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O lobby gosta de Trotsky, mas preferiu esconder Padura

Por Alberto Dines | Via Observatório da Imprensa

A classe média adulta, letrada e politizada está entusiasmada com o romance “O homem que amava os cachorros”, graças sobretudo ao boca-a-boca, muito mais eficaz e persistente do que as resenhas apertadinhas, burocráticas, rasteiras, publicadas em nossa mídia impressa.

Mas o lobby midiático que atende a este seleto público resolveu dar um gelo no autor, Leonardo Padura. E não por que seja chato, escreva mal ou por que tenha horror a Leon Trotsky, o revolucionário que adorava galgos, assassinado a mando de Stalin e desde 1940 enfiado por ele na lata de lixo da história de onde Padura o resgatou magistralmente.

Explica-se: além de primoroso narrador e um dos melhores e mais criativos escritores da atualidade, Padura é essencialmente cubano, não é “dissidente”, é rigorosamente independente. Critica o que tem de criticar, não se obriga a ser porta-voz de coisa alguma. Quer ser visto e discutido como escritor. Se a qualificação de cubano for indispensável que o qualifiquem assim, afinal Cuba é a sua terra, só sabe escrever quando está em Cuba e sem perdê-la de vista.

Nascido três anos antes de revolução cubana, Padura é principalmente uma amostra dos valores humanos que lá foram mantidos e lá estão sendo estimulados há mais de meio século. Embora o pais esteja ainda distante do que costumamos classificar de “normal” e democrático, Padura não é diferente do americano Paul Auster sobre quem escreveu um brilhante ensaio (Yo quisera ser Paul Auster).

Embora a imprensa do seu país seja prisioneira do regime político, Padura foi repórter investigativo e não perdeu o senso crítico para detectar os vícios que hoje deformam a imprensa internacional.

Para o lobby midiático não convém glorificar Padura, ele representa uma “normalidade” que não deve ser enfatizada. Os princípios e valores que ele encarna (pelo menos nas obras lidas por este observador, “O homem que amava cachorros” e “Hereje” – a ser lançada em Setembro) são inconvenientes porque um escritor cubano não pode ser um humanista, cosmopolita, refinado intelectual – só tem o direito de encarnar o rebelde anti-castrista ou, ao contrário, o burocrata a serviço de uma tirania.

Este Padura ocidental, legítimo herdeiro de Balzac e Tolstoi, derruba os mitos e estereótipos caricaturados ao longo de quase seis décadas pelos propagandistas da Guerra Fria.

Quantas emissoras de TV o entrevistaram? Quantos suplementos culturais e revistas fizeram seu perfil além da abençoada exceção de “Época”? Padura é, sim, um fenômeno literário. Com meia dúzia de escritores deste porte e vigor nossas livrarias voltarão a encher-se sem recorrer a truques de marketing e modismos anti-literários como os tais livros para colorir.

Este quase desconhecido Leonardo Padura foi entrevistado nesta terça feira (14/7) no programa de TV “Observatório da Imprensa”. Você pode assistir à entrevista no canal de vídeo aqui neste portal. Confira.

Governo corta mais R$ 8,6 bi para pagar juros da dívida pública

Via Carta Capital

Com as novas medidas, ajuste fiscal sobe para 79,4 bilhões de reais.

Joaquim Levy negou que aprofundamento da recessão seja reflexo do ajuste fiscal. Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A arrecadação abaixo das expectativas fez o governo anunciar, nesta quarta-feira 22, um novo contingenciamento de 8,6 bilhões de reais de despesas não obrigatórias no Orçamento deste ano. Além disso, a retração na economia levou a equipe econômica a diminuir para 8,747 bilhões de reais – 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas no país) – a meta de superávit primário do setor público para este ano. O indicador mede a economia de recursos para pagar os juros da dívida pública.

As informações foram divulgadas com oRelatório de Avaliação de Receitas e Despesas, em entrevista coletiva com os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa. Publicado a cada dois meses, o documento traz atualização das previsões de arrecadação, gastos e metas do governo, além de revisão das projeções para os principais indicadores econômicos.

Com o novo corte, o ajuste fiscal passou de 69,9 bilhões de reais para 79,4 bilhões de reais. Sem o corte adicional, o governo teria de reduzir a zero a meta de esforço fiscal ou até encerrar o ano com resultado primário negativo. Para chegar ao novo valor contingenciado, a equipe econômica diminuiu a estimativa de receita em 46,7 bilhões de reais e aumentou a previsão de despesas obrigatórias em 11,4 bilhões de reais.

Até agora, a meta de esforço fiscal para União, estados, municípios e estatais correspondia a 66,3 bilhões de reais (1,1% do PIB) para este ano. Desse total, 55,3 bilhões de reais correspondiam ao Governo Central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) e 10 bilhões de reais para os governos locais. As metas para 2016, 2017 e 2018, que estavam em 2% do PIB, foram reduzidas para 0,7% no próximo ano e 1,3% em 2017. A nova meta será distribuída da seguinte forma: a economia do Governo Central ficará em R$ 5,8 bilhões (0,1% do PIB) e em 2,9 bilhões de reais para estados e municípios (0,05% do PIB).

A alteração precisa ser ratificada mais uma vez pelo Congresso Nacional, assim como aconteceu ao longo dos últimos meses. Essas mudanças entram como emendas referentes à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2015 e ao projeto da LDO do próximo ano. No primeiro ajuste fiscal, os cortes foram feitos com restrições ao seguro-desemprego e ao abono salarial, entre outros pontos. Mas os projetos para ampliar as receitas, como a redução da desoneração da folha de pagamentos e a repatriação de recursos do exterior, ainda aguardam votação.

Questionado pela reportagem da CartaCapital se há clima político para a aprovação dessas novas medidas, por conta das tensões com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o ministro Nelson Barbosa Barbosa disse esperar que haja “uma discussão bem objetiva e o apoio do Congresso”. Segundo ele, parlamentares já demonstraram apoio à proposta.

Já o ministro Joaquim Levy negou que o quadro de recessão na economia brasileira seja por conta das medidas de ajuste implementadas por ele com o aval da presidenta Dilma Rousseff. Levy atribuiu a situação econômica a “outros fatores” e mencionou que o ajuste é apenas uma “correção de rota”.

*Com informações da Agência Brasil

Juíza quebra sigilos e primeiras denúncias da Operação Zelotes serão feitas em agosto

Por Juliano Basile | Via Valor

As primeiras denúncias da Operação Zelotes, que investiga um esquema de corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), devem ser feitas, em agosto, mesmo mês em que o órgão deve voltar a julgar processos.

A nova juíza do caso, Mariana Boré, da 10ª Vara Criminal de Brasília, autorizou a quebra do sigilo bancário de vários envolvidos. De posse dessas informações, será possível aos investigadores montar o quebra­-cabeça para concluir as denúncias iniciais que vão definir os nomes dos primeiros réus do caso.

Nessa fase, advogados serão a maioria entre os denunciados, mas servidores também podem ser incluídos, já que há indícios fortes de que houve manipulação até no sorteio de relatores de processos no Carf.

O escândalo ainda não atingiu a classe política. Até aqui, o único citado foi o deputado federal Eduardo da Fonte (PP-PE) ­ o pai dele, Maurício Albuquerque, atuou como conselheiro e está entre os investigados. Por ter mandato de deputado federal, o caso de Fonte deve ser remetido à Procuradoria-­Geral da República, porque só poderia ser processado no Supremo Tribunal Federal (STF). Procurado, Fonte negou, por sua assessoria, qualquer irregularidade.

Algumas decisões do Carf investigadas pela Operação Zelotes devem ser anuladas de imediato, como a que livrou a Gerdau de multa de R$ 800 milhões, em abril de 2012. Julgamentos envolvendo o Santander e a Marcopolo também são apontados como suspeitos e podem ser revistos.

No caso do Santander, atuação envolvendo o uso do ágio no cálculo de Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) está na lista das decisões investigadas. Com relação à Marcopolo, há apurações de fraude no julgamento que livrou a empresa de multa da Receita Federal de R$ 200 milhões, em 2013, por suposta omissão de receitas decorrentes de exportações de subsidiárias no exterior.

Nesses dois casos as anulações podem ter implicações sobre várias empresas beneficiadas por decisões tomadas pelo Carf utilizando os resultados desses julgamentos como balizadores (jurisprudência). O caso Gerdau não foi usado como jurisprudência.

A saída do juiz Ricardo Leite e a entrada de Mariana Boré na condução da Operação Zelotes deu agilidade à operação, já que o primeiro estava negando requerimentos importantes feitos pelos investigadores, inclusive pedidos de prisão de suspeitos. A troca foi feita no começo de julho, depois que o Ministério Público ingressou com pedido de afastamento de Leite, sob a alegação de que houve morosidade em alguns processos criminais conduzidos por ele.

Após assumir o caso, Mariana autorizou a quebra de sigilos de dezenas de suspeitos e reteve o passaporte de uma depoente da CPI do Carf ­ Gegliane Pinto, funcionária de um escritório de advocacia de uma ex­conselheira do órgão. Gegliane mora na África do Sul com o marido, adido naquele país, e teria conhecimento da movimentação de dinheiro para pessoas sob investigação.

A expectativa do governo é a de que a retomada das atividades do Carf reforce o caixa da União. Estima­se que tramitem no conselho causas de até R$ 550 bilhões. Se 10% forem colocados em julgamento, e o governo ganhar metade dessas causas, seriam pouco mais de R$ 25 bilhões para os cofres públicos, montante bastante relevante dadas as dificuldades para o governo atingir a meta de superávit primário estabelecida para este ano.

O Ministério da Fazenda está concluindo o processo de escolha dos novos conselheiros do Carf e os nomes devem ser publicados no “Diário Oficial” nesta semana. Os nomes foram apontados pelo comitê de seleção, criado recentemente, e encaminhados ao ministro Joaquim Levy. A expectativa é que a sessão inicial seja feita na próxima sexta­feira. Será, no entanto, uma sessão solene para marcar a reabertura dos trabalhos no Carf, parado há quatro meses. A agenda de julgamentos deve ser retomada mesmo em agosto, em data ainda não definida.

Pelas novas regras do Carf, os conselheiros não podem advogar. Por isso, houve uma renúncia em massa dos integrantes que atuavam representando os contribuintes ­ indicados pelas confederações da indústria e do comércio dos Estados e que mantinham escritórios de advocacia. Ficaram apenas os conselheiros indicados pelo Fisco. Os novos nomes vão substituir aqueles que faziam parte dos quadros dos contribuintes.

Segundo fontes que tiveram acesso ao processo de escolha, há pessoas que vêm da área acadêmica, como professores, além de contadores e servidores em início de carreira. Eles vão receber entre R$ 11 mil e R$ 12 mil mensais para atuar no Carf.

A trágica humilhação grega é um remake do Tratado de Versalhes

Por Paulo Santos | Via Correio da Cidadania

A Alemanha propôs aos gregos a criação de um fundo que arrecadará os valores provenientes das privatizações, estimadas em 50 bilhões de euros. Estes recursos serão utilizados para amortizar (pagar) a dívida grega, mas nenhum destes recursos será reinvestido na Grécia!

De imediato, mais 12 bilhões serão liberados para que os gregos paguem as parcelas em atraso dos empréstimos que venceram no final de junho e as que vencerão no final de julho. Outros 10 bilhões serão injetados nos bancos gregos para que os saques bancários sejam “normalizados”.

Um pacote de 82 bilhões de euros deverá ser negociado com os gregos após eles aprovarem o pacote de aumento de impostos e privatizações exigido pela Troika (Comissão Europeia, FMI e BCE). Além disso, será definida uma carência (suspensão temporária) dos pagamentos e aumento nos prazos de vencimento da dívida pública grega.

Na prática, os europeus, até agora, somente retirarão recursos da Grécia, pois os empréstimos, com exceção da injeção de moeda nos bancos, são todos operações meramente contábeis, não havendo entrada de recursos reais.

Para gerar os recursos demandados pela UE, os gregos precisam crescer, para crescerem precisam investir na economia, e, até agora, nenhum item do acordo garante estes investimentos.

O fundo proposto pelos alemães, provavelmente, lembrará o fundo Treuhand, criado no período da unificação alemã para privatizar as empresas públicas da Alemanha Oriental, o que resultou num dos processos mais fraudulentos de privataria, que encheu de dinheiro sujo o bolso do então chanceler alemão, Helmuk Kohl.

É isso que acordaram com a Grécia? Respeito muito e admiro Alexis Tsipras por ter sofrido e aguentado tanta humilhação nos últimos dias, mas acho que Yanis Varoufakis estava certo, o que negociaram ontem com os gregos foi um novo (e provavelmente fracassado) Tratado de Versalhes!

A Alemanha tentará destruir a Europa por uma terceira vez?

Eurogrupo considera saída temporária da Grécia da zona do euro

Via Correio do Brasil

A saída seria para permitir uma reestruturação de sua dívida

Os ministros das Finanças da zona do euro ofereceram a seus líderes neste domingo uma opção caso um acordo para resgate da Grécia não seja concretizado, dando a Atenas uma saída temporária da zona do euro para permitir uma reestruturação de sua dívida.

Um documento dos ministros analisado em uma cúpula de líderes da zona do euro e obtido pela Reuters conclui uma longa lista de condições para a Grécia obter um programa – a maioria aparentemente acordada por Atenas – e oferece duas possíveis conclusões.

A primeira é que um resgate da zona do euro seja aprovado.

O segundo diz: “No caso de um acordo não ser alcançado, deve ser oferecido à Grécia negociações rápidas em uma saída temporária da zona do euro, com uma possível reestruturação da dívida”.

Esta formulação é consequência de um documento apresentado ao Eurogrupo no sábado pelo ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble.

Rússia diz que apoiará Grécia

A Rússia pretende apoiar uma recuperação econômica da Grécia com a expansão da cooperação no setor energético, disse o ministro da Energia russo, Alexander Novak, neste domingo.

Novak disse em comunicado que a Rússia considerava a possibilidade de organizar fornecimento de energia direto para a Grécia e esperava chegar a um acordo sobre isso nas próximas semanas.

A Grécia atualmente compra de gás russo entregue por gasoduto via Ucrânia e os países Balcãs, assim como petróleo russo, normalmente por meio de contratos a partir do porto do Mar Negro de Novorossiisk.

Acusado de chefiar quadrilha, Paulo Octavio, ex-governador do DF, premia jornalistas

Por Leandro Fortes | Via DCM

E se fosse do PT?

Em maio de 2013, a Procuradoria Geral da República apontou o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda e o ex-vice-governador Paulo Octavio como chefes da quadrilha no escândalo que ficou conhecido como “mensalão” do DEM.

A dupla e outros 37 acusados de envolvimento no esquema de corrupção e pagamentos de propinas foram pegos na Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal.

A subprocuradora-geral da República Raquel Elias Ferreira Dodge disse que a quadrilha agia a mando de Arruda e Paulo Octavio.

Os dois, segundo ela, “definiram a estratégia de dominação da máquina administrativa e seu uso para fins criminosos”.

Arruda foi cassado e Paulo Octavio, pressionado por quatro pedidos de impeachment, renunciou.

PO, como é conhecido em Brasília, voltou às atividades de investidor imobiliário, mas acabou preso, em 2014, suspeito de participação num esquema de corrupção de agentes públicos para a concessão de alvarás para empreendimentos imobiliários no Distrito Federal.

Foi solto, cinco dias depois, mas continua réu em sete processos, segundo o Tribunal de Justiça do DF.

Responde por organização criminosa, falsidade ideológica, corrupção ativa e corrupção passiva.

Pois bem, pelo segundo ano consecutivo, realizou-se, na capital federal, o Prêmio Paulo Octavio de Jornalismo.

Não vou entrar no mérito dos premiados, não li nenhuma das reportagens inscritas, nem quero fazer juízo de valor sobre a intenção de quem se inscreveu.

Mas vale uma reflexão de todos: não há nada de errado nisso?

Digamos que, de repente, surgisse o Prêmio Carlinhos Cachoeira de Jornalismo.

Não haveria nenhum constrangimento ético para jornalistas participarem de uma coisa dessas?

Agora, imaginem se José Dirceu decidisse criar um prêmio de jornalismo.

O que iria acontecer?

Eu respondo: jornais, revistas, tevês, rádios, sites e blogs que, alegremente, participaram do convescote de Paulo Octavio, não iriam permitir que seus profissionais se inscrevessem.

Iriam, no entanto, colocá-los no rastro de Dirceu para forçá-lo a responder a uma pergunta que ninguém fez a Paulo Octavio: como um acusado de comandar uma quadrilha pode pagar prêmios para jornalistas?

Qual a vantagem disso?

Entre os laureados do Prêmio Paulo Octavio de Jornalismo deste ano estão profissionais do portal UOL (do Grupo Folha), da BandNews, do Correio Braziliense e, acreditem, da Rádio Justiça, do Supremo Tribunal Federal.

Mas Paulo Octavio, vocês sabem, não é do PT.

Logo, ele não precisou dizer nada a respeito, até porque nada a respeito lhe foi perguntado.

‘A criação da Telesur demonstrou que podemos ter uma visão latino-americana própria’

Via Adital

A Agência de Notícias Prensa Armenia entrevistou, recentemente, o jornalista uruguaio e fundador do canal Telesur Aram Aharonian para falar sobre o seu novo livro “La internacional del terror mediático. Vernos con nuestros propios ojos” [A internacional do terror midiático. Vermo-nos com nossos próprios olhos, em português], na qual aborda o papel dos meios e do jornalismo a partir de uma perspectiva latino-americana.

Aram Aharonian trabalhou com Eduardo Galeano, Rodolfo Walsh, Paco Urondo, Juan Gelman e Miguel Bonasso, entre outros.

Por que elegeste como figura simbólica “a guerra” para representar “a guerra simbólica”, “batalha ideológica” ou os meios hegemônicos como “unidades militares”?

Primeiro, porque esta é a mesma luta: o que mudou foram as armas. Guerra convencional, guerra de guerrilhas, guerra cultural: o inimigo é o mesmo, a utopia continua sendo a mesma. O que muda é o cenário, os ferros. O inimigo antes – há quatro décadas – usava as forças armadas para impor um modelo político, econômico e social (com mortos, desaparecidos, torturados). Hoje, não necessita de baionetas nem de tanques; basta o controle dos meios massivos de comunicação. E assim nos bombardeiam com informação, publicidade, entretenimento (séries de televisão, jogos cibernéticos, por exemplo), 24 horas por dia, com sua mensagem e imagem única, na sala ou no dormitório das nossas próprias casas.

Hoje, o campo de batalha é simbólico. Estamos em plena batalha cultural: a guerra por impor imaginários coletivos se dá através dos meios cibernéticos, audiovisuais, gráficos. E, para lutar essas batalhas pela democratização da palavra e da imagem, das nossas sociedades, é preciso aprender a usar essas novas armas, as câmeras, Internet, microfones…

Tanto neste livro como no anterior “Vernos con nuestros propios ojos. Apuntes sobre comunicación y democracia [Vermo-nos com os nossos próprios olhos. Apontamentos sobre comunicação e democracia, em português] propõe a necessidade de construir uma cultura contra-hegemônica nos termos de Gramsci, ainda que não subalterna, que possa competir, qualitativamente, com a cultura hegemônica. Referente à construção de novos meios, é possível levar adiante esses projetos sem os orçamentos das grandes empresas? O Estado pode ser uma resposta?

Dói-me dizer isso, mas, a partir dos movimentos sociais, a partir da imprensa alternativa, há uma queixa permanente pela falta de recursos… e, muitas vezes, o que faltam são ideias, criatividade, trabalho coletivo, complementação.

Muitas vezes, a partir do campo popular, nos queixamos que não temos os recursos das empresas transnacionais… mas creio que, em geral, os fracassos vêm por falta de ideias (e não de dinheiro), por falta de convencimento no projeto coletivo (ou ausência deste) e pela grande dificuldade que temos para nos juntarmos: todos querem ser protagonistas, ainda que seja de um meio marginal, mas protagonistas. Com ideias, com criatividade, podemos conseguir os recursos e levar adiante projetos massivos; o dinheiro não produz ideias nem criatividade, e muito menos no caminho da democratização da comunicação e da informação.

Debe ser dever dos Estados fomentarem a recomposição dos espaços públicos, da formação de comunicadores populares, do fomento (não falo de financiamento) dos meios populares. Se não formamos nossa juventude nestes princípios democráticos, difícilmente podemos manter a esperança no futuro. Recuperar nossa memória histórica significa saber de onde viemos, para saber para onde vamos. Um povo que não sabe quem é, quais são suas raízes, dificilmente pode mudar seu futuro, e este lhe será imposto sempre de fora. Recuperar a memória nostalgicamente é eminentemente retrógrado, é a ancoragem no denuncismo, na resistencia per si, no chororô.

Sua frase “vermo-nos com nossos próprios olhos” faz referência a que os latino-americanos “sempre nos vemos com outros olhos, com olhos estrangeiros”. A fundação da Telesur, em seu momento, foi uma solução para essa problemática?

Eduardo Galeano dizia que não existe nenhuma fórmula para mudar a realidade se não se começar a vê-la como ela é. Isso, para poder transformá-la, é preciso começar por assumi-la. Estivemos por 520 anos cegos de nós mesmos. Seguimos apegados em que “já está tudo inventado” e, também por isso, continuamos copiando modelos estrangeirizantes (demonstrando que ainda não pudemos nos desligar do colonialismo cultural) e fazendo uma comunicação reativa (e não pró-ativa) à agenda que nos impõem os meios hegemônicos.

Não sabemos quem somos, como somos, o que queremos comunicar. E assim sempre vamos ser reativos, não nos vemos em nossos próprios espelhos.

A criação, ou mais bem, a colocação em andamento da Telesur, há 10 anos, demonstrou que sim podemos ter uma visão latino-americana própria, que isso não estava limitado às grandes corporações transnacionais. E, a partir daí, começamos a ter um olhar contra-hegemônico, alternativo à mensagem única. Não é uma solução, é um caminho. E, hoje, sabemos que de nada serve ter 100, 1 mil emissoras telesur a mais, se não temos novos conteúdos, de acordo com a nossa própria agenda informativa, cultural e política, porque senão estaremos condenados a ver “El Chavo del Ocho” [Chaves] pelo resto da nossa vida…

Levando em conta o seu trabalho na Fundação para a Integração Latino-Americana, acredita que a aliança entre meios contra-hegemônicos pode ser um dos pilares na construção de uma nova comunicação?

Diante de tudo é preciso romper com o verso de que alternativo significa marginal: é totalmente o contrário, porque para ser alternativo (à mensagem hegemônica) é preciso pensar no massivo, com meios massivos ou com redes de meios populares. Mas, para isso, é necessário ter um projeto comum, sobre princípios comuns, que permita produzir e compartilhar conteúdos em qualquer das plataformas que programemos.

As chamadas redes sociais, as novas tecnologias são apenas ferramentas, para por aí irradiar as mensagens em qualquer plataforma. Em uma primeira avaliação, parece que vai ganhando a ideia cultural capitalista do individualismo.

Creio que uma das bases para ter meios com público é fabricar novos conteúdos, fazer bancos de conteúdos – audiovisuais, sonoros, gráficos, jogos cibernéticos –, que estejam à disposição dos meios populares, para que estes não se vejam obrigados a repetirem os enlatados da anti-cultura.

Neste livro, mencionas as “notícias virtuais” e a desfasagem do contraste com a realidade, que termina desmentindo essas notícias. É nessa desfasagem que se constróem as operações midiáticas? Como funciona, nesses casos, a dinâmica de ferramentas, como o Twitter, em que a informação circula em tempo real, levando em conta o que propõe no final de “La internacional del terrorismo mediático”, quando postulas que, nas redes sociais, não se utilizam as fontes?

A única verdade e a realidade, dizia Perón. Mas a realidade é o que nos mostra a televisão, convertida em difusora de espetáculos – com sua dose de banalização e de espetacularização – e não de informação? Os meios ficaram nas mãos de conglomerados empresariais, que manipulam a informação, alheios a todo conceito de ética, à sua vontade em função dos seus interesses corporativos (políticos, econômicos, financeiros, políticos, religiosos), em nosso continente pelo menos em aliança com as mais reacionárias forças políticas, muitas vezes, para desestabilizar nossos governos populares, com a finalidade de restaurar a velha ordem conservadora e neoliberal.

Hoje parece que não nos interessa se uma notícia é verdad, mas se “me agrada”. A instanteneidade da informação e a falta de corroboração da mesma, a mentira, a montagem (caso Guerra do Golfo 1 e bombardeio de Bagdá, por exemplo) criam imaginários coletivos, verdades virtuais, que só o tempo e/ou o contraste pessoal com a realidade, conseguem desmontar. Democratizar a informação e a comunicação é apostar no pluralismo (não pela mensagem e a imagem únicas), a diversidade…

Com a massificação da Internet surgiu uma necessidade pela imediatez informativa. Um meio alternativo pode aspirar a satisfazer e cumprir com essa dinâmica sem contar com uma estrutura econômica? Pode-se competir com as agências internacionais? A construção de meios para segmentos muito específicos é uma solução para esse problema?

Mais do que uma necessidade surgiu a possibilidade da imediatez, o que muito poucas vezes significa veracidade. Mas, quando essa realidade virtual se repete até o cansaço, sem possibilidade de ter outra versão dos acontecimentos, é a demonstração da imposição de uma mentira, distante da realidade-real. E quanto dura uma primícia? Quando surgiu a Al Jazeera, havia informação alternativa que davam aos meios ocidentais, cartelizados, sobre o Oriente Médio, quando surgiu a Telesur, a CNN em espanhol não pode seguir invisibilizando e ocultando as realidades latino-americanas.

Sim, temos outro problema: muito mais da metade das imagens que usam as nossas televisões provém das transnacionais da informação que, desse modo, impõem sua agenda e seus interesses. E ainda, na América Latina, a maior parte da informação que circula sobre a nossa região, provém também de agências noticiosas transnacionais ou de meios ocidentais, e alguns até cristãos. Por isso, a necessidade de nos vermos com nossos próprios olhos.

A principal rubrica de exportação dos EUA não são as armas, mas os conteúdos, com os quais nos bombardeiam – através da informação, da publicidade e das chamadas indústrias culturais (séries, ficção) – 24 horas por dia: a nova arma mortal não difunde isótopos radioativos, se chama meios de comunicação de massas, que impõem imaginários coletivos, isso que algunos querem chamar de guerra de quarta geração.

Seguindo com o conceito do jornalista Carlos Fazio, chama “terrorismo midiático” um “entrelaçamento de estratégias políticas, econômicas, sociais e psicológicas, que buscam criar realidades fictícias, medos coletivos e converter mentiras em verdades que permitam manipular a sociedade, de acordo com o conflicto e o inimigo em questão”. Qual é o papel do jornalista, dos redatores e dos editores nesses casos, levando em conta que, hoje, cada jornalista é seu próprio meio de alguna forma a ter seus próprios seguidores no Twitter ou blogs pessoais?

A nossa academia, a latino-americana (em geral) está ancorada nos anos 1970, quando o pensamento latino-americano sobre comunicação e informação era dos mais avançados. Há mais de 40 anos. E não se produziram novas teorias e nossas universidades seguem recitando os velhos textos, descontextualizados, obviando a nova realidade latino-americana e de cada um dos nossos países, esquecendo o pensamento crítico, para nos devolver a cada ano milhares, milhares e milhares de comunicadores e jornalistas com um título universitário, sem conhecimento da sociedade a qual devem prestar serviço e, muitas vezes, sem a suficiente profissionalização no uso das ferramentas disponíveis, hoje.

Para entender bem isso, devemos partir da base que os proprietários dos meios são conglomerados econômicos, que os usam para imporem seus interesses. Que um jornalista, no melhor sentido da palavra, é um trabalhador, como um carpinteiro ou um médico: que poucos entendem a função social do jornalista, que temos que abater velhos paradigmas, como a objetividade, a imparcialidade, a neutralidade; nenhum meio de comunicação (comercial, estatal, popular, público) é objetivo, mas responde a uma linha editorial. O que é imoral é travestir-se de objetivo para impor seus interesses.

Em sua ampla trajetória, trabalhaste com muitos jornalistas que, hoje, são considerados exemplos dessa profissão e, por sua vez, são reconhecidos por sua militância política, e a forma de imbricar ambas as questões. Gostaria que nos diga algumas palavras sobre eles e sobre como é vista, hoje, a relação do jornalismo com a militância política.

Trabalhei junto com jornalistas do quilate de Carlos Quijano (Marcha), Eduardo Galeano e Carlos María Gutiérrez (Época, PL), Neiva Moreira (Cuadernos e Ahora), em Montevidéu; Juan Gelman, Paco Urondo, Rodolfo Walsh, Jarito Walker, Quique Raab, Cogote Bonasso, Pablo Piacentini, Pablo Giusani, Zelmar Michelini… em Noticias e Informaciones: Tito Paoletti, Ernesto Ponsati, e tantos outros em La Voz, na Argentina; com Blankito, na Colômbia; com tantos companheiros enamorados do processo bolivariano na Venezuela e com aqueles “loucos” que se somaram à utopia da Telesur… o que dá a pauta do velho que estou. Desde aqueles primeiros anos 1960 até hoje, a luta continua sendo a mesma: a democratização da informação e da comunicação, para que todos tenham voz e imagem, pela construção dessa nova comunicação, a partir de baixo, ombro a ombro, lado a lado, consciente de que a única coisa que se constrói a partir de cima… é um poço.