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Senado criará CPI para investigar caso HSBC

Por Luiz Claudio Cunha | Via Viomundo

BRASÍLIA, 25 – Uma CPI no Senado Federal, uma investigação da Receita Federal e da Polícia Federal e um esforço de jornalistas e da mídia para quebrar o silêncio em torno da lista de 8.667 brasileiros com contas no banco HSBC.

Este é o conjunto de medidas propostas pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), hoje, da tribuna do Senado, para desvendar o ‘SwissLeak’, nome do escândalo que envolve mais de US$ 200 bilhões de depósitos em 100 mil contas bancárias vazadas do HSBC em Genebra e que sugerem evasão fiscal e lavagem de dinheiro em nível planetário.

“A denúncia contra o HSBC mostrou o Brasil no topo da cadeia criminosa”, lembrou Randolfe, citando o quarto lugar brasileiro entre os países com maior número de clientes listados no vazamento do HSBC e lembrando a nona posição do Brasil (US$ 7 bilhões) entre os dez países com maior volume de dinheiro depositado. “Em moeda nacional, isso representa uma quantia equivalente a R$ 20 bilhões, exatamente o que o Governo Dilma pretende arrecadar com o pacote de maldades que resume o ajuste fiscal desenhado pelo ortodoxo ministro da Fazenda, Joaquim Levy”, disse Randolfe.

O ‘SwissLeaks’, que ganhou manchetes e espaços generosos nos grandes jornais e revistas do mundo, não teve aqui o mesmo tratamento: “Estranhamente, no Brasil, o caso do HSBC mereceu um estridente silêncio da grande imprensa”, lamentou o senador, lembrando que a pauta do ‘SwissLeaks’ vaza na imprensa brasileira pelo esforço de blogs e blogueiros desvinculados da grande mídia: “Blogs como Megacidadania e O Cafezinho, sites como Brasil 247 e Diário do Centro do Mundo ou blogueiros como Miguel do Rosário e Luís Nassif vasculham e revelam dados que não se vê, nem se lê nos grandes veículos de comunicação”, lembrou Randolfe Rodrigues.

O senador escreveu que, na terça-feira (17), o site Jornal GGN, de Nassif, repassou uma informação de um jornalista de Hong Kong, na China, que conseguiu descobrir os nomes e endereços de 93 contas da lista do HSBC relacionadas a brasileiros. “Uma ninharia perto dos quase 9 mil brasileiros que fazem parte desta listagem ainda inédita”, observou Randolfe.

Nota seca

O senador do PSOL destacou no seu texto que, para milhões de brasileiros, “o Jornal Nacional, da Rede Globo, ainda é a única, talvez a mais importante fonte de acesso às notícias do país e do mundo”. No sábado (21), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, anunciou que o HSBC entrou em sua alça de mira. O senador anotou: “Esta decisão mereceu do JN daquela noite uma nota seca, de apenas três frases e 59 palavras, lidas em 25 segundos pela apresentadora do telejornal, sem qualquer imagem ou destaque”.

Randolfe ressaltou a justificativa editorial para não revelar os nomes dos clientes brasileiros do HSBC, dada pelo jornalista Fernando Rodrigues, do Portal UOL, o único detentor no Brasil da lista integral fornecida pelo ICIJ — sigla em inglês do Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo, uma rede global de 185 profissionais de investigação espalhados por 65 países: “A lista completa nunca será publicada? Não, pois seria uma invasão de privacidade indevida no caso de pessoas que podem ter aberto contas no exterior de boa fé, respeitando a lei e pagando impostos. O ICIJ vai publicar algum dia todas as informações? Não”, antecipou Rodrigues em seu blog.

​“O jornalista adianta, sem dar nomes, que há uma minoria de pessoas conhecidas — empresários, banqueiros, artistas, esportistas, intelectuais — e garante que a imensa maioria dos brasileiros da lista do HSBC é desconhecida do grande público. Seria gente anônima, portanto”, diz o senador Randolfe, fazendo uma importante ressalva: “É bom lembrar que pessoas anônimas também fazem história. No passado recente, dois anônimos, desconhecidos do grande público, vieram à luz para mudar o destino e a biografia de pessoas importantes de nossa República. O motorista Eriberto foi crucial no desfecho das investigações que levaram ao impeachment do presidente Fernando Collor. O caseiro Francenildo foi decisivo no caso que culminou com a demissão do ministro da Fazenda, Antônio Palocci”.

Cone de silêncio

O senador Randolfe Rodrigues destacou que a grande maioria dos nomes listados pelo HSBC pode ter realizado depósitos seguindo os trâmites da lei, mas o total desconhecimento da lista não permite dirimir as dúvidas cada vez maiores que nivelam inocentes e culpados.

“Este caso do HSBC é importante demais para ficar restrito à decisão pessoal, privativa, seletiva, monocrática de um único jornalista, de um só blog, de apenas um veículo poderoso da internet. O dinheiro sonegado e subtraído ao Brasil e aos brasileiros não pode ser envolvido pelo segredo, pelo sigilo, pela impunidade que todos combatemos”, ressaltou o senador do PSOL.

Citando as grandes organizações que reúnem jornalistas e empresários da mídia, Randolfe Rodrigues fez um apelo coletivo à FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), ANJ (Associação Nacional dos Jornais), ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão) para que “juntem seus esforços e emprestem seu prestígio para quebrar este cone de silêncio que paira sobre a lista de brasileiros passiveis de investigação nos arquivos do HSBC.”

O senador estendeu seu apelo ao jornalista Fernando Rodrigues, ao portal UOL e ao próprio ICIJ, na pessoa de seu diretor-geral, Gerard Ryle, que “defendem juntos a livre informação e combatem qualquer tipo de censura”.

Randolfe Rodrigues terminou seu discurso citando o jornalista inglês Peter Oborne, 57 anos, comentarista-chefe de política do diário conservador Daily Telegraph, de Londres, que se demitiu semana passada em protesto pela censura que o jornal impôs ao noticiário sobre o HSBC, denunciada por ele na internet: “Uma imprensa livre é essencial para uma democracia saudável. Há um propósito no jornalismo, é não é só entreter. Não deve ceder ao poder político, grandes corporações e homens ricos. Os jornais têm o que no final das contas é um dever constitucional de dizer a seus leitores a verdade”, ensinou o jornalista inglês.

Randolfe encerrou ecoando as palavras de Oborne: “Que assim seja!”.

Rodovias federais têm 97 bloqueios em 10 Estados; acesso a porto de Santos liberado

Por Asher Levine, Priscila Jordão e Marta Nogueira | Via Reuters

São Paulo – Caminhoneiros liberaram nesta quarta-feira o acesso ao porto de Santos, o principal do país, mas os protestos se ampliaram nesta manhã para quase cem interdições, em dez Estados, prejudicando o transporte de combustíveis, alimentos e matéria-primas.

A concessionária de rodovias Ecovias, do grupo EcoRodovias, disse em sua conta no Twitter que todas as pistas da rodovia Anchieta foram liberadas e o tráfego foi normalizado, embora a lentidão permanecesse como reflexo. O acesso ao porto estava interrompido desde a tarde de terça-feira.

Os protestos de caminhoneiros entraram nesta quarta-feira no seu oitavo dia. Os manifestantes protestam contra baixos preços de frete e custos elevados com combustíveis.

Até as 7h desta manhã, havia um total de 97 interdições em rodovias nos Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Bahia, Espírito Santo, Ceará, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, segundo relatório publicado pela Polícia Rodoviária Federal, na internet.

Alguns setores estão sentindo fortermente os protestos, como a agropecuária.

A colheita de soja em diversas fazendas do norte de Mato Grosso, maior produtor de grãos do Brasil, foi paralisada, em um momento que seria de trabalhos intensos, devido à falta de diesel para abastecer o maquinário, em uma das consequências mais visíveis dos bloqueios nas estradas do Estado.

A BR-163, um dos alvos dos protestos, responde por 70 por cento do escoamento da produção agrícola de Mato Grosso. A rodovia também é a única rota de abastecimento de diesel e outros insumos para os municípios da região.

Seis pontos da BR-163 no trecho sob concessão da Rota do Oeste permanecem bloqueados nesta manhã em Mato Grosso, informou a companhia em nota nesta manhã.

Atualmente está proibido o tráfego de veículos de carga em Rondonópolis, Cuiabá, Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop. Veículos de passeio e ônibus circulam normalmente.

Obama falha o seu golpe de Estado na Venezuela

Por Thierry Meyssan | Via Voltairenet.org

O presidente Obama com o seu conselheiro para a América Latina, Ricardo Zuñiga, e a conselheira nacional de segurança, Susan Rice. © White House

Mais uma vez, a administração Obama tentou mudar pela força um regime político que lhe resiste. A 12 de fevereiro, um avião da Academi (ex-Blackwater), disfarçado como aeronave do exército venezuelano, devia bombardear o palácio presidencial e matar o presidente Nicolas Maduro. Os conspiradores tinham previsto colocar no poder a antiga deputada Maria Corina Machado e fazê-la aclamar, de imediato, por antigos presidentes latino-americanos.

O presidente Obama tinha prevenido. Na sua nova doutrina de Defesa (National Security Strategy), ele escreveu : «Nós ficaremos do lado dos cidadãos cujo exercício pleno dos direitos democráticos está em perigo, tal como é o caso dos Venezuelanos». Ora, sendo a Venezuela, desde a adoção da constituição de 1999, um dos mais democráticos Estados do mundo, esta frase deixava pressagiar o pior, no sentido de a impedir de prosseguir na sua via de independência e de redistribuição de riqueza.

Foi a 6 de fevereiro de 2015. Washington tinha acabado de terminar os preparativos para o derrube das instituições democráticas da Venezuela. O golpe de Estado tinha sido planejado para 12 de fevereiro.

A «Operação Jericó» foi supervisionada pelo Conselho Nacional de Segurança (NSC), sob a autoridade de Ricardo Zuñiga. Este «diplomata» é o neto do presidente homônimo do Partido Nacional das Honduras, que organizou os “putschs” de 1963 e de 1972 a favor do general López Arellano. Ele dirigiu a antena da CIA em Havana, (2009-11) onde recrutou agentes, e os financiou, para formar a oposição a Fidel Castro, ao mesmo tempo que negociava a retomada das relações diplomáticas com Cuba (finalmente concluída em 2014).

Como sempre, neste tipo de operação, Washington vela para não parecer implicado nos acontecimentos que orquestra. A CIA agiu através de organizações pretensamente não-governamentais para dirigir os golpistas : a National Endowment for Democracy (Contribuição Nacional para a Democracia- ndT) e as suas duas extensões, de direita (International Republican Institute) e de esquerda (National Democratic Institute), Freedom House (Casa da Liberdade), e o International Center for Non-Profit Law (Centro Internacional para Assistência Jurídica Gratuita- ndT). Por outro lado, os Estados Unidos solicitam sempre os seus aliados para sub-contratar certas partes dos golpes, neste caso, pelo menos, a Alemanha (encarregada da proteção dos cidadãos da Otan durante o golpe), o Canadá (encarregado de controlar o aeroporto internacional civil de Caracas), Israel (encarregado dos assassinatos de personalidades chavistas) e o Reino Unido (encarregado da propaganda dos “putschistas”). Por fim, mobilizam as suas redes políticas a estarem prontas ao reconhecimento dos golpistas : em Washington o senador Marco Rubio, no Chile o antigo presidente Sebastián Piñera, na Colômbia os antigos presidentes Álvaro Uribe Vélez e Andrés Pastrana, no México os antigos presidentes Felipe Calderón e Vicente Fox, em Espanha o antigo presidente do governo José María Aznar.

Para justificar o “putsch”, a Casa Branca tinha encorajado grandes companhias venezuelanas a açambarcar, mais do que a distribuir, as mercadorias de primeira necessidade. A ideia era a de provocar filas de espera diante das lojas, depois infiltrar agentes nas multidões para provocar tumultos. Na realidade se existiram, de fato, problemas de aprovisionamento, em janeiro-fevereiro, e filas de espera diante das lojas, jamais os Venezuelanos atacaram os comércios.

Para reforçar a sua atuação econoômica o presidente Obama havia assinado, a 18 de dezembro de 2014, uma lei impondo novas sanções contra a Venezuela e vários dos seus dirigentes. Oficialmente, tratava-se de sancionar as personalidades que teriam reprimido os protestos estudantis. Na realidade, desde o princípio do ano, Washington pagava uma importância —quatro vezes superior ao ordenado médio— a gangues para que eles atacassem as forças da ordem. Os pseudo-estudantes mataram, assim, 43 pessoas em alguns meses, e semearam o terror nas ruas da capital.

Antigo número 2 da ISAF no Afeganistão, o general Thomas W. Geary é hoje em dia o encarregado de Inteligência no SouthCom.

A ação militar era supervisionada pelo general Thomas W. Geary, a partir do SouthCom em Miami, e Rebecca Chavez, a partir do Pentágono, e sub-contratada ao exército privado da Academi (antiga Blackwater) ; uma sociedade atualmente administrada pelo almirante Bobby R. Inman (antigo patrão da NSA) e por John Ashcroft (antigo Attorney General—Procurador Geral— da administração Bush). Um avião Super Tucano, de matricula N314TG, comprado pela firma da Virgínia, em 2008, para o assassinato de Raul Reyes, o n°2 das Farc da Colômbia, devia ser caracterizado com um avião do exército venezuelano. Ele deveria bombardear o palácio presidencial de Miraflores e outros alvos, entre uma dezena deles pré-determinados, compreendendo o ministério da Defesa, a direção da Inteligência e a cadeia de televisão da ALBA, a TeleSur. Dado o avião estar estacionado na Colômbia, o Q.G. operacional da «Jericó» tinha sido instalado na embaixada dos Estados Unidos em Bogotá, com a participação direta do embaixador Kevin Whitaker e do seu adjunto Benjamin Ziff.

Alguns oficiais superiores, na ativa ou reformados, haviam registado, com antecedência, uma mensagem à Nação, na qual anunciavam ter tomado o poder a fim de restabelecer a ordem. Estava previsto que eles subscreveriam um plano de transição, publicado, a 12 de fevereiro, de manhã, pelo El Nacional e redigido pelo Departamento de Estado dos EUA. Um novo governo teria sido formado, dirigido pela antiga deputada Maria Corina Machado.

O golpe de Estado devia colocar no poder Maria Corina Machado. A 26 de janeiro, ela recebia, em Caracas, os seus principais cúmplices estrangeiros.

Maria Corina Machado foi a presidente da “Súmate”, a associação que organizou e perdeu o referendo revogatório contra Hugo Chávez Frias, em 2004, já com o financiamento da National Endowment for Democracy (NED) e os serviços do publicitário francês Jacques Séguéla. Apesar da sua derrota, foi recebida com toda a pompa pelo presidente George W. Bush, no Salão oval, a 31 de maio de 2005. Eleita como representante pelo Estado de Miranda, em 2011, ela tinha aparecido de súbito, a 21 de março de 2014, como chefe da delegação do Panamá na reunião da Organização dos Estados Americanos (O.E.A). Ela fora, de imediato, demitida do seu lugar de deputada por violação dos artigos 149 e 191 da Constituição (da Venezuela- ndT).

Para facilitar a coordenação do golpe, Maria Corina Machado organizou, em Caracas, a 26 de janeiro, um colóquio, « O Poder da cidadania e a Democracia atual», no qual participaram a maior parte das personalidades venezuelanas e estrangeiras implicadas.

Pouca sorte! A Inteligência Militar venezuelana vigiava as personalidades suspeitas de ter fomentado um complô, anterior, visando assassinar o presidente Maduro. Em maio último, o Procurador de Caracas acusava Maria Corina Machado, o governador Henrique Salas Römer, o ex-diplomata Diego Arria, o advogado Gustavo Tarre Birceño, o banqueiro Eligio Cedeño e o empresário Pedro M. Burelli, mas, eles negaram a autoria dos “e-mails” alegando que tinham sido falsificados pela Inteligência Militar. Ora é claro, eles estavam todos conluiados.

Ao rastrear estes conspiradores a Inteligência Militar descobriu a «Operação Jericó». Na noite de 11 de fevereiro, os principais líderes do complô, e um agente da Mossad, foram presos e a segurança aérea reforçada. Outros foram apanhados dia 12. No dia 20 as confissões obtidas permitiram deter um cúmplice, o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma.

O presidente da câmara de Caracas, Antonio Ledezma, era o agente de ligação com Israel. Viajou secretamente para Telavive, em 18 de maio de 2012, para se encontrar, lá, com Benjamin Netanyahu e Avigdor Lieberman. Ele, representava o chefe da oposição venezuelana, Henrique Capriles Radonski.

O presidente Nicolás Maduro interveio imediatamente, na televisão, para denunciar os conspiradores. Enquanto, em Washington, a porta-voz do departamento de Estado fazia rir os jornalistas, que se recordavam do golpe organizado por Obama nas Honduras, em 2009 —quanto à América Latina—, ou mais recentemente da tentativa de golpe na Macedoônia, em janeiro de 2015 —quanto ao resto do mundo—, declarando a propósito: «Estas acusações, como todas as precedentes, são ridículas. É uma prática política estabelecida de longa data, os Estados Unidos não apoiam mudanças políticas por meios não constitucionais. As mudanças políticas devem ser realizadas por meios democráticos, constitucionais, pacíficos e legais. Nós temos verificado, em várias ocasiões, que o governo venezuelano tenta desviar a atenção das suas próprias ações, acusando para isso os Estados Unidos, ou outros membros da comunidade internacional, por causa de acontecimentos no interior da Venezuela. Estes esforços refletem uma falta de seriedade por parte do governo da Venezuela, em fazer face à grave situação com a qual está confrontado».

Para os venezuelanos este golpe, falhado, coloca uma questão séria: como manter viva a sua democracia se os principais líderes da oposição estão na prisão, pelos crimes que se aprestavam a cometer contra a própria democracia? Para aqueles que pensam, erradamente, que os Estados Unidos mudaram, que não são mais uma potência imperialista, e, que agora defendem a democracia no mundo inteiro a «Operação Jericó» é um tema de reflexão inesgotável.

***

Thierry Maissen é intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

A “Marcha do Silêncio” ficou pequena

Por Comunicado de Imprensa do Nuevo Mas | Via Correio da Cidadania

Terminou a marcha convocada pra 18 de fevereiro, a um mês da morte do fiscal da República Alberto Nisman. A primeira coisa que se pode dizer é que os fiscais e os políticos opositores convocadores, mais Jose Piumato (secretário geral do Sindicato dos Empregados do Judiciário) e a multimídia, como a TN e a CNN em nível internacional, não conseguiram transpor a habitual composição social dos “panelaços” da burguesia e das classes médias altas. Não se tratou de uma marcha multitudinária e nem popular. O centro de gravidade da marcha esteve marcado pelo pessoal hierárquico do Poder Judicial, em uma assistência que ficou pequena em relação às ambições dos organizadores.

Um número realista sobre a participação é que estiveram presentes cerca de 100 mil pessoas, não mais. Não se compara com o panelaço de novembro de 2012, que encheu não só a Praça de Maio, mas todo o entorno do Obelisco, pela imensa Avenida 9 de Julho.

A realidade, portanto, é que a mobilização não conseguiu transpor outras camadas sociais, ou seja, chegar aos setores populares. Tampouco no interior do país a marcha foi massiva. Houve importantes concentrações, mas não se viveu nenhum panelaço histórico.

Os organizadores, quiçá, se protegem atrás da chuva que atingiu a cidade de Buenos Aires. Mas isto não explica o porquê de no interior tampouco chegar a ser massiva como se esperava. Outro argumento é que estamos ainda nos meses de verão. Mas esta justificativa não resiste à análise, porque os grandes eventos históricos não respeitam o calendário.

Talvez, a razão mais profunda de o movimento ter ficado pequeno seja a limitação do programa que encarna. Os lemas da “marcha do silêncio” cantados pelos manifestantes eram “justiça”, “somos todos Nisman”, “presentes”, e estrofes do hino nacional argentino. Isto não é suficiente para ir mais além das classes médias altas. Nem ao menos para iniciar a “revolução das classes médias”, que segundo Elisa Carrió havia começado.

Outro problema da mobilização foi sua composição geracional: de maneira mais marcada do que nos panelaços, a média de idade foi muito alta, entre 50 e 60 anos, ou talvez pouco menos. Não apenas não houve a participação de setores populares como menos ainda de trabalhadores. Tampouco participaram os jovens, salvo no final da manifestação e de maneira isolada.

A realidade, portanto, é de que o governo teve certo êxito na sua política de polarização a respeito da marcha.

De um lado, estão a pauta abstrata de “República” e a defesa corporativa de uma suposta “independência” do Poder Judiciário. Poder este que é um dos mais oligárquicos, antidemocráticos e atrelados ao passado da ditadura militar.

Do outro lado, está o governo kirchnerista, que se apresenta reivindicando as “conquistas” da última década, como a superação do desemprego de massas. Algo que, na realidade, foi subproduto da rebelião popular de 2001, sob pena de que a Argentina capitalista terminasse explodindo pelos ares.

Mas também temos de advertir que vivemos um fim de ciclo cujo conteúdo massivo é a raiva ao governo Kirchner entre amplos setores populares e de trabalhadores, por conta da precarização das condições de vida: queda do salário real, tendência de aumento do desemprego, imposto sobre o salário e outras reivindicações populares. Contudo, estes sentimentos reais não alimentaram a marcha do dia 18 de fevereiro, entre outros motivos porque essa convocatória não levava em conta, como assinalamos, nenhum apelo ou problema operário e popular.

A situação em torno do caso Nisman colocou uma crise global, onde meteram os dedos setores do imperialismo ianque e do sionismo internacional, em concomitância com a reacionária islamofobia que pregam mundialmente. Mas isto parece não ser suficiente para gerar uma mobilização da sociedade em seu conjunto. O programa reacionário da “República”, abstrato e de reivindicações supostamente “democráticas”, mas de conteúdo igualmente retrógrado, de “fortalecer as instituições existentes”, não comoveu setores mais amplos.

Isto deixa um ensinamento, também, àqueles setores da esquerda que vêm levando adiante uma política “seguidora” dos mandos e desmandos da oposição de direita, como é o caso do Partido Obrero, líder indiscutível da FIT (Frente de Esquerda dos Trabalhadores).

A saída para se levantar à esquerda deve ser independente de todo bando patronal. Para acabar com a impunidade em casos como o atentado à AMIA (Associação Mutual Israelita-Argentina), em 1994, é preciso pautar uma comissão investigadora independente; também há que se pressionar pela dissolução efetiva da ex-SIDE (Secretaria de Inteligência de Estado), e não a sua substituição por um novo mecanismo de inteligência, como a AFI. Ao mesmo tempo, o Poder Judiciário deve ser reformulado de cima a baixo, a fim de liquidar seu caráter de corporação oligárquica.

Porém, mesmo tudo isso não basta. Frente a uma crise que aqui não termina, pois é global, cuja “dialética” seguirá sendo dada pelos golpes e contragolpes no lodo da política patronal, é necessária uma saída realmente democrática: uma Assembleia Constituinte Soberana. Uma saída que combine o apelo contra a impunidade e a luta contra o caráter antidemocrático deste Estado patronal, e sua “democracia” dos ricos, com as reivindicações mais sentidas dos trabalhadores e dos setores populares.

Porque o que está em crise é o ordenamento econômico, social e político do conjunto da Argentina: um ordenamento que só poderá realmente ser mudado pelas mobilizações dos trabalhadores que sejam independentes de ambos os bandos das classes superiores e do imperialismo. Isso é o que tem de ser discutido neste final de ciclo do kirchnerismo.

O diretor da Globo que quer cassar 54 milhões de votos

Por Paulo Nogueira | Via DCM

O que acontece quando um jornalista acredita na Veja e é formado pela Globo?

Bem, são grandes as chances de ele se tornar Erick Bretas.

Bretas, que ocupou diversas posições de destaque no telejornalismo da Globo e hoje é seu diretor de Mídias Digitais, fez ontem uma coisa que desafia a capacidade de compreensão.

Defendeu, no Facebook, a cassação de 54 milhões de votos dados há menos de cinco meses para Dilma.

Ele acha que Dilma deve ser objeto de impeachment. E fez questão de avisar que estará na manifestação pela queda do governo eleito em 15 de março.

Uma jornalista da grande mídia, extremamente incomodada com a fanfarronice de Bretas, foi quem me avisou.

Eu jamais ouvira falar dele, e lamento tê-lo conhecido.Mas não me surpreendo.

É uma oportunidade de as pessoas saberem como é feito o jornalismo da Globo, para além dos comentaristas e apresentadores que estão na tela.

Atrás deles, há coisa igual ou pior, como Bretas.

Ele foi diretor executivo de jornalismo da TV Globo, cargo no qual foi substituído pela jornalista Sílvia Faria, celebrizada por ter mandado tirar o nome de FHC do noticiário da Lava Jato.

Você lê Bretas e descobre por que o jornalismo da Globo é o que é.

Ele cita a Veja, publicação sem nenhum compromisso com a verdade há muitos anos, como um muçulmano se refere ao Corão.

Isso o faria um analfabeto político, apenas, não fosse a posição que ocupa na Globo.

Imagine a forma como ele editou as reportagens quando ocupou posições de chefia na emissora. Agora pense no que esperam os consumidores do jornalismo digital da Globo sob seu comando.

E o fato é que Bretas é um na multidão dentro da Globo.

Fica claro, lendo o seu bestialógico, por que a Globo escondeu o helicóptero com meia tonelada de pasta de cocaína descoberto no helicóptero de um amigo fraternal de Aécio.

Também ficou evidente por que o aeroporto de Cláudio não mereceu uma cobertura minimamente decente da Globo.

Com editores como Bretas, como esperar que a Globo fosse tratar como deveria o espetacular caso das contas secretas do HSBC?

Isso só vai virar assunto se aparecer, na lista das contas, alguém ligado ao governo. Desde que, naturalmente, nela não figure alguém da família Marinho.

Bretas é uma aberração jornalística, e uma tragédia para o jornalismo brasileiro. Dado o alcance da Globo, e seu poder de manipulação, é uma ameaça à sociedade. Quantos cidadãos ingênuos não são deformados pelo trabalho de jornalistas como ele?

Pessoalmente, gostaria de saber se sua indignação não se estende à sonegação multimilionária de sua empresa.

Também queria saber, imaginando que ele seja um advogado do livre mercado, sua opinião sobre a reserva que ainda hoje beneficia a Globo e demais empresas jornalísticas.

Talvez fosse bom também ouvi-lo sobre o Mensalão eterno da Globo – o dinheiro público em doses colossais que acorre à empresa por meio de publicidade federal.

Sem esse dinheiro, coisa de meio bilhão ao ano de reais apenas do governo federal (sem contar os estaduais), a Globo, tal como conhecemos, verga e quebra. E Bretas, o homem que quer cassar Dilma, perde sua boquinha.

Ele avisa, num tom estranhamente solene, que vai para a rua em 15 de março — não como um reporter para cobrir o protesto, ou mesmo como um editor para observar as coisas, mas como o que de fato é: um militante de direita fantasiado de jornalista.

AGU sugere saída para quebra de empreiteiras, mas Ministério Público resiste

Por Patricia Faermann | Via Jornal GGN

Luís Inácio Adams explicou que o objetivo do acordo de leniência não é impunidade, mas preservar os empregos e evitar o impacto negativo na economia.

Depois que o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, publicou um vídeo defendendo o acordo de leniência com as empresas denunciadas de envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras, membros do Ministério Público no Tribunal de Contas da União e técnicos integrantes já contestaram a posição do governo.

O Ministério Público defende a colaboração das delações premiadas no caso da Lava Jato, e a Justiça do Paraná, sob o comando do juiz Sergio Moro, vem utilizando de mecanismos para proteger os delatores, entre eles, Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa, em nome do avanço das investigações. Por outro lado, não sustenta a mesma cautela com as empresas envolvidas.

No último sábado (21), a AGU publicou o vídeo (abaixo) no Youtube de Adams explicando os motivos dos quais defende que os executivos sejam punidos, sem ocasionar a quebra dessas empresas. Na sexta-feira (20), o Jornal GGN divulgou um pacote de ações sugeridas pelo MPF para punir as empreiteiras: além da multa de R$ 4,47 bilhões por desvio de recursos, a proibição de contratação junto ao poder público, e a suspensão de acesso a benefícios fiscais e creditícios. Poderia ocasionar a falência dos grupos de empresas.

No vídeo, Luís Inácio Adams explica justamente a preocupação com esse dado e propôs como saída o acordo de leniência, um instrumento em que a empresa colabora com as investigações, em troca de punições mais brandas, ainda que se mantenha alguns comprometimentos: ressarcir o erário e estabelecer normas para a mudança de práticas corruptivas. “O grande desafio que está associado ao combate à corrupção é que tenha à disposição instrumentos que permitam a punição dos culpados, mas não inviabilize uma empresa que tenha milhões de funcionários”, disse o advogado-geral da União.

“Obviamente que se a empresa não se propor a fazer, não se submeter aos requisitos ela vai ser investigada, julgada e, comprovados os fatos, punida. E a punição são de duas ordens: punições de multa, que vai até 20% do faturamento, e punição de impossibilidade de contratação, ou seja, pelo período de até cinco anos essa empresa não poderá contratar com o Estado, receber crédito do BNDES, e assim por diante. Esse é o contexto que se aplica à lei”, ressaltou Adams.

O advogado-geral tomou o cuidado de lembrar que a punibilidade se mantém. “Na verdade, o acordo de leniência é uma solução para uma penalização administrativa, não tem nenhuma função na área penal. Não isenta o criminoso, não impede a produção de prova, é um instrumento que potencializa a investigação porque coloca a empresa como agente colaborador do Estado”, disse. E elencou exemplos: “a Siemens fez no mundo, diversas empresas, num esforço de resgatar-se junto à sociedade, resgatar sua credibilidade”.

Entretanto, essa não foi a interpretação do grupo de procuradores e técnicos do TCU, que avaliaram que tal ação acarretaria na impunidade. Entenderam, em nota, que o acordo de leniência está “previsto em uma lei que tem o propósito de combater a corrupção” e “não pode e não deve ser usado como instrumento para ‘salvar’ empresas acusadas de atos ilícitos”.

“O acordo mencionado tem, sim, considerável repercussão penal, com a extinção da punibilidade do crime de cartel por ato administrativo, o que, por consequência, impede o Ministério Público de oferecer denúncia”, publica a nota, assinada pelos sindicatos dos auditores de controle externo do TCU, dos auditores dos tribunais de contas do Brasil e dos integrantes do Ministério Público de Contas.

O movimento dentro do Ministério Público de ir na contramão da preservação contra o impacto econômico com a possível falência das empresas foi concretizado no último dia 20, com o anúncio do pacote de medidas, mas também não demorou a apresentar blindagem a contra-ataques. Na mesma sexta-feira, o procurador Júlio Marcelo de Oliveira, do MP junto ao TCU, pediu ao tribunal que não aceitasse acordos, tendo o risco de atrapalhar a investigação da Lava Jato.

Neste mês, o TCU aprovou uma norma que estabelece que qualquer acordo de leniência com empresas denunciadas de corrupção deve ser aprovado, previamente, pela Corte do tribunal, o que antes tramitava apenas pela Controladoria Geral da União.

Assista ao vídeo do advogado-geral da União, Luís Inácio Adams:

Luciano Coutinho continua à frente do BNDES

No fim do ano passado os bastidores e notícias já indicavam uma possível guinada ortodoxa da política econômica da presidenta Dilma. Neste ínterim, o Blog dos Desenvolvimentistas publicou, no dia 15 de dezembro, um artigo intitulado Uma defesa da política econômica de Dilma, onde os doutores em economia Gustavo Santos e Luis Carlos Magalhães se juntaram ao jornalista e escritor Laurez Cerqueira para construir esta importante argumentação em contraponto ao pensamento único neoliberal, predominante nas análises da imprensa.

Foi também neste texto, de considerável repercussão, que o Blog recomendou a manutenção do então presidente do BNDES, senhor Luciano Coutinho, à frente da instituição. E é com satisfação que soubemos do fato. Instituições de financiamento e desenvolvimento estatais são fundamentais para a autonomia do Estado em termos de criação e prática de políticas públicas.

Confira a notícia da Agência Brasil:

A Secretaria de Imprensa do Palácio do Planalto informou que o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, vai permanecer no cargo. O convite foi feito nesta quinta-feira (19) pela presidenta Dilma Rousseff.

O economista Luciano Coutinho está à frente do banco desde 2007, quando foi indicado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para substituir Demian Fiocca. Professor titular do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luciano Coutinho foi secretário-geral do Ministério da Ciência e Tecnologia entre 1985 e 1988, no governo de José Sarney. Antes de entrar no BNDES, atuava como consultor na área de investimentos.

Ex-sócio da LCA Consultores, ele prestou serviço a grandes empresas como a Vale e a Ambev.

Luciano Coutinho formou-se em economia em 1968, pela Universidade de São Paulo, onde também coordenou o programa de pós-graduação, de 1974 a 1979. Em 1980, foi professor visitante na Universidade do Texas. Em janeiro de 1994, na Universidade de Paris XIII, também foi professor visitante e palestrante. Coutinho foi consultor do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), do Banco do Nordeste e de governos estaduais.