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Diálogos Desenvolvimentistas: Galípoli, Hitler e a História do Poder

A escalada de tensão foi mais uma vez retomada entre os EUA e a Rússia. Consultando, a história, facilmente captamos que as relações entre Washington e Moscou sempre fora conturbada, repleta de desconfiança e rivalidade.

Durante a II Guerra Mundial, a Inglaterra, sob a batuta de Churchill, se via atormentada pela possibilidade de aumento da esfera de influência soviética no continente europeu e planejou a jamais realizada Operação Impensável, que previa guerra aberta de alto espectro contra a Rússia, plano que fora rejeitado pelos parceiros norte-americanos por ser impraticável e suicida. Os detalhes deste episódio histórico podem ser conhecidos no artigo “Operação Impensável”: Em 1945 os ‘aliados’ já tinham planos secretos contra a Rússia soviética
, cujo autor é Yuriy Rubtsov.

A Segunda Guerra, por sua vez, é intrincada com a Primeira e diversos eventos ocorridos nela influenciaram os caminhos da História. Que relação existe entre a Campanha de Galípoli, o massacre dos armênios e o holocausto? Que ligações estes episódios têm com a História do poder mundial? O massacre dos armênios foi usado por Hitler como justificativa e incentivo ao genocídio perpetrado contra os judeus e a fracassada Campanha de Galípoli teve profundos efeitos sobre a Rússia czarista e sobre um dos grandes líderes do século XX, Winston Churchill. O artigo Galipoli, genocídio dos armênios e Churchill , escrito por Paulo Timm (que também participa do diálogo), trata da relação aqui exposta.

O diálogo reproduzido abaixo trata dessas questões. Enquanto os dois artigos são reproduzidos em seguida.

Paulo Timm – Isso tudo é verdade, mas a História toda é mais longa. Começa no episódio de Galípoli, no início da I Guerra.

Foi marcante o episódio de Galípoli, também, porque afetou a trajetória de um dos grandes líderes do século passado, Winston Churchill, que fora responsabilizado pelo fracasso em Galípoli na primeira fase da I Guerra, eis que já à testa do Almirantado britânico. Churchill, nesta estratégica posição, havia imaginado ocupar a Turquia através do Estreito de Dardanelos, uma abertura em torno de uma milha que liga o Mediterrâneo ao Mar de Mármara, para, daí, acudir a Rússia em apuros. Deu tudo errado. A Rússia ficou desamparada e emergiu do conflito aos escombros que conduziram à Revolução Bolchevique de 1917. Talvez sentindo-se culpado por tudo isto, Churchill, quase trinta anos depois, tentaria sufocar a URSS levando até lá a vitória Aliada. No rescaldo de Galípoli, enfim, à conta de Churchill, morreram 90 mil turcos e 60 mil aliados, enquanto documentos oficiais ingleses falam, hoje, em 500 mil mortos.

Gustavo Santos – Interessante a relação quite você fez com a psicologia de culpa do Churchil, mas eu não creio que ele tivesse culpa por isso, o isolamento logístico fã Rússia era algo praticamente intransponível, aliás construído pelos próprios ingleses no século anterior. Também é interessante o grau de ousadia, maquiavelismo e até megalomania dele ao propor estratégias que para qualquer outro seriam impensáveis.

Não sei se você sabe, mas a proposta do Churchill de desembarque para o dia D sempre foi na Iugoslávia para impedir que tropas soviéticas ocupassem o Leste europeu. Mas os americanos, menos dispostos a grandes esforços de guerra, preferiram não assumir a liderança contra os alemães na principal frente de batalha que era no Leste, e em condições logísticas e de terreno muito piores só para impedir uma possível conquista daquelas regiões marginais para o comunismo soviético.

André Luís – A Operação Galípoli visava romper a frente turca para passar alimentos e munições para a Rússia czarista, que já se encontrava sufocada pela guerra, a falha da operação levou ao estrangulamento da Rússia, que desencadeou a queda do czar e posteriormente a revolução de 1917;

Churchill, depois deste fracasso, foi defenestrado da marinha, o que levou algum tempo para retomar sua carreira política e militar, isso levou a um atraso da guerra em alguns anos por causa do governo inglês de Chamberlain;

O massacre armênio foi adotado como desculpa por Hitler para o holocausto;

Galípoli levou a uma aula para Churchill em relação a guerra;

O fim do Império Otomano depois da 1ª guerra mundial é a raiz de todas as questões do Oriente Médio atual;

O fim do Império Otomano levou a um acirramento da disputa de influência tanto no Oriente Médio como na região dos balcãs, entre as potências coloniais da Europa, lembre-se que uma das regiões onde a 2ª guerra foi mais acirrada foi na região balcânica europeia. Etc.

A história tem esta questão de um novelo puxado leva a um rolo muito grande.

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Galípoli, genocídio dos armênios e Churchill

Por Paulo Timm

No último 24 de abril, como em anos passados, o noticiário internacional fartou-se na divulgação de dois acontecimentos concorrentes:

De um lado, líderes de várias partes do mundo, compungidos, à frente de
grande multidão, na capital da Armênia, lembraram o centenário do genocídio
de mais de um milhão de armênios. Estava começando a I Grande Guerra. Os armênios, cujas máximas expressões intelectuais foram presos no dia 24 de abril de 1915, acabariam expulsos em massa da vizinha Turquia, sob a alegação de traição. Foram constrangidos a atravessar, a pé, um deserto imenso, em direção à sua terra original, atrás do monte Ararat. Nunca alcançaram. Na verdade, instaurou-se, aí, uma diáspora armênia por todos os cantos do mundo, vindos muitos, inclusive, para o Brasil. Inúmeros filmes, dentre eles “América, América” de Elia Kazan, romances e canções, falam desta tragédia.

De outro lado, os turcos, antecipando um dia o centenário de sua vitória na Batalha de Galipolli, no dia 25 de abril de 1915, sobre as Forças da Tríplice Entente , que reunia Inglaterra, França e Russia contra Alemanha, Império Austro Húngaro e Império Otomano, aproveitam para rejeitar a acusação de que teriam praticado genocídio contra o povo armênio. Alegam que jamais pretenderam liquidar os armênios, apenas tomaram medidas consideradas indispensáveis à segurança do país numa época de guerra, quando estes se mostravam mais leais ao inimigo russo, com os quais tinham afinidades culturais e religiosas, do que à Turquia muçulmana.

Aparentemente, o massacre sobre os armênios, ao qual se seguiram perseguições a gregos e russos residentes no Império Otomano, e a Batalha de Galípoli parecem dois fatos isolados – e distantes. Na verdade, estão interligados, pois ocorreram no mesmo momento, como uma represália dos turcos sobre os armênios, inclinados não só à própria independência, como pelos russos, aliados dos ingleses e franceses que tentavam quebrar a Turquia com a ocupação de Galípoli no inicio da I Grande Guerra.

Passado o vexame e duas décadas, às vésperas de II Guerra, as advertências de Churchill sobre o caráter belicoso de Hitler custaram a ser ouvidas. Diante do inevitável, a invasão alemã da Polônia, em 1939, foi, afinal redimido e virou primeiro-ministro. Conduziu os ingleses na vitória aliada. Mas nunca deixou de, ser visto como arrogante e ousado demais nas questões internacionais. E, depois da vitória na II Guerra, sendo um dos vitoriosos, ao lado de Truman, Presidente dos Estados Unidos, que sucedeu Rossevelt ,e Stalin, homem forte da União Soviética, seu açodamento na tentativa de levar a guerra contra os soviéticos, foi congelada:

Após a derrota da Alemanha, a Europa estava dividida entre os Aliados no oeste e os soviéticos no leste. Winston Churchill não confiava que Stalin fosse libertar os países ocupados pelo Exército Vermelho, sendo assim, ele e seus estrategistas militares prepararam a Operação Impensável, um plano que colocaria as forças aliadas contra as tropas soviéticas na Europa. As hostilidades começariam em 1 de julho de 1945 e envolveriam no rearmamento de 100.000 soldados alemães para que se juntassem aos Aliados. Churchill também queria que os Estados Unidos usassem a bomba atômica, caso os soviéticos se recusassem a se render. Os planos de Churchill nunca saíram do papel porque os norte-americanos estavam muito cansados para outra guerra. Em um telegrama enviado da Casa Branca, Harry Truman, o presidente americano, deixou claro que os Estados Unidos não ajudariam os ingleses na guerra para expulsar os russos da Europa Oriental (trecho do artigo 10 planos alternativos da II Guerra Mundial que teriam mudado a história).

Foi ele, Churchill, a propósito, quem reverberou Goebbels e consagrou o conceito de “Cortina de Ferro”, como se pode ver no discurso que fez no Westminster College, em Fulton, no Missouri, Estados Unidos, em 5 de março de 1946, citando a expressão “iron curtain” ou, seja, “cortina de ferro”:

“De Estetino, no [mar] Báltico, até Trieste, no [mar] Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dessa linha estão todas as capitais dos antigos Estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucarest e e Sófia; todas essas cidades famosas e as populações em torno delas estão no que devo chamar de esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não somente à influência soviética mas também a fortes, e em certos casos crescentes, medidas de controle emitidas de Moscovo.” (retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Cortina_de_Ferro)

Então Churchill voltou a cair. Por toda a vida carregaria a fama de impetuoso em excesso. Mas não fosse Galipoli, uma espécie de Dia D que deu errado, a História do Século XX poderia ter sido diferente.

A Campanha de Galípoli, também conhecida como Batalha dos Dardanelos, teve como palco a península de Galípoli (em turco: Gelibolu) na Turquia, de 25 de abril de 1915 a 9 de janeiro de 1916, durante a I Guerra Mundial. Foi uma das campanhas mais custosas e trágicas da guerra. Forças britânicas, francesas, australianas e neozelandesas desembarcaram em Galípoli, numa tentativa de invasão da Turquia e captura do estreito de Dardanelos. A tentativa falhou, com pesadas perdas para ambos os lados. Os aliados se retiraram do local durante os meses de dezembro de 1915 e janeiro de 1916.

As divisões ANZAC (Australian and New Zealand Army Corps) se viram especialmente danificadas, e esta campanha passou a significar certa dissensão por parte do aliados oriundos da Nova Zelândia e da Austrália, que acusaram as tropas britânicas de arrogância, crueldade e inaptidão, bem como principais responsáveis pelo fracasso das operações. O Anzac Day (25 de abril) continua a ser a comemoração mais significativa dos veteranos na Austrália e na Nova Zelândia, superando o Dia do Armistício / Dia da Lembrança.

A Campanha de Galípoli repercutiu profundamente em todas as nações envolvidas. Na Turquia, a batalha é percebida como um momento definitivo na história da nação — a defesa final da terra-mãe após séculos de desintegração do Império Otomano. A luta estabeleceu as bases para a Guerra de Independência Turca e a fundação da República Turca oito anos mais tarde, sob Atatürk, ele próprio um comandante em Galípoli.

É difícil o exercício de cenários do “se”, isto é, se tivesse acontecido isso ou
aqui, como seria o mundo?

Se o Plano de Churchill tivesse dado certo e a Turquia tivesse caído, levando os aliados ao apoio do Tzar Russo, isto poderia ter evitado sua derrocada. Isso posto, dificilmente emergeria a situação revolucionária que tanto beneficiou o assalto ao Palácio de Inverno pelos bolcheviques. Com isso, Churchill poderia ter sido ouvido a tempo na Inglaterra, evitando o fato consumado por Hitler ao final da década de 30. Ele teria, senão evitado a II Guerra, pelo menos impedido que fosse conduzida por Hitler..

E se Hitler e não os Aliados tivesse vencido a Guerra? Como seria o mundo? Teríamos, certamente, uma reedição do Congresso de Viena, de 1815, com o retardamento dos processos de descolonização da África e Ásia. Internamente à Europa, o pacto social-democrata jamais tivesse se concertado. Distante do teatro de operações, os Estados Unidos, que jamais quiseram a guerra, talvez tivessem chegado a um Acordo de Paz com o “Triunfo do III Reich”.

Imagine-se, de outra parte, se em 1945, derrotado Hitler, os Aliados – e lá estava o Brasil…, com Estados Unidos à frente, tivessem feito a guerra contra a URSS de forma a ter evitado a Guerra Fria que se instalou depois do conflito.

Não seria um enfrentamento fácil. O Exército Vermelho estava em pleno vigor, estabelecido em Berlim, exaltado por ter infligido um duro golpe nos alemães. Mas não dispunha, naquele momento, do acesso à tecnologia nuclear, a qual, em marcha forçada levaria os americanos a detonarem a primeira bomba atômica em Hiroshima, no início de agosto daquele ano. Isto significa que, ouvido Churchill, a União Soviética poderia ter sido exterminada, também, no mesmo processo, dando outra face ao século XX. A descolonização no Terceiro Mundo e o avanço social-democrático na Europa talvez não ficassem completamente comprometidos, mas seriam, certamente, bem mais conservadores do que foram.

Quanto à América Latina não creio que as mudanças derivadas da vitória alemã ou mesmo de uma eventual liquidação da URSS tivessem mudado substancialmente o desenrolar dos acontecimentos. Hitler e o nazi-fascismo também não durariam para sempre. Como a hegemonia americana, com ou sem a URSS, tampouco o será. O continente tem sua lógica política própria, avessa, aliás, tanto aos imperativos liberais proclamados desde Bretton Woods até o Consenso de Washington, como às proclamações que lhes correspondem em doutrina política, sempre avessa ao papel do Estado como promotor de cidadania e do desenvolvimento que tanto apreciamos.

Enfim, dois acontecimentos como Galipoli e Genocídio armênio, embora estranhos ao nosso cotidiano, são, não obstante, um convite à reflexão sobre os caminhos e descaminhos da História.

A Turquia, entretanto, mesmo derrotada na I Guerra e reduzida em sua geografia e influência no mundo, saiu de Galipoli erguida para as mudanças que se sucederam sob o comando de Kemal Ataturk.

Turquia é hoje um estado laico e moderno, pronto para se incorporar, talvez, mais à Agenda dos BRICS do que à da UNIÃO EUROPEIA. O genocídio armênio lhe é, por certo, indigesto, mas cedo ou tarde terá que se enfrentar com este passado. Por isso mesmo o Brasil deveria reconhecer logo este crime contra a humanidade, até como um sinal aos turcos de que a Doutrina dos Direitos Humanos não é uma amenidade, mas uma verdadeira estratégia de sobrevivência da humanidade no século XXI. Já os países europeus, sedes de Impérios Coloniais que se redesenharam no final da I Guerra com o objetivo de colocar os resíduos do Império Otomano sob seu “protetorado”, antes de exigir da Turquia a retratação do crime contra os armênios, deviam se desculpar com os povos colonizados pelas barbáries cometidas contra eles. Só para o Brasil, mais de 2 milhões de africanos foram trazidos cativos por Portugal para impulsionar a economia do Fazendão Tropical. Outro tanto morreu nas viagens… Isto não foi genocídio?

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“Operação Impensável”: Em 1945 os ‘aliados’ já tinham planos secretos contra a Rússia soviética

Por Yuriy Rubtsov | Via Pravda

No final de maio de 1945 Josef Stálin ordenou que o Marechal Georgy Zhukov deixasse a Alemanha e viesse a Moscou. Stálin estava preocupado com as ações dos aliados britânicos. Stálin observara que as forças soviéticas desarmavam os alemães e os enviavam a campos de prisioneiros; mas os britânicos, não. Em vez de desarmar e prender os alemães, os britânicos estavam cooperando com eles e lhes permitiam manter a capacidade de combate. Para Stálin, a única explicação para esse comportamento era que os britânicos planejassem usar depois aqueles soldados alemães. Stálin sabia que a atitude dos britânicos era flagrante violação do acordo entre governos, segundo os quais tropas que se rendessem tinham de ser desarmadas e imediatamente desmontadas.

A inteligência soviética pôs as mãos (e os olhos) no telegrama secreto que Winston Churchill enviara ao marechal-de-campo Bernard Montgomery, comandante das forças britânicas. O telegrama ordenava que Montgomery recolhesse as armas e as conservasse disponíveis para serem devolvidas aos alemães, caso a ofensiva soviética continuasse.

Seguindo instruções de Stálin, Zhukov condenou duramente as atividades dos britânico no Conselho de Comando dos Aliados (União Soviética, EUA, Reino Unido e França). Disse que a história registrava poucos exemplos de tamanha traição e descaso com compromissos assumidos entre nações que tinham, ou se haviam comprometido a ter, status de aliadas. Montgomery rejeitou a acusação. Poucos anos depois admitiu que recebera ordens para fazer exatamente o que Zhukov acusara os ingleses de terem feito e que as executara. Como soldado, não tivera alternativa.

Disputava-se batalha feroz nos arredores de Berlim. Dessa vez, Winston Churchill disse que a Rússia Soviética convertera-se em ameaça mortal para o mundo livre. O primeiro-ministro britânico queria que se criasse um novo front no leste, imediatamente, para conter a ofensiva soviética. Churchill vivia obcecado pela ideia de que, depois de derrotado o exército nazista alemão, a União Soviética já surgia como nova ameaça.

Essa é a razão pela qual Londes quis que Berlim fosse tomada por forças anglo-norte-americanas. Churchill quis também que os norte-americanos libertassem a Checoslováquia e Praga com a Áustria controlada pelos aliados, todos sob as mesmas condições.

Já em abril de 1945, Churchill dera instruções para que o Grupo de Planejamento Conjunto das Forças Armadas Britânicas planejasse a Operação Impensável [orig. Operation Unthinkable], nome de código de dois planos relacionados de um conflito entre os aliados ocidentais e a União Soviética. Os generais receberam ordens para traçar meios para “impor à Rússia a vontade dos EUA e do Império Britânico”. A data hipotética marcada para o início da invasão, pelos aliados, da Europa hipoteticamente tomada pelos soviéticos, seria 1º de julho de 1945. Nos últimos dias da guerra contra a Alemanha de Hitler, Londres deu início a preparativos para apunhalar a União Soviética pelas costas.

O plano previa guerra total para ocupar as partes da União Soviética que tiveram significado crucial para o esforço de guerra, e assestar assim golpe decisivo, que tiraria das forças armadas soviéticas a capacidade para defender-se.

O plano incluiu a possibilidade de as forças soviéticas recuarem com profundidade para dentro do próprio território, tática que já havia sido usada em guerras anteriores.

O Alto Comando Britânico considerou esse plano militarmente irrealizável, porque as forças soviéticas superavam as forças aliadas na proporção de três para um – na Europa e no Oriente Médio, onde o plano previa que se travassem os combates. As unidades alemãs entravam nessa conta como tentativa de equilibrar a correlação de forças: por isso Churchill tanto precisava de que os prisioneiros alemães continuassem em prontidão para combater.

O Gabinete de Guerra concluiu:

“O Exército Russo desenvolveu um Alto Comando capaz e muito experiente. O exército é incomensuravelmente mais forte, vive e se movimenta em escala muito mais leve de manutenção que qualquer exército ocidental, e usa táticas firmes, baseadas sobretudo na pouca importância atribuída às baixas, para alcançar o objetivo. O equipamento foi rapidamente aprimorado durante a guerra e hoje é bom. Sabe-se o suficiente sobre esse desenvolvimento, para dizer que com certeza absoluta o exército soviético não é inferior aos das grandes potências. A facilidade que os russos mostraram para desenvolver e aprimorar equipamento e armas existentes, e para produzi-los em massa foi realmente muito impressionante. Já se sabe até que houve casos de os alemães terem copiado traços básicos de armamento russo.”

Os planejadores britânicos chegaram a conclusões pessimistas. Disseram que qualquer ataque seria “imprevisível” e que a campanha seja “longa e cara”. Na verdade, o relatório dizia “Se vamos iniciar guerra contra a Rússia, temos de estar preparados para guerra total, que seria longa e cara”. A superioridade numérica das forças do campo soviético deixavam poucas possibilidades de sucesso.

A avaliação, assinada pelo Comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas, dia 9/6/1945 – na próxima 4ª-feira serão 70 anos! – concluía:

“Estaria além de nossas capacidades alcançar sucesso rápido, mas sempre limitado, e estaríamos comprometidos em guerra longa, contra todas as probabilidades de sucesso. E essas probabilidades convertem-se em pura fantasia, se os americanos cansarem, ficarem indiferentes e deixarem-se arrastar pelo ímã da guerra no Pacífico.”

O primeiro-ministro recebeu rascunho do plano dia 8 de junho. Por mais que o enfurecesse, Churchill teve de se conformar, ante a evidente superioridade do Exército Vermelho. Mesmo com a bomba atômica já incluída no inventário militar dos EUA, o novo presidente dos EUA Harry Truman também teve de aceitar o argumento e a conclusão.

Na sequência, em reunião com o ministro de Relações Exteriores da URSS Vyacheslav Molotov, Truman pegou o touro pelos chifres. Fez ameaça mal disfarçada de que se poderiam aplicar sanções econômicas contra a União Soviética. Dia 8 de maio, o presidente dos EUA ordenou que se reduzissem significativamente, sem qualquer notificação prévia, a venda e a entrega de suprimentos. Chegou a ponto de fazer retornar às bases nos EUA, todos os navios norte-americanos que já estavam a caminho da URSS.

Algum tempo passou, e a ordem foi cancelada, ou a URSS não entraria na guerra contra o Japão, algo de que os EUA muito precisavam. Mas as relações bilaterais haviam sido feridas para sempre.

O memorando assinado pelo secretário de Estado em exercício Joseph Grew dia 19 de maio de 1945, dizia que a guerra contra a URSS era inevitável. Ordenava ‘endurecer posições’ nos contatos com a URSS. Segundo Grew, recomendava-se iniciar imediatamente os combates, antes que a URSS conseguisse recuperar-se da guerra e restaurar seu vastíssimo potencial militar, econômico e territorial.

Os militares receberam impulso dos políticos. Em agosto de 1945 (a guerra contra o Japão ainda não terminara), o mapa dos alvos estratégicos dentro da URSS e Manchúria foi apresentado ao general L. Groves, chefe do programa nuclear dos EUA. O plano indicava 15 das maiores cidades da URSS: Moscou, Baku, Novosibirsk, Gorky, Sverdlovsk, Chelyabinsk, Omsk, Kuibyshev, Kazan, Saratov, Molotov (Perm), Magnitogorsk, Grozny, Stalinsk (provavelmente, Stalino – a atual Donetsk) e Nizhny Tagil. Cada alvo vinha acompanhado de descrições: geografia, potencial industrial e alvos a atingir primeiro. Washington abriu novo front: dessa vez, contra seu aliado.

Londres e Washington imediatamente esqueceram que haviam combatido lado a lado, ombro a ombro, com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Esqueceram também todos os compromissos que haviam assumido nas conferências de Yalta, Potsdam e São Francisco.

“Operação Impensável” é o nome de um plano inicial de guerra feito pelo governo britânico em 1945. Tal operação consistia na invasão da então União Soviética por forças militares britânicas, poloneses exilados, americanos, e até alemães recém rendidos. Dada a superioridade do poder militar da União Soviética, os demais ‘aliados’ optaram por não executar tal operação”.

A espetacularização da realidade

Por Francisco Fernandes Ladeira | Via Observatório da Imprensa

Uma das principais características do sistema capitalista é a capacidade de mercantilizar praticamente todas as esferas da realidade. Sob o prisma da sociedade de consumo, as necessidades humanas, desde as mais básicas às mais complexas, tornam-se passíveis de se transformar em fonte de lucro. No primeiro capítulo de O Capital, Marx caracterizava o capitalismo como uma grande circulação de mercadorias, sendo os seres humanos apenas meios para a reprodução em larga escala de bens materiais que, ao serem fetichizados, passam a assumir qualidades que vão além da simples materialidade. Em outros termos, as coisas passariam a ser personificadas e, por outro lado, as pessoas seriam coisificadas. As mercadorias deixam de ser mensuradas pelo seu valor de uso para serem avaliadas por sua dimensão simbólica. Nesse sentido, os seres humanos, por meio do trabalho alienado e do consumo induzido, são meros instrumentos para a reprodução do capital.

Adaptando as ideias marxianas ao século 20, o filósofo francês Guy Debord aponta que a sociedade contemporânea é uma imensa acumulação de espetáculos. De acordo com Debord, “espetáculo” é o momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social, quando o tempo livre do trabalhador passa a ser ditado pelo consumo alienado, com o “ócio” transformado em “lazer”. “A atual libertação do trabalho, o aumento dos tempos livres, não é de modo algum libertação no trabalho, nem libertação de um mundo moldado por este trabalho”, concluiu o filósofo francês. Entre os efeitos sociais do espetáculo, podemos citar a dominação da economia sobre a vida social, a degradação do “ser” pelo “ter” (socialmente um indivíduo é valorizado pelo que possui, e não pelo seu caráter), a submissão da consciência à forma mercadoria, o alijamento da realidade e a sobreposição da imagem sobre o conteúdo.

Todavia, não há como falar em sociedade do espetáculo sem mencionar o seu principal palco de propagação: a mídia. Embora inúmeras pesquisas de audiência indiquem que os grandes veículos de comunicação não são capazes de manipular imediatamente seus receptores, a longo prazo, um determinado indivíduo que é exposto frequentemente aos conteúdos de programas televisivos, tende a absorver inconscientemente os preceitos ditados pela mídia. No ensaio O reino da contemplação passiva, Anselm Jappe assevera que a televisão contribuiu peremptoriamente para criar o homem-mercadoria. Com a televisão, a mercadoria invade definitivamente todas as esferas da vida social. Necessidades básicas do ser humano ganham outras conotações: não tenho apenas sede, desejo beber um refrigerante; não quero apenas um relacionamento afetivo, mas um romance aos moldes do casal da telenovela; crianças já não são mais responsáveis por criar suas próprias brincadeiras, querem o brinquedo visto na propaganda. Através da publicidade, padrões de consumo são ditados e pseudonecessidades são criadas (trocar o celular constantemente, possuir o computador mais moderno, frequentar os lugares da moda, ostentar um automóvel do ano). Não obstante, a mídia também contribui para o espetáculo ao superdimensionar, dramatizar ou distorcer determinados acontecimentos, banalizar o real e transformar fatos triviais do cotidiano em notícias de interesse público.

A banalização do real

Fatos banais na vida de pessoas famosas (o nascimento de um filho, um passeio na praia ou um casamento) ensejam extensas matérias em revistas como CarasQuem Acontece e Contigo ou são destaques em programas como TV Fama e Vídeo Show e em sites especializados em fofocas. É o espetáculo mostrando as faces mais fúteis do ser humano. Se na Grécia Antiga as pessoas adoravam os deuses do Olimpo e na Idade Média os santos eram venerados, na “sociedade do espetáculo” há o culto às celebridades. Atores de telenovelas, esportistas e astros da música são alçados ao status de semideuses. Ademais, a televisão brasileira conseguiu uma façanha que a nossa historiografia jamais logrou: criou “mitos nacionais”, aos quais os brasileiros passaram a se identificar. Ayrton Senna da Silva é um dos maiores “heróis nacionais” somente pelo fato de dirigir um carro em alta velocidade. Na corte midiática de nosso país, Maria das Graças Xuxa Meneghel, que ajudou a impulsionar o processo de erotização precoce de toda uma geração, ironicamente foi agraciada com a alcunha “Rainha dos Baixinhos” e o cantor Roberto Carlos é simplesmente o “Rei”.

A sociedade do espetáculo (e seu principal instrumento de difusão, a mídia) também invadiu a esfera esportiva. Eventos como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo angariam bilhões de telespectadores e movimentam vultosas quantidades de dólares. No livro O monopólio da fala, Muniz Sodré afirma que o futebol há muito tempo deixou ser apenas um esporte para se transformar em um grande espetáculo de massa. Para um atleta dos dias hodiernos não basta apenas ter boas atuações em campo (talvez isso seja até secundário): é preciso saber se postar diante das câmeras, vender produtos, atualizar diariamente o seu perfil nas redes sociais e usar o corte de cabelo da moda. Por sua vez, o voleibol, um dos esportes mais populares do planeta, teve que mudar suas regras para melhor se adaptar ao formato televisivo. Até o campo científico, considerado “alheio a influências externas”, não está imune ao espetáculo. Atualmente vários estudiosos são reconhecidos e respeitados não pelo conteúdo de suas obras, mas de acordo com as aparições na mídia. Já as redes sociais, sobretudo o Facebook, levaram o espetáculo a patamares nunca imaginados por Guy Debord. Através de seu perfil virtual, uma pessoa pode criar e recriar várias imagens sobre si mesma. A partir do truísmo “partiu”, muitos internautas divulgam todos os passos do cotidiano e, ter a sensação de que está sendo “seguido”, é a melhor forma de se sentir uma celebridade. O futuro imaginado por Andy Warhol enfim chegou: no Facebook todos podem ter seus quinze minutos (virtuais) de fama. Em nossa contemporaneidade qualquer indivíduo com acesso à tecnologia é um criador de espetáculo em potencial. Enfim, nunca foi tão fácil banalizar o real.

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Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG.

Mito e realidade no cotidiano petista; complementos e análise

Por Marcelo Barbosa e Kadu Machado, comentado por Flavio Lyra, Ronaldo Abreu e Ceci Juruá| Via Jornal Algo a Dizer

1- A aprovação do ajuste fiscal pelo Congresso elimina os elementos de instabilidade da atual conjuntura: mito.

Na Europa e nos EUA, as políticas da chamada “austeridade” aprofundaram a crise, ao invés de resolvê-la.

Contudo, na situação presente, a rejeição pura e simples do “pacote” de MPs encaminhado pelo Poder Executivo nos lançaria num vácuo poder sem perspectiva de solução favorável ao campo democrático-popular.

Nesse sentido, o problema consiste em abreviar, de maneira a mais acelerada, o tempo de vigência e a extensão de tais medidas.

O país precisa ser retirado da rota da recessão – e rápido!

A retomada do crescimento, porém, depende em maior medida da política do que da economia.

Somente o esforço de uma ampla coalizão de forças sociais, que reúna desde os trabalhadores até o capital produtivo – com suas respectivas representações políticas – poderá assegurar o retorno a uma contínua elevação dos níveis de emprego e renda no país, conforme vinha ocorrendo desde 2003.

2- O PT precisa construir uma frente de esquerda: mito.

Nos últimos anos, a esquerda brasileira ampliou seu peso na sociedade. Trata-se de um crescimento relativo.

De fato, sozinha, não tem força para sustentar o regime democrático e nem capacidade de mobilização para impor uma orientação econômico-financeira distinta da atual.

Necessita construir alianças ao centro.

Como não faz isso, se isola e vem sofrendo sucessivas derrotas desde o anúncio da reeleição da presidenta Dilma. Por baixo e por cima, nas ruas e no Congresso, a iniciativa passou a pertencer aos setores situados nas áreas mais reacionárias do espectro político.

Para derrotar tais ameaças – sobretudo as contestações à legitimidade do mandato da presidente Dilma – convém manter e ampliar o diálogo com todasas correntes democráticas, inclusive frações do empresariado. Movimento sem o qual também não será possível defender o setor público da economia, Petrobrás à frente.

No longo prazo, muitos setores de centro anunciam sua concordância com a necessidade introduzir reformas de estrutura em áreas sensíveis da organização do Estado e da sociedade brasileiros. A movimentação de instituições como a OAB e a CNBB expõe o engajamento de setores politicamente moderados, porém comprometidos com a ampliação dos espaços de democracia política e justiça social. É com esse tipo de aliados que devemos partir para a montagem de uma frente ampla, com caráter de centro-esquerda.

3- O PT precisa voltar às origens: realidade, em termos.

O PT não pode e nem deve abrir mão das características presentes em seus momentos inaugurais, em especial, a ênfase na afirmação da identidade de esquerda e a cultura de solidariedade ao sindicalismo e aos movimentos sociais. Ao inverso, necessita reforçar tais compromissos.

Porém, carece de assumir a defesa de temas pertencentes ao universo programático da esquerda que o precedeu, nomeadamente os trabalhistas e os comunistas.

Para tanto, incumbe recuperar a importância da chamada Questão Nacional no que se refere à defesa da soberania – inclusive a de natureza econômica – do país. Ao retomar a coordenação entres ações de caráter democrático, mas também nacional, nosso partido estará contribuindo para transformar o conteúdo das instituições do Estado brasileiro, dirigindo-as ao enfrentamento do atraso estrutural do país, principalmente a questão da desigualdade social.

Tais atitudes, ao invés de dificultar, apenas capacitarão o Brasil a atuar com mais eficácia em iniciativas de natureza não autárquica como o estímulo aos Brics e a integração com os países da América latina e África.

4- O PT precisa entender que o ciclo da Constituição de 1988 está encerrado: mito.

Mesmo sem consagrar todas as aspirações dos setores democráticos e populares que participaram de sua elaboração, a verdade é que a Carta de 1988 se inclui entre as mais avançadas do mundo!

Sem ser perfeita, assegura um regramento democrático para a luta política de classes em curso na sociedade. Sob sua égide, na contramão do resto do mundo, a esquerda petista e seus aliados conseguiram atingir o governo do país e dar início a um período de importantes mudanças.

Aliás, boa parte das demandas enunciadas nos protestos de 2013 – em favor de melhorias na saúde, educação e mobilidade urbana, só para ficar em três itens – encontrariam equacionamento caso os dispositivos da Constituição fossem efetivamente aplicados.

As elites ligadas ao capital financeiro e ao agronegócio perceberam isso. Daí porquê desde a promulgação da Lei Maior, vêm tentando desfigurá-la de todas as maneiras. Esses esforços atingem o seu ponto mais agudo na atualidade. Irradiando sua influência a partir do Congresso Nacional, a representação política do Grande Capital faz do ataque às cláusulas asseguradoras de direitos individuais e coletivos previstos na C.F. o centro de suas atividades.

Não constitui coincidência o fato de que todas as contrarreformas propostas pela direita assumam a forma jurídica de emendas à Constituição: financiamento empresarial de campanhas, terceirização das atividades laborativas, diminuição de maioridade penal, fim do voto proporcional, entre outros tópicos.

Para estruturar uma linha de contenção à ofensiva da direita o campo democrático-popular do debate político deve, resolutamente, assumir a defesa da legalidade democrática estatuída pela Carta de 1988 como centro de sua tática de ação. Sem tibieza.

5- O PT tem projeto de nação: mito.

O que o governo do PT e seus aliados fizeram nos últimos 12 anos foi articular uma proposta de crescimento econômico com atendimento parcial das demandas dos setores da base da pirâmide social. Algumas dessas extremamente importantes, a exemplo da política de valorização do salário-mínimo e os programas sociais. Algo de essencial, mas ainda insuficiente.

No documento do Núcleo Celso Furtado, do PT-RJ, publicado no Algo a Dizer, já em 2013, dizíamos:

Por projeto nacional entendemos a mobilização presente de esforços no sentido de criar as bases teóricas, programáticas e culturais para, numa dinâmica provavelmente associada ao longo prazo, pôr em prática as transformações que a sociedade brasileira requer para se transformar numa nação capaz de assegurar a todos os seus cidadãos o exercício efetivo de direitos e garantias individuais e, sobretudo, coletivos.

Entre as medidas a serem adotadas – ainda obstaculizadas pela correlação de forças atual – se incluem: assegurar o caráter público e universal à educação e à saúde; implantar o imposto sobre grandes fortunas; taxar fortemente os lucros das empresas monopolistas; realizar uma reforma agrária em grande escala combinada com a formação de uma agroindústria ecológica; submeter o sistema bancário ao interesse coletivo; assegurar o controle público das ações do Estado; descriminalizar o aborto; democratizar os meios de comunicação em todos os níveis; pôr fim à concentração fundiária urbana; garantir o domínio do país sobre seus recursos materiais, sobretudo os de natureza hídrica; intensificar os trabalhos de unificação política e econômica dos países latino-americanos; proteger os biomas ameaçados pelos interesses econômicos; mudar radicalmente o modelo de transporte público hoje inviabilizado pela opção pelo aumento da frota de automóveis, entre outros.

Conquistas, enfim, que deverão ser fruto da ação de uma nova maioria política e cultural formada pelo proletariado urbano e rural, pelos camponeses, camadas médias urbanas unidas aos movimentos sociais expressão dos anseios de mudança da juventude, das mulheres, dos negros, índios, grupos GLBT e populações quilombolas.

Por certo, tal articulação não se confunde com o atual projeto de acumulação de capital no qual nosso governo e nosso partido tentam negociar e inserir algumas reivindicações dos setores da base da pirâmide social.

Flavio Lyra - Eis uma proposta com substância, que precisa ser debatida e complementada. Á primeira vista, falta-lhe maior ênfase no trato da questão nacional. Parece-me fundamental que o PT faça opção pela via de desenvolvimento social-desenvolvimentista, opondo-se claramente a via liberal-dependente, que tem sido predominante desde os anos 90 e que claramente fracassou. O modelo de política econômica baseado no chamado “tripé”, tem sido o instrumento de implantação dessa via. A crise atual decorre essencialmente do fracasso dessa via para promover o desenvolvimento econômico e melhorar a distribuição da renda. O modelo de política econômica associado a essa via precisa ser combatido e substituído por um outro que favoreça a acumulação de capital produtivo, o controle do fluxo externo de capitais e a reestruturação da política monetária para reduzir a taxa de juros que favorece o investimento financeiro.

Agregaria a necessidade de o PT, adquirir mais independência em relação ao governo e a Lula para defender seu projeto de desenvolvimento, o que para ser bem sucedido requererá de aliança com outros segmentos da sociedade, inclusive empresariais não vinculados ao capital financeiro, mas com forte dependência do mercado interno, como são os casos da construção pesada e dos fornecedores de empresas estatais.

Ronaldo Abreu - Bom texto. Embora eu não concorde com tudo, são boas reflexões, mas um tanto simplistas. Vejamos: enquanto 12 empresas serem as cadastadas para adquirir os títulos emitidos pelo tesouro, nunca os juros cairão. tem que ter leilão público em que cada PJ ou PF possa adquirir diretamente sem um corretor. Os gastos públicos tem que focar em investimento.

O vetor de consumo mostrou-se ruim, pois vira importação. Mas a esquerda também muda o discurso de acordo com as conveniências. Agora tem professor da USP valorizando o consumo, que no passado era coisa de classe média consumista.

Temos ferrovias, metrôs, saneamento a fazer. Melhorar a estrutura de internet. Ampliar muito a pesquisa nas universidades. Mas todos querem consumo, cota, subsídios, etc. Somos 200 milhões de habitantes e certas proteções sociais ou direitos tem que ser repensados. Ao invés da aposentadoria rural que tem déficit de mais de 1 bi, que tal regularizar a terra no campo e incluir todos em cooperativas com apoio do SEBRAE e Embrapa? Garantindo um preço mínimo para os seus produtos? Teríamos maior oferta de produtos orgânicos de maior qualidade.

A alteração no seguro desemprego deveria ser diferente na indústria pois lá se realocar é mais difícil. Mas não, meteram a régua de forma simplista. Estamos num país onde a discussão é binária. Tudo ou nada. Inflação. Alguém sabe que a formação dos preços no atacado são com base no preço em dólar? Converte-se em reais e a partir daí embute-se os impostos. Por isso o câmbio impacta muito mais na inflação que simplesmente as importações. O preço do alumínio, por ex, bateu 1800 dólares no LME. A base é esta. Multiplique por 3,1 e daí forma-se o preço no mercado interno. Se a demanda for a zero, ok, os fabricantes talvez baixem, mas a princípio o preço é este. Ou seja, em Londres se faz o preço do alumínio, mesmo se não vendermos para o exterior.

Ceci Juruá - 

O que falta para mim, nos documentos em geral, é o conhecimento da realidade concreta, e o tratamento efetivo dos “múltiplos determinantes” que configuram o fato social.

Não dá para falar sobre questão nacional, em geral, sem ter alguma noção sobre o momento atual. Sem ter uma posição, por exemplo, sobre a privatização dos rios da Amazônia – Madeira, Tocantins e Tapajós -. Contra ou a favor? Porquê? Como já foi em outros momentos do passado?

Não dá para falar sobre questão nacional sem tocar na questão do capital estrangeiro. Na indústria, nas terras, nos serviços públicos. Contra ou a favor e porquê?

E a questão dos tratados internacionais? Não só os que existem, mas os que podem vir por aí, estão ameaçando…

Esta lista poderia ser um locus de debate de idéias. De proposições. Mas as pessoas não querem se manifestar a respeito de nada. Não avançam para posições coletivas. Há somente o individualismo de artigos e blogs, não há representação comunitária, ou então ela não aparece, não se destaca. Apenas os partidos se pronunciam na televisão, e com frases de efeito, com pronunciamentos escritos por publicitários, divorciados de sua própria tradição.

Gostei do documento dos petistas do diretório Celso Furtado. A iniciativa deve ser elogiada. Mas isto é só o pontapé inicial. Sem aprofundamento de questões estratégicas, não se irá longe. Estamos a ponto de sucumbir uma vez mais perante a dominação das finanças imperiais. Não dispomos mais de representantes e defensores da Nação, com atuação respeitada no plano interno e internacional. Hoje mesmo o Le Monde estampou notícia nos responsabilizando pelo escândalo da Fifa. Como se o Havelange fosse brasileiro, como se os atuais dirigentes fosses brasileiros, como se os europeus não tivessem nada com a história, como se Adidas e Nike fossem brasileiros, etc. Há uma restauração dos valores coloniais, é preciso desmoralizar os colonizados, eles pensam e praticam, que se danem os fatos e a verdade. E nossa reação é débil. Mas está se organizando, é verdade.

Câmara retoma votação da reforma política e deve analisar projeto do ajuste

Por Iolando Lourenço | Via Agência Brasil

A Câmara dos Deputados tem uma semana com muitos desafios e embates nas votações em plenário de temas polêmicos que tratam do ajuste fiscal e da reforma política. Nas comissões especiais, não será diferente. Serão apresentados pareceres como o que trata da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Além disso, estão previstos depoimentos de funcionários da Petrobras e de empresários e a votação de requerimentos de convocação e também de acareações.

Nas sessões ordinárias de plenário, os deputados devem votar o projeto de lei do Poder Executivo que modifica as regras da desoneração da folha de pagamentos, reduzindo os incentivos às empresas beneficiadas. O projeto, com as medidas provisórias (MP) 664 e 665 – já aprovadas pelo Congresso –, faz parte das medidas de ajuste fiscal do governo. Outras matérias poderão ser incluídas na pauta de votações das sessões ordinárias da Câmara.

Em sessões extraordinárias, já que a pauta das ordinárias está trancada pelo projeto de mudança nas regras da desoneração, os deputados vão retomar a votação de pontos da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 182/2007, que trata da reforma política. A votação de alguns temas considerados complexos foi adiada para esta semana, por acordo de lideranças partidárias.

Entre os assuntos da reforma que ainda dependem de votação estão: o tempo de mandado dos eleitos, a coincidência das eleições e a cota para as mulheres na Câmara. Outros temas a serem apreciados pelos deputados estão o fim do voto obrigatório e data da posse do presidente da República, que hoje ocorre no dia 1º de janeiro.

Na quarta-feira (10), o relator da PEC 171/93, que trata da redução da maioridade penal, deputado Laerte Bessa (PR-DF), deverá apresentar seu parecer. Ele já anunciou que o relatório deve ser favorável à redução da maioridade penal. Bessa quer votar o parecer na comissão no próximo dia 17, uma vez que o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), anunciou que pretende colocar a proposta em votação no plenário da Câmara ainda neste mês.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras pretende ouvir nesta semana os depoimentos de 14 pessoas. O mais esperado é o do empresário Júlio Faerman, ex-representante comercial da empresa holandesa SBM Offshore no Brasil. Faerman é suspeito de ter feito pagamento de propinas a ex-diretores da Petrobras em troca de contratos com a empresa. O depoimento deverá ser na terça-feira (9).

Nesta segunda, a CPI pretende ouvir sete funcionários da Petrobras que tiveram participação nas obras das refinarias Abreu e Lima, em Pernambuco, e Henrique Lage (Revap), em São José dos Campos (SP). Na quarta-feira, os deputados da CPI vão tomar depoimentos de seis funcionários de segundo e terceiro escalão da estatal, envolvidos em processos de licitação, compras e comunicação da empresa.

Diálogos Desenvolvimentistas: O imperialismo, o “livre-comércio” e o PT

No diálogo que transmitimos abaixo, fruto da discussão do último artigo escrito pelo economista Flavio Lyra intitulado O fracasso da via liberal-dependente, o autor e a também economista e doutora em políticas públicas, Ceci Juruá, fazem um importante debate em que analisam os objetivos do imperialismo, a doutrina mistificadora do livre-comércio e a inserção que os governos petistas fizeram do Brasil nesse contexto de alta desregulação do capitalismo.

Confiram:

Ceci Juruá - Realmente os países considerados centrais tem objetivos de longo prazo.

1- Garantir o acesso aos recursos naturais indispensáveis ao aproveitamento econômico e ao sucesso de suas próprias políticas. A baixo custo, é claro.

2- Garantir um campo seguro para aplicação e multiplicação de seus excedentes financeiros.

Daí a defesa do livre comércio e da livre circulação de capitais, esta é a ideologia básica, fundamental, cuja hegemonia no espaço mundial depende de muitos e muitos outros fatores. Porque não se trata de uma ideologia generosa, de solidariedade universal, nem de benefício recíproco. Aparentemente, e só aparentemente, tais objetivos são realizados através da “livre” competição, não tão livre porque se dá entre atores desiguais, desiguais em matéria de capacidade de aproveitamento de oportunidades econômicas e políticas.

Mas tais objetivos de longo prazo, funcionais à formação de impérios, são permanentemente ajustados a contextos e a conjunturas diferenciados. As políticas dos States, por exemplo, variaram bastante entre as décadas 1950/1960 e 1980/1990. Nesse último período, foram propostas inovações institucionais mais adaptadas a um novo regime de acumulação – a financeirização -, ou a mundialização do capital como escreveu François Chesnais. O novo regime de acumulação, em escala planetária, passou a ditar as mudanças necessárias na periferia. Ou seja, às mudanças no centro do império deveriam corresponder mudanças na periferia. É isto que precisamos estudar, nós os brasileiros.

Nesse sentido o artigo do Fiori foi brilhante. É a primeira vez que um acadêmico do seu porte, coloca com tanta clareza os acordos firmados por FHC e sua troupe. Não estava escrito, aquele não era necessariamente nosso destino, havia outras alternativas. Á direita e à esquerda. No período 1990 a 1995 ocorreram as grandes traições, à revelia da Nação. A principal arma de guerra do império foi econômica – a dívida externa e a hiperinflação a ela vinculada. Mas também a mídia e a desmoralização de todos, entre nós, que não estivessem de acordo com os planos imperiais. E ainda, a corrupção, as ameaças, e a conspiração do silêncio em torno dos desafetos. Enquanto não conhecermos em detalhes o plano e os instrumentos, e as medidas estratégicas e táticas da época, estaremos fortemente desguarnecidos culturalmente para enfrentar os verdadeiros inimigos do desenvolvimento brasileiro. Mas não basta conhecer, é preciso divulgar e fazer um trabalho – difícil – de “deslavagem” cerebral.

Se abandonamos o economicismo, veremos que as vantagens comparativas existem. Claro que elas existem. E foram utilizadas contra nós. O resultado aí está. Não adianta muito falar em modelo e mudança de modelo, se desconhecemos o modelo nos seus detalhes. Salvo aliança divina (?) a mudança do modelo exigirá guerra/revolução (quem está apto ou disposto?) ou hábil diplomacia e unidade nacional. Cada país, cada Nação, tem o seu próprio caminho, não há fórmulas mágicas para se atingir tal objetivo.

Dizer que a única alternativa é a intervenção estatal assemelha-se quase a dizer que não há alternativa em situações onde o Estado esteja capturado, ou de mãos atadas frente a uma rede de compromissos internos e internacionais. Nas condições atuais, falar nessa única alternativa não seria uma maneira de espalhar a desesperança ?

Também não considero que os governos do PT fizeram remendos. Fizeram o que foi possível na época frente a uma sociedade desaparelhada para o enfrentamento com os reais inimigos da Pátria. Eles são humanos, pessoas iguais a nós. Em matéria de política internacional não há bola de cristal. Foram até bem corajosos, ousados, em matéria dos enfrentamentos possíveis – as relações com Cuba, Irã, Rússia, China, Mercosul e Unasul. Lamentável seria não reconhecermos isto, pousando apenas como vítimas em lugar de reconhecer, valorizar, prestigiar alguns avanços realizados. Há um ditado popular brasileiro, que aprecio muito – quem não valoriza o que tem a perder vem.

Flavio Lyra - Suas observações têm sido muito pertinentes e, no pior dos casos, merecedoras de algum tipo de escrutínio. Confesso-lhe que ando contrariado com a atuação de Dilma. Depois do esforço realizado em favor de sua eleição e da defesa de seu mandato esperava mais dela. Não em termos de solução dos problemas, mas de comunicação com a base social que a apoiou e que está perplexa com as medidas adotadas. Seu silêncio é anti-democrático e despolitizante. A meu ver, Dilma continua achando que com decisões na cúpula vai sair do atoleiro político em que se encontram ela e o país.

Quanto à falta de alternativas que menciono no texto, sinceramente não vejo outra que a mencionada, embora seja muito consciente da “abertura da História”. Gostaria muito de saber se tem alguém vislumbrando alguma outra alternativa que tenha um mínimo de viabilidade no médio prazo. Como não tenho encontrado nada a respeito, fixo-me na mencionada, já que estou convencido de que a via liberal-dependente esgotou-se como rumo para os interesse da classe trabalhadora, no Brasil e no mundo capitalista. Não me atrevo sequer a falar numa via socialista, pois acho que ainda estamos muito distantes disto ou de algo assemelhado.

Tenho procurado ser compreensivo sobre as limitações do PT e do seus governos, pois sei muito bem das dificuldades e barreiras que enfrentam em nossa sociedade conservadora. Também, não deixo de reconhecer a coragem e o discernimento que tiveram para realizar algumas mudanças. Mas, não posso deixar de ser muito crítico em relação às condutas individualista e mesmo primárias dos petistas escolhidos para o Poder Legislativo e o Executivo, com muitos dos quais convivi durante mais de três anos na Liderança do Governo no Senado. O derretimento atual já era previsível para quem acompanha de perto a vida política do país. Fizemos muito menos do que seria possível, em decorrência da improvisação e falta de rumos que caracterizou os governos do PT. Escrevi vários textos a respeito, que foram considerados pessimistas por gente do governo que achava que a classe trabalhadora tinha chegado ao Paraíso. Assisti de muito perto a administração de Palloci no MF, com sua equipe herdada de FHC. Depois, ainda vejo Palloci como coordenador da campanha de Dilma. Dá para esperar algo de sério em favor mudanças efetivas no país, sob a influência de Palloci?. Participei da elaboração do Programa do PT, que depois Palloci jogou na lata de lixo, ao preparar a Carta aos Brasileiros, documento de rendição à continuidade da política econômica do PSDB.

Enfim, acho que a hora é de pleitear mudanças e de realizar autocrítica e não de justificar os erros cometidos, que foram muitos e cujo preço o povo está começando a pagar, sem sequer poder identificar quem são seus inimigos de classe, pois o PT e seus governos se especializaram em disfarçar a polarização que de fato existe no país, transmitindo a impressão todos trabalhamos para os mesmos objetivos.

Ajuste Levy pode tornar nossa dívida impagável

Por Ceci Juruá | Rio de Janeiro, 02/06/2015

Noticia sobre a questão grega no Le Monde de hoje ressalta o papel de linha dura do FMI, como era nos anos 1950 e 1980, e seu “bate-bola” com a chanceler alemã. Devemos seguir com atenção o caso grego pois é caso exemplar em que a dívida, aceitável em um primeiro momento, rapidamente se tornou impagável, por conta da taxa de juros e da recessão que abateu a Europa.

Imaginem o que poderá acontecer com o Brasil se tivermos 5 anos de recessão (por hipótese, crescimento zero na média dos 5 anos) enquanto a taxa de juros dispara. Fiz um cálculo rápido. Tomemos um pib de 100 e uma dívida de 55 (divida bruta, de 55% do pib); ao fim de 5 anos o pib permanece em 100, pois a hipótese é de crescimento zero; mas a dívida bruta, que era de 55 não permanece em 55, ela vai saltar para quase 100, se os juros forem simplesmente rolados, não pagos e acrescidos à dívida publica. Isto é, como diz a grande lição : SEMPRE QUE A TAXA DE JUROS FOR MAIOR DO QUE O CRESCIMENTO DO PIB, HÁ O RISCO DE ELA SE TORNAR IMPAGÁVEL. Em menor ou maior prazo, dependendo do diferencial das taxas.

Será este o futuro que os chicago’s boys nos reservam? E, por falar nisso, o que veio fazer no Brasil Mme. Lagarde, que aqui esteve há uma semana, justamente em ocasião em que o Congresso debatia o ajuste Levy?

ANP informa que produção de petróleo no pré-sal atinge 715 mil barris por dia

Por Vladimir Platonow | Via Agência Brasil

A produção de petróleo na camada de pré-sal chegou a 715 mil barris diários no mês de abril, divulgou hoje (1º) a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). No pré-sal, a produção foi originada de 49 poços, que também forneceram 27,1 milhões de metros cúbicos diários de gás natural.

O total de petróleo em todos os campos no país, no mesmo período, foi 2,394 milhões de barris diários. A produção de gás natural atingiu 94,3 milhões de metros cúbicos por dia. De acordo com a ANP, houve aumento de 11,6% na produção de petróleo nacional, comparada a abril de 2104, e crescimento de 13,9% na produção de gás natural na mesma base comparativa.

Os campos operados pela Petrobras foram responsáveis pela produção de 94,3% de petróleo e gás natural, dos quais 93,3% do petróleo e 76,5% do gás foram extraídos de campos marítimos. O campo de Roncador, na Bacia de Campos, foi o de maior produção de petróleo, com 344,8 mil barris por dia. O campo de Lula, na Bacia de Santos, foi o campeão de gás natural, com produção média diária de 14 milhões de metros cúbicos.

A produção nacional foi extraída de 313 concessões, operadas por 24 empresas. No total, são 9.064 poços, sendo 820 marítimos e 8.244 terrestres. As informações completas podem ser obtidas na página da ANP na internet (www.anp.gov.br).