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Congresso decide futuro de Delcídio, Cunha e do governo

Por Gabriela Salcedo | Via Congresso em Foco

Governo aposta na aprovação da revisão da meta fiscal para não entrar em colapso. No Senado, oposição prepara representação contra petista. Na Câmara, Cunha tenta barrar sua cassação.

A bancada vazia do senador Delcídio do Amaral no Senado. Oposição articula representação contra o ex-líder do governo. Antônio Cruz/ABr

A semana promete ser decisiva para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e para o governo. Os dois parlamentares podem ficar mais perto da cassação do mandato. Já o Executivo, que anuncia nesta segunda-feira (30), um corte de R$ 10,7 bilhões no orçamento, corre contra o relógio para que o Congresso Nacional aprove a revisão da meta fiscal para 2015. Do contrário, poderá agravar a crise que afeta suas contas.

Partidos de oposição pretendem entrar com pedido de cassação do mandato de Delcídio no Conselho de Ética, por quebra de decoro parlamentar. Receosos de o pedido não partir da Mesa, uma vez que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também é investigado no Supremo Tribunal Federal pela Operação Lava Jato, o PPS, o PSDB, o DEM e a Rede se movimentam para entrar com representação nesta terça-feira (1º) contra o ex-líder do governo. O presidente do Senado, no entanto, tem dado sinais de resistência à instalação do Conselho de Ética.

Na Câmara, a promessa também é de dias agitados. Nesta terça-feira o Conselho de Ética se reunirá para votar o parecer preliminar de Fausto Pinato (PRB-SP). O deputado já se manifestou pelo prosseguimento da ação contra o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Segundo ele, a representação apresentada pela Rede e pelo Psol traz indícios que podem ser considerados como quebra de decoro parlamentar do peemedebista, o que o fez redigir parecer pela admissibilidade do caso. Os integrantes do conselho deverão votar agora pela continuidade ou não do processo. Entre outras coisas, Cunha é acusado de ter mentido à CPI da Petrobras ao negar a existência de contas na Suíça.

Antes de a batata assar para o seu lado, Cunha pretende acender outra fogueira. Ele anunciou que pretende decidir, no início desta semana, sobre todos os sete pedidos de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, que ainda estão pendentes de decisão. No Conselho de Ética, o deputado fluminense depende do voto de três petistas para impedir o avanço de seu processo de cassação.

Meta fiscal

Quanto às votações, a sessão conjunta para decidir sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2016 e o projeto de lei (PLN 5/15) que define a nova meta fiscal a ser cumprida em 2015. Prevista para a última semana, a votação foi adiada para esta terça devido à prisão de Delcídio. Uma vez aprovada a revisão da meta deste ano, o governo fica autorizado a cumprir déficit primário de até R$ 119,9 bilhões.

O relatório do projeto da LDO 2016 que será apreciado contraria a vontade do governo. A equipe econômica de Dilma tentou aprovar redução de pelo menos R$ 20 bilhões na meta. No entanto, a Comissão Mista de Orçamento não autorizou. Com isso, a proposição estabelece que a União e seus entes federados apresentem resultado fiscal de R$ 43,8 bilhões no próximo ano.

Uma missão da agência de classificação de risco Standard & Poor’s desembarca no Brasil para uma nova análise do quadro político e econômico do país, como informa o jornal O Estado de S.Paulo. A chegada dos analistas da S&P surpreendeu negativamente o mercado financeiro. Há menos de dois meses a agência retirou o grau de investimento – o selo de bom pagador – e colocou a nota do Brasil em grau especulativo para os investidores. O receio dos analistas e do governo é que novo rebaixamento esteja em curso com o agravamento das crises política e econômica.

Supersalários

A pauta do Plenário da Câmara está trancada com proposição que também pode gerar muitos dissabores aos planos fiscais do governo. Será apreciado em plenário substitutivo ao Projeto de Lei 3.123/15, do poder Executivo, que desfigura o texto do governo para regulamentar o teto do funcionalismo. Pela nova versão, os servidores poderão receber até mais que o dobro do atual teto, que é de R$ 33,7 mil, ou seja, mais de R$ 67,5 mil.

Já o Senado deverá decidir sobre a Medida Provisória 697/15, que abre crédito extraordinário de R$ 950 milhões em favor dos Ministérios da Justiça, das Relações Exteriores, dos Transportes, da Defesa e da Integração Nacional.

Entre as despesas previstas com o montante, o Ministério da Integração Nacional receberá R$ 610 milhões para atender as populações vítimas de desastres naturais. A medida destina também R$ 300 milhões para o Ministério das Relações Exteriores, que devem ser utilizados no pagamento de aluguéis de imóveis, salários de auxiliares locais e auxílio-moradia de servidores de 227 representações diplomáticas no exterior (embaixadas, consulados e escritórios).

Cotações das matérias-primas caem ao nível mais baixo em 16 anos

Por Ignacio Fariza | Via El País

Dois trabalhadores observam um poço de extração de petróleo / GETTY

Desaceleração da economia chinesa e valorização do dólar são as principais causas.

A cotação das matérias-primas está deprimida. O preço das principais commodities está no nível mais baixo dos últimos 16 anos. O colapso não se limita ao petróleo, com alguns dos principais produtos primários (zinco, ferro e níquel) tendo perdido mais de um terço de seu valor no último ano. A desaceleração econômica da China, o principal importador desses produtos, e a forte valorização do dólar frente a outras moedas são as principais causas da queda dos preços. Essa situação representa um desafio para os países produtores, muitos dos quais são emergentes.

O Bloomberg Commodity Index, índice que apresenta a evolução dos preços de uma ampla gama de produtos primários — do petróleo ao milho, passando por alumínio e gás natural —, ficou na semana passada nos níveis mais baixos desde meados de 1999. Diferentemente daquela vez, agora o preço do petróleo não explica tudo: naquele momento o barril de Brent [tipo de petróleo de referência] era cotado a 10 dólares, nível que hoje, apesar do colapso que levou o petróleo a cerca de 40 dólares, é inimaginável. Em 2015, a queda do índice é explicada pelo colapso dos metais industriais devido à desaceleração econômica de seu maior consumidor, a China, e pela força do dólar, moeda na qual a maior parte das commodities é cotada.

Os investidores não tiram o olho da situação da economia chinesa. O gigante asiático é o maior consumidor mundial e absorve quase a metade da produção de alumínio, cobre e carvão. A mudança de modelo econômico de Pequim, passando de um focado nas exportações e no investimento público para outro, baseado no consumo interno, diminuiu seu apetite por matérias-primas. E a desaceleração de sua economia provocou colapso na demanda por produtos primários. Em 2010 seu consumo de matérias-primas crescia 35% ao ano e conseguia absorver tudo que o Ocidente deixasse de consumir. Hoje a taxa ano a ano está em cerca de 9%, quase três quartos a menos.

Petróleo, um caso emblemático

A matéria-prima por definição, num mundo condicionado pelo acesso às fontes fósseis de energia, continua em queda livre. Há várias razões por trás desse colapso: a economia europeia se recupera lentamente demais da crise e por isso não consome tanto petróleo quanto se esperava; os países emergentes desaceleraram seu fulgurante crescimento e precisam de menos petróleo; os estoques aumentaram e, acima de tudo, os produtores, com Arábia Saudita e Iraque à frente, continuam bombeando com força depois do surgimento dofracking como tecnologia eficiente de extração, gerando uma superoferta que o mercado não consegue digerir.

No último ano o petróleo passou de 80 para 45 dólares, e os exportadores menos eficientes (para os quais é mais caro produzir um barril), como a Venezuela, começam a sentir os danos do petróleo barato e a exigir uma mudança de estratégia ao cartel da OPEP (que reúne países exportadores de petróleo).

Em outubro o petróleo estancou temporariamente sua queda, mas nas últimas semanas a tendência mudou. Em novembro, o Brent voltou a cair, perdendo 9%. “Nem mesmo o aumento da tensão no Oriente Médio, com os novos bombardeios pela França e pela Rússia na Síria, pressionou a alta dos preços”, ressaltam os analistas do banco francês Natixis.

“Com o argumento de que o apetite chinês não teria fim, nos anos posteriores à crise se generalizou a opinião de que haveria um superciclo de matérias-primas”, explica por e-mail o ex-economista do Fundo Monetário Internacional (FMI) Stephen Jen, hoje responsável pelo fundo de alto risco britânico SLJ Macro Partners. “Durante esse período, os países vendedores desses produtos superdimensionaram sua capacidade para alimentar a voraz China e agora se deparam com uma menor demanda, que não só afeta os preços como faz com que parte da oferta não encontre comprador”, acrescenta.

O segundo ponto de referência para compreender o que aconteceu com o mercado de matérias-primas é a revalorização do dólar frente ao resto das moedas do mundo, devido à cada vez mais próxima elevação das taxas de juros nos EUA. As cédulas verdes subiram quase 14% frente ao euro este ano, e sua evolução praticamente forma uma imagem em negativo da apresentada pelas commodities: quanto mais caro o dólar, mais baratas as matérias-primas.

Opiniões divergentes

O mercado espera que o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) suba logo as taxas de juros nos EUA, e que o Banco Central Europeu (BCE) mantenha sua política monetária expansionista. Essa divergência deve fortalecer ainda mais a moeda norte-americana. “O dólar continuará subindo até atingir um pico no primeiro trimestre de 2016 e depois se desvalorizará”, afirma James Butterfill, diretor de análise e estratégia de investimento da gestora de ativos ETF Securities. Em sua opinião, diferentemente do que normalmente se acredita, quando as taxas de juros sobem partindo de um nível muito baixo o dólar tende a aumentar seu valor em médio prazo, o que provocaria o repique do petróleo e dos metais industriais. Caso isso aconteça, esse argumento reforçaria o prognóstico do Goldman Sachs e da The Economist Intelligence Unit, que acham que os mercados de matérias-primas se estabilizarão em 2016 e 2017, depois de quatro anos de queda sustentada.

Em seus dois relatórios mais recentes, divulgados na semana passada, o banco de investimentos norte-americano continuava a recomendar a seus clientes que não entrassem no mercado decommodities, mas começava a ver uma mudança de tendência nos países exportadores para o próximo exercício. “2016 deve ser o ano em que os emergentes regressarão ao caminho do crescimento, embora muito distantes das taxas da década de 2000.” O colapso das moedas desses países paralelamente ao das matérias-primas abre, segundo o Goldman Sachs, “oportunidades de compra em moeda local não vistas por décadas”.

Colapsos em destaque
  • Níquel. O metal, produzido basicamente na Rússia, Canadá e Cuba, é a matéria-prima com maior queda no último ano: 45%.
  • Ferro. O minério de ferro, do qual a China compra 60% do que se produz no mundo, teve baixa de 36% desde novembro de 2014.
  • Zinco. Perdeu um terço de seu valor no último ano. China e, em menor medida, Peru e Austrália, são os países que mais acusam essa acentuada queda na cotação.
  • Platina. Seu mergulho, de 29% nas últimas 52 semanas, afeta acima de tudo a África do Sul, maior produtor.

Por sua vez, a The Economist Intelligence Unit põe em evidência o reequilíbrio de forças no mercado de matérias-primas. “Começam a ser vistas respostas a partir do lado dos produtores, que devem levar a uma estabilização dos preços no ano que vem”, indica em seu relatório mais recente. Seus especialistas confiam na recuperação dos preços dos produtos agrícolas, impulsionados pelo aumento da população mundial. Apesar da melhoria geral, admitem que continuam sem sentir “sinais” de aumento do apetite investidor pelas matérias-primas.

Os analistas do banco Nomura discordam desses diagnósticos otimistas e acreditam que, longe de parar, a sangria das commodities continuará e trará junto uma desvalorização ainda maior das moedas dos países exportadores. Isso é claro também para Jen, do SLJ: “Os preços continuarão a ser baixos até que a oferta e a demanda se reequilibrem”.

Supremo rasga a Constituição e abre caminho para a Constituinte

Por J. Carlos de Assis

Delcídio do Amaral

A Constituição fala em poderes independentes e harmônicos, mas nada fala quando os poderes deixam de ser harmônicos e tornam-se um campo de batalha uns contra os outros, e de todos contra o povo e a República. O Supremo acaba de proteger quatro de seus membros da suspeita de estarem mancomunados com o senador Delcídio nas tentativas deste de escapar de uma delação premiada. Curiosamente, a gravação que incriminou o Senador não serviu para incriminar os ministros do Supremo que ele citou. A inocência deles é baseada na palavra. E isso parece suficiente ao esperto procurador geral da República, que conseguiu dessa maneira um instrumento de chantagem contra o STF, talvez também gravado.

Meses atrás um advogado ligado à OAB e à CNBB tentava me convencer de que a solução política para o Brasil não comportava uma Constituinte, porque Constituinte só se justifica depois de uma ruptura constitucional. Esse argumento já não existe. O Supremo Tribunal, o Executivo e o Legislativo, todos a seu modo, romperem os limites da Constituição. De todos, o comportamento o mais grave é o STF pois ele, formalmente, é o guardião da Carta Magna. E verifico no artigo dos professores de Direito Romulo de Andrade Moreira e Alexandre Morais da Rosa, no jornal GGN, que o Supremo rasgou nossa Constituição no caso da prisão de Delcídio, inclusive ao aceitar como prova judicial uma gravação não autorizada.

Estão, portanto, criadas as condições institucionais para a Constituinte, que entre suas atribuições deverá ter a de recriar nosso sistema judiciário. Falta discutir o modo de fazê-la. Com essa estrutura partidária viciada que está aí não dá: esse Congresso é totalmente inconfiável, e um novo Parlamento eleito com os mesmos critérios não seria melhor. Ter eliminado o financiamento empresarial das campanhas foi um bom começo. Mas é preciso definir as formas alternativas de financiamento já que o arremedo do jogo democrático não pode permitir que partidos de aluguel, verdadeiras bancas de negociatas, suguem dinheiro público para pregar bandeiras de puro interesse próprio.

A meu ver, das excrescências institucionais do sistema partidário atual um dos mais aberrantes é justamente o financiamento público do fundo partidário. É isso que está na origem de 39 partidos no Brasil, uma proliferação em nome da democracia que, no fundo, embaralha a democracia. Partidos tinham que buscar seu financiamento diretamente junto ao povo, com contribuições individuais limitadas a um certo valor. Nâo faz nenhum sentido que, sendo partidos, portanto partes da sociedade, vivam à custa do Estado como um todo, que, paradoxalmente, os financia a cada um e a todos eles para tomarem o poder do próprio Estado com dinheiro público!

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José Carlos de Assis é jornalista, economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor do recentemente lançado “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.

O jogo da paz nas mãos de um estrategista experiente

Por J. Carlos de Assis

Vladimir Putin (Valery Sharifulin/ZUMA Press/Newscom)

O governo turco, odiado por grande parte de seu povo, não perde por esperar. Talvez tenha que esperar por muito tempo porque faz parte da estratégia militar histórica da Rússia cozinhar o inimigo e trazê-lo para perto de casa s só então liquidá-lo. Foi assim com Carlos XII da Suécia, com Napoleão e com Hitler. Os mais notáveis comandantes militares russos, o Marechal Sucorov, que derrotou Napoleão, e Marechal Zhukov, que derrotou Hitler, ganharam suas medalhas mais significativas usando o recurso da paciência.

Já vimos que Putin é um estrategista cuidadoso e de extrema eficácia. Enquanto o ocidente instigava os nazistas ucranianos a tomarem o poder em Kiev, mediante financiamento aberto do Departamento de Estado norte-americano, ele preparava com astúcia a reincorporação da Crimeia como província russa estratégica. O aparato de informação ocidental ficou desorientado. Obama, com cara de tacho, não soube como reagir a não ser impondo um injustificado e ineficaz bloqueio seletivo contra a Rússia.

Chegará a hora em que a Turquia pagará pela derrubada do bombardeiro russo e pelo assassinato covarde dos dois pilotos. Porém, estejam certos que não será dentro do modelo a ferro e fogo norte-americano, que está destruindo três países que nada tinham a ver com o World Trade Center a pretexto de combater terroristas, com o resultado fantástico de multiplicar justamente a criação de milhares de terroristas no Afeganistão, no Iraque e no Paquistão, entre outros países árabes e não árabes,  e até a bucólica Bélgica.

Na verdade, ao contrário da Rússia que se limita a defender interesses estratégicos imediatos, os Estados Unidos querem dominar o mundo a qualquer custo. Washington tem sido a grande fonte de instabilidade em todo o planeta. Agindo sem qualquer escrúpulo, transferiu para os tempos atuais suas táticas fracassadas da Guerra Fria, quando perdeu duas guerras de larga escala, Coreia e Vietnã, mostrando sua incompetência enquanto hegemon. As grandes vitórias norte-americanas foram contra Granada, Haiti e Noriega!

Se tivesse a mesma assessoria belicista dos neoconservadores americanos, Putin poderia se precipitar em aplicar uma vingança justa contra Ancara e levar o mundo à beira de uma guerra global – nas vizinhanças de uma guerra nuclear. Felizmente, há sangue frio em Moscou. O ato terrorista do governo turco gerará suas consequências, mas no momento oportuno. Temos que aprender a compreender Putin. Ele é um estrategista. Apesar dos esforços norte-americanos para isso, ele evitará que o mundo mergulhe numa guerra nuclear.

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José Carlos de Assis é economista, jornalista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira e do recente “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigatvo”, ed. Textonovo, SP.

 

O Lado Invisível do Terrorismo

Por Marcelo Zero

Militantes do Estado Islâmico. Foto: Security Affairs

  1. Os recentes e trágicos atentados terroristas cometidos na França voltaram a colocar em debate, no chamado Ocidente e no Brasil, a questão do terrorismo.

  1. Entretanto, é fácil constatar que tal debate está muito centrado no terrorismo que afeta eventualmente países ocidentais. Também é visível que se desenvolveu um senso comum em torno do tema, o qual impede ou distorce análises mais abrangentes, equilibradas e realistas sobre o fenômeno.

  1. Com efeito, a discussão sobre esse tópico normalmente só ocorre na mídia e no cenário político brasileiro quando há um atentado na Europa ou nos EUA. Além disso, o terrorismo, no debate midiático, aparece correlacionado a “governos hostis” ao Ocidente e à migração de países islâmicos e árabes para a Europa e os EUA. Esse “senso comum” tende a justificar intervenções militares no Oriente Médio e as atuais tentativas de impor limites à imigração de populações que foram afetadas por conflitos sangrentos naquela região, como a que ocorre no caso da Síria.

  1. Pior ainda, esse “senso comum” tende a tornar invisível a ocorrência de terrorismo em outras regiões do planeta, bem como a relação que há entre essas formas ubíquas de terrorismo e as políticas unilaterais e militaristas que o Ocidente desenvolve para supostamente enfrentar o problema.

  1. Pois bem, os dados mais recentes do Global Terrorism Index, realizado pelo Institute for Economics and Peace (IEP), think thank que se dedica a mensurar e analisar o terrorismo em todo o mundo, mostram uma realidade bem mais complexa que o que deixa entrever essa visão estreita do “senso comum” sobre o assunto.

  1. Em primeiro lugar, as informações do último relatório do IEP, referentes ao ano de 2014, demonstram que o Ocidente é comparativamente muito pouco afetado pelo fenômeno do terrorismo.

Gráfico I

 

Elaboração Própria. Fonte IEP

  1. O gráfico é bastante eloquente. Das 32.685 mortes por terrorismo ocorridas em 2014, a imensa maioria (97,3%) ocorreu no Oriente Médio e Magreb, na África Subsaariana e na Ásia. Europa e EUA são afetados marginal e ocasionalmente. Mesmo se incluíssemos os recentes atentados de Paris no cômputo, eles não fariam diferença alguma, tamanha a amplitude das mortes por terrorismo ocorridas em ouras regiões do globo. Na realidade, após o 11 de setembro, a Europa e os EUA somaram, em vítimas fatais do terrorismo, um número relativamente pequeno, apesar do grande alarde que tais atentados provocam na mídia ocidental e mundial.  Se excluirmos esse grande evento (o 11 de setembro), as mortes por terrorismo desde 2000 no Ocidente correspondem a apenas 0,5% do total das vítimas de atentados terroristas. Mesmo incluindo o 11 de setembro, tal índice alcança somente 2,6% do total.

  2. Ademais, desde 2006 que 70% das vítimas fatais por terrorismo no Ocidente não são causadas não pelo terrorismo de origem religiosa, como se imagina, mas sim pelo chamado terrorismo lone wolf (lobo solitário), como foi o caso ocorrido na Noruega. Esse tipo de terrorismo está muito vinculado ao extremismo de extrema direita e ao nacionalismo, fenômenos que vêm crescendo na Europa. Na Ucrânia, aliás, a imensa maioria das vítimas fatais de terrorismo em 2014 foi causada por grupos de extrema direita que atuam na região separatista de Donetsk, como a organização neonazista Right Sector.

Gráfico 2

Elaboração Própria. Fonte IEP

  1. Quando se decompõem as informações por países, como no Gráfico 2, verifica-se que as nações que mais sofreram com terrorismo em 2014 são aquelas que estão, em maior ou menor grau, dilaceradas por graves conflitos internos. A bem da verdade, nos últimos 25 anos, 88% dos atentados terroristas ocorreram em países que tinham graves conflitos internos. Observe-se que, no caso da Síria e da Líbia, não estão incluídos no cálculo das vítimas os mortos das guerras civis que lá se desenvolvem. Nos países desenvolvidos da OCDE, contudo, as motivações para a prática do terrorismo não estão vinculadas a conflitos internos, mas a outros fatores, como alto desemprego entre os jovens, descrença nas instituições democráticas, crise econômica, etc.

Gráfico 3

Elaboração Própria. Fonte IEP

  1. O Gráfico 3 confirma essa avaliação. Em 2014, os cinco países que apresentaram maior crescimento de vítimas fatais de terrorismo foram justamente aqueles que vêm passando por um agravamento de seus conflitos. No caso do Iraque, do Afeganistão, da Síria, e da própria Ucrânia tal agravamento deve-se, em boa parte, às intervenções políticas e militares feitas por potências ocidentais.

Gráfico 4

Elaboração Própria. Fonte IEP

  1. As informações contidas no Gráfico 4 são muito elucidativas a esse respeito. Elas indicam uma forte correlação entre o crescimento do terrorismo em escala global e as intervenções militares realizadas, em tese, para coibir o fenômeno. Em 2003, quando se inicia a invasão do Iraque, sob o falso pretexto de neutralizar armas de destruição em massa, implantar a democracia e combater o terrorismo, tínhamos cerca de 3.000 mortes por terrorismo em todo o mundo. À medida que tal intervenção cresce, o número de mortes aumenta até cerca de 11 mil, em 2007. A partir de aí há uma discreta queda até 2011, quando se inicia a guerra civil da Síria. Desde aquele ano, há uma evolução exponencial do terrorismo, obviamente vinculada ao apoio que o Ocidente deu e ainda dá aos grupos terroristas que lutam contra o governo Assad, bem como ao colapso dos Estados Nacionais da Síria e do Iraque.  O Estado Islâmico, nascido no Iraque ocupado, aproveitou-se desse apoio e conseguiu dominar um amplo território que inclui o Centro e o Oeste do Iraque e o Leste da Síria, regiões de maioria sunita. Com o domínio desse território e com a venda de seu petróleo via a Turquia, o Estado Islâmico converteu-se na grande usina de propagação do terrorismo fundamentalista sunita no mundo.

  1. Em 2014, ocorreu um aumento de 80% no número de mortes por terrorismo. Esse aumento drástico tem muita relação com o Estado Islâmico e seu principal aliado na África, o Boko Haram. Apenas esses dois grupos foram responsáveis por 40% das mortes por terrorismo em todo o mundo. Saliente-se que o Boko Haram reconheceu, em março de 2015, a autoridade do Califa dos Muçulmanos, Al-Baghdadi, líder do Estado Islâmico.

  1. O crescimento desses dois grupos também vem mudando o perfil dos atentados. É que essas organizações têm preferência pelos atentados contra civis comuns, como se viu no caso de Paris. Os atentados contra civis aumentaram 172%, entre 2013 e 2014. Hoje, tal tipo de atentados já representa 47% do total, como se observa no Gráfico 5.

Gráfico 5

Elaboração Própria. Fonte IEP

  1. Outro dado interessante do relatório do IEP tange à participação de estrangeiros no Estado Islâmico e em outros grupos terroristas que atuam no Iraque e na Síria. Como era de esperar, cerca de 80% desses estrangeiros provêm de países muçulmanos vizinhos ou próximos, como Jordânia, Líbano, Turquia, Arábia Saudita, Egito, Líbia, Tunísia, etc. Contudo, há cerca de 20% que provêm de outras regiões. Pois bem, em sua maioria, esses outros estrangeiros vêm da Europa. Nesse subconjunto, o primeiro país exportador de voluntários para o terrorismo é a Rússia, com mais de 2.000 combatentes provenientes da região do Cáucaso, seguida da França, com ao redor de 1.800 voluntários, segundo as estimativas mais pessimistas. Alemanha e Reino Unido contribuiriam com cerca de 700 militantes cada.

  1. Essa informação contradiz o “senso comum” ocidental, que considera que os imigrantes dos países afetados pelos conflitos recentes, como os da Síria, são terroristas em potencial. Na realidade, o perigo reside mais na migração em sentido contrário. É a Europa que exporta terroristas para a Síria e o Iraque.

  1. Por último, cabe destacar brevemente a comparação que o relatório faz entre a criminalidade comum e o terrorismo.

Gráfico 6

Elaboração Própria. Fonte IEP

  1. Como se vê, os homicídios comuns são 13 vezes mais prevalentes que os homicídios provocados pelo terrorismo. No caso da América Latina, região com índices muito elevados de criminalidade comum, essa discrepância é bem maior.

  1. No caso específico do Brasil, a discrepância é descomunal. Não temos terrorismo estrito senso, mas temos muita violência urbana, inclusive a cometida por órgãos policiais contra a população civil, especialmente contra jovens negros e pobres, vítimas de um genocídio silencioso e invisível.

  1. Essa violência “naturalizada” e cotidiana, uma espécie de terrorismo de Estado, não desperta a comoção que costumam provocar atentados terroristas no Ocidente. Mas é com esse terrorismo invisível que devemos mais nos preocupar.

A tentação totalitária de Hollande

Por Jânio de Freitas | Via FSP

Desde os atentados em Paris, as únicas palavras aproveitáveis nos pronunciamentos de François Hollande são estas: “Vive la République” e “Vive la France”. Mas a República está sendo por ele negada. E a França já está encaminhada por Hollande e seu governo a práticas próprias de estados totalitários. Deformação tão mais inquietante quanto a França, embora decadente como centro de poder político, preserva a atração encantada que projeta no mundo, há séculos.

As decisões autocráticas de Hollande repetem-se desde a noite mesma dos atentados. Já o seu primeiro pronunciamento declarava o estado de guerra, precipitação não admissível em um presidente, por sua insensatez agravada pelo desprezo às vozes autorizadas e autorizativas da República, situadas no Parlamento e no Judiciário. A França nem foi atacada por uma nação, como o estado de guerra requer. Hollande é que atribuiu esta alta condição a um movimento político-religioso, o Estado Islâmico, quando apenas presumia tratar-se do responsável pelo ataque.

Consideradas as condições emocionais da França, era improvável que o Parlamento e, se ocorresse o caso, o Judiciário deixassem de subscrever as intenções de Hollande. Foi quase unânime a aprovação, seis dias depois, da prorrogação desejada por Hollande para o estado de emergência, de 12 dias para três meses. Com liberdades de ação policial que só não são absolutas porque excluem magistrados, parlamentares, advogados e jornalistas das escutas telefônicas por simples decisão da polícia. Ninguém diz, mas a verdade é que os direitos civis estão suprimidos na França.

Nada nada, indicou a necessidade de ataques assim extremados aos direitos da cidadania. A precariedade dos grupos terroristas na Europa está comprovada no fácil e rápido encontro e extermínio dos seus integrantes pela polícia. Nem sequer têm logística para evitar pistas anteriores e segurança posterior aos atos. O que sugere que também não têm dinheiro. São pouco mais do que livre-atiradores, reunidos entre parentes e amigos. Em sentido técnico, não têm êxito: o que parece o seu êxito é o vergonhoso fracasso da Europol, o organismo da União Europeia incumbido do antiterrorismo, e dos caríssimos serviços de informação nacionais, os europeus e os americanos.

Potenciais terroristas continuam por lá, do mesmo jeito. Nem por isso Hollande promove o grande inquérito para tornar eficientes os seus serviços preventivos. O que lhe ocorre são prisões a granel para retirar suspeitos da circulação -suspeitos de quê, de quem, por quê? De fundamentalismo muçulmano, pelos serviços ineficazes, por serem jovens na exclusão social.

Mas Hollande não os quer retirar à toa, senão para os recolher a “casas de reeducação”. É uma concepção que já teve períodos de glória. Por exemplo, quando aplicada no regime nazista, até a partir da infância, o que pode sugerir algo a Hollande e a seu primeiro-ministro Manuel Valls. Mas há também, a inspirá-los, o modelo do totalitarismo stalinista, que partia da infância e, quando aplicado a adultos, fez-se conhecido no Ocidente sob o nome genérico de gulag.

Há ainda os antecedentes da coerência. Antes dos ataques, Hollande já mandara militares franceses para Mali e a República Centro-Africana, e para o Iraque; encabeçara o ataque à Líbia e iniciara a intervenção na Síria. Além disso, incorporara a França à coalizão de ataques aéreos ao Estado Islâmico. E despachara o porta-aviões Charles De Gaulle para atacar o Estado Islâmico.

Tudo isso tem um custo institucional maior e mais perigoso do que se pode imaginar. Não só para a França. Tem também um custo econômico muito pesado, para uma França cuja economia está bastante insatisfatória. Mas François Hollande ganha, como ganhou sem fazer mais do que um desfile depois do havido no Charlie Hebdo. Agora, melhora sua má posição contra Sarkozy e Marine Le Pen, para a eleição presidencial e já para as eleições regionais em dezembro.

França com ares totalitários é uma aberração. Mas os franceses estão aturdidos. François Hollande, não. “A tentação totalitária” é o título de livro já antigo do francês Jean-François Revel. Fica muito bem outra vez.

Pré-sal já responde por 24% da produção da Petrobras

Via Portal Brasil

A produção cresceu 8% no comparativo entre os nove primeiros meses de 2015 e o mesmo período de 2014.

Campos do pré-sal obteve nos três primeiros trimestres de 2015 uma produção média diária de 919 mil barris de petróleo e gás

Os campos do pré-sal já respondem por 24% de todo o petróleo e gás produzidos pela Petrobras. Nos três primeiros trimestres de 2015, as reservas tiveram uma produção média diária de 919 mil barris de petróleo e gás. Este e outros destaques operacionais foram apresentados pela diretoria executiva da empresa em entrevista coletiva para a divulgação dos resultados financeiros e operacionais do 3º trimestre de 2015, na noite desta quinta-feira (12), no Rio de Janeiro.

De acordo com o diretor da área Financeira e de Relações com Investidores, Ivan Monteiro, nosso resultado operacional está melhorando de maneira muito consistente. “Temos perseguido números e metas desafiadores, mas que possamos, junto com nossas equipes, entregar e concluir. A expectativa é de que, à medida em que avança o pré-sal, avançam as decisões que a gente tomou de redução de custo. Tudo isso vai sendo capturado no resultado”, disse.

Crescimento

A produção no Brasil cresceu 8% no comparativo entre os nove primeiros meses de 2015 e o mesmo período de 2014. Considerando a produção nacional e no exterior, o crescimento foi de 6% no período, passando de 2,627 milhões de barris por dia para 2,790 milhões de barris diários.

A diretora de Exploração e Produção, Solange Guedes, enumerou uma série de resultados alcançados nos últimos meses. A boa produtividade dos campos no pré-sal fez com que a plataforma flutuante Cidade de Mangaratiba – localizado no campo de Lula, na área de Iracema Sul, na Bacia de Santos – atingisse a produção diária de 150 mil barris interligado a apenas cinco poços.

Também houve uma redução de 16% nos custos de extração nos últimos doze meses, no comparativo entre os três primeiros trimestres de 2015 e o mesmo período de 2014. “Considerando a Petrobras como um todo, Brasil e exterior, pela primeira vez fechamos um trimestre produzindo a menos de US$ 11 por barril. No pré-sal, estamos com valores inferiores a US$ 8 por barril de óleo equivalente, se considerarmos o terceiro trimestre de 2015”, detalhou Solange Guedes.