Arquivos da categoria: Entenda

Parlamentares de sete partidos pedem cassação de Cunha; veja a lista

Por Gabriela Salcedo | Via Congresso em Foco

Representação protocolada na Comissão de Ética foi assinada por 32 deputados do PT, cinco do Psol, três do PSB, dois do Pros, um do PPS e um do PMDB, além de Cabo Daciolo (sem partido-RJ).

Molon e Chico Alencar protocolam representação contra Cunha. Fábio Pozzebom/ABr

O Psol e a Rede Sustentabilidade protocolaram, na tarde desta terça-feira (13), representação no Conselho de Ética da Câmara em que pedem cassação do mandato do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A peça foi assinada por 32 deputados do PT, cinco do Psol, três do PSB, dois do Pros, um do PPS, um da Rede e um do PMDB, além de Cabo Daciolo (sem partido-RJ).

Na cerimônia de entrega da representação, o presidente do conselho, deputado José Carlos Araújo (PSD-BA), afirmou que a enviará ainda nesta quarta-feira (14) à Mesa Diretora da Câmara. O colegiado, por sua vez, tem que numerar o processo e devolvê-lo para trâmites de praxe após, no máximo, três sessões plenárias. “Nessa comissão, não há hipótese de procrastinação”, disse Araújo.

Após instaurado o processo, o conselho tem prazo de 90 dias para apresentar parecer final e encaminhá-lo ao Plenário da Casa. Se transcorrer todo o calendário de tramitação, o processo terá julgamento final só no ano que vem. Na hipótese de parecer pela cassação, a decisão vai a plenário, onde precisa angariar maioria absoluta (metade mais um) da Casa, isto é, 257 deputados.

Na audiência, o deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) questionou o presidente do conselho sobre a morosidade dos processos do colegiado, ao lembrar representação por quebra de decoro contra o deputado Jair Bolsonaro protocolada em dezembro de 2014. O caso não chegou a ser apreciado. Jean ponderou que, agora, “os tempos são outros”. Segundo o deputado do Rio, a sociedade civil cobrará conduta ética dos conselheiros. “Os conselheiros não terão muita opção. Se votarem de acordo com seus interesses e não de acordo com os princípios éticos, a população pressionará”, disse ele.

O presidente do colegiado não gostou do comentário, e disse que Jean estava “empanando o brilho da audiência de entrega de representação”.  “Estou chamando a atenção da sociedade para vigiar o conselho. O conselho de ética não pode ser coorporativo”, rebateu Jean.

A peça de mais de 20 páginas foi composta por documentos obtidos pela Procuradoria-Geral da República. O material teve origem em investigação do Ministério Público da Suíça e confirmam que Cunha e seus familiares são beneficiários finais de duas contas naquele país, com US$ 2,4 milhões de saldo. Também defendeu-se o afastamento do parlamentar em razão da denúncia, já apresentada pela PGR ao Supremo Tribunal Federal (STF), de que Cunha recebeu US$ 5 milhões em propinas, após facilitar a venda de dois navios-sonda da Samsung Heavy Industries para Petrobras.

Confira lista completa:

Adelmo Carneiro leão (PT-MG)

Afonso Florence (PT-BA)

Alessandro Molon (Rede-RJ)

Ana Perungini (PT-SP)

Angelim (PT-AC)

Arnaldo Jordy (PPS-PA)

Assis do Couto (PT-RR)

Beto Faro (PT-PR)

Bohn Gass (PT-RS)

Cabo Daciolo (sem partido-RJ)

Chico Alencar (PT-RJ)

Chico D’Angelo (PT-RJ)

Décio Lima (PT-SC)

Edimilson Rodrigues (Psol-PA)

Enio Verri (PT-PR)

Erika Kokay (PT-DF)

Givaldo Vieira (PT-ES)

Glauber Braga (Psol-RJ)

Henrique Fontana (PT-RS)

Hugo Leal (Pros-RJ)

Ivan Valente (Psol-SP)

Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE)

Jean Wyllys (Psol-RJ)

João Daniel (PT-SE)

Jorge Solla (PT-BA)

José Stédile (PSB-RS)

Leonardo Monteiro (PT-MG)

Leonidas Cristino (Pros-CE)

Luiz Couto (PT-PB)

Luiza Erundina (PSB-SP)

Luzianne Lins (PT-CE)

Marcon (PT-RS)

Margarida Salomão (PT-MG)

Maria do Rosário (PT-RS)

Moema Gramacho (PT-BA)

Nilton Tatto (PT-SP)

Padre João (PT-MG)

Paulão (PT-AL)

Paulo Pimenta (PT-RS)

Pedro uczai (PT-SC)

Pepe Vargas (PT-RS)

Professora Marcivania (PT-AP)

Wadih Damous (PT-RJ)

Zé Carlos (PT-MA)

Zeca Dirceu (PT-PR)

Hector Schuch (PSB/RS)

Movimentos populares latino-americanos lembram dez anos da derrota da Alca

Por Bruno Pavan | Via Brasil de Fato

Em ato inaugural da Jornada Continental de Luta Anti-imperialista, organizações lembraram que imperialismo se mantém ativo na região.

Aconteceu nesta quarta-feira (7) o ato de lançamento da Jornada Continental de Luta Anti-imperialista. A jornada marcará os 10 anos da Cúpula dos Povos, na cidade da Mar Del Plata, que colocou fim à proposta da Área de Livre Comércio Entre as Américas (Alca).

Os diversos movimentos lembraram do plebiscito popular realizado no Brasil e que coletou mais 10 milhões de votos contrários ao bloco e a base militar de Alcântara, no Maranhão, em 2002.

Presente no encontro, a cônsul-geral da Cuba em São Paulo, Nelida Hernandez, alertou que os Estados Unidos continua sempre alerta a situação geopolítica da América latina e lembrou da luta do povo cubano contra o embargo.

“O império se mantém sempre alerta e procura outras formas de se manter com a bota sob nossas cabeças, temos que manter essa luta unida. Nós não temos nada contra o povo norte-americano, mas temos contra os sucessivos governos que afogavam todos os nossos planos, mas nós sempre ficamos com o nariz para fora e sobrevivendo”, explica.

Bandeira dos EUA é queimada durante o protesto contra a Alca em maio de 1997.

O dirigente da CUT Julio Turra lembrou que, uma década depois do enterro da ALCA, os acordos bilaterais estadunidenses se multiplicaram pelo continente a alertou para a criação do Tratado do TransPacífico, que reunirá Estados Unidos e Japão e já conta com a adesão de Chile, Colômbia e México. “Podemos enterrar uma ALCA que o imperialismo virá com outra coisa”.

O cenário da política latino-americana à época a criação da Alca foi lembrado pelo coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stédile. Ondas neoliberais e de recuos nas lutas populares abriram espaço para uma maior presença estadunidense no continente.

“A Alca era um instrumento jurídico que permitiria às empresas estadunidenses o controle do que quisessem no restante do continente. Estava previsto, inclusive, a adoção do dólar em todos os países do continente”, lembrou.

Dez anos depois ele analisa que a ascenção de governos populares em todo o continente freou a sanha imperialista, e que hoje há vitórias significativas como a criação da Comunidade dos Estados Latino Americanos e do Caribe (Celac) e da Unasul.

Durante todo o mês de novembro, diversas atividades ocorrerão por todo o Brasil para analisar os desafios atuais da luta anti-imperialista no continente. No dia 5, atos de rua estão marcados para São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Histórico

O projeto do então presidente norte-americano Bill Clinton de uma área de livre comércio, em 1994, sofreu duras críticas de movimentos populares e anti-imperialistas em vários países americanos. Nos anos 2000, a “Campanha Continental Contra a Alca” contou com a adesão de milhares de pessoas e realizou um plebiscito, em 2002, que obteve 10 milhões de votos contra a iniciativa. Em 2005, a Alca foi arquivada pela Cúpula da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Escritórios de advocacia no DF e no Rio são alvo da Operação Zelotes

Via CdB

A Polícia Federal cumpre desde o início da manhã desta quinta-feira sete mandados de busca e apreensão como parte da terceira fase da Operação Zelotes, que desarticulou, em março, um esquema compra de sentenças no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Cinco mandados estão sendo cumpridos em escritórios de advocacia no Distrito Federal e dois no Rio de Janeiro.

Os envolvidos no esquema responderão pelos crimes de advocacia administrativa fazendária

A nova fase da operação, de acordo com a PF, foi desencadeada após a análise do material apreendido na primeira fase da Zelotes, em 26 de março. “Nos documentos apreendidos à época foram identificados novos indícios que apontam para a participação de outro conselheiro, além de escritórios de advocacia ligados a ele”, informa a nota da Polícia Federal.

Os envolvidos no esquema responderão pelos crimes de advocacia administrativa fazendária, tráfico de influência, corrupção passiva, corrupção ativa, associação criminosa, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Carf

O Carf, órgão ligado ao Ministério da Fazenda, é a última instância administrativa de recursos relativos a processos abertos pela Receita Federal.

Desde março, a Polícia Federal, por meio da Operação Zelotes, apura esquema criminoso em que conselheiros e ex-conselheiros do Carf passavam informações privilegiadas para escritórios de consultoria. Esses escritórios, muitos dos quais tinham os próprios conselheiros como acionistas, procuravam empresas multadas pela Receita Federal e, mediante pagamento de propina, prometiam manipular o andamento de processos para anular ou reduzir as multas aplicadas. A investigação já comprovou prejuízos de R$ 6 bilhões aos cofres públicos, mas a suspeita é de que a fraude possa ultrapassar R$ 19 bilhões.

Bombardeios da Rússia na Síria matam 19 membros do EI em Al Raqqa e Palmira

Via Agência EFE

Pelo menos 19 membros do grupo jihadista Estado Islâmico (EI) morreram nas últimas 24 horas na Síria devido aos bombardeios realizados pela Rússia, informou nesta terça-feira o Observatório Sírio de Direitos Humanos.

Os ataques contra a região de Al Karama, no leste da província de Al Raqqa, principal reduto do EI na Síria, mataram 15 membros da organização terrorista. Os outros quatro perderam a vida durante a ofensiva aérea contra a cidade de Palmira, na província de Homs.

Segundo o Observatório, as Forças Aéreas da Rússia efetuaram 34 bombardeios em Al Karama e Palmira, onde também destruíram dois depósitos de armas dos extremistas e 12 veículos.

A Rússia iniciou no último dia 30 de setembro a intervenção aérea no território da Síria para combater o EI, segundo anunciaram fontes oficiais dos dois países.

No entanto, além dos alvos do EI, ativistas e opositores sírios denunciaram que Moscou também atacou posições civis e bases de organizações rebeldes contrárias ao regime de Bashar al Assad.

Bancada empresarial tenta usar projeto do PPE para mexer com a CLT

Via RBA

Segundo sindicalistas, relator tenta emplacar mudança em direitos trabalhistas, tentadas desde a era FHC, em programa pensado para proteger postos de trabalho em situações de crise.

Sindicalistas consideram que relatório de Daniel Vilela (PMDB-GO) embute tentativa de reforma trabalhista. LUCIO BERNARDO JR/CÂMARA DOS DEPUTADOS

A tentativa de alterar o Programa de Proteção ao Emprego (PPE), em discussão no Congresso, provocou protestos dos presidentes da CUT, Vagner Freitas, e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques. Os dirigentes identificam uma manobra parlamentar para permitir que a negociação de acordos coletivos prevaleça sobre a legislação, afrouxando a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Isso aconteceu em reunião da Comissão Mista da Medida Provisória 680/15, que institui o PPE, ao aprovar  hoje (1º) relatório do deputado Daniel Vilela (PMDB-GO). Uma das emendas permite uma mudança tentada desde o governo Fernando Henrique Cardoso. “Colocaram uma emenda que não se relaciona com o programa, que não estava em discussão. Ela introduz um novo procedimento nas relações capital e trabalho, que é a prevalência do negociado sobre o legislado, fazendo uma reforma trabalhista sem discussão, o que não poderemos aceitar”, afirmou Rafael, que acompanhou a votação e se disse indignado com a manobra.

O dirigente ressaltou que a medida provisória do PPE foi criada para evitar demissões em razão da queda de atividade econômica. E observou que houve muitos debates entre representantes de trabalhadores, empresários e governo para se chegar ao teor do programa. “O objetivo é preservar empregos em momentos de crise. Estamos fechando posição contrária, entre as centrais sindicais, a essa alteração que tenta aproveitar o programa para fazer passar uma reforma atropelada, sem debate.”

“Não foi para isso que nós fizemos o PPE”, reforçou o presidente da CUT. “Estão usurpando as conquistas dos trabalhadores. Queremos ampliar e, não, tirar direitos”, afirmou Freitas, anunciando uma reunião com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), nesta sexta-feira.

O vice-presidente da Comissão, deputado Afonso Florence (PT-BA), apresentou um destaque para retirar a mudança – que foi rejeitado por 12 votos a 8. No caminho contrário, foi acatado outro destaque – apresentado pelo deputado Efraim Filho (DEM-PB) – que  retirou da MP  a garantia de que o conjunto de normas estabelecidas em acordo coletivo deva ser, globalmente, mais benéfico do que as leis relacionadas, o que, na avaliação dos sindicalista, “piorou” ainda mais o texto. “Parece que quando os patrões têm maioria não há abertura para diálogo e composição. Chegamos a propor criar uma comissão específica para discutir esse assunto separadamente, pra amadurecer o debate, mas eles perceberam que tinham maioria e votaram”, disse o deputado.

Os sindicalistas pretendem fazer corpo a corpo no Congresso com objetivo de evitar que o PPE seja “desvirtuado”. Na avaliação de Rafael Marques, a conduta da maioria da comissão mista foi uma demonstração de que as forças conservadoras do Congresso Nacional estão em plena atividade. “Temos o Congresso mais conservador dos últimos tempos, que não se cansa tentar atacar os direitos que foram conquistados pelos trabalhadores. Primeiro foi o projeto da terceirização, agora essa tentativa de desfigurar o PPE”, disse o líder metalúrgico.

Outras alterações na MP, que dizem respeito ao funcionamento do programa, foram consideradas positivas. O relatório final ampliou o prazo para empresas participarem do programa – de 12 meses (seis meses com uma renovação) para 24 meses. E estendeu em um ano o período de adesão ao PPE, até 31 de dezembro de 2016. A MP segue agora para ser analisada e votada pelo plenário da Câmara.

O grande pacto social com as FARC na Colômbia ignorado pela mídia

Por J, Carlos de Assis

O mais importante acontecimento para a América do Sul em sete décadas, o acordo entre o Governo colombiano, considerado de direita, e a guerrilha das FARC, de extrema esquerda, está passando praticamente despercebido da Grande Mídia brasileira, e portanto da sociedade como um todo, a despeito da presença em Bogotá da Presidenta Dilma. É que os governos Lula e Dilma tiveram importante papel no estímulo a esse acordo, que foi coroado agora com a cobertura física da Abimaq-Associação Brasileira da Indústria de Máquinas.

Numa conversa por telefone ontem, o presidente da Abimaq, Carlos Pastoriza, estava exultante. Como parte do acordo, indústria brasileira de máquinas fornecerá os equipamentos necessários para que a antiga guerrilha se transforme em bases de agricultura familiar nos territórios antes sob seu controle. Algo semelhante, no Governo Lula, foi feito com países africanos, numa base subsidiada. No caso colombiano, um país mais rico, os termos se aproximarão mais das condições de mercado em taxas de juros.

É um resultado espetacular da diplomacia presidencial brasileira. Estamos contribuindo para o fim de uma guerrilha de 70 anos, que teve momentos críticos de banho de sangue e que em outros momentos parecia insolúvel. Claro, o presidente Santos desempenhou um papel crucial nisso por desconsiderar o conselho anacrônico dos abutres de seu próprio sistema militar que, sob conselho norte-americano, queriam uma saída exclusivamente militar para o conflito. Diga-se de passagem, saída impossível.

Estive na Colômbia em 2011 a convite de uma universidade da Noruega que teve participação decisiva no equacionamento posterior do conflito armado. Meu tema, para uma plateia de 35 generais das três Armas, era integração da América do Sul. Fiz o discurso óbvio segundo o qual não haveria efetiva integração sul-americana sem solução do conflito das FARC, sendo que, a meu juízo de não especialista, não haveria solução militar para o conflito da guerrilha. Encontrei um público militar surpreendentemente receptivo. Embora, claro, desconfiado de Hugo Chavez, na época, pelo radicalismo que consideravam anticolombiano.

O fato é que o processo de paz progrediu, e temos um resultado espetacular que transcende em muito o acordo de normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos. Neste caso, tivemos um movimento de cúpula no nível diplomático. No caso das FARC, significa um compromisso pelas bases, um desarmamento físico de milhares de guerrilheiros e uma atitude negociadora de suas lideranças dispostas a um acordo de interesse comum com o Governo. Em uma palavra, o pacto social. Só quem não está vendo a dimensão histórica desse acontecimento é a Grande Mídia brasileira. Ela só se emociona quando os EUA estão interessados, e este, como se trata de acordo de paz, e não de guerra, não lhes interessa.
No rápido telefonema que troquei com Pastoriza, concluímos que, para além do acordo de exportação de equipamentos, de interesse objetivo para as FARC e para a indústria brasileira, talvez o significado político maior do que acontece na Colômbia é o exemplo de coroamento de um longo processo negociador que culminou com um grande pacto social entre correntes inicialmente ultra divergentes. Isso é um exemplo para nós, na medida em que, embora sem guerrilha, estamos num estado de pré-convulsão social, no qual as instituições centrais do Estado já não se entendem entre si e se derretem perante o povo, o que exige um esforço de acordo nos níveis mais básicos da sociedade, entre as classes empresariais e de trabalhadores.
Nas discussões que tenho tido com cientistas políticos, economistas políticos, líderes trabalhistas, líderes empresariais, parlamentares, encontro grande convergência com essa análise. O que a Colômbia está ganhando depois de um longo processo de guerra civil, nós podemos ganhar sem guerra civil. No plano teórico, essa análise é muito bem aceita. No plano emocional, ainda não. A maioria das pessoas, independentemente do nível social, acredita no surgimento de um avatar, um salvador da pátria que venha no resgatar do caos institucional em que vivemos. É uma ilusão. Quando esse derretimento institucional geral descer para o nível das classes sociais, em luta direta entre si e desconfiada uma da outra inicialmente, só restarão duas saídas: ou o pacto social entre elas, reordenando o Estado, ou uma convulsão social que levará à guerra civil, à volta dos militares e à ditadura.

P.S. Voltarei ao tema crucial da moeda e do controle de capitais oportunamente.

***

*José Carlos de Assis é jornalista, economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor, entre outros livros de economia política, de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.

O Estado e a esquerda

Por Prabhat Patnaik, via Resistir.info

A atitude maoísta para com o Estado indiano é clara. Empenhado numa luta armada para o derrube do mesmo, os maoístas vêem este Estado como o seu inimigo. O que dizer acerca, contudo, daquele segmento da esquerda que não está empenhado na luta armada mas participa em eleições parlamentares, que por vezes constitui governos ao nível de estado e que actua de acordo com a Constituição? Será que ele considera aceitável o Estado indiano? E uma vez que de acordo com a sua análise, este Estado é um Estado burguês (ou um Estado “burguês-latifundiário”), comprometido com a defesa da propriedade capitalista, será que a “esquerda parlamentar” reconciliou-se então à preservação do sistema capitalista na Índia?

Se bem que muitos responderiam a esta pergunta pela afirmativa, a própria esquerda negaria veementemente esta acusação. Ela argumentaria que permanece tão comprometida como sempre com o derrube do capitalismo e do Estado burguês e que aceitar o Estado indiano burguês (e ocasionalmente mesmo a ser parte dele, uma vez que governos estaduais não estão fora do âmbito do Estado), é apenas um meio de operar a partir de dentro da ordem, para obter o requisito do apoio popular a fim de derrubar a própria ordem. E para obter este apoio, ela opera não só na arena parlamentar como também em outras esferas onde procura fortalecer movimentos populares.

Este era o argumento que o não dividido Partido Comunista havia avançado quando cancelou a Luta Armada em Telangana e em 1952 disputou as primeiras eleições gerais no país sob a nova Constituição. Contudo, este argumento provoca uma imagem bizarra, de um Partido pacientemente “à espera”, ou a trabalhar diligentemente em direcção ao desenlace, onde receberá como prémio apoio público adequado, um tanto como o “virtuoso” que recebe um prémio no “dia do julgamento”. Uma tal imagem é obviamente inaceitável para a esquerda, o que significa que este argumento não pode ser tão simples; ele tem de ser complementado por um argumento mais amplo. Este argumento mais amplo pode, na minha opinião, ser esboçado como se segue.

O Estado burguês não é uma coisa imobilizada. Ele pode assumir perfis e aparências diversas. Uma ditadura fascista é um Estado muito mais burguês (onde monopólios estão directamente envolvidos com o exercício do poder do Estado), tal como um “Estado Previdência” social-democrata, uma vez que ambos estão comprometidos com a defesa e promoção da propriedade capitalista. Por outras palavras, a forma e o conteúdo do Estado burguês muda ao longo do tempo e esta mudança é conduzida por dois factores: um são as mudanças “espontâneas” que ocorrem na natureza do capitalismo, as quais a esquerda acredita estarem a ascender a partir das tendências imanentes do capital, a partir da lógica interna do seu funcionamento, tal como o capitalismo da “livre competição” do tempo de Adam Smith deu lugar ao capitalismo monopolista. E o outro factor é o grau de resistência e pressão popular que é aplicado sobre o Estado.

O capitalismo tipicamente quer que a intervenção do Estado seja para promover e fomentar a lógica interna do seu funcionamento ao invés de transgredi-la. Ele está continuamente a tentar assegurar que a pressão popular sobre o Estado seja mantida sob controle, que a necessidade para o Estado de adoptar medidas em resposta aos desejos do povo e contra as exigências do capital seja anulada. Em suma, ele está sempre a tentar atenuar a democracia.

Este facto por vezes é articulado abertamente. Em 2006, por exemplo, quando o governo Vajpayee na Índia venceu as eleições, The Wall Street Journal lamentou este desenvolvimento e, candidamente, observou que não se deveria permitir que só o eleitorado escolhesse o governo. Ao invés, todos os “participantes” (“stakeholders”), incluindo “investidores”, deveriam ter uma palavra na matéria! Mais recentemente, na Europa, na esteira do referendo na Grécia, o eleitorado foi descrito como um “aborrecimento” pelos porta-vozes da finança.

Naturalmente, mudanças tais como a de 2006, não afectam necessariamente os “investidores”. O governo seguinte, desde que não afaste o país do turbilhão dos fluxos financeiros globais (que a globalização, o resultado da lógica de funcionamento do capital, necessariamente implica), é constrangido a prosseguir as mesmas políticas depois de vencer a eleição, por medo de que qualquer desvio das mesmas ofenda o capital financeiro e, com isso, provoque saídas de capital e uma crise financeira. Mas isto apenas sublinha o facto de que os caprichos do capital financeiro suprimem as exigências do povo numa economia exposta aos fluxos financeiros globais, isto é, que tal exposição atenua a democracia. Não importa quem o povo eleja, não importa que compromissos foram assumidos junto ao povo antes das eleições, o governo recém-eleito necessariamente trai estes compromissos desde que retenha as mesmas ligações externas do anterior (como o Syriza na Grécia acabou de demonstrar).

Mas com êxito ou não, a resistência do povo actua como um contrapeso contra esta tendência “espontânea” do capital para atenuar a democracia e, em certas conjunturas específicas, ela demonstra-se mais poderosa. O período do pós guerra na Europa – quando a resistência interna na classe trabalhadora (Winston Churchill, recordem-se, perdeu as eleições britânicas efectuadas imediatamente após a guerra devido ao horror da classe trabalhadora em relação às suas políticas sócio-económicas), e o temor do Comunismo, forçou o capital a fazer concessões – é um exemplo óbvio de uma tal conjuntura. A “gestão da procura” keynesiana e o “Estado Previdência” foram seus produtos.

Por outras palavras, naquele período o Estado burguês, sem deixar de ser um Estado burguês, foi empurrado a uma direcção previdenciária (welfarist) sob a pressão popular e contra os desejos da própria burguesia. Numa data posterior, com o capital tornando-se globalizado em consequência das suas próprias tendências imanentes, nem o poder do Estado-nação nem o do movimento da classe trabalhadora (o qual continua a ser organizado em bases nacionais) foi suficientemente poderoso para impedir a imposição da sua agenda. A “espontaneidade” do sistema reafirmou-se livrando-se da interferência do Estado contra a sua lógica interna, a qual dirige-se para o enfraquecimento da resistência e dos direitos dos trabalhadores, para a criação de um exército de reserva de trabalho, para repelir medidas de Estado previdência e para uma atenuação da democracia.

Uma vez que as tendências espontâneas do capital são sempre para pressionar o Estado burguês em direcção ao autoritarismo, a defesa e aprofundamento do seu conteúdo democrático, através da mobilização da resistência popular, torna-se uma tarefa da esquerda. A esquerda, portanto, não está preocupada apenas em calmamente reunir suas forças dentro do corpo de alguma entidade imobilizada (fixed) chamada Estado burguês, até que estas forças se tornem suficientemente fortes para derrubar aquele Estado. Ela está preocupada em defender a todo momento o conteúdo democrático do Estado burguês contra a tentativa da própria burguesia de corroer esse conteúdo.

Dito de modo diferente, dentro do objectivo estratégico global de substituir o Estado burguês existente, defender o conteúdo democrático do sistema constitucional-político contra a tentativa da burguesia para empurrá-lo numa direcção mais autoritária, torna-se uma táctica essencial na luta para a ultrapassagem do Estado burguês. Isto acontece porque tal luta em defesa do conteúdo democrático do Estado burguês também se torna uma luta contra os escalões dominantes da burguesia que estão por trás do ímpeto autoritário.

Na verdade, paradoxalmente, defender o que quer que exista de conteúdo democrático no Estado burguês é uma intervenção poderosa e eficaz no combate global contra o Estado burguês. Isto acontece porque este modo de superar o Estado burguês actua como uma restrição contra a imposição numa data posterior de qualquer nova espécie de autoritarismo, de qualquer ditadura totalitária. E isto envolve em todas as etapas mobilizar grandes massas de povo, junto com outras formações políticas que também se oponham ao autoritarismo, o que lhe dá uma potência muito maior.

Tudo isto é ilustrado vivamente na actual situação indiana. Para executar “reformas” neoliberais tais como tomar terras de camponeses sem o seu consentimento (um exemplo do que Marx chamou “acumulação primitiva de capital”) e introduzir “flexibilidade no mercado trabalho” (o que significa reduzir os direitos e a resistência dos trabalhadores), que estão de acordo com as tendência imanentes do capital, a Índia corporativa apoiou nas últimas eleições uma formação política suportada por uma organização comunal-fascista cujo objectivo confessado continua a ser a criação de uma “Nação Hindu” (” Hindu Rashtra“). Esta aliança corporativa-comunal que adquiriu poder já está a desviar o país bastante significativamente numa direcção autoritária. É importante nesta conjuntura que ao invés de menosprezar qualquer conteúdo democrático que exista dentro do Estado, tratando-o como “impostura”, a esquerda defenda este conteúdo democrático do Estado burguês. O conteúdo democrático do Estado burguês, por outras palavras, torna-se um canteiro para a luta de classe. Só defendendo a democracia a esquerda pode esperar transcender o sistema.