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Celac: Cuba pede fim do bloqueio americano

Via AFP

O presidente cubano, Raúl Castro, participa da cúpula da Celac, em Belén, costa Rica, em 28 de janeiro de 2015. AFP / ROBERTO SANCHEZ

O presidente cubano, Raúl Castro, exigiu nesta quarta-feira que os Estados Unidos suspendam o bloqueio contra Cuba para normalizar as relações, no primeiro encontro com seus colegas da Celac após histórico anúncio da reaproximação entre os dois países.

“O restabelecimento das relações diplomáticas é o início de um processo de normalização das relações bilaterais mas esta não será possível enquanto existir o bloqueio”, disse Castro, em seu discurso na 3ª Cúpula da Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe (Celac), em Belén, 15 km a oeste da capital San José.

Embora a pobreza seja tema oficial da cúpula, Cuba centraliza a atenção internacional. Raúl Castro tem seu primeiro encontro com seus colegas latino-americanos desde o histórico anuncio de 17 de dezembro sobre a reconciliação entre Cuba e Estados Unidos, depois de meio século de hostilidades.

Castro recebeu a atenção internacional com suas primeiras declarações após a reunião em Havana altos funcionários cubanos e americano para o restabelecimento das relações bilaterais.

O cubano classificou o embargo como “o problema principal” que “não teve resultados” e que “deve acabar”, lembrando outras demandas da ilha, como a retirada da lista norte-americana de patrocinadores do terrorismo, a devolução do território de Guantánamo e mudanças nas normas migratórias dos EUA.

Castro reconheceu o pedido, feito na semana passada pelo presidente Barack Obama, para que o Congresso suspenda o embargo vigente desde 1962, e pediu que ele use suas “amplas capacidades executivas para modificar substancialmente a aplicação do bloqueio”.

Washington anunciou recentemente mudanças para flexibilizar as restrições a viagens de americanos a Cuba e o intercâmbio comercial, mas a maior parte das sanções só podem ser suspenSas pelo Congresso.

Foco sobre Obama e Castro

Uma das 25 declarações especiais que sairão da Costa Rica condenará o embargo mantido Estados Unidos contra Cuba desde 1962, como tem feito a Celac desde que foi criada.

“Basta do bloqueio criminoso a Cuba, que atenta contra toda a carta da OEA, atenta contra a carta fundamental das Nações Unidas, atenta contra o direito internacional e contra todos os princípios que seus discursos dizem defender”, disse em discurso o presidente do Equador, Rafal Correa, que receberá na quinta-feira a presidência do bloco.

Ao chegar ao aeroporto, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, afirmou que o bloqueio “terá que desaparecer”.

Em seu discurso, Raúl Castro agradeceu o apoio da Celac contra o bloqueio e reiterou seu desejo de assistir a Cúpula das Américas, nos dias 10 e 11 de abril.

Mais perto da China

Os mandatários debaterão o combate à pobreza, em um momento em que o fraco crescimento econômico na América Latina, que a Cepal projetou em 2,2% neste ano, ameaça os avanços da última década. Dos 600 milhões de latino-americanos cerca de 48% era pobre em 2002 e nos últimos dois anos se estagnou em 28%.

Para os governos da Costa Rica e do Equador, o caminho era se aproximar de países como a China, que registra taxas elevadas de crescimento econômico e disputa com os Estados Unidos sua influência na América Latina.

“Estou convencido de que a Celac deve continuar consolidando sua relação com outros blocos e países estratégicos”, acrescentou Solís em seu discurso.

Sob a presidência da Costa Rica -único país centro-americano que tem relações com a China-, a Celac se aproximou da União Europeia, mas sobretudo da China, que prometeu investir 250 bilhões de dólares nos próximos 10 anos na América Latina e no Caribe.

O apoio chinês foi principalmente em empréstimos em condições favoráveis e um dos grandes beneficiados é a Venezuela, angustiada com a queda dos preços do petróleo, com a escassez e com uma inflação de 64%.

Dos 33 governantes do bloco só estarão ausentes os da Argentina, do México, do Paraguai e do Peru.

Billings, a solução de Alckmin para a crise ao sabor do improviso

Por Cíntia Alves | Via Jornal GGN

Represa foi protejada nos anos 30 para abastecer uma usina de energia. Depois, teve seu uso como receptáculo de esgoto intensificado. Hoje, ao sabor do improviso, é a menina dos olhos do governador.

Nesta terça-feira (27), o engenheiro Paulo Massato, diretor da Sabesp, veio a público com um plano de rodízio drástico. A população da Grande São Paulo, em função do colapso dos sistemas Cantareira e Alto Tietê, corre o risco de ficar até cinco dias por semana sem água.

Segundo o executivo, o racionamento será implementado em três hipóteses.

1- Se as chuvas nos principais mananciais seguirem abaixo da média – e tem tudo para acontecer, visto que já estão aquém do esperado há pelo menos nove meses.

2- Se as obras que aumentarão a produção de água não ficarem prontas a tempo. Só não se sabe se a seca vai aguardar até 2016 ou 2018, primeiras previsões.

3- Se o plano de usar o que há de despoluído na Billings, intenção confirmada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) na última semana, não for viável. Mas que plano?

Alckmin não detalhou o que a Sabesp pretende com a Billings. Até agora, o que se sabe é que o uso imediato dessa represa é improvável. Isso porque metade da água que consta no reservatório artificial que é a Billings é fruto de esgoto e problemas com assoreamento. A parte relativamente limpa da bacia (os braços Taquacetuba e Rio Grande) já abastece um pedaço de São Paulo, do ABC Paulista e da Baixada Santista, e está no limite.

Não exatamente por falta de água, segundo explicou ao GGN o secretário de Gestão Ambiental de São Bernardo do Campo, João Ricardo Guimarães, em entrevista realizada em maio de 2014 (época em que Alckmin revelou pela primeira vez a intenção de usar a Billings). Mas sim porque, nos últimos anos, nenhuma estação de tratamento de água foi construída com o intuito de aproveitar o potencial da represa. Esperaram a crise chegar para enxergá-la como solução?

Hoje, ao sabor do improviso, a represa é a menina dos olhos de Alckmin. Na semana passada, inclusive, o tucano até mandou um recado ao governo federal: “Tire as mãos do meu brinquedo!”

O episódio foi contado por um periódico regional que teve acesso exclusivo a uma planilha da Sabesp com números que irritaram o governador. Em matéria atacando o governo federal, o Diário do Grande ABC cravou que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), “órgão ligado ao governo federal”, descumpriu um acordo com Alckmin e retirou, ao longo de três dias, mais água do que poderia da Billings, “apenas para produzir energia” em Henry Borden. Lei federal sustenta que em caso de crise de abastecimento, o uso de água para consumo se sobrepõe ao uso para produção de energia.

Consta na história da Billings que ela foi projetada nos idos de 1930 para servir à usina Henry Borden, não para produção de água para consumo. A usina impulsionou o desenvolvimento industrial de São Paulo e, depois, foi abandonada. Billings, por sua vez, virou, em parte, manancial para atender a uma franja de pessoas na Grande São Paulo e, em outra parte, tratamento de esgoto.

É o que afirma o engenheiro e sanitarista Roberto Kachel (que acumula 30 anos de experiência na Sabesp). Ele lembra que sempre que chove muito na capital, as águas dos rios Tietê e Pinheiros são revertidas para a Billings, para evitar enchentes. “A última vez que esse sistema foi acionado foi no verão de 2010 para 2011, quando deu aquelas enchentes no Cantareira. Ai, que saudade!”, brincou Kachel.

O governo estadual, segundo Guimarães, também dificulta os planos de recuperar a Billings combatendo as moradias irregulares em áreas de mananciais. Mesmo que o governo federal disponibilize mais recursos para construção de casas populares, os órgãos de licenciamento do Estado não superaram as burocracias que retardam o processo. Essa é uma discussão que existe ao menos desde o final da gestão de José Serra (PSDB), e pouco evoluiu.

Para Kachel, é difícil imaginar, agora, como Alckmin vai conseguir explorar o que tem de explorável na Billings em caráter emergencial. Segundo ele, o governo “já leva água da Billings ao sistema Guarapiranga por meio do braço Taquacetuba”, e não faz pouco tempo, não. “A reversão do braço Taquacetuba para o Guarapiranga existe desde 2000, apesar de Alckmin se apropriar do feito como se fosse uma novidade ou solução para a crise.”

Além disso, “a distância mínima entre os dois melhores pontos para levar água da Billings ao sistema Alto Tietê é de 40 quilômetros. (…) Do jeito que o Alckmin fala, parece que construir uma valetinha vai resolver o problema, que até o final do ano vai conseguir. Isso é crime contra o povo”, acrescentou Kachel.

O poder de uma agência de análise de risco em Hong Kong

Por Whilliam Engdahl | Via Grabois

Monopolizadas em Wall Street, as agências de análise de risco moldam as crises econômicas ao sabor das necessidades estratégicas de Washington. Diante do fracasso da União Europeia em criar uma agência independente, frente ao colapso de credibilidade das americanas, Hong Kong prepara-se para assegurar um olhar diferenciado sobre as empresas e economias nacionais de todo o mundo.

Ao longo de praticamente um quarto de século da chamada ‘globalização econômica’, a habilidade de Wall Street para ser o lar das únicas agências ‘globais’ de risco para distribuir ‘graus’ ao valor dos créditos pelo mundo tem sido uma das armas mais efetivas para guerra financeira, no arsenal de Wall Street. Eles ‘qualificam’ nações e empresas privadas. Agora vem aí uma resposta ao monopólio dos ‘graus’ que sempre esteve em mãos das norte-americanas Moody’s/Standard & Poors/Fitch. Mas não vem da União Europeia, o que seria mais do que esperável e útil. Vem de Rússia e China – como tantas das mais importantes e desafiadoras iniciativas nos últimos tempos.

Hoje, apesar das repetidas crises financeiras nas quais as Três Grandes de New York [agências de avaliação de crédito] ou falharam ou obraram por claro viés político na ‘classificação’, pode-se dizer que Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch Ratings têm um virtual monopólio global. As “Três Grandes”, como são chamadas, distribuem 98% das avaliações de crédito nos EUA e cerca de 95% em todo o mundo. Chama-se “influência”, brother.

O sistema que os mais importantes bancos de Wall Street desenvolveram depois de 1944 para fazer de New York o centro financeiro do mundo e do dólar sua moeda de reserva tem várias facetas bem planejadas. Depois de 1945, foi o fato de que o Federal Reserve dos EUA detinha cerca de 70% do ouro monetário do mundo, de tal modo que o dólar então “valia ouro”. As nações da Europa derrotada disputavam cada dólar possível para compar máquinas e bens norte-americanos para a reconstrução do pós-guerra. O Plano Marshall foi explicitamente desenhado para usar dólares dos contribuintes dos EUA para estender empréstimos às economias europeias em recuperação, quase $12 bilhões no período 1948-1951 que foram usados para comprar bens essenciais, como trigo dos EUA e petróleo norte-americano dos Rockefeller, e para comprar máquinas norte-americanas, de quando os EUA eram líderes mundiais em ferramentas, para reconstruir fábricas e moradias.

O Sistema-Dólar que descrevo em detalhes no meu livro Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (Der Untergang des Dollar-Imperiums), esteve no centro do poder do Wall Street Money Trust (como se chamava antes, corretamente) e dos oligarcas norte-americanos, desde que criaram o Tratado de Bretton Woods em 1944.

Agora, o mesmo sistema do dólar enfrenta uma crise existencial, e o poder daqueles mesmos oligarcas para aumentar o próprio poder mediante guerras por todo o mundo – guerras financiadas pelas poupanças de outras nações como Alemanha ou Japão ou China ou Rússia – está mais ameaçado do que jamais antes. Para sobreviver, estão distribuindo guerras-sanções financeiras globais contra países como Síria, Irã, Rússia; guerras de moedas e, agora, uma guerra de facto, de riscos ‘avaliados’.

Depois da derrota da Alemanha e das potências do Eixo em 1945, as famílias que controlavam os bancos de Wall Street e da ‘Baixa Manhattan’ – Chase Bank, Citibank, ou Morgan Stanley, Lehman Brothers, Merrill Lynch – construíram um império de facto, o qual, segundo as regras que impuseram a um mundo derrotado, incluída aí uma Grã-Bretanha falida, basear-se-ia na supremacia no mundo, do dólar dos EUA.

Em 1945, foi fácil fazer uma Europa derrotada aceitar o Padrão-ouro de Câmbio de Bretton Woods, pelo qual todas as moedas seriam ancoradas no dólar dos EUA e só o dólar ligado ao ouro, a $35/onça, onde o dólar ficou até o colapso do sistema em agosto de 1971 e o fim, decretado por Nixon, da convertibilidade ouro-dólar. Mas então a Europa vivia um boom com a indústria moderna reconstruída, e os EUA iam-se convertendo em “cinturão da ferrugem”. França e Alemanha exigiam ouro dos EUA, em lugar de dólares inflacionados, e as reservas de ouro dos EUA estavam evanescendo.

Depois de 1971, o dólar inundou o mundo, sem qualquer atenção às regras que protegiam a reserva em ouro, e o poder militar dos EUA durante a Guerra Fria forçaram o Japão, a Europa Ocidental e outros países inclusive a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP, a aceitar dólar-papel cada vez mais inflacionado.

De 1970 até 2000, o volume de dólares no mundo subiu 2.900%. Porque o dólar era a “moeda de reserva” mundial, da qual precisavam todos para comprar petróleo, bens, grãos, o mundo foi obrigado a engolir uma inflação-mamute, de facto, depois de 1971.

O monopólio corrompido da ‘avaliação de riscos’

As agências de avaliação de riscos para investimentos estabelecidas em New York teriam papel estratégico nesse sistema-dólar pós-1971.

Durante os anos 1970, a Comissão de Seguros e Câmbio do Governo dos EUA [orig. US Government’s Securities & Exchange Commission], encarregada de supervisionar os mercados de ações e de papéis,[1] lançou uma norma que dava às então dominantes agências de avaliação de riscos de New York – Moody’s e Standard & Poor’s (e mais adiante também Fitch Ratings) – um monopólio de facto protegido, em mercado não regulado, quando decidiram que só “Organizações de Classificação Estatística de Riscos Reconhecidas Nacionalmente” [orig. “Nationally Recognized Statistical Rating Organizations”] seriam qualificadas para determinar quadros apropriados de riscos, quer dizer: só as empresas Moody’s e S&P. Foi quando a corrupção foi distribuída em ritmo endêmico por todo o jogo de ‘avaliações de risco’ nos EUA. E Washington foi parte nesse negócio sujo.

Ao final dos anos 1970, usando a enorme quantidade de “petrodólares” da OPEP dos dois choques do preço do petróleo, em 1973 e 1979, os bancos internacionais de New York, usando Londres, começaram a emprestar para o resto do mundo para financiar importações de petróleo e outros produtos essenciais. As agências de avaliação de crédito de New York, que antes só avaliavam ações (de empresas), expandiram para novos mercados das dívidas externas, como as maiores e as únicas agências ‘oficiais’ de avaliação de crédito na nova fase da dolarização e globalização dos mercados de capital. Instalaram filiais na Alemanha, França, Japão, México, Argentina e outros mercados emergentes, como fizeram também as “Cinco Grandes” empresas de contabilidade dos EUA.[2]

Durante os anos 1980, as agências de avaliação de riscos tiveram papel chave na operação de desqualificar a dívida de países devedores na América Latina como o México e a Argentina. As avaliações que distribuíram determinavam se os países devedores podiam ou não tomar mais empréstimos. Os insiders do mercado financeiro em Londres e New York falavam abertamente de as agências servirem-se da situação de monopólio, para fazer avaliações “políticas” e, com elas, promover a agenda de Wall Street e do Sistema Dólar.

Então, nos anos 1990, as agências de avaliação de riscos para investimentos de New York desempenharam papel decisivo na operação de disseminar a “crise asiática” de 1997-98. Com o preciso timing de seus ‘rebaixamentos’, podiam fazer aumentar o pânico, porque haviam permanecido suspeitamente silenciosas até o primeiro sinal da crise.

O resultado foi que as economias dos até então “tigres asiáticos”, Tailândia, Coreia do Sul e Indonésia, foram pela primeira vez forçadas a submeter-se a condicionalidades destrutivas do FMI, processo cujo resultado final foi exportação massiva de capitais, da Ásia para bônus em dólares norte-americanos, que geraram o que se conheceu como “prosperidade dos anos Clinton”.

Antes da crise asiática de 1997-98, os dólares estavam fluindo para investimentos nas economias dos Tigres. Depois, cerca de $200 bilhões por ano, segundo estimativa do Banco Internacional de Compensações [orig. Bank for International Settlements], passaram a fluir na direção contrária, para papeis do Tesouro dos EUA, empurrando para baixo as taxas de juros nos EUA, e fazendo inflar a bolha das ações das empresas dot.com.

Curiosamente, quando a coisa chegou ao quintal deles mesmos, como no caso da gigante texana de energia Enron em 2001, a maior falência empresarial nos EUA do pós-guerra, as agências de avaliação de risco nada viram, nada ouviram, nada haviam dito. Haviam dado à Enron a melhor ‘avaliação’ possível até o último momento. Moody’s & amigos fizeram exatamente o mesmo com as ‘avaliações’ que distribuíram para as empresas imobiliárias norte-americanas carregadas de contratos “subprime” – os empréstimos segurados por hipoteca de casas nos primeiros sete anos do novo século. Distribuíram a mancheias ‘avaliações’ do mais alto nível AAA, até o momento em que eclodiu o pânico, em março de 2007. Fizeram-no, apenas de haver sinais de crise por todos os lados, no que não passava de violento conflito de interesses: os próprios emissores de hipotecas podres de Wall Street, sob as bizarras regras do jogo da ‘avaliação de riscos’ dos EUA, pagavam aos avaliadores para que avaliassem os emprestadores de empréstimos garantidos por hipotecas podres. As agências de ‘avaliação de riscos’ estavam ganhando uma catarata de dinheiro, só por avaliar os novos papeis podres, e não tinham nenhum interesse em “retirar da sala o saco-de-pancadas, bem quando a festa começava a ficar quente de verdade.” Muito menos, de fato, Alan Greenspan, do Fed.

Muito notavelmente, as Três Grandes norte-americanas da ‘avaliação de riscos’ sempre foram virtualmente não reguladas. Não precisam temer qualquer ação legal por suas ‘avaliações’, por mais enviesadas politicamente que sejam, porque a Suprema Corte dos EUA já decidiu que as ‘avaliações’ são simplesmente expressão da opinião informada da agências e, como tal, são protegidas pela Primeira Emenda.

Só em 2006 foi aprovada no Congresso uma ‘falsa lei’, denominada enganadoramente de “Lei de Reforma das Agências de Avaliação de Crédito” [orig. Credit Rating Agencies Reform Act], que não teve nenhum efeito visível para o disciplinamento das agências de ‘avaliação’. Foi reforma puramente cosmética, para convencer os eleitores de que o Congresso-integralmente-na-gaveta-de-Wall Street estaria fazendo alguma coisa para evitar que a crise se repetisse.

Na crise da dívida soberana da Grécia, quando os governos da União Europeia estavam perto de finalizar um acordo para estabilizar a dívida pública grega, em abril de 2010 Standard & Poor’s (S&P), repentinamente rebaixou três graus a classificação da dívida do estado grego, instantaneamente convertida em “lixo”; o rebaixamento forçou muitos fundos de pensão em todo o mundo a liquidar os correspondentes papéis. Esse movimento de ‘avaliação’ gerou toda a crise do euro. E, simultaneamente, salvou o despencante dólar norte-americano, coração do sistema-dólar de Wall Street-Tesouro dos EUA.

Fracasso da agência de ‘avaliação’ da União Europeia (UE)

O timing escandaloso daquele ‘rebaixamento’ da Grécia pela S&P, em abril de 2010, convenceu muitos governos na UE da urgente necessidade de uma Agência de Avaliação Europeia verdadeiramente independente. Mas é espantosa a inabilidade da EU para agir nessa direção, mesmo já decorridos sete anos do estouro da crise financeira de 2007-8. A União Europeia nada fez para defender os seus próprios interesses soberanos, e criar uma autoridade independente para avaliar créditos. Em abril de 2012, faleceu a tentativa para implantar uma entidade europeia de avaliação de créditos que, diferente do modelo dos EUA, não seria financiada pelos governos ou empresas que recebem o ‘grau’. Morreu por falta de apoio e, segundo fontes bem informadas, por ação de sutil pressão de Washington. Washington e Wall Street não cedem facilmente esses seus monopólios estratégicos.

‘Avaliadores’ ameaçam a Rússia

Agora, os EUA estão tentando usar suas agências de ‘avaliação’ para tentar empurrar a Rússia de Putin para o precipício do calote.

Na véspera do Natal, 23/12/2014, quando quase todo o mundo decorava as árvores de Natal ou comprava presentes, a Standard & Poor, mesma empresa de ‘avaliação’ que disparou a crise grega em abril de 2010, anunciou que “com no mínimo 50% de chances”, a Rússia será rebaixada à categoria de crédito-lixo no período de 90 dias. Diziam que no final de janeiro, a S&P distribuiria sua ‘avaliação’. Dia 12/1/2015, a Fitch, a menor das Três Grandes avaliadoras norte-americanas fez eco à S&P e também falou em “crédito-lixo”.

A Moody’s classificou a Rússia um degrau acima do que disseram S&P e Fitch. Em abril, quando a guerra financeira de Washington e do Tesouro dos EUA contra a Rússia começou, S&P rebaixou um degrau a avaliação da dívida soberana da Rússia, para BBB-. Em resumo: o cartel da ‘avaliação de riscos’ em New York mantém uma espada de Dâmocles sobre a Rússia.

O grau ‘lixo’ forçará muitos fundos internacionais de pensões e institutos internacionais de investimento a vender papéis do estado russo, exatamente como na crise do calote do rublo em 1998, crise na qual o bilionário e proprietário de fundo de investimentos George Soros teve papel, além de chave, também imundo, e matador.

Chama especialmente a atenção que o mesmo Soros esteja hoje aos berros, de cima de todos os telhados e também nas páginas da grande imprensa-empresa financeira, ‘exigindo’ que a UE e os EUA e outros governos tratem de ‘resgatar’ a Ucrânia e não permitam um calote que feriria gravemente os fundos e entidades privadas que têm cofres cheios de papéis da Ucrânia. Soros também bate tambor a favor de guerra contra a Rússia de Putin.

Rumores de mercado dizem que Soros, oportunista, comprou quantidade enorme de papéis ucranianos baratos, confiando que a UE ‘resgataria’ a Ucrânia. A EU não resgatou a Ucrânia e, agora, a velha raposa dá sinais de pânico. Dia 13/1/2015, Soros foi a Kiev reunir-se com o bilionário presidente ucraniano Petro Poroshenko. Em Kiev, Soros ‘declarou’ que “a Ucrânia luta para se autoproteger, mas também para proteger a Europa (sic!). Portanto, a Europa tem o dever de ajudar a Ucrânia a fazer as reformas necessárias para o país.”

Juncker, presidente da Comissão da UE disparou os piores medos de Soros, quando, dia 17/12/2014, anunciou que não haveria dinheiro da EU para ‘resgatar’ a Ucrânia, não, com certeza, pelos próximos dois anos. A EU tem outros peixes na frigideira. É o triste saldo das róseas promessas de fevereiro de 2014, quando a UE prometeu bilhões em apoio financeiro para o golpe que levou ao poder os neonazistas que a própria UE e Washington instalaram ilegalmente em Kiev, com a promessa oca de que a Ucrânia teria status de membro-associado na UE.

Rússia e China em ação

Porém, diferente da politicamente impotente União Europeia, a Rússia hoje já não é a Rússia do corrupto Yeltsin de finais dos anos 1990. Vladimir Putin e Xi da China decidiram conjuntamente criar sua própria agência internacional de avaliação de crédito e planejam já pô-la em operação no corrente ano.

O Grupo de Avaliação de Crédito Universal, GACU [orig. Universal Credit Rating Group, UCRG] planeja começar em 2015 a publicar avaliações de risco independentes, para esvaziar o monopólio de que se beneficiam hoje as agências Moody’s, S&P e Fitch – segundo o diretor de RusRating, Aleksandr Ovchinnikov.

A nova agência terá sede em Hong Kong. E há um terceiro membro em condições de igualdade com Rússia e China no novo GACU. Além da chinesa Dagon Credit Rating Agency e da russa RusRating, lá está também a empresa independente, com base nos EUA, Egan-Jones Ratings. Cada membro tem quota igual no negócio, com um investimento inicial de $9 milhões. Com efeito, o GACU é constituído de três agências nacionais independentes e muito bem implantadas de avaliação de risco para investimento. É realmente confronto direto e importante contra o monopólio das Três Grandes de New York.

A empresa Egan-Jones Ratings Company, também conhecida pela sigla EJR, foi fundada em 1995 e é interessante parceira para os avaliadores russos e chineses de riscos para investimentos. É a única, de todas as organizações para divulgação de riscos estatísticos reconhecidas nos EUA que é totalmente mantida por investidores, não é financiada só por clientes – o que elimina o conflito de interesses que tira toda a credibilidade das ‘avaliações’ montadas pelas Três Grandes. Dia 5/4/2012, Egan-Jones foi a primeira agência que rebaixou a avaliação do crédito dos EUA. E Egan-Jones foi também a primeira agência que degradou o crédito de WorldCom e da Enron.

O GACU, grupo de avaliação de risco para investimentos constituído por russos e chineses em Hong-Kong, foi oficialmente criado em junho de 2013 e desde então trabalha na finalização de sua estrutura de negócios. Ovchinnikov acrescentou que “Quando surgiu a questão de criarmos uma agência alternativa, que livrasse o mundo das “Três Grandes”, nós logo apresentamos um projeto que estava pronto para ser executado, e era apoiado pelos governos de Rússia e China.” Denunciou explicitamente o viés deformante dos avaliadores norte-americanos, sempre muito “generosos” com clientes dos EUA e da União Europeia, e muito adversários dos países emergentes e em desenvolvimento, como os BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Agora, com uma agência independente para avaliação de crédito; com um Banco para Desenvolvimento da Infraestrutura dos BRICs com capital inicial de $100 bilhões; e já vigentes vários acordos estratégicos para o comércio em moedas locais, Rússia e China, e os países BRICS trabalhando a favor deles mesmos, estão dando os retoques finais numa arquitetura genuinamente alternativa aos neocolonialistas e destrutivos FMI e Banco Mundial, que pode, afinal, se opor à tirania do sistema-dólar de Wall Street. O ano de 2015 será realmente muito interessante. O Sr. Soros, coitado, talvez precise recomeçar a procurar trabalho.

***

[1] Orig. Stocks and bonds: “são as duas principais classes de valores que os investidores usam em seus portfólios. “Ações” [orig. “stocks”] correspondem a fatias da propriedade de uma empresa; “papeis” [orig. “bonds”] são como empréstimos feitos a uma empresa (corporate bond) ou outras organizações (como o Tesouro dos EUA). Em geral os “papeis” são considerados mais arriscados e mais voláteis que “ações”. Mas há muitos diferentes tipos de ações e papeis, com graus variados de volatilidade, risco e retorno” [NTs, com informações de http://www.diffen.com/difference/Bond_vs_Stock].

[2] “Até 2002, as “4Grandes” eram as “5Grandes” empresas de contabilidade. A empresa Arthur Andersen foi excluída da lista depois do Enron scandal. Arthur Andersen era encarregada da auditoria contábil da Enron e foi considerada envolvida na falsificação de registros financeiros” [NTs, com informações de http://www.big4accountingfirms.org/big-5-accounting-firms/]

Publicado em 22/1/2015, F. William Engdahl, New Eastern Outlook

http://journal-neo.org/2015/01/22/watch-out-moody-s-here-we-come/

Tradução: Vila Vudu

Em Davos: multinacional Chevron ganha prêmio de pior empresa do planeta

Por Sergio Ferrari | Via Adital

A Declaração de Berna e o Greenpeace outorgaram à Chevron o “Prêmio Vergonha Superlativa”. Os 64 mil votantes vía Internet elegeram a gigante petroleira estadunidense como a pior empresa do planeta, responsável, entre outras coisas, pelo desastre ecológico na selva virgem do norte do Equador.

Esse premio, acordado na tarde da sexta-feira, 23 de janeiro, na cidade alpina helvética, é o de despedida do “Olho Público”, após 15 anos de existência. O olhar cidadão, crítica contra o poder econômico e político mundial, considera que esse Foro não representa já o lugar mais adequado, nem o prêmio o método mais efetivo de denúncia.

A partir de maio próximo, as organizações que promoveram até agora o “Olho Público”, se lançarão com outras 50 associações de desenvolvimento, ecológicas, ambientais, de direitos humanos e sindicais, em uma campanha política em favor da Iniciativa Popular “Por multinacionais responsáveis”.

A mesma tentará com o apoio popular de dezenas de milhares de assinaturas, a aprovação de uma lei que obrigue as multinacionais helvéticas a respeitarem no estrangeiro – especialmente no Sul e no Leste – os direitos humanos e os estandartes meio ambientais, que devem cumplrir na Suíça mesmo.

Gigante “desumano”

A organização Amazon Watch batizou a empresa Chevron, com sede em San Antonio, Estados Unidos da América do Norte, pelas contínuas e sistemáticas violações aos direitos humanos e ambientais na Amazônia norte do Equador.

Segundo a ONG, desde o início de suas ações de exploração na zona (1964) até agora, a Chevron tem o recorde de mais de 50 anos de uma prática imoral e anti-ética, que tem afetado, de maneira direta, as populações assentadas nas províncias de Orellana e Sucumbíos, na selva equatoriana.

A Amazon Watch recorda que a Chevron Corp. já foi sentenciada pela justiça do Equador a pagar 9,5 bilhões de dólares devido aos danos ambientais provocados por sua má operação, com impactos nefastos na saúde e no bem estar dos povos que habitam as zonas afetadas, ademais das implicações diretas para o aquecimento global e a destruição da Amazônia.

“Apesar disso, ela tem usado todo o poder econômico e político para fugir da justiça mundial e colocar em andamento todo o sistema de impunidade frente ao abuso das transnacionais, o que tem levado os lutadores indígenas e camponeses equatorianos a recorrerem às Cortes da Argentina, Canadá, Brasil e, inclusive, à Corte Penal Internacional em Haia”, lembra a organização acusadora.

Davos: entre o poder e a denúncia cidadã

Muitos países destinam menos recursos públicos para educar as crianças dos segmentos mais pobres da população do que aos menores pertencentes às classes mais altas, revela um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância.

Em alguns casos, a destinação de fundos educativos aos 20% mais ricos chega a ser até 18 vezes maior do que os destinados aos 20% mais pobres, detalha o estudo recentemente elaborado e que foi apresentado no marco do Fórum Econômico Mundial de Davos, realizado na Suíça entre 21 e 24 de janeiro. Este Fórum reúne a cada ano os grandes patrões da economia mundial, assim como representantes de governos e instituições financeiras internacionais.

O informe do Unicef defende um gasto mais equitativo na educação, chamando os governos a darem prioridade às necessidades das crianças mais marginalizadas.

A diretora executiva adjunta do Unicef, Yoka Brandt, assinalou que, atualmente, há no mundo bilhões de crianças em idad de assistir ao primária ou secundário e que muitos deles não recebem uma educação de qualidade devido à pobreza, aos conflitos e à discriminação por questões de gênero, discapacidade ou etnicidade.

“Para mudar essa situação necessitamos revisar a fundo nossas práticas, outorgando mais recursos e distribuindo-os igualitariamente”, apontou. O Unicef indica que faltariam 26 bilhões de dólares para a provisão de educação universal básica em 46 países de renda baixa e alertou que, desde 2009, a assistência oficial à educação diminuiu 10%. Nesse sentido, urgiu governos, doadores e o setor privado a incrementar o gasto em educação e a garantir que os fundos sejam utilizados de maneira inteligente e equitativa.

A concentração brutal da riqueza

O documento crítico do Unicef se soma a outras vozes de denúncia sobre a má distribuição dos recursos naturais e da riqueza no mundo.

Apenas horas antes de ser iniciada a 45ª edição do Fórum Econômico Mundial, a Oxfam Internacional apresentou às personalidades presentes em Davos um estudo que indica que, em 2016, 1% da população mundial acumulará mais riqueza do que os outros 99%.

O Informe “Insaciável riqueza: sempre mais para os que já têm tudo” mostra que o patrimônio mundial que possui o 1% mais rico do planeta passou de 44%, em 2009, para 48 % em 2014, e superará 50% em 2016. Em 2014, cada membro adulto dessa elite internacional possuía em média 2,7 milhões de dólares.

Esse pequeno grupo disporá de mais da metade do dinheiro do planeta a partir de 2016, em um marco internacional preocupante, no qual uma de cada nove pessoas carece hoje de alimentos suficientes e mais de 1 bilhão de pessoas vivem com menos de 1,25 dólar por dia.

No ano passado, um informe da Oxfam criou estupor em Davos. Revelava que as 85 pessoas mais ricas contavam com uma riqueza similar à metade mais pobre da população mundial. Em 2015, são 80 os multimilionários que têm o mesmo patrimônio que 3,5 bilhões de pessoas. É significativo recordar que, em 2010, tratavam-se de 388 multimilionários. Em termos absolutos, a riqueza das 80 pessoas mais enriquecidas do mundo duplicou entre 2009 e 2014, ressalta a Oxfam.

A ONG internacional chama os Estados a adotarem um plano de sete pontos para lutarem contra as desigualdades crescentes. Entre as propostas: terminar com a evasão fiscal das grandes empresas e fortunas; investir em favor da gratuidade e da universalidade dos serviços públicos como a saúde e educação; repartir com justicia a carga fiscal; instaurar um salário mínimo e trabalhar em favor de um salário decente; instaurar uma legislação em favor da igualdade salarial; promover uma política de proteção social que favoreça os mais empobrecidos e internacionalizar e generalizar a luta contra a desigualdade.

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*- Sergio Ferrari, en colaboración con E-CHANGER/COMUNDO, organización helvética de cooperación solidaria integrante de la Asociación *Derecho sin Fronteras*

Em meio à crise hídrica, minerodutos utilizam água dos rios para levar polpa de ferro ao porto

Por Bruno Porto | Via Hoje em Dia

A seca prolongada ameaça o abastecimento de água e energia elétrica, mas a crise hídrica passa longe das atividades de mineração em Minas Gerais. Os minerodutos – tubulações que levam o minério de ferro em estado arenoso misturado com água, como se fosse uma polpa – operam a todo vapor, e novos projetos estão em andamento, sinalizando para a continuação do desperdício de um recurso precioso.

Os quatro projetos de mineração do Estado que têm dutos para o transporte do ferro contam com uma outorga de captação de água suficiente para suprir uma cidade de 1,6 milhão de habitantes. O uso de água pelos minerodutos chama a atenção porque muitas vezes não há o reaproveitamento do recurso hídrico, que é descartado no mar.

A Manabi, por exemplo, mineradora em implantação no município mineiro de Morro do Pilar, tem outorga para uso de 2.847 metros cúbicos (m3) de água por hora. Deste volume, um terço, ou 949 m3 por hora serão usados no mineroduto, que irá até Linhares, no Espírito Santo. A própria empresa informa: “o projeto não prevê reuso da água usada no mineroduto, mas para essa mistura que segue para Linhares, a Manabi projetou um sistema de tratamento e filtragem, garantindo atendimento da qualidade definida pelo Conama, antes do seu descarte no mar”.

Os volumes de água utilizados pelos minerodutos não foram informados, mas, caso as três outras empresas com minerodutos em operação ou em licenciamento ambiental no Estado utilizem a mesma proporção de um terço da outorga para uso no transporte via dutos, seriam 3.711 m3 por hora de água retirada dos mananciais mineiros que teriam como destino o descarte no mar. Esse volume equivale a 3,711 milhões de litros de água por hora, e é suficiente para abastecer um município com 558 mil habitantes, mais do que a população de 546 mil pessoas de Juiz de Fora, a quarta cidade mais populosa de Minas Gerais.

A conta considera o diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério das Cidades, que apontou um consumo médio per capita de água, em Minas Gerais, de 159 litros por dia, ou 4.782 litros mensais.

Atualmente, quatro minerodutos estão em operação com captação de água em rios de Minas Gerais (três da Samarco e um da Anglo American) e outros dois (Ferrous e Manabi) estão em fase de licenciamento ambiental junto ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama). A permissão para captação de água nos cursos de água é concedida pelo Instituto Mineiro de Gestão de Águas (Igam), órgão subordinado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).

Lei prevê cobrança pelo uso de recursos hídricos

As quatro mineradoras com atuação em Minas Gerais que utilizam o mineroduto como meio de escoamento da produção foram procuradas pelo Hoje em Dia. Samarco e Ferrous foram as únicas que não informaram as outorgas que possuem, mas os dados foram informados pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).

A Anglo American, que possui um mineroduto em operação, sustenta que parte da água usada nos dutos de transporte de minério de ferro é reutilizada, mas não informa o volume e não detalha como o reuso se tornou viável.

A Manabi, em resposta aos questionamentos apresentados, ressaltou que nos estudos para verificação da viabilidade de seu projeto de mineração, a avaliação da disponibilidade hídrica foi um dos temas principais, “cercado dos cuidados demandados pela questão, com antecipação das tratativas legais associadas à obtenção da outorga de direito de uso das águas”.

Infraestrutura

A proliferação do uso do mineroduto surgiu como alternativa para o escoamento da produção, devido aos altos custos do transporte rodoviário para volumes elevados de minério de ferro e à saturação da malha ferroviária.

O investimento em novos ramais de ferrovias é considerado muito alto, o que assegura atratividade ao mineroduto. O ganho logístico gerado pelos minerodutos está ainda no fato de operarem 24 horas por dia, todos os dias.

A Política Nacional de Recursos Hídricos e a Política Estadual de Recursos Hídricos de Minas Gerais, regulamentada pelo Decreto 44.046, de 13 de junho de 2005, estabeleceu a cobrança pelo uso da água, até então sem nenhum ônus para as empresas.

Samarco e Ferrous não informaram o valor que pagaram pelas captações. A Anglo American informou que, em 2014, o pagamento foi de cerca de R$ 900 mil. A Manabi declarou ter pago R$ 542,3 mil.

Mercado de trabalho e ajuste fiscal

Por Marcio Pochmann | Via Brasil Debate

A principal anomalia no atual programa do seguro desemprego, que o faz elevar a quantidade de beneficiários e os gastos totais justamente nos períodos de maiores taxas de emprego formal, é a rotatividade e a informalidade na ocupação.

O trabalho no Brasil registra especificidades que o distingue do funcionamento do mercado laboral de outros países, sobretudo o das economias capitalistas avançadas. Como a literatura especializada adotada predominantemente nas escolas de economia do País tem como referência as economias ricas do mundo, não se apresenta fato incomum análises que destoam da real situação interna das relações capital-trabalho.

Exemplo disso pode ser identificado no debate atual que decorre da implementação da Medida Provisória 665 do penúltimo dia do ano passado, voltada à redução de parcela dos gastos públicos com a assistência aos desempregados.

Para os que deverão utilizar o seguro desemprego pela primeira vez, o novo requisito mínimo passa a ser o de 18 meses acumulados nos últimos 24 meses anteriores à rescisão do registro em carteira (ao invés de 6 em 36 meses).

Em relação ao ano de 2014, por exemplo, a aplicação da nova medida implicaria excluir 26,5% dos 8,6 milhões de requisitantes do seguro desemprego do acesso ao benefício. Na sua maior parte, os jovens seriam os mais afetados, uma vez que estariam justamente na fase inicial de ingresso no mercado de trabalho.

Destaca-se que, de acordo com o IBGE/Pnad, a taxa nacional de desemprego do ano de 2013 foi de 6,5% do conjunto da força de trabalho. Mas em relação às faixas etárias prevalece significativa diferenciação no desemprego.

No caso dos jovens, por exemplo, a taxa de desemprego apresenta-se mais expressiva, como nos casos da faixa etária de 15 a 17 anos que atingiu 23,1% (3,6 vezes maior que a geral) e de 18 a 24 anos com 13,7% (2,1 vezes que a geral) de desempregados no ano de 2013.

Para a população adulta, a taxa de desemprego no mesmo ano se mostra menos intensa, como no segmento etário de 25 a 49 anos que representou 5,4% (17% menor que a geral) e, ainda, para os detentores de 50 anos e mais de idade com desemprego de 2,4% (63% menor que a geral).

Por outro lado, deve-se considerar que a principal anomalia no atual programa do seguro desemprego, que o faz elevar a quantidade de beneficiários e, em consequência, os gastos totais justamente nos períodos de elevação no nível de emprego formal e não o contrário, como na maior parte dos países, é a rotatividade e a informalidade na ocupação.

Isso porque o País ainda possui uma parcela de sua mão de obra na situação de informalidade que se encontra excluída do acesso ao seguro desemprego.

Assim, à medida que o nível de emprego assalariado formal aumenta, os trabalhadores passam a ter condições de cumprir os requisitos de acesso ao seguro desemprego. Isoladamente, isso pouco alteraria a trajetória dos segurados do seguro desemprego, salvo pela rotatividade.

Observa-se que, desde o ano de 2008, quando se iniciou a crise econômica de dimensão global, o Brasil se tornou um dos poucos países do mundo cujo desemprego decresceu ao ritmo médio anual de 6,9%, ao passo que subiu 4,8% no México, 7,1% na França, 9,5% na França e 11,9% na Itália.

Não obstante a queda na taxa de desemprego dos brasileiros, o nível da ocupação assalariada cresceu 9,4% ao ano, em média, enquanto a quantidade de beneficiados do seguro desemprego aumentou 21,5% como média anual.

Nos países ricos, os segurados e valor total dos gastos aumentam justamente na fase em que o desemprego se eleva e não o contrário, como ocorre no Brasil.

Isso porque, aqui, a flexibilidade contratual estabelecida pela facilidade no uso da rotatividade no emprego termina por ampliar a quantidade de trabalhadores que passam a cumprir os requisitos do programa de garantia de renda aos desocupados.

Com a redução da rotatividade, o Brasil poderia presenciar situação equivalente ao que ocorre na dinâmica do seguro desemprego nas economias avançadas, ou seja, a redução sensível na quantidade de usuários do seguro desemprego e, por consequência, no volume de gastos públicos.

Percebe-se, portanto, que a sociedade encontra-se diante de excelente oportunidade para enfrentar em definitivo e em novas bases a problemática da rotatividade no Brasil, avançando para relações modernas de trabalho.

E ao cumprir esta etapa fundamental de modernização no mercado de trabalho, encontraria as melhores condições de redução dos gastos desnecessários que por ventura são gerados pelo uso do seguro desemprego em função da rotatividade abusiva.

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Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas.

“Há espaço para aumentar o comércio entre a Rússia e a América Latina”

Por Tatiana Rublióva | Via Gazeta Russa

Insulza: “Se a Rússia entrar com tudo na América Latina, não acho que vá enfrentar uma concorrência muito acirrada” Foto: Reuters

Sanções impostas por Europa e EUA estimulam Rússia a buscar aliados na América Latina. Recentemente, os volumes de comércio, investimento e cooperação militar com países latino-americanos aumentaram consideravelmente. Em entrevista à Gazeta Russa, Jose Miguel Insulza, presidente da Organização dos Estados Americanos (OEA), falou sobre as perspectivas da Rússia na região.

Como o senhor avalia o estado atual das relações entre a Rússia e a OEA?

A Rússia assume papel de observador na OEA – e de forma bastante ativa. Temos boas relações e, embora a OEA promova principalmente as relações multilaterais, e não bilaterais, servimos como uma ponte, que ajuda os membros a se manterem bem informados sobre tudo o que acontece nas Américas.

Quais são os caminhos mais promissores na colaboração entre a Rússia e a América Latina?

A América Latina continua a exportar um monte de mercadorias que a Rússia, obviamente, não precisa comprar de nós. No entanto, ainda há espaço para melhorar significativamente o comércio entre a Rússia e os países latino-americanos. Sempre existiu troca comercial no setor agrícola; há também indústrias de transformação bem desenvolvidas no Brasil, no México, na Argentina e no Chile. Os intercâmbios culturais, que durante os tempos soviéticos eram especialmente fortes, estão agora ganhando fôlego novamente.

Qual é o maior concorrente da Rússia nesse mercado?

A China é, naturalmente, um grande comprador, embora isso dependa da região. No caso da América do Sul, apesar de a China exportar uma grande quantidade de manufaturados para lá, importa muito mais em termos de matérias-primas e produtos agrícolas. Na América Central e no México, há provavelmente mais rivalidade, mas isso se refere em grande parte à concorrência entre os produtos locais destinados ao mercado norte-americano.

Se a Rússia entrar com tudo na América Latina, não acho que vá enfrentar uma concorrência muito acirrada. O exemplo chinês, no entanto, mostra quão grandes podem ser as possibilidades no mercado latino-americano. O presidente chinês Xi Jinping anunciou um grande investimento na região, em torno de US$ 250 bilhões ao longo dos próximos dez anos, ou US$ 25 bilhões ao ano. Realmente espero que isso aconteça, mas não há motivo de preocupação – as oportunidades de desenvolvimento na América Latina são enormes.

Como o renascimento dos laços diplomáticos entre os EUA e Cuba pode afetar a situação geopolítica na América Latina?

Essa questão vai, de fato, mudar um pouco a situação geopolítica na região, já que a barreira artificial que deveria ter sido derrubada há muito tempo desaparecerá. Isso aumenta as possibilidades de viagens, trocas comerciais, operações financeiras e atividade cultural. Acredito que Cuba vá mudar o escopo de suas relações diplomáticas.

O senhor acredita que os países latino-americanos vão começar a adotar uma postura mais positiva em relação aos EUA?

Os países latino-americanos estão convencidos de que os EUA é o seu principal parceiro, e todos têm esperança de melhorar as relações comerciais com o país. Claro que existem algumas exceções – uma delas é a Venezuela. No entanto, 90% das suas exportações são de petróleo, e eles têm um acordo comercial muito favorável com os EUA, que lhes permite vender a quantidade de petróleo que quiserem.

Acho natural que a América Latina, que cresceu bastante na última década, esteja mais aberta para os negócios e para o mundo do que nunca. Mas isso não tem que ferir o seu principal parceiro, os EUA – que continua a ser o líder regional em trocas comerciais e investimento.

A América Latina pode se tornar uma região em que Rússia e EUA competirão por influência, assim como acontecia na Guerra Fria?

Não creio que isso possa acontecer. A necessidade de diálogo entre o Ocidente e a Rússia é essencial – há poucas alternativas. Mas, se o diálogo não for para frente, a maioria dos problemas ocorrerão na região euroasiática, e não na América Latina.