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Diálogos Desenvolvimentistas: Quem banca o seu representante? (II)

Em continuação ao debate publicado no dia 10/03 de mesmo título, publicamos sua segunda parte abaixo, complementando essa importante discussão sobre representatividade, democracia e a influência do poder econômico sobre os processos decisórios.

André Luís – Mesmo que você contribua para seu candidato e este receba recursos de grandes empresas, nunca teremos condições de termos a mesma influência destas (a não ser com deputados ideológicos), nem sabemos se estes vão nos defender.

No caso do voto distrital talvez isso aconteceria, pois estaríamos mais perto dos eleitos e poderíamos cobrar mais efetivamente.

Os deputados entre defender os interesses de seus eleitores e de seus contribuintes, sempre preferirão o de seus contribuintes, pois estes nas próximas eleições contribuirão para suas campanhas de novo e seus eleitores podem ser enganados por promessas, discursos, uma posição em determinado assunto e uma ou outra obrinha do orçamento (que às vezes a burocracia atrasa).

Eu mesmo nesta eleição vi o pessoal do meu bairro em que nasci votar em candidatos que só aparecem em eleição (mesmo depois de um ano de enchente).

Temos de mudar conceitos.

Weber Figueiredo – Temos de mudar conceitos. Isso!

Tania Faillace – Receio que não tenhamos tempo. Acho que lhe enviei um artigo do politólogo argentino Atílio Boron sobre o fato de Barack Obama ter recebido uma ordem do CMI (Complexo Militar Industrial) para arranjar um pretexto qualquer de atacar Venezuela imediatamente.

Teremos guerra nos vizinhos, e teremos guerra aqui dentro. O panelaço foi um sinal de entendimento para começar ações aqui, possivelmente depois de começarem na Venezuela.

Serão ações terroristas, atentados. E olho vivo nos meninos e meninas, nos coxinhas, que são elementos comandados pelo CANVAS, a serviço dos norteamericanos.

A República de Weimar foi derrubada também por movimentos jovens, e sabemos o que aconteceu nos anos seguintes.

 ***

Weber Figueiredo é engenheiro e professor da CEFET-RJ.

André Luís é economista e funcionário do BNDES.

Tania Faillace é jornalista e escritora.

Leonardo Boff: O que se esconde atrás do ódio ao PT (I e II)?

Por Leonardo Boff | Via Jornal GGN

O que se esconde atrás do ódio ao PT (I)?, por Leonardo Boff

Há um fato espantoso mas analiticamente explicável: o aumento do ódio e da raiva contra o PT. Esse fato vem revelar o outro lado da “cordialidade” do brasileiro, proposta por Sérgio Buarque de Holanda: do mesmo coração que nasce a acolhida calorosa, vem também a rejeição mais violenta. Ambas são “cordiais”: as duas caras passionais do brasileiro.

Esse ódio é induzido pela mídia conservadora e por aqueles que na eleição não respeitaram rito democrático: ou se ganha ou se perde. Quem perde reconhece elegantemente a derrota e quem ganha mostra magnanimidade face ao derrotado. Mas não foi esse comportamento civilizado que triunfou. Ao contrário: os derrotados procuram por todos os modos deslegitimar a vitória e garantir uma reviravolta política que atendesse a seu projeto, rejeitado pela maioria dos eleitores.

Para entender, nada melhor que visitar o notório historiador, José Honório Rodrigues que em seu clássico Conciliação e Reforma no Brasil (1965) diz com palavras que parecem atuais:

”Os liberais no império, derrotados nas urnas e afastados do poder, foram se tornando além de indignados, intolerantes; construíram uma concepção conspiratória da história que considerava indispensável a intervenção do ódio, da intriga, da impiedade, do ressentimento, da intolerância, da intransigência, da indignação para o sucesso inesperado e imprevisto de suas forças minoritárias” (p. 11).

Esses grupos prolongam as velhas elites que da Colônia até hoje nunca mudaram seu ethos. Nas palavras do referido autor: “a maioria foi sempre alienada, antinacional e não contemporânea; nunca se reconciliou com o povo; negou seus direitos, arrasou suas vidas e logo que o viu crescer lhe negou, pouco a pouco, a aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence”(p.14 e 15). Hoje as elites econômicas continuam a abominar o povo. Só o aceitam fantasiado no carnaval. Mas depois tem que voltar ao seu lugar na comunidade periférica (favela).

Lamentavelmente, não lhes passa pela cabeça que “as maiores construções são fruto popular: a mestiçagem racial, que criava um tipo adaptado ao país; a mestiçavel cultural que criava uma síntese nova; a tolerância racial que evitou o descaminho dos caminhos; a tolerância religiosa que impossibiltou ou dificultou as perseguições da Inquisição; a expansão territorial, obra de mamelucos, pois o próprio Domingos Jorge Velho, devassador e incorporador do Piaui, não falava português; a integração psico-social pelo desrespeito aos preconceitos e pela criação do sentimento de solidariedade nacional; a integridade territorial; a unidade de língua e finalmente a opulência e a riqueza do Brasil que são fruto do trabalho do povo. E o que fez a liderança colonial (e posterior)? Não deu ao povo sequer os benefícios da saúde e da educação, o que levou Antônio Vieira a dizer:’Não sei qual lhe faz maior mal ao Brasil, se a enfermidade, se as trevas”(p. 31-32).

A que vêm estas citações? Elas reforçam um fato histórico inegável: com o PT, esses que eram considerados carvão no processo produtivo (Darcy Ribeiro) e o rebutalho social, conseguiram, numa penosa trajetória, se organizar como poder social que se transformou em poder político no PT e conquistar o Estado com seus aparelhos. Apearam do poder, pelo voto, as classes dominantes; não ocorreu simplesmente uma alternância de poder mas uma troca de classe social, base para um outro tipo de política. Tal saga equivale a uma autêntica revolução social, pacífica e de cunho popular.

Isso é intolerável para as classes poderosas que se acostumaram a fazer do Estado o seu lugar natural e de se apropriar privadamente dos bens públicos pelo famoso patrimonialismo, denunciado por Raymundo Faoro.

Por todos os modos e artimanhas querem ainda hoje voltar a ocupar esse lugar que julgam de direito seu. Seguramente, começam a dar-se conta de que, talvez, nunca mais terão condições históricas de refazer seu projeto de dominação/conciliação. Outro tipo de história política dará, finalmente, um destino diferente ao Brasil.

Para eles, o caminho das urnas se tornou inseguro pelo nível crítico alcançado por amplos estratos do povo que rejeitaram seu projeto político de alinhamento neoliberal ao processo de globalização, como sócios dependentes e agregados. O caminho militar será hoje impossível dado o quadro mundial mudado. Cogitam com a esdrúxula possibilidade da judicialização da política, contando com aliados na Corte Suprema que nutrem semelhante ódio ao PT e sentem o mesmo desdém pelo povo.

Através deste expediente, poderiam lograr um impeachment da primeira mandatária da nação. É um caminho conflituoso pois a articulação nacional dos movimentos sociais tornaria arriscado este intento e talvez até inviável.

O ódio contra o PT é menos contra PT do que contra o povo pobre que por causa do PT e de suas políticas sociais de inclusão, foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas. Estas pensam em fazer, com boa consciência, apenas caridade, doando coisas, mas nunca buscando a justiça social.

Antecipo-me aos críticos e aos moralistas: mas o PT não se corrompeu? Veja o mensalão? Veja a Petrobrás? Não defendo corruptos. Reconheço, lamento e rejeito os malfeitos cometidos por um punhado de dirigentes. Devem ser julgados, condenados à prisão e até expulsos do PT. Traíram mais de um milhão de filiados e principalmente botaram a perder os ideais de ética e de transparência. Mas nas bases e nos municípios – posso testemunhá-lo em dezenas de assessorias – vive-se um outro modo de fazer política, com participação popular, mostrando que um sonho tão generoso não se deixar matar assim tão facilmente: o de um Brasil menos malvado, mais digno, justo pacífico. As classes dirigentes, por 500 anos, no dizer rude de Capistrano de Abreu, “castraram e recastraram, caparam e recaparam” o povo brasileiro. Há maior corrupção histórica do que esta?

Voltaremos ao tema.

O que se esconde por trás do ódio ao PT(II)?

Já dissemos anteriormente e o repetimos: o ódio disseminado na sociedade e nas mídias sociais, não é tanto ao PT, mas àquilo que o PT propiciou para as grandes maiorias marginalizadas e empobrecidas de nosso país: sua inclusão social e a recuperação de sua dignidade. Não são poucos os beneficiados dos projetos sociais que testemunharam: “sinto-me orgulhoso não porque posso comer melhor e viajar de avião, coisa que jamais poderia antes, mas porque agora recuperei minha dignidade”. Esse é o mais alto valor político e moral que um governo pode apresentar: não apenas garantir a vida do povo, mas faze-lo sentir-se digno, alguém participante da sociedade.

Nenhum governo antes em nossa história conseguiu esta façanha memorável. Nem havia condições para realizá-la porque nunca houve interesse em fazer das massas exploradas de indígenas, escravos e colonos pobres, um povo consciente e atuante na construção de um projeto-Brasil. Importante era manter a massa como massa, sem possibilidade de sair da condição de massa, pois assim não poderia ameaçar o poder das classes dominantes, conservadoras e altamente insensíveis aos padecimentos do próximo. Essas elites não amam a massa empobrecida. Mas tem pavor de um povo que pensa, pois faz valer seus direitos e pode ameaçar os privilégios dela.

Para conhecer esta anti-história aconselho aos políticos, aos pesquisadores e aos leitores/as que leiam o estudo mais minucioso que conheço:”a política de conciliação: história cruenta e incruenta”, um largo capítulo de 88 páginas do clássico “Conciliação e reforma no Brasil” de José Honório Rodrigues (1965 pp. 23-111). Ai se narra, como a dominação de classe no Brasil, desde Mende de Sá até os tempos modernos, foi extremamente violenta e sanguinária, com muitos fuzilamentos e enforcamentos e até de guerras oficiais de extermínio dirigidas contra tribos indígenas como contra os botocudos em 1808.

Também seria falso pensar que as vítimas tiveram um comportamento conformista. Ao contrário, reagiram também com rebeliões e violência. Foi a massa indígena e negra, mestiça e cabocla a que mais lutou e que foi reprimida cruelmente, sem qualquer piedade cristã. Nosso solo ficou ensopado de sangue.

As minorias ricas e dominantes elaboraram uma estratégia de conciliação entre si, por cima da cabeça do povo e contra o povo, para manter a dominação. O estratagema sempre foi mesmo. Como escreveu Marcel Burstztyn (O país das alianças: as elites e o continuismo no Brasil, 1990): “o jogo nunca mudou; apenas embaralharam-se diferentemente as cartas do mesmo e único baralho.”

Foi a partir da política colonial e continuada até recentemente que se lançaram as bases estruturais da exclusão no Brasil, como foi mostrado por grandes historiadores, especialmente por Simon Schwartzman com o seu “Bases do autoritarismo brasileiro” (1982) e Darcy Ribeiro com seu grandioso “O povo Brasileiro” (1995).

Existe, pois, com raízes profundas, um desprezo pelo povo, gostemos ou não. Esse desprezo atinge o nordestino, tido por ignorante (quando a meu ver é extremamente inteligente, vejam seus escritores e artistas), os afrodescendentes, os pobres econômicos em geral, os moradores de favelas (comunidades), e aqueles que têm outra opção sexual.

Ocorre que irrompeu uma mudança profunda graças às políticas sociais do PT: os que não eram começaram a ser. Puderam comprar suas casas, seu carrinho, entraram nos shoppings, viajaram de avião às multidões, tiveram acesso a bens antes exclusivos das elites econômicas.

Segundo o pesquisador Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade social no Brasil : 45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas 5 mil famílias extensas. Estas são nossas elites. Vivem de rendas e da especulação financeira, portanto, ganham dinheiro sem trabalho. Pouco o nada investem na produção para alavancar um desenvolvimento necessário e sustentável.

Veem, temerosas, a ascensão das classes populares e de seu poder. Estas invadem seus lugares exclusivos. No fundo, começa a haver uma pequena democratização dos espaços sociais.

Essas elites formaram, atualmente, um bloco histórico cuja base é constituida pela grande mídia empresarial, jornais, revistas e canais de televisão, altamente censuradores do povo, pois lhe ocultam fatos importantes, banqueiros, empresários centrados nos lucros, pouco importa a devastação da natureza e ideólogos (não são intelectuais) que se especializaram em criticar tudo o que vem do governo do PT e fornecem superficialidades intelectuais em defesa do status quo.

Esta constelação anti-popular e até anti-Brasil suscita, nutre e difunde ódio ao PT como expressão do ódio contra aqueles que Jesus chamou de “meus irmãos e irmãs menores”, os humilhados e ofendidos de nosso pais.

Como teólogo me pergunto angustiado: na sua grande maioria, essas elites são de cristãos e de católicos. Como combinam esta prática perversa com a mensagem de Jesus? O que ensinaram as muitas Universidades Católicas e as centenas de escolas cristãs para permitirem surgir esse movimento blasfemo, pois, atinge o próprio Deus que é amor e compaixão e que tomou partido pelos que gritam por vida e por justiça?

Mas entendo, pois para elas vale o dito espanhol: entre Deus e o dinheiro, o segundo é primeiro.

Infelizmente.

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Sugestão via e-mail da participante do grupo Desenvolvimentistas, Fátima Magalhães:

Segue entrevista com o economista Marcio Pochmann e dois artigos do teólogo Leonardo Boff no Jornal GGN que – juntos – talvez possam nos ajudar a refletir na tentativa de entender um pouco mais acerca das tramas tecidas neste delicado momento politico que está a brotar no Brasil. Destas singulares publicações, destaco trechos nos quais o Prof. Marcio Pochmann e o Teol. Leonardo Boff parecem confluir para uma mesma questão central, segundo dados e interpretações que lhes são próprias.

“Nessa primeira década do século 21 a gente conseguiu ter um crescimento econômico importante, forte, significativo, combinado com democracia e política de distribuição de renda, de maneira geral. Esses três elementos, o regime político, o econômico e o social, não se combinaram dessa mesma forma nos últimos 50 anos.”

“Nós somos um país que se constituiu em cima da desigualdade. Nós somos um país herdeiro de quatro séculos de escravidão. A desigualdade é uma marca do Brasil. Na medida em que essa desigualdade começa a ser atacada, de certa maneira, ela termina expressando certo desconforto. Porque há vários sinais de manifestação em relação a essa circunstância.” Marcio Pochmann

“Segundo o pesquisador Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade social no Brasil : 45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas 5 mil famílias extensas. Estas são nossas elites. Vivem de rendas e da especulação financeira, portanto, ganham dinheiro sem trabalho. Pouco ou nada investem na produção para alavancar um desenvolvimento necessário e sustentável.” Leonardo Boff, citando estudo de Marcio Pochmann e cols.

Piketty e as hipocrisias conceituais

Por Waldimir Pomar | Via Correio da Cidadania

Thomas Piketty, o economistas francês que estudou as economias desenvolvidas do mundo e chegou à conclusão de que, nelas, a desigualdade econômica está aumentando de forma crescente, teve seu livro publicado em português e veio ao Brasil para um debate com conhecidos econometristas brasileiros da corrente monetarista.

Isso serviu de pretexto, paralelamente, para a publicação de comentários que trouxeram à luz o que se poderia chamar de hipocrisias conceituais. Em resumo: a) a mesma globalização que tornou os ricos mais ricos coincide com o maior período de redução da pobreza na história da humanidade; b) com isso, vislumbra-se pela primeira vez na história um futuro com o fim da pobreza absoluta; c) o próprio Piketty reconheceu que combater a pobreza é mais importante que redistribuir a riqueza; d) o segredo da possibilidade de reduzir a pobreza, como teria demonstrado o Brasil, não estaria na redistribuição da riqueza, mas no crescimento econômico, ou seja, na geração de riqueza; e) portanto, para acabar com a pobreza é preciso gerar riqueza.

Em continuidade, essas hipocrisias conceituais concluem que: a) é justamente a definição dos caminhos para crescer, ou gerar riqueza, que tem dividido os economistas há décadas; b) de um lado, estariam aqueles que acreditam no Estado como o principal ator do crescimento, e que supõem tolerável algum tipo de desequilíbrio nas contas públicas e de inflação mais alta, de modo a evitar a redução das atividades econômicas e das taxas de emprego; c) de outro lado estariam os que acreditam que os investimentos privados são o principal motor do crescimento, sendo necessário incentivar tais investimentos e fazer com que o Estado controle seus gastos e combata a inflação.

Começando pelas conclusões, elas são, além de hipócritas, de um primarismo crasso. A história mostrou que nem sempre basta que o Estado controle seus gastos e combata a inflação. Se o Estado brasileiro, durante a crise capitalista mundial dos anos 1930, além de controlar seus gastos e a inflação, não tivesse realizado investimentos produtivos e irrigado inúmeros proprietários privados com financiamentos públicos, o Brasil não teria se industrializado. Os capitalistas que hoje arrotam seu empreendedorismo talvez sequer existissem. O agrarismo teria se imposto e o país continuaria sendo um reles exportador de algumas commodities agrícolas. Quem tiver dúvida, que leia pelo menos os trabalhos de Roberto Simonsen e de Eugenio Gudin.

O motor real do crescimento são os investimentos. O problema é que o capital privado só admite realizar investimentos se suas taxas de retorno, ou de rendimento, forem superiores aos juros pagos pelo Estado para financiar suas atividades, ou para atrair investidores para o cassino financeiro. Assim, existem os que acreditam no Estado como principal ator do crescimento e supõem toleráveis desequilíbrios fiscais e inflação mais alta. Porém, também há os que enxergam no Estado um indutor, tanto dos investimentos públicos quanto dos investimentos privados. E que acham fundamental combater a inflação não pelo tripé de juros altos, arrocho fiscal e câmbio fixo, que historicamente levou o Brasil, nos anos 1990, a amargar uma verdadeira destruição de seu parque produtivo. A inflação pode e deve ser combatida através da redução dos juros, permitindo o aumento da produção, ou da oferta, assim como dos empregos e dos salários. O controle fiscal pode ser realizado priorizando os investimentos destinados ao aumento da produção. E as taxas de câmbio podem ser administradas para elevar a competividade externa dos manufaturados produzidos no país e equilibrar a balança comercial.

Vistas as coisas desse modo, pode-se considerar que não existe apenas um lado e outro. Há vários lados dividindo os economistas e outros pensadores sociais, não só a respeito dos caminhos a seguir para gerar riqueza, ou crescer, nem a respeito do que fazer com a riqueza gerada pelo trabalho humano. Há muitas divisões. Umas a respeito da globalização. Outras sobre a redução da pobreza. Ainda outras sobre o fim da pobreza absoluta, da relação entre pobreza e desigualdades, e sobre a necessidade de gerar riqueza para acabar com a pobreza.

Por exemplo, a hipocrisia conceitual critica Piketty por haver pesquisado apenas os países capitalistas desenvolvidos. Reconhece que, neles, os ricos ficaram mais ricos. Mas engrena daí para a conclusão de que, nesse mesmo período, a globalização produziu a maior redução histórica da pobreza. Porém, poderia e deveria ter dito que justamente naqueles países desenvolvidos, onde os ricos ficaram estupidamente mais ricos, não houve redução da pobreza. Ao contrário, esta se alastrou desde os anos 1980. Por outro lado, foram os países em desenvolvimento, ao adotarem políticas econômicas que romperam com o decantado tripé neoliberal, mesmo parcialmente, como foi o caso do Brasil, que reduziram a pobreza. Temos, pois, uma dicotomia mundial muito mais complexa do que a hipocrisia conceitual pode supor.

Nessas condições é hipocrisia pura vislumbrar apenas o fim da pobreza absoluta. Por que não vislumbrar também o fim da pobreza relativa? Será por que a pobreza relativa é o principal indicador do crescimento da desigualdade social descrita por Piketty? Ou por que a pobreza relativa, na doentia relação não só com o crescimento da riqueza, mas principalmente com a concentração e centralização da riqueza em algumas poucas mãos (1% dos países desenvolvidos), tende a se transformar em pobreza absoluta, ao invés de lhe dar fim?

Piketty teve o mérito de comprovar, com dados estatísticos, a brutal e crescente centralização da riqueza, ou do capital, assim como a brutal e crescente desigualdade nos países capitalistas desenvolvidos. Ou seja, ele comprovou algumas das hipóteses apresentadas por Marx no século 19 sobre as leis internas do desenvolvimento capitalista. Este tem uma imensa capacidade de gerar riqueza, através da compra da força de trabalho humano, tanto na forma de trabalho vivo quanto de trabalho morto. Mas, faz isso concentrando e centralizando a riqueza gerada, incorporando as ciências e tecnologias ao processo produtivo (trabalho morto), elevando a produtividade e descartando forças de trabalho (trabalho vivo), e intensificando tanto a pobreza relativa quanto a pobreza absoluta.

No momento, temos uma dicotomia entre os países capitalistas desenvolvidos, em crise e em declínio, e os países em desenvolvimento, tanto capitalistas quanto socialistas de mercado. Estes enfrentam as dificuldades das ondas da crise capitalista, mas ainda estão em crescimento e com redução da pobreza. Não se pode igualar ambos os processos e colocar todos os ovos da redução da pobreza na mesma cesta.

Nos países capitalistas desenvolvidos, o problema que se coloca para combater a pobreza consiste em redistribuir a riqueza concentrada e centralizada. O que talvez só possa ser feito através da transformação da propriedade privada em propriedade social. Nos países em desenvolvimento, a redução da pobreza consiste tanto no crescimento econômico, ou na geração da riqueza, quanto na criação de mecanismos que redistribuam parte dessa riqueza. Uma parte para a reprodução ampliada dos investimentos, do processo produtivo e da geração de novas riquezas. E parte para acabar com a pobreza, por meio de salários decentes e serviços públicos eficazes. O resto é pura hipocrisia, nem sempre simplesmente conceitual.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Rocha Loures assume direção estadual do PMDB

Via Rodrigo Rocha Loures

Decisão da maioria dos peemedebistas é a resposta às dificuldades que a direção anterior vinha impondo à candidatura de Requião ao governo

Por 42 votos a favor e nenhum contra, o diretório estadual do PMDB decidiu pela destituição do comando da diretoria do partido no Paraná e pela condução do ex-deputado federal Rodrigo Rocha Loures à presidência. Rocha Loures, que é candidato a deputado federal, é o único paranaense membro da direção nacional do PMDB.

A reunião que definiu a troca de comando aconteceu em frente à sede do partido, em Curitiba. “Foi uma decisão da maioria, totalmente dentro do estatuto”, afirmou Rocha Loures. O diretório do PMDB é composto por 71 membros, portanto mais da metade compareceu e votou a favor da mudança.

De acordo com o novo presidente, que ficará à frente da executiva estadual até novembro, quando serão realizadas novas eleições, a decisão de trocar a direção ocorreu em função das manifestações e ações que contrariaram o resultado da convenção do partido, quando foi definido o nome do senador Roberto Requião para disputar o governo.

“No início do processo eleitoral identificamos não apenas resistência, mas uma série de dificuldades impostas pela direção do partido à candidatura do senador Requião ao governo, que foi decidida em um processo democrático, na convenção do partido”, afirmou.

Logo após o anúncio da mudança, o presidente do PMDB nacional, Michel Temer, falou com Rocha Loures e com Requião manifestando total apoio à decisão política que a executiva do Paraná tomou. “A direção nacional do PMDB apoia todo processo democrático onde a maioria se manifesta”, disse Temer.

“O PMDB caminha agora unido para fazer com que o nosso candidato Roberto Requião seja governador do estado”, disse Rocha Loures, que garantiu também que os membros destituídos da diretoria e que são candidatos, terão total apoio e respeito da nova direção para suas campanhas.

A polícia nunca garantiu a ordem

Uol/Reprodução

Por Erick Vasconcelos, via Sul 21

Acabou. No começo da noite de quinta-feira, a Polícia Militar de Pernambuco decidiu terminar com a greve que durava o dia inteiro. Houve saques, depredações, desordem, assassinatos. O comércio fechou, as pessoas voltaram para casa. Arrastões aconteceram, carros foram queimados em outros lugares, talvez para verificar se os bombeiros também haviam entrado em greve.

Ao sair de casa aqui no Recife então, porém, uma sensação prevalecia: nada havia mudado. Pernambuco é um dos estados mais violentos do Brasil, e Recife é a 39ª cidade mais perigosa do planeta, com 36,82 homicídios a cada 100 mil habitantes. Com o funcionamento normal da polícia, nós estamos em constante perigo. Sem ela, o perigo havia multiplicado ou nada havia mudado?

Mudou a percepção das pessoas, pensando que não haveria punição a seus crimes. Todos saíram de casa e tomaram as ruas, roubaram. Grandes lojas moveram seus estoques e foram capazes de se proteger, muitos pequenos comerciantes perderam tudo. A situação parecia ter saído do controle, mas o governo decidiu exercer seu monopólio da violência de modo radical e colocou tanques de guerra nas ruas. Imagino que esperassem explodir alguns que tenham roubado uns aparelhos de TV — a Copa está chegando, TVs são aparelhos cobiçados.

Mas a percepção de que não havia polícia era muito mais forte do que a realidade: a verdade é que Pernambuco nunca tem polícia. Se tem, é vista como ameaça, não como proteção, por mais de 80% da população. Em nossas vidas normais, dificilmente temos a sensação de que a polícia nos protegerá, e na quinta-feira nada tinha mudado nesse aspecto. Se, num dia qualquer, as pessoas decidissem fazer o mesmo que fizeram na quinta, elas seriam capazes e sairiam impunes. Elas só não notaram sua própria força ainda, mas a polícia é apenas um pequeno número de pessoas, incapazes de lidar com uma quantidade infindavelmente maior de pessoas que não querem obedecer suas ordens.

O fato de a polícia ter parado de trabalhar e estimulado a desordem parecia apontar para a essencialidade da polícia, mas nos disse justamente o contrário. No Recife, morreram 1416 pessoas em 2013 — quase 4 pessoas por dia. No dia 15, de completa anomia e anormalidade, foram registradas 7 mortes. A greve deveria nos fazer parar para pensar que, no fim das contas, a PM é um exercício de futilidade, uma instituição que sobrevive mais pelo nome que por seus resultados.

Porque a ordem só subsiste quando as pessoas acreditam que ela subsistirá; se as pessoas acreditam que é o governo, ou seu braço policial, que mantém a ordem, essa ordem só continuará de pé enquanto o governo estiver de pé. A ordem não se mantém pela força, mas pela cultura — assim como os governantes. Se as pessoas, coletivamente, deixarem de acreditar que a polícia é necessária, haverá ordem e haverá liberdade, sem saques, depredações e mortes. O poder, portanto, é simplesmente uma ficção pública, algo que existe mas pode desaparecer com uma simples mudança na opinião geral.

Ayn Rand diria que o poder só subsiste com a sanção da vítima. La Boétie, por sua vez, pergunta que poder o governante tem que não aquele que damos a ele. David Hume conclui que o poder é sustentado por pouco mais que a opinião pública, enquanto Gramsci sabe que a ordem existente é legitimada pela cultura. E Varys, em A Fúria dos Reis (com o roteiro um pouco alterado para a série Game of Thrones), coloca a questão da seguinte forma, ao conversar com Tyrion:

— O rei, o sacerdote, o rico… Quem sobrevive e quem morre? A quem obedecerá o mercenário? É um enigma sem resposta, ou melhor, com muitas respostas. Tudo depende do homem que tem a espada.

— E, no entanto, ele não é ninguém — Varys concluiu. — Não tem uma coroa, nem ouro, nem o favor dos deuses, mas apenas um pedaço de aço afiado.

— Esse pedaço de aço é o poder da vida e da morte.

— Precisamente… E, no entanto, se são realmente os homens de armas que nos governam, por que fingimos que nossos reis têm o poder? Por que um homem forte com uma espada obedeceria a um rei criança como Joffrey, ou a um idiota encharcado em vinho como o pai?

— Porque esses reis crianças e idiotas bêbados podem chamar outros homens fortes, com outras espadas.

— Então são esses outros homens de armas que têm o verdadeiro poder. Ou será que não? De onde vieram as suas espadas? Por que é que eles obedecem? — Varys sorriu.

(…)

— Pretende responder ao seu maldito enigma, ou quer apenas fazer com que a minha dor de cabeça piore?

Varys sorriu.

— Eis, então. O poder reside onde os homens acreditam que reside. Nem mais, nem menos.

Na quinta, as pessoas usaram o poder que sempre tiveram e o usaram para o mal. E, ao final do dia, decidiram entregá-lo de volta para a polícia, que anunciou o fim de sua greve — mas se o povo não quisesse devolver o poder, o que a polícia faria? Na próxima greve, talvez as pessoas passem a acreditar que podem viver normalmente sem ela. Porque a ordem existe onde os homens acreditam que ela existe.

O país dos linchadores

G1

Por Luciano Martins Costa, via Observatório da Imprensa

A imprensa parece ter encerrado no domingo (11/5) seu interesse no caso do linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, ocorrido no dia 3, no bairro de Morrinhos, em Guarujá, litoral paulista. Seguindo a tendência da última década, as edições domingueiras de jornais, com menos capilaridade para ampliar a cobertura dos fatos, concorrem diretamente com as revistas, investindo em textos analíticos dos assuntos que dominaram a semana.

A violência, representada pelo crime cometido por moradores de Morrinhos, é tratada pelos diários em aspectos mais amplos do que são capazes de fazer as próprias revistas semanais de informação, embora o leitor ainda esteja longe de ver o tema abordado sob o olhar da complexidade.

A linguagem linear do jornalismo tradicional e o modo como a imprensa se apropriou das tecnologias digitais de edição e publicação limitam o potencial de contar a história, mesmo com a disponibilidade de sistemas de publicação multiplataformas. Por outro lado, temos que conviver com o crescimento avassalador do protagonismo nas redes digitais, com indivíduos sem qualificação específica fazendo o papel do jornalista, o que pode resultar num quadro desastroso.

O Globo reproduz, na edição de domingo, um estudo da ONG Safernet mostrando como aumentou o total de denúncias de incitações ao crime através do Facebook, a rede social mais utilizada. Nos últimos três anos, a partir de 2011, houve uma multiplicação de 265% nos casos denunciados de páginas com conteúdo violento, representado por manifestações de intolerância racial, religiosa, xenofobia e homofobia, de pregação nazista e incitação ao crime contra a vida.

Embora não esteja descrito na reportagem, o observador constata, em meio à maioria de anônimos, manifestações de protagonistas mais recorrentes, que acabam formando grupos de admiradores, e até mesmo personalidades conhecidas da vida social e da mídia, como um famoso publicitário que de vez em quando defende o assassinato de autoridades federais.

A responsabilidade da mídia

Os diários paulistas de circulação nacional foram ao local do linchamento fazer um retrato da comunidade onde foi cometido o ato de barbárie.

A Folha de S. Paulo achou interessante registrar que a família da vítima também temia o mito da bruxa que estaria raptando crianças para usar em rituais de magia negra e conta que Fabiane Maria de Jesus não acreditava na história que acabaria provocando sua morte. A Folha também rastreia as páginas dedicadas a pregar a violência, chamando seus autores de “Datenas do Facebook” – referência ao jornalista José Luís Datena, apresentador da Rede Bandeirantes de Televisão.

No Estado de S. Paulo há uma reportagem sobre o clima de arrependimento e culpa que domina a comunidade de Morrinhos, após a revelação de que a mulher linchada era apenas uma dona de casa com problemas de depressão que havia deixado de tomar seus medicamentos. Mas o jornal não fica apenas na cobertura factual, no caderno “Metrópole”. O caderno de cultura “Aliás” apresenta na capa reflexões do sociólogo brasileiro José de Souza Martins e do filósofo esloveno Slavoj Žižek, autor de um livro intitulado Violência. O sociólogo revela que, nos últimos 60 anos, cerca de 1 milhão de brasileiros participaram de linchamentos e tentativas coletivas de execução de suspeitos, que tiveram como vítimas um grande número de inocentes como Fabiane Maria de Jesus.

O que mais impressiona, além da banalidade do ato criminoso, é a revelação de que essa prática saltou de quatro ocorrências por semana para uma por dia, depois das manifestações de junho de 2013, segundo José de Souza Martins. Essa é uma questão central, que merece ser mantida sob o foco da imprensa, dada a possibilidade de um recrudescimento das manifestações durante a Copa do Mundo.

Temos, então, no conjunto de leituras do fim de semana, o detalhamento do crime e dos sentimentos que provoca quando a horda volta à sua rotina de massa humana, a persistência da estigmatização do outro, do diferente, como uma cicatriz de obscurantismo em meio à modernidade, e o ponto em torno do qual a imprensa segue gaguejando: a responsabilidade dos meios de comunicação.

Por mais que se dê voltas ao assunto, convém discutir, algum dia, o papel da televisão e do rádio – e agora, também da internet – no estímulo à violência.

Professora Amanda Gurgel se recusa a receber prêmio

Redação da Carta Capital

A professora Amanda Gurgel, que ficou conhecida após fazer um discurso na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte a respeito da situação da educação no Estado – que resultou num vídeo acessado por mais de um milhão de internautas no YouTube – recusou, no sábado 2, receber um prêmio oferecido em sua homenagem pela associação Pensamento Nacional de Bases Empresariais.

A organização havia dedicado a ela o prêmio 2011 na categoria “educador de valor”. Em sua justificativa, a professora destacou que, “embora exista desde 1994, esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora”.

“Esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald’s, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva. A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades”, justificou.

Amanda Gurgel, que em seu discurso na Assembleia se queixou do salário que recebe como professora e da situação do sistema de ensino no País, disse que seus projetos são “diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE”, grupo mantido por empresários paulistas e, segundo ela, comprometida apenas com “a economia de mercado”, “à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista”.

Entre as reivindicações da professora, manifestadas em seu site pessoal, estão a valorização do trabalho docente e a elevação para 10% da destinação do Produto Interno Bruto para a educação.

“Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal”, escreveu ela, antes de dizer que não poderia aceitar o prêmio.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/carta-na-escola/professora-amanda-gurgel-se-recusa-a-receber-premio-de-empresarios-em-sp