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Rabelo: Eu me preparei, a vida toda, para assumir este cargo

Via Defesa.net

Está confirmado: o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, do PCdoB, vai assumir a pasta da Defesa em lugar de Jacques Wagner, que substituirá Aluísio Mercadante na Casa Civil. Segundo fontes do Palácio do Planalto, ao receber o convite da presidente Dilma Rousseff, Aldo respondeu:

— Eu me preparei, a vida toda, para assumir este cargo.

Ele presidiu a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados (CREDN) em 2002, promovendo amplo debate sobre os programas de reequipamento e o grau de operacionalidade das forças armadas brasileiras.

Com reconhecida capacidade de articulação política, ele ocupou as lideranças do PCdoB e do governo Lula. Em janeiro de 2004, licenciou-se do mandato de deputado para assumir a Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais da Presidência da República.

Segundo fontes do MCTI, Aldo Rebelo convidou Perpétua Almeida (PCdoB/AC), candidata derrotada ao Senado nas últimas eleições e assessora de Jacques Wagner, para assumir a Secretaria Executiva do Ministério da Defesa.

Lula e Wagner

Jacques Wagner só aceitou ir para a Casa Civil depois de um chamado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sua passagem pelo Ministério da Defesa pode ser considerada exitosa. Ele conseguiu reduzir os cortes impostos pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para dar continuidade aos principais programas da pasta, como o F-X2 e o Programa de Construção do Submarino Nuclear.

Além disto, acertou a compra de um navio de desembarque doca, o Bahia (ex-Sirocco), da Marinha Nacional da França para substituir o Ceará, que chegou ao fim de sua vida útil.

Peso pesado do Partido dos Trabalhadores e dono de uma inegável capacidade de articulação, ele participa ativamente, desde julho, de uma força tarefa montada para negociar com o Congresso Nacional, de maneira a reduzir o desgaste político da presidente Dilma Rousseff.

Petroleiros iniciam greve contra propostas da Petrobras com atraso nas operações

Por Akemi Nitahara | Via Agência Brasil

Com greve anunciada desde o dia primeiro de setembro, os petroleiros iniciaram hoje o movimento de paralisação, com atrasos no início da operação em algumas unidades operacionais pelo país e atos em frente a unidades administrativas, segundo as entidades sindicais da categoria, que alega a perda de direitos no acordo coletivo proposto pela Petrobras e defende a retomada de investimentos na estatal.

Questionada se a greve causou algum prejuízo à produção e se pode haver mudanças na forma de negociar o acordo, a Petrobras apenas informou que “as negociações do Acordo Coletivo de Trabalho 2015 estão em andamento”.

“Na quinta (17/9), a companhia apresentou proposta das cláusulas econômicas aos sindicatos que contempla reajuste de 5,73%. Caso a greve seja iniciada pelas entidades, a Petrobras informa que tomará todas as medidas para garantir o abastecimento do mercado, preservando a segurança das operações e dos trabalhadores”, informou a estatal.

De acordo com a Federação Única dos Petroleiros (FUP), o objetivo da greve é impedir a execução do Programa de Desinvestimentos previsto no Plano de Negócios e Gestão 2015-2019, que prevê a venda de US$ 60 bilhões em ativos, incluindo parte da BR Distribuidora e da Gaspetro. Segundo a categoria, essa venda significa o início da privatização da empresa.

A Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) informou que o primeiro dia de greve teve adesão em refinarias e plataformas do litoral paulista, com atraso no início das operações. No Rio de Janeiro, o terminal de Angra dos Reis (Tebig) reafirmou greve de 24 horas e outras unidades tiveram atrasos e atos, assim como o terminal Transpetro de Belém (PA). A Unidade Operacional Petrobrás Regional Norte (UO-AM) parou por três horas e também ocorreram atrasos, atos e paralisações em São José dos Campos e Aracaju, segundo a FNP.

De acordo com o diretor do Sindipetro-RJ Antony Devalle, as mobilizações continuam amanhã, com cada unidade decidindo os próximos passos da greve. No dia 6 de outubro, está marcada uma doação coletiva de sangue no HemoRio. A pauta de reivindicações tem mais de 200 itens, entre segurança e saúde, democratização da Petrobras, fortalecimento da fiscalização de contratos, redução da jornada para mães lactantes e trabalhadores com deficiência que precisam fazer tratamento.

Entre as propostas da empresa que, segundo o sindicato contêm retiradas de direitos, estão redução do pagamento de hora-extra de 100% para 80%; nova redação para a cláusula do plano de saúde que exime a empresa de responsabilidade sobre a rede credenciada e, principalmente, a redução da jornada de oito para seis horas, com redução de 25% do salário.

“Enquanto o ajuste não parar e não tiver verba para moradia, esse país vai ter manifestação quase todo dia”

, diz Boulos

Por José Coutinho Júnior | Via Brasil de Fato

MTST ocupou sedes do Ministério da Fazenda em quatro estados; O movimento reivindica que os cortes do ajuste fiscal não afetem programas sociais e os trabalhadores.

Contra o ajuste fiscal e cortes de programas sociais propostos pelo governo, cerca de 8 mil pessoas do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ocuparam, nesta quarta-feira (23), a sede do Ministério da Fazenda, em São Paulo (SP). Também participaram do ato integrantes do MST, Coletivos Juntos e RUA, servidores públicos em greve e o Movimento Luta Pela Terra (MLT).

“Vamos continuar nos mobilizando para mostrar que a saída da crise não é com essa política neoliberal, que joga a crise nos trabalhadores. Os ricos é que devem pagar por essa crise, com aumento de impostos e taxações das grandes fortunas”, disse Guilherme Boulos, da coordenação nacional do MTST, no centro de São Paulo.

O MTST também demanda que a terceira fase do programa Minha Casa Minha Vida, afetado pelos cortes anunciados pelo governo federal, seja posta em prática. As sedes do Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro, Goiânia e Brasília também foram ocupadas.

“Um, dois, três, quatro, cinco mil. Ou dá a nossa casa ou paramos o Brasil”, entoaram os manifestantes. Ao todo, segundo o movimento, foram realizados atos em nove capitais brasileiras com a participação de cerca de 25 mil pessoas.

Projeto

O Minha Casa Minha Vida foi anunciado com diversas propostas tidas pelos movimentos de moradia como avanços, entre elas, a verba maior para a modalidade de entidades do programa, o aumento do limite de renda para a população mais pobre e os recursos para equipamentos públicos.

No entanto, não houve compromisso do governo com a definição do orçamento do programa nem com metas de novas contratações. Ao mesmo tempo, os cortes no orçamento agravam a indefinição do funcionamento do programa.

“Dissemos que se as medidas do governo não resolvessem, a gente ia pra rua. A presidenta anunciou o Minha Casa Minha Vida, mas logo em seguida vieram os cortes. Não aceitamos que deem com uma mão e tirem com outra”, disse Boulos.

O MTST deixou claro que não estava no ministério esperando uma reunião, e sim esperando um posicionamento do governo em relação às demandas do movimento.

“Vamos estar na rua o quanto for preciso até que saiam nossas demandas. Não vão nos vencer pelo cansaço. Enquanto o ajuste não parar, não liberar verba para moradia, esse país vai ter manifestação quase todo dia. E, da próxima vez, não vamos ficar só no térreo do Ministério, vamos subir no prédio todo”, conclui Boulos.

Petróleo é pilar da soberania e desenvolvimento

Por Rogério Lessa | Via AEPET

O petróleo tem papel fundamental na estratégia das superpotências interessadas em segurança energética e acesso às reservas fora de seus territórios, bem como pode ser uma garantia para projetos de desenvolvimento em países produtores e exportadores. Neste caso, a Petrobrás e as reservas descobertas pela empresa podem abrir muitas perspectivas para o Brasil, mas também abrigam desafios para um projeto soberano de desenvolvimento.

Segundo o professor Maurício Metri, economista da UFRJ, além da segurança energética há outras três razões estratégicas pelas quais o uso deste recurso natural ainda permanecerá importante por bastante tempo: influência decisiva na hierarquia monetária internacional, alívio para o estrangulamento externo do balanço de pagamentos (no caso dos exportadores) e instrumento de política externa.

“O petróleo tem papel central nas estratégias das superpotências e o objetivo primordial é mitigar suas vulnerabilidades de abastecimento, algo decisivo na Segunda Guerra. Tanto que Hitler rompeu o tratado de não agressão que tinha assinado com Stalin e atacou a União Soviética”, disse Metri em sua palestra no seminário “Uma estratégia para o Brasil, um plano para a Petrobrás – Aspectos estratégicos e geopolíticos que influenciam o planejamento estratégico e de negócios da Petrobrás”, em andamento no Clube de Engenharia, no Rio.

O professor da UFRJ destacou o papel decisivo do petróleo na manutenção do dólar como moeda de referência para trocas internacionais, com óbvias consequências na política externa das superpotências, que inclui a inserção de suas petroleiras neste cenário, tanto pela via diplomática quanto pelo caminho da guerra. “Como estamos submetidos a um sistema competitivo, a expansão de uns pode significar o estrangulamento de outros. Precisando garantir abastecimento, muitos dos aliados dos EUA saíram da Segunda Guerra endividados em dólar”, comentou.

Numa fase seguinte, aproveitando as tensões entre China e União Soviética, os Estados Unidos abririam seu mercado interno para os chineses e se aproximariam da Arábia Saudita. “A China se tornou o novo grande parceiro estratégico nesta diplomacia triangular desenvolvida pelos EUA. Em 1973, antes do choque do petróleo, Kinsinger (Henry Kissinger, secretário de Estado de Richard Nixon) e bancos ingleses e americanos se uniram para exigir que a Arábia Saudita permanecesse comercializando seu petróleo em dólar. Assim, garantiram a cotação do petróleo em dólar e os depótitos dos recursos financeiros continuassem sendo feitos em sistemas que operassem em dólar”, lembrou.

Em seu processo de industrialização, vivido entre os anos 1930 e 1980, o Brasil saiu-se bem, segundo o palestrante, ao enfrentar o problema da dependência de dólares ao usar as exportações de café como meio driblar o estrangulamento externo, enquanto a União Soviética usou o petróleo para o mesmo fim. No entanto, “a pressão competitiva, a elevação das taxas de juros e a derrubada dos preços do petróleo deram à vitória aos EUA na Guerra Fria sem necessidade de confronto armado com os russos, já que geraram incapacidade de importação na URSS”, disse Metri.

O seminário “Uma estratégia para o Brasil, um plano para a Petrobrás – Aspectos estratégicos e geopolíticos que influenciam o planejamento estratégico e de negócios da Petrobrás”, é uma realização da Associação de Engenheiros da Petrobrás (AEPET), em parceria com a UFRJ e o Clube de Engenharia. O evento, que conta com o apoio da Carta Capital, prossegue nesta quarta-feira (23), com palestra do economista e pesquisador da UFRJ, Raphael Padula.

Ciro Gomes põe o diabo no redemoinho

Por Moisés Mendes | Via Zero Hora

Ciro Gomes na cerimônia de filiação ao PDT.

O cearense retornou ao palco da política chamando os golpistas para o embate.

Políticos vão e voltam, como golfinhos, cupins e andorinhas, às vezes nem se sabe por quê. O cara que está de volta agora é Ciro Gomes. Foi deputado, governador, ministro e candidato à Presidência por duas vezes. Foi tucano, foi do PPS, depois do PSB e do PROS e agora se filiou ao PDT. Por isso virou notícia. Pode-se dizer, pelo que andou falando desde que se anunciou trabalhista, que Ciro voltou só para pôr o diabo no redemoinho.

Ninguém aguenta mais Aécio golpeando, Dilma e Lula se defendendo, e o PT e as esquerdas encaramujadas. Ciro vai revigorar o debate. Já chegou avisando que encara Aécio como um golpista e que Dilma é atacada também por ser mulher e viver sozinha.

Faltava o homem da peixeira, o cearense nascido em São Paulo, para fazer com que a retórica da crise fique mais pop. Vejam o que ele já disse sobre as tentativas de impeachment:

— Eles querem torrar a Dilma para torrar o Lula junto.

Sobre as agressões sofridas pelo ex-ministro Guido Mantega em um restaurante de São Paulo, quando dois empresários o insultaram como ladrão, palhaço e sem-vergonha:

— Ai de mim se entro numa situação daquela. O cara levava um tapa ali na hora.

Sobre os deputados:

— A maioria da Câmara é corrupta.

Ciro diz ter voltado para defender a democracia dos “grupos de interesses golpistas” (o núcleo do golpe seria paulista). E para atacar os ex-parceiros de ninho tucano, os petistas que teriam abandonado Dilma e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Ciro volta ao acaso, como o sujeito aquele do faroeste que passava pela cidade na hora do tiroteio. Em março, o irmão Cid Gomes enfrentou o Congresso, como ministro da Educação de Dilma. Disse que os deputados eram “uns 400 ou 300 achacadores” do governo, incluindo Cunha. Foi para o confronto e virou ex-ministro.

Um juiz decidiu que ele deve pagar R$ 50 mil por dano moral a Cunha. No mesmo dia em que a Justiça anunciava a sentença, Ciro noticiava a filiação ao PDT e atacava Cunha, “o maior vagabundo de todos”.

Dilma ganha um aliado inesperado. Ciro estava quieto em Fortaleza, como secretário da Saúde do Estado. Parecia condenado a ser um ex-quase tudo. Volta e anuncia-se como possível candidato à Presidência, de novo.

E isso muda o quê? Parece que não muda nada. Parece. Ciro tem a vitalidade para o ataque das esquerdas de antigamente. Já fez a defesa de Dilma (com críticas ao governo), que o PT não consegue mais fazer, ou porque perdeu as forças, ou porque pretende usá-las mais adiante.

Chega a ser constrangedor, para quem vem acompanhando o esforço quase diário da presidente para rebater — em discursos de eventos — a ameaça de impeachment, que Ciro Gomes já fale mais alto do que muitos petistas históricos para defendê-la.

Quem está de volta é um homem mais maduro? Em 2002, acompanhei como repórter a caravana de Brizola, Antônio Britto e Ciro pela Fronteira. Ciro namorava Patrícia Pillar. Alguns podem ter votado nele só para ver Patrícia como primeira-dama do Brasil. Ficou atrás de Lula, Serra e Garotinho.

Pode ter voltado para fazer a terceira e última tentativa. Mas pode também estar aí só para ver o olho arregalado dos que já enxergaram o diabo no redemoinho. Será leviano quem continuar admirando a crise dos terraços da Avenida Paulista e não perceber que há muito a política no Brasil acontece também no agreste.

Ah, se Glauber Rocha estivesse por aí para ver a polvadeira que poderá ser erguida pelo homem da peixeira do Ceará. O diabo vai se divertir.

De onde vêm tantos refugiados?

Por Patrick Cockburn | Via Outras Palavras

Nove guerras civis simultâneas devastam mundo islâmico. Há algo comum entre elas: a destruição dos Estados nacionais árabes e o estímulo ao ultra-fundamentalismo, promovidos por EUA e seus aliados.

São tempos de violência no Oriente Médio e Norte da África, com nove guerras civis acontecendo em países islâmicos, situados entre o Paquistão e a Nigéria. É por isso que há tantos refugiados tentando escapar para salvar suas vidas. Metade da população de 23 milhões da Siria foi expulsa de suas casas; quatro milhões transformaram-se em refugiados em outros países.

Cerca de 2,6 milhões de iraquianos foram deslocados pelas ofensivas do Estado Islâmico, o Isis, no último ano, e se espremem em tendas ou edifícios inacabados. Invisíveis para o mundo, cerca de 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas no sul do Sudão, desde que os combates recomeçaram por lá, no final de 2013.

Outras partes do mundo, notadamente o sudeste da Ásia, tornaram-se mais pacíficas nos últimos 50 anos, mas na grande faixa de terra entre as montanhas Hindu Kush e o lado ocidental do Saara, conflitos religiosos, étnicos e separatistas estão destroçando os países. Em toda parte há Estados em colapso, enfraquecidos ou sob ataque; e em muitos desses lugares, as insurgências islâmicas radicais sunitas, em ascensão, usam o terror contra civis para provocar fuga em massa.

Outra característica dessas guerras é que nenhuma delas parece estar próxima do fim, de modo que as pessoas possam voltar para suas casas. A maioria dos refugiados sírios que fugiram para a Turquia, Líbano e Jordânia em 2011 e 2012 acreditava que a guerra acabaria em pouco tempo e elas poderiam voltar. Só perceberam nos últimos dois anos que isso não vai acontecer e que precisam buscar refúgio permanente em outro lugar. A própria duração destas guerras significa uma destruição imensa e irreversível de todos os meios de se ganhar a vida, de modo que os refugiados, que a princípio buscavam apenas segurança, são também movidos por necessidade.

Guerras estão sendo travadas atualmente no Afeganistão, Iraque, Síria, Sudeste da Turquia, Iêmen, Líbia, Somália, Sudão e Nordeste da Nigéria. Algumas começaram há muito tempo, a exemplo da Somália, onde o Estado entrou em colapso em 1991 e nunca foi reconstruído, com senhores da guerra, jihadistas radicais, partidos rivais e soldados estrangeiros controlando diferentes partes do país. Mas a maioria desses conflitos começou após 2001, e muitos depois de 2011. A guerra civil total no Iêmen só começou no ano passado, enquanto a guerra civil turco-curda, que matou 40 mil pessoas desde 1984, recomeçou em julho com ataques aéreos e de guerrilha. É rápida a escalada: um caminhão carregado de soldados turcos foi explodido há poucas semanas por guerrilheiros do PKK curdo.

Quando a Somália caiu, num processo que os EUA tentaram reverter em uma tentativa fracassada de inteverção militar, entre 1992-1994, parecia ser um evento marginal, insignificante para o resto do mundo. O país tornou-se um “Estado fracassado”, frase usada para exprimir pena ou desprezo, à medida em que ele se tornava o paraíso dos piratas, sequestradores e terroristas da Al-Qaeda. Mas o resto do mundo deveria olhar para esses Estados fracassados com medo, além de desprezo, porque foi nesses lugares – Afeganistão nos anos de 1990 e Iraque desde 2003 – que foram incubados movimentos como o Talibã, o Al-Qaeda e o Isis. Os três combinam crença religiosa fanática e conhecimento militar. A Somália pareceu um dia ser um caso excepcional, mas a “somalização” mostrou-se destino de uma série de países — notadamente Líbia, Iraque e Síria — onde até recentemente as pessoas tinham acesso a comida, educação e saúde.

Todas as guerras são perigosas, e as guerras civis sempre se notabilizaram pela impiedade, sendo as religiosas, as piores. É o que está acontecendo agora no Oriente Médio e Norte da África, com o Isis – e clones da Al-Qaeda como Jabhat al-Nusra ou Ahrar al-Sham na Síria. Assassinam ritualmente seus opositores e justificam suas ações alegando o bombardeio indiscriminado de áreas civis pelo governo de Assad.

O que é um pouco diferente nessas guerras é que o Isis faz publicidade deliberada das atrocidades que comete contra xiitas, yazidis ou qualquer outra pessoa que considere seu inimigo. Isso significa que as pessoas apanhadas nesses conflitos, particularmente desde a declaração do Estado Islâmico, em junho do ano passado, sofrem uma carga extra de medo, o que torna mais provável que fujam para não voltar. Isso é verdade tanto para professores da Universidade de Mosul, no Iraque, quanto para moradores dos vilarejos da Nigéria, Camarões ou Mali. Não por acaso, os avanços do Isis no Iraque têm produzido grandes ondas de refugiados , os quais têm uma perfeita ideia do que acontecerá a eles se não fugirem.

No Iraque e na Siria, estamos de volta a um período de drástica mudança demográfica, jamais vista na região desde que os palestinos foram expulsos ou forçados a fugir pelos israelenses em 1948, ou quando os cristãos foram exterminados ou empurrados para fora do que hoje é a Turquia, na década que se seguiu a 1914. As sociedades multiconfessionais do Iraque e da Síria estão se esfacelando, com consequências terríveis. Potências estrangeiras não sabiam ou não se importavam com os demônios sectários que estavam liberando, nesses países, ao quebrar o velho status quo.

O ex-conselheiro de Segurança Nacional do Iraque, Mowaffaq al-Rubaie, costuma dizer aos líderes políticos norte-americanos, que levianamente sugeriram que os problemas coletivos do Iraque poderiam ser resolvidos dividindo o país entre sunitas, xiitas e curdos, que eles deviam compreender como seria sangrento esse processo, provocando inevitavelmente massacres e fuga em massa “semelhantes aos da partilha da Índia em 1947 “.

Por que razão tantos desses Estados estão caindo aos pedaços e gerando essas ondas de refugiados? Que falhas internas ou insustentáveis pressões externas têm em comum? A maioria conquistou autodeterminação quando as potências imperiais se retiraram, depois da Segunda Guerra Mundial. No final dos anos 1960 e início dos 1970, foram governados por líderes militares que dirigiam Estados policiais e justificavam seus monopólios de poder e riqueza alegando que eram necessários para estabelecer a ordem pública, modernizar seus países, assumir o controle dos recursos naturais e resistir às pressões separatistas sectárias e étnicas.

Eram geralmente regimes nacionalistas e com frequência socialistas, cuja perspectiva era esmagadoramente secular. Por essas justificativas para o autoritarismo serem geralmente hipócritas e auto-interessadas; por  mascararem a corrupção generalizada da elite dominante, frequentmente se esquecia que países como o Iraque, a Síria e a Líbia tinham governos centrais muito poderosos por alguma razão  e se desintegrariam sem eles.

São esses regimes que vêm enfraquecendo e estão entrando em colapso em todo o Oriente Médio e Norte da África. Nacionalismo e socialismo não oferecem mais o cimento ideológico para manter juntos Estados seculares ou para motivar as pessoas para lutar por eles até a última bala — ao contrário do que fazem os que creem, em relação ao islamismo sunita de tipo fanático e violento incorporado pelo Isis, Jahat AL-Nusra e Ahrar AL-Sham. As autoridades iraquianas admitem que uma das razões por que o exército de seu país desintegrou-se em 20014 e nunca foi reconstituído com êxito é que “muito poucos iraquianos estão dispostos a morrer pelo Iraque.”

Grupos sectários como o Isis cometem deliberadamente atrocidades contra os xiitas, sabendo que isso irá provocar retaliação contra os sunitas — o que os deixará sem alternativa senão ver no Isis seus defensores. Fomentar o ódio comunal trabalha a favor do Isis, e está contaminando as comunidades, umas contra as outras, como no Iêmen, onde anteriormente havia pouca consciência da divisão sectária, embora um terço de sua população de 25 milhões pertencessem à seita xiita Zaydi.

A probabilidade de fugas em massa torna-se ainda maior. No início deste ano, quando houve rumores de um ataque do exército iraquiano e de milícias xiitas, para recapturar a cidade de Mosul, esmagadoramente sunita, a Organização Mundial de Saúde e o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) começaram a estocar comida para alimentar um milhão de pessoas a mais, que calcularam em fuga.

Os europeus foram sacudidos pelas fotos do pequeno corpo inerte de Alyan Kurdi numa praia na Turquia e por sírios quase mortos de fome amontoados em comboios húngaros. Mas no Oriente Médio, a nova diáspora miserável dos impotentes e despossuídos é evidente há três ou quatro anos. Em maio, eu estava prestes a cruzar o rio Tigre entre a Síria e o Iraque, num barco com uma mulher curda e sua família, quando ela e seus filhos foram colocados pra fora por causa de uma letra errada em um nome, em seus documentos.

“Mas estou há três dias com minha família na beira do rio!”, ela gritou desesperada. Eu estava indo para Erbil, a capital curda, que até um ano atrás aspirava ser “a nova Dubai”, mas agora está cheia de refugiados amontoados em hotéis inacabados, shoppings e quarteirões de luxo.

O que precisa ser feito para deter tais horrores? Talvez a primeira pergunta seja como evitar que fiquem piores, recordando que cinco das nove guerras começaram a partir de 2011. A presente crise dos refugiados na Europa é muito mais o impacto real, sentido pela primeira vez, do conflito na Siria sobre o continente. É verdade: o vácuo de segurança da Líbia significou que o país é agora o canal de fuga, para as pessoas dos países empobrecidos e atingidos pela guerra às margens do Saara. É pela costa libia, de 1,8 mil quilêmetros, que 114 mil refugiados passaram até agora, este ano, em direção à Italia, sem contar os vários milhares que se afogaram pelo caminho. Ainda assim, embora tão ruim, a situação não é muito diferente da do ano passado, quando 112 mil fizeram essa rota para a Itália.

Bem diferente é a guerra na Síria e no Iraque, onde saltou de 45 mil para 239 mil, no mesmo período, o número de pessoas que tentam alcançar a Grécia pelo mar. Por três décadas o Afeganistão produziu o maior número de refugiados, de acordo com a Acnur. Mas no ano passado, a Siria tomou seu lugar, e um em cada quatro novos refugiados, um agora é sírio. Uma sociedade inteira foi destruída, e o mundo fez muito pouco para deter esses acontecimentos. Apesar de uma recente onda de atividade diplomática, nenhum dos muitos atores na crise síria mostra urgência na tentativa de acabar com eles.

A Síria e o Iraque estão no centro das crises atuais de refugiados também de uma outra maneira. É lá que o Isis e grupos tipo al-Qaeda controlam parte significava do território e conseguem espalhar seu veneno sectário para o resto do mundo islâmico. Eles revigoram as gangues de matadores que operam mais ou menos do mesmo modo — estejam na Nigéria, no Paquistão, no Iêmen ou na Síria.

A fuga em massa de pessoas vai continuar enquanto a guerra na Síria e no Iraque continuarem.

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Tradução: Inês Castilho

A ditadura da televisão

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva | Via Observatório da Imprensa

Refletir sobre democracia nos remete à obrigatoriedade de discutir o papel da televisão como atividade que permite a produção, transmissão e recepção de símbolos em escala e em proporções universais. Considerando a premissa de que a democracia se refere à questão de universalização do poder, mesmo que de forma representativa, a relação entre símbolo, poder, mercado e sociedade precisa ser discutida à luz do desenvolvimento cultural. Sabemos que a cultura, enquanto conjunto de símbolos de uma comunidade, permite ao indivíduo vivenciar simultaneamente os sentimentos de distinção e pertencimento, forjando-o como sujeito capaz de estabelecer uma relação positiva com o meio.

John B. Thompson, em A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia (1995), distingue quatro tipos principais de poder: o econômico, baseado na detenção de recursos materiais e financeiros; o político, derivado da atividade de coordenação dos indivíduos e da regulamentação dos padrões de sua interação; o coercitivo, que implica o uso da força física para subjugar ou conquistar o oponente; e o simbólico, que nasce na atividade de produção, transmissão e recepção das formas simbólicas.

O acesso ao simbólico remete, antes de outros múltiplos efeitos possíveis, à consolidação das autonomias individuais e, a partir delas, ao empreendimento dos movimentos autônomos. Tais movimentos, por sua vez, rumam em direção à conquista e à preservação de direitos que são essenciais e inevitavelmente diferentes, visto que a sociedade contemporânea é caracterizada pela grande heterogeneidade de interesses. Sob esse enfoque, a autonomia previne a unificação e a massificação dessa sociedade, instituindo pela vida da singularidade e da diversidade um ambiente capaz de exigir a democracia, paradigma de justiça em se ir ao encontro do que é melhor para todos. Por outro lado, é também na autonomia que reside a capacidade dos cidadãos de articular os movimentos para conciliar os interesses distintos e convencionar direitos universais, estabelecendo a essência do processo democrático.

Pelas redes de TV, a liberdade de expressão com responsabilidade argumentativa torna-se fundamental para o desenvolvimento democrático. Nesse sentido, a qualidade informativa faz-se extremamente necessária, uma vez que nela se concentram: a) a matéria-prima da qual se extrai o conhecimento; b) o que é permutado com o mundo exterior e não apenas recebido passivamente; c) a mensagem que reduz a incerteza em determinada situação. “Viver de fato é viver com informação”, salienta Norbert Wiener, fundador da cibernética.

Lamentavelmente, o grande espectro de opiniões vem sendo silenciado pelo controle privado do simbólico e da informação. A respeito, Ladislau Dowbor, em Desafios da comunicação (2000), nos oferece argumento cabal: “O ser humano assiste diariamente a algumas horas de televisão. Somos a primeira geração com a qual acontece um fenômeno desse porte. Nenhum imperador da antiguidade, ainda que tendo direito de vida ou morte sobre o cidadão, tinha o poder de entrar em todos os domicílios de seu país e de martelar horas a fio a visão de mundo de crianças, adultos e idosos. Este fenômeno nasce como um complemento dos processos econômicos, se sobrepõe a eles e se torna gradativamente dominante.”

“A velha escravidão”

Os imperadores antigos não tinham o poder de invasão moral mencionado por Dowbor. Os modernos conglomerados da mídia o detêm, amplificando pelo controle simultâneo dos setores de comunicação televisiva. E por consequência, dispõem da condição potencial de controle da própria cotidianidade. Considerando a realidade televisiva brasileira, informa Fania Rodrigues, na revista Caros Amigos (agosto, 2015), o quadro se configura como alarmante: “Estima-se que a família Marinho, das Organizações Globo, controle cerca de 38% do mercado televisivo. Em segundo lugar vem o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, maior acionista da Rede Record, com 16,2% do mercado, e em terceiro Silvio Santos, do SBT, com 13,4%. Juntos somam 68,2% do setor de televisão, segundo levantamento da BBC. O que representa um controle da informação sem precedentes, se for considerado que 97% da população têm o hábito de assistir TV, de acordo com informações da Secretaria da Comunicação Social, do governo federal.”

Brilhantemente, o grupo Ponto de Equilíbrio, com a música “Ditadura da televisão” (2004), denuncia esse poder de manipulação nefasta agendado pelo uso autoritário da citada mídia. Tal ocorrência prejudica o nobre papel da informação como estrutura simbolicamente significante com a competência de gerar conhecimento para o indivíduo e para o seu meio:

“Na infância você chora, te colocam em frente da TV/Trocando as suas raízes por um modo artificial de se viver./Ninguém questiona mais nada, os homens do ‘poder’ agora contam sua piada/Onde só eles acham graça, abandonando o povo na desgraça/Vidrados na TV, perdendo tempo em vão/Ditadura da televisão, ditando as regras, contaminando a nação!/O interesse dos ‘grandes’ é imposto de forma sutil/Fazendo o pensamento do povo se resumir a algo imbecil:/Fofocas, ofensas, pornografias/Pornografias, ofensas, fofocas/Futilidades ao longo da programação/Ditadura da televisão, ditando as regras, contaminando a nação!/Numa manhã de sol, ao ver a luz/Você percebe que o seu papel é resistir, não é?/Mas o sistema é quem constrói as arapucas/E você está prestes a cair/Da infância a velhice, modo artificial de se viver/Alienação, ainda vivemos aquela velha escravidão./Ditadura da televisão, ditando as regras, contaminando a nação!”

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Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor universitário, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários.