Arquivos da categoria: Poesia

Lenio Streck: pacote retroage mais de mil anos

Por Lênio Streck | Via Zero Hora

O pacote contra a corrupção que o Ministério Público Federal apresenta dá o que pensar. Por que deixaram de fora a legalização da tortura? Afinal, ela é eficiente. Os procuradores se empolgaram. Teologia juspunitiva. O “pacote” é tão cheio de inconstitucionalidades, que, muitas delas, o porteiro do Supremo Tribunal invalida. Até quando acertam propondo medidas contra o caixa 2, multa para bancos e recuperação de ativos produtos de crimes, acabam colocando parágrafos que violam direitos.

Mas meu papel, aqui, é de jurista e não de torcedor. Ninguém é a favor da corrupção, a não ser o corrupto, é claro. Um país não progride com impunidade. Mas também não progride com supressão de garantias. Ah, nos EUA é assim. Comparação falsa. Sistemas diferentes. Lá erros dão filme. Atire a primeira pedra quem, em Pindorama, não tenha sido vítima (ou não saiba) de algum erro judiciário. E na Alemanha? Não, não é assim.

O pacote propõe uma “eugenia cívica”. O agente público deve se submeter a testes que apontem se é propenso a cometer crimes. Como? Já existe tal ciência? Mais: e se o “teste” for positivo, será meio idôneo de prova, ainda que o acusado a tenha produzido contra si mesmo? E será aplicado nos concursos de juiz e procurador? E na indicação de ministros? Não são agentes públicos?

O pacote retroage mais de mil anos ao restringir a possibilidade de pedido liminar em habeas corpus. Mais: o pensamento mágico — corrupção terá pena maior que homicídio. Código Penal reduzido a pó. O pacote também cria o “informante confidencial”, que só vale para corrupção. E em homicídio, não?

Faltam páginas para elencar os erros. A maioria das medidas é inconstitucional. Assalto não é crime hediondo, mas a gorjeta para o guarda poderá ser. Se o pai paga dívida de filho servidor público endividado, pode ser processado porque é um terceiro enriquecendo ilicitamente o rebento. O que mais dizer? E olha que coloquei só 10% das ilicitudes propostas pelo MPF. E nem falei das provas ilícitas.

Rússia propõe aos países BRICS forma eficaz de cooperação no setor industrial

Via Defesa.net

Encontro oficial em Moscou contou com a presença de Carlos Gadelha, ministro brasileiro de Indústria e Comércio, e de representantes da Rússia, Índia, China e África do Sul.

O ministro de Indústria e Comércio da Federação da Rússia, Denis Mánturov, propôs expandir o formato de cooperação no setor industrial dos países BRICS por meio da adoção de mecanismos cuja eficácia já foi comprovada pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI) e pela União Econômica Eurasiática (UEE).

A proposta foi apresentada em Moscou durante encontro oficial dos ministros de Indústria e Comércio do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Juntos, os países BRICS detêm 1/3 de todo o volume da produção industrial mundial.

“Nosso potencial industrial é significativo e isso explica a necessidade de nos encontrarmos. A cooperação no setor entre as nações que compõem o grupo ainda não está plenamente desenvolvida e precisamos atuar neste sentido”, afirmou Mánturov.

O ministro propôs que os países BRICS adotem uma combinação de princípios e normas reais já utilizadas por associações e organizações internacionais – como os instrumentos da ONUDI e UEE, por exemplo – para não apenas ampliar a cooperação industrial, como também abrir novas oportunidades comerciais e de investimentos.

Apesar da situação econômica atual da Federação da Rússia, Mánturov destacou que a cooperação do país com organizações internacionais continua a se desenvolver ativamente. Apenas em 2014, a ONUDI executou 7 projetos industriais no Brasil, Bielorrússia, Quirguistão e Armênia, sendo todos com fundos aportados pela Rússia.

Entre os projetos, destaque para a associação com o Brasil na esfera de tecnologia e de defesa para estimular iniciativas de pequenas e médias empresas (PMEs). A ação mostrou que o uso de mecanismos reais da ONUDI pode ser um instrumento adicional para conseguir os mesmos objetivos que almejam os BRICS.

“Somente a integração econômica, a adoção de princípios e normas e a fusão de todos os objetivos e iniciativas dos países BRICS nos permitirão instaurar o poderoso fundamento para o desenvolvimento econômico, estratégia esta que tem tido êxito no mundo globalizado.

E a Rússia já deu o primeiro passo neste processo ao organizar este encontro”, afirma Carlos Gadelha, ministro de Indústria e Comércio do Brasil. Com o objetivo de atingir um desenvolvimento industrial constante nos BRICS, o ministério russo sugeriu também participar do programa europeu científico-técnico “Eureka”, criado para o intercâmbio de tecnologias avançadas entre as distintas áreas do setor empresarial e acadêmico em mais de 40 países, permitindo assim um novo nível de cooperação internacional e a conquista de novos mercados, além da criação de projetos trilaterais.

“Os países BRICS possuem grande potencial para o desenvolvimento de projetos trilaterais que, por sua vez, se encaixam na política industrial do Brasil. Será possível unir as capacidades russas, brasileiras e de qualquer outro país do grupo para o desenvolvimento de iniciativas nas áreas de infraestrutura, defesa, matérias-primas, indústria química, gás e petróleo, além dos setores automotivo e de saúde. Ao complementar nossas capacidades, poderemos sair em conjunto ao mercado global”, explica Gadelha.

Plataforma dos BRICS

De acordo com Mánturov, a criação de uma plataforma de tecnologia industrial consolidada BRICS-ONUDI não apenas permitirá introduzir todos os instrumentos já configurados para obter maior rendimento dos projetos globais, como também estabelecer uma base real para ampliar iniciativas bilaterais a nível mundial.

A formação desta plataforma seria feita com suporte do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) dos BRICS. Os fundos permitirão financiar projetos de cooperação econômica, comercial e industrial nas áreas de infraestrutura e desenvolvimento sustentável. Outros setores, como a indústria aeroespacial, automotiva, farmacêutica e química também apresentam potencial. O fortalecimento da economia real irá criar novos postos de trabalho, além de ampliar o nível de vida da população.

Resultados

O encontro de ministros em Moscou possibilitou a assinatura de um memorando de entendimento para a indústria de mineração, além de uma declaração de cooperação no setor industrial. Além disso, foi firmado o roteiro para a cooperação econômica-comercial e de investimentos dos BRICS até 2020.

“A comitiva brasileira irá avaliar as propostas sugeridas pela Rússia para que, juntos, possamos oferecer uma carteira de projetos trilaterais e potenciais com suporte do NBD. Acredito que teremos isso a partir do primeiro trimestre de 2016”, concluiu o ministro brasileiro.

Movimentos pedem federalização das investigações sobre chacinas em São Paulo

Por Patrícia Cruz | Via Agência Brasil

Funcionários limpam chão de bar onde foi realizada chacina em Osasco (Avener Prado/Folhapress)

Movimentos sociais pediram nessa terça-feira (25), em uma audiência pública em Osasco (SP), que as investigações sobre as chacinas, que provocaram a morte de 18 pessoas nas cidades de Osasco e Barueri, ocorridas no dia 13 de agosto, sejam federalizadas. Um dos movimentos, o Coletivo Contra a Redução da Idade Penal de Osasco, encaminhou uma nota ao Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) solicitando que o pedido seja encaminhado ao Ministério da Justiça.

Julian Vicente Rodrigues, coordenador de formação regional São Paulo do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) defendeu também a federalização das investigações. “O MNDH aprovou, no dia em que ocorreram as chacinas, duas ações: uma é pedir que o ministro [da Justiça] José Eduardo Cardozo designe que a Polícia Federal acompanhe e colabore com as investigações e a outra solicita ao Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, que peça a federalização dos crimes porque achamos este é um crime muito emblemático, com repercussões que podem ser inclusive internacionais nas cortes da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da ONU (Organização das Nações Unidas)”, disse ele durante a audiência pública.

A audiência pública ocorreu na tarde desta terça-feira em um auditório da prefeitura de Osasco. Ela  foi organizada pelo Condepe, com a participação de movimentos sociais, ouvidorias da Defensoria Pública e da Polícia Militar, policiais militares e parentes de vítimas de chacinas no estado de São Paulo.

O presidente do Condepe, Rildo Marques de Oliveira, disse que o conselho pode analisar o pedido sobre as federalizações, mas o encaminhamento só seria possível se houver falência das investigações atuais. “Tem que reconhecer a falência, a incapacidade de se investigar, a impossibilidade de que os crimes sejam apurados”, afirmou à Agência Brasil.

Nesse caso, segundo ele, caberia à Procuradoria-Geral da República decidir sobre a possibilidade da investigação das chacinas ser federalizada. “Os movimentos sociais podem encaminhar esse pedido. Mas hoje, baseados nos fatos que temos aqui, dificilmente o procurador-geral da República vai conceder [a federalização] se ele não entender que houve algum vício, uma endemia ou epidemia na Justiça, aqui, que impossibilita isso [a investigação]”, disse.

Para Débora Maria da Silva, representante do Movimento Mães de Maio, as chacinas em Osasco e Barueri são resultado da impunidade de outras chacinas ocorridas em São Paulo. Débora perdeu um filho durante os ataques de maio de 2006 em todo o estado. “Se tivesse havido punição em maio de 2006, não haveria as mães de Osasco”, afirmou, lembrando que “as mães são as verdadeiras vítimas dessa guerra não declarada”. Segundo ela, para evitar novas chacinas é preciso “fazer uma investigação severa” e que os responsáveis sejam “punidos exemplarmente”.

Lana Batista, esposa de Mydras Schimdt, que morreu em uma chacina ocorrida este ano na sede da Pavilhão 9, uma das torcidas organizadas do Corinthians, quando oito pessoas foram assassinadas, criticou a impunidade. “Gostaria de respostas porque, se tivessem ido a fundo [na investigação da Pavilhão 9], não teria acontecido essa chacina de Osasco. É preciso acabar com esses grupos de extermínio”, disse.

Já Zilda Maria de Paula perdeu o filho único, Fernando Luiz de Paula, conhecido como Abuse, 34 anos, na chacina de Osasco. “Ele estava em um bar, e eu estava em casa e não vi nada. Me chamaram porque tinham socorrido ele ainda vivo. Quando fui ao pronto-socorro, ele já estava morto”, disse, destacando que o filho não tinha passagem pela polícia. Zilda não acusa ninguém pelo crime. “Não sei quem foi. Está na mão da Justiça. Sou um grão de areia pequeno. Em toda entrevista que dei, não estou acusando ninguém. Nem cobrar do governo ou do secretário de segurança estou cobrando”, afirmou.

Representando a Polícia Militar, o coronel Ernesto Puglia Neto disse que o primeiro sentimento que surgiu para a corporação quando informada sobre os crimes foi de que ela poderia ter feito algo para evitar que as mortes acontecessem. “A primeira consternação nossa é o que deixamos de fazer para que acontecesse isso. Abrimos uma sindicância. Todas as unidades de serviço do dia estão sendo analisadas. Todas as viaturas têm GPS, e posso descobrir o que cada viatura fez [no dia]”.

De acordo com o coronel, a corregedoria da corporação está acompanhando o processo. Ele lamentou o sofrimento das famílias que perderam os parentes. “A segunda parte é a tragédia que abala as famílias e a confiança entre polícia e sociedade. Para nós, esse é um fardo histórico grande de carregar. Não somos composto por bandidos, mas, infelizmente, tem bandidos que envergam temporariamente nossa farda”, disse durante a audiência pública.

Segundo o militar, entre os anos 2001 e 2015, a corporação demitiu 4.622 policiais militares. Ele informou ainda que, no ano passado, 45 policiais militares, sendo 36 ativos e nove inativos, morreram em serviço ou de folga e 103 foram feridos. O coronel disse que este ano houve “148 ocorrências em que policiais militares foram atacados, mas não tivemos 148 chacinas”.

Delírio e fome de um pequeno burguês

Por Vitor Reis

agora tudo parado
de que serviu o
escapamento?
eficaz apenas
a saída de fumaça

Vendo tudo
enquadrado
pela janela
do carro

o acidente
previsto em curso
era programado
é quem financia-dor
que agoniza
e é preso
nas ferragens
que se confunde
às engrenagens
em sobrevida

o homem novo
foi/é atualizado
robô que é
roubado

seu miocárdio que pulsa
terceirizado e tolera
o intolerável

não sente mais
insiste, existe,
imita e afinca
4330 ao projeto
de lei faminta

em bulimia coerciva
regurgita as migalhas
como estratégia oferecida
a massa que produz
o bolo contida

***

Vitor Reis é discente do curso de História da UFF.

Galeano: A aventura humana

Por Eduardo Galeano | Via Le Monde Diplomatique

Eduardo Galeano em Cuba. Foto de Daniel Pessah

Em seu livro Espejos, Eduardo Galeano descreve alguns momentos fundadores da saga da humanidade. E nos adverte de que o faz “do ponto de vista dos que não saíram na foto”. Os excertos selecionados pelo próprio autor o confirmam.

Os espelhos estão cheios de gente.

Os invisíveis nos vêem.

Os esquecidos nos lembram.

Quando nos vemos, os vemos.

Quando nos vamos, eles se vão?

 

Este livro foi escrito para que não partam.

Nestas páginas unem-se o passado

e o presente.

Renascem os mortos,

os anônimos têm nome:

os homens que ergueram os palácios e os templos de seus amos;

as mulheres, ignoradas por aqueles que ignoram o que temem;

o sul e o oriente do mundo, desprezados por aqueles que desprezam o que ignoram;

os muitos mundos que o mundo contém e esconde;

os pensadores e os que sentem;

os curiosos, condenados por perguntar, e os rebeldes e os perdedores e os lindos loucos que foram e são o sal da terra

 

Fundação da poluição

Os pigmeus, que têm corpo pequeno e memória grande, recordam os tempos de antes do tempo, quando a terra estava acima do céu.

Da terra caía sobre o céu uma chuva incessante de pó e de lixo, que sujava a casa dos deuses e lhes envenenava a comida.

Os deuses estavam, havia uma eternidade, suportando essa descarga sebosa, quando sua paciência acabou.

Enviaram um raio, que partiu a terra em dois. E através da terra aberta lançaram para o alto o sol, a lua e as estrelas, e por esse caminho subiram eles também. E lá em cima, distante de nós, a salvo de nós, os deuses fundaram seu novo reino.

Desde então, estamos embaixo.

Fundação da beleza

Estão ali, pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas.

Estas figuras, bisões, alces, ursos, cavalos, águias, mulheres, homens, não têm idade. Nasceram há milhares e milhares de anos, mas nascem de novo a cada vez que alguém as olha.

Como eles conseguiram, nossos remotos avós, pintar de maneira tão delicada? Como eles conseguiram, esses brutos que de mão limpa lutavam contra as feras, criar figuras tão cheias de graça? Como eles conseguiram desenhar essas linhas voadoras que escapam da rocha e se vão para o ar? Como eles conseguiram …?

Ou seriam elas?

Fundação da arte de te desenhar

Em algum leito do golfo de Corinto, uma mulher contempla, à luz do fogo, o perfil de seu amante adormecido.

Na parede, reflete-se a sombra.

O amante, que jaz ao seu lado, partirá. Ao amanhecer partirá para a guerra, partirá para a morte. E também a sombra, sua companheira de viagem, partirá com ele e com ele morrerá.

Ainda é noite. A mulher recolhe um tição entre as brasas e desenha, na parede, o contorno da sombra.

Esses traços não partirão.

Não a abraçarão e ela sabe disso. Mas não partirão.

Fundação literária do cão

Argos foi o nome de um gigante de cem olhos de uma cidade grega há quatro mil anos.

Também se chamava Argos o único que reconheceu Odisseu, quando chegou, disfarçado, a Ítaca.

Homero nos contou que Odisseu regressou, ao final de muita guerra e muito mar, e se aproximou de sua casa fazendo-se passar por um mendigo enfermiço e andrajoso.

Ninguém se deu conta de que ele era ele.

Ninguém, salvo um amigo que não sabia mais latir, nem podia caminhar, nem sequer se mover. Argos jazia, às portas de um galpão, abandonado, crivado pelos carrapatos, esperando a morte.

Quando viu, ou talvez farejou, que aquele mendigo se aproximava, levantou a cabeça e abanou o rabo.

Fundação do machismo

De uma dor de cabeça pode nascer uma deusa. Atena brotou da dolorida cabeça de seu pai, Zeus, que se abriu para lhe dá-la à luz. Ela foi parida sem mãe.

Tempos depois, seu voto foi decisivo no tribunal dos deuses, quando o Olimpo teve que pronunciar uma sentença difícil.

Para vingar seu pai, Electra e seu irmão Orestes haviam decepado, de uma machadada, o pescoço de sua mãe.

As Fúrias acusavam. Exigiam que os assassinos fossem apedrejados até a morte, porque a vida de uma rainha é sagrada e quem mata a mãe não tem perdão.

Apolo assumiu a defesa. Sustentou que os acusados eram filhos de mãe indigna e que a maternidade não tinha a menor importância. Uma mãe, afirmou Apolo, não é mais que o sulco inerte onde o homem planta sua semente.

Dos treze deuses do júri, seis votaram pela condenação e seis pela absolvição.

Atena decidia o desempate. Ela votou contra a mãe que não teve e deu vida eterna ao poder masculino em Atenas.

Fundação dos contos de fadas

No início do século dezoito, Daniel Defoe, o criador de Robinson Crusoé, escreveu alguns ensaios sobre temas de economia e comércio. Em um de seus trabalhos mais difundidos, Defoe exaltou a função do protecionismo estatal no desenvolvimento da indústria têxtil britânica: se não fosse pelos reis que tanto ajudaram o florescimento fabril com suas barreiras aduaneiras e seus impostos, a Inglaterra continuaria sendo uma fornecedora de lã crua para a indústria estrangeira. A partir do crescimento industrial da Inglaterra, Defoe podia imaginar o mundo do futuro como uma imensa colônia submetida a seus produtos.

Depois, à medida que o sonho de Defoe ia tornando-se realidade, a potência imperial foi proibindo, por asfixia ou a tiros de canhão, que outros países seguissem seu caminho.

– Quando chegou ao topo, chutou a escada – disse o economista alemão Friedrich List.

Então, a Inglaterra inventou a liberdade de comércio: em nossos dias, os países ricos continuam contando esse conto aos países pobres, nas noites de insônia.

Fundação da linguagem

Em 1870, ao final de uma guerra de cinco anos, o Paraguai foi aniquilado em nome da liberdade de comércio.

Nas ruínas do Paraguai, sobreviveu o primeiro: entre tanta morte, sobreviveu o nascimento.

Sobreviveu a língua original, a língua guarani, e com ela a certeza de que a palavra é sagrada.

A mais antiga das tradições conta que nesta terra cantou a cigarra carmim e cantou o gafanhoto verde e cantou a perdiz e então cantou o cedro: da alma do cedro ressoou o canto que na língua guarani chamou os primeiros paraguaios.

Eles não existiam. Nasceram da palavra que os nomeou.

Fundação de Hollywood

Cavalgam os mascarados, túnicas brancas, brancas cruzes, tochas ao alto: os negros, famintos de brancas donzelas, tremem diante destes cavaleiros vingadores da virtude das damas e da honra dos cavalheiros.

Em pleno auge dos linchamentos, o filme de D. W. Griffith, O nascimento de uma nação, eleva seu hino de louvor à Ku Klux Klan.

Esta é a primeira superprodução de Hollywood e o maior êxito de bilheteria de todos os anos do cinema mudo. É, também, o primeiro filme que estréia na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, o aplaude de pé. O aplaude, se aplaude: este defensor da liberdade é o autor dos principais textos que acompanham as épicas imagens.

As palavras do presidente explicam que a emancipação dos escravos foi uma verdadeira derrocada da Civilização no Sul, o Sul branco sob os calcanhares do Sul negro.

A partir de então, reina o caos, porque os negros são homens que ignoram os usos da autoridade, exceto suas insolências.

Mas o presidente acende a luz da esperança: por fim foi dada à luz uma grande Ku Klux Klan.

E até Jesus em pessoa desce do céu, no final do filme, para dar sua bênção.

Fundação do Faroeste

Os cenários dos filmes do Oeste, onde cada revólver disparava mais balas que uma metralhadora, eram aldeias miseráveis, onde o único som eram os bocejos e os bocejos duravam muito mais que as badernas.

Os cowboys, esses taciturnos cavalheiros, cavaleiros empertigados que atravessavam o universo resgatando donzelas, eram peões mortos de fome, sem nenhuma companhia feminina além das vacas que fustigavam, através do deserto, arriscando a vida em troca de um salário de fome. E não se pareciam nem um pouquinho com Gary Cooper, nem com John Wayne, nem com Alan Ladd, porque eram negros ou mexicanos ou brancos desdentados que nunca haviam passado pelas mãos de uma maquiadora.

E os índios, condenados a trabalhar como extras no papel de maus, perversos, nada tinham a ver com esses débeis mentais, emplumados, mal pintados, que não sabiam falar e uivavam em volta da diligência crivada de flechadas.

A saga do Faroeste foi a invenção de um punhado de empresários vindos da Europa Oriental. Estes imigrantes tinham bom olho para o negócio, Laemmle, Fox, Warner, Mayer, Zukor, que nos estúdios de Hollywood fabricaram o mito universal de maior sucesso do século vinte.

***

Eduardo Hughes Galeano, falecido ontem (14/04/2015), é um dos mais prestigiados escritores latino-americanos da atualidade, Nascido em Montevidéu, Uruguai, em 1940, tornou-se mundialmente conhecido graças a seu livro As veias abertas da América Latina, publicado em 1971.

Morre, aos 74 anos, o escritor Eduardo Galeano, autor de ‘As Veias Abertas da América Latina’

Via Opera Mundi

Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940 em Montevidéu, e viveu exilado em dois países; autor morreu em decorrência de câncer.

Morreu nesta segunda-feira (13/04), aos 74 anos, o escritor, jornalista e ensaísta uruguaio Eduardo Galeano, autor do livro “As Veias Abertas da América Latina”. Ele estava internado em um hospital de Montevidéu e, segundo o jornal El País, do Uruguai, encontrava-se em estado grave já há vários dias, em decorrência de um câncer.

Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940 na capital uruguaia.

O escritor foi redator chefe do semanário “Marcha” (1961-1964), diretor do jornal “Época” (1964-1966) e diretor de publicações da Universidade do Uruguai (1964-1973). Em 1973, exilou-se em Buenos Aires, onde fundou a revista “Crise”. Em 1976, continuou seu exílio em Barcelona (Espanha). Seu retorno ao Uruguai aconteceu em 1985, uma vez restaurada a democracia.

Galeano foi perseguido por várias ditaduras do Cone Sul, em países nos quais teve obras que chegaram a ser censuradas.

Eduardo Galeano morreu nesta segunda-feira, em Montevidéu

Além de publicar obras de alcance mundial como “Memórias de Fogo”, “O livro dos abraços” e “História da Ressureição dos Papagaios” e recebeu os prêmios José Maria Arguedas, outorgado pela Casa das Américas de Cuba, e o Stig Dagerman, um reconhecimento sueco aos escritores que se destacam por suas obras literárias.

Galeano era conhecido por suas críticas aos Estados Unidos e, em entrevista ao jornal El País espanhol, em 2010, chegou a defender o então presidente venezuelano Hugo Chávez, que, inclusive, presenteou o presidente norte-americano, Barack Obama, com um exemplar de “As Veias Abertas”.

No ano passado, o autor criticou a obra mais famosa. “Eu não seria capaz de ler de novo. Cairia desmaiado”, afirmou, durante o Salão do Livro de Brasília.  Segundo Galeano, ele não estava “treinado e preparado” o suficiente para redigir o livro.

Mário de Andrade: Ode ao burguês

Por Mário de Andrade

Armínio Fraga, exemplar fiel do homenageado.

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará sol? Choverá? Arlequinal!
Mas as chuvas dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiuguiri!

Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar… _ Conto e quinhentos!!!

_ Más nós morremos de fome!

Come! Come-te a ti mesmo, oh! Gelatina pasma!
Oh! Purée de batatas morais!
Oh! Cabelos na ventas! Oh! Carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte á infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódios aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

***

Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945) foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro. Andrade foi a figura central do movimento de vanguarda de São Paulo por vinte anos. Músico treinado e mais conhecido como poeta e romancista, Andrade esteve pessoalmente envolvido em praticamente todas as disciplinas que estiveram relacionadas com o modernismo em São Paulo, tornando-se o polímata nacional do Brasil.