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O alvo é a democracia

Por Paulo Moreira Leite | Via paulomoreiraleite.com

Bem medidas as coisas, o ataque de Joaquim Barbosa e Sergio Moro as reuniões do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, com advogados de acusados da Lava Jato é uma tentativa de afrontar a autoridade da presidente Dilma Rousseff.

Não cabe a um magistrado aposentado, dizer a presidente da República o que ela deve fazer. O ministro da Justiça pode, deve e já foi criticado por várias razões. Só não pode ser judicializado.

Nem Joaquim Barbosa nem Sergio Moro podem dar a impressão aos brasileiros de que tem a atribuição de definir funções e estabelecer limites a um ministro de Estado.

A democracia não é uma gritaria irracional de arquibancada, onde vence quem fala mais grosso. Magistrados falam pelos autos, lembrou Sérgio Moro, ontem. Lembrou mas curiosamente não cumpriu. Assim como Joaquim Barbosa. Ele evitava receber advogados quando estava no STF mas agora recomenda aos réus da Lava Jato que procurem o juiz.

Vivemos sob o regime de divisão de poderes, que devem ser respeitados em suas diferenças e funcionar em harmonia.

A atuação do ministro da Justiça é extensão legítima da soberania da presidente, que recebeu do eleitor a incumbência de montar seu governo e orientar seus atos. A não ser em bailes de carnaval, não se pode “exigir” da presidente que demita seu ministro, da mesma forma que não se podia “exigir”, antes, que fosse nomeado. (Exigir, explica o mini-Houaiss, significa “pedir em tom autoritário, determinar por ordem ou intimação”).

Cardozo não só tem o direito de receber advogados sempre que julgar necessário. Tem o dever de agir desse modo — toda vez que considerar que essa decisão pode ser útil para realizar sua obrigação política fundamental, que é garantir e defender a Constituição, onde vigora a noção de que toda pessoa é inocente até que se prove o contrário.

Uma recusa pode ser considerada omissão — e isso sim seria grave, digno de indignação.

Lançar suspeitas sobre um ministro que recebe um advogado é um exercício primário de linchamento.

Trai o vício típico de quem se acha no direito de acusar sem provar — o que é lamentável mas não é novo.

O argumento de que advogados devem dirigir-se a juízes e não a políticos seria apenas ridículo se não fosse, antes de tudo, vergonhoso.

Numa democracia, nenhuma autoridade tem o monopólio da defesa dos direitos da cidadania, até porque não há garantia de que esteja sempre a disposta a honrar este dever. Foi um senador conservador de Alagoas, Teotônio Vilela, quem abriu a porta das cadeias para ouvir os presos políticos que enfrentavam a tortura da ditadura. Foram familiares, foram advogados, que se dispuseram a colher relatos de horror e sofrimento. Alguns eram políticos. Outros, se tornaram.

Mesmo em tribunais superiores, em teoria muito mais protegidos em suas prerrogativas especiais, a regra era o silencio das togas encurvadas, da boca fechada. Denuncias de tortura e execução estavam disponíveis em quantidade, em corajosos depoimentos de réus e testemunhas, mas ninguém foi investigado por isso. Nenhum processo foi anulado porque um cidadão fora pendurado no pau-de-arara ou havia sido submetido ao interrogatório com choques elétricos. Sobraram denúncias, arquivadas cuidadosamente, e só divulgadas quando nada mais poderia ser feito para localizar e punir os responsáveis.

Há um outro ponto. Nas últimas semanas, denúncias de abuso nas delações premiadas e nas prisões preventivas de acusados da Operação Lava Jato se tornaram frequentes, gerando um ambiente de mal-estar nos meios jurídicos. Marco Aurélio Mello, um das vozes mais respeitadas do Supremo, já manifestou seu descontentamento. Celso Bandeira de Mello, um de nossos grandes advogados, também. O que se assiste é uma tentativa de blindagem: intimida-se um ministro na tentativa de calar quem poderia falar, paralisar quem poderia reagir.

Essa é a questão.

Para sindicalista, lucro da Caixa reforça que não há motivos para abertura de capital

Via Brasil de Fato

Governo admitiu que estuda a possibilidade de abrir o capital do banco público.

No final de 2014, além dos pacotes que mexem em direitos trabalhistas como o seguro desemprego, o governo também admitiu que a abertura de capital da Caixa Econômica Federal estaria em análise.

Principal fomentador de políticas públicas no país como o Minha Casa Minha Vida e o FIES e administradora de mais de 132 milhões de contas do FGTS, essa abertura significaria uma mudança drástica nos rumos do banco.

Mas o balanço de 2014 do banco, divulgado na última quinta-feira (12) pelo Dieese, mostra que ele continua ganhando espaço no mercado, o que diminui os motivos para uma abertura de capital. O saldo das operações de crédito atingiram R$ 605 bilhões, sendo quase R$ 340 bilhões na área habitacional. No ano passado foram conquistados cerca de 6 milhões de clientes, o que fez o número de correntistas e poupadores chegar a 78,3 milhões.

“Enquanto o mercado financeiro acumula perdas desde a crise de 2008, a Caixa tem atropelado o setor privado, incomodando e despertando a cobiça. De janeiro a dezembro, o banco injetou quase R$ 700 bilhões na economia, o que corresponde a aproximadamente 13,4% do PIB. Tudo isso significa que a Caixa 100% pública é o melhor modelo para os brasileiros”, argumenta Jair Pedro Ferreira, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal, Fenae.

Ainda conforme a análise do Dieese, o lucro líquido da Caixa foi de R$ 7,1 bilhões. O saldo em ativos próprios alcançou R$ 1,1 trilhão. As contratações em operações de saneamento e infraestrutura somaram R$ 33,3 bilhões. Um total de R$ 5 bilhões foi disponibilizado em crédito rural, além dos programas de transferência de renda terem distribuído R$ 28 bilhões para 176 milhões de beneficiados.

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Com informações da Contraf/CUT.

Mídia atropela a notícia para servir ao “governo anterior”

Por Luiz Carlos Azenha | Via Viomundo

Foto do Facebook de Maurício Machado registra: “período que antecede o governo petista” é governo FHC!

Milhares de pessoas cercam o prédio de uma assembleia legislativa. Encaram bombas e balas de borracha. Impedem a votação do plano de austeridade de um dos principais governos estaduais do Brasil.

Manchete da Folha? Outra notícia, vinda também de Curitiba, extraída de um antigo depoimento do doleiro: José Dirceu sabia (dos desvios na Petrobras). Depoimento, aliás, desmentido pelo próprio. E pelo também citado tesoureiro do PT, João Vaccari. O doleiro disse à PF o que bem entendeu. No caso, ele é o réu confesso. Mas sua palavra é publicada como verdade absoluta e inquestionável.

O que está acontecendo?

O suposto envolvimento de Dirceu cai como uma luva no roteiro. Mensalão + petrolão = Lula derrotado em 2018. Mas, para que tenha credibilidade, é preciso eliminar do escândalo o que a Globonews chamou de “período que antecede o governo petista”. Sarney? Itamar? Médici?

É por isso que, como notou o presidente do PT, a curiosidade dos delegados que colhem depoimentos na Operação Lava Jato parece se fixar no período pós-2003.

É como se Youssef, o doleiro, não tivesse servido também a tucanos.

Aliás, a credibilidade do PT está no fim com os eleitores também pelo fato de o partido ter convivido muito bem, sempre, com a herança maldita dos antecessores.

A origem da máfia dos sanguessugas — que vendia ambulâncias superfaturadas — foi o ministério da Saúde sob José Serra, mas ela prosseguiu depois que Lula assumiu o poder.

O mesmo aconteceu com a máfia dos vampiros — que negociava hemoderivados.

O PT de Lula, em nome de um acordo em Minas, manteve no poder em Furnas o diretor Dimas Toledo, justamente o homem da Lista de Furnas, o esquema de financiamento de campanha de tucanos e aliados através dos fornecedores da estatal.

Marcos Valério serviu ao esquema de caixa 2 do PSDB e aliados antes de repetir a jogada com o PT e aliados.

Quando o PT no poder teve a oportunidade de provocar rupturas com o passado, não o fez.

CPI do Banestado? Terminou em acordão. CPI da Privataria? Nem então, nem depois do livro de Amaury Ribeiro Jr.

Quando um delegado da Polícia Federal teve a coragem de encanar o banqueiro, o governo se voltou… contra o delegado. O chefe da Polícia Federal foi mandado para o exílio. O banqueiro hoje financia um site de apoio ao governo Dilma!

Quando um repórter da Veja foi flagrado em aliança jornalística com o bicheiro, o PT olhou, olhou e fez que não viu.

Por isso, não foi surpresa quando o vice de um governador tucano — Afif Domingos — se tornou ministro de uma presidente petista.

Ninguém enrubesce com a perspectiva de ver Marta Suplicy, petista histórica, concorrendo à Prefeitura de São Paulo pelo PSB com o apoio de Geraldo Alckmin.

É nesta geleia geral que Curitiba assume relevância ainda maior. Não a Curitiba do Moro, mas a que impediu a austeridade de Beto Richa.

É junho de 2013, de novo.

Mas a mídia não entendeu isso. Ela está ocupada na campanha que parece não ter fim: criminalizar apenas um dos irmãos — eles estão ficando cada vez mais parecidos.

Não mencionem “PSDB” que ela enterra nas páginas internas. Na Globo, como famosamente saia no Jornal Nacional já na campanha de 2006, é “o governo anterior”.

Para esconder o grande desastre em andamento no Brasil, o apagão da água em São Paulo — este sim, não é um depoimento sem provas –, disfarça criando a perspectiva de um racionamento de energia que ainda nem é considerado.

PS do Viomundo: Conforme dissemos anteriormente, quando a blogosfera entrou em surto com a eleição de Eduardo Cunha, ele nunca se interessou pelo impeachment de Dilma. Definido como lobista por Altamiro Borges, o deputado carioca é isso: serviçal da grana. Ele não vai entregar a chave do cofre para os tucanos. Jamais. Cunha é o artífice da reação da elite brasileira contra junho de 2003. Se deixarem, vai fazer uma reforma política que nos fará ficar com saudade daquele Congresso cercado pelos manifestantes.

“Petrobrás não é isso”: Mensagem de Delfim Netto para Bendine

Via JB
Da esquerda para a direita: Aldemir Bendine, Paulo César e Delfim Netto.

Da esquerda para a direita: Aldemir Bendine, Paulo César e Delfim Netto.

Bendine pode estar tomando o caminho errado ao reavaliar ativos e metodologia.

Em resposta ao artigo que o ex-ministro Delfim Netto publicou na quarta-feira no jornal Folha de S. Paulo, o consultor legislativo da Câmara dos Deputados Paulo César Ribeiro Lima elaborou argumentos nos quais alerta que o novo presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, pode estar tomando a decisão errada ao anunciar a reavaliação de ativos e metodologias.

Paulo César Ribeiro Lima, que foi engenheiro na Petrobras durante muitos anos, destaca que a estatal tem uma série de ativos integrados que permitem a venda, por exemplo, do óleo diesel, cujo custo de produção é baixíssimo para a companhia. “É por isso que a Petrobras é a empresa mais rentável do País. Se não fosse a Operação Lava Jato, o lucro da companhia em 2015, poderia ser de R$ 45 bilhões, o maior de sua história.”

Veja a resposta de Paulo César Ribeiro Lima:

O novo Presidente da Petrobras pode tomar o caminho errado: “Nós estamos aí reavaliando uma série de ativos e as metodologias empregadas”.

A questão do “valor real ativos” da Petrobras é muito mais complexa do que se imagina. A Petrobras tem uma série de ativos integrado que permitem a venda, por exemplo, do óleo diesel, cujo custo de produção é baixíssimo para a companhia.

Supondo-se um valor do petróleo de US$ 50, o custo de produção de um litro de diesel é de cerca de R$ 0,60, enquanto seu valor no mercado internacional é de aproximadamente R$ 1,35 por litro; o preço de realização da Petrobras é de R$ 1,56 por litro. Observa-se, então, que o custo de produção do derivado é muito menor que o preço de venda, tanto no mercado interno quanto no mercado internacional. É por isso que a Petrobras é a empresa mais rentável do País. Se não fosse a Operação Lava Jato, o lucro da companhia em 2015, poderia ser de R$ 45 bilhões, o maior de sua história.

Essa lucratividade extraordinária da Petrobras decorre, principalmente, dos seus principais “ativos”: reservatórios do Pré-Sal e do Pós-Sal, terminais, dutos, refinarias e excelente corpo técnico. E por que a Petrobras têm esses ativos? Porque ela foi monopolista integral até 1997 e voltou a ser monopolista na operação do Pré-Sal e em áreas estratégicas a partir de 2010.

No caso dos grandes reservatórios nacionais, a Petrobras opera praticamente todos. Os grandes destaques são os campos de Lula (65%), Búzios (100%) e Libra (40%), cada um com mais de 10 bilhões de barris recuperáveis. Apenas em três campos, os volumes recuperáveis da Petrobras serão da ordem de 20 bilhões de barris, considerado o percentual de participação (entre parênteses). Registre-se, que existem muitos outros campos operados pela Petrobras.

Apenas para demonstrar os privilégios da Petrobras, o Conselho Nacional de Política Energética – CNPE, por meio da Resolução nº 1, de 24 de junho de 2014, aprovou a contratação direta da Petrobras para produção de volumes adicionais ao contrato de cessão onerosa. Dessa forma, a companhia tem uma posição privilegiada de produzir, sem licitação, volumes estimados, em barris equivalentes de petróleo, da ordem de:

- Búzios: 6,5 a 10 bilhões;

- Entorno de Iara: 2,5 a 4 bilhões;

- Florim: 300 a 500 milhões;

- Nordeste de Tupi: 500 a 700 milhões.

Em Búzios e em Libra, os contratos são extremamente favoráveis à Petrobras, assim como em todos os campos operados pela empresa. Na verdade, os campos petrolíferos, principalmente em águas profundas, são os grandes ativos da Petrobras.

A principal pergunta é: como esses ativos estão lançados no balanço? Pelo valor da aquisição do direito de exploração e produção, que são baixíssimos. Dessa forma, o atual patrimônio líquido da empresa é absolutamente irreal. As alavancagens financeiras divulgadas pelo mercado servem apenas para desvalorizar a Petrobras.

O principal ativo para que o custo de produção do óleo diesel seja da ordem de R$ 0,60 por litro são os grandes reservatórios, não as refinarias.

Essa posição privilegiada da Petrobras na área de exploração e produção pressupõe um compromisso da companhia em investir no refino no Brasil. Poderia até haver uma política pública que determinasse a obrigatoriedade de que produtores de petróleo refinassem um determinado percentual de sua produção no País. Isso obrigaria a se ter um cálculo integrado do retorno dos ativos.

Isso faz sentido na Noruega, por exemplo? Não, uma vez que o retorno sobre o investimento no refino é muito menor que na produção de petróleo, que o país não precisa de uma política de desenvolvimento regional e que não tem interesse em gerar grandes demandas de mão de obra, nem na construção de parques industriais poluidores.

Essa, contudo, não é a situação do Brasil, onde temos a Petrobras com grandes privilégios na produção e com monopólio real dos terminas, dutos e refinarias, o que pressupõem um compromisso da companhia com o desenvolvimento do País. Situação muito diferente da Petrobras é a do Banco do Brasil, que também é uma sociedade de economia mista, mas que compete efetivamente no mercado.

Dessa forma, é fundamental que a Petrobras e seus acionistas tenham uma visão integrada do valor e da sinergia de todos ativos da companhia, não de um ativo isolado, como, por exemplo, uma refinaria.

Analisa-se, a seguir, o caso da Refinaria de Pasadena. Com a crise financeira de 2008, as margens do refino e o valor dos ativos diminuíram. Isso levou a Petrobras a realizar baixas contábeis, denominadas impairments, que totalizaram US$ 530 milhões, sendo US$ 160 milhões em 2008, US$ 147 milhões em 2009 e US$ 223 milhões em 2012. Essas baixas decorreram da avaliação do valor de mercado do ativo.

No caso do complexo de Pasadena no Texas, que inclui uma refinaria com capacidade de 100 mil barris por dia e uma comercializadora, fornece gasolina e diesel para o exigente mercado americano e está localizada em uma área estratégica, a Petrobras investiu cerca de US$ 1,5 bilhão. Nesse caso, as baixas contábeis de US$ 530 milhões foram adequadas?

Qual seria, então, a baixa contábil da Refinaria Abreu e Lima, com capacidade de 230 mil barris por dia e cujos investimentos já foram de cerca de US$ 18 bilhões e novos gastos serão necessários para finalizar o segundo trem de refino?

Mesmo sendo capaz de refinar óleo pesado, será difícil chegar a um valor de mercado para a Refinaria Abreu e Lima superior a US$ 6 bilhões pelas metodologias convencionais, o que resultaria em uma baixa contábil de US$ 12 bilhões. No entanto, o superfaturamento da refinaria, que inclui eventuais propinas, foi da ordem de US$ 4 bilhões. Ou seja, pelos “critérios de mercado” poderia haver uma baixa contábil três vezes maior que o superfaturamento.

Se for computado o “valor integrado dos ativos” (reservatório de Marlim, navio de transporte, dutos, Terminal Suape, Refinaria Abreu e Lima etc), pode concluir que não há necessidade de nenhuma baixa contábil. Muito pelo contrário, pode-se concluir que esse conjunto de “ativos” está subavaliado, uma vez que os derivados produzidos terão um custo muito menor que o valor de venda, o que geraria um altíssimo valor presente líquido – VPL.

É isso que precisa ser informado à sociedade brasileira, mas não está sendo.

Delfim Netto diz na Folha de hoje: “Os portadores da opinião que o ente metafísico a que se dá o nome de mercado é divino, vêm a sua materialidade nas cotações das Bolsas. Trata-se de pura ideologia”.

Empório Brasil de notícias

Por Luciano Martins Costa | Via OI

Jornalistas bem posicionados na mídia tradicional costumam justificar o clima de guerra que a imprensa mantém e estimula contra a aliança partidária que governa o Brasil desde 2003 com a frase produzida pelo artista plástico, tradutor e humorista Millôr Fernandes (1923-2012), segundo o qual “imprensa é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”. No entanto, como é prática na imprensa brasileira, a frase anedótica é repetida fora de seu contexto, no mesmo processo utilizado para falsear investigações, manipular indicadores e distorcer declarações.

Millôr cunhou a expressão para criticar a imprensa, em 1964, quando lançou a revista satírica Pif Paf, e nunca escondeu as grandes restrições que fazia às empresas de comunicação do Brasil, que conspiraram e apoiaram a ditadura militar e só deixaram de ser subservientes quando a censura se estabeleceu nas redações. Em 1980, em entrevista que depois se transformou no livro intitulado A entrevista, ele diria, enfaticamente, que “a imprensa brasileira sempre foi canalha. Se fosse um pouco melhor, poderia ter uma influência maravilhosa sobre o país”.

A frase famosa também poderia ter uma versão posterior, e atribuída ao diretor de Redação da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, que em fevereiro de 1996 declarou, no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, que a imprensa estava sendo servil ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. Para ser mais preciso, o leitor pode ir aos arquivos e comprovar o que disse literalmente o dirigente do diário paulista, ao responder uma pergunta do jornalista Dante Mattiusse sobre certa benevolência dos jornais com o governo da época:

“Com relação ao governo Fernando Henrique Cardoso, eu concordo totalmente. Eu acho que, de um modo geral, a imprensa brasileira tem sido quase que de um servilismo em relação a esse governo. Poucas vezes eu presenciei na minha vida profissional, exceto naquele curto interregno inicial do governo Collor, poucas vezes eu presenciei na mídia um espetáculo de tamanha adesão em relação ao governo, aos valores do governo, aos supostos acertos desse governo, às políticas desse governo”.

Dois partidos, duas balanças

Essa afirmação poderia ser repetida, em 2014, com referência à relação diferenciada da imprensa brasileira, conforme se trata o governo paulista, em mãos do PSDB, e o governo federal ou da administração petista na capital de São Paulo. Se questionado, Otavio Frias Filho seria obrigado a admitir que sua frase serviria, agora, para identificar a subserviência da mídia tradicional – a Folha incluída – ao governador Geraldo Alckmin.

No Estado de S. Paulo, podia-se ler na edição de quarta-feira (11/2): “Escola de SP tem sala com até 85 estudantes”. A reportagem, que apontava a superlotação e o fechamento de 3.017 salas nas escolas estaduais, justificava um escândalo, mas ficou por isso mesmo e não houve maior repercussão. A Folha ignorou o assunto, mas publicou na quinta-feira (12/2): “Haddad descumpre meta de lotação de sala na pré-escola” – e dá-lhe crítica pelo fato de a prefeitura paulistana colocar em média 31 crianças por sala, tendo anunciado que o ideal seria 29 alunos por sala.

Na cobertura sobre a crise de abastecimento de água na região da capital paulista, é notável o esforço dos jornais em destacar as medidas adotadas pelo governador, esquecendo suas responsabilidades por não haver tomado providências preventivas para evitar o problema. Por exemplo, a imprensa apresenta como positiva a primeira reunião do comitê metropolitano de gestão da crise hídrica, quando a medida só foi tomada pelo governador depois que os prefeitos da região se queixaram da centralização das decisões.

A lista de assuntos em que o dedo da imprensa pesa mais de um lado do que do outro é interminável, mas alguns detalhes podem ser observados a olho nu pelo leitor crítico. Por exemplo, registre-se o rigor com que a polícia paulista reprimiu os manifestantes que protestavam contra a crise de abastecimento de água, na quarta-feira (11), e aguarde-se a atitude das forças policiais no próximo dia 15/2, durante a manifestação programada para pedir o impeachment da presidente da República.

A metáfora de Millôr Fernandes faz sentido, quando se imagina que uma imprensa sem crítica equivale a qualquer outro tipo de negócio, como, por exemplo, um botequim ou uma loja de varejo. Mas quando a imprensa é oposição seletiva, conforme a sigla que está no poder, fica mais parecida com uma casa de tolerância.

Muda-se o nome, mas a política continua a mesma

Por Emanuel Cancella | Via APN

A indicação de Aldemir Bendine para presidente da Petrobrás não mudará em nada os rumos da empresa. Queríamos que a direção da empresa fosse mais sintonizada com o povo brasileiro, com a defesa de seu caráter público, com a garantia de transparência e de combate rigoroso à corrupção. Bendine é um nome de confiança da Dilma que irá dar continuidade a atual política encaminhada pela Petrobrás. Continuará o jogo de interesses políticos, a privatização da empresa, as terceirizações, o apoio aos leilões do petróleo, o desinvestimento, a discriminação com os trabalhadores, em especial, os aposentados. Queremos um presidente e uma direção da Petrobrás sintonizados com a população e que fosse eleita pelos próprios trabalhadores.

A Petrobrás acabou de ganhar o “Oscar” da indústria do petróleo. O prêmio OTC (Offshore Tecnology Conference 2015), concorrendo com as principais petroleiras do mundo. Os trabalhadores petroleiros, muitos que trabalham em áreas complexas como em refinarias, terminais, plataformas, outros em centros de pesquisa, setores administrativos, alguns em turnos ininterruptos que incluem trabalho no carnaval, natal, ano novo. Quando a maioria da população está de folga com a família, lá está o petroleiro trabalhando. A sociedade tem que saber que o petroleiro durante a operação “Lava a Jato” que investiga a corrupção na Petrobrás aumentou a capacidade de refino, levou a Petrobrás ao primeiro lugar na produção de óleo, passando a americana Exxon Mobil, e é a quarta do mundo na produção de óleo e gás. E o pré-sal cuja a tecnologia foi desenvolvida por esses próprios petroleiros e que já produz 715 mil barris por dia é o suficiente para abastecer países como Uruguai, Paraguai, Bolívia e Peru.

É desses petroleiros, homens e mulheres que vestem a camisa da Petrobrás, que o Sindipetro-RJ e a Federação Nacional dos Petroleiros defende que saia o presidente e a diretoria da Petrobrás. E que fossem escolhidos pelos próprios trabalhadores, para evitar os esquemas políticos de corrupção e jogos de interesses escusos.

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Emanuel Cancella é Secretário Geral do Sindipetro-RJ e da Federação Nacional dos Petroleiros.

Grécia: Grandes manifestações de apoio ao Governo do Syriza

Via Esquerda.net

Milhares de pessoas manifestaram-se, nesta quarta-feira, em Atenas e nas principais cidades da Grécia, em apoio ao governo do Syriza, enquanto reunia em Bruxelas o Eurogrupo.

Manifestação em Atenas contra a chantagem, 11 de fevereiro de 2015 – Foto de left.gr

Para esta quarta-feira foi convocada uma reunião extraordinária do Eurogrupo (que junta os ministros das finanças dos países que fazem parte do euro e os representantes da comissão europeia e do banco central europeu) para discutir a situação da Grécia. A antecipação da reunião do Eurogrupo significou uma pressão sobre o governo grego com o objetivo de esvaziar a cimeira europeia e aumentar a chantagem sobre o povo grego.

Milhares de pessoas manifestaram-se nas ruas de Atenas e das principais cidades gregas em defesa da política anti-austeridade do governo do Syriza e em resposta à chantagem da troika e do Eurogrupo.

Aspeto parcial da manifestação em Salónica – foto keeptalkinggreece

Nem a chuva nem a neve foram impeditivo a que muitos milhares de pessoas se manifestassem pela dignidade e em defesa da democracia.

As manifestações, convocadas por movimentos de cidadãos e divulgadas nas redes sociais decorreram em Atenas, Salónica, Patras e noutras cidades gregas.

Também em Portugal e noutras cidades europeias decorreram ações de solidariedade.

Para os próximos dias, nomeadamente para o próximo domingo estão convocadas ações de solidariedade com o povo grego e o governo do Syriza em Portugal e em diversos países da Europa.

Faixa na manifestação de Atenas