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Petrobras, sua história e a soberania: Entrevista com Wladmir Coelho

Por Rennan Martins | Curitiba, 08/06/2015

A Operação Lava-Jato desencadeou uma série de mudanças no rumo da gestão da Petrobras. Independente ou não da intencionalidade, o fato é após o escândalo a estatal tomou um rumo ainda mais pró-mercado, algo deveras providencial a certos interesses internacionais.

O enfraquecimento das políticas de desenvolvimento e soberania ora apoiadas na Petrobras deu-se num contexto nebuloso em que uma campanha midiática denuncia os mal feitos ao mesmo tempo que apresenta como única solução intensificar as medidas entreguistas e privatistas.

A fim de situar o debate em termos diversos, porém fundamentais para compreensão do real propósito da empresa, o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou Wladmir Coelho, Historiador, Mestre em Direito, Conselheiro e pesquisador da Fundação Brasileira de Direito Econômico, e autor do blog Política Econômica do Petróleo. Coelho faz uma importante retrospectiva histórica do petróleo e sua relação com o desenvolvimento econômico brasileiro, relembra que os interesses contrários a soberania nacional não descansam e é taxativo quando aponta que o modelo de partilha é também uma forma de financiamento do oligopólio transnacional do petróleo.

Confira a íntegra:

Como você caracteriza a gestão petista da Petrobras? A retórica nacionalista é condizente com a prática?

A criação da Petrobras representou uma ruptura com o modelo econômico de base colonial encarnando, esta empresa, os sentimentos de independência econômica cuja representação maior encontra-se na figura de Tiradentes.

A Inconfidência de Minas Gerais passou para a história como um movimento em defesa das recursos minerais – simbolizado no ouro – permanecendo este aspecto como espécie de fundação do nacionalismo no Brasil.

Assim qualquer movimento de base nacionalista em nosso país, necessariamente, apresenta em sua estrutura a defesa da utilização do ouro, minério de ferro ou petróleo como forma de alcançar a independência econômica.

No início do século passado Arthur Bernardes, Pandiá Calógeras, Monteiro Lobato e outros tantos quando falavam em nacionalismo entendiam a necessidade de uma legislação voltada para o controle brasileiro do setor mineral.

Veja que a Petrobras resulta de uma longa história iniciada no final do século XVIII e sua criação efetivou-se graças a mobilização de diferentes setores da sociedade que assumiam a condição de herdeiros deste sentimento nacionalista e, desta forma, o dever de concretizar a independência econômica do Brasil.

A Petrobras nasceu da mobilização popular contra o controle dos grupos internacionais que impediam a exploração do petróleo nacional. O povo brasileiro, de forma ousada, criou uma empresa para quebrar um gigantesco oligopólio que controlava, ou ainda controla, a produção mundial.

Sabemos que estes mesmos grupos internacionais jamais desistiram de desviar a Petrobras de sua missão. Sempre agiram manipulando dados e informações a começar pelo relatório Link cujo teor apontava a inviabilidade comercial da exploração do petróleo em terra no Brasil.

A ditadura militar, ao internacionalizar a Petrobras e criar o chamado contrato de risco, seguido do governo de Fernando Henrique Cardoso que jogou no lixo 300 anos de lutas pela emancipação econômica do Brasil, anulando o monopólio estatal do petróleo, representam o tamanho da disputa que ainda temos a nossa frente.

Quanto ao atual governo observo que o discurso nacionalista em defesa da Petrobras foi abandonado. O ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, advoga sem o menor pudor a redução do chamado conteúdo nacional – e vejam que nossa Constituição desde 1995 apresenta-se bastante flexível em relação a definição de empresa nacional – isso sem falar do desespero de sua excelência em efetivar o mais rápido possível os leilões.

Vamos juntando ao tema o chamado desinvestimento cujo verdadeiro nome é venda de partes da Petrobras. A todo momento surge o fantasma da entrega de campos de produção em território nacional para a satisfação dos lucros de acionistas residentes do outro lado do Atlântico. Esta prática não apresenta características nacionalistas.

Completo dizendo o seguinte: Desde o início da discussão a respeito da forma de exploração do pré-sal apontei o grave erro presente no modelo que oferecia a Petrobras a condição de operadora ficando, todavia, com apenas 30% de controle dos blocos. A empresa nacional transformou-se em financiadora dos oligopólios.

A Petrobras não foi criada para “concorrer” com os oligopólios petrolíferos, sua missão não é oferecer ganhos ao mercado internacional de ações e sim garantir à autossuficiência nacional protegendo a economia dos ataques especulativos representados na condição pendular dos preços do petróleo.

De que forma o pré-sal insere o Brasil no mapa geopolítico? Quem são os maiores interessados em nossas reservas petrolíferas?

 

Wladmir Coelho

As reservas petrolíferas brasileiras sempre estiveram na mira dos oligopólios do petróleo. No início do século XX a Standard Oil controlava, em nosso país, vastas áreas com potencial produtivo e graças à existência de uma legislação permissiva que impedia a pesquisa e consequente exploração do petróleo brasileiro.

A estratégia para impedir a exploração do petróleo nacional completava-se quando inúmeros geólogos, quase sempre ligados a Standard Oil, negavam através de relatórios “científicos”, a existência de reservas petrolíferas, em condição de exploração comercial, em território brasileiro.

Temos ainda a conhecida subserviência da grande imprensa nacional aos interesses dos oligopólios internacionais. Monteiro Lobato, ao defender a criação de empresas nacionais de exploração petrolífera, foi atacado duramente em artigos do jornal O Globo, nos quais era acusado de louco a inconsequente. Também não podemos nos esquecer que durante muitos anos a ESSO brasileira foi responsável pelo programa jornalístico de maior audiência no rádio, o Repórter Esso.

Voltando a geopolítica devemos lembrar que no período em questão os Estados Unidos eram os maiores produtores de petróleo do mundo e lutavam para garantir o preço que atendia aos interesses, principalmente, da Standard Oil. Preço e volume da produção, naturalmente.

Este fato como sabemos sofreu alterações nos anos 70 quando verificou-se uma crescente dependência dos EUA do petróleo originário do Oriente Médio. Este aspecto nunca agradou os responsáveis pela elaboração da política de defesa estadunidense, preocupados com a instabilidade política da região. Instabilidade, diga-se de passagem, decorrente, em grande parte, em função da manutenção de governos favoráveis aos Estados Unidos.

Somado ao fato instabilidade política em nossos dias a quantidade de petróleo encontrado em áreas de fácil acesso, os chamados campos tradicionais, revelam evidente queda restando a exploração nas profundezas oceânicas ou regiões de clima extremo como o Ártico.

O curioso deste momento consiste no retorno dos Estados Unidos a condição de grande produtor mundial de petróleo graças a polêmica exploração do xisto. Verifica-se com clareza uma movimentação dos EUA no sentido de controlar áreas com potencial produtivo.

Vejamos o caso do Canadá cuja economia encontra-se em franca desorganização em função de sua recente dependência da exportação do petróleo de xisto – algo próximo dos 90% de sua produção – aos Estados Unidos.

Devemos ainda acrescentar o México, as tentativas de isolamento da Venezuela acusada de ameaça a segurança nacional dos Estados Unidos. Qual ameaça? Simples. A Venezuela levanta-se contra os acordos comerciais que ignoram a soberania nacional.

O pré-sal de forma evidente encontra-se nos planos da chamada segurança energética dos Estados Unidos. No mínimo temos uma enorme quantidade de petróleo nas profundezas do oceano e sua eventual exploração representa o poder de intervenção no mercado internacional e consequente aumento do poder econômico brasileiro.

A utilização deste patrimônio como produto de simples exportação atenderá diretamente aos interesses de sempre e diminui o peso, a importância geopolítica do Brasil. Precisamos utilizar melhor o poder econômico decorrente da exploração petrolífera e para este fim devemos repensar o formato atual da Petrobras.

Como a Operação Lava Jato está influenciando a Petrobras? Quais são os impactos mais significativos?

Petróleo e corrupção sempre andaram juntos. As maiores empresas petrolíferas compraram governos e quando encontravam alguma resistência oficial promoviam, ou promovem, golpes de estado, assassinatos.

Esta prática inclui os países de origem, bastando para este fim verificar a ligação entre petróleo e indústria da guerra nos Estados Unidos ou Inglaterra, acrescidos os recentes escândalos ligados a exploração do xisto cujo resultado nefasto encontra-se nos prejuízos ao meio ambiente e a saúde dos moradores de áreas de exploração.

A Petrobras foi criada em oposição aos métodos mercadológicos dos oligopólios, portanto não deveria permanecer na condição de mais uma empresa ou concorrente destas. Este projeto é uma triste herança da ditadura acrescida da ficção neoliberal dos anos 90.

O tempo todo a grande imprensa aponta como “salvação” da Petrobras a sua total submissão as regras do chamado mercado. Não, este caminho mostrou-se prejudicial aos interesses do povo brasileiro.

A submissão da Petrobras ao mercado implica na aceitação pura e simples de sua associação aos interesses dos oligopólios que em nome do lucro passam a ditar a política econômica da empresa. A Petrobras nasceu para combater este modelo.

É possível que se aproveitem da repercussão dos escândalos para promover políticas privatizantes?

Os inimigos da Petrobras nunca descansaram. Com ou sem escândalo a empresa sempre foi atacada, ora como incompetente, argumento usado desde a ditadura quando foi introduzido a primeira quebra do monopólio através dos contratos de risco ou “dinossauro” estatal, mesmo que nunca tenha funcionado nesta condição, que impedia a livre concorrência e consequente preços baixos para o combustível. Este discurso foi moda nos anos 90 durante o período de Fernando Henrique Cardoso.

No fim do ano passado, uma comissão de procuradores foi aos EUA e assinou com o Banco Mundial um acordo de cooperação nas investigações da Lava Jato. Este tipo de movimentação é comum? É possível dizer que o Banco Mundial tenha influência no andamento dos processos?

O Banco Mundial constitui instrumento poderoso para a implantação e manutenção das políticas neoliberais. Sua atuação contra a Petrobras é bastante conhecida. Um exemplo:

O processo de privatização da Petrobras nos anos 90 recebeu amplo apoio do órgão financeiro em questão. Diga-se de passagem o financiamento do gasoduto da Bolívia ao Brasil apresentava como condição primeira a presença dos oligopólios de sempre, naturalmente para beneficiarem-se da estrutura construída com o endividamento dos dois países sul-americanos.

Há diferenças significativas entre o regime de partilha e o de concessões? Em sua visão, qual é o mais vantajoso e por que?

Os dois entregam o petróleo. Os dois reduzem a Petrobras a condição de financiadora dos oligopólios de sempre e apresentam em sua base as formas para garantir a simples exportação de matéria prima.

Quando o governo adotou o modelo de partilha apresentou como a melhor forma do mundo associando este ao sucesso da exploração petrolífera da Noruega. Naquele país, afirmava o antigo colaborador da ditadura Edison Lobão, o Estado criou uma empresa para administrar os contratos e aplicava ou guardava os recursos para uso futuro em um fundo de ações.

Não foi bem assim. A Noruega, durante o auge da exploração no Mar do Norte, estatizou todo o processo e aplicou, sem destinar ao mercado de ações, os recursos diretamente e principalmente em políticas de bem-estar social.

Somente no início dos anos 2000, como forma de garantir o apoio da União Europeia a exploração do petróleo do Ártico, disputado inclusive com a Rússia, a Noruega aceitou compartilhar parcela da exploração nacional com empresas privadas.

O mais vantajoso para o Brasil é suspender o modelo atual e em questão o seguinte: Qual a vantagem de destinarmos trabalho e recursos financeiros para criarmos uma indústria de exportação de matéria prima?

Considerando que a cada dia se torna mais barato o uso de outras fontes de energia, você vê o petróleo perdendo seu valor estratégico? A soberania sobre as jazidas continuará sendo questão de alta relevância?

Sabemos todos da existência de fontes alternativas de energia, todavia a utilização destes recursos representam novos desafios. Um exemplo: A transformação de alimentos como o milho ou soja em matéria prima para combustíveis.

Temos ainda uma estrutura empresarial e industrial totalmente dependente do petróleo, que apesar do evidente declínio de áreas tradicionais para exploração ainda apresenta-se como forma mais viável, do ponto de vista econômico, como forma de energia.

Devemos ainda acrescentar que o petróleo é também matéria prima para parcela considerável das mais variadas formas de indústria. Temos petróleo em quase tudo atualmente.

Agora, precisamos entender que um país no estágio histórico e econômico como o Brasil deve pensar ou repensar sua matriz energética considerando novas ou alternativas fontes de energia. Contudo este fato não reduz a relevância do controle das áreas com potencial petrolífero.

Em relação as tensões internacionais. Em que regiões se espera um acirramento pelo controle das jazidas de petróleo e derivados? Que sinais desses conflitos já se manifestam?

Primeiro as regiões disputadas economicamente entre a China e Estados Unidos. Neste caso temos os países da Ásia Central. Existe ainda a tensão da China, principalmente, com o Japão relativa ao controle e acesso ao Mar do Sul da China, uma região com grande potencial petrolífero.

Nesta disputa pelo controle da Ásia Central temos ainda os interesses da Rússia cuja influência nesta região relativa a exploração petrolífera tem origem na era soviética, e devemos acrescentar nesta disputa o Irã um grande fornecedor da China que constitui limites com as áreas disputadas no centro asiático.

Os sinais destes conflitos manifestam-se, dentre outros, no processo de recriação ou rearmamento do exército japonês, na política de isolamento da Rússia, além dos acordos comerciais envolvendo os países do Pacifico.

Quanto a América Latina, verifica-se a clara oposição dos Estados Unidos aos países que apresentam resistências a assinatura dos famosos acordos comerciais com cláusulas de renúncia a soberania.

Que posição o Brasil deveria assumir, daqui pra frente, em relação a Petrobras e ao tabuleiro geopolítico internacional?

Não há outro caminho a não ser a retomada do projeto que criou a Petrobras. Defendo o retorno do monopólio da empresa desta vez apoiado na estatização do processo. A Petrobras empresa de capital mista revela-se fragilizada e neste ponto vou recorrer novamente à história:

O processo que resultou na criação de uma empresa mista detentora do monopólio não foi o desejo dos brasileiros durante a campanha do Petróleo é Nosso. A defesa de uma empresa estatal estava presente, inclusive, através do projeto dos empresários de Minas Gerais, elaborado a partir dos estudos do professor Washington Albino e intitulado Tese Mineira do Petróleo.

Neste projeto revelava-se com clareza a criação de uma empresa petrolífera estatal como elemento-chave para a garantia da autossuficiência energética e utilização do poder econômico decorrente desta exploração em beneficio do projeto nacional de desenvolvimento.

Diante dos problemas que hoje vivemos incluindo os fatos sobre corrupção, relações internacionais e crise econômica mundial devemos, no mínimo, criar condições para a discussão da questão do petróleo no Brasil.

A nova disputa pelo Pré-Sal

Por Mauro Santayana | Via AEPET

Os jornais voltam a anunciar que se discute, dentro e fora do governo, o fim da atuação da Petrobras como operadora exclusiva do pré-sal, com fatia mínima de 30%.

Alegam, entre outras coisas, seus adversários que seria inviável para a Petrobras continuar a explorar o petróleo do pré-sal com a baixa cotação atual do barril no mercado global, quando a produção oriunda dessa área cresceu 70% em março e se aproxima de 500 mil barris por dia.

Ora, se a Petrobras, que acaba de ganhar (pela terceira vez) o maior prêmio da indústria internacional de exploração de petróleo em águas marinhas, o OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations and Institutions, nos EUA, justamente pelo desenvolvimento de tecnologia própria para a extração do óleo do pré-sal em condições extremas de profundidade e pressão, estaria tendo prejuízo na exploração desse óleo, porque as empresas estrangeiras, a quem se quer entregar o negócio, conseguiriam ter lucro como operadoras, se não dispõem da mesma tecnologia?

Se a Petrobras explora petróleo até nos Estados Unidos, em campos como Cascade, Chinook e Hadrian South, onde acaba de descobrir reservas de 700 milhões de barris, em águas territoriais norte-americanas do Golfo do México, porque tem competência para fazer isso, qual é a lógica de abandonar a operação do pré-sal em seu próprio país, onde pode gerar mais empregos e renda com a contratação de serviços e produtos locais, e o petróleo é de melhor qualidade?

A falta de sustentação dessa tese não consegue ocultar seus principais objetivos. Se quer aproveitar uma “crise” da qual a empresa sairá em poucos meses (as ações com direito a voto já se valorizaram 60% desde janeiro; o balanço foi apresentado com enormes provisões para perdas por desvios de R$ 6 bilhões, que delatores “premiados”, cuja palavra foi considerada sagrada em outros casos, já negaram que tenham ocorrido; a produção e as vendas estão em franco crescimento) para fazer com que o país recue no regime de partilha de produção, de conteúdo nacional mínimo, e na presença de uma empresa nacional na operação de todos os poços, para promover a entrega da maior reserva de petróleo descoberta neste século para empresas ocidentais, como a Exxon, por exemplo, que acaba de perder, justamente para a Petrobras, o título de maior produtora de petróleo do mundo de capital aberto.

Como ocorreu na década de 1990, cria-se um clima de terror para promover a entrega de uma das últimas empresas sob controle nacional ao estrangeiro.

Enquanto isso não for possível, procura-se diminuir sua dimensão e importância, impedindo sua operação na exploração de reservas que são suas, por direito, situadas em uma área que ela descobriu, sozinha, graças ao desenvolvimento de tecnologia própria e inédita e à capacidade de realização da nossa gente.

A necessária crítica da falta de substância, réplica a Saul Leblon

Maria da Conceição Tavares

A Carta Maior publicou um acrobático artigo de Saul Leblon, onde o autor comenta a visão da economista Maria da Conceição Tavares sobre a atual crise econômica e política. O professor Adriano Benayon comentou o texto em questão “sob protesto”, alegando um vazio analítico que obscurece o debate sobre as reais causas dos problemas brasileiros. Segue abaixo a entrevista, com os comentários do professor entre colchetes.

Perdemos de novo, professora Maria da Conceição?

Por Saul Leblon 

Mal ou bem, forças progressistas estão à frente do governo há 12 anos: o ‘enrosco’, com ela diz, é pilotado pelo campo progressista. [AB. Que quer dizer isso?] E o atinge diretamente.

A professora Maria da Conceição Tavares tem dois motivos para não querer falar nesse momento.

A gripe alegada, que acentua o grave característico da voz, é o menor deles. O quadro difícil da crise brasileira, o mais contundente. Estamos falando, porém, de uma mulher que não costuma deixar desaforo esperando na soleira da porta. [AB. Muito marketing, pouca substância.]

Perdemos, professora Conceição? Ela hesita um pouco, tergiversa, mas só um pouco.

Em seguida dispara o grave com a inflexão de ordem unida famosa, capaz de acionar todas as atenções ao redor, seja qual for o redor, tenha ele a solenidade que tiver.

Perdemos. Isso está à vista, não? - devolve com a força de uma pedrada.

Mas em seguida vem outra, mais na mira: ‘O primeiro tempo, por certo’.

Num átimo recolhe o grave com a inflexão que vai buscar o distraído até no fundo do auditório e o submete às prontidões incontornáveis:

‘Não digo que perdemos o jogo, que todavia é muito duro’.  [AB. Muito blablablá, como sempre!]

Abriu a avenida para uma narrativa de longo curso, mas se contém.

A dificuldade em extrair da decana dos economistas brasileiros uma avaliação mais desabrida do governo de sua amiga Dilma Rousseff, sendo ela a economista a quem todos ligam quando o mundo despenca e é preciso saber para onde ir, é ilustrativa da gravidade do momento brasileiro.

Desta vez, o ‘enrosco’, com ela diz , é pilotado pelo campo progressista.  [AB. ???]  E o atinge diretamente.

Mal ou bem, forças progressistas estão à frente do governo há 12 anos  – ainda que não no poder e, sobretudo, na companhia não propriamente opcional de parceiros de uma ambígua ‘governabilidade’, em xeque nesse ‘momento Cunha’ da vida nacional.

Esse protagonismo singular explica a perplexidade do olhar crítico que se enxerga no próprio objeto da crítica e não gosta do que vê.

A história não é um closet no qual se possa trocar o figurino e recomeçar do zero. Neste filme, os protagonistas se defrontam com um enredo de urdidura que pode ser modificada, mas não ignorada.

A correlação de forças é uma delas. Frequentemente evocada para justificar rendições e traições, nem por isso deixa de existir.

É prima política das vantagens comparativas na economia –também e não raro evocadas para justificar a submissão ao poder econômico existente e o entreguismo conveniente.

Nem um, nem outro são fatalidade, mas construções históricas.

Até que ponto a camisa de força atual reflete recuos que contribuíram para enrijecer essas circunstâncias quando a hora era de avançar e dilatar os espaços, é uma questão em aberto.

Avaliações díspares que essa pergunta enseja retardam agora a unificação de forças e agendas que dispersas se mostram incapazes de afrontar a ofensiva conservadora em marcha.

Maria da Conceição Tavares é economista, não analista política. Faz questão de observar a diferença. Mas é uma personagem da história brasileira.

Sua experiência engajada nos principais acontecimentos nacionais remonta a 1957, três anos depois de chegar de Portugal, onde nasceu – quando se naturalizou, passou a estudar economia, ingressou no BNDES, conheceu Furtado, Ignácio Rangel, Darcy e outros gigantes aos quais hoje se ombreia no referencial dos que lutam por aquilo que eles sempre lutaram: o desenvolvimento que conduza à construção de uma democracia social efetiva no país.

Conceição desembarcou no Brasil no ano em que Getúlio Vargas com um único tiro impôs uma década de protelação ao golpe que a coalizão empresarial-militar lograria desfechar em 1964.

[AB. Mais conversa fiada.  Não pôs protelação alguma.  Passada a comoção do suicídio, vieram as medidas antinacionais do governo egresso do golpe e  aplicadas em pleno pelo governo também entreguista, de JK.]

A professora participou ativamente do esforço progressista [AB. Como abusam dessa palavra! Progressista quem? JK?]  para dilatar esse prazo e empurrar a roda do desenvolvimento até um ponto que o tornasse autossustentado [AB. Isso já abusar da ignorância. O que fizeram foi confundir, crescimento impulsionado de forma errada, com desenvolvimento.] foi pelas próprias forças sociais com ele beneficiadas.

O percurso foi interrompido à força no meio do caminho, como se sabe. Uma retomada seria ensaiada depois, nos anos 70/80, com a derrubada do regime militar e a tentativa frustrada do Cruzado –da qual participou–  igualmente decepada com a ascensão neoliberal nos anos 90.

Finalmente, em 2002, a agenda da construção de uma democracia social tardia na oitava maior economia da terra seria resgatada com a vitória presidencial do metalúrgico, seu amigo, Luís Inácio Lula da Silva. [AB. É muita ilusão num parágrafo só.].

Daí a pergunta inicial que a incita a romper o silencio diante da encruzilhada que se ergue outra vez em seu caminho, aos 83 anos de idade, e no do país, no seu ‘longo amanhecer’, como previu Celso Furtado, sua maior referência.

Perdemos de novo, professora Conceição?’

Ouvi-la extrapola a curiosidade. É uma necessidade, aqui entremeada da recuperação de reflexões anteriores que completam as atuais.

Essa crise não se parece com nenhuma outra que vivi’[AB. Por que não? Nunca viu arrocho, nem entreguismo?]. adverte com vagar escolhendo as palavras para comentar a gravidade do fator político que trava a iniciativa progressista – repita-se – confrontada agora com a própria imagem no espelho dos desafios a vencer.

‘Nenhuma das que acompanhei mais de perto –o pós-Getúlio e a do golpe de 1964, para não falar das outras, como a do fim da ditadura—envolvia um travamento estrutural e político tão difícil’, explica para sublinhar em contraponto: ‘ Sem falar no quadro internacional, que é completamente outro, marcado pelo ambiente financeiro destrambelhado’.  [AB. Tudo isso é papo furado.  O “sistema financeiro internacional” é destrambelhado há mais de 45 anos: não é isso que nos levou ao buraco; a estrutura econômica do Brasil foi pessimamente construída, e isso desde 1954: a estrutura econômica tornou-se doente e continuou sempre assim em todos os governos, inclusive o petista, claro que após o tsunami entreguista tucano. 

Foi cada vez mais desnacionalizada, e  a própria infra-estrutura sob comando estatal já começou assim: regida pelo Banco Mundial e bancos de exportação dos países ocidentais, sob dependência financeira e tecnológica. Queriam o quê. Essa Dona Maria Conceição teria feito melhor como atriz. Como economista nunca me convenceu.]

A diferença estrutural –‘estamos em uma transição de ciclo estrutural’, diz ela—é que nos anos 50 e nos anos 70, depois do suicídio de Getúlio, assim como após o golpe militar, havia espaço para se agregar novos setores à estrutura econômica brasileira.

“Agregar é mais fácil do que reformar’, ensina a decana. A agregação amortece a colisão dos interesses instalados com os novos. [AB. De daí. Para quê continuar agregando coisas erradas à estrutura econômica, sem falar na financeira.  Para agregar, sem pagar um preço caro demais, em termos, inclusive, de sermos explorados pelos carteis, temos de corrigir, ou, antes, estabelecer estruturas diferentes destas que nos têm sugado.  Do contrário é sempre a mesma conversa: os “progressistas” se lamentando, e os “ortodoxos” mandando cortar, ajustar etc.]

O que fez, afinal, Getúlio quando foi reconduzido ao poder em apoteótica votação nas eleições de 1950, com o Brasil desordenado pela ‘malta liberal’ de Dutra? Getúlio viu espaço para agregar novos motores na economia.

[AB. Mais demagogia barata e primária. Praticamente nada a ver. O governo Dutra era do entreguismo pré-industrial. Seu modelo para a indústria era a importação. O modelo getulista era o de industrialização, inclusive a natural, aquela que nem precisava de muita política industrializadora. Bastava proteção aduaneira. Além disso, havia que construir a infraestrutura, a indústria de base, e isso vinha com as iniciativas citadas abaixo. Muito dependeria de como ela fosse feita. De um lado a infraestrutura e a indústria de base.  De outro lado, a indústria de transformação, que o golpe de 1954 outorgou aos carteis das transnacionais, doação reiterada com grande entusiasmo por JK.]

Seu governo lançaria uma saraivada de iniciativas diante da avenida aberta a sua frente.

O Plano de Eletrificação em 1951, o BNDES em 1952, a Petrobrás em 1953. E o reforço convergente com uma industrialização ainda em fraldas, onde muito havia por fazer.

Vargas modernizou áreas já existentes e acionou novas turbinas: investiu no setor de bens de base – de base porque produz equipamentos, componentes, insumos universais, para todos os segmentos.

Interligou isso aos duráveis, amalgamando a economia com uma cola política feita de expansão do emprego e extensão de direitos ao florescente operariado urbano.

Aí acharam melhor eliminá-lo.

‘Mas a crise da morte do Vargas’, observa Conceição, ‘embora violenta por todos os seus ingredientes, paradoxalmente durou pouco’.

Mais à vontade, ela puxa aqui a memória de acontecimentos que acompanhou diretamente, jovem matemática atravessando a fronteira para a economia.

‘Durou pouco porque havia toda uma avenida aberta, aquela que Vargas deixou para JK  agregar: a dos bens de consumo’, interrompe para retomar o fôlego.

[AB. A morte de Vargas só durou pouco, olhando-se as aparências muito superficiais. Na realidade, como não houve lideranças que se tenham imposto após Vargas, a herança dele foi dilapidada, através da desnacionalização, espantosamente subsidiada por um governo (JK) que teve a desfaçatez de se dizer nacionalista. Deu no que deu: desnacionalização e cartelização galopantes.]

[‘O que fez JK? Fez o Plano de Metas dilatando a infraestrutura; trouxe o parque automobilístico, deslanchou um novo ciclo de expansão’.]

[AB. A incapacidade de entender o jogo ou então seu carreirismo são as únicas explicações para a reverência de C. Tavares a JK e sua falta de entendimento do desastre estrutural que ele começou a montar (tarefa continuada pelos governos militares).  Qualquer pessoa de um mínimo de bom-senso, e nem precisa ser economista, deve perceber que a Coreia do Sul e outros industrializados muito mais tarde que o Brasil fizeram mil vezes melhor com muito menos material e recursos. Que quer dizer essa senhora com “trouxe o parque automobilístico”.  Seria mais construtivo contabilizar e cobrar (!!!) quanto esse setor transnacional já sugou de recursos financeiros brasileiros.]

O impasse vivido por Jango seria um primeiro sinal de que a agregação pura já enfrentava gargalos estruturais.

‘Tanto que tivemos um golpe, uma ruptura violenta’, pontua a economista que se exilou no Chile durante a ditadura, onde assessorou a equipe de Allende.

Quando Jango se viu na contingência de ampliar o espaço do brasileiros miseráveis, excluídos do mercado e da cidadania, o que dilataria o fôlego do desenvolvimento pela alavanca do mercado de massa, os interesses estabelecidos reagiram violentamente.

Num certo sentido, em vez de apenas agregar, as reformas de base buscavam democratizar o que antes era um privilégio dos herdeiros da casa grande. A terra, por certo. Mas também a educação, o comando sobre riquezas naturais; o controle sobre a moeda e os capitais; a ampliação da democracia na base da sociedade.

Deu-se o que é sabido.

‘Só que os milicos do golpe eram eles mesmos desenvolvimentistas! ‘, atalha Conceição rindo das ironias da história.

Os ‘milicos’ no entanto tropeçariam feio.

Fizeram o torto por linhas certas.

Em vez de agregar novos polos de ponta da industrialização naquele momento, como eletroeletrônica etc, o regime ditatorial  super-dimensionou os existentes, na siderurgia, por exemplo.

Ainda assim a sobreagregação expandiu o PIB, mas endividou o país sem contrapartida de exportações para os dólares tomados a juros baixos, mas a taxas flutuantes.

Quando elas flutuaram ferozmente para cima, em 1979 –saltaram de 7,5% para 20,18% em 1980– o regime perdeu o assoalho.

O que se tem agora é mais sério, de qualquer forma, do que a transição de Vargas para JK e de Jango para o golpe.

‘É estrutural’, repete Conceição.

[AB. Todo o desastre da dívida eclodido em 1982 decorre fundamentalmente da má-formação estrutural ligada à desnacionalização e cartelização. Sem isso, o Brasil não se teria posto à mercê do cartel dos bancos, nem se teria endividado em proporções parecidas com aquelas em que foi pego de calças curtas em agosto de 1989, quando Paulo Volcker elevou absurdamente a taxa Prime Rate em Nova York.]

Estrutural no sentido que não se resolve adicionando um novo motor na mesma máquina do crescimento — como se fez antes para reacomodar o conflito de classe.

‘O Brasil não vai acabar, nem o capitalismo e não temos golpe à vista, embora haja golpistas à solta’, murmura.

[AB. É enrolação sem cessar.]

Mas há um esgotamento desse correr para frente – típico do sistema – baseado em aditivos que se sobrepõem à engrenagem anterior claudicante.

Não apenas isso.

O esgotamento, insista-se, acontece sob as asas de um governo progressista. O que adiciona ao impasse econômico um auto-questionamento político de escolhas passadas e futuras. Tudo coroado por um  ambiente internacional pantanoso, marcado pela mais anêmica, longa e incerta convalescença de uma crise capitalista, desde a ruptura de 1929.

[AB. C. Tavares provavelmente finge que acredita nessa estória de PT “governo progressista”, ignora que o PT representa muito pouco de diferente em relação aos demais partidos.]

Então é diferente de tudo o que Conceição viveu. [AB. Esses elementos da Carta Maior gostam de cultivar ficções agradáveis: todos se cumprimentam mutuamente, regozijam-se de supostamente não ter culpa de toda essa enganação e continuam cultivando seu suposto de nicho de “progressistas”.]

‘Temos uma estrutura econômica montada. É preciso recauchutar a máquina e, sobretudo, reorientar seu rumo’, a professora retoma o fio da meada.

[AB. Que vergonha! Nada disso. Dessa máquina aproveita-se muito pouco. Ou tudo se reconstrói em termos decentes e competitivos ou tudo continuará no mesmo “me-engana-que-eu-gosto” dos últimos decênios.]

O Brasil viveu um período acelerado de consolidação industrial no 2o PND (1975/79) , o plano de desenvolvimento da ditadura.  Dificilmente repetirá aquele desempenho característico da fase de instalação e consolidação de um parque industrial.

Esse tempo acabou. Assiste-se a algo oposto até.

A indústria brasileira, na verdade, está sendo corroída por duas inércias que o ciclo iniciado em 2003 não corrigiu.

De um lado, a valorização cambial acumulada nas últimas décadas. Ela favoreceu a asfixia do parque fabril brasileiro sob a avalanche das importações asiáticas (gerando um déficit comercial manufatureiro da ordem de U$ 200 bi nos último anos ).

[AB. Tudo isso é blablablá.  Quem tem carteis transnacionais mandando em sua indústria tem necessariamente custos altíssimos: custos até artificiais contabilizados como despesas para remeter os lucros das transnacionais ao exterior. Outra coisa: você não é obrigado a ficar com taxa de câmbio fixa, como ficou esses anos todos. Nem vá imaginar que a sua competitividade vai ser resolvida com taxa de câmbio, se você está desindustrializado, perde cada vez mais especialização em bens intensivos de tecnologia, e tem cada vez mesmo tecnologias proprietárias em suas empresas.  Outra coisa: você não é obrigado a ficar na OMC como pau-mandado das economias dominantes. Agora, eu pergunto, como alguém como C. Tavares, revela grande conformismo em tudo quanto seja substantivo, vai propor alguma coisa para o Brasil que não seja a mesma dependência, que caracteriza o Brasil desde 1954, com crescentes graus de agravamento dessa dependência?]

Simultaneamente, cristalizou-se uma inserção internacional capenga da economia brasileira, que perdeu o bonde tecnológico dos anos 80/90 porque ruminava a dolorida digestão da crise da dívida externa.

[AB. A própria dívida externa foi o reflexo da estrutura entreguista que C. Tavares defende desde JK e até antes deste.]

O bonde perdido de um ciclo internacional não passa de novo, adverte Conceição. Não existe aula de recuperação na história do desenvolvimento.

‘Não vamos mais competir com os chineses naquilo que eles tomaram de nós e se mostraram líderes no mundo’, adverte ao falar da erosão sofrida em vários setores industriais.

[AB. Pode competir sim. Os próprios chineses não competem mais onde competiam, há 30 anos.Além disso, para competir em alguma coisa, você precisa ter governo. Se deixar tudo entregue às baratas vai competir só naquilo que os outros querem.  E ainda vai continuar com a vergonhosa lei Kandir. Nem cobra nada para perder os recursos naturais não renováveis.]

Por isso o pré-sal e o mercado de consumo doméstico, revigorado pelo ganho de poder de compra do ciclo Lula, bem como o PAC na infraestrutura e, objetivamente, a escala do agronegócio, são tão importantes.

É esse o novo chão do desenvolvimento brasileiro no século XXI.

Os encadeamentos inscritos no regime de partilha do pre-sal, e na exigência de conteúdo nacional, ambos demonizados pelos interesses sabidos e seus porta-vozes, encerram impulsos industrializantes de ponta, com escala capaz de criar, aí sim, uma inserção virtuosa do país nas cadeias internacionais.

O mercado de massa, por sua vez,  é capaz de atrair plantas industriais e lastrear segmentos ainda não triturados por décadas de importações baratas.

O PAC arremata o comboio puxando-o pela alavanca do investimento público.

Conceição contextualiza esse tripé de forma realista, ciente de que a areia movediça da crise estreita a margem de manobra e todas as frentes.

‘Hoje isso depende muito do financiamento chinês para se viabilizar. É por aí que vamos completar o investimento público do PAC; não enxergo outra saída com as restrições impostas pelo ajuste fiscal’, suspira.

Seu próprio desalento, porém, sofre um safanão em tom de advertência na frase seguinte: ‘Se não defendermos as políticas sociais, o PAC e o pré-sal não teremos mais modelo nenhum’.

Destravar as concessões, o PAC,  e preservar o pré-sal  poderá desarmar a retranca do investimento privado?

Sim, mas para isso não se pode destruir o mercado de consumo de massa. Se a economia afundar com o estirão de arrocho, cercado de juros altos por todos os lados, ninguém salva o Brasil.

A costura dessa travessia envolve uma operação essencialmente política, como já explicou, porque mexe profundamente em interesses cristalizados.

O nome do jogo não é mais ganha/ganha.

É correlação de forças e se joga na rua.

Não por acaso o debate da reforma tributária conquista audiências nunca registradas na agenda econômica. A audiência das manifestações sindicais contra o ajuste em benefícios trabalhistas, por exemplo, confrontado com a alternativa da taxação das fortunas, do lucro dos bancos, das remessas disfarçadas de assistência, das heranças etc.

´Não existe resposta técnica para o que se tem diante de nós’, sentencia a professora de uma geração inteira de economistas, entre alunos e amigos, que a ouvem e respeitam, mesmo quando dela divergem.

Incluem-se aí nomes como os de Belluzzo, Luciano Coutinho, Mantega, a própria Presidenta, Dilma Rousseff.

[AB. Pode crer que os conselhos dela e de muitos outros desses citados foram sempre conformistas demais e deram no que deram.]

Em uma homenagem à mestra, em 2012, Dilma declarou: “Não houve momento importante na história do país, nas últimas décadas, sem as considerações da ‘nossa professora’. Nós hoje não admitimos mais a possibilidade de construir um país forte e rico dissociado de melhorias das condições de vida de nossa população, nem tampouco acreditamos mais na delegação da condução de nosso crescimento exclusivamente às forças de autorregulação  do mercado. Crença, aliás, que Maria da Conceição Tavares sempre, corretamente, criticou”, enfatizou a Presidenta.

Os ventríloquos da autorregulação do mercado preconizam justamente isso agora: estabilizar o impasse desenhado pela professora, com base nas premissas ‘técnicas’ dos mercados.

Ou seja, impedir que a luta pelo comando do crescimento deslize para o campo aberto da disputa política, onde a estrutura de repartição da riqueza e do poder seria questionada, escrutinada e repactuada em confrontos desaguados em amplas negociações.

As considerações da economista enveredam cautelosamente por essa seara.

‘Não é fácil operar essa coisa. Você tem que recauchutar e redirecionar o mecanismo do crescimento com ele andando, entende? Com o trem em movimento’, sobe a voz, refreando-a na volta da respiração: ‘É um enrosco’.

A palavra ‘conservadorismo’ resume o significado do obstáculo maior no caminho.

A operação colide com massas gigantescas de interesses que nada tem a oferecer à sociedade exceto uma obstinada resistência à mudança, associada –aliás, indissociável, de uma não menos obstinada opção pela mórbida liquidez rentista.

Pressões, chantagens, golpes, terrorismos e interditos emanados desse aparato são vocalizados e potencializados diuturnamente pelos veículos do ramo da semi-informação, enquanto o ‘ajuste’ cutuca a recessão com vara curta e a promessa difusa de uma ‘purga redentora’.

É o torniquete dos dias que correm.

E a velocidade aqui não é uma metáfora.

O arrocho já bateu no consumo das famílias, derradeiro lacre de segurança do ciclo petista que avançou de forma quase ininterrupta nos  últimos 12 anos. Esse indicador caiu 1,5% no primeiro trimestre, em relação ao final de 2014.

O consumo das famílias pesa 63% na demanda da economia e arrastou junto a receita, o investimento, o emprego… O que sobra?

A sobra é insuficiente para sustentar uma nação, um governo e um projeto progressista de desenvolvimento . O IBGE avisa que apenas 25% da economia ainda operava no azul ao final de março.

Não melhorou de lá para cá. Ao contrário.

‘Você não enfrenta isso com debate econômico’, adverte Conceição.

Nem pode paralisar um país para recauchutar a economia, que deixada a sua própria lógica não criará o espaço necessário à mudança.

Uma frente? Uma frente de forças poderia funcionar como a dissonância à espiral descendente em marcha?

‘Sim’, entusiasma-se a economista que sabe dos limites daquilo que a ‘malta’ conservadora chama de ciência econômica.

‘Mas uma frente que apenas reitere o quadro existente não adianta’, pondera, atenta ao jogo que no primeiro tempo, como já disse, mostra que perdemos.

‘É preciso algo amplo, democrático que se imponha’, arrisca para advertir de pronto: ‘Mas não me pergunte como; isso é com os políticos’.

Reserva, todavia, munição para um último disparo certeiro.

Dirigido justamente ao PT.

O partido que ajudou a construir, do qual foi deputada entre 1991 e 1995, dentro do qual sempre participou e  com o qual caminhou e caminha.

‘O PT precisa decidir o que quer; nos anos 60, nós éramos desenvolvimentistas. Mas o PT hoje parece dividido. Temos os ‘desenvolvimentistas’ – brinca com o termo hoje usado apenas como um marcador genérico para o pensamento de esquerda na economia.

‘Ao lado dos desenvolvimentistas noto que há agora no PT uma parcela grande de ‘estacionistas’, diz a professora.

A língua afiada encontrou um jeito de expressar o incômodo que não quer explicitar. Conceição escande o achado com o riso que convida à cumplicidade: ‘Tá cheio de ‘estacionistas’. Vão resolver o Brasil parando o país?’.

É um fugaz momento de descontração na penosa alternância de frases e silêncios sugestivos da intelectual que enxerga a encruzilhada do país como uma encruzilhada também das forças das quais é uma expoente.

“Tem gente que acha que você pode estacionar para estabilizar e que, feito o serviço, os capitais retomam o investimento. Isso num mundo há seis anos mergulhado numa crise em que ninguém investe em lugar nenhum’.

Nem mesmo nos EUA poderia dizer.

A economia que se notabiliza pela ‘recuperação inequívoca’ –no dizer das colunistas de certezas graníticas em relação à saúde do capitalismo — acaba de registrar a sua terceira recidiva na crise.

O PIB dos EUA caiu  0,7% no primeiro trimestre, mesmo com taxas de juros entre negativas e zero desde 2008, e sob o efeito de um regime de engorda de liquidez de U$ 1,5 trilhão, recém concluído.

O ‘estacionismo’, naturalmente, rechaça a ideia de uma frente ampla, como a  conjecturada por Conceição, para negociar o passo seguinte do desenvolvimento do país em meio a essa algaravia de sinais e lógicas em litígio, ao sabor do proficiente mercado financeiro global e de suas agências (as de risco).

Basta estabilizar.

O mercado autorregulado que a amiga Presidenta criticou em 2012 fará o resto: os capitais que não investem no mundo voltarão a investir aqui, o mel correrá das vertentes e o leite brotará nas curvas dos rios, acreditam os ‘estacionistas’ cutucados pela professora.

O risco de o ‘estacionismo’ conduzir o Brasil a um beco sem saída na boleia de uma recessão histórica não é pequeno.

Conceição não comenta.

Mas seu silêncio preocupa mais ainda que as palavras.

PGR tem novo indício da participação de Cunha na Lava Jato

Via Brasil 247

Investigadores da Operação Lava Jato vão usar como prova contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a informação de que a sua senha digital particular e a da ex-deputada Solange Almeida (PMDB-RJ) estavam ativas no momento em que foram criados dois requerimentos que pedem informações sobre auditorias em contratos da Petrobras com a Mitsui; investigadores conseguiram um histórico detalhado de todas as vezes que a senha pessoal e intransferível de Cunha apareceu naquele período como “logada” no sistema digital da Câmara; indício reforça suspeita de participação do presidente da Câmara no esquema de corrupção da Petrobras; Eduardo Cunha acusou o procurador geral da República, Rodrigo Janot, de ter uma “querela pessoal” contra ele.

Investigadores da Operação Lava Jato vão usar como prova contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a informação de que a sua senha digital particular e a da ex-deputada Solange Almeida (PMDB-RJ) estavam ativas no momento em que foram criados dois requerimentos suspeitos de terem sido usados para achacar uma fornecedora da Petrobras.

Os requerimentos foram redigidos em 2011, ano em que os dois eram colegas na bancada do PMDB do Rio de Janeiro, e são apontados pela Procuradoria-Geral da República como um dos principais indícios de participação de Cunha esquema de corrupção descoberto na estatal.
Solange Almeida apresentou oficialmente os dois requerimentos à Câmara em julho de 2011. Eles pediam às autoridades informações sobre auditorias em contratos da Petrobras com a Mitsui.

O doleiro Alberto Youssef, um dos delatores da Lava Jato, afirmou que os requerimentos foram apresentados a mando de Cunha com o objetivo de constranger um representante da empresa e fazê-lo pagar propina ao PMDB.

Esse executivo, Julio Camargo, nega a versão de Youssef. Solange Almeida fez o mesmo às autoridades, embora declare não se lembrar do motivo pelo qual redigiu e apresentou os requerimentos.

Investigadores conseguiram um histórico detalhado de todas as vezes que a senha pessoal e intransferível de Cunha apareceu naquele período como “logada” no sistema digital da Câmara.

Eles constataram que a senha do deputado e a de Solange estavam ativas no momento em que os requerimentos suspeitos foram criados.
Na avaliação de integrantes da força-tarefa da Lava Jato, os indícios reforçam a suspeita de que os dois deputados agiram juntos. Ao mesmo tempo, a constatação de que a senha de Solange estava ativa em outro computador, no mesmo momento, enfraquece a hipótese de que teria recorrido a auxiliares de Cunha.

Dias depois da incursão dos procuradores à Câmara, Cunha baixou norma interna que autoriza todos os deputados a delegar a assessores suas senhas, até então “intransferíveis”. Cunha argumenta que, pelo excesso de atribuições, os deputados sempre fizeram isso de forma generalizada, sem qualquer tipo de controle ou regra.

A assessoria do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que sempre negou relação com os requerimentos suspeitos e com esquema de corrupção na Petrobras, afirmou que o sistema digital da Câmara permite que a senha de acesso do deputado possa estar ativa em diversos computadores, ao mesmo tempo.

A corrupção eternamente impune

Por Rennan Martins | Vila Velha, 29/05/2015

O timing e as coincidências em torno dos escândalos de corrupção sugerem que há uma coordenação por trás deles que visa favorecer uma agenda específica de interesses geopolíticos. A sabotagem está travestida de justiça?

Vigilância é liberdade

É intrigante, deveras conveniente o timing no qual os escândalos de corrupção têm estourado nos últimos tempos. Ainda mais estranhado ficamos ao notar os beneficiários diretos destes, interrelacionando-os com alguns fatos amplamente publicizados, mas pouco lembrados pelos comentaristas e críticos de uma imprensa cada dia mais submissa a interesses econômicos e geopolíticos.

O primeiro dos escândalos – impune e talvez chave para compreensão da sincronia no qual são expostos os outros – é o que veio à tona por meio ex-analista da CIA, Edward Snowden. Em 2013, o mundo inteiro descobriu, perplexo, que o Big Brother saiu do romance de Orwell e existe na realidade, encarnado na National Security Agency (NSA). A agência em questão opera um esquema de ciberespionagem massiva que monitora as comunicações de inúmeros políticos, grandes empresas e até mesmo cidadãos comuns. O aparato tinha como justificativa a segurança nacional, mas serviu a interesses comerciais e geopolíticos. Um levantamento do Washington Post baseado em de 160 mil e-mails e mensagens de chats de mais de 11 mil contas de internet descobriu que nada menos que 90% dos vigiados constituem pessoas comuns. Ou seja, no momento que lês esse artigo, caro leitor, talvez estejas sendo bisbilhotado.

No Brasil, não podemos deixar de notar como a Operação Lava Jato se deu justamente no contexto consolidação do pré-sal como reserva altamente produtiva, e da Petrobras no posto de operadora única desses recursos. A prática do superfaturamento, ou “overprice”, é velha conhecida do mundo executivo. Empreiteiras das mais variadas nacionalidades corrompem políticos largamente financiados por interesses corporativos. E eis que, justamente no ano em que se contrapuseram candidaturas presidenciais com propostas divergentes para o pré-sal, uma de entrega pura e simples por meio das concessões, a outra de desenvolvimento e relativa soberania, caso da partilha, é que explodiram as revelações de práticas espúrias na estatal e parceiros comerciais. Que coincidência agradável para os “investidores” e o “mercado”.

Os beneficiários dessa crise já colhem seus frutos. Empreiteiras estrangeiras tomam o lugar das nacionais nos contratos com a Petrobras, a nova gestão encabeçada por Bendine planeja a venda de ativos com intermédio de bancos norte-americanos, e no Congresso Nacional pululam projetos de retrocesso que visam “flexibilizar” a lei do pré-sal, abrindo espaço para operadores de fora. Ora, considerando que os desvios na estatal ocorriam desde no mínimo 98, conforme assegurou o delator e diretor Pedro Barusco, por que razão nossos parceiros do norte não nos alertaram? Sim, se são os líderes excepcionais e baluartes da transparência e democracia, poderiam ter informado o Brasil, já que espionaram a presidente Dilma, seus assessores e a própria Petrobras durante bom tempo, e provavelmente ainda o fazem.

Essa semana foi a vez da FIFA, também sabidamente mafiosa, sofrer intervenção do FBI, que ordenou a prisão de sete executivos da entidade que estavam reunidos em Zurique, Suíça. O contexto desse escândalo impressiona. As prisões se deram justamente na semana das eleições para a presidência do órgão, onde se esperava reeleição tranquila de Joseph Blatter. Os ventos mudaram, providencialmente, e agora o adversário de Blatter, o príncipe da Jordânia Ali bin Al-Hussein, tem chances de chegar ao segundo turno.

Outro ponto interessante é que a Rússia – com quem os EUA vive uma escalada de tensão desde o golpe de Estado na Ucrânia – será a próxima anfitriã da Copa do Mundo, tendo em Blatter grande entusiasta. Nem bem ocorreram as prisões e as lideranças ianques iniciaram sua agenda. Os senadores Robert Menendez e John McCain pediram o afastamento de Blatter e a revisão da sede do evento para 2018, dizendo que “Ao permitirem que (a Rússia) receba a competição, vão oferecer um salva-vidas econômico que contraria as sanções multilaterais impostas pela comunidade internacional”. Outra coincidência, vejam só, é o apoio da Europa, EUA, Austrália, entre outros “parceiros”, a Ali bin Al-Hussein.

Aos que duvidam e pensam se tratar de teoria da conspiração, temos as palavras do professor John Shulman, formado em direito na Universidade de Harvard, especialista em mediação e negociações e cofundador do Centro para a Negociação e a Justiça dos EUA. Na visão dele o acontecido significa “os EUA mobilizando seu aparato legal interno em prol de questões geopolíticas. No caso, para colocar pressão na Rússia (sede da Copa de 2018), com quem o país tem tido problemas recentemente, e no Qatar (sede da Copa de 2022), onde também existem questões geopolíticas”, acrescentando que “É claro que a FIFA é corrupta. Todo mundo sabe disso. Mas os EUA não estão fazendo isso pelo bem do futebol”.

Por fim, fica evidente que está longe de ser justiça o que se pretende tanto para a Petrobras quanto para a FIFA. Os fatos, quando contextualizados, dão sérios indícios de que os serviços de inteligência norte-americanos usam de informações ilegalmente obtidas para promover a agenda da Casa Branca e das castas oligárquicas a ela alinhadas.

Novo desvio de riqueza da Petrobrás

Por Paulo Metri

A novidade

Deparo-me com a notícia do jornal Folha de S. Paulo, de 26/5/2015, pertencente à mídia do capital: a Petrobras vai se desfazer de cinco áreas do Pré-Sal e uma do Pós-Sal. Sendo verdadeira a notícia, a Petrobras está claramente trabalhando com conceitos ultrapassados e, o que é pior, prejudiciais à nossa sociedade. A parcela da sociedade que conseguiu se desvencilhar dos canais tortos de informação, nossa mídia tradicional, sabe que o neoliberalismo leva à concentração de riqueza a quem já é rico, diminui a qualidade de vida da população e permite nossa exploração por forças externas, nos colocando como supridores de grãos e minérios para o mundo opulento.

Temos que reconhecer que estes grupos econômicos estrangeiros do petróleo nunca desistem. Levaram Getúlio ao suicídio, tentaram, junto a JK, financiar a construção de Brasília em troca do término do monopólio, conseguiram uma vitória parcial com os contratos de risco do Geisel, foram à vitória completa com FHC, sofreram um baque com os contratos de partilha de Lula e, agora, atuam na dubiedade do governo Dilma para, pelo menos, minimizarem o baque.

Certamente, gestores do nível intermediário da Petrobras, lá colocados por FHC e, até hoje, incrustados na administração da empresa, devem ter ajudado na elaboração da proposta kamikaze. Também, a presidente foi pegar um homem, dito como sendo do mercado, para ocupar a Petrobrás. A presidente deveria ouvir menos o mercado e, mais, o desenvolvimento. Senhora presidente, chame o Luiz Gonzaga Belluzzo ou o José Luís Fiori para conversar. Não dê ouvidos aos políticos que estiveram na oposição à candidata.

Ainda tenho dúvida sobre o presidente Bendine. Em benefício da dúvida, sugiro a este presidente que se conscientize que não há pressa para a exploração e o desenvolvimento dos campos do Pré-Sal. O país está abastecido por, no mínimo, 50 anos –, aliás, graças à Petrobrás. De passagem, saiba que, nos contratos da Agência Nacional do Petróleo (ANP), não há nenhum compromisso da empresa estrangeira para o abastecimento do Brasil, excetuando em caso de grave crise, declarada pela Presidência da República e, mesmo assim, só para elas contribuírem na proporção das suas produções com o abastecimento dos próximos 30 dias. Enfim, elas só querem levar o petróleo extraído do território nacional rapidamente para o exterior e têm esta permissão.

O fluxo de caixa futuro da Petrobrás, que lhe apresentam, reflete os compromissos por ela assumidos nos contratos com a ANP, reflexo do arremate de inúmeras áreas leiloadas, em atividade louvável da empresa, pois não permitiu as evasões de petróleo e lucro do país, além de ter, eventualmente, tolhido a formação de cartéis para o arremate de áreas das rodadas de leilões. Lembrar que cartéis podem ser formados e bem sucedidos, e só os membros deles é que ficarão sabendo das suas existências. A Petrobrás, à medida que não participa deles, se bem administrada, é um antídoto, à disposição do Estado, contra a formação deles.

Na notícia do jornal, é dito que a coordenação da venda será do Bank of America Merrill Lynch, que deve ser para trazer moralidade à venda. Esta informação, além de mostrar o “complexo de vira-lata”, não traz segurança. A Merrill Lynch foi uma distribuidora de títulos podres nos Estados Unidos e ajudou o doleiro Youssef a trazer dinheiro para o Brasil em 2008, de suas transações corruptas.

A ANP, para alguns prazos exigidos, está seguindo a lei 9.478 e, para outros, exige prazos criados por ela, que não estão na lei. Para estes últimos, basta o governo Dilma dar a ordem, em benefício da sociedade brasileira, de serem postergados. Não sei se estou sendo claro, senhor presidente da Petrobrás: não havendo tanta pressa, alguns prazos podendo ser postergados (deixar aqueles que representam receitas iminentes), o fluxo de caixa da empresa fica mais “achatado” (sem picos e em um nível menor), e ela não precisa fazer nenhum desinvestimento ou, pelo menos, aqueles que representam grandes perdas. Para os prazos que estão na lei 9.478, seria necessária a aprovação de outra lei, que os modificasse, o que é problemático, mas não impossível.

Alguém realmente acredita que seis áreas de petróleo com reservas já constatadas, com alguns campos gigantes, valem só quatro bilhões de dólares? Quanto vale a possibilidade de se garantir o abastecimento de derivados a vários países do Mercosul, a preços de mercado (não se trata de doação dos derivados), e, com isso, tê-los como aliados nas votações da OEA, da Unasul, do Mercosul, da ONU e das demais entidades internacionais?

Obviamente, sou contra os desinvestimentos de áreas com campos já descobertos. Com relação aos demais desinvestimentos citados, precisaria ter mais informações para formar opinião. Mas, no terreno das hipóteses, suponhamos que eles tenham de existir. Usar o expediente de carta convite e decisão intramuros, pouco transparente, é um escárnio com os brasileiros. Onde está a diretoria criada para garantir uma menor probabilidade de roubos na empresa?

Sei que não fere nenhuma lei usar o sistema de carta convite. Mas não se trata da busca da legalidade e, sim, da moralidade. Este sistema é imoral, porque cria a possibilidade de o cartel estar sendo formado até dentro da Petrobrás, criando a desconfiança na população de que se trata da velha fórmula de formação de caixa dois para os partidos políticos que estão no governo e de entrega de uns trocados para os agentes do governo responsáveis pela formação do conluio. Nunca pensei que fosse dizer isto, mas, comparativamente: “Viva os leilões da ANP!”. Pelo menos, lá não se usam cartas convite.

Histórico

O governo FHC, com visão neoliberal e subalterna aos interesses externos, extinguiu o monopólio estatal do petróleo e criou o sistema de concessões para a exploração e a produção de petróleo. Havia muito interesse do capital internacional neste petróleo. Este governo pregava que, sob o ponto de vista da nossa sociedade, a atuação das petrolíferas estrangeiras era idêntica à atuação da Petrobrás e o petróleo era só uma commodity como qualquer outra, sem valor estratégico, o que não é certo.

Este governo sabia de tudo, mas não queria conscientizar a sociedade sobre as suas perdas. De passagem, existe a possibilidade de as votações das mudanças legislativas do setor terem ocorrido com votos comprados. Existe a suspeição, nunca investigada, sobre a compra de votos para a reeleição, que é de época próxima. Por que não iriam comprar votos também em tema de vital importância como o do petróleo? O modelo das concessões é bom para as empresas e países estrangeiros, e péssimo para a sociedade brasileira.

Seguindo as regras da concessão, o concessionário, que descobre petróleo, fica com a totalidade dele e a quase totalidade do lucro que ele proporciona, pois só uma parcela pequena do lucro é entregue ao país espoliado sob as rubricas de royalty e participação especial. Quando a Petrobras arrematava uma área, os brasileiros conscientes suspiravam aliviados, apesar de o Estado brasileiro continuar recebendo pouco, mas, pelo menos, o lucro extraordinário não iria se esvair para o exterior.

O capital internacional e governos estrangeiros precisavam ter segurança de que as regras iriam ser sempre aplicadas em seus benefícios e, para resolver isto, foi criada a ANP, cujos mandatários, através de acordo verbal, teriam de ser aprovados pelas forças estrangeiras. O “marido traído”, que nunca sabe de nada, nesta história, é o povo brasileiro. Porém, com a mídia existente, parte integrante do capital, não é difícil enganar o povo. Esta Agência, respaldada na lei das concessões, promoveu rodadas de leilões em profusão. O objetivo era esgotar a capacidade financeira da Petrobras, incluindo a sua capacidade de tomar empréstimos.

A lei nefasta também exigia de quem arrematasse áreas uma pressa na exploração e desenvolvimento de eventuais campos descobertos, que satisfazia unicamente as petrolíferas estrangeiras. Estas querem realizar o butim, rapidamente. Querem descobrir o petróleo, o que é facilitado na área do Pré-Sal, produzi-lo e levá-lo para seus países de origem, onde estão suas refinarias, deixando aqui duas miçangas: o royalty e a participação especial.

No período FHC, buscou-se preparar a empresa para a privatização. Os ideólogos da privatização contavam que, com a apologia ao mercado nos veículos de comunicação e a recriminação diuturna de tudo que é do Estado, ela seria aceita facilmente. Entretanto, bastou quererem mudar o nome da empresa, como parte do preparo para a privatização, e a sociedade se rebelou.

Contudo, estes ideólogos deixaram sequelas até hoje. Eles aumentaram muito o salário dos gestores de nível intermediário, podendo-se dizer que era a compra da cumplicidade, à medida que passaram a exigir deles o cumprimento de determinações prejudiciais à sociedade. Além disso, foram nomeados para estes cargos intermediários “técnicos com visão do mercado”, significando neoliberais. O mais interessante é que muitos deles, nomeados nesta época, ainda se encontram nos mesmos cargos.

Big Brother

Não tenho provas de que aconteceu da forma como descrevo, mas, além de não existirem provas em contrário, a versão imaginada explica muito do inexplicável. Os órgãos de inteligência dos Estados Unidos fazem levantamentos minuciosos em muitos países, principalmente naqueles com possibilidade de se tornarem, em curto espaço de tempo, em novos hegemones. Assim, eles souberam, há anos, sobre a corrupção que crescia na Petrobras. Quando ela começou, logo souberam e nada fizeram, porque não teriam nenhum ganho se entregassem a informação.

Souberam também com antecedência, antes da sociedade brasileira, sobre a potencialidade da área do Pré-Sal. No entanto, ninguém tinha a comprovação da existência do petróleo, o que só chegou em 2006, graças à Petrobras. Existia no Brasil, na época, um governo não hostil, mas também não capacho. O governo Lula, logo após a descoberta, declarou que iria fazer um novo marco regulatório para esta área, que prometia ser muito promissora, como, hoje, está comprovado.

Os Estados Unidos, no interesse de suas empresas e das demais de regiões do capitalismo vitorioso, fez pressão diplomática a favor da continuação do sistema de concessão na área do Pré-Sal. Entenda-se que a pressão diplomática deste país vem com o respaldo do maior poderio bélico do mundo. As petrolíferas estrangeiras, que seriam grandes beneficiárias da permanência das concessões no Pré-Sal, fizeram lobby pesado no Congresso Nacional.

Mesmo assim, em momento de grande afeição à nossa sociedade, o governo Lula forçou a aprovação do sistema de partilha no Pré-Sal, para desespero do governo dos Estados Unidos e das petrolíferas estrangeiras. Bem aplicado, este sistema significa mais petróleo e mais lucro para o Estado brasileiro e a Petrobras. Nele, existe um Fundo Social, cujos usos só poderão ter objetivos sociais.

Aliás, na lei 2.004 de 1953, faltou a criação deste Fundo, resultando em que, desde este ano até a criação do royalty, o lucro da atividade petrolífera ficava, praticamente todo, com a empresa petrolífera, nada indo diretamente para a sociedade. É claro que não foi dinheiro jogado fora, pois a grandiosidade e a importância da Petrobrás demonstram como foram bem aplicados aqueles recursos. Também, em 1953, não passava na maioria das cabeças do Brasil que nosso país, um dia, teria grandes reservas de petróleo.

Tomou posse a presidente Dilma e cresceu a esperança das forças estrangeiras para que fosse revisto o modelo do Pré-Sal – afinal de contas, 200 bilhões de barris não poderiam ficar amarrados ao modelo de partilha. A rentabilidade das empresas e a garantia de suprimento dos países são menores com a adoção deste modelo. Cooptaram até o ministro das Minas e Energia, que, após ter sido desmentido pela presidente, faria mais bonito se tivesse pedido para sair. Os prepostos do capital internacional no Congresso se atropelaram, apresentando projetos de lei pedindo o retorno das concessões para o Pré-Sal ou a mitigação dos efeitos negativos para as empresas (mas positivos para a sociedade) do contrato de partilha.

O serviço de inteligência externo concluiu que a melhor hora para entregar as informações sobre corrupção na Petrobras para algum grupo confiável que vai dar prosseguimento às apurações era a que ocorreu recentemente. O raciocínio foi o seguinte: as informações irão fragilizar a Petrobrás, expulsar empresas de engenharia nacionais das obras do Estado e acusar os governos Lula e Dilma. A Petrobras pode perder a condição de operadora única do Pré-Sal e deixar de participar de todos os consórcios desta área. As empresas de engenharia estrangeiras poderão finalmente entrar no Brasil. Diminui a chance de Lula voltar à presidência em 2018 e a presidente Dilma fará um governo espremido no canto do rinque.

Uma empresa, dois jornais. Um abismo

Por Sylvia Debossan Moretzsohn | Via Observatório da Imprensa

Quem pensa que os jornais produzidos por uma mesma empresa falam sempre a mesma língua, diferindo apenas na linguagem adotada de acordo com o seu “público-alvo”, teve uma surpresa diante do abismo entre O Globo e o Extra na cobertura do assassinato do médico Jaime Gold, que pedalava pela Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais do Rio, no início da noite de terça-feira (19/5). Sobretudo porque, no mesmo dia, dois jovens – um adolescente de 13 e um rapaz de 24 – foram assassinados durante uma operação da Polícia Civil no morro do Dendê, na Ilha do Governador. O médico morreria na madrugada seguinte, depois de horas na mesa de cirurgia.

Na quinta-feira (21/5), O Globo destacava na primeira página o “crime na Lagoa” e a “tragédia anunciada”, dedicando-lhe nada menos do que cinco páginas internas. A suíte das mortes no Dendê mereceram apenas duas colunas espremidas no meio de outra página interna, ainda assim assinadas – como na véspera – por um repórter do Extra.

No mesmo dia, o Extra fez bem diferente: expôs no alto da primeira página o “crime bárbaro na Lagoa”, mas destacou o apelo: “Só não se esqueçam de Gilson e Wanderson”, os dois rapazes mortos. Logo abaixo, justificou: “Como em qualquer lugar do mundo, crimes em pontos turísticos têm maior repercussão. Mas, no Dendê, mães choram mortes de seus filhos em ação da polícia e esperam que caso não caia no esquecimento”. A justificativa servia também para descartar, de maneira sucinta e didática, a eterna discussão sobre o valor da vida – e, consequentemente, da morte – conforme a região geográfica e o status social.

No dia seguinte, o abismo continuou: enquanto O Globo anunciava a prisão de um adolescente suspeito de matar o médico, enfatizava a sua ficha corrida (“16 anos e 15 crimes”), retomava, em editorial, a carga a favor da redução da maioridade penal e publicava uma charge que chegava ao cúmulo de comparar os ciclistas na Lagoa aos prisioneiros do Estado Islâmico, o Extra escancarava a manchete: “Sem família, sem escola”, apontando as “duas tragédias antes da tragédia”. O texto-legenda abaixo da foto, que ocupa metade da página e mostra o garoto conduzido por policiais, fala das 15 passagens pela polícia, da ausência do pai, da mãe, catadora de latas, indiciada por deixar o filho com fome na rua, e do abandono da escola.

Curiosamente, a reportagem do Globo ia no mesmo sentido de apontar a trajetória de transformação “da criança pobre em suspeito de um brutal assassinato”, mas a edição sugeria o contrário: parecia que a “escalada da crueldade” destacada na manchete da página interna dizia respeito à escolha do rapaz pelo mundo do crime.

No sábado (23/5), o Extra voltava a destacar na primeira página o caso da “tragédia antes da tragédia”, para tratar da situação da escola onde o rapaz estudava. Logo abaixo, noticiava o corte de verbas para a educação. No dia seguinte, sem o mesmo destaque, mostrava que 95% dos jovens infratores não haviam completado o ensino fundamental e citava o crescimento do número de apreendidos: 8.380 durante o ano passado, segundo o Instituto de Segurança Pública, “uma média de 23 por dia”. Um índice que tende a crescer: se “nos quatro primeiros meses do ano passado, 2.445 menores foram detidos, neste ano o número chega a 3.141 – um aumento de 28%”.

Enquanto isso, no mesmo dia, O Globo recorria a “especialistas” para tentar traçar o perfil psicológico desse tipo de criminoso e destacava a fala de uma psicóloga sobre a “impunidade”, ignorando os números divulgados pelo Extra. No dia seguinte (segunda, 25/5), destacava mais um ataque com faca – uma tentativa de assalto num ônibus –, o oitavo em oito dias, como se vivêssemos uma onda desse tipo de crime, e voltava a incentivar a aprovação do projeto de lei que criminaliza o uso de armas brancas, como se fosse uma medida simples: bastaria pensar em quantas pessoas utilizam facas em situações banais do cotidiano – o vendedor de coco verde, o sujeito que promove um churrasco numa praça –, a não ser que a ideia seja também criminalizar essas atividades.

Já o Extra voltava a investir no selo “A tragédia antes da tragédia” e recuperava a história do menino franzino detido com um colega após roubar um cordão de ouro, em março, e fotografado de costas por um policial, numa delegacia. Dois meses depois, continua fora da escola, cometendo pequenos delitos pelas ruas.

Desagradar o público

Mantive neste artigo o título de minha primeira publicação no Facebook a respeito desse tema por causa do debate que se seguiu: muitos elogiavam a atitude do Extra mas muitos também faziam pouco caso dela, seja porque enxergavam ali algum objetivo oculto – afinal, trata-se de um jornal “da Globo” –, seja porque entendiam que cada publicação se dirigia a seu público, e por isso seria perfeitamente natural a diferença de enfoque.

Sobre a teoria conspiratória, não vale a pena argumentar, inclusive porque é inútil enfrentar convicções, embora sempre valha a pena dizer que as intenções importam muito menos do que o resultado. Mas é necessário desfazer a lógica do outro raciocínio, por dois motivos fundamentais: primeiro, porque um jornal precisa fazer jornalismo, e isso significa frequentemente desagradar o seu público. Se um jornal diz apenas o que seu público quer ouvir, ele o aliena: é preciso apresentar-lhe as contradições da sociedade e não alimentar a ilusão de que é possível viver numa bolha, de que os malfeitores são uma espécie alienígena que vem atacar os cidadãos “de bem” e que basta trancafiá-los – ou exterminá-los – para passarmos a desfrutar de um mundo harmonioso como o de um anúncio de margarina.

Segundo, porque uma olhada nos comentários no site e, principalmente – dado o volume incomensuravelmente maior –, na página do jornal no Facebook seria suficiente para verificar que, se um jornal deve responder às expectativas de seu público, o Extra fez exatamente o contrário. É o que dá o nó nesse raciocínio canônico. Mercadologicamente, seria uma insensatez. Mas, jornalisticamente, era o que precisava ser feito.

A propósito, a entrevista com o diretor de redação do jornal, Octavio Guedes, publicada neste Observatório (ver “‘Jornalismo não é concurso de Miss Simpatia’”), ajuda a esclarecer vários pontos dessa polêmica. Afinal, não é de hoje que o Extra se comporta assim. A perseverar nessa linha, dará uma excelente contribuição para o jornalismo, mas terá embates diários tanto com uma parcela significativa de seu público quanto com a crítica externa, que também recusa a hipótese de discutir questões sociais diante de crimes bárbaros. (Esses, a propósito, devem ter ficado satisfeitos com a reação das nossas autoridades: o prefeito a dizer que “criança, menor, praticando crime é problema de polícia”, num brilhante retorno aos tempos da República Velha, e o secretário de Segurança a afirmar que é inadmissível uma situação dessas num lugar como a Lagoa Rodrigo de Freitas, o que, de tão simplório, dispensa comentários).

Desarmar o ódio de classe

O que o Extra fez foi tentar demonstrar que nada é “simples assim”, como tantos gostam de pensar para se livrar rapidamente de qualquer ameaça de questionamento às suas próprias certezas. Foi tentar lançar luz para além do imediatamente visível e chamar a atenção para a necessidade de compreender como se cultiva a exclusão que, muito previsivelmente, explode em violência. Nem sempre, é claro, porque não há relação automática de causa e efeito: mas justamente por isso é preciso entender que as reações humanas são variadas e, muitas vezes, surpreendentes. Sobretudo na adolescência, sabidamente uma fase extremamente turbulenta para qualquer um.

Daí, aliás, o equívoco do raciocínio no qual a pessoa se toma como referência para o comportamento alheio, no melhor estilo do líder que não pede a seus comandados nada que ele mesmo não seja capaz de fazer, como se todos estivessem em pé de igualdade: “Se eu passei por dificuldades e não roubei nem matei, por que alguém faria isso?”

Seria possível indagar, como fez há muito tempo a juíza Maria Lúcia Karam, “por que os indivíduos despojados de seus direitos básicos, como ocorre com a maioria da população de nosso país, estariam obrigados a respeitar as leis”. Ou lembrar da observação da socióloga Vera Malaguti Batista, também há muito tempo, a respeito da surpresa diante da crueldade de casos como o do ataque na Lagoa: “Por que achar que ‘eles’ se importam conosco? ‘Nós’ não nos importamos com ‘eles’”.

Entender as raízes do ódio de classe – o ódio, não a luta, necessária e incontornável em qualquer sociedade de classes, e que se expressa nas mais variadas formas – é o primeiro passo para desarmá-lo. Por que, então, a rejeição ao debate? Por que confundir a atitude do jornal com uma tentativa de defender, justificar ou vitimizar o agressor?

O outro lado, e mais outro

Entretanto, ao falar nas “duas tragédias antes da tragédia”, o Extra acaba assumindo, implicitamente, que o adolescente detido é de fato culpado: afinal, teria sido ele a provocar a tragédia da morte do médico. Pode ser, mas não há nada mais comum, na rotina policial, do que pegar o primeiro suspeito, ainda mais se tem uma ficha recheada, para exibi-lo e dar uma satisfação rápida ao público, em crimes de grande repercussão. Também as informações sobre a mãe do rapaz, que o teria negligenciado, aparentemente não procedem. O que não retira a força da denúncia sobre a ausência de apoio familiar – afinal uma mulher que sustenta sozinha quatro filhos como catadora de recicláveis enfrenta dificuldades inimagináveis para quem jamais viveu essa situação –, mas altera o julgamento que se pode fazer dessa mãe.

Reportagem da Agência Brasil (24/5, ver aqui) dá essa outra versão, ao finalmente entrevistar Jane Maria da Silva e apresentá-la como uma ativista do Fórum Social de Manguinhos, no dia de lançamento da cartilha “Manguinhos tem fome de direitos”. Um vídeo compartilhado no Facebook, realizado em setembro do ano passado, mostra a participação dela num encontro promovido regularmente pelo pessoal da Fiocruz – no caso específico, para tratar do impacto das obras do PAC na saúde dos moradores, e o que se diz ali, em menos de 20 minutos, sintetiza a enormidade dos problemas a se enfrentar: como tantas carências se conectam, num manancial de pautas que poderia e deveria alimentar a imprensa sensível às questões sociais.

A intervenção de Jane está na altura do décimo minuto do vídeo. É evidentemente a pessoa mais cansada, mais abatida, com mais dificuldade de se expressar, em comparação com a fluência das demais moradoras. Vista hoje, a intervenção dela ganha outro sentido: só agora, diante da prisão de um dos seus filhos, é que podemos entender o peso de sua preocupação com a falta de oportunidade de estudo, trabalho e lazer para os jovens infratores. Porque sofria isso na pele, seu filho era um deles.

De quem é a culpa?

Mas ainda que não fosse assim. Ainda que essa mulher fosse como a mãe do menino Y., de 12 anos, que o Extra levou agora novamente para a primeira página (ver aqui), o menino apreendido há dois meses, que conseguiu se safar de ser encaminhado para um abrigo porque enganou as autoridades dizendo que tinha 6 anos, e convenceu, de tão franzino que era.

Vejamos este trecho da reportagem:

“No dia em que foi detido – e, segundo ele, agredido pelos PMs –, foi liberado após sua mãe ir buscá-lo na delegacia. Dependente química, a mulher, de 26 anos, tem outros dois filhos e acabou de voltar à favela depois da quarta internação em clínicas de reabilitação. O pai de Y. morreu, vítima de tuberculose, há dez anos. Encontrar o menino na casa onde moram seus irmãos, sua mãe e seu avô, um pedreiro de 55 anos, é improvável: às vezes dorme numa quadra de futebol no alto do morro ou nas ruas, outras – como ontem – só chega em casa às 6h, depois de voltar “chapado” do baile funk da favela”.

Pensemos então em como as coisas se reproduzem. Recordemos o quase-monólogo de Anna Magani em Mamma Roma, de Pier Paolo Pasolini:

Sabe por que meu marido, o pai de Ettore, era um canalha? Porque a mãe era agiota e o pai, ladrão.

E por que a mãe era agiota e o pai, ladrão?

Porque o pai da mãe era um carrasco e a mãe da mãe uma mendiga. A mãe do pai, uma cafetina e o pai do pai, um dedo-duro.

Todos miseráveis, eis por quê! Se fossem ricos, seriam pessoas de bem.

E então, de quem é a culpa?

Pasolini tocava como poucos o cerne das questões, com imagens despojadas e eloquentes: Roma, a cidade brilhante lá no fundo, e em primeiro plano a aridez da periferia, os prédios degradados, os campos de terra em que a adolescência desgarrada do pós-guerra jogava bola, fumava, se drogava e se perdia. Também como no iraniano Filhos do paraíso: a tentativa de manter a dignidade na mais absoluta carência, as casas pobres e o pequeno comércio, como se aquela fosse a imagem de Teerã, e de repente o pai resolve buscar trabalho como jardineiro e leva o filho na garupa da bicicleta e começa a pedalar pelo centro de edifícios luminosos de vidro e pelas zonas residenciais de ruas arborizadas e mansões exuberantes. Uma beleza que se torna opressiva pelo contraste com a vida em que tudo é falta.

“Até quando?”, perguntamos, chocados com a morte estúpida na Lagoa. Sim: até quando esse abismo?

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Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007).