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Dia 22 de abril, CUT vai às ruas contra terceirização

Via CUT

Trabalhadores em manifestação na avenida Paulista, em São Paulo

Na próxima quarta-feira (22), a CUT intensificará, em todo o País, a luta nas ruas e nas redes contra o PL 4330, que amplia a terceirização no Brasil. Em Brasília, mais uma vez, os parlamentares vão se reunir para analisar e votar os destaques do projeto.

Na última quarta-feira (15), o “Dia Nacional de Paralisação Contra o PL 4330”, convocado pela CUT e outras centrais sindicais, mobilizou trabalhadores e trabalhadoras de diversas categorias que deram uma resposta à Brasília, mostrando que não aceitarão a terceirização.

A pressão popular surtiu efeito e na Câmara, diante do recuo de muitos parlamentares, o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB), teve que adiar a votação dos destaques do PL 4330. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), imediatamente foi aos microfones dizer que por lá o projeto não será aprovado.

“Para nós termos um Brasil melhor, vai ter que mexer na linha econômica. Ajuste, se for pra fazer, que faça nas grandes fortunas”, defendeu o presidente da CUT, Vagner Freitas, que atacou o projeto da terceirização. “Se for preciso fazer uma greve nacional pra impedir que se mexa no PL 4330, não tenham dúvidas de que faremos.”

 

Diálogos Desenvolvimentistas: Interesse nacional e a Lava-Jato

Movidos pelo artigo de autoria de André Araújo intitulado Interesse nacional e causa política nos EUA, em que se discorre sobre os efeitos da operação dirigida pelo juiz Sérgio Moro e a impossibilidade de algo correlato nos EUA, os associados discutiram suas concepções e interpretações dos eventos, a maioria deles crendo que seria possível punir corruptos sem arrasar com a relevante indústria de obras e tecnologia, como está acontecendo lamentavelmente dada a sanha de justiçamento das autoridades.

Tania Faillace – Pergunta-se quem é essa fina flor da ética que expõe sua admiração pela canalhice política dos Estados Unidos e seu cinismo?

Um artigo desses é um atentado contra a moral e os bons costumes, como se dizia antigamente.

A pregação do oportunismo levada a suas últimas consequências. Todo e qualquer crime é justificado se alguém alegar o “interesse nacional” dos grandes capitais e das grandes personalidades.

É essa a moral cínica que os coxinhas querem implantar de vez no Brasil? Rouba mas faz?

Que dizem os demais participantes desse grupo? Será uma cruzada com a qual queiram se envolver ou dar seu aval?

Rennan Martins – Está mais do que óbvio que a Lava Jato é uma operação projetada com o objetivo de afundar de vez qualquer resquício de progressismo e entregar de bandeja na mão da velha oligarquia escravocrata a máquina estatal e o poder político por completo.

Marx dizia que o Estado capitalista é usado pela burguesia para garantir seus interesses e se engana quem acha que esse judiciário que aí está serve a justiça. O sistema penal do regime capitalista somente gere os sobrantes, prende preto, pobre, puta e agora petista, punindo eventualmente algum crime pra não ter completamente corroída sua legitimidade.

A esquerda punitiva se enche de ilusão ao ver pela primeira vez executivos e altos funcionários sendo submetidos as mesmas violações e arbitrariedades como tortura, prisão antecipada e presunção de culpa, que os populares sofrem sistematicamente nesse sistema penal designado somente para gerir a pobreza e garantir privilégios.

É impressionante como alguns fecham os olhos pra tudo que ocorre e a escandalosa parcialidade do senhor Moro em nome de uma pretensa “vingança de classe”.

Osvaldo Maneschy – Já foi dito aqui e repito: o mundo não é preto e branco.

A diferença básica entre o PDT é que o PT nunca compreendeu – pelo contrário, sempre ridicularizou – o que Brizola chamava de perdas internacionais.

Weber Figueiredo – Uma das diferenças que havia entre PT e PDT:

1) O PT queria melhorar o Brasil aumentando os salários dos trabalhadores. Essa foi a eterna luta do sindicalista Lula.

2) O PDT queria melhorar o Brasil mudando o modelo econômico colonial, criando riquezas e estancando as perdas (nacionais e internacionais).

Gustavo Santos – Esta discussão está interessante. O que o André Araújo está dizendo é que:

1) a constituição de 88 tirou muito poder da presidência.

2) FHC conseguiu superar isso pelo apoio da mídia e do poder internacional. Aécio quando presidente da Câmara cortou o poder das medidas provisórias sem prazo de validade.

3) o PT além de não ter poder da mídia e internacional, abriu mão de poder na polícia federal, no ministério público e nos tribunais superiores e entre os militares. Em nome de quê? De ser elogiado na mídia pelas indicações?

Deu no que deu.

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Tania Faillace é jornalista e escritora.

Rennan Martins é jornalista.

Osvaldo Maneschy é jornalista.

Weber Figueiredo é engenheiro.

Gustavo Santos é economista.

Movimento contra terceirização: detalhes que vão além de balas de borracha e engarrafamentos

Por Flavio Borgneth | Via Leia-se

Manifestação em Vila Velha./Foto: Moqueca Mídia (15-04-2015)

Ruas fechadas geralmente simbolizam ausência de movimento. Nesta quarta-feira (15) foram pessoas se movimentando. Claro que uma atitude política fica indigesta a primeira vista tendo pela frente rotinas difíceis de cumprir. Logo pela manhã, as principais entradas da Grande Vitória foram palco de pedras, balas de borracha e bombas de efeito moral trocadas entre policiais e trabalhadores que naturalmente se acusam de algozes de cenas de violência em praça pública.

“A polícia foi apedrejada” classifica o Secretário de Segurança, André Garcia. “Não foi a PM que botou fogo em pneus para obstruir vias. Não foi a PM que furou os pneus de ônibus”, corrobora, destacando respeitar o direito de manifestação. “Tentamos negociar o tempo todo”, garante. Na manhã desta quarta 297 policiais e 51 viaturas foram envolvidos nos manifestações.

“A violência e truculência foi grande. Perto da rodoviária de Vitória [Vila Rubim] tivemos dois feridos. Nunca vi tanto policial, parecia que tinha bandido ali. Mas enquanto o Projeto da Terceirização não cair, vamos resistir”, afirma a presidente da Central Única dos Trabalhadores do Espírito Santo, Noêmia Simonassi.

Além dos engarrafamentos

O mais interessante é ir além da truculência ou da impaciência causada pelo demorar do transito nesta quarta. Nas ruas das cidades estiveram hoje mais que engarrafamentos. De um lado movimentos ligados a classe trabalhadora que organizaram no Espírito Santo atos concomitantes com outras cidades do Brasil. Todos com o objetivo de forçar a retirada do Projeto de Lei 4.330/2004 que facilita a terceirização e a subcontratação do trabalho. Do outro lado policiais militares amparados pela ordem judicial que na noite de véspera do dia marcado para a denominada “Greve Geral” deu garantia pelo ir e vir nas ruas.

Inconstitucional

A movimentação que chegou as ruas precipitou uma avaliação de que houve falta de liderança política na condução da discussão da questão, e isso é apenas o primeiro dos nós de um novelo delicado.

“A Lei 4.330 é inconstitucional. A terceirização ampla e irrestrita coloca por terra décadas de conquistas trabalhistas”, afirma o presidente da Comissão de Direito Sindical da OAB federal, Bruno Reis de Figueiredo. Para piorar, a matéria estaria sendo votada por um Congresso com grande influência do setor produtivo que, teoricamente, pagaria menos tributos e geraria mais empregos com a iniciativa.

Injeção

Para as empresas a terceirização é vista como injeção de empregos em tempos de crise econômica e resultados pífios de crescimento da Indústria Nacional – o Espírito Santo foi exceção. Uma solução seria diminuir a carga tributaria, uma vez menos onerosa acabaria gerando mais empregos. A PL 4.330 já foi aprovada na Câmara dos deputados, que agora adia a discussão de destaques ao projeto.

“A maioria [dos deputados] são empresários. Tem beneficio direto”, destaca Bruno Reis, reforçando que as doações de campanha continuam sendo bancadas por grandes conglomerados da indústria.

Prova dos nove

Dos 324 votos a favor do PL 4330/2004, 164 (pouco mais de 50%) vieram de parlamentares do bloco patronal da Câmara, segundo levantamento feito pela revista Carta Capital, com base em dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Na Câmara chega a 43% do total de parlamentares que estariam ligados ao chamado setor produtivo. São proprietários de estabelecimentos comerciais, industriais, de prestação de serviço ou do segmento rural e têm como pauta a defesa do chamado setor produtivo.

Entre os 221 deputados federais da bancada empresarial, 189 participaram da votação do PL 4330 e 86% deles foram favoráveis ao texto – os outros 25 integrantes do bloco (14%) optaram pelo ‘não’. Já entre os dez deputados federais capixabas, apenas os petistas (Givaldo Vieira e Hélder Salomão) foram contrários ao projeto – Max Filho (PSDB) se absteve da votação. Os demais votaram “sim” para a proposta, que ainda passará por análise do Senado.

Ordem

A Comissão Especial de Direitos Sindicais do Conselho Federal da OAB se manifestou sobre o Projeto da Terceirização. Classificou que a iniciativa “afasta-se da estrutura constitucional de proteção da relação de emprego”, bem como da “distribuição dos direitos sociais e da valorização do trabalho humano”. A nota de repúdio defende que a terceirização “não pode atingir as garantias sociais dos trabalhadores, seja no ângulo individual (precarizando para reduzir custos), seja no ângulo coletivo (implodindo a representação sindical por categorias profissionais).

Progresso

Marcos Guerra, presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), contou ao Leia-se na última terça (14), que viu com bons olhos a nova Lei de Terceirização. “Dos R$ 47 bilhões de empregos formais do Brasil, R$ 12 bilhões já são de trabalho terceirizado. É ¼ do emprego formal. Faltava uma regulamentação, quando não existe essa regulamentação temos conflito”, contabiliza. O Espírito Santo tem 27,1% da sua população trabalhando como terceirizados, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE).

Direitos

“Claro que a PL alivia para o empregador, mas, em boa parte, os trabalhadores perdem”, avalia o economista Antônio Marcos Machado. “Quem perde mais é o empregado qualificado que pode perder seus benefícios”, corrobora. Direitos como o 13º salário, INSS e acordos firmados por pisos salariais estariam em xeque. O professor universitário acredita que ainda exista tempo para reverter as ações já tomadas pela Câmara: “Pode haver arranjo político, por força das manifestações acho difícil”.

O menino Eduardo “era bandido”: cai a máscara de José Junior, da ONG Afroreggae

Por Marcos Sacramento | Via DCM

Junior

O fundador da ONG Afroreggae, José Júnior, disse no Facebook que o menino Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, assassinado pela polícia no Complexo do Alemão, “era bandido”.

“Esse menino segundo informações era bandido. Provavelmente se fosse bandido poderia ter matado um policial se tivesse oportunidade. A questão é quem está ganhando com essa guerra? Famílias inteiras sendo dilaceradas. Parte do efetivo do Complexo do Alemão e outras favelas tem como mão de obra meninos e meninas”, escreveu na rede social. Após as críticas, Júnior editou o post, mas como a errata ficou pior, a solução foi apagar de vez.

O comentário não causaria tanta comoção se viesse de um oficial da PM ou de Jair Bolsonaro, tipos acostumados a minimizar crimes cometidos por policiais sugerindo que a vítima era criminosa. Nem Bolsonaro, aliás, ousou ir tão longe.

José Júnior preside uma ONG surgida sob os ecos da chacina de Vigário Geral, cuja missão, no papel, é “promover a justiça e a inclusão, através da arte, da cultura afro-brasileira e da educação”. Incautos deveriam esperar dele, no mínimo, mais compaixão pela vítima.

Mas é só olhar a página de Júnior no Facebook para descobrir como ele está próximo das mentes reacionárias que pregam que “bandido bom é bandido morto” e defendem a volta do regime militar.

Entre as últimas postagens estão convocações para as manifestações contra o governo Dilma e o PT. Não há uma única referência ao extermínio da juventude negra, tema corriqueiro na agenda de 10 entre 10 ativistas sociais. A redução da maioridade penal, sobre a qual Júnior se diz contra, é abordada de forma bem discreta, asséptica.

A conta do Instagram entrega mais ainda. Tem fotos dele ao lado de Rogério Chequer, o obscuro líder do movimento Movimento Vem Pra Rua, com o coxinha supremo Luciano Huck e com o aliado político Aécio Neves.

Aliança, pelo visto, que não terminou com o fim da campanha presidencial e se estende aos asseclas do neto de Tancredo, com direito a post em defesa do senador e ex-governador de Minas Gerais Antonio Anastasia, na ocasião em que foi citado na Operação Lava Jato.

“Antonio Anastasia é um dos politicos + integros e honestos desse país! Não votei nele porque voto no Rio + acredito na sua inocencia! Nem todo mundo é farinha do mesmo saco! Ele eu sei q ele não é! Não podemos deixar os homens bons serem massacrados pela perversidade (sic)”.

Além da amizade com Huck, José Júnior se gaba de suas relações com o ex-presidente da Editora Abril, Fábio Barbosa, que o levou para almoçar no restaurante da sede em São Paulo. Foi capa da revista Trip mais de uma ocasião, posando como “empreendedor social” ou algo do gênero. É frequente em festas da Globo para dar um ar radical chic. Nunca ficou claro como sua ONG era financiada.

Mas este é o José Júnior. Defende de olhos fechados o amigo senador com a mesma celeridade com que reverbera calúnias a respeito de uma criança morta com um tiro na cabeça. O tempo irá dizer se ele é um ativista bem intencionado que errou na escolha das amizades ou se não passa de mais um oportunista. Quer dizer, o tempo já passou…

 

Passos calculados e medidos de Sergio Moro levam João Vaccari a prisão

Por Paulo Moreira Leite | Via Brasil 247

“Parece antecipação da pena,” reage Pedro Serrano, um dos principais constitucionalistas do país.

João Vaccari Neto, tesoureiro do Partido dos Trabalhadores desde 2010, foi preso quando saía de casa para caminhar, hoje de manhã. Num despacho sobre a prisão, o juiz Sérgio Moro associou Vaccari a pagamentos a uma gráfica responsável por publicações da CUT e dois sindicatos de trabalhadores, metalúrgicos e bancários.

“Observo que, para esses pagamentos à Editora Gráfica Atitude, não há como se cogitar, em princípio, de falta de dolo dos envolvidos, pois não se tratam de doações eleitorais registradas, mas pagamentos efetuados, com simulação, total ou parcial, de serviços prestados por terceiros, a pedido de João Vaccari Neto”, afirmou o magistrado.

Ouvido pelo 247, o advogado Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade de São Paulo, e uma das vozes mais acatadas em sua especialidade, afirma que:
— É uma decisão a ser respeitada. Mas se o fundamento for apenas este, parece que há uma antecipação da pena, sem respeito pelo direito de defesa e ao devido processo legal, com grave atentado aos direitos fundamentais previstos em nossa Constituição.

Em bom português, Pedro Serrano está dizendo que Sergio Moro autorizou uma prisão sem submeter a acusação ao contraditório. Só prestou atenção a um lado — da acusação — sem demonstrar a postura equilibrada que cabe a um juiz. A prisão se baseia essencialmente na delação premiada de Augusto Mendonça, empresário da Setal ÓIeo e Gás, que acusa Vaccari de ter pedido um pagamento de R$ 2,5 milhões em prestações mensais, entre 2011 e 2013, à gráfica Atitude. Não por acaso, Sérgio Moro atesta as denúncias da delação premiada “em princípio.”

O problema básico é que, conforme o parágrafo 16 do artigo 6 da lei 12 850, que definiu as regras da delação premiada, “nenhuma sentença condenatória será proferida apenas com base na declaração do agente colaborador.”

Preso sem sequer ter sido julgado, sem receber nem ao menos uma denúncia precisa — da qual poderia defender-se — desde a manhã de hoje Vaccari se encontra dentro de uma cela em Curitiba. Ninguém sabe até quando permanecerá detido — executivos e empresários foram presos em 15 de novembro de 2014 e continuam atrás das grades até hoje — e em quais circunstâncias poderá ser colocado em liberdade. Será coagido a fazer uma delação premiada? Para denunciar quem?

Conforme o jornal O Globo, o delator “Mendonça confirmou ter assinado contratos de prestação de serviços de publicidade entre suas empresas e a gráfica.” Embora Vaccari já esteja atrás das grades, o jornal admite que nem tudo foi esclarecido: “os investigadores querem saber se os serviços foram realmente executados e se os valores estão dentro dos preços executados pelo mercado.”

Uma semana antes, Vaccari prestou um depoimento à CPI. Apesar das provocações, de um jogo sujo que incluiu a aparição de ratos em plenário — uma das inúmeras contribuições do nazismo às técnicas macabras de manipulação política — e de uma tortura moral que envolveu inúmeras tentativas de humilhação acompanhadas olimpicamente pelos parlamentares que deveriam dirigir os trabalhos, não entrou em contradições nem se desmentiu.

A origem das acusações se encontra no trabalho de delegados que nunca esconderam a preferência política pelo PSDB — partido jamais investigado de verdade por denúncias correlatas e até mais graves — e procuradores que, perdendo qualquer apego às garantias individuais, são capazes de defender que a Justiça passe a aceitar provas obtidas de modo ilícito, caminho tradicional para a legalização de abusos condenáveis. (O ponto máximo dessa tolerância com a ilegalidade ocorreu nos Estados Unidos, no governo de George W Bush, quando a Casa Branca elaborou um projeto que legalizava a tortura por afogamento — e conseguiu juristas capazes de defender a legalidade desse procedimento).

A prisão de Vaccari não é um drama individual, é bom ter clareza. Nem de um deslize, ou erro judiciário, inevitável em toda obra humana.

É parte de um plano elaborado e detalhado, a partir de passos frios e calculados, constituindo o novo movimento — ou nova etapa — de uma engrenagem que pouco a pouco assume o domínio efetivo da política e do estado brasileiro hoje — a Vara de Justiça Criminal de Curitiba, sob comando do juiz Sérgio Fernando Moro.

Isso foi assinalado por observadores com um inegável poder de análise, como o escritor e jornalista Bernardo Kucinski, em entrevista ao programa Espaço Público, em 17 de março, e André Motta Araújo, no portal GGN. Falando do Brasil real de 2015, André Araújo escreveu: “Hoje um juiz de 1ª instância governa o país, atuando de Norte a Sul, faz o que bem entender, quebra empresas, prende pessoas em qualquer lugar, incontrastável, por acovardamento do centro de poder. Todos morrem de medo.”

Falta assinalar um aspecto importante: atuando muito além da esfera de um magistrado de primeira instância, o degrau inferior da complexa estrutura do Judiciário brasileiro, Moro exerce um poder político fora de controle, inteiramente usurpado, num novo passo de um projeto político-jurídico que ele próprio cunhou em 2004.

Conforme foi assinalado outras vezes neste espaço, é possível encontrar um rascunho pronto e acabado da Lava Jato num texto chamado “Considerações sobre a Operação Manni Pulite”. Ali, Sérgio Moro dá sua versão para a história da Operação Mãos Limpas, iniciada como uma investigação de denúncias de corrupção política para culminar, 1200 prisões e doze suicídios depois, na ditadura midiática de Sylvio “Bunga-Bunga” Berlusconi.

O colapso da economia italiana, um reflexo direto dos passos desencontrados da política, foi registrado pela revista conservadora Economist, para quem em uma década a Itália acumulou o pior desempenho da Europa, incluindo a Grécia (edição de 3/1/2015).

Comparando Brasil e Itália, Moro permite-se observar, já naquela época, que em nosso país “encontram-se presente várias das condições institucionais necessárias para a realização de ação judicial semelhante.”

Uma dessas condições, registra, é que a “classe política não goza de grande prestígio junto à  população. “Isso ocorre”, escreve o juiz em 2004, um ano depois da posse de Luiz Inácio Lula da Silva no Planalto, porque é “grande a frustração pelas promessas não cumpridas após a restauração democrática.”

Sem disputar um único voto popular, Sergio Moro administra um projeto que tem produzido mudanças no poder político, procurando deslegitimar — o termo é dele próprio – o sistema democrático duramente construído no final da ditadura.

Em um ano de existência, a Lava Jato gerou alterações no sistema econômico, em grande parte já arruinado pelas prisões sem julgamento e por inúmeras acusações até agora não provadas definitivamente contra a Petrobras, por prejuízos alarmistas que ninguém é capaz de calcular corretamente, mas que fazem a delícia dos especuladores de sempre.

Com apoio dos grandes meios de comunicação, que fingem não perceber a brutalidade do que ocorre, manipula-se amplos setores da sociedade civil — mas nem por isso um dos procuradores envolvidos na investigação deixa de cobrar, sem jamais ser criticado por isso, o permanente apoio da mídia.

No Brasil de 2015, Sérgio Moro é a autoridade que autoriza prender e soltar, castigar e punir, vigiar e perseguir. Controla o poder de Estado em seu grau máximo, que diz respeito à liberdade dos cidadãos. Estabelece as duas fronteiras do mando — aquilo que se exerce por consenso, quando a sociedade aceita o que o Supremo Mandatário deseja, aquilo que se cumpre por coerção, que envolve o uso da força.

Além de manter o Executivo em alerta e frequente paralisia, a Lava Jato enquadrou as lideranças principais do Legislativo, onde Eduardo Cunha e Renan Calheiros tornaram-se não passam de fantoches à mercê das investigações da Polícia Federal, das denúncias do Ministério Público — e do aval de Sérgio Moro. Não vamos nos iludir quanto ao Judiciário. Uma primeira instância exageradamente forte implica num Supremo fraco demais. Em dezembro de 1968, os brasileiros passaram a ter certeza de que viviam sob uma ditadura, depois que o regime militar suspendeu o habeas corpus, que permitia a um juiz determinar a soltura de um preso sem culpa formada. Em 2015, o fim do habeas corpus é uma realidade estatística. Nenhuma das dezenas de pedidos de habeas corpus para os presos da Lava Jato, encaminhados aos tribunais superiores, foi acolhido. O único caso positivo, que envolvia o preso Renato Duque, foi revogado.

Brasileiros têm ido às ruas, nas últimas semanas, para pedir um golpe de Estado. Na verdade, um movimento autoritário já se iniciou e está em curso — ainda que seja menos visível e não tenha o acompanhamento de tanques, nem de soldados nem de baionetas.

Estamos assistindo a um processo de esvaziamento contínuo das instituições democráticas brasileiras a partir da exacerbação contínua dos poderes da Justiça. Neste processo, a Lava Jato oferece, na bandeja da oposição, instrumentos para restrição da principal liberdade que diferencia a democratização nascida em 1985 — a liberdade de organização dos trabalhadores e da população pobre.

Anunciado por Aécio Neves, respaldado por Carlos Sampaio da CPI e repetido por Ronaldo Caiado após a prisão de Vaccari, a extinção do PT é um projeto que volta a frequentar os projetos da oposição brasileira — herdeira da mesma família política que, em 1947, colocou o PCB na ilegalidade. Nos anos seguintes, sabem os brasileiros, a democracia tornou-se tão frágil que ocorreram pelo menos três conspirações militares até que, 17 anos depois, ocorreu o golpe que durou 20 anos.

Lula critica lei da terceirização por impulsionar “mão de obra quase escrava”

Via Agência Efe

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a classe trabalhadora não pode permitir a aprovação do projeto de lei que revê os critérios da terceirização no país para evitar que “as empresas passem a utilizar mão de obra quase escrava como no século passado”.

Lula participou junto ao ator e ativista sindical americano Danny Glover do 9º Congresso Nacional dos Metalúrgicos da Central Única dos Trabalhadores (CUT), onde disse que a luta contra esse projeto é “uma questão de honra” para a classe trabalhadora.

“A conquista dos direitos trabalhistas foi conseguida com muita luta. Com certeza algum deputado não deve saber disso”, disse Lula. EFE/Sebastião Moreira

A Câmara dos Deputados aprovou na semana passada o texto-base de uma lei que amplia para todos os setores da economia a terceirização do emprego, autorizando as empresas a contratarem prestadores de serviço, inclusive, para desenvolver suas atividades-fim.

Uma emenda aprovada nesta terça-feira pelos deputados, no entanto, proibiu que as empresas públicas e as sociedades de economia mista, como a Petrobrás, possam contratar terceirizadas em atividade-fim.

Até então, a terceirização é autorizada apenas para atividades não específicas das empresas contratantes, como serviços de limpeza, transporte e segurança.

“A conquista dos direitos trabalhistas foi conseguida com muita luta. Com certeza algum deputado não deve saber disso”, disse Lula, defendendo uma discussão ampla sobre o projeto de lei, algo também já proposto pela presidente Dilma Rousseff.

“Evitar a aprovação do projeto de lei é exigir que o Congresso respeite as conquistas históricas da nossa classe trabalhadora”, ressaltou o ex-presidente.

Lula também falou sobre o escândalo de corrupção na Petrobras, com o envolvimento de vários políticos, a maior parte da base aliada, e pediu que o PT pare de ser “criminalizado”.

“Perguntem a qualquer promotor se houve algum outro momento da história em que se criaram tantos instrumentos de investigação e luta contra a corrupção como nos 12 anos de governo do PT”, afirmou o ex-presidente.

“Vamos investigar de verdade as finanças de cada partido político e tentar de tentar criminalizar o PT, que não é formado por um ou dois deputados, mas tem muitos milhões de pessoas”, defendeu.

Glover também criticou a terceirização, se referiu a Lula como “herói” e pediu ao movimento sindical para não esquecer “o tema racial para poder curar as cicatrizes do povo afrodescendente”.

Benayon: A real origem e história do PMDB

Por Adriano Benayon | 13/04/2015

Lembro aos que porventura não acompanharam a política durante os tempos dos governos militares, que o PMDB se originou basicamente do MDB, o partido que congregaria os que, em princípio, se opunham ao regime instituído pela Constituição de 1967, egresso do golpe de 1964. Esse regime só admitia dois partidos. Esse e a ARENA, o governista.

Então, o MDB era um saco de gatos. Tinha de tudo: uns poucos, certamente em minoria, realmente opostos ao oficialismo e a suas facetas conservadora e pró-imperial; e grande número de políticos cuja oposição aos governos militares em nada os incomodavam, mormente porque faziam suposta resistência aos aspectos formais e praticamente nenhuma aos aspectos substantivos da política. Quando muito, um voto em oposição a propostas governamentais, que nada mudava, dada a maioria da ARENA.

Os líderes nacionalistas e democráticos, como Miguel Arraes e Leonel Brizola, foram evidentemente cassados e não podiam participar do simulacro de democracia, que era oferecido. JK e Lacerda também foram cassados, não por se oporem realmente às políticas governamentais, mas principalmente por terem, em princípio, cacife eleitoral.

A força eleitoral de JK, devido mais à demagogia e nada à defesa real dos interesses nacionais, talvez foi superestimada, haja vista a fragorosa derrota do candidato por ele supostamente apoiado para sua sucessão, Marechal Lott, homem dos mais dignos. Dizia-se que, cada vez que este falava, perdia votos. Mas, em minha opinião, o que lhe fez perder, por boa margem, para Jânio Quadros, foi a desastrosa administração de JK.

Esta, além de subsidiar o domínio das transnacionais sobre a indústria nacional, foi concluída com elevados déficits nas contas públicas, bem como nas transações correntes com o exterior, endividamento externo, e também com inflação dos preços de magnitude nunca antes verificada.

Interessante recordar que a bandeira principal de Jânio Quadros, para uso eleitoral, era reprimir a corrupção. Além disso, propunha e começou a realizar política financeira conservadora, que a cultura acadêmica e jornalística majoritária associa à austeridade.

Já falei também que Tancredo, do PMDB, agradava mais ao império do que Maluf, derrotado na eleição indireta que acabou dando a presidência a Sarney, dada a morte de Tancredo. Tanto assim, que este deveu sua vitória à dissidência que redundou na criação do PFL, liderada pelo notório Marco Maciel e quejandos.

Já falei que Tancredo, depois no PMDB, e então MDB, agradava mais ao império do que Maluf, derrotado na eleição indireta que acabou dando a presidência a Sarney, dada a morte de Tancredo. A Arena, governista, tinha maioria, e a vitória de Maluf estava assegurada, o que foi revertido com a criação da “Frente Liberal”, formada por parlamentares da ARENA, que assim passaram a apoiar Tancredo.

Ora, o principal líder do surgimento da Frente Liberal foi o notório e longevo articulador de jogadas antinacionais Marco Maciel, coadjuvado por figuras como, entre outras, Antônio Carlos Magalhães (ACM), entre cujos atributos esteve o de estar sempre associado a Roberto Marinho, tendo ocupado pessoalmente, ou por meio de prepostos seus, o ministério das Comunicações, desde a época militar e prosseguindo na “Na Nova República”.

Há, pois, muita impropriedade em se reverenciar Tancredo Neves, até mesmo na esquerda e até por parte de muitos críticos da ação imperial norte-americana no País.

Para aquilatar o grau dessa impropriedade, basta mencionar o ministério que ele legou a Sarney e que este teve de engolir nos primeiros tempos de sua presidência: Francisco Dornelles, sobrinho dele e entreguista de carteirinha, no principal ministério, o da Fazenda; ACM, no das comunicações; Olavo Setúbal, dono do Itaú, nas Relações Exteriores.