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JS: mas será o Benedito?

Por Antonio Lassance | Via Carta Maior

Mistério: quem será o JS que aparece na lista de ligações do celular do empreiteiro Marcelo Odebrecht? Ninguém sabe…

Mistério: quem será o JS que aparece na lista de ligações do celular do empreiteiro Marcelo Odebrecht? Ninguém sabe.

Antes que alguém reclame de que o Senador José Serra está sendo protegido por quem quer que seja, é bom que se respeite o trabalho criterioso dos que conduzem essa investigação isentíssima que está em curso sob o apelido de “Lava Jato”.

Muita calma nessa hora. Não vamos nos precipitar. JS pode ser qualquer pessoa ou pode, até mesmo, ser ninguém. Outra hipótese: e se a ligação tiver sido um engano e a pessoa que se enganou tiver nome com J e S? Gente, isso acontece! Quem nunca recebeu uma ligação por engano que atire a primeira pedra.

MO (podemos tratar Marcelo Odebrecht assim, certo? Economiza teclado) pode simplesmente ter guardado na agenda para, quando JS insistisse no engano pela milésima vez, MO estivesse precavido: “esse eu não atendo mais, de jeito nenhum!” Esperto, esse MO.

Tem mais: JS pode ser alguém com quem MO tenha péssimas relações. Alguém que ele deteste. Um pulha. Um pilantra. Um traíra. Um… Joaquim Silvério dos Reis. Como ninguém pensou nisso antes? Nada mais óbvio. Se é isso ou não, precisa ser apurado. JS pode ser até mesmo o Benedito. Por que não?

Até o momento, a principal suspeita dos policiais é que JS seja algum José da Silva. É elementar, meu caro Watson. A maioria dos jotaesses no Brasil é composta de Josés da Silva. Portanto, a probabilidade de que JS seja um deles é enorme. Se cuida, Zé da Silva! A PF sabe o que você fez no verão passado.

A segunda grande possibilidade recai sobre os Joões de Souza. Informação quentíssima: foi detectado que uma grande quantidade de agências bancárias do país e escritórios de advocacia foram visitados, de ontem para hoje, por Joões… de Souza. Bingo! Aí tem, só pode.

A lição é a seguinte: antes de acusar, é preciso apurar. Só mesmo gente de pouca fé para ficar levantando teorias da conspiração contra pessoas que estão tendo um trabalho imenso, um trabalho de formiguinha (ou seria de cupim? Tanto faz) e ainda não fazem a mínima ideia de quem seja JS. Mas que vão descobrir, um dia, ah! Isso vão. Nem que demore 30 anos e JS já esteja morto e com seus crimes prescritos.

Esse misterioso senhor JS, opa! Senhor? Como assim? Deixemos o machismo de lado. JS pode ser uma mulher. Já pensaram nisso? Vai que a tarja preta foi colocada com a cândida intenção de proteger a reputação tanto de MO quanto de JS, se por acaso eles tiverem tido alguma relação, como diria Bill Clinton, imprópria?

Aliás, se há algo que se deve repreender é o excessivo cuidado que esses heróis de distintivo e toga têm tido com a reputação das pessoas. Não que esses acusados tenham alguma reputação a ser preservada, mas o dever de ofício da polícia e da Justiça em relação a qualquer pessoa, rica ou pobre; branca ou negra; gorda ou magra; petista ou tucana é sempre a de zelar para que investigados e suspeitos não sejam tratados como criminosos. Ninguém é culpado antes de julgado, já dizia o Código de Hamurábi. Nesse particular, somos um exemplo para o mundo.

A esquerdalha que me perdoe, mas a chance de a PF revelar que JS é José Serra é muito, mas muito, mas muito remota mesmo. Remotérrima, diria eu no jargão de Higienópolis.

Fontes igualmente isentas, neutras, gente que não fede e nem cheira, pessoas que são bananas de pijama mesmo – e lá de dentro da Polícia Federal, ou seja, “inside information” total – garantem que essa hipótese contra o Senador está d-e-s-c-a-r-t-a-d-a. Descartadérrima.

A começar porque o senador mais querido da pauliceia desvairada nem se chama, de fato, José Serra, e sim José Chirico Serra. Fosse Serra o contato de MO, a sigla seria JC. Outro dado objetivo da realidade é que Serra nunca se mete em confusão, principalmente envolvendo obras, contratos, empreiteiras, petroleiras, dinheiro.

Da mesma forma, está descartada a hipótese de uma outra sigla, FP, vir a ser atribuída, por exemplo, a algum senador Filhinho de Papai. Ainda bem. As pessoas não imaginam a quantidade de FPs que existem no Senado Federal. É maior que a bancada da bala. Uma investigação dessa tomaria anos.

Ademais, todos os FPs do senado são pessoas de boa índole, e o mais FP de todos os senadores FPs foi inclusive a opção de voto mais entusiasmada dos perdigueiros federais que estão salvando o país da lama. Ou seja, é gente séria.

Chega de ilações! Tirem o cavalinho da chuva, petralhas! Os cães ladram, mas a caravana independente, isenta e neutra da Lava Jato passa, enxagua e põe no varal pra ninguém botar defeito.

Se, algum dia, algum difamador quiser atribuir ao tucano José Serra o apelido indecoroso de Senador tarja preta, que fique bem claro: isso é apenas por sua fama de hipocondríaco, e nada mais.

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Antonio Lassance é marxista também adepto de Groucho, Harpo, Chico e Zeppo Marx.

Contratos de clubes com a TV estarão em análise na CPI do Futebol, diz Jucá

Por Mariana Tokarnia | Via Agência Brasil

O direito de transmissão do futebol pelos veículos de comunicação será uma das questões a serem tratadas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Futebol, do Senado Federal, segundo o relator da CPI, Romero Jucá (PMDB-RR). “Isso é uma relação comercial entre o clube e uma ou duas redes de televisão. [Vamos discutir] como democratizar isso, como discutir isso para que efetivamente tenhamos um posicionamento que seja transparente e ao mesmo tempo construtivo”, disse hoje (21) durante entrevista no programa Espaço Público da TV Brasil.

O senador Romero Jucá particpou do programa Espaço Público da TV Brasil desta terça-feira (21)Foto: Agência Brasil

Perguntado se o Legislativo pretende atuar na questão que envolve os contratos dos clubes com as empresas de comunicação que transmitem as competições pela TV, por exemplo, o Campeonato Brasileiro da Série A, Jucá disse: “Esse é um dos pontos que vamos avaliar, a relação comercial da rede de televisão, do time de futebol, da Confederação Brasileira de Futebol [CBF]. Essa relação não está muito clara para a população”.

A CPI foi criada, em maio deste ano, para investigar denúncias de irregularidades em contratos da CBF referentes a competições organizadas pela entidade, após as prisões dos dirigentes da Federação Internacional do Futebol (Fifa) decorrentes da investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre fraude na escolha dos países-sede das duas próximas Copas do Mundo (Rússia, em 2018, e Catar, em 2022). A CPI é presidida pelo senador Romário (PSB-RJ).

As reuniões do colegiado começarão no dia 4 de agosto, após o recesso parlamentar. “Vamos solicitar as informações do FBI [Agência Federal de Investigação dos Estados Unidos], vamos começar a ouvir setores. Veja bem, na CPI, o objetivo não é só processar alguém, mandar prender, porque o Marin [ex-presidente da CBF, José Maria Marin] já está preso [na Suíça] e o Ministério Público já está investigando. Alguém tem dúvida que o FBI passou as informações e o MP está investigando?”, disse. “A CPI não pode se esgotar no processo investigativo, tem o processo propositivo. O que vai mudar no futebol depois da CPI?”

OPERAÇÃO LAVA JATO

Alvo das apurações da Operação Lava Jato, Jucá criticou durante o programa o vazamento de depoimentos de delação premiada. “Uma denúncia feita por alguém, que não está comprovada, em um país sério, não vazaria”, disse.

Segundo ele, os vazamentos contribuem para acirrar o momento de crise vivido pelo país. “Defendo um grande pacto entre o Executivo, Legislativo e Judiciário para que a gente reordene o país”, ressaltou. “Acho que não adianta jogar mais fogo, há um processo claro de combustão”, completou.

O senador disse ainda que contribuiu com as investigações e aguarda a decisão. “Investigar é legítimo. Quem está na vida pública está sujeito a isso. O demérito não é ser investigado, mas ser condenado”.

 

Outra agenda econômica é possível

Por Marcio Pochmann | Via RBA

Ajuste que desajusta não passa confiança à sociedade nem a empresários. Caberia, no lugar do atual programa, retomar a combinação de democracia com crescimento e distribuição de renda.

Ministros Joaquim Levy (c), Nelson Barbosa (e) e Carlos Gabas: programa econômico que em vez de ajustar, desajusta

O diagnóstico de que a economia brasileira não cresceria mais sem antes haver a recuperação do grau de confiança dos empresários levou a equipe econômica do segundo governo da presidenta Dilma Rousseff a defender um conjunto de medidas definidas como ajuste fiscal. Isso porque a queda nas expectativas dos empresários foi entendida pelo governo federal como decorrente de piora na situação das contas públicas.

Como somente o ajuste fiscal causaria um novo contexto nacional de finanças saudáveis, plenamente satisfatório à elevação das expectativas dos empresários, a retomada do crescimento econômico brasileiro se tornaria mera consequência. Justificável, portanto, a centralização do funcionamento do governo federal – neste início de 2015 – em torno das políticas de ajuste fiscal de curto prazo.

Mas, junto com isso, passaram a surgir contradições importantes, talvez inesperadas inicialmente. De um lado, a posição dos ministérios da Fazenda e do Planejamento comprometida com a adoção do programa de austeridade fiscal, que atinge valor próximo de R$ 106 bilhões e se compõe de três partes, a saber. A primeira a ser anunciada foi a de cortes nos benefícios sociais (abono salarial, seguro-desemprego, seguro-defeso, pensão por morte e auxílio-doença), impulsionada pela expectativa da economia de cerca de R$ 15 bilhões.

A segunda parte do programa de austeridade fiscal implementado compreendeu a alta nos tributos sobre combustíveis, cosméticos, operações financeiras e produtos importados, entre outros. A arrecadação adicional esperada pelo governo federal foi de quase R$ 21 bilhões.

Por fim, a terceira parte foi a retenção das despesas orçamentárias (contingenciamento), que limitaram os gastos nos ministérios. Para 2015, por exemplo, o governo federal contingenciou a soma de R$ 69,9 bilhões, o que equivale a reter R$ 1 de cada R$ 4 que havia previsto despender no orçamento deste ano – os cortes serão nas despesas chamadas discricionárias (aquelas que não obrigatórias, definidas pela Constituição federal, o piso mínimo para educação e saúde, por exemplo).

A maior parte da retenção orçamentária veio do Programa de Aceleração do Crescimento, que contribuiu com R$ 25,7 bilhões (39% do total contingenciado), seguida de outras despesas como saúde, educação, transporte, ciência e tecnologia, entre outras, representando R$ 22,8 bilhões (33% do total retido). As emendas parlamentares contingenciadas envolveram a somatória de R$ 21,4 bilhões (31% do total contido).

Com esse esforço gigantesco, a equipe econômica acreditou ser possível garantir a realização de superávit fiscal equivalente a 1,1% do Produto Interno Bruto de 2015. Ou seja, terminar o ano com um saldo positivo de R$ 55 bilhões, resultado de receita líquida federal esperada de R$ 1,158 trilhão para uma despesa primária (sem contar gastos com juros) fixada em R$ 1,103 trilhão.

Combinação contraditória
De outro lado, está a postura do Banco Central comprometida com a elevação das taxas de juros. Somente nos primeiros seis meses do ano, a taxa de juros subiu dois pontos percentuais (de 11,75% anuais em dezembro de 2014 para 13,75% em junho de 2015).

Considera-se que a cada aumento de um ponto percentual na taxa de juros o custo total anual da rolagem da dívida do setor público indexada à Selic eleva-se em torno de R$ 13 bilhões. Com isso, o Banco Central sozinho contribuiu para o aumento das despesas públicas em R$ 26 bilhões por força da alta nos juros somente neste primeiro semestre.

A combinação do programa de austeridade fiscal com a elevação das taxas de juros provocou inexoravelmente o encolhimento da economia brasileira. Diante da queda na renda nacional, a diminuição da arrecadação tributária torna-se simples consequên­cia. Estimativas iniciais apontam a possibilidade de redução da arrecadação tributária em até 3% em termos reais, o que poderia equivaler a algo próximo de R$ 50 bilhões a menos nos cofres governamentais deste ano.

Eis aqui a contradição das políticas de curto prazo em 2015: o programa de austeridade fiscal dos ministérios da Fazenda e Planejamento visa à economia de R$ 106 bilhões, enquanto a ação do Banco Central, com a elevação dos juros, e a recessão contaminando o caixa do governo envolvem cerca de R$ 76 bilhões. Ou seja, o imbróglio de seis meses do segundo governo Dilma encontra-se entregue a uma batalha de R$ 30 bilhões capazes de fazer emergir o grau de confiança dos empresários e, por assim, dizer, o retorno do crescimento da economia nacional com base em investimentos do setor privado.

Sem superar essa armadilha de curto prazo, o horizonte do crescimento dificilmente voltará a aparecer. Mas outra agenda é possível, uma vez que o papel dos governos é o de trazer para o valor presente o que o povo imagina ser apenas possível na forma de sonho.

O Brasil é um país em construção. Falta ainda de tudo, da infraestrutura básica (saneamento, rodoviá­rias, ferrovias, entre outros) à pesquisa científica e tecnológica. Essa deveria ser a agenda retomada, em que o segundo Programa de Investimento em Logística recentemente anunciado poderia se constituir em nova direção a seguir.

Na esteira desse rumo, a implementação de uma política pública democraticamente negociada em defesa da produção e do emprego nacional se colocaria essencial. São milhões de ocupações ceifadas pelo curso da recessão que, acrescida da queda dos rendimentos do trabalho, aprofunda o desgaste no interior da estrutura social e ameaça combinar-se com as faces política e econômica da crise aberta.

Estancar o sofrimento humano, que resulta de um programa que em vez de ajustar desajusta, deve ser prioridade, alcançável por meio da adoção de outra agenda. O crescimento de uma economia como a brasileira não se constitui de uma simples e natural confiança dos empresários, ainda que fundamental, mas não o suficiente.

O sentido, a direção e a motivação geral que definem o crescimento econômico dependem da confiança da sociedade no seu governo. O programa atual de austeridade fiscal não tem conseguido estimular a maior confiança tanto da sociedade como dos empresários. Para que outra agenda se mostre capaz de recuperar a força do desenvolvimento, a combinação da democracia com crescimento econômico e distribuição de renda deve seguir sendo a principal força motriz.

Nove de Julho, quando os paulistas comemoram uma derrota

Por Sérgio Caldieri | Niterói 09/07/2015

A Revolução Constitucionalista de 1932 marcou a insurgência do povo paulista contra o resto do país, que buscava a derrubada do governo provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova Constituição.

Os paulistas nunca engoliram Getúlio Vargas na destruição da política do café paulista com o leite mineiro, em 1930. E com isto, o nome de Getúlio Vargas foi banido das ruas, praças, avenidas, escolas, faculdades, universidades, hospitais, prédios, etc…etc…

O ex-governador Armando Salles de Oliveira convocou os escritores das academias e do instituto histórico de São Paulo, Afonso d´Escragnolle Taunay, Bernardo Élis e outros, para iniciar uma lavagem cerebral com o objetivo de destruir o Getúlio Vargas do mapa, e endeusar os bandeirantes assassinos de índios durante mais de 100 anos. Além de roubarem as pedras preciosas e ouros das nossas Minas Gerais, Goiás e outros estados.

As toneladas do metal dourado serviram para reconstruir as cidades e as igrejas ornamentadas de ouro depois do terremoto de Lisboa, em 1755. E ainda sobrou tanto ouro que mandaram para a pobrezinha Inglaterra, que deveria ser para fabricação de dentadura de ouro para a realeza.

Os escritores amestrados globalizaram os bandeirantes em materiais escolares, hinos, matérias em jornais, revistas e tudo quanto é propaganda, além nas rodovias paulistas com os nomes de Anhanguera, Raposo Tavares, Fernão Dias, Pedro Taques, Bandeirantes e os Monumento às Bandeiras do Victor Brecheret e o horroroso Borba Gato.

Getúlio descendente de um bandeirante

O filho de Getúlio Dorneles Vargas, Lutero Sarmanho Vargas escreveu o livro A revolução inacabada, onde contou que em relação ao nome Vargas “cabe registrar que meu pai, se não fosse uma paixão de seu bisavô paterno, poderia ter se chamado Bueno, pois esse bisavô chamava-se Francisco de Paula Bueno. Segundo Aurélio Porto, os Buenos são de ascendência conhecida. Originam-se de Bartolomeu Bueno de Ribeira, natural de Sevilha que foi para São Paulo em 1571. Entre os descendentes de Bartolomeu sobressai Amador Bueno, o homem que não quis ser aclamado rei.

“Meu tio Benjamim contou-me que esse bisavô Bueno, apaixonando-se por uma professora, largou a mulher e filhos e foi-se com seu novo amor, montados a cavalo. Quando os filhos chegaram em casa, sua mãe, Ana Joaquina de Vargas, informou-lhes do sucedido e eles, em número de cinco, saem em busca do pai. Encontrando-o, este os recebe de maus modos e perguntou-lhes o que desejavam. Os filhos responderam-lhe que não desejavam brigar e sim apenas levá-lo de volta para casa. Respondeu-lhes: Já estão taludos para necessitarem de um pai, voltem para casa. Eu não vou com vocês, vou fazer uma nova vida com esta que me acompanha. Os filhos voltaram e riscaram definitivamente o nome Bueno”.

Lutero lembrou que o exército paraguaio invadiu São Borja em 10 de junho de 1865. Um dos Voluntários da Pátria, estava o jovem Manoel do Nascimento Vargas. Em Itaqui, cidade vizinha de São Borja, chegou o 1º. Tenente Francisco de Paula Sarmanho, vindo do Pará, para servir a Marinha de Guerra do Brasil. Esse tenente casou com Virgínia Ferreira que foi o avô paterno de sua mãe Darcy Vargas.

Manoel do Nascimento Vargas, como sabia ler e escrever, foi promovido a cabo. Quando ele passou pela fazenda de Santos Reis, de propriedade do Major Serafim Dornelles, conheceu Cândida Francisca Dornelles. Depois que deu baixa no exército o jovem capitão foi trabalhar no comércio de couros e erva-mate e, em uma de suas passagens pela fazenda de Santos Reis, pede Cândida Dornelles em casamento, que foi celebrado em 16 de janeiro de 1872.

As três filhas do austero Major Serafim Vargas casaram com maridos de grandes posses. A mais velha Leocádia, casou com Antônio Garcia, um abastado fazendeiro e futuro padrinho de Getúlio Vargas, que não tinha herdeiros deixou com herança para o afilhado a fazenda Figueira. A filha Luiza casou com Aparício Mariense da Silva, rico fazendeiro e político famoso. A filha caçula Zulmira casou com Periandro Malveiro da Motta, da casa fidalga dos Malveiro de Portugal.

No primeiro governo de Leonel Brizola, em 1983 tivemos o Periandro Motta, coronel do exército, que foi tesoureiro do PDT, trabalhou como diretor da Loterj e diretor do Detran na gestão de José Colagrossi quando foi Secretário Estadual de Transportes.

E para refrescar a memória, é bom lembrar que uma das grandes vitórias de Getúlio Vargas foi conquistada nas eleições de 1945. Sem sair da sua fazenda, Getúlio recebeu nada menos que 1 milhão e 300 mil votos, sendo eleito senador por dois estados, Rio Grande do Sul e São Paulo, e deputado federal pelo Distrito Federal e mais seis unidades da federação.

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Sergio Caldieri é jornalista e escritor.

 

Belluzzo: O dia da marmota

Por Luiz Gonzaga Belluzzo | Via Valor Econômico

No pós-crise, ‘mercados’ se dedicam, mais uma vez, ao esporte radical de formação de novas bolhas.

Nos tempos de certezas tão peremptórias quanto enredadas em suas tolices, é alentador ler o Relatório Annual do Bank of International Settlements- 2014/2015 (BIS). Ao longo de seis capítulos, sem transgredir os limites do “economicamente correto”, o Relatório ousa reabilitar questões expurgadas do receituário consagrado pelo establishment político-econômico, antes e depois da crise financeira.

Quando a crise eclodiu, sugerem os economistas do BIS, generalizou-se a convicção a respeito do fracasso das “perspectivas macroeconômicas dominantes”. Empenhadas em negar a possibilidade da ocorrência de “eventos extremos”, as teorias macroeconômicas ficaram agrilhoadas às artimanhas do consenso pré-crise: senta que o leão é manso.

O consenso pré-crise presumia que a estabilidade do nível geral de preços era suficiente para garantir a estabilidade macroeconômica. Essa certeza apoiava-se em dois outros supostos: o primeiro afirmava a “eficiência forte” dos sistemas financeiros, ou seja, sua capacidade auto-estabilizadora; e o segundo sustentava que os efeitos das “falhas de mercado” na esfera financeira teriam impacto desprezível na estabilidade macroeconômica.

Na onda do QE, os “mercados” se dedicam, mais uma vez, ao esporte radical de formação de novas bolhas

Prossegue o relatório: “Se expurgamos a visão analítica prevalecente de suas nuances e nos fixamos em sua influência no debate a respeito das políticas econômicas, nos deparamos com uma lógica simples. Há um excesso ou deficiência de demanda para a produção doméstica (hiato do produto), o que determina a inflação, ou pelo menos suporta as expectativas inflacionárias. As políticas de demanda agregada devem ser utilizadas, portanto, para eliminar o hiato de produto e assim alcançar o pleno emprego e a estabilidade do nível geral de preços; as políticas fiscais afetam diretamente o gasto e a política monetária afeta indiretamente o dispêndio agregado mediante o manejo da taxa real de juro. A taxa de câmbio flutuante permite às autoridades liberdade para fixar os objetivos da política monetária. Se cada país ajusta as políticas fiscal e a monetária de modo a fechar o hiato do produto, período após período, tudo anda no melhor dos mundos”. (Devemos ressuscitar Voltaire para reapresentar as ideias do Dr Pangloss?)

O relatório desqualifica as políticas econômicas que ignoram a globalização financeira e seus fluxos de capitais, ações sempre voltadas para o curto prazo e destinadas a “colocar a casa em ordem” (sic).

Desgraçadamente, lamentam os economistas do BIS, “os fatores financeiros ainda flutuam na periferia do pensamento macroeconômico”. A falha de inteligência perdurou na posteridade da crise, a despeito dos esforços desesperados dos “economistas sérios” para enfiar nos modelos canônicos os bancos e as perturbadoras relações crédito-débito, fontes dos ciclos de valorização-desvalorização de ativos.

A função reserva de valor do dinheiro é sobremaneira incômoda e intratável nos modelitos de equilíbrio. A eliminação desse incômodo personagem permite às hipóteses “predominantes” ignorar os movimentos extremos de preços dos ativos impulsionados pela excessiva elasticidade do sistema de crédito. Nos modelos estocásticos gaussianos esses episódios estariam na cauda da distribuição de probabilidades. Os chamados “eventos de cauda” – como por exemplo, a valorização (e o colapso) dos preços dos ativos lastreados em hipotecas (“asset backed securities”) – não podem ser considerados versões ampliadas das pequenas flutuações. Isto porque os episódios de euforia contagiosa deformam a própria distribuição de probabilidades.

Quando a euforia alavancada se transmuta no medo e na incerteza, os agentes racionais se transformam num tropel de búfalos enfurecidos na busca da “liquidez”. Assassinada pelos modelos, a realidade do dinheiro faz aparições no mundo abstrato da racionalidade e do equilíbrio, como o fantasma de Banquo assombrava Macbeth.

Depois de piruetas e salamaleques, “no final do dia, as conclusões não mudam”, dispara o relatório. Os autores do trabalho do BIS imaginam tratar-se de uma adaptação de “Groundhog Day”, o Dia da Marmota. O filme de Harold Ramis conta a história de um jornalista capturado pelo “feitiço do tempo”, condenado a repetir, dia após dia, o mesmo Dia da Marmota. “Os economistas e autoridades estão sempre de volta aos dias pré-crise”.

Para escapar dos grilhões da mesmice dos Dias da Marmota, o relatório sugere a apreciação de embaraçosas questões. O comportamento da inflação não pode ser considerado um guia seguro para um trajetória sustentável do produto potencial. Isto porque os desequilíbrios financeiros nos balanços de bancos, empresas e famílias são construídos sobretudo quando a inflação é baixa e estável”.

As marcas registradas desses desequilíbrios são as explosões de crédito e de preços dos ativos e a agressiva desconsideração dos solavancos dos mercados financeiros. Mais adiante, o relatório vai insistir nos riscos embutidos no comportamemto dos mercados financeiros pós-crise, empurrados para outra bolha nas bolsas e nos preços elevados (e rendimentos baixos) dos bônus privados e públicos. Enquanto a bolha cresce, o desempenho da “economia real” patina. “Isso tem tudo a ver com a forma de expansão do crédito. Ao invés de financiar a aquisição de bens e serviços, o que eleva os gastos e o produto, a expansão do crédito está simplesmente financiando a aquisição de ativos já existentes, sejam eles ‘reais’ (imóveis ou empresas) ou financeiros”.

No pós-crise, na onda do “Quantitative Easing”, “mercados” se dedicam, mais uma vez, ao esporte radical de formação de novas bolhas: as bolsas americanas e os rendimentos nanicos dos bônus do Tesouro fumegam os vapores que sopram às alturas os preços dos ativos. Nas horas vagas (nas outras também), os JP Morgan da vida se entregam à bulha da recompra das próprias ações e mandam bala na distribuição de dividendos com a grana do Federal Reserve.

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Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e escreve mensalmente às terças-feiras. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists.

O papel da mídia no duplo linchamento do Maranhão

Por Alex Tajra | Via Brasileiros

A foto de um homem morto, amarrado como um animal ao poste, é o retrato de uma imprensa que se supera no que diz respeito ao sensacionalismo e à cultura da violência.

Foto: Reprodução/ imirante.globo.com/oestadoma

Na tarde da segunda-feira (6), a cidade de São Luís presenciou um ato de extrema violência que vem sendo recorrente no Maranhão. Um homem identificado como Cleidenilson Pereira da Silva, de 29 anos, foi amarrado em um poste e espancado até a morte em uma terrível ação de linchamento da população. Cleidenilson e um adolescente não identificado tentaram assaltar uma loja na periferia da capital maranhense, no bairro de São Cristóvão, mas foram rendidos por um grupo de pessoas que passavam pelo local.

 

Segundo informações da Polícia Civil, o homem foi linchado com mãos, pernas e tronco amarrados em um poste de luz, numa região considerada movimentada do bairro. Cleidenilson foi agredido com socos, chutes, pedradas e garrafadas, não resistiu aos ferimentos e morreu no local, vítima de hemorragia.

A morte de uma pessoa, ainda mais com os requintes de crueldade de um linchamento, sempre chama a atenção e causa uma comoção generalizada em todos os setores da sociedade. Todavia, um fator que acentua a violência e degenera ainda mais a situação é a cobertura feita pelos meios de comunicação expondo um delicado caso como este.

A foto de um homem morto, amarrado como um animal ao poste, é o retrato de uma mídia que se supera no que diz respeito ao sensacionalismo e à cultura da violência. Desta forma a situação acabou se traduzindo em um duplo linchamento: aquele que de fato matou Cleidenilson e outro depois de sua morte, explorando sua imagem no poste.

Por ter tentado cometer um crime, Cleidenilson perdeu sua credencial de ser humano e passou a ser tratado como um bicho, um indivíduo antissocial que precisa ser eliminado. Este tipo de violência, provocada por um grupo de transeuntes ‘comuns’ , mostra como alguns vínculos sociais brasileiros estão amparados pelo ódio, sentimento reforçado pelos grandes meios de comunicação, que alimentam uma ideia de insegurança fora da realidade. É o que diz a jornalista Maria Carolina Trevisan, repórter do coletivo Jornalistas Livres. “Somos um País novo na democracia, que acha que a vida das pessoas que cometeram crimes não vale nada”.

Em entrevista à Brasileiros, Maria Carolina argumentou que a imprensa tem um papel fundamental nos processos que desencadeiam este tipo de violência, gerada muito em função do sentimento de vingança e de medo. “Os noticiários reforçam a ideia de que existe uma sensação de impunidade, então reforça o sentimento de vingança nas pessoas.”

Trevisan também criticou a forma como a imprensa aborda este tipo de crime, dando viés espetaculoso a algo que deveria ser reportado de forma analítica. A própria foto de Cleidenilson, segundo ela, expõe o sensacionalismo no qual a mídia está submersa, e degrada mais ainda a imagem do homem linchado. “Aquela foto não deveria nem ser mostrada, pois coloca a pessoa e seus familiares em uma situação pior ainda.”, explicou.

Importante ressaltar que grande parte das vítimas de linchamentos são negras e de classes sociais baixas, revelando um perfil que é seguido pelos ‘justiceiros’. A pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), Ariadne Natal, autora de uma tese sobre casos de justiçamentos sumários disse, em uma entrevista concedida à Agência Brasil, que as pessoas não julgam aleatoriamente quem será alvo deste tipo de crime, e que existe uma ‘escolha’ de quem será linchado.

A pesquisadora estudou 385 casos de linchamento que foram noticiados pela imprensa, entre 1º de janeiro de 1980 e 31 de dezembro de 2009, e concluiu que não é qualquer pessoa que pode ser ‘desumanizada’. “As potenciais vítimas de linchamento carregam consigo a marca daquele que pode, em última análise, ser eliminado, (…) tanto que é muito raro identificarmos alguém de classe média entre as vítimas de linchamento”, argumentou.

Para Trevisan, o racismo impregnado no País ajuda a entender por quais razões negros e pobres são as grandes vítimas justiçamentos coletivos. Além disso, a jornalista afirmou que já existe uma pena de morte indireta aplicada nas periferias, por meio de linchamentos e ações policiais. “Vivemos em um Pais racista e sem dúvida [existe uma pena de morte]. Isso demonstra que tem um ódio muito presente na nossa sociedade neste momento, e uma sensação de medo e insegurança muito provocada pela cobertura sensacionalista da imprensa”, concluiu.

O ‘justiçamento’ de Cleidenilson não foi um fato isolado no Maranhão. De acordo com o jornal carioca Extra, foram pelo menos mais nove casos deste gênero registrados no Estado nos últimos 18 meses. Só em 2015, foram quatro casos.

Em um dos linchamentos mais explorados pela mídia nacional, no ano passado um adolescente foi espancado e preso a um poste por uma trava de bicicleta, nu, numa noite no bairro do Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em mais um caso de justiça com as próprias mãos. A apresentadora do telejornal SBT Brasil, Rachel Sheherazade, não perdeu tempo e afirmou que o espancamento do rapaz era justificável, em mais uma tentativa da imprensa de jogar álcool na discussão. Resta saber agora quem será o próximo Cleidenilson e qual será o primeiro jornalista a apedrejá-lo.

Documentos liberados provam que EUA sabiam de torturas durante ditadura militar

Por Akemi Nitahara | Via Agência Brasil

Antonio Azeredo da Silveira e Henry Kissinger

O Arquivo Nacional liberou hoje (9) para consulta documentos que provam que os Estados Unidos sabiam de torturas e desaparecimentos de presos políticos no Brasil durante a ditadura militar. O conjunto de dados digitalizados foi enviado pelo governo dos Estados Unidos após a Comissão Nacional da Verdade (CNV), que encerrou os trabalhos em dezembro, fazer o pedido via Freedom of Information Act, a lei de acesso à informação americana. O pedido foi reforçado pelo governo brasileiro.

Entre os documentos, há material sobre o desaparecimento de Stuart Angel Jones, filho da falecida estilista Zuzu Angel, e do ex-deputado Rubens Paiva, cujos corpos nunca foram localizados; de tortura sofrida por Frei Beto e do assassinato do dirigente comunista Carlos Marighela em São Paulo, entre outros. Trecho de um telegrama enviado em maio de 1973 pelo Consulado Americano em São Paulo para a Secretaria de Estado em Washington relata a prática de prisões e torturas em São Paulo: “Interrogatórios de prisioneiros políticos muitas vezes são acompanhados por torturas, como pau-de-arara [em inglês the parrot's perch], choques elétricos, fome, etc. Um candidato do MDB para o Conselho Municipal em São Paulo que foi preso depois das eleições municipais de novembro e mantido por seis semanas no centro militar de interrogatório (Oban) nos disse, depois de ser libertado, que cerca de 60 prisioneiros políticos foram mantidos no centro enquanto ele estava lá, o que é aproximadamente a capacidade do lugar. Muitos estavam claramente envolvidos em atividades subversivas, mas outros pareciam ser apenas idealistas políticos que se opuseram ao regime. Todos foram submetidos a alguma forma de tortura. Ele próprio não foi abusado, já que é um político legítimo e homem de posses, que ele não era ‘torturável’”.

O diretor-geral do Arquivo Nacional, Jaime Antunes da Silva, explica que foram enviadas ao Brasil três remessas de documentos, cada uma em um DVD de dados. A primeira, com 43 arquivos, chegou em junho do ano passado pelas mãos do vice-presidente norte-americano Joseph Biden e já estava disponível para consulta pelo site da CNV.

De acordo com Antunes, a CNV não teve tempo de analisar a segunda remessa, recebida em dezembro e com 113 documentos, nem a terceira, que chegou no dia 30 de junho com 538 documentos. Antunes ressalta que foi o governo americano que selecionou e formatou os documentos reclassificados sem o caráter sigiloso para serem enviados ao Brasil. “Trechos dos documentos que eles acharam que não deveriam ser ainda liberados estão tarjados pelo governo americano. Esse material chegou às nossas mãos ontem no final do dia e nós conseguimos colocar no nosso sistema”.

O material foi liberado da forma como foi entregue pelos americanos: em inglês e separados nos três lotes. A partir de agora, segundo Antunes, o Arquivo Nacional vai sistematizar melhor essas informações, fazendo tradução dos títulos e descritivos para facilitar a pesquisa. “É importante que tenha chegado, antes tarde do que nunca, porque todos nós sabemos que os Estados Unidos têm uma presença muito forte na América Latina e que apoiaram de perto esses movimentos, esses golpes todos aplicados em países que experimentaram durante um determinado período de tempo a exceção de democracia. Então todos nós intuíamos que haveria em materiais da CIA, do Departamento de Estado e outros órgão de inteligência do governo americano documentos sobre o período da ditadura militar, mas nunca se teve esse acesso franqueado”.

Para Antunes, é fundamental que se abram todos os arquivos referentes ao período da Ditadura Militar no Brasil. “Qualquer fonte de informação que ponha luz em períodos tortuosos, ou de não saudosas memórias, ajuda na recuperação de fatos para que isso tudo seja conhecido, para que nunca mais se repita, parafraseando dom Evaristo Arns. É importante que se conheça, para que não mais se repita. Então isso é para a comunidade de pesquisadores e dos órgãos de defesa dos direitos humanos, exemplar. Se há outros países que possam deter fontes de informação sobre esse período da ditadura militar no Brasil deveriam ser generosos e compartilharem com o povo brasileiro”.

Os documentos americanos podem ser acessados pelo Sistema de Informações do Arquivo Nacional.