
O jornal árabe Al-Akhbar cita informações segundo as quais há um plano aprovado pelo governo dos EUA para criar um novo gasoduto para transportar gás de Qatar para a Europa, envolvendo a Turquia e Israel…
Este novo gasoduto deverá começar em Qatar, atravessar o território saudita e depois o território da Jordânia, ultrapassando assim o Iraque xiita, e chegar à Síria. Perto de Homs o gasoduto dividir-se-á em três direcções: para Lataquia, Trípoli no norte do Líbano, e Turquia. Homs, onde também há reservas de hidrocarbonetos, é a principal encruzilhada do projecto, e não é para admirar… que ocorra aí a luta mais feroz. O destino da Síria está a ser decidido aí. As partes do território sírio onde estão a operar os destacamentos de rebeldes, com o apoio dos EUA, Qatar e Turquia, ou seja, o Norte, Homs e os arredores de Damasco, coincidem com o caminho que o gasoduto deverá seguir para a Turquia e Trípoli, no Líbano. Uma comparação de um mapa das hostilidades armadas e um mapa da rota do gasoduto de Qatar indica um elo entre as actividades armadas e o desejo de controlar estes territórios sírios. Os aliados de Qatar estão a tentar atingir três objectivos: quebrar o monopólio do gás da Rússia na Europa; libertar a Turquia da sua dependência do gás iraniano; e dar a Israel a hipótese de exportar o seu gás para a Europa por terra a um custo menor”.

Que tal, gostam disto, mais uma coincidência: “A luta mais feroz (na Síria) está a ocorrer” onde há enormes “reservas de hidrocarbonetos” e ao longo da rota planeada para o gasoduto.

Portanto, o conflito na Síria não tem nada a ver com terrorismo. Trata-se do gás natural, de gasodutos concorrentes e do acesso aos mercados na UE. Trata-se de dinheiro e de poder. Toda essa história do ISIS é uma grande mistificação para esconder o que se está realmente a passar, que é uma guerra global pelos recursos, mais sangue para o petróleo.

Mas como é que os EUA beneficiam de tudo isto, afinal as receitas do gás não vão para Qatar e para os países por onde transita o gasoduto, em vez de irem para os EUA?

Claro que vão. Mas o gás também vai ser denominado em dólares que aumentarão brutalmente a procura do dólar americano, perpetuando assim o sistema de reciclagem do petrodólar, o que cria um grande mercado para a dívida dos EUA e que ajuda a manter as acções e títulos dos EUA na secção da hemorragia (apenas) nasal. É disto que se trata, de preservar a supremacia do dólar forçando as nações a manterem quantidades excessivas de dólares americanos para usar nas transacções de energia e para servir suas dívidas denominadas em dólares.

Enquanto Washington puder controlar os abastecimentos mundiais de energia e forçar o mundo a comerciar em dólares, pode gastar muito mais do que produz e não ser responsabilizado por isso. É como ter um cartão de crédito que nunca seja preciso reembolsar.

Isto é uma trapaça que o Tio Sam está preparado para defender com tudo o que tiver, incluindo bombas nucleares.

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Vive no estado de Washington, EUA, fergiewhitney@msn.com , colaborou em Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion , AK Press.

O original encontra-se em www.counterpunch.org/2014/12/01/defending-dollar-imperialism/ . Tradução de Margarida Ferreira.

Elementos para uma nova política econômica

Por Célio Turino | Via Outras Palavras

“Ajuste fiscal”, que começa a ser votado hoje, é sacrifício inútil: juros consumirão toda “economia” gerada pelo corte de direitos e investimentos. É hora de construir agenda alternativa.

Apresentado como tábua de salvação para a economia (e para o governo), o Ajuste Fiscal do governo Dilma, sob a batuta do ex-funcionário do FMI e Bradesco, ministro Joaquim Levy, trará resultado oposto do prometido e agravará os problemas econômicos e sociais do Brasil. Ao combinar elevação de juros públicos (via SELIC) com cortes em direitos sociais, políticas públicas e investimentos, a atual política econômica jogará o país em um negativo círculo vicioso, que irá reduzir ainda mais o dinamismo da economia e os direitos dos cidadãos. Como beneficiários, apenas o Sistema Financeiro, os rentistas e as 20.000 famílias mais ricas.

Aos dados. Segundo o Banco Central, em março de 2015, a dívida líquida brasileira estava em 33% do PIB, em valores absolutos, mais de R$ 2,44 trilhões. Se o principal objetivo da política macroeconômica é reduzir esta relação, as medidas adotadas vão no sentido oposto. E nem é necessário fazer cálculos sofisticados para chegar ao resultado. Segundo previsões, a evolução do PIB em 2015 será negativa, mas vamos manter em 0% para facilitar o cálculo. Com a elevação da SELIC a 13,25%, o juro real aplicado pelo governo está ao redor de 7%, mantendo o Brasil na liderança mundial de juros. Mantida esta taxa, ao final de 2015 a relação Dívida/PIB irá alcançar 35,3% do PIB. E crescendo nos anos seguintes. Claro que economistas e imprensa a serviço do Mercado e demais cúmplices do rentismo, virão com argumento em socorro à política econômica do governo, alegando que a este cálculo não foi incorporado o efeito do Superávit Primário (1,2% do PIB). Sim, não incluí propositadamente, para demonstrar de forma didática o efeito do Superávit Primário nas contas públicas; neste caso, a relação cairá para “apenas” 34,1% do PIB (se o PIB decrescer será mais). Em termos reais, depois de toda economia em gasto social e investimentos públicos em 2015, os brasileiros terão que assumir, no mínimo, mais R$ 65 bilhões em dívida! O mesmo valor do Ajuste Fiscal. REPETINDO, se tudo der certo, os brasileiros economizarão R$ 65 bilhões em cortes em investimentos e serviços públicos para ficarem R$ 65 bilhões mais endividados (R$ 325 por pessoa). Isso mesmo.

Apesar do colossal esforço a que nós brasileiros estamos submetidos, com cortes no seguro desemprego, pensões e aposentadorias, redução nos orçamentos da Educação, Saúde e Cultura e a quase paralisia em investimentos públicos, ao final deste ano estaremos ainda mais pobres e endividados. Com o decréscimo de 1% no PIB, calculo que a Renda per Capita dos brasileiros irá cair 1,5%, no mínimo, em contraparte, o topo da pirâmide, só com o juro real da SELIC, ficará 7% mais rico. Afora o impacto que esta política recessiva terá nos investimentos privados e no emprego. E nada garante que 2016 será melhor. Pelo contrário, a situação de paralisia econômica pode até se agravar, seja como reflexo do desmonte na cadeia produtiva na Petrobras e outras Estatais e Governos (não somente o Federal), seja no desestímulo a investimentos privados e consumo. Com menor atividade econômica a arrecadação tributária também cai, exigindo novos cortes orçamentários e que acabam resultando em mais retração econômica e assim sucessivamente.

A se manter a atual política econômica, a tendência será o agravamento nos indicadores econômicos, não o contrário. Mas cabe perguntar: há alternativa a estas medidas?

Afinal, o quadro econômico já se revelava sombrio antes mesmo do anúncio desta política, sendo necessária a adoção de medidas para correção de rumos e disso ninguém discorda. Mas para compreender se estas medidas terão eficácia ou não, cabe antes fazer uma análise em retrospecto. Primeiro, é justo reconhecer que o Ajuste Fiscal ora proposto parte dos mesmos fundamentos das políticas econômicas aplicadas desde o Plano Real, com juro real elevado, superávit primário, câmbio flutuante e meta de inflação, em que o aperto monetário é o único remédio. Porém, se a conjuntura econômica na década passada, com ganhos expressivos no mercado internacional de commodities e crescimento real do PIB, permitia a combinação de aperto fiscal com redução relativa do estoque da dívida, mais aumento do gasto social e algum investimento, no momento a realidade é outra. Segundo, cabe levar em conta o fato de que esta política de Aperto Fiscal, que já dura 20 anos, foi implementada após ter recebido referendo prévio; seja em 1994, com o Plano Real e a eleição de Fernando Henrique Cardoso, seja em 2002, com a “Carta aos Brasileiros”, apresentada antes da primeira eleição de Lula e mesmo em 2010, quando houve um prolongamento deste acordo com a sociedade. Ocorre que na campanha de 2014 a candidata Dilma sinalizou outra política econômica, sobretudo no segundo turno, quando buscava apoio popular e, depois de reeleita, aplicou o oposto, em um giro de 180 graus. Sem levar este aspecto de quebra no acordo político (com os próprios eleitores da presidenta Dilma, diga-se) não há como analisar a viabilidade e a legitimidade do Ajuste Fiscal. Afinal, quem paga pelo Ajuste somos nós.

Também há que reconhecer outros equívocos econômicos praticados nos últimos quatro anos. Houve vários desajustes, resultantes de uma condução voluntarista e errática da economia. Exemplos: subsídios de R$ 30 bilhões anuais (o mesmo valor de um ano para todo o programa Bolsa Família) em empréstimos do BNDES para grandes empresas, muitas vezes sem estudo de benefícios econômicos e garantias (os mal sucedidos empréstimos a Eike Batista, no valor de R$ 10 bilhões e que provavelmente jamais retornarão, ou os R$ 10 bi para Friboi concentrar mercado, provocando aumento no preço da carne -20% em 2014- para o consumidor interno, entre outros maus exemplos); ausência de calculo de impacto na desoneração fiscal e previdenciária; erros grosseiros na política de preços para combustíveis e eletricidade; gastos públicos sem avaliação de resultados qualitativos e financeiros – como no caso do Financiamento Estudantil-; excessos em gastos públicos desnecessários, como a profusão de ministérios e cargos oferecidos como barganha política, tornando a gestão do governo ainda mais ineficiente. No caso destas medidas há que corrigir rumos, sem dúvida, assim como faz sentido algum ajuste em relação a pensões de viúvas muito jovens, sem filhos, em casamento de ocasião. Porém, ao combinar aperto fiscal com aumento nos juros públicos, todo este esforço terá sido em vão.

A realidade que assistimos hoje é de uma presidente desmoralizada e imobilizada, refém dos próprios desarranjos econômicos e quebra da relação de confiança com seus eleitores. Ao sucumbir definitivamente a uma política econômica monetarista e ortodoxa, tal qual tem levado outros países à bancarrota, o governo estará conduzindo o país a uma espiral econômica negativa que pode durar o resto da década. E, ao final, só terá imposto mais sacrifícios, tristeza e desesperança.

Mas este caminho não é inevitável, há outro. Ocorre que falta coragem, compromisso popular e clareza política. Lamentavelmente o PT e o governo se enredaram em seus próprios descaminhos e agora não tem força (e, talvez, nem vontade) para apresentar uma alternativa justa e esperançosa para os brasileiros.

Pontos para uma Nova Política Econômica, colocando o Estado a serviço do povo:

I – Reduzir a SELIC de 13,25% para 8%, no máximo;

II – Auditoria da Dívida Pública, conforme previsto (e nunca cumprido) na Constituição Brasileira;

III Direcionar empréstimos do BNDES (há mais de R$ 30 bilhões em caixa) para investimentos produtivos e inovação, principalmente para arranjos produtivos solidários e cooperativos, com alto impacto na geração de empregos;

IV Recompra das Ações da Petrobras e aporte de Capital Público na empresa, restabelecendo plano de investimentos, a partir de contratos honestos, agregando valor à atividade econômica do petróleo e energia;

V Redução da jornada de trabalho, inicialmente para 40 horas semanais, e reversão da precarização do trabalho através da Lei de Terceirização;

VI Reforma Agrária, com fortalecimento da agricultura familiar, produção de alimentos e cadeias produtivas locais;

VII Imposto sobre grandes Fortunas, Heranças, Transações Financeiras e transferências internacionais.