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“As grandes empreiteiras do país têm todo mundo na mão”

Via Brasil Econômico

Oligopólio corruptor é comporto por essas e outras.

Especialista no relacionamento das grandes empreiteiras com o governo, Pedro Henrique Pedreira Campos fala sobre a Lava Jato.

Como avalia o impacto da Operação Lava jato?

Sou muito pessimista. Acho difícil o poder dessas empresas ser arranhado. No início dos anos 90, a Odebrecht tinha uma ligação muito forte com o governo Collor e era muito próxima de figuras como o Renan Calheiros, e conseguiu comprar ativos de privatizações do setor petroquímico, pela ligação que tinha com o PC Farias. Na época, o Emílio Odebrecht deu uma entrevista para o “Jornal do Brasil” e, perguntado sobre o envolvimento nas privatizações e o favorecimento pelo esquema PC, respondeu: “O que é roubar, hoje, no Brasil?”. Ele dizia que o sistema estava todo corrompido, e que pagava intermediários para levar uma obra adiante, admitindo práticas ilegais. Recorrentemente, elas estão envolvidas em escândalos, e isso não parece abalar muito o poder delas. Elas têm todo mundo na mão; se abrem a boca, cai a República. O que é boa parte do PMDB, senão agentes dos interesses desses e de outros empresários? O poder político delas é muito grande.

A defesa dos executivos presos argumenta que eles foram pressionados por membros do governo a pagarem propinas…

Isso é uma ladainha antiga, esse discurso da vitimização do empreiteiro em relação ao Estado corrupto. Na verdade, as grandes empreiteiras são as que mais estão envolvidas nesses esquemas com partidos, figuras políticas e agências do Estado.

O grupo de empreiteiras envolvidas na Lava Jato é o mesmo citado em seu livro…

A partir do chamado “milagre econômico”, de 1968 a 1973, um período de seis anos seguidos de taxas de crescimento superiores a 10% do PIB, há um volume de obras inigualável na história brasileira. Na época, a maior empreiteira era a Camargo Corrêa. No período final da ditadura (segunda metade dos anos 70 e início dos 80), o volume de obras começa a declinar. Esses cortes acontecem de maneira bastante seletiva: em sua maioria, nas obras das pequenas empresas. As grandes mantém um volume de obras muito grande.

Quais obras?

A Odebrecht se mantém grande porque estava fazendo a usina hidrelétrica de Angra; a Camargo Corrêa estava fazendo Tucuruí e Itaipu; e a Mendes Júnior estava no exterior, em grandes projetos no Iraque, América Latina, África. No final da ditadura, a gente já tem um oligopólio, um conjunto de quatro empresas que dominam o mercado brasileiro, incluindo aí a Andrade Gutierrez. No final dos anos 80, a Mendes Júnior tem um problema sério, que é a guerra no Iraque. Vai à falência e, hoje, opera uma empresa que é a Mendes Júnior Trading, para fugir de todos os processos de falência em nome da pessoa jurídica Mendes Júnior. Mas continua importante politicamente. Teve um caso recente do Renan Calheiros, que dava mesada para a ex-mulher, e quem pagava a mesada era a Mendes Júnior. A OAS é uma que cresceu muito, já no final da ditadura, claramente ligada à figura do ex-senador Antônio Carlos Magalhães.

A transição à democracia não feriu essas relações?

Da ditadura para a democracia, esses grupos se mantiveram no poder. Obviamente que não só eles, os grandes bancos e outros setores também. Mas esses empresários mantiveram o oligopólio em uma conjuntura de mercado mais decadente em volume de obras públicas. Quando houve certo aumento, nos últimos dez anos, com grandes projetos nacionais no governo Lula, vários deles pensados na época da ditadura, esse oligopólio mostra que ainda está funcionando. São essas empresas líderes que continuam na ponta do sistema.

Em que setores elas atuam, além da construção civil?

A Odebrecht, por exemplo, é proprietária de um grupo petroquímico, a Braskem, e cerca de 65% do seu faturamento vem do setor petroquímico. A Andrade Gutierrez é uma das principais acionistas da Cemig e da Oi; e a Camargo Corrêa é dona de vários grupos industriais, produz cimento e é dona da São Paulo Alpargatas (Havaianas, Topper e Rainha) e da Santista Têxtil.

É possível reduzir a dependência das empreiteiras?

Se param as obras dessas empreiteiras, vamos ter racionamento de energia, e os problemas de logística se agravarão ainda mais. Elas têm concessões e podem falar que vão interromper as concessões de portos, de metrôs, trens urbanos e até mesmo das Olimpíadas. Há uma alternativa? Acho que sim. Por exemplo, o fim do financiamento empresarial e privado de campanha eleitoral poderia ser um avanço, junto com uma ampla investigação para evitar o caixa 2.

Como é em outros países?

O poder das empreiteiras americanas é um negócio impressionante, em uma escala, inclusive, muito superior ao das brasileiras. Empresas como Bestel, Halliburton, são poderosíssimas. O vice-presidente americano saiu da vice-presidência da Halliburton, que ganhou um contrato de US$ 40 bilhões para a reconstrução do Iraque — e inclusive contratou a Odebrecht para fazer alguns serviços. Não sei se são envolvidas em casos de escândalo, como no Brasil, mas em todos os lugares do mundo, os empresários de engenharia são muito poderosos, econômica e politicamente.

Lei de Meios, democratização da publicidade oficial e visita de João Roberto Marinho à Dilma

Por Fábio Lau | Via Conexão Jornalismo

Dilma Rousseff encheu-se de arroubos e indignação quando a Veja quase a derrubou do trono de presidenta. Disse, entre outras coisas, que o país corria perigo na sua ordem democrática enquanto a mídia partidária se arvorasse detentora do poder de mentir e interferir no processo eleitoral. Por sorte, naquele momento, véspera das eleições no seu segundo turno, outras empresas e concessionárias não fizeram coro com a Veja.

A presidenta disse que tudo mudaria a partir de então. Tudo? Que o Brasil faria valer a sua Constituição, promulgada em 1988, e que garante a pluralidade da Comunicação e a proibição da propriedade cruzada – aquela que permite a um concessionário possuir TV, rádio, jornal, revista e etc.

Dilma, indignada que estava, pareceu finalmente disposta a legislar, neste campo, para todos. Não apenas para os meios tradicionais e corporativos que abocanham sozinhos a verba publicitária da União enquanto reduzem o quadro de funcionários a números jamais vistos. Só no Rio de Janeiro foram demitidos mais de 2 mil jornalistas em dois anos, segundo dados do Sindicato dos Jornalistas do Rio e do Sindicato dos Radialistas.

Eles atuavam em empresas consolidadas – como a TV Globo, Folha de São Paulo e o próprio grupo Abril, por exemplo – que anunciam lucros estratosféricos a cada ano – para a felicidade dos acionistas. Os lucros vêm da publicidade privada, que chega depois de estimulada pelo pagamento antecipado de bônus de valor, além de verba que desembarca dos governos municipal, estadual e federal.

Estes recursos chegam através de publicidade e também do pagamento de assinaturas de revistas, jornais e TVs a cabo. Pelo menos 40% da revista Veja são comprados via assinaturas pagas pelo governo do Estado de São Paulo – razão pela qual problemas administrativos e escândalos são solenemente ignorados pelas publicações.

Para se ter uma ideia, só no primeiro semestre de 2011, a Globo Comunicação e Participações S.A., responsável pela TV Globo, rádios, revistas, jornais e sites ligados à emissora, abocanhou quase um terço da verba aplicada pela Presidência da República entre janeiro e julho daquele ano: R$ 52 milhões. É importante frisar que o valor da publicidade aumenta na proporção inversa do número de sua audiência ou leitores. Enquanto a Internet cresce e reduz a audiência da TV aberta, por exemplo, o custo da publicidade nas plataformas decadentes só faz crescer. E o país inteiro paga a conta.

Este valor aumenta ano a ano e neste período estima-se que tenha chegado perto de R$ 600 milhões. Nesta quarta-feira (03) Dilma recebe no Palácio do Planalto um dos presidentes do Grupo Globo. Em pauta? Um pedido de desculpas pelas manchetes negativas contra a presidenta, outro para que ela não insista na Lei de Meios e que não interrompa, reduza ou mesmo pulverize recursos da publicidade oficial. Esta agenda, claro, não foi divulgada. É apenas o livre pensar de um jornalista acostumado com o tempero empregado pela velha mídia nas suas relações com o poder.

No Rio, por iniciativa do vereador Reimont Otoni, do PT, a Câmara Municipal se abriu para que parte da verba publicitária chegue também às mídias alternativas. Embora não contemple ainda diretamente a mídia digital, ela é um respiro para um setor que vive sua maior asfixia. A Assembleia Legislativa do Rio também caminha nesta direção e haverá reunião na próxima semana para tratar do tema. Os executivos do Rio, na sua prefeitura da capital e governo do estado, permanecem reféns do Grupo Globo e não acenam com nenhuma mudança.

Dilma, por conta do ataque que sofreu e o risco impingido contra a democracia, perpetrado por Veja, teria todas as razões para iniciar o processo em Brasília. Ainda não o fez ou mesmo acenou para isso. Afastou do seu círculo o jornalista Franklin Martins, que tem projeto nesta área, e ameaça convocar para o Ministério das Comunicações o governador da Bahia, Jacques Wagner – que, pelo perfil moderado, não comprará briga com as grandes corporações da mídia. E o vereador Reimont Otoni falou com muita precisão sobre isso em entrevista esta semana em Conexão Jornalismo – não será possível mexer nesta estrutura viciada sem se ferir no espinho.

E assim, caso se confirme a batida que assistimos daqui, jornalistas continuarão sendo enxotados das grandes empresas, não conseguirão ser absorvidos pelas novas mídias (carentes de recursos por conta de um preconceito ainda presente que parte dos governos e mesmo das agências privadas), e especialmente leitores e internautas continuarão reféns de um modelo de mídia e informação viciada que resiste em dar pluralidade de opinião à população – em completo descompasso com o mundo moderno e evidente desprezo à inteligência nacional.

Aécio ainda não entendeu que perdeu perdendo

Por Paulo Nogueira | Via DCM

E foram felizes para sempre

Há uma coisa estranha em Aécio: passado mais de um mês das eleições, ele está com um discurso de quem ganhou as eleições.

Isso ficou claro na entrevista que ele concedeu a Roberto Risadinha d’Ávila, o homem-Caras do jornalismo brasileiro: sorrisos antes, durante e depois do programa.

Se não se imaginasse vencedor, Aécio não diria que encarnou o “sentimento de mudança” da sociedade brasileira. Porque esta é uma coisa que só quem vence pode dizer, e com moderação – ou passará por arrogante.

Mas Aécio é Aécio: ele consegue ser arrogante na derrota.

Compare sua atitude com a do candidato uruguaio derrotado neste final de semana, Luis Lacalle Pou.

Pou telefonou elegantemente a Tabaré Vázques, o vitorioso, para lhe dar os parabéns pela vitória “legítima” assim que os números mostraram que o resultado estava definido.

Aécio não.

Ainda agora, ele não parece ter aceitado que foi batido. “Perdi ganhando”, disse ele a d’Ávila. Dilma, segundo ele, “ganhou perdendo”. Aécio estava citando não Churchill, não Lincoln, não Napoleão, não de Gaulle. Estava citando Marina, que também reivindicou uma vitória na derrota.

A primeira providência para Aécio retornar ao Planeta Terra é ele entender que perdeu perdendo. Mesmo com toda a ajuda que teve da mídia, mesmo com Marina e a viúva de Eduardo Campos a seu lado, mesmo com os vazamentos seletivos da Polícia Federal – mesmo assim ele conseguiu perder.

Foi uma façanha.

Quando puser os pés nos chãos, Aécio tem que explicar algumas coisas. O aeroporto de Cláudio, por exemplo. Para citar mais um caso, o dinheiro público que sua irmã Andrea colocou nas rádios da família quando ele era governador de Minas.

Demagogo, no sentido clássico, é quem faz coisas na política que acusa os inimigos de fazerem.

Aécio se queixa de ter sido “ofendido” na campanha, mas fez coisas como usar a expressão “mar de lama” para caracterizar o governo de sua adversária.

Repetiu inúmeras vezes que Dilma estava destruindo o Brasil, se valendo para isso de pseudoestatísticas feitas para enganar os leitores.

Luciana Genro também experimentou o veneno de Aécio durante os debates: foi chamada de “leviana” e acusada de comandar um partido que é “linha auxiliar” do PT.

E este é o homem que se declara vítima de “desconstrução”.

No programa de d’Ávila, o construtor Aécio chamou o PT de “organização criminosa” em duas ocasiões — sem que d’Ávila fizesse nada além de sorrir. D’Ávila reagiu como se Aécio estivesse falando sobre o tempo, ou sobre o resultado da última rodada.

Aécio falou em “aparelhamento”, mas como governador ele aparelhou até a mídia mineira com sua política de anunciar apenas em quem não o criticasse.

Aécio condenou o “crime de responsabilidade fiscal” cometido agora por Dilma ao tentar mudar algumas regras relativas ao orçamento.

Mas um momento: como noticiou um insuspeito colunista do G1, FHC fez também uma gambiarra com os mesmos propósitos em 2001.

“O Brasil acordou”, disse uma hora Aécio a d’Ávila.

Eis uma das raras frases em que ele acertou, embora ele tenha se atrasado uma enormidade para perceber o fenômeno.

Foi exatamente por terem acordado que os brasileiros não elegeram Aécio e tudo aquilo que ele representa.

O final ideal para o programa teria sido uma imagem de Aécio e d´Ávila com a seguinte inscrição: “E foram felizes para sempre.”

Uruguaios elegem Tabaré Vasquez sucessor de Mujica

Por Monica Yanakiew | Via Agência Brasil

Os uruguaios elegeram nesse domingo (30) o sucessor do presidente José Pepe Mujica: no dia 1º de março, o médico socialista Tabaré Vasquez será reconduzido ao cargo, que ocupou de 2005 a 2010. Este vai ser o terceiro governo consecutivo da coligação de partidos de esquerda, Frente Ampla.

No discurso em que festejou a vitória, Tabaré convocou a oposição a um diálogo. “Convoco todos os uruguaios, não para que me sigam, mas para que me guiem e me acompanhem”, disse. Ao mesmo tempo prometeu que seu retorno ao poder não representará “mais do mesmo” porque o país que vai presidir nos próximos cinco anos “não é o mesmo de 2005 nem de 2010”.

Tabaré Vasquez disputou o segundo turno das eleições presidenciais com o candidato do tradicional Partido Nacional (ou Blanco), Luis Lacalle Pou. Ele obteve 53,6% dos votos, enquanto seu adversário ficou com 41,1%. A Frente Ampla ainda assegurou a maioria no Congresso, no primeiro turno das eleições, em outubro passado.

No Uruguai, o Congresso é totalmente renovado a cada troca de governo. E os eleitores são obrigados a escolher candidatos a presidente, à Câmara dos Deputados e ao Senado do mesmo partido. Todos têm mandatos de cinco anos e o presidente não pode ter dois mandatos consecutivos.

A legislação, no entanto, não impede que uma pessoa dispute o cargo de presidente e uma vaga no Congresso, em uma mesma eleição, ou que o presidente em exercício se candidate ao Senado. Por isso, no dia 1º de marco, Lacalle Pou (que foi derrotado na eleição presidencial, mas obteve votos suficientes na eleição legislativa) assumirá como senador do Partido Nacional. José Pepe Mujica vai liderar a bancada da Frente Ampla no Senado.

Em entrevista à Agência Brasil, Mujica disse que quer impulsionar uma reforma constitucional e criar mecanismos para evitar a corrupção politica. A primeira-dama, a senadora Lucia Topolanski, foi reeleita em outubro e vai integrar a bancada governista junto com o marido.

Segundo Victor Rossi, que foi ministro de Transporte e Obras Públicas na primeira gestão de Tabaré Vasquez, o novo governo vai manter a politica de redistribuição da riqueza dos últimos dez anos, que deu bons resultados: a redução da pobreza de 39% a 11% e a queda do desemprego. “Mas existem novos desafios porque os uruguaios hoje estão mais exigentes do que em 2005 e em 2010”, disse Rossi.

Responsável por conduzir a Frente Ampla ao poder, rompendo com a hegemonia dos partidos Nacional e Colorado (ambos com mais de 170 anos de historia), Tabaré Vasquez obteve votação histórica. Ele ganhou as eleições com a maior margem de diferença em relação ao segundo colocado desde 1996.

Apesar de Tabaré ser um político popular, foi seu sucessor – o ex-guerrilheiro José Pepe Mujica, preso durante 14 anos – que colocou o pequeno país no mapa, graças ao seu jeito simples de ser. Ele foi manchete da imprensa local e internacional porque continua vivendo na mesma chácara e dirigindo o mesmo fusca velho (que um xeque árabe quis comprar por US$ 1 milhão e que ele se recusou a vender).

Mujica também ganhou fama de ser o “presidente mais pobre do mundo” porque doa 90% de seu salario para financiar projetos sociais. Na gestão dele, o Uruguai legalizou o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a produção e venda da maconha.

O patrimônio da escravidão

Por Luciano Martins Costa | Via Observatório da Imprensa

Os telejornais da véspera deram destaque e a imprensa em geral registra na quinta-feira (27/11) que a capoeira, “expressão cultural descrita como luta, dança e jogo acrobático”, foi declarada patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. A justificativa da decisão diz que a capoeira simboliza a resistência negra no Brasil durante o período da escravidão. A notícia deve encher de orgulho milhões de brasileiros, e assim se passa mais uma camada de verniz sobre a questão histórica da escravidão e seu legado de desigualdades.

A capa genérica do nacionalismo cumpre tradicionalmente o papel de ocultar a vergonha das sociedades modernas que se recusam a enfrentar suas mazelas. Políticas de cotas e outras medidas corretivas podem amenizar o efeito econômico dos tratamentos diferenciados segundo a etnia, a cor da pele ou o gênero, mas não resolvem a questão da má consciência social.

A mídia tradicional cumpre um papel central nesse processo de tapar com a peneira o sol que nunca foi para todos, ao oferecer um discurso apologético e ufanista sobre o reconhecimento do valor cultural de uma prática que, com muita certeza, não é autenticamente brasileira.

A capoeira, como luta, dança ritual ou acrobacia, está descrita nos mitos de origem do mundo segundo os khoisan, povo africano transcendental mais conhecido como bosquímanos. Trata-se de um dos povos mais antigos do planeta, a se considerar o conceito de organização tribal conectada e conformada por técnicas, crenças, fisiologia comum e tradições.

Eles carregam em seu DNA as características mais próximas das raízes da espécie humana, e sua história os conduz dos primeiros passos do homem até o início do tráfico de escravos negros para o continente americano. São indivíduos de estatura mais baixa e de corpo mais esguio do que os demais africanos, com olhos oblíquos como os orientais, e eram conhecidos como caçadores, coletores e capazes de fazer boas colheitas em pouco espaço e tempo curto.

Na origem do mundo

A tradição oral dos bosquímanos é riquíssima e registra até mesmo o ponto de ruptura entre o homem natural e o homem moderno, no conto que relata a criação do fogo e a separação entre homens e animais. Numa dessas histórias, o filho do criador do mundo o resgata da morte e lhe ensina os movimentos básicos da prática que é hoje conhecida como capoeira. Estão descritos claramente nesse conto tradicional a ginga, o engodo, a rasteira e toda a natureza acrobática da capoeira.

Alguns de seus agrupamentos viviam na região conhecida como Angola quando começou o transporte de negros para a colônia portuguesa no Brasil. Misturados aos bantos, eles se concentraram na Bahia, mas também formaram colônias no Norte, entre o Maranhão e o Pará, e no Sudeste, em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Essa é provavelmente a origem da confusão que se criou, dando aos bantos da Bahia, vindos de Angola, o crédito pela criação desse bem cultural.

Mas tudo isso é apenas assunto para boas conversas. O que se quer aqui representar é a prática jornalística de utilizar meias-verdades e estereótipos para escapar à tarefa de enfrentar os dilemas da modernidade e do capitalismo. Não se corrigem as desigualdades com anúncios ufanistas, mas aqui e ali muitas consciências se sentem confortadas com o fato de que uma tradição nascida como símbolo de resistência contra a tirania acaba reconhecida como patrimônio da humanidade.

Mais útil do que o ufanismo em torno da decisão da Unesco é a reportagem de página inteira publicada na edição de quinta-feira (27) do Globo sobre a vida do africano Mahommah Baquaqua, que foi escravo no Brasil no século 19 e se tornou homem livre nos Estados Unidos. O livro original, publicado em 1854, está sendo traduzido para o português e deve ser lançado no Brasil até o final do ano que vem, segundo o jornal carioca.

Pode ser uma janela para reconhecer nosso passado escravagista. Mas a imprensa precisa também olhar a escravidão do presente e o preconceito que persiste até mesmo em suas redações. Nesta quinta-feira, o portal Comunique-se relata debate no qual se afirma que jornalistas negros são quase sempre destacados para cobrir temas como samba e criminalidade.

Em várias estradas do interior, principalmente no Centro-Oeste, a Polícia Rodoviária Federal faz vistas grossas para o tráfico de jovens recolhidas em comunidades do interior e levadas para prostíbulos nas regiões onde se constrói a infraestrutura do Brasil moderno.

Até quando?

Justiça bloqueia R$ 100 milhões nas contas de investigados na Lava Jato

Por André Richter | Via Agência Brasil

A Justiça Federal em Curitiba contabiliza cerca de R$ 100 milhões bloqueados das contas-correntes e fundos de investimentos de investigados na Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Na semana passada, o juiz Sérgio Moro, responsável pelas investigações, determinou o bloqueio das contas dos investigados e empresas ligadas ao esquema.

Nesta terça-feira (25), o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal informaram à Justiça que conseguiram bloquear cerca de R$19 milhões nas contas de Ildefonso Colares Filho e Othon Zanóide de Moraes, ligados a empresa OAS, e de Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras. Até momento, somados os valores bloqueados, desde a semana passada, nas contas-correntes pelo Banco Central ou diretamente nas instituições, no caso de fundos de investimentos, chegam a cerca de R$ 100 milhões. Os valores serão transferidos para uma conta da Justiça Federal.

O vice-presidente da Camargo Correa, Eduardo Leite, que está preso na Superintendência da PF em Curitiba, pediu hoje à Justiça o desbloqueio de suas contas. Ele alega que sua mulher e duas filhas são dependentes dele e precisam dos recursos para sobreviver. A defesa do executivo alega que o saldo de R$ 463 mil tem origem legal.

‘Prisioneiro da base parlamentar, governo tende a caminhar para mais do mesmo’ diz Chico Alencar

Por Gabriel Brito e Valéria Nader | Via Correio da Cidadania

JB/Reprodução

Após a tensa disputa eleitoral que deu novo mandato presidencial a Dilma Rousseff, o país começa a olhar para frente e vislumbrar as novas correlações de forças. Ante um Congresso altamente conservador que assumirá o legislativo, diversos atores e analistas políticos vêm afirmando a necessidade de se aumentarem as pressões das ruas nos governos. Sobre este novo período, o Correio da Cidadania conversou com o deputado federal Chico Alencar.

“Parece-me que a política institucional brasileira vive crise similar à do nosso futebol. Isso se fortaleceu em mim depois de assistir a este último ‘Fla x Flu’, no estádio/estúdio da Globo. Os conflitos sociais, o papel do Estado na sociedade, e ao longo das etapas do desenvolvimento brasileiro, passaram longe. As divergências na campanha foram muito mais retóricas do que reais”, afirmou.

Para Alencar, é evidente que o novo governo Dilma tem tudo para aprofundar a fórmula de governabilidade dos últimos anos, afirmação que faz elencando uma série de pautas políticas relevantes que ficaram praticamente excluídas dos debates, inclusive do segundo turno. Em sua visão, fica claro para os movimentos e setores à esquerda (importantes na vitória petista) que não há a mínima condição para ilusões.

“Ao falar de referendo, Dilma faz, indiretamente, um chamamento para que a sociedade e as instâncias de representação debatam a profunda crise da representação, o patrimonialismo, o clientelismo, a subrepresentação das classes trabalhadoras e as formas que reproduzem um modelo desgastado. A democratização dos meios de comunicação não apareceu na campanha porque as forças hegemônicas, no governo e na oposição conservadora, não têm interesse”, concluiu.

A entrevista completa com Chico Alencar pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Primeiramente, como você analisa a vitória de Dilma neste domingo, com a margem de votos mais estreita dos últimos tempos?

Chico Alencar: Parece-me que a política institucional brasileira vive crise similar à do nosso futebol. Isso se fortaleceu em mim depois de assistir a este último ‘Fla X Flu’, no estádio/estúdio da Globo. Os ‘craques’ Dilma e Aécio perderam vários ‘gols feitos’, talvez por orientação dos ‘técnicos’ – os marqueteiros, sempre mais voltados a ‘vender o produto/candidato para o consumidor/eleitor’.

Em nenhum momento do debate houve menção à estrutura de classes e à desigualdade social estrutural – que até o badalado e atualíssimo livro “O capital no século XXI”, de Thomas Piketty, tanto destaca. As referências históricas, que considero sempre importantes, restringiram-se à comparação entre governos tucanos e petistas, por Dilma, e ao elogio laudatório ao avô, por Aécio.

Os conflitos sociais, o papel do Estado na sociedade, e ao longo das etapas do desenvolvimento brasileiro, passaram longe. As divergências na campanha foram muito mais retóricas do que reais.

Correio da Cidadania: Faz algum sentido os setores e partidos que se colocam à esquerda do PT, muitos dos quais apoiaram o voto crítico em Dilma no segundo turno, esperarem uma guinada à esquerda do partido e alguma possibilidade de parcerias políticas?

Chico Alencar: Só se for esperar no sentido ‘paulofreiriano’, mais para ‘esperançar’, que é esperança que se constrói na luta. Esperar só de expectativa é outra coisa, mais passiva, advinda de um novo mandato que tem de reavaliar caminhos, até pelo progressivo enfraquecimento eleitoral do PT.

As opções de Dilma, infelizmente, tendem a caminhar para mais do mesmo, ‘acalmando o mercado’ financeiro, e não apostando nas forças sociais de mudança. Evidentemente, todas as propostas do governo que atenderem aos interesses das maiorias que vivem à margem dos direitos merecerão nosso apoio, como aconteceu no caso do Sistema Nacional de Participação Social, o decreto que a mídia grande deturpou como o que ‘criava Conselhos Populares’ e o reacionarismo parlamentar derrubou.

O PSOL já apresentou um Projeto de Lei recriando o Sistema, que articula essas instâncias de participação.

Correio da Cidadania: O que podemos esperar do quarto mandato petista no Planalto, ao olhar para a nova configuração do Congresso e para a atual conjuntura econômica nacional e internacional? Como ficarão as pautas associadas aos movimentos populares e progressistas nesse próximo período?

Chico Alencar: Mesmo sem avaliar em profundidade o novo Congresso – todos dizem que, apesar de 49% de novos nomes, ficará mais ‘velho’ ainda -, é possível inferir grandes dificuldades para o governo tocar as pautas populares. Até porque, reconheçamos, não se comprometeu decididamente com muitas delas.

Alguns exemplos: o questionamento ao fator previdenciário não incorporou qualquer abordagem do caráter superavitário da Seguridade Social e do desvio dos seus recursos; o enfoque ao tráfico de drogas ilícitas e à violência limitou-se ao aspecto meramente repressivo, não sendo enfatizado o fracasso mundial da política da ‘guerra às drogas’ e do proibicionismo; na educação, o ensino de tempo integral, a educação de jovens e adultos, a implementação efetiva de planos da carreira e piso salarial nacional para os profissionais da área, a democratização da gestão e as responsabilidades compartilhadas dos entes federativos ficaram secundarizados; sobre a crise hídrica, não se considerou a questão ambiental, o combate ao desmatamento, a recuperação dos rios (ativando seus comitês de bacias) e a garantia legal dos riquíssimos e maltratados biomas brasileiros.

Na política de garantia do emprego, que obviamente tem a ver com o modelo econômico, não se fez qualquer questionamento ao tripé da macroeconomia (superávit primário, juros altos e câmbio flutuante), nem defesa da auditoria da dívida e de uma Reforma Tributária com taxação das grandes fortunas; as menções à agricultura omitiram a Reforma Agrária, o fluxo dos produtos agrícolas, a concentração fundiária e os riscos da absolutização dos agrotóxicos;.

Na política internacional, o ‘embate’ restringiu-se aos investimentos do BNDES em Cuba (que, ressalte-se, o governo FHC também fez, correta e solidariamente); o unânime e óbvio repúdio à corrupção – que é sistêmica – tornou-se uma ‘olimpíada’ para destacar quem foi mais conivente com ela, em seus respectivos governos e práticas partidárias; quando se discutiu moradia, limitada a quantas casas populares são necessárias ou foram feitas, faltaram propostas sobre especulação do solo urbano, função social da propriedade, cumprimento do Estatuto das Cidades e (i)mobilidade nas regiões metropolitanas, isto é, transporte de massas.

Correio da Cidadania: E quanto à representação política e contestação do monopólio midiático, assuntos que talvez se possa relacionar mais aos protestos de junho, o que você tem a dizer?

Chico Alencar: Sobre a importantíssima Reforma Política, ressalto que Dilma defendeu a Iniciativa Popular de Lei da OAB/CNBB com suas listas com alternância de gênero e o fim do financiamento empresarial das campanhas – isso é positivo. Ao falar de plebiscito e, agora, de referendo, faz, indiretamente, um chamamento para que a sociedade e as instâncias de representação debatam a profunda crise da representação, o patrimonialismo, o clientelismo, a subrepresentação das classes trabalhadoras e as formas vigentes do fazer político, que reproduzem um modelo dominante e desgastado.

Política Cultural, demarcação de terras indígenas e quilombolas, impactos das grandes obras e avanço nas lutas contras todas as formas de discriminação (com reafirmação da laicidade do Estado) também estão na ordem do dia, e tanto o Executivo quanto o Legislativo – e, em certas situações, o Judiciário – terão que se posicionar sobre essas agendas. A democratização dos meios de comunicação (há Iniciativa Popular de Lei a respeito, a da Mídia Democrática) não apareceu na campanha porque as forças hegemônicas, no governo e na oposição conservadora, não têm interesse nisso.

Correio da Cidadania: Vê no horizonte alguma possibilidade e/ou necessidade de união das esquerdas para enfrentar o próximo período?

Chico Alencar: Vejo essa necessidade, e quero me empenhar para que ela estimule a possibilidade. Dilma está eleita e essas questões CENTRAIS para o país têm que ser enfrentadas. Só que sem mobilização popular não serão! Para não ser mais do mesmo, o governo Dilma II precisa se aproximar dos movimentos sociais. E, estes, dinamizarem sua atuação, apesar das enormes dificuldades.

Se Dilma ficar prisioneira da base parlamentar, não haverá avanço algum. Há o risco de passarmos o ano de 2015 sob a égide das apurações do ‘petrolão’, que deve fazer muitas cabeças coroadas, de diversos partidos, rolarem…

O papel das esquerdas, além de ressignificar o ideário socialista, que também vive uma crise de sentido, é estabelecer um ‘programa mínimo’ de lutas comuns, em torno das questões concretas que abordei acima.