Arquivos da categoria: Destaque

“Despovoamento estratégico” da Síria, causa provável da crise dos refugiados na UE, diz Assange

Via ODiario.info

A informação não é nova nem é surpreendente. Mas é útil juntá-la ao infindável rol dos crimes do imperialismo, para cujas ambições nenhuma tragédia humanitária é suficientemente grande.

A inundação da Europa por incontáveis vagas de refugiados pode ser o resultado do “despovoamento estratégico” da Síria levado a cabo pelos opositores ao governo do país, sugeriu o fundador de WikiLeaks.

A organização WikiLeaks, que se empenha na transparência, descortinou analisando mensagens diplomáticas «uma especulação interessante acerca do movimento de refugiados», disse Assange em entrevista a um sítio web de notícias grego, ThePressProject.

«Assim, a especulação era esta: opositores de um país empenhar-se-iam em certos momentos no despovoamento estratégico, com vista a reduzir a capacidade de combate de um governo», explicou.

O homem que tem estado associado a tantas revelações sublinhou que «quem está a fugir da Síria é predominantemente a classe média» tendo em conta que possuem «habilitações linguísticas, dinheiro, alguns relacionamentos». Engenheiros, gestores e funcionários públicos são «precisamente as classes que são necessárias para manter o governo em funcionamento», disse.

A gente síria é encorajada a fugir do seu país «pela Alemanha, dizendo que aceitará muitos, muitos refugiados, e pela Turquia, acolhendo perto de três milhões de refugiados, e dessa forma enfraquecendo de forma significativa o governo sírio», sublinhou Assange.

A Síria não é caso único na história recente na utilização da migração como arma; no decurso da guerra do Iraque a Suécia, segundo mensagens reveladas, informou os EUA de que «a aceitação de refugiados iraquianos fazia parte do seu contributo.»

O fundador de WikiLeaks disse que é uma «desgraça» que os EUA recusem acolher refugiados sírios, porque é Washington quem deveria ser responsabilizado pelas centenas de milhares de pessoas que chegam à Europa e que estão a fazer com que estados europeus fechem fronteiras entre si.
«A situação surge em resultado das políticas dos EUA, Grã-Bretanha e França no Médio Oriente, juntamente com o comportamento dos seus aliados regionais no Médio Oriente – Qatar, Turquia, Jordânia e Israel … e Arábia Saudita», disse.

Os documentos interceptados, já publicados por WikiLeaks, revelaram que os EUA vêm conspirando para derrubar o governo sírio desde 2006, assinalou Assange.
«Tentaram tornar ‘paranóico’ o governo sírio, procurando que reagisse de forma desproporcionada ao clima criado de medo e paranóia; procurando que estivesse sempre temendo golpes; procurando agudizar tensões sectárias entre sunitas e shiitas…procurando deter o investimento estrangeiro na Síria e financiando secretamente também uma diversidade de ONG’s instaladas na Síria para provocar confusão, utilizando os sauditas e o Egipto para ajudar em tudo isto,» disse.

Entretanto, quaisquer tentativas de Assad de combater o terrorismo e a expansão do Estado Islâmico era apresentadas como sinais de fraqueza e «exemplos de como o governo sírio não dispunha de efectivo controlo sobre o seu território, a fim de encorajar o derrube do governo», acrescentou.
Assange sublinhou que o povo americano nada tem a ganhar com o conflito sírio, e que apenas «as facções privadas que o impulsionaram» pode acreditar que iram ter algum benefício final.

«A CIA, evidentemente, sabe que beneficia dele. Criam um problema e depois recebem um orçamento acrescido para resolver o problema. E acontece da mesma forma com os que recebem contratos, os negociantes de armamento e os fabricantes de armas. Se não existe problema os seus orçamentos reduzem-se. Portanto, criam problemas,» explicou Assange.

Com a ingerência na Síria, Washington visou também «uma estratégia de largo alcance para enfraquecer o Hezbollah, para permitir a Israel um ainda maior controlo dos Montes Golan, e talvez também uma zona tampão; para derrubar a Síria, aliado regional do Irão; para eliminar a última base russa que resta fora da antiga União Soviética, em Tartus; para criar um percurso para um gasoduto cujo trajecto proposto vem do Qatar para a Arábia Saudita e daí através da Síria em direcção à Europa, e que irá competir com o gás russo», acrescentou Assange.

A interferência dos EUA na Síria provocou que esta se afundasse desde 2011num conflito sangrento. Mais de 220 000 pessoas foram mortas, segundo estimativas da ONU. As forças governamentais têm combatido no decurso do conflito diversos grupos armados, incluindo a chamada “oposição moderada” apoiada pelo ocidente, e os grupos terroristas Jabhat al-Nusra e o jihadista ISIL.

Em finais de Setembro a Rússia iniciou, a pedido do Presidente Bashar Assad, acções de bombardeamento aéreo contra os terroristas na Síria, permitindo às forças governamentais desencadear uma ofensiva de larga escala, e indiciando um ponto de viragem no conflito.

BRICS assinam declaração sobre cooperação científica

Via Sputnik Brasil

© Sputnik/ Grigory Sysoev

Os ministros da Ciência, Tecnologia e Inovação dos países-membros do grupo BRICS assinaram uma declaração de cooperação que visa fomentar projetos conjuntos multilaterais de pesquisa científica.

“A criação do conteúdo do nosso documento estratégico principal, a Declaração, assinala uma nova etapa no desenvolvimento das nossas relações na área da ciência e tecnologia. São passos importantes no caminho da formação de um espaço científico-tecnológico comum”, frisou a vice-ministra da Educação e Ciência da Rússia, Lyudmila Ogorodova.

A declaração adotada é o resultado principal do encontro dos ministros da Ciência, Tecnologia e Inovação dos BRICS, celebrado nesta quarta-feira (28) em Moscou.

Rede

Às margens do encontro, o ministro da Educação e Ciência russo, Dmitry Livanov, fez outras afirmações de interesse.

Uma delas se refere à Rede Universitária dos BRICS, projeto comum cuja ideia foi proposta há duas semanas pelo reitor da Universidade de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO), Anatoly Torkunov. A estimativa é que este projeto seja realizado em forma de uma infraestrutura internacional que irá facilitar o intercâmbio científico e a mobilidade acadêmica entre os BRICS.

Segundo Livanov, a Rede Universitária dos BRICS começará a funcionar em 2016.

 

“Desde o próximo ano letivo, uma estrutura em rede já estará funcionando, e muitos dos alunos, inclusive os russos, terão a possibilidade de cursar uma parte do seu ensino nas melhores universidades dos nossos parceiros dos BRICS”, disse o ministro russo.

Megainstalações

Além disso, o ministro russo afirmou que a Rússia está já implantando cinco megainstalações científicas no seu território. Fez esta declaração depois do encontro dos ministros, no fórum Inovações Abertas.

Megainstalações são projetos de pesquisa científica internacional que exigem a participação de diversos países, devido à envergadura dos projetos concretos.

“Hoje, nós temos a possibilidade única de unificar os recursos da Federação da Rússia e de outros países que integram os BRICS, para a criação dessas e de outras grandes estruturas de pesquisa que permitirão aos nossos países manter-se na liderança nas áreas científicas correspondentes”, ressaltou.

Fórum Inovações Abertas. © SPUTNIK/ GRIGORY SYSOEV

Em 2013, 15 universidades russas assinaram um convênio sobre a parceria em projetos semelhantes.

O ministro sugeriu ainda a criação de um organismo único que iria regular as atividades no âmbito da megaciência nos BRICS.

O encontro ministerial fecha a Cúpula Global das Universidades dos BRICS, que começou na segunda-feira (26).

A brasileirização das eleições na Argentina

Por Victor Farinelli | Via Carta Capital

Quem acompanhou a apuração dos resultados do primeiro turno da Argentina tendo vivido o que aconteceu nas eleições brasileiras do ano passado deve ter sentido aquele clássico déjà vu: um candidato governista que as pesquisas diziam que lutava por uma vitória no primeiro turno, e apesar de ser apoiado por um presidente muito popular, termina obtendo uma magra e decepcionante vitória, contra um opositor de direita flertando com consignas de esquerda e alcançando uma derrota com sabor de vitória, já que começa a corrida pelo segundo como claro favorito.

Daniel Scioli e Dilma Rousseff, em encontro na semana passada, em Brasília. (foto: Presidência da República)

O primeiro personagem pode ser tanto Dilma Rousseff quanto o peronista Daniel Scioli – o candidato governista nas eleições argentinas, que teve 36,8% dos votos no último domingo. O opositor, em um dos casos, é Aécio Neves, no outro, é o neoliberal Mauricio Macri – 34,3% dos votos. Talvez o desfecho dessas histórias seja diferente, ou nem tanto, e as próximas semanas dirão o que vai acontecer nesses países onde a política e o futebol estão em grave crise. O fato é que, lá e cá, o enredo é o mesmo.

Claro que essa brasileirização eleitoral argentina tem a ver com uma comparação de detalhes mais recentes, mas numa visão mais ampla, podemos constatar que o resultado deste domingo não pode ser lido como um fato isolado do resto do continente. Além de Brasil e Argentina, podemos citar a Venezuela, que viveu algo semelhante em 2013, quando Maduro sofreu mais do que se esperava contra Henrique Capriles, e no Equador, onde a direita obteve vitórias em eleições municipais do ano passado, só para ficar em dois exemplos. O fenômeno é o mesmo em todos esses países: um projeto que chegou ao poder há mais de dez anos e agora enfrenta os primeiros sinais de fadiga eleitoral.

Esses projetos também têm em comum o fato de nascerem como uma resposta da cidadania aos efeitos da longa noite neoliberal, e que conseguiram dar os primeiros passos na direção de um Estado de bem-estar, começando com uma melhor distribuição da riqueza. Talvez por isso, seus defensores mais fervorosos acreditaram que bastaria a eterna gratidão daqueles que saíram da miséria ou do desemprego graças às políticas públicas para mantê-los no poder.

Isso pode convencer como teoria em alguns meios, mas na rua não funciona assim. A cidadania quer mais, e principalmente mais direitos. O discurso de “não podemos perder as conquistas já alcançadas” pode funcionar numa eleição, mas na segunda ele já é um problema. A eleição de 2014 mostrou isso, e isso somado às medidas do segundo mandato de Dilma, com retrocesso em alguns direitos trabalhistas e financiamentos para projetos sociais explicam porque nem mesmo os que votaram nela se animam a defendê-la.

O que aconteceu na Argentina neste primeiro turno passa um pouco por esses fatores. O governo efetivamente desfruta uma boa aceitação entre as camadas populares, as que melhoraram de vida graças às políticas sociais. Essa população é capaz de eleger um presidente na Argentina, mas ela não vota apenas com a gratidão daquilo que já foi feito.

Agora, elas querem comida, diversão e arte. Esperaram a candidatura governista entregar sua proposta, e não viram nada. A campanha de Scioli foi toda ela trabalhada na defesa do projeto kirchnerista, esperando um voto de gratidão. E esse voto veio, e foi suficiente para uma vitória no primeiro turno, apesar de não apresentar nenhuma proposta nova claramente direcionada àquele público que tradicionalmente garante as vitórias da centro-esquerda – pelo menos desde 2003.

A falta de conteúdo político das campanhas é outro fator que une Daniel Scioli e Dilma Rousseff. Uma estratégia que talvez era mesmo a mais adequada em outros tempos, mas que vem se mostrando cada vez mais obsoleta, conforme o mundo em si vai se tornando mais polarizado, e as pessoas não querem mais políticos que tenham opiniões genéricas sobre temas cruciais.

Lula da Silva e Cristina Kirchner: dois projetos com grandes eleitorados cativos, que agora enfrentam o desafio de continuar cativando. (foto: Telam)

Falando mais claramente, todo mundo sabe que existe uma crise, podem não saber se a crise é nacional ou mundial, e talvez nem se interessem por isso, ou sobre qual é a responsabilidade do governo nesse quadro. O que elas querem saber é qual é a postura do governo diante dessa crise, que tipo de prioridade vai dar aos interesses, aos direitos e às necessidades dos trabalhadores.

Um dos segredos da popularidade de Lula foi saber dar essa resposta ao seu público cativo em 2008, quando ele afirmou que a crise seria uma marolinha, engoliu um caminhão de críticas arrogantes da dobradinha entre a mídia e a oposição, se manteve firme com sua política e provou que tinha razão. Grande parte da vitória de Dilma em 2010 foi graças a esse sucesso.

Aquele Lula governou numa época em que talvez a despolitização fosse mais efetiva eleitoralmente que hoje. Mesmo assim, na hora do aperto, ele sabia que precisava ser claro nas prioridades que daria a cada público.

Daniel Scioli talvez tenha entendido isso tarde demais, e tampouco entendeu que o eleitorado sabe que ele, dentro do projeto governista atual, representa mais o peronismo – que poderia ser comparado no Brasil com o PMDB, guardadas certas proporções – que o kirchnerismo, esse sim mais identificado com os programas sociais. Durante o primeiro turno, o peronista não apresentou grandes propostas novas, se omitiu em diversos temas, não foi a nenhum debate e tentou ignorar a acusação dos candidatos à sua esquerda, de que sua candidatura escondia um projeto de ajustes econômicos iguais aos de Dilma no Brasil.

Minutos antes da revelação dos resultados das urnas, Scioli fez um discurso estranho, com tudo aquilo que o eleitorado cativo do kirchnerismo esperava dele durante a campanha: falou em reforçar os direitos adquiridos, mas sem ideias mais claras a esse respeito, e apostou de novo no voto de gratidão, afirmando que a oposição representa a perda desses direitos. Finalmente, assegurou que seu projeto não contém um ajuste sobre os benefícios dos trabalhadores, e que o segundo turno será baseado nesse debate, entre um projeto com ajuste e outro sem ajuste.

Um discurso de quem sentiu o baque das urnas e que sabe que remar dos 36% até os 51% necessários no dia 22 de novembro vai ser difícil, ainda mais quando o opositor tem mais possibilidades de absorver apoios dos candidatos que ficaram pelo caminho.

Por sua parte, Mauricio Macri mostra como esse discurso genérico é muito mais adequado à direita que à esquerda. Depois de flertar com o estatismo, o candidato neoconservador passou a dividir o seu discurso em duas partes: o da segurança e do combate ao narcotráfico, e o da erradicação da miséria no país. Esse segundo ponto é mais polêmico, já que Macri não explica como pretende fazer isso, dá a entender que continuará com os programas sociais do governo, mas tampouco garante que assim será.

Ainda assim, a simples intenção do discurso consegue ser mais efetiva que a falta de conteúdo mostrada por seu adversário até agora. Prova disso é que conseguiu boas votações nos distritos mais pobres da Argentina: onde os Kirchner venciam antes com quase a metade, ou mais da metade dos votos, Scioli quando muito obteve 40%, e ele passou dos 30%. Também por isso, suas primeiras declarações visando o segundo turno foram apontando nessa direção, reforçando a ideia do combate à miséria, mesmo que ainda sem propostas claras. Também é bom lembrar que Macri já se vacinou para um possível resultado apertado no segundo turno, e vem acusando à possibilidade de fraude eleitoral desde agosto – sem nenhuma prova –, dando a entender que não reconhecerá os resultados se eles favorecem a Scioli, o que levaria a Argentina a uma guerra política pós-eleitoral semelhante a que existe hoje no Brasil.

Enquanto isso, Scioli corre duas vezes contra o tempo, para recuperar o que perdeu no primeiro turno, e para tentar levar o cenário eleitoral a um quadro do passado, quando era mais fácil segurar o voto cativo ao projeto de governo que ele representa.

Na verdade, esses projetos nunca perderam esse eleitorado cativo. Em entrevista recente, Ciro Gomes afirmou que basta Dilma estalar os dedos e voltar sua política econômica para a defesa da condição socioeconômica da classe trabalhadora que votou por ela para recuperar grande parte de sua popularidade. Algo nesse sentido pode ser dito sobre Scioli, com o agravante de que ele precisa de resultados efetivos em quatro semanas, e para isso precisa de ofertas novas e melhores. Só assim poderão, Dilma e Scioli, vencer o desafio de continuar cativando.

O Enem e a falácia da “doutrinação”

Por Daniel Hortencio de Medeiros | Via Gazeta do Povo

Lembrou na edição desse domingo, 25 de outubro, a insuspeita jornalista econômica Miriam Leitão, que nesses 30 anos, avançamos em três áreas importantes: democracia, estabilidade e inclusão. E que voltar atrás é inaceitável.

No sábado, dia 24, a prova de Ciências Humanas do Enem, cujas questões são formuladas por um pool de professores das 57 universidades públicas do país, deu um banho de democracia, estabilidade e inclusão, elencando para os jovens postulantes a uma vaga no ensino superior, questões sobre a terceira revolução industrial e a desterritorialização da produção ( o que lembra o quanto é bem vinda a multietnicidade dos produtos ao mesmo tempo em que renascem os discursos racistas quanto a pessoas), sobre a moda dos selfies e o narcisismo epidêmico das sociedades urbanas contemporâneas, sobre o desencantamento e a racionalização em Max Weber, sobre a precaução necessária com o transgênicos, sobre a luta histórica pela igualdade de gêneros, sobre os condicionamentos sociais em Mannheim, sobre as guerras e os riscos aos patrimônio material, sobre a proteção ao meio ambiente, sobre a crise da água, sobre a superação da visão mítica do mundo nos pré-socráticos, sobre a alteridade ( em uma bela questão lembrando a importância de se colocar no lugar do outro para avaliar nossas convicções), sobre os excessos do Estado nos regimes ditatoriais, sobre os riscos da espionagem via internet, sobre a multiperspectividade do passado ( ao apresentar dois textos sobre o mesmo fato, a Guerra de Canudos, mostrando a importância do cotejamento das fontes), sobre o papel simbólico e a extensão social da Abolição, sobre o papel de apoio ( aparentemente controverso) das colônias africanas às suas metrópoles na segunda guerra mundial, sobre o papel dos movimentos sociais no aprofundamento da democracia brasileira, levando-a para além da mera participação eleitoral, sobre o conceito de Estado em Hobbes, sobre a importância das imagens no cenário político brasileiro, sobre o papel dos intelectuais na formação do mundo ocidental, sobre a ágora ateniense, sobre a globalização e sua crítica, sobre o problema da erosão nos rios, sobre a concentração urbana no Brasil, sobre o Código eleitoral brasileiro de 1932 e seus avanços, sobre o endividamento brasileiro no regime militar que fundamentou o chamado “milagre brasileiro”, sobre o pan-africanismo, sobre a construção da memória por meio da arte ( e como ela pode servir a propósitos que não são a verdade dos fatos), sobre os sofistas gregos, sobre o conceito de “homem cordial” em Sérgio Buarque de Holanda, sobre as novas formas sustentáveis de explorar a Amazônia, sobre os biomas brasileiros e os problemas que apresentam, sobre as relações entre trabalho e avanço tecnológico, sobre o conceito de Maioridade em Kant ( por meio de uma bela citação de Paulo Freire), sobre os riscos dos agrotóxicos nos alimentos, sobre a dificuldade de os europeus aceitarem a cultura ameríndia ao longo da colonização, sobre o confronto do conceito de socialismo e o capitalismo de Estado da China contemporânea e, finalmente, sobre a crise financeira mundial.

Como se pode ver, a prova de Ciências Humanas do Enem abordou, com largo espectro, temas políticos, econômicos, sociais, culturais, tecnológicos, filosóficos, educacionais, regionais, nacionais e globais, com competência e precisão, utilizando textos e imagens de autoridades e/ou personalidades conhecidas e respeitadas em suas áreas de atuação.

A opção da prova do Enem é claramente a de uma prova cidadã, preocupada com a seleção de jovens capazes de ler, interpretar e se posicionar sobre temas fundamentais, relevantes e urgentes da contemporaneidade.

E a pergunta que resta é: onde está a “doutrinação?” Onde está o viés de “esquerda”? Por acaso os temas tratados na prova não se coadunam com as importantes questões da nossa democracia? Por acaso não é importante que jovens conheçam e debatam essas questões?

O que fica cada vez mais claro é que a falácia da “doutrinação” esconde o desejo da censura e do autoritarismo, travestido de peroração voltado para os que não cuidam de ver com seus próprios olhos e escutar com seus próprios ouvidos.

Que este artigo funcione como um convite para que os leitores e leitoras leiam a prova, analisem suas questões, avaliem as alternativas e só depois formulem seus julgamentos. Não ver e não gostar, não ler e condenar é o caminho mais rápido e fácil para o retrocesso. E quem REALMENTE quer o retrocesso?

Conselho da Petrobras aprova venda de 49% das ações da Gaspetro

Por Nielmar de Oliveira | Via Agência Brasil

O Conselho de Administração da Petrobras aprovou ontem (23) a venda de 49% das ações da Petrobras Gás (Gaspetro) para a Mitsui Gás e Energia do Brasil.

Segundo a estatal, o valor total da transação é R$ 1,9 bilhão, que representa o montante no momento do fechamento da operação, previsto para dezembro de 2015.

A Mitsui Gás e Energia do Brasil Ltda. é uma subsidiária integral da japonesa Mitsui & Co. e já tem participação societária em oito companhias estaduais de distribuição de gás natural no Brasil. Segundo a Petrobras, a operação, realizada através de processo competitivo, faz parte do Programa de Desinvestimentos previsto no Plano de Negócios e Gestão 2015-2019.

A empresa esclarece, ainda, que a conclusão da transação está sujeita a “determinadas condições precedentes usuais, incluindo a aprovação pelos órgãos competentes”.

Na mesma reunião, o Conselho de Administração aprovou o adiamento por prazo indeterminado do processo de registro de companhia aberta e de registro da oferta pública de ações da sua subsidiária integral Petrobras Distribuidora (BR). Esses processos haviam sido autorizados pelo Conselho de Administração da companhia em reunião realizada em 6 de agosto de 2015. O conselho também autorizou a busca de parceiro estratégico para a BR, em concordância com a decisão da diretoria executiva divulgada ao mercado em 14 de outubro de 2015.

Petrobras já tem proposta de compra de fatia da BR

Por Rodrigo Polito, Cláudia Schuffner, André Ramalho e Rafael Rosas | Via Valor Econômico

O conselho de administração da Petrobras se reúne amanhã e vai avaliar, entre outros temas, uma primeira proposta de compra de uma fatia de até 25% na BR Distribuidora. Uma fonte a par do assunto, que preferiu não revelar o nome da empresa interessada, disse que existe a possibilidade de que a negociação avance e seja concluída ainda este ano. Com a entrada do sócio estratégico, mais adiante a empresa deverá fazer um IPO para cada negócio vinculado à rede de postos.

Se concretizada, a operação reforçará o caixa da estatal brasileira e alavancará o programa de venda de ativos da companhia. A venda de uma fatia da BR ganha ainda mais peso num momento em que o governo do Estado da Bahia e a Termogás entraram com ações contrárias à principal negociação em curso pela Petrobras ­ a venda de 49% da Gaspetro para a Mitsui. A disputa promete atrapalhar um negócio estimado em R$ 2 bilhões.

Existe, ainda, a expectativa de que a Petrobras anuncie até o fim do ano outras duas vendas de ativos: a rede postos da América do Sul (excluída a carteira de ativos da Argentina) e um dos campos de petróleo colocados à venda pela companhia, provavelmente Tartaruga Verde, previsto para entrar em produção em 2017, no pós­sal da Bacia de Campos. O Valor apurou que a estatal conta com essas duas operações para fechar a meta de venda de ativos de 2015, revisada este mês de US$ 3 bilhões para US$ 700 milhões.

A Petrobras ainda discute alguns termos do negócio da BR, entre eles, a definição sobre se o novo sócio terá ou não a opção de se tornar majoritário na distribuidora de combustíveis no futuro. Na última semana, a estatal informou que a diretoria executiva havia autorizado a busca de parceiro estratégico para a BR e que o assunto seria apreciado pelo conselho de administração na próxima reunião.

Entre outros pontos da extensa pauta do encontro de conselheiros amanhã, está, segundo fontes, a proposta de mudança do estatuto da companhia, para que cerca de 50 gerentes executivos passem a ter responsabilidade estatutária sobre seus atos. De acordo com uma fonte a par do assunto, porém, não está certo se haverá uma deliberação sobre o assunto na reunião de sexta­feira ou se o tema será apenas apresentado e discutido.

Hoje, está prevista reunião do conselho de administração da BR Distribuidora. No encontro, os integrantes do colegiado devem debater sobre a definição de um novo presidente para a companhia, em substituição a José Lima de Andrade Neto, que renunciou ao cargo em setembro. No entanto, não está certo de que os conselheiros já façam a escolha na reunião desta quinta­feira.

A Korn Ferry, empresa de “headhunter”, chegou a ser contratada para seleção de candidatos ao comando da BR, mas, segundo uma fonte, o salário­teto oferecido para o presidente da companhia é baixo para os padrões do mercado e tem dificultado a atração de executivos da iniciativa privada.

A decisão de buscar um sócio estratégico para a BR já era avaliada pela companhia há alguns meses, mas a procura ganhou corpo após a Petrobras ter decidido adiar a oferta pública de ações (IPO) da distribuidora.

O banco JP Morgan avalia que 49% da BR Distribuidora, a partir da entrada de um sócio e do IPO, renda à Petrobras cerca de US$ 5 bilhões. Com meta de obter até US$ 700 milhões com venda de ativos neste ano, a companhia anunciou até o momento apenas dois negócios, que totalizam US$ 126 milhões: uma fatia de 20% nos campos de Bijupirá e Salema, na Bacia de Campos, por US$ 25 milhões para a PetroRio (ex­ HRT); e os ativos de exploração e produção na Bacia Austral, na Argentina, para a Companhia Geral de Combustíveis, por US$ 101 milhões.

Assim funcionam as cortes de exceção do capital

Por Claire Provost e Matt Kennard | Via Outras Palavras

Reportagem investiga ponto cego da globalização: os tribunais paralelos em que corporações processam Estados, quando estes ousam ampliar direitos e questionar lógica do lucro máximo.

Cinquenta anos atrás, um sistema legal internacional foi criado para proteger os direitos de investidores estrangeiros. Hoje, conforme companhias ganham bilhões de dólares em danos, os iniciados dizem que isso tornou-se perigosamente fora de controle.

O escritório de Luis Parada fica a apenas quatro quarteirões da Casa Branca, no coração da Rua K, onde está instalada a longa fila de escritórios de lobistas de Washington – um trecho de edifícios de aço e vidro certa vez apelidado de “caminho para os ricos” (road to riches), quando o tráfico de influência começou a crescer nos Estados Unidos. Parada, um homem de El Salvador com 55 anos e fala mansa, é um entre o punhado de advogados globais que se especializou em defender Estados soberanos contra ações judiciais apresentadas por corporações multinacionais. Ele é advogado de defesa num campo obscuro mas cada vez mais poderoso do direito internacional, por meio do qual investidores estrangeiros podem processar governos em bilhões de dólares, numa rede de tribunais.

Quinze anos atrás, o serviço de Parada era um nicho desimportante até mesmo dentro da advocacia. Mas desde 2000, centenas de investidores estrangeiros processaram mais de metade dos países do mundo, reclamando danos supostamente causados por um amplo leque de ações governamentais, que eles dizem ter ameaçado seus lucros. Em 2006, o Equador cancelou um contrato de exploração de petróleo com a Occidental Petroleum, sediada em Houston (Texas, EUA); em 2012, depois que a Occidental entrou com uma ação diante de um tribunal internacional de investimentos, o Equador recebeu ordem de pagar o valor recorde de US $ 1,8 bilhão — mais ou menos igual ao orçamento de saúde do país por um ano. (Quito apresentou um pedido para que a decisão seja anulada.)

O primeiro caso de Parada foi defender a Argentina no final dos anos 1990 contra o conglomerado francês Vivendi, que processou a província argentina de Tucumán depois que ela a tomou iniciativa de limitar o preço que cobrava de pessoas para os serviços de água e esgoto. A certa altura, a Argentina perdeu e foi condenada a pagar à empresa mais de US$ 100 milhões. Agora, em seu maior caso desde então, Parada faz parte da equipe que defende El Salvador de um processo de milhões de dólares apresentado por uma empresa de mineração multinacional após o pequeno país da América Central recusar-se a permitir que ela escavasse ouro.

O processo foi aberto em 2009 por uma empresa canadense, Pacific Rim — mais tarde comprada por uma empresa de mineração australiana, OceanaGold — que disse ter sido encorajada pelo governo de El Salvador a gastar “dezenas de milhões de dólares para iniciar atividades de exploração mineral”. Mas a empresa alegou que, quando foram descobertos depósitos valiosos de ouro e prata, o governo, por razões políticas, reteve as licenças necessárias para começar a escavação. A indenização reivindicada pela companhia, que em certo ponto ultrapassou 300 milhões de dólares, foi depois reduzida para 284 milhões — ainda assim mais que o montante da ajuda externa que El Salvador recebeu no ano passado. El Salvador argumentou que a empresa não só carecia de licenças ambientais, como também não conseguiu provar que tinha obtido os direitos para escavação na maioria das terras abrangidas pelo seu pedido: muitos agricultores da região norte de Cabañas, onde a empresa queria cavar, haviam se recusado a vender sua terra.

Todo ano, no dia 15 de setembro, milhares de salvadorenhos celebram a data em que a América Central conquistou a independência da Espanha. Estouram-se fogos de artifício e bandas desfilam pelas vilas em todo o país. Mas, ano passado, na cidade de San Isidro, em Cabañas, as festividades tiveram um tom marcadamente diferente. Centenas de pessoas reuniram-se para protestar contra a mina. Minas de ouro costumam usar cianureto para separar o ouro do minério, e uma preocupação generalizada sobre a contaminação da água, já grave em El Salvador, ajudou a alimentar um forte movimento, que propõe manter os minerais do país no solo. Na praça central, foram penduradas bandeiras coloridas convidando a OceanaGold a desistir do caso contra o país e deixar a área. Muitos carregavam o slogan “Não à Mineração, Sim à vida”.

No mesmo dia, em Washington DC, Parada reuniu suas notas e foi para um conjunto de salas de reunião no Prédio J do Banco Mundial, em frente à sua sede principal, na Pennsylvania Avenue. Este é o Centro Internacional para a Resolução de Disputas sobre Investimentos (ICSID, na sigla em inglês) – a principal instituição para lidar com casos de empresas contra Estados soberanos. (O ICSID não é o único local para tais casos, há fóruns semelhantes em Londres, Paris, Hong Kong e Haia, entre outros.) O dia da audiência não foi uma coincidência, disse Parada. O caso foi visto, em El Salvador, como um teste sobre a soberania do país no século 21, e o advogado sugeriu que deveria ser ouvido no Dia da Independência. “A questão fundamental neste caso”, disse ele, “é saber se um investidor estrangeiro pode forçar um governo a mudar suas leis para agradar o investidor, ao invés do investidor cumprir as leis existentes no país.”

A maioria dos tratados internacionais sobre investimento e acordos de livre comércio garante a investidores estrangeiros o direito a ativar esse sistema, conhecido como Solução de Controvérsias entre Investidor e Estado (Investor-State Dispute Settlemente, ou ISDS, em inglês), se querem contestar decisões que afetam seus investimentos. Na Europa, o sistema tornou-se um ponto de discórdia nas negociações sobre o controverso Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla em inglês), proposto entre a União Europeia e os EUA. Tanto a França como a Alemanha disseram que querem ter acesso à resolução de litígios entre investidores e Estados, ítem removido do tratado TTIP atualmente em discussão.

Os investidores têm usado esse sistema não apenas para entrar com ações judiciais por indenizações, diante de alegada expropriação de terra e fábricas, mas também com relação a um amplo leque de medidas governamentais, inclusive regulações ambiental e social, que ele dizem infringir seus direitos. Multinacionais entraram com ação para recuperar dinheiro que já tinham investido, mas também por alegados lucros perdidos e pela “expectativa de lucros futuros”. O número de ações contra países no ICSID está agora em torno de 500 – e esse número está crescendo à média de um caso por semana. As quantias concedidas em danos são tão grandes que os fundos de investimento têm tomado conhecimento: reivindicações das corporações contra os Estados são agora vistas como ativos para investimentos ou para servir como garantia para garantir empréstimos multimilionários. Cada vez mais, as empresas estão usando a ameaça de uma ação judicial no ICSID para exercer pressão sobre os governos.

“Não tinha absolutamente ideia de que isso aconteceria”, disse Parada. Sentado numa sala de reuniões com paredes de vidro em seu escritório de advocacia Foley Hoag, ele fez uma pausa, procurando a palavra certa para descrever o que aconteceu na sua área. “Desonesto”, decidiu, finalmente. “Acho que o sistema de arbitragem investidor-Estado foi criado com boas intenções, mas na prática tornou-se completamente desonesto.”

* * *

A calma cidade de Moorburg, na Alemanha, encontra-se logo do outro lado do rio, a partir de Hamburgo. Passando a igreja do século XVI e prados cobertos de flores silvestres, duas chaminés enormes vomitam um fluxo constante de fumaça cinza e espessa no céu. Trata-se da Kraftwerk Moorburg, uma nova usina de energia movida a carvão – o controverso vizinho de porta da aldeia. Em 2009, ela foi objeto de uma ação investidor-Estado no valor de 1,4 bilhão de euros pela Vattenfall, a gigante energética sueca, contra a República Federal da Alemanha. É um exemplo original de como esse poderoso sistema legal internacional, pensado para proteger investidores estrangeiros em países em desenvolvimento, está agora sendo usado também para desafiar ações de governos europeus.

Desde os anos 1980, investidores alemães processaram dezenas de países, inclusive Gana, Ucrânia e Filipinas, na corte do Banco Mundial em Washington. Mas, com o caso Vattenfall, a Alemanha viu-se no banco dos réus pela primeira vez. A ironia não passou despercebida àqueles que consideravam a Alemanha a avó da arbitragem investidor-Estado: foi um grupo de empresários alemães, no final dos anos 1950, quem primeiro concebeu uma maneira de proteger os seus investimentos no exterior, à medida em que uma série de países em desenvolvimento conquistava a independência das potências coloniais europeias. Liderados pelo presidente do Deutsche Bank, Hermann Abs, chamaram a sua proposta de uma “carta magna internacional” para os investidores privados.

Nos anos 1960, a ideia foi assumida pelo Banco Mundial, para o qual esse sistema poderia ajudar os países mais pobres do mundo a atrair capital estrangeiro. “Estou convencido”, disse à época o presidente do Banco Mundial, George Woods, “de que aqueles …. que adotarem como política nacional um [ambiente] amigável para o investimento internacional – e isso significa, para não mudar nenhuma palavra, dar aos investidores estrangeiros uma oportunidade justa de obter lucros atraentes – vão atingir seus objetivos de desenvolvimento mais rapidamente do que aqueles que não o fizerem”.

No encontro anual do Banco Mundial em Tóquio, em 1964, aprovou-se uma resolução para montar um mecanismo para lidar com casos de investidores contra o Estado. A primeira linha do preâmbulo da Convenção do ICSID define seu objetivo como de “cooperação internacional para desenvolvimento econômico”. Havia oposição acirrada a esse sistema desde o começo, com um bloco de países em desenvolvimento alertando que poderia sabotar sua soberania. Um grupo de 21 países – quase todas as nações latino-americanas, mais Iraque e Filipinas – votou contra a proposta em Tóquio. Mas, a despeito disso, o Banco Mundial seguiu adiante. Andreas Lowenfeld, um acadêmico de direito norte-americano que esteve envolvido em algumas dessas primeiras discussões, afirmou mais tarde: “Acredito que essa foi a primeira vez que uma grande resolução do Banco Mundial foi forçada, apesar de tanta oposição.”

Desenvolvimento global continua a ser a meta afirmada pelo ICSID. “A ideia”, disse a atual secretária-geral da instituição, Meg Kinnear, “é que, quando os investidores sentem que há um mecanismo justo e imparcial, eles nunca entram em disputa – então, terão muito mais confiança, o que ajudará a promover investimento … e quando você investe num país obviamente leva emprego, renda, tecnologia e assim por diante.”

Mas agora os governos estão descobrindo, muito tarde, o verdadeiro preço dessa confiança. A instalação da Kraftwerk Moorburg foi polêmica muito antes de o caso ser arquivado. Durante anos, os moradores locais e os grupos ambientalistas se opuseram à sua construção, em meio à crescente preocupação com as mudanças climáticas e o impacto que o projeto teria sobre o rio Elba. Em 2008, a Vattenfall recebeu garantia de uso de água para seu projeto de Moorburg. Mas, em resposta à pressão local, as autoridades impuseram condições ambientais estritas para limitar o uso da água e seu impacto sobre os peixes.

A Vattenfall processou Hamburgo na corte local. Mas, como investidor estrangeiro, ela tinha também direito a entrar com o caso no ICSID. Essas medidas ambientais, ela disse, eram tão estritas que constituíam uma violação dos direitos garantidos pelo Tratado de Escritura de Energia, um acordo multilateral de investimento assinado por mais de 50 países, incluindo a Suécia e a Alemanha. A empresa alegava que as condições ambientais firmadas na permissão eram tão severas que tornaram a usina anti-econômica e constituíram atos de expropriação indireta.

“Foi uma surpresa completa para nós”, disse rindo o líder do Partido Verde local, Jens Kerstan, numa reunião em seu ensolarado escritório em Hamburgo no ano passado. “Tanto quanto eu saiba, havia alguns [tratados] para proteger empresas alemãs no mundo em desenvolvimento ou em ditaduras — mas que uma companhia europeia possa processar a Alemanha, isso foi uma total surpresa para mim.”

O caso Vattenfall versus Alemanha acabou num acordo em 2011, depois que a empresa venceu o caso num tribunal local e recebeu uma nova permissão de uso de água para suas instalações em Moorburg. Foram rebaixados significativamente os padrões ambientais antes impostos, de acordo com especialistas legais, permitindo o uso de mais água do rio e enfraquecendo medidas para proteger os peixes. A Comissão Europeia entrou no caso, levando a Alemanha à Corte de Justiça da UE sob a alegação de que a usina de carvão Moorburg violou as leis ambientais da UE ao não fazer mais exigências para reduzir o risco e proteger as espécies animais, inclusive salmão, que passam perto da usina ao migrar do Mar do Norte.

Um ano depois que o caso Moorburg foi encerrado, a Vattenfall entrou com outra queixa contra a Alemanha, desta vez sobre a decisão do governo federal de eliminar progressivamente o uso da energia nuclear. Este segundo processo – do qual há muito pouca informação disponível de domínio público, a despeito de relatos de que a companhia está tentando tirar 4,7 bilhões de euros dos contribuintes alemães – ainda está correndo. Cerca de um terço de todos os casos encerrados no ICSID são considerados como “acordos”, o que – como mostra a disputa do Moorburg – pode ser muito lucrativo para investidores, embora seus termos sejam raramente revelados.

Há agora milhares de acordos de investimento internacional e leis de livre comércio, assinados pelos Estados, que dão a companhias estrangeiras acesso ao sistema de disputas investidor-Estado, no caso de decidirem desafiar decisões governamentais. As disputas em geral são resolvidas por painéis de três árbitros. Cada lado seleciona um, e o terceiro é definido em acordo entre as partes. As decisões são tomadas por maioria de votos, e são soberanas e irrecorríveis. Não há processo de apelação – apenas uma possibilidade de anulação que pode ser usada em termos muito limitados. Se os estados não pagam após a decisão, os seus ativos ficam sujeitos a apreensão em quase todos os países do mundo (a empresa pode entrar nos tribunais locais com uma ordem de execução). Embora um tribunal não possa forçar um país a mudar suas leis, ou dar autorização a uma empresa, o risco de danos maciços pode, em alguns casos, ser suficiente para persuadir um governo a reconsiderar suas ações. A possibilidade de processos de arbitragem pode ser usada para encorajar os Estados a entrar em negociações para acordos relevantes.

Na Guatemala, documentos internos do governo obtidos por meio da Lei de Liberdade de Informação do país mostram como o risco de um desses casos pesou significativamente numa decisão estatal de não desafiar uma controversa mina de ouro, a despeito de protestos de seus cidadãos e uma recomendação de Comissão Interamericana de Direitos Humanos para que ela fosse fechada. Tal ação, os documentos alertavam, poderia provocar a companhia, propriedade da gigante mineradora canadense Goldcorp, a acionar o ICSID ou invocar cláusulas do Acordo de Livre Comércio Centro-Americano (Cafta) a ganhar “acesso à arbitragem internacional e subsequente reivindicação de danos contra o Estado”. A mina teve permissão de continuar aberta.

À medida em que as reivindicações feitas pelas empresas crescem, parece cada vez mais provável que os enormes riscos financeiros associados com a arbitragem investidor-Estado irão efetivamente garantir a investidores estrangeiros um veto sobre as decisões governamentais.

* * *

Mesmo quando as empresas fracassam, em suas ações contra Estados, há outras vantagens a ser buscadas. Em 2004, passou a valer, na África do Sul pós-apartheid, a nova Lei de Desenvolvimento de Recursos Minerais e de Petróleo (MPRDA, na sigla em inglês). Junto com uma nova carta de mineração, a lei procurou corrigir as desigualdades históricas no setor de mineração, em parte ao obrigar as empresas a fazer parceira com cidadãos que sofreram sob o regime do apartheid. O novo sistema rescindiu todos os direitos anteriormente detidos pela mineração e obrigou as empresas a solicitar uma nova licença, para continuar suas operações. Também instituiu uma participação obrigatória para negros sul-africanos, de 26%, nas ações de empresas de mineração do país. Dois anos depois, um grupo de investidores italianos, que juntos controlam a maioria da indústria sul-africana de granito, entrou com uma queixa no marco de disputas investidor-Estado contra a África do Sul. O novo regime de mineração do país, argumentaram, havia expropriado ilegalmente seus investimentos e os tratou injustamente. Demandavam uma indenização de 350 milhões de dólares.

O caso foi apresentado por membros das famílias Foresti e Conti, proeminentes industriais da Toscana, e pela Finstone, uma holding sediada em Luxemburgo. Eles citaram dois tratados bilaterais de investimento, ambos assinados no fim dos anos 1990, durante a presidência de Nelson Mandela. Jason Brickhill, advogado do Centro de Recursos Jurídicos com sede em Johannesburgo, disse que o governo pós-apartheid parecia ver esses acordos “mais como atos de boa vontade diplomática do que compromissos jurídicos sérios, com consequências econômicas de longo alcance potencialmente graves”.

Durante aquele tempo, funcionários eram convidados para reuniões na Europa, disse ele, “e havia todo tipo de discussão sobre a direção comercial e econômica [da África do Sul]. Parte disso devia-se à expectativa de que se estava celebrando um tratado de investimento – mas os sul-africanos não tinham entendimento real do que estavam convertendo em lei”. Peter Draper, ex-funcionário do Departamento de Comércio e Indústria Sul-Africano, apresenta os fatos mais duramente: “Estávamos essencialmente entregando os pontos, sem fazer qualquer pergunta, ou proteger o espaço político crucial.”

O caso da empresa contra a África do Sul arrastou-se por quatro anos, antes de terminar abruptamente quando o grupo italiano desistiu de suas reivindicações e o tribunal ordenou que contribuíssem com 400 mil euros para as custas da África do Sul. Na época, um comunicado de imprensa do governo celebrou o ocorrido como “final bem sucedido” – apesar de que a África do Sul ainda teve 5 milhões de euros de taxas jurídicas não reembolsadas. Mas os investidores clamavam por uma vitória mais significativa: a pressão do caso, disseram, permitiu que fizessem um negócio sem precedentes com o governo da África do Sul. Isso possibilitou a suas empresas transferir apenas 5% da propriedade para sul-africanos negros – ao invés dos 26% determinados pela autoridade estatal de mineração. “Nenhuma outra empresa de mineração na África do Sul foi tratada tão generosamente desde o advento do [novo regime de mineração]”, gabou-se então Peter Leon, um dos advogados dos investidores.

O governo parece ter concordado com esse acordo, que vai contra o espírito das reparações pós-apartheid na África do Sul, para prevenir uma enchente de outras queixas contra si. “Se o mérito do caso fosse decidido contra o governo, pensaram, ‘não tem jeito, vamos nos afundar’. E penso que é por isso que aceitaram concordar com aquela resolução”, disse Jonathan Veeran, outro advogado da empresa, numa entrevista em seu escritório de Joanesburgo. Seus clientes, disse, “estavam muito felizes com o resultado”.

* * *

Um pequeno número de países está agora tentando desembaraçar-se das amarras do sistema de litígio entre investidores e Estados. Um deles é a Bolívia, onde milhares de pessoas tomaram as ruas da terceira maior cidade do país, Cochabamba, em 2000, para protestar contra um aumento dramático nas tarifas de água por uma empresa privada de propriedade da Bechtel — uma corporação de engenharia civil dos EUA. Durante as manifestações, o governo boliviano resolveu por fim à concessão dada à companhia. Ela então entrou com uma ação de 50 milhões de dólares contra a Bolívia no ICSID. Em 2006, depois de uma campanha pelo arquivamento do caso, a empresa concordou em aceitar um pagamento simbólico de menos de um dólar.

Após esse caso, a Bolívia cancelou acordos internacionais que havia assinado com outros Estados, quando davam acesso a esses tribunais para seus investidores. Mas sair do sistema não é coisa fácil. A maioria desses acordos internacionais têm cláusulas de caducidade, sob as quais suas disposições permanecem em vigor por mais 10 ou mesmo 20 anos, mesmo que os próprios tratados sejam cancelados.

Em 2010, o presidente boliviano, Evo Morales, nacionalizou o maior fornecedor de energia do país, a Empresa Elétrica Guaracachi. A investidora em energia inglesa Rurelec, que indiretamente detinha 50,001% das ações da companhia, levou a Bolívia para a corte permanente de arbitragem em Haia, pedindo 100 milhões de dólares em compensação. Ano passado, foi determinado que a Bolívia pagasse 35 milhões de dólares à Rurelec; depois de meses de negociações, os dois lados acordaram num pagamento de pouco mais de 31 milhões de dólares, em maio de 2014. A Rurelec, que recusou-se a comentar o assunto para este artigo, celebrou o prêmio com uma série de press releases em seu site. “Minha única tristeza é que tenha demorado tanto para chegar ao acordo”, disso o CEO do fundo, em uma de suas declarações. “Tudo o que queríamos era uma negociação amigável e um aperto de mão do presidente Morales”.

Até mesmo Estados que inicialmente rejeitaram a introdução do sistema de disputa investidor-Estado na reunião do Banco Mundial em 1964 assinaram, de lá para cá, dezenas de acordos que expandem seu alcance. Com o rápido crescimento desses tratados – há hoje mais de 3 mil em vigor – desenvolveu-se uma indústria de especialistas em aconselhar as empresas sobre como explorar melhor os tratados que dão acesso ao sistema de resolução de disputas, e como estruturar seu negocio para tirar vantagem das diferentes proteções oferecidas. É um setor lucrativo: só os honorários são, em média, de 8 milhões de dólares por caso, mas já chegaram a mais de 30 milhões de dólares em algumas disputas. Os honorários de advogados começam em 3 mil dólares por dia, mais despesas. Embora não haja nada equivalente a uma ajuda legal para Estados que estão tentando se defender nesses processos, as corporações têm acesso a um crescente grupo de financiadores de terceiros, interessados em oferecer recursos para seus casos contra os Estados, geralmente em troca de uma parte de eventual ganho.

Cada vez mais, essas ações estão se tornando valiosas mesmo antes que as queixas tenham um resultado. Depois de entrar na justiça contra a Bolívia, a Rurelec levou seu caso ao mercado e garantiu um empréstimo corporativo de milhões de dólares, usando sua disputa com a Bolívia como garantia, expandindo seus negócios. Ao longo dos últimos dez anos, e particularmente desde a crise financeira global, um número crescente de fundos de investimento especializados passou a levantar dinheiro através desses casos, tratando as reclamações multimilionárias das empresas contra os Estados como uma nova “classe de ativos”.

Um dos maiores, entre estes fundos que se especializaram em apoiar as ações de corporações contra governos, a Burford Capital, tem sua sede a apenas alguns quarteirões da estação de trem East Croydon, Londres, no quinto andar de um edifício de tijolo vermelho comum. As empresas raramente informam quando seus casos estão sendo financiados por um desses investidores, mas no caso da Rurelec contra a Bolívia a Burford divulgou um press release triunfante celebrando seu envolvimento “inovador”. Tipicamente, patrocinador deste tipo concordam em dar respaldo a queixas das companhias contra Estados em troca de participação em qualquer recompensa eventual. Nesse caso, a Burford deu à Rurelec um empréstimo de 15 milhões de dólares, usando a queixa contra a Bolívia como garantia.

“A Rurelec não precisa de capital para pagar seus advogados. Ao contrário, precisa de capital para ampliar seu negócio”, disse Burford numa declaração. “Essa é uma boa demonstração de que os benefícios de financiar litígio vão bem além de simplesmente ajudar a pagar taxas legais”, acrescentou o executivo-chefe, “e em vários casos podem oferecer um método alternativo efetivo de financiamento para ajudar as empresas a alcançar suas metas estratégicas”. Foi altamente gratificante também para a Burford: ela anunciou ter obtido, com a disputa, um lucro líquido de 11 milhões de dólares.

Um porta-voz da Burford explicou depois: “a Burford não financiou a queixa de arbitragem da Rurelec, que já corria havia mais de dois anos, antes do nosso envolvimento com a companhia. Antes, nós fornecemos uma linha de crédito corporativo para permitir à Rurelec expandir suas operações na América do Sul, mas nós contamos com o pedido de arbitragem (um ativo contingente) para ajudar no pagamento do empréstimo”.

Desde o início, parte da justificativa para o sistema internacional de disputa investidor-Estado foi criar um “fórum neutro” para a resolução de conflitos, com os investidores desistindo do direito de procurar apoio diplomático em seus países de origem quando apresentam casos como esse. Mas documentos obtidos em resposta a um pedido baseado em leis de acesso à informação revelam que a Rurelec também pôde confiar no governo britânico, que interveio ativamente para apoiar seu caso.

O relatório do caso, de 44 páginas, inclui dezenas de emails e briefings internos produzidos de maio de 2010 a junho de 2014. Vários destes referem-se explicitamente ao lobby britânico em favor da companhia. Um email ao embaixador britânico da Bolívia, Ross Denny, afirma: “Nosso constante lobby de alto nível, em benefício da Rurelec, ajudou a demonstrar a seriedade com que cuidamos dos interesses de nossas companhias”. Um outro registra, simplesmente: “A Rurelec necessita da nossa ajuda.”

Parece que a embaixada britânica sabia que o sistema de arbitragem deve ser imparcial. Um email, aparentemente sobre como responder a uma pergunta de uma pessoa do público, estabelece: “Se todas as coisas são iguais, nossa linha seria que o governo britânico não se envolvesse em processo judicial, como querem os tratados de investimento que assinamos.” A mensagem continua: “Se o ministério dos Negócios Estrangeiros e da Commonwealth [FCO, Foreign and Commonwealth Office] teve um diálogo permanente com a empresa sobre este tema, provavelmente seria mais adequado responder com algumas linhas genéricas sobre nós e os benefícios dos tratados de investimento.”

* * *

El Salvador já gastou mais de 12 milhões de dólares defendendo-se contra a Pacific Rim, mas apesar de ter derrotado a companhia numa ação de 284 milhões de dólares, nunca se recuperará esse valor. Durante anos, grupos de protesto salvadorenhos apelaram ao Banco Mundial para iniciar uma revisão aberta e pública do ICSID. Até agora, tal estudo não começou. Nos últimos anos, uma série de ideias têm sido debatidas para reformar o sistema internacional de controvérsias investidor-Estado – a adoção de “o perdedor paga os custos”, por exemplo, ou mais transparência. A solução pode estar na criação de um sistema de recursos, de modo que os julgamentos controversos possam ser revistos.

No ano passado, David Morales, ouvidor de direitos humanos de El Salvador (um cargo estatal criado como parte do processo de paz depois da guerra civil do país, que durou entre 1979 a 1992) colocou um anúncio de página inteira no jornal nacional La Prensa Gráfica, convocando o governo a rever todos os tratados de investimento internacional que assinou, com vistas a renegociá-los ou cancelá-los. Luis Parada, representante de El Salvador em sua disputa com a Pacific Rim, concorda que esse seria um passo inteligente: “Eu pessoalmente não penso que, nesses tratados, os países tenha mais vantagens que riscos, ao submeterem-se a arbitragem internacional.”

Outros países já decidiram reduzir suas perdas, e tentam sair desses tratados. Pouco tempo depois de ter resolvido o processo das empresas de mineração estrangeiras contra suas novas regras pós-apartheid, a África do Sul começou a rever muitos de seus próprios acordos de investimento.

“O que era preocupante para nós era que você poderia ter uma arbitragem internacional – três indivíduos tomando uma decisão – com riscos de anular o que era um projeto legislativo na África do Sul, adotado democraticamente. De alguma forma, esse painel de arbitragem podia levantar a questão”, disse Xavier Carim, um ex-deputado que era diretor geral do departamento de Comércio e Indústria da África do Sul. “Estava muito, muito claro que esses tratados são abertos para amplas interpretações pelos paineis, ou por investidores procurando desafiar qualquer medida governamental, com a possibilidade de um pagamento significativo no final”, disse Carim, que é agora representante da África do Sul na Organização Mundial do Comércio. “O fato cru é que esses tratados dão muito poucos benefícios e só trazem riscos.”

Antes de agir para rever seus tratados, o governo sul-africano encomendou um estudo interno para ajudar a determinar se estes compromissos de fato ajudaram a aumentar os investimentos estrangeiros. “Não havia relação entre assinar tratados e receber investimentos”, explicou Carim. “Tivemos grandes investimentos dos EUA, Japão, Índia e diversos outros países com quem não temos tratados de investimentos. As companhias não investem ou deixam de investir num país porque ele tem ou não tem um tratado bilateral de investimento. Eles investem se há retorno a ser obtido.”

O Brasil nunca assinou nada desse sistema [1] – não entrou num único tratado que inclua provisões para disputas investidor-Estado – e apesar disso não tem tido problemas para atrair investimento estrangeiro.

Parada disse que é necessário “um amplo consenso de determinados Estados” para rever verdadeiramente nesse sistema. “Os Estados que criaram o sistema são os únicos que podem consertá-lo”, disse. “Não vi, até hoje, um número suficiente de países dispostos a isso… menos ainda, um amplo consenso a favor da mudança. Mas ainda espero que aconteça”.

==

[1] No entanto, algumas das propostas apresentadas ao acordo de “livre” comércio entre Mercosul e União Europeia, em fase de negociação, preveem mecanismos de solução de controvérsias entre empresas e Estados semelhantes aos mencionados neste artigo. Para informações mais completas, leia texto da Rebrip — Rede Brasileira pela Integração entre os Povos. [Nota de “Outras Palavras”]