Por César Fonseca | Via Independência Sul-Americana

Nelson Barbosa, adepto da flexibilidade fiscal, vira, com decisivo apoio da presidenta Dilma, nova estrela da economia, desbancando o radical neoliberal Joaquim Levy, que não combateu deficit nenhum, porque, afinal, não atacou a principal fonte do deficit, os juros extorsivos incidentes sobre a dívida.
A grande mídia brasileira, serviçal dos banqueiros, adotou um comportamento vergonhoso nos últimos seis meses.
Defendeu, acriticamente, a proposta levyana de austeridade a qualquer custo, como se sem ela o País perderia o chamado grau de investimento.
Na prática, tratou-se de chantagem da bancocracia, que compra a opinião da mídia para esconder o principal problema da economia: os absurdos juros praticados pela equipe econômica, que produzem, aceleradamente, o deficit fiscal, visto que a conta com eles é muito superior à que se tenta cortar, afetando os mais pobres.
No final das contas, o que se está vendo é que esse grau de investimento corre, mesmo, perigo de não ser jamais alcançado, se as metas de Levy tiverem que ser conquistas a ferro e fogo.
A arrecadação cadente evidenciou, claramente, essa possibilidade.
Aí sim, viria o caos, com a população indo para as ruas desesperadas com o aumento do desemprego.
Levy poderá até continuar como ministro da Fazenda, mas será como um El Cid montado num cavalo de quatro patas quebradas.
Um símbolo da ineficiência.
A opção levyana de fazer tudo a favor dos interesses dos credores, levando a sociedade ao desespero, sem que essa trajetória tenha tido por parte da mídia uma crítica responsável, joga contra a própria mídia, porque o acriticismo midíatico produziu discurso oposicionista totalmente golpista, antidemocrático, antinacionalista, entreguista.
A razoabidade, agora, sobe no palco com o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, que se revelou voz do bom senso.
Terá, certamente, o apoio do Congresso para as alterações moderadas para condução do ajuste fiscal.
Quem ficou com a brocha política na mão, depois do esvaziamento político e econômico de Levy, foi o vice-presidente da República, Michel Temer.
Um dia antes da revisão das metas econômicas, decididas pela presidenta Dilma, Temer, em Nova York, para agradar os banqueiros, disse que, se chegar à presidência em 2108, terá ao seu lado aquele que agora manda menos, ou seja, Joaquim Levy.
Levy, com sua radicalidade neoliberal, estava fazendo o jogo que favoreceria amplamente a oposição. As últimas pesquisas de opinião demonstram o obvio: mais um semestre de ajuste fiscal levyano e a vaca iria para o brejo,isto é, derrota eleitoral ampla em 2016, eleições municipais, e em 2018, eleição presidencial. Lula dificilmente conseguiria, em 2018, eleger-se, se a economia fosse mantida no rítmo da austeridade neoliberal levyana.
Desastre político removido
A presidenta Dilma Rousseff corrigiu a tempo o Desastre Levy, que levou a popularidade do governo ao chão.
Também pudera: o açodado e sôfrego ministro da Fazenda, Joaquim Levy, quis dar um coice de burro na população: propôs economia forçada de 2% do PIB para atender os seus verdadeiros patrões, os banqueiros, pagando-lhes juros escorchantes de 13,75% ao ano, quando, no mundo capitalista desenvolvido as taxas estão em zero ou negativa, para enfrentar a crise global.
Levy criou expectativa negativa para toda as forças produtivas.
E, como se sabe, as expectativas é que comandam, psicologicamente, os investimentos.
O resultado foi estrondosa queda de arrecadação, simplesmente, porque o incompetente ministro derrubou o consumo nacional, na base da pancada.
Tudo foi para o buraco, em apenas seis meses.
O pior ele conseguiu produzir: jogar o Legislativo – todos os partidos, indistintamente, situação e oposição – contra a presidenta Dilma.
Como disse o senador Renan Calheiros(PMDB-AL), presidente do Congresso, a solução de Levy foi demasiadamente tacanha.
Flexibilidade x Austeridade
Ontem, a presidenta colocou as coisas nos eixos, para tentar corrigir o desastre: em vez de continuar perseguindo o impossível, ou seja, superavit primário de 2% do PIB, como pregam os banqueiros sanguessugas, rendeu-se à pregação do PMDB e do PT, favorável a uma meta de superavit de 0,15% do PIB.
Era o que vinha pregando o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa: mais flexibilidade, menos austeridade.
O mundo capitalista está arrepiando-se diante da palavra austeridade, que derruba as forças produtivas para satisfazer interesses dos credores, produzindo, com isso, tensões políticas cada vez mais insuportáveis.
Levy, se deixado solto, qual macaco em loja de louça, levaria o Congresso a um rompimento com o Planalto.
O PMDB acelerou suas críticas e sinalizou separação do PT o quanto antes, para não se afundar.
Petistas históricos, como o senador Paulo Paim(PT-RS), historicamente, identificado com as forças populares, já marcada data para pular fora da legenda.
A estratégia de Levy representava simplesmente vitoria da oposição nas eleições municipais do próximo ano e, certamente, também, o triunfo dela na eleição presidencial de 2018.
Levy virou escândalo político para a situação e milagre para a oposição.
De repente, o senador Aécio Neves(PSDB-MG), derrotado na eleição presidencial, viu o tamanho do buraco em que iria cair, se o ministro que escolheu para comandar a economia, caso fosse vitorioso, fizesse o que Levy está fazendo.
Abertura de novo horizonte
Transformou-se o neto de Tancredo, de uma hora para outra, no grande crítico de Levy, para arrecadar bônus para sua candidatura em 2108.
A supremacia do discurso de Barbosa sobre o de Levy inverte as prioridades.
Levy queria alcançar em 2015 o que Barbosa defendeu como possível somente em 2018.
Agora, com a derrota fragorosa de Levy, entra em cena a razoabilidade: 0,15% do PIB em 2015; 0,7% em 2016; 1,3% em 2107; e 2%, como defendeu Levy, quando assumiu o cargo, somente em 2018.
Flexibilizando metas fiscais, o governo muda o discurso da austeridade, como prioridade absoluta, e abre espaço para que as forças produtivas possam trabalhar com novos horizontes.
Levy tinha radicalizado na defesa do que chama de iniciativas para dinamizar a oferta, mas achatou a iniciativa para sustentar a demanda.
Puro mecanicismo radical.
Que adianta criar condições para aumentar a produção, como argumenta, falsamente, se não haverá consumidores, por falta de renda, no final da linha ?
O achatamento irracional do consumo, destruindo o poder de compra dos trabalhadores, na base da pancada neoliberal, para fazer superavit primário de 2% do PIB, custe o que custar, destruiu a arrecadação e obrigou o governo a suspender investimentos, evidentemente.
Esse desenho macroeconômico levyano criou tensões políticas indesejáveis, perigosíssimas, quase levando o governo Dilma ao colapso.