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Ex-guarda: campo de detenção dos EUA criou os maiores líderes do Estado Islâmico

Via Sputnik Brasil

Logo após a intervenção norte-americana ao Iraque começou os líderes militares criaram um campo de detenção geralmente conhecido como Camp Bucca para deter milhares de homens que apresentaram (na verdade ou não) ameaça à segurança.

O ex-guarda do campo Mitchell Gray declarou no ar da emissora Sputnik que o Bucca se tornou num terreno fértil para aqueles que um tempo passado se formaram no grupo terrorista Estado Islâmico.

Um homem jovem suspeito de ser militante era trazido na sala de interrogações nos primeiros dias da guerra no Iraque. Deixado só com uma edição do jornal para homens Maxim ele era observado pelos funcionários do campo. Se ele apanhar o jornal e der uma olhada, ele seria considerado “moderado” e levado para um pavilhão comum, e se não, seria considerado “radical” e acabaria em um pavilhão para jihadistas.

É esse o procedimento de Camp Bucca para determinar o futuro de prisioneiros nos tempos da guerra iraquiana, segundo divulgou a investigação do jornal norte-americano The New York Post.

Os funcionários da prisão deviam também separar os detidos e manter os sunitas separadamente dos xiitas e os jihadistas moderados, dos radicais para manter a paz no centro da detenção.

Segundo Mitchell Gray divulgou à Sputnik, caso os prisioneiros não fossem separados, apareceriam problemas “com mais radicais radicalizando os menos radicais”.

Tal política também previa a coexistência por muito tempo de jihadistas radicais e permitiria o terreno fértil para estes desenvolver ideias radicais.

“Entre os prisioneiros existia violência. Eles criavam seus próprios tribunais da Sharia e mesmo executaram ou torturaram outros e intimidaram pessoas para se tornar mais radical,” disse Gray.

Os problemas podem ser rastreados às origens do campo, que nunca foi preparado para enfrentar adequadamente a situação política da região.

Com o desenvolvimento da guerra no Iraque muitos problemas geopolíticos apareceram e Bucca nunca lidava com estes, segundo o ex-guarda.

Ele serviu no campo de detenção entre 2007 e 2008 e disse que cerca de 30 mil pessoas foram detidas e mantidas na instituição penitenciária:

“Foi uma mistura. O lugar tinha todos, de membros da Al-Qaeda até milícias locais e criminosos francos”.

Gray divulgou que quando foi admitido para o trabalho ele foi dito que um dos detidos poderia ser um próximo Nelson Mandela. Mas na verdade aconteceu o completamente contrário.

“Isso é o que aconteceu com Abu Bakr al-Baghdadi, é ele que não foi considerado uma ameaça e foi libertado e voltou para a comunidade. Na verdade, ele tinha sido visto, realmente, como alguém que era um mediador e uma influência moderadora”, disse Gray.

Depois de ser libertado, al-Baghdadi organizou uma organização terrorista que já é geralmente sabida notoriamente por todo o mundo – o Estado Islâmico.

Mantido veto ao financiamento empresarial de campanhas eleitorais

Via Conjur

O Congresso Nacional manteve o veto para a possibilidade de candidatos ou partidos políticos receberem dinheiro de pessoas jurídicas para campanha eleitoral. Foram 190 votos a favor, 220 contra e 5 abstenções. Eram necessários 257 votos para derrubar o veto.

A decisão foi celebrada pelo presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, Marcus Vinicius Furtado Coêlho. “Parabéns ao Congresso Nacional por ter mantido o veto ao investimento empresarial em candidatos e partidos. O próximo passo é a criminalização do caixa 2 de campanhas eleitorais. Combater a corrupção eleitoral é fundamental para diminuir a corrupção na administração pública”, afirmou.

Ao vetar essa parte do projeto da reforma política, a presidente Dilma Rousseff argumentou que as doações e contribuições de empresas confrontam “a igualdade política e os princípios republicano e democrático, como decidiu o Supremo Tribunal Federal”.

Quando a reforma política foi votada no Senado, em setembro deste ano, a maioria dos senadores decidiu pela proibição de doações de empresas e outras pessoas jurídicas a partidos políticos e a candidatos. Ao voltar para a Câmara, no entanto, os deputados optaram por manter, na reforma, essa possibilidade, considerada, posteriormente, inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal.

O deputado Alessandro Molon (Rede-RJ) disse que a eventual derrubada do veto seria uma afronta ao STF. Afirmou ainda que as eleições municipais de 2016, sem o dinheiro das empresas e, por consequência, com campanhas mais baratas, serão um teste para esse novo modelo de financiamento da política.

O deputado Onix Lorenzoni, por outro lado, acredita que o Supremo cometeu um erro ao proibir as doações de pessoas jurídicas. Para ele, os ministros equipararam o Brasil do século 21 ao Brasil da época da ditadura, quando esse tipo de contribuição também foi vetada.

Com informações da Agência Senado e da Assessoria de Imprensa da OAB.

Petrobrás: muito se fala e pouco é verdade

Por Paulo Metri

Desejam a Petrobrás pelo muito que ela vale e o acesso ao Pré-Sal que ela representa. Fazem campanha difamatória para decidirmos vendê-la e aceitarmos um preço irrisório”.

Na França, está se tornando uma praxe os autores de artigos declararem, ao término deles, quais são suas fontes de rendimentos e suportes financeiros. Trata-se de prática saudável, que serve para alertar os leitores para eventuais “tendências” dos artigos recém-lidos. Na prática, este procedimento deve inibir a aparição de “artigos vendidos”, assim como pode induzir a mentira. No entanto, os desonestos correm o risco de, se descobertos, serem execrados publicamente.

Se este procedimento fosse aplicado no Brasil teria poupado grande número de leitores de serem enganados com as teses de que a Petrobrás está falida, não consegue mais obter financiamento no mercado, precisa vender ativos para poder executar seu plano de investimentos etc. Aliás, o editorial de O Globo do dia 11/11, intitulado “Governo deixa Petrobras à beira do abismo”, insiste nas mesmas difamações. Os articulistas mais audaciosos pregam a mentira que ela só não faliu porque o Estado a tem garantido.

Por trás de tudo, estão as petrolíferas estrangeiras que financiam estes articulistas e a mídia convencional. Elas visam a privatização da Petrobrás e a subtração do petróleo do Pré-Sal dos brasileiros. Por esta razão tenho quase certeza que a prática francesa será, aqui, bombardeada de todas as formas, mas, se aceita, mentiras ocorrerão a rodos. Como não existe, no Brasil, mídia convencional de oposição aos interesses do capital, principalmente o internacional, a nossa sociedade é, na maioria das vezes, mal informada e, como uma caixa de ressonância dos discursos plantados, reproduz os ataques gratuitos à Petrobrás.

Entretanto, em vez de ficar contra argumentando os ataques feitos, quero trazer um olhar para a análise, que não é novo, só insistentemente desprezado. Trata-se da visão geopolítica e estratégica escondida pela nossa mídia convencional, mas considerada pelas grandes potências e suas empresas petrolíferas. Falta conhecimento histórico aos economistas de mercado, que criticam a Petrobras com conceitos restritos e esquecem aspectos de grande impacto para a sociedade.

A ver pelos diversos confrontos militares resultantes do interesse pelo petróleo, assim como pelos esforços de países para ampliar e reter as suas reservas, analistas com respaldo na História podem melhor descrever o valor do petróleo. O Estado nacional que o possui soberanamente é respeitado, quando comparado ao tratamento destinado a países submissos e dependentes.

Este último argumento é o suficiente para que este artigo seja paralisado, pois não há desculpa para o governo brasileiro em não tomar a posição soberana de apoiar a Petrobrás, qualquer que tenha sido a origem para o seu aperto momentâneo de caixa. No entanto, para o leitor identificar as falácias dos articulistas pagos pelo capital, recomendo alguns textos já divulgados na mídia alternativa, pois não faz sentido repetir o que já existe.

Por exemplo, a proposta do senador Requião, lançada há poucos dias, intitulada “Requião apresenta proposta para salvar capacidade de investimento da Petrobras”, já deixa claro que a situação da Petrobrás é de fácil recuperação. Existe também na internet um artigo didático de Assis, Lima e Siqueira, intitulado “Ignorância ou má fé na avaliação da Petrobrás”, que desnuda mais um rol de mentiras caluniosas sobre a empresa. Por último e não menos importante, existe a boa matéria de Fernando Brito, intitulada “Prejuízo da Petrobras é barulho para enganar trouxa. Empresa opera com alto lucro”, no site “Tijolaço”.

Liberado de ter que mostrar os argumentos errados dos entreguistas e, portanto, péssimos brasileiros, busco acrescentar uma linha de raciocínio nova, pois não a vi citada em lugar algum. Todos partem do princípio que a necessidade declarada de recursos para os investimentos pela atual “diretoria de mercado” da empresa é uma verdade absoluta. Pois, afirmo que não é. Esta necessidade de recursos pode ser bem menor que a divulgada e, para chegar ao valor menor, basta que a soberania brasileira seja exercida.

O primeiro passo se trata de a Petrobrás postergar os desenvolvimentos dos campos recebidos por cessão onerosa, a menos que estejam em um estágio final do desenvolvimento. Estes campos são citados em primeiro lugar porque, neles, a Petrobrás detém 100% da participação. À Agência Nacional de Petróleo (ANP), o governo brasileiro deve ordenar que aceite o que a Petrobrás propuser.

Com relação aos campos nos quais a Petrobrás está consorciada e, em todos, com petrolíferas estrangeiras, a Petrobrás deve solicitar a concordância delas para a postergação do cronograma de investimentos, salvo se o campo já estiver em fase final de desenvolvimento. As petrolíferas estrangeiras não terão interesse em postergar estes desenvolvimentos de campos e poderão até vetar a postergação das atividades.

Contudo, todas elas querem contar com a Petrobrás para se consorciarem no futuro, inclusive para a exploração do Pré-Sal. Antes que algum “advogado do diabo” se pronuncie, notar que nenhuma cláusula do contrato está sendo infringida. Trata-se de um acordo entre as partes envolvidas. Soberanamente, só se está dizendo que a petrolífera que não aceitar a postergação das atividades do cronograma original ficará de fora de qualquer associação futura com a Petrobrás.

Pelo que ocorreu na bem sucedida 13ª rodada de leilões da ANP (“bem sucedida” porque quase não houve doação do petróleo nacional), pode-se concluir que as petrolíferas estrangeiras valorizam a associação com a Petrobrás para explorar blocos de petróleo. À ANP deve ser dada pelo governo brasileiro a mesma diretriz de aceitar o acordo das empresas.

Com estas postergações, os investimentos da Petrobrás, no curto prazo, serão diminuídos e, da mesma forma, a necessidade de captação de recursos da empresa diminuirá. A ANP, auxiliada pela mídia entreguista, poderá querer dificultar a estratégica descrita, dizendo que, quanto mais cedo o Brasil receber os tributos da atividade, melhor será para a sociedade.

Contudo, o petróleo resultante da pressa nos desenvolvimentos será destinado, basicamente, à exportação, pois o abastecimento do país já está garantido. Além disso, com a postergação das obras das novas refinarias, nem derivados, com valor agregado, o país irá exportar. Finalmente, exportar petróleo bruto nesta época não é muito inteligente, uma vez que o preço do barril ainda não estará recuperado.

Obviamente, os objetivos da mídia convencional e dos políticos representantes dos interesses estrangeiros são forçar a Petrobrás a não ser a operadora única do Pré-Sal, não ter 30% de todos os consórcios firmados nesta área, não haver exigência de conteúdo local e até retornarmos ao modelo das concessões para a área do Pré-Sal. Ou seja, uma pauta bem antinacional.

A ANP, criada no auge do neoliberalismo no país, tem facilitado a consecução dos objetivos dos entreguistas. Resta a um governo democrático, socialmente comprometido e, portanto, nacionalista, enquadrar este órgão, lembrando que ele é subordinado ao governo do Brasil, legítimo representante da sociedade brasileira.

***

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania. Trabalha em órgão do Estado brasileiro da área nuclear. Não recebe, nem nunca recebeu, remuneração ou benefício algum de empresa petrolífera, privada ou estatal, nem de terceiros a mando delas.

Patinha dianteira levantada para trás

Por Ivo Pugnaloni

Os portugueses tem um ditado: “quanto mais se baixa, mais se lhe vê o rabo”.

Mas abaixar-se não é um problema igual para todas as pessoas. Ou em todas as profissões. Os médicos esportivos, por exemplo, é da profissão deles se abaixar no campo, ao lado dos jogadores machucados.

O mesmo fazem os borracheiros, quando ajoelham-se na frente de um pneu furado. Há até os que precisam rastejar para cumprir uma função tipicamente ofensiva, quando os soldados precisam esconder-se dos seus inimigos para ataca-los

O governo federal, hoje, por exemplo tem uma tática política muito simples.

De tão simples e repetitiva, ela chega a ser monótona.

Essa tática, seja ela boa ou má, (isso não está em jogo aqui) , segue uma lógica impressionante. E essa tática é: “Fazer concessões em absolutamente tudo que puder ser negociado. Até naquilo que não estiver em jogo. Para mostrar-se simpático, inofensivo e até proativo, quando  se tratar de agradar aos inimigos do governo.”

Para que essa tática seja vitoriosa, no entanto, é fundamental que o governo não tenha nenhuma iniciativa.

Absolutamente nenhuma.

É necessário fingir-se de morto.

Fingir que não existe.

Fazer de conta que foi embora.

E assim, tentar convencer aos inimigos que sua retirada do poder já é perfeitamente dispensável.

Afinal, se o governo praticamente já não representa qualquer ameaça, para quê serviria o impeachment? Mas será que o governo não estaria exagerando nessa tática?

Agora, o governo só se move, – e o faz bem rápido -, para remover, resoluta e eficientemente, quaisquer possíveis ameaças e os menores riscos que surjam no caminho de seus maiores inimigos ( como esse pequeno risco, que apenas regulamentava o direito de resposta dando à própria o direito de ir ela em pessoa à TV ou ao jornal, exercer esse direito).

Talvez queira passar uma mensagem com mais força ainda e dizer algo do tipo:  “Para quê serviria retirar o governo de onde está, se ele ainda pode ser muito útil, protegendo seus inimigos de qualquer, risco por menor que seja?”

Parece bastante lógico.

Mas só tem um problema nessa tática de fingir de morto: a política, por envolver pessoas, não segue a lógica fria dos números.

Ninguém muda de ideia apenas pela lógica, em política. Mas pelo impulso.

Como acontece com os cães quando estão em bando que, diante de  outro cão ferido, eles o atacam furiosamente, exatamente por ele estar ferido, apenas por um instinto animal de excluir o mais fraco, para que cada um mostre sua força e crueldade uns aos outros. E assim, mostrar quem manda mais no pedaço.

Assim, o resultado prático dessa tática, com que alguns tentam aparentar ser prudentes, moderados e muito espertos como forma de sobreviver à mídia tem sido apenas:

O governo faz tudo o que pode fazer para agradar a quem não gosta do governo.

E, o mesmo tempo, faz tudo para desagradar ( e desagregar ) a quem ainda gosta do governo. Pois isso também seria ponto a favor!

É a tática do “apoio zero”, na qual busca provar que é inofensivo, inodoro, insosso e incolor.

Eis a tática do governo federal hoje: buscar a unanimidade da reprovação.

A fraqueza máxima.

Alcançar o Índice Zero por Cento de aprovação.

A esperança dos alquimistas que conceberam essa tática lógica parece ser que ao contrário de se fortalecer, o governo parecesse cada vez mais fraco.

Mas tão fraco, tão fraco e mais, -tão subserviente-, que ninguém mais precise fazer nada de efetivo para removê-lo do poder.

Afinal, isso seria absolutamente desnecessário, ilógico.

Além de ser traumático e pouco elegante, ruim para a imagem do Brasil lá fora.

Sem querer ofender ninguém, nem antas, nem cachorros, nem papagaios, nem pessoas, nem gênios da política, mas apenas para exemplificar, vai a foto .

Quem tem ou já teve um cão em casa sabe o que significa essa postura na linguagem corporal dos animais caninos.

Aos que não sabem, lá vai: a postura da patinha dianteira para cima que a foto abaixo retrata, o quê significa?

Resposta: “Submissão. Algo do tipo: sou inofensivo, respeito sua força e seu domínio sobre o bando e principalmente sobre mim. Não me ataque, pois posso ser útil a você.”

A Verdadeira Ponte para o Futuro

Por Roberto Requião | Via Carta Maior

A nossa ação agora deve ser canalizada para construirmos um novo Projeto Nacional Autêntico. Ele será a verdadeira ‘Ponte para o Futuro’.

O recém-publicado documento da Fundação Ulysses Guimarães “Uma ponte para o futuro” faz lembrar o clássico romance do escritor siciliano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, il gattopardo, o Leopardo, em português. O tema da obra é a decadência da aristocracia siciliana durante o Risorgimento, a Unificação Italiana conduzida pela luta popular sob a bandeira de um Estado republicano moderno.

A velha e decadente nobreza siciliana não queria saber de mudança. Porém, os ventos revolucionários não podem ser barrados.  Mas podem ser desviados, através de uma mudança controlada. O Príncipe de Falconeri resume essa estratégia em sua assertiva que virou um clássico:

“A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, o povo nos submeterá à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude. ”

Sabemos que o sistema político da Nova República se estabilizou através de uma dicotomia entre PT X PSDB. Essa dicotomia manteve forças progressistas e populares entretidas primeiro na esperança da eleição do PT, depois nos avanços sociais que o PT veio construindo aos poucos. Esse modelo entrou em parafuso com o PT liderando um ajuste fiscal absolutamente antissocial. Em reação, o PSDB ficou inicialmente atônito entre a crítica incoerente e o aplauso com sorriso amarelo. Depois, passou a pedir ainda mais arrocho pelo governo, supostamente revoltado contra a timidez, a desfaçatez ou a suposta falta de convicções do governo em relação ao ajuste. Enfim, o PSDB ficou perdido.

Mais atônito está povo, que depositava suas esperanças na atenção que o PT dava ao social, ainda que há muito já havia percebido que era falsa a dicotomia PT/PSDB na questão da regulação do sistema financeiro e da política macroeconômica. Na prática, para ambos, os juros indecentes foi o primeiro mandamento. Dilma até se esforçou para reduzi-lo, mas por não conscientizar o povo sobre isso e por não mexer na estrutura do Tripé Macroeconômico (câmbio flutuante e metas de inflação e superávit primário), que alimenta os juros altos, não teve força para manter a iniciativa.

Sobre as regras de gestão da macroeconomia criadas por FHC, nenhum grande partido ousa levantar dúvidas. É um tabu. Um silêncio total. Uma unanimidade burra. @

No ano passado, os candidatos do PSB à presidência, que era a grande “novidade” das eleições, passaram meses falando que a dicotomia PT/PSDB era falsa e mantinha o país na mesmice e que eles queriam ser a alternativa a isso. Eles seriam o veículo da mudança. Porém, quando todo mundo tinha entendido que eles seriam “o novo”, eles passaram a afirmar que o Brasil deveria louvar e respeitar o Tripé das regras macroeconômicas de FHC com ainda maior afinco. Apesar de o PT e de o PSDB nunca terem deixado de segui-lo e muito menos de louvá-lo.

O que me deixa impressionado é que os candidatos do PSB repetiam supostas vantagens desse modelo como se fosse uma grande novidade, e não algo já aborrecidamente repetido pelos jornais, economistas e políticos há mais de 15 anos. Paradoxalmente, todos os candidatos – exceto Luciana do PSOL e Mauro Iasi do PCB – faziam o mesmo, louvando o Tripé como se isso fosse inédito e seu grande diferencial. Impressiona-me que candidatos ditos “nanicos”, que tinham finalmente a grande chance de suas vidas para serem conhecidos por todos os brasileiros e usar isso para falar algo diferente que justificasse sua candidatura alternativa, se esmerassem para usar seus minutos de fama para repetir a mesma cantilena neoliberal.

Isso já havia acontecido em eleições anteriores. Hoje é um jogo que não tem credibilidade. O velho barbudo disse que a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa. Depois que o PT se rendeu à unanimidade do Tripé e agora, pior, ao ajuste draconiano a la grega, ninguém mais acredita nas convicções que os partidos alegam ter e nem na inocência daqueles que se dizem grandes adversários para depois concordarem no essencial.

Recentemente, o senador Cristovam Buarque insinuou sua pré-candidatura à Presidência da República, dizendo-se cansado da dicotomia entre PT e PSDB. Não me lembro, porém, de que ele tenha se colocado em oposição ao Tripé, justamente o maior ponto de consenso entre PT e PSDB.

Todos os políticos criticam os juros elevados do Brasil, mas não lembro de um parlamentar ou chefe do Poder Executivo que, como eu, critique abertamente o Tripé como instrumento, o labirinto, que mantém os juros brasileiros como os maiores do mundo.

A grande maioria ou se cala ou rende homenagens a Mamon, através de elogios ao santificado Tripé. Porém, é a necessidade desesperada de reiterar “devoção cega” ao Tripé que está levando a economia brasileira à pior recessão em sua história, enquanto a maior parte do mundo está se recuperando da crise econômica.

No meio dessa crise, a Fundação Ulysses Guimarães, do PMDB, lança com grande destaque um novo documento, “Uma ponte para o futuro”, dando a entender que tem uma solução inovadora para os problemas do Brasil. O documento vem sendo saudado por flamantes discursos convocando à superação da “falsa dicotomia” PT x PSDB, repetindo o que já tinham dito os candidatos do PSB, Rede e PDT.

A princípio me animou a ideia de que o PMDB novamente se dedicaria a propor um caminho para o país. Imaginem minha decepção ao ler o documento. É apenas uma cópia de um conjunto de medidas repetidamente exigidas pelo setor financeiro, “o mercado”, e que ainda não foram satisfeitas no governo do PT. É a mesma cansativa e monótona oferta de quase todos os partidos e políticos aos interesses da banca e dos rentistas. O documento é “lampedusiano”. Ou seja, simula mudar alguma coisa para que tudo fique como está.

Parece que os bancos viraram os únicos eleitores no Brasil e todos devem se esmerar em agradá-los repetindo o mesmo ritual de submissão a seus interesses, enquanto criam novas fachadas para desviar a atenção do povo.

Mas isso acontece no mundo inteiro hoje. Na Grécia aconteceu o mesmo. A diferença é que lá o objeto de adoração a Mamon não é o Tripé. Lá é o euro e a Troika. Quando a Grécia entrou em crise, os partidos tradicionais de centro e direita se uniram para fazer o ajuste fiscal mais regressivo da história do país.

Não deu certo, a economia afundou e o desemprego alcançou recordes. O povo se revoltou e votou na esquerda tradicional, o partido socialista grego, PASOK, que prometia fazer um ajuste com maior cuidado com o social. Eleitos fizeram o contrário, foram ainda mais antissociais que a velha direita grega. O resultado foi ainda pior. A dívida que os remédios dos diversos pacotes tentavam curar só crescia, enquanto os efeitos colaterais matavam o povo grego. Foram cinco pacotes.

Até que o povo grego farto da enganação vota em um jovem, Tsipras, de um partido de extrema esquerda, o SYRIZA, criado e eleito exatamente para impedir que o país continuasse se submetendo aos mesmos pacotes que prometiam acabar com o ajuste fiscal e enfrentar a Troika. Depois de seis meses de negociação, ele se rende e lança um novo pacote para esmagar ainda mais o povo grego no “moinho de carne” do arrocho fiscal e social, na esperança de que o pouco sangue que ainda restava pudesse satisfazer os insaciáveis credores.

O que resta ao povo grego? Que esperanças pode ter o povo grego na chamada democracia? Ou melhor, o que resta no nosso modelo político de democracia, no sentido original criado pelos mesmos gregos há mais de dois mil anos, se as imposições do interesse do setor financeiro jamais podem ser contestadas?

Eu tenho esperança, eu ainda conto com a mudança. O povo está vendo essas manobras e não está gostando. Daí, a crise. Crise é a decadência do velho e a possibilidade de ascensão do novo. As crises são pródigas em oportunidades de mudanças. Nelas, a mudança não parece mais impossível.

Mas essa não é apenas uma crise econômica e de submissão do sistema político ao interesse de apenas um setor, o financeiro. Estamos vivendo também uma crise de impaciência do povo com relação à corrupção. A decadência da Nova República, que substituiu o regime militar salta aos olhos. Não sabemos o que pode resultar disso. Pode ser um regime autoritário, pois o que vemos em grande parte da oposição à Presidente são chamamentos a golpismos dos mais diversos, desde militares, a judiciais, passando por golpes contábil-fiscais e exaltações fascistas. Esse golpismo permanente me lembra a velha ameaça de Carlos Lacerda a Getúlio Vargas. Carlos Lacerda dizia antes das eleições que consagraram Getúlio:

“O Sr. Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.”

É visível que estão recorrendo ao mesmo expediente. Isso significa que esse tipo de oposição já não mais respeita as regras democráticas instituídas na Nova República.

Gostaria assim de buscar nas origens da Nova República elementos para entender como poderemos superar essa crise. A Nova República foi plenamente instituída com a Constituição de 88. Os fundamentos dessa Constituição foram primeiramente organizados em um documento do PMDB, publicado seis anos antes no meio da crise da dívida externa brasileira. O documento chama-se “Esperança e Mudança”. Esse foi o programa que deu alma ao PMDB por mais de uma década. Ele se baseava em três pilares que foram incorporados na Constituição de 88:

  1. Um regime legal altamente voltado à preservação dos direitos civis, sociais e trabalhistas

  2. Uma organização do Estado que visava controlar o poder do Executivo através de um Judiciário, Legislativo e até mesmo um Ministério Público muito fortalecidos e completamente autônomos.

  3. Um regime de intervenção econômica claramente nacional-desenvolvimentista orientado para a industrialização, a preservação do emprego e dos salários e serviços públicos voltados ao interesse da população e não dos lucros.

A Constituição foi elaborada e promulgada sob a liderança do presidente PMDB, Ulysses Guimarães, tendo o PMDB como principal base de apoio e seu programa “Esperança e Mudança” como principal fonte de inspiração. Todavia, foi promulgada no apagar das luzes de uma conturbada fase de transição entre a época de ouro do capitalismo que termina em 1973 e a Era da Globalização, que se inicia nos anos 90 do século XX.

Nos anos 90, vivemos uma avalanche neoliberal, antissocial e antinacional, em total antagonismo com a Constituição de 88. Destruí-la passou a ser um dos grandes objetivos das forças que apoiavam o neoliberalismo. Desde então, a Constituição recebeu safras anuais de emendas. Primeiro, no governo FHC, buscou-se destruir os fundamentos nacionais-desenvolvimentistas, como o conceito de “empresa nacional”, o controle nacional sobre a produção mineral, os impostos sobre as exportações de commodities, o monopólio do petróleo e diversas medidas que se opunham ao controle do Estado sobre os setores estratégicos e sobre a oferta de serviços públicos.

Depois passaram a atacar os princípios sociais da Constituição. Os direitos de aposentadoria, a destinação de recursos para saúde e educação através da DRU, entre outros. Mas, ao contrário dos que aconteceu princípios aos nacional-desenvolvimentistas, na área social o avanço dos neoliberais foi pequeno até 2015. Isso acontece porque a sociedade brasileira, os partidos de esquerda, as alas populares dos vários partidos e o governo do PT sempre se opuseram à maioria das propostas de emendas constitucionais que visavam a perda de direitos sociais, trabalhistas e da atenção especial que a saúde e a educação recebem de nossa Constituição.

Porém, em 2015 tudo mudou. Ao trair suas promessas de campanha, ao se entregar a um ajuste fiscal neoliberal e ao aumento dos juros que ela mesma havia combatido de coração valente, Dilma perdeu o discurso, o controle da agenda política e a popularidade. Seus adversários na imprensa e no Congresso se aproveitaram disso para tentar toda sorte de golpismos que pudessem ser usados para encurralar o governo.

Aproveitando a fragilidade do governo do PT e a perda de afinidade deste com os setores sociais progressistas e a instabilidade política, os partidos e políticos que querem bajular o todo poderoso setor financeiro, descobriram que não é mais suficiente apenas oferecer o Tripé e os juros mais altos do mundo. A moda agora é levar como oferenda a Mamon todas as conquistas sociais da Constituição Cidadã.

Para isso contam com o providencial apoio do verdadeiro equívoco dos nossos constituintes: o Executivo frágil que leva à instabilidade política. Essa tendência decorre do desequilíbrio entre responsabilidade e poder em nossa Constituição. Nela, quase toda responsabilidade recai sobre o Executivo. Porém, se comparado à responsabilidade e ao ônus pelos próprios erros, há excesso de poder no Judiciário, no Ministério Público e até na Polícia Federal em relação ao comando do Executivo.  Para complicar, o governo do PT, o Congresso, e o STF e o TSE aprovaram leis, práticas e interpretações que reforçaram essa tendência à instabilidade dando mais poder aos órgãos já carentes de responsabilidade.

O mesmo aconteceu em relação à imprensa, que se tornou o maior poder da República. A imprensa assim se tornou o “Poder Moderador” que seria o fiel da balança na condução do processo político. Elegeu e derrubou o Collor, elegeu e garantiu a estabilidade política no governo FHC. Porém, manteve o governo Lula e Dilma sobre crescente pressão. Ao invés de moderar a instabilidade, a acentuou. Não conseguiu derrubar o Presidente Lula, porque – além da incrível capacidade de comunicação, articulação e de atender ao setor financeiro – ele teve a grande sorte de suceder um governo extremamente impopular e infeliz e pôde contar com inédita expansão dos preços internacionais das principais matérias-primas exportadas pelo Brasil.

Dilma não pôde contar com nada disso. Ela começou o primeiro governo sobre uma fortaleza de popularidade e prosperidade. A fortaleza foi corroída em razão dos próprios erros e da tendência do nosso modelo político à instabilidade política.

Considerando esses fatores, chegamos a essa aparente crise terminal da Nova República. Agora, as principais forças políticas radicalizam o neoliberalismo para bajular os setores mais poderosos da sociedade, buscando esgotar o resto de reserva dos princípios de estabilidade social, econômica e política que ainda sobrou da Constituição Cidadã. Se fizermos isso destruiremos o resto de credibilidade que tem o sistema democrático em que vivemos com sérios riscos de o país descambar para a guerra civil. Ou seja, nem esperança nem mudança.

Não é por aí. Façamos o que o PMDB fez em 1982 com o programa “Esperança e Mudança”. À época, o Partido usou a crise terminal do regime militar para pensar um Projeto Nacional Democrático construído com apoio de todas as bases partidárias e realmente focado no interesse do povo brasileiro. Agora a atarefa que a história nos impõe é apontar um caminho para a mobilização nacional em torno de um projeto que supere a crise econômica, política e ética e aponte para um novo tempo de desenvolvimento, democracia e inclusão social.

Eu proponho começarmos a reflexão exatamente sobre o “Esperança e Mudança”, para entendermos o que foi implementando, o que deu certo, o que não deu, o que está atual, o que não está. Eu acredito que tem algo que nunca foi verdadeiramente implementado no “Esperança e Mudança”: a reflexão aprofundada sobre o Caráter Nacional Brasileiro. A Alma Brasileira deve ser uma inspiração para ação coletiva do Estado em prol da construção de uma Nação que pode ser um modelo e um caminho para uma humanidade. Depois que superarmos definitivamente a desigualdade e a pobreza, nossa Pátria pacífica, mestiça e calorosa será uma luz para guiar a humanidade para longe das trevas da intolerância, das guerras, da indiferença, da falta de solidariedade e do preconceito.

Com muita tristeza temos que admitir a morte do Rio Doce. A crise ambiental e climática já mobiliza as Nações. A crise política e econômica turva as nossas perspectivas de futuro. A intolerância religiosa, o terrorismo e a profusão de conflitos militares parecem estar conduzindo o mundo para uma grande guerra. Tudo isso traz medo e indignação. Precisamos usar essa indignação como combustível da nossa ação. E a nossa ação agora deve ser canalizada para construirmos um novo Projeto Nacional Autêntico. Ele será a verdadeira “Ponte para o Futuro”. Para tal, deverá ser construída com reflexão democrática, participação e dialogo abertos. Proponho ao PMDB e a todos que quiserem contribuir nos lançarmos nessa empreitada com o coração aberto e a esperança renovada para a verdadeira mudança.

Vamos resgatar o orgulho de ser brasileiro!

Termômetro da conjuntura política #10

Por Rennan Martins | Vila Velha, 16/11/2015

REUTERS/Christian Hartmann

Timing. Terrorismo está longe de ser loucura, menos ainda uma batalha entre a “democracia” e a “tirania”. Há interesses geopolíticos concretos por trás do fenômeno. Neste sentido, atentemos para as observações do professor Michel Chossudovsky, editor do excelente portal canadense, Global Research. Reporta ele que (1) há mais de um mês a imprensa francesa vinha alertando para a possibilidade de um ataque terrorista sem precedentes, (2) que duas semanas antes dos atentados em Paris ocorreu uma reunião dos chefes dos serviços de inteligência francês e norte-americano, (3) que no último dia cinco o governo francês anunciou que enviaria o porta-aviões Charles de Gaulle para o Oriente Médio, e (4) que na manhã do dia treze houve um grande treinamento de articulação entre policiais, bombeiros e serviços médicos onde simularam uma situação de emergência envolvendo múltiplos atentados. Coincidência ou não, o timing é de fato intrigante e o acontecido legitima a agenda de Paris para a Síria. A possibilidade de uma operação de falsa bandeira não pode ser descartada.

Diversionismo. Os terríveis acontecimentos da última sexta não podem servir, como pretende nossa imprensa servil e o poder econômico que a coopta, como cortina de fumaça para o desastre de Mariana, que não se trata de acidente, visto que no mínimo houve negligência quanto a sustentação das barragens de rejeitos da Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton. Os prejuízos humanos e ambientais são incalculáveis e nem se vendidas fossem as empresas para pagá-lo, ainda assim não seriam cobertos. Uma empresa privada de mineração tem contradições insolúveis com a segurança ambiental, visto que precisa cortar custos ao máximo para distribuir gordos dividendos a acionistas que muitas vezes nem moram no país do empreendimento. É hora de discutir com seriedade a reestatização da Vale, pois somente o controle democrático fará com que ela siga os preceitos de segurança, explorando os recursos naturais na medida do interesse nacional e em prol da população.

Racha. Enquanto vários sindicatos seguiram a orientação da FUP para encerrar a greve dos petroleiros que adentra hoje seu décimo quinto dia, outros contrariaram a diretriz, optando pela continuação. O Sindipetro Norte Fluminense, o Sindipetro Caxias e os funcionários da Refinaria de Duque de Caxias se destacam entre os resistentes grevistas. A discordância está na questão do pagamento referente aos dias parados. Enquanto o acordo atual prevê que somente metade deles serão pagos, os sindicalistas exigem cobertura integral. Neste ínterim, parece que a importante pauta de combate aos desinvestimentos e venda da Gaspetro e BR Distribuidora foram esquecidos.

Meia dúzia. Diversas matérias dão conta da forte campanha entre petistas, empresários e setores do PMDB pela substituição do atual ministro da Fazenda, Joaquim Levy, pelo ex-presidente do Banco Central e BankBoston, Henrique Meirelles. Ora, é sabido da ortodoxia tanto de um quanto do outro, quando justamente o que necessitamos é submeter o capital financeiro. É este tipo de campanha que deixa cada dia mais evidente que o PT foi tragado e submetido pelo sistema, assim como os socialistas europeus. Não representam alternativa real ao arrocho e destruição neoliberal.

Sem jeito. A incapacidade de autocrítica e ensimesmamento petista chega a níveis tragicômicos. Na semana passada este articulista publicou uma réplica ao sociólogo Emir Sader em que basicamente peço que ele deixe de propagar besteiras como governos “pós-neoliberais”. Pois bem, ontem tivemos um episódio ainda mais curioso. A jornalista e escritora Míriam Moraes, famosa nas redes – e alinhadíssima a Dilma – conseguiu defender a permanência de Joaquim Levy na Fazenda sob o argumento de que se trata do princípio brizolista de que se a Globo é contra, somos a favor. Dois erros crassos em somente uma nota. Primeiro que Brizola jamais defenderia alguém como Levy para administrar nossa economia, segundo que a Globo está longe de fazer oposição a sua gestão, querendo no máximo trocá-lo por alguém ainda mais fundamentalista de mercado.

Avestruz. O veto a possibilidade de resposta audiovisual ao Direito de Resposta, projeto sancionado semana passada e de autoria do senador Requião, significa mais outra concessão gratuita e sem contrapartida que o governo deu a esta imprensa cartelizada, panfletária e desonesta. A tática do governo Dilma consiste basicamente na mesma do avestruz. Enterra a cabeça num buraco e fica quieto, acatando as exigências dos seus inimigos e torcendo pra que tudo passe. Se nesse meio tempo o país vier abaixo, paciência.

Insustentável. Estadão informa que no mínimo cinco dos onze ministros do STF avalia que Eduardo Cunha não tem mais qualquer condição de presidir a Câmara, mas que esperam que os próprios deputados resolvam o imbróglio, visto que enxergam o afastamento judicial como “drástico demais”. O MPF avalia que seu trabalho foi facilitado quando Cunha expôs sua defesa nos meios de comunicação, porque são inúmeros os documentos que o contradizem. Desde o início do ano, quando o presidente da Câmara se julgou onipotente e quis pautar o Brasil e impôr sua visão de mundo, ficou bem claro que a justiça viria a galope. Alguém com tanto rabo preso não possui autoridade moral para exercer autoridade como fazia e tenta fazer ainda.

Medidas. Na semana passada um manifestante anti-Dilma foi flagrado no acampamento do Movimento Brasil Livre com inúmeros armamentos, indo desde uma pistola, faca de combate, dezenas de furadores de gelo e outros artefatos. O questionamento que se faz é. Porque será que não se deu qualquer atenção ao fato? Imaginem, só tentem captar o escândalo que seria caso este cidadão fosse integrante do MST, por exemplo.

Atenção! Na próxima quarta está prevista audiência pública, no Congresso Nacional, sobre o famigerado PRS 84, de José Serra, que impõe limites draconianos a dívida pública, imobilizando a capacidade de atuação do Estado e transformando o país em verdadeira colônia da dívida. O projeto já foi criticado por diversos economistas, acadêmicos, intelectuais e movimentos sociais. As reações de Serra e seu gabinete demonstram que não possuem nenhum argumento pela proposta, visto que se portaram de forma desprezível, agredindo verbalmente as pessoas que o criticaram, velha tática de quem quer fugir do debate.

Batalha. Amanhã às 19:00 haverá sessão conjunta do Congresso para apreciar os vetos da Dilma a projetos que aumentam os gastos, com destaque para o aumento de mais de 70% para servidores do judiciário. O Planalto se aproveita da fragilidade de Cunha e da pressão do mercado financeiro sobre os tucanos para finalmente limpar a pauta, manter os vetos e seguir para outra luta ainda mais dura que será votar o orçamento deficitário de 2015. O ano legislativo ainda vai pegar fogo.

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Esta coluna seria publicada na segunda dia 16/11, porém, estivemos fora do ar por problemas técnicos, por isso publicamos hoje. Algumas notas necessitam de atualização dos fatos. Deixamos para os leitores que eventualmente se interessarem pelo desdobramento a pesquisa e caso desejem, façam um comentário complementando.

O que quer o Estado Islâmico? – Entrevista com Bruno Lima Rocha

Por Pedro Marin | Via Revista Opera

Foto: Reuters

Como larvas que brotam da terra, surgiram, repentinamente, os homens das túnicas turvas nas dunas do Iraque. É o que faz parecer a cobertura midiática ocidental em relação ao Estado Islâmico: de uma hora pra outra, o grande inimigo global, capaz de destroçar cidades, deixou de ser a Al Qaeda, e novos inimigos surgiram no horizonte.

Há quem pense, no entanto, que o surgimento do EI não tenha sido tão repentino. Para jogar luz sobre o grupo, bem como sobre os reflexos de suas ações, entrevistamos o professor de Relações Internacionais da UNISINOS, Bruno Lima Rocha:

O que quer, e o que é o Estado Islâmico?

O Estado Islâmico tem origem como um racha da Al Qaeda, ele na verdade seria a continuidade da Al Qaeda no Iraque, mas com a autonomia do sheik al-Baghdadi, que se desvincula da linha sucessório e hierárquica dos herdeiros de Osama Bin Laden. Ele briga com o sheik al-Zawahiri e com isso ele ganha sua própria independência. O que quer o Estado Islâmico, ou alegadamente quer, é a construção de um califado, ou seja, um Estado com base na Sharia, na interpretação social da fé islâmica segundo uma doutrina conservadora e que não respeitaria as fronteiras estipuladas após a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial. Essas fronteiras depois vão dar origem aos modernos estados no Médio Oriente e estados árabes em particular. Por exemplo: o Estado Islâmico que opera no Iraque, na região do Levante, que é a Grande Síria e o Monte Líbano, que depois do mandato francês vai ganhar o nome de Síria e de Líbano.

Então assim como a antiga Mesopotâmia, que é essa área de três províncias do antigo Império Otomano, vão ganhar o mandato britânico e os britânicos vão garantir a linha sucessória pra uma facção, um sub-clã do grande clã dos Hachemitas, que eram beduínos que os auxiliavam no mandato britânico na região. Assim se conforma os estados árabes, algumas tribos e beduínos vão recebendo a autonomia jurídica e política por parte da delegação dos britânicos e ingleses. O que querem os jihadistas do Estado Islâmico é construir um Estado onde o poder absoluto passe pela interpretação social da fé, e tem um teólogo que dirige essas pessoas, que é o sheik al-Baghdadi, que é um teólogo de bastante renome na região e que se politiza a partir da repressão, da presença dos EUA no Iraque. Ele vai preso para averiguação, passa cinco meses num campo de concentração, ele entra simpatizante em Abu Ghraib e sai fervoroso jidahista militante.

Assim surge a politização de al-Baghdadi e a aproximação dele com as forças sunitas que sobraram da derrota militar de Saddam Hussein, em especial ao último general do baralho de cartas que não fora capturado, e não foi capturado até hoje, que coordena a infantaria ligeira das forças do Estado Islâmico, que não são bons combatentes, por falar nisso, mas são muito cruéis e são muito convictos; então na superioridade numérica e bélica eles compensam o fato de seus soldados serem maus combatentes.

Uma coisa interessante que você disse é que o sheik al-Baghdadi veio de uma prisão resultante da invasão americana. Há um bom tempo tem quem diga que foi a ação militar americana que criou o Estado Islâmico – e aqui está incluso o ex-Diretor da Agência de Inteligência dos EUA, Michael Flynn. O que você pensa dessa afirmação?

Eu não tenho dúvida. Tem dois fatores bem concretos. O primeiro é o vazio de poder, porque a ação militar dos EUA na segunda guerra do Iraque e terceira Guerra do Golfo… há linhas de estudo que falam que a primeira Guerra do Golfo foi a guerra do Iraque, a segunda foi a guerra de Bush pai na invasão limitada do Iraque, pra recuperar o Kuwait e os campos de petróleo, e a terceira foi a tomada do Iraque e de seus campos de petróleo.

Mas quando a coalizão estadounidense toma o Iraque em 2003 eles se comprometem, de forma secreta, em reuniões feitas na Jordânia com altas autoridades do partido Ba’ath e do exército iraquiano, a preservar tanto o exército como o partido, e ao tomar conta de Bagdá, a única instituição estatal preservada é o Ministério iraquiano do Óleo e do Petróleo. Então nesse vazio de poder, e nesse abandono, isso em um território que é um país fictício e de culturas sectárias, onde a forma de ascensão era o pertencimento ao partido ou a facção militar de governo, proibir a presença de ex-membros do Partido Baath no governo provisório iraquiano é relegar as pessoas à própria sorte.

Então sim, eu concordo. Antes de os Estados Unidos invadirem o Iraque, o país já não tinha mais armas de destruição em massa, e tampouco havia a Al Qaeda no Iraque. Após a invasão, passou a haver a Al Qaeda no Iraque, e seu racha, o Estado Islâmico, e também a desconstituição da sociedade iraquiana – que já não era grande coisa, aí virou coisa nenhuma, esse é o problema. A estabilidade na região é no mínimo uma previsibilidade do que possa ocorrer, e não havendo instituições mínimas, a luta sectária é eminente. A única força que propõe algo que vai além das formas de convívio ou absolutamente sectárias ou teocráticas, [e fora dos] arranjos feitos pela potência francesa ou inglesa na região, é o confederalismo democrático do Curdistão.

Falando no Curdistão, o governo turco, sob o pretexto de combater o EI, recentemente lançou uma ofensiva contra os curdos. Não é contraditório que um governo que planeje combater os jihadistas combata também a principal força que luta contra eles?

Olha, eu não quero parecer panfletário, mas o que te falo eu escrevo publicamente, pelo menos em redes sociais, ou quando me perguntam, até pra veículos grandes. O governo turco alega combater o Estado Islâmico mas no meu entendimento o que o governo turco quer fazer realmente é retirar as possibilidades de vitória militar e por consequência vitória social no norte da Síria ou no Curdistão sírio, e pra isso ele também quer, de qualquer maneira, combater a existência da esquerda do Curdistão – que não é só a esquerda curda – que ultrapassou a barreira de votos no Parlamento turco e agora tem condição de se expressar publicamente.

Pra isso, eles precisam criar duas situações bastante concretas. Uma: acabar com a reserva estratégica do PKK [Partido dos Trabalhadores do Curdistão], que fica nas montanhas curdas – aliás o provérbio curdo é este; “os curdos não têm nenhum amigo, a não ser suas montanhas” – e atacando as reservas do PKK nas montanhas do Curdistão iraquiano ou na fronteira turca (antigo Iraque) que agora pertence a uma soberania de fato do governo regional curdo, que está sob o comando de um clã corrupto, o clã dos Barzani, do Partido Democrático do Curdistão, que é um partido irmão do AKP (Partido Islamita Turco) – ou seja, há uma aliança partidária entre Barzani e Erdogan, pra simplificar – eles conseguem fortalecer a direita do Curdistão, fazer graça para as empresas de petróleo, que estão investindo no Curdistão iraquiano, atacar a reserva estratégica do PKK e ao mesmo tempo alegar pra OTAN que eles [as Forças Armadas turcas] querem operar criando uma faixa exclusiva, uma faixa de tamponamento militar – umabuffer zone – de cem quilômetros entre a fronteira da Turquia e a fronteira do Estado falido da Síria.

Ao aplicar essa faixa de fronteira sob controle turco, acabou Rojava, acabou a revolução social curda. Então eles estão forçando uma guerra em larga escala que pode gerar inclusive uma guerra civil dentro da Turquia. O PKK tem uma trégua que poderia avançar para um acordo de paz, democratizando o Estado turco, garantindo a autonomia regional para o Curdistão dentro da Turquia. Radicalizando as posições das Forças Armadas da Turquia – que são membro da OTAN – a tendência é um conflito em larga escala.

Às vezes passa-se a impressão de que o EI tem um ódio especial contra os curdos, dada a crueldade perpetrada em Rojava. Esse conflito é realmente contra os curdos, ou com o fato de eles se organizarem de uma maneira alternativa – por exemplo promovendo direitos às mulheres?

Bom, vamos por partes. Primeiro, existe um conflito de fato entre os curdos como um todo, sejam eles oligárquicos, como os que estão sob o comando de Barzani, sejam eles socialistas, como os que estão sob a hegemonia do PKK, com o Estado Islâmico. Agora, o Estado Islâmico não é um califado árabe – ele é um califado islâmico arabizado, há combatentes não-árabes no Estado Islâmico, isso é muito importante falar. Então não é pelo fato de os curdos não serem árabes.

Essa luta sectária, por exemplo, existe entre turcos e curdos; os turcos não reconhecem a existência cultural dos curdos, ou árabes e curdos; pelo fato de os curdos não serem árabes nem arabizados, eles são considerados – ou eram, na Síria da família Assad, cidadãos de segunda categoria, e no Iraque, de Saddam Hussein, de terceira categoria… Realmente era uma dificuldade muito grande.

O que eu acho que ocorre entre o EI e a esquerda do Curdistão é que as propostas de sociedade da esquerda do Curdistão são a negação completa do próprio Estado Islâmico, como por exemplo o ecumenismo religioso, a questão das mulheres; a luta feminista, a emancipação da mulher, o fim do pátrio poder, [o fato] dos postos eletivos serem revogáveis a qualquer momento, os cargos executivos serem sempre feitos por homens e mulheres e por distintos grupos étnicos-culturais, ou seja, se a gente traduzir pro Ocidente, é uma relação inconciliável, inegociável entre nazifascistas e anarquistas, eu diria isso. Pra dimensão do Oriente Médio seria isso. O confederalismo democrático é uma versão de uma extrema-esquerda democrática pro Oriente Médio, sua própria versão, contra o wahhabismo salafita do Estado Islâmico, que é o pior do pior numa região que já tem um universo de ideias muito ruins.

Qual o papel do barbarismo nos vídeos do EI? A gente sabe que eles têm fins de propaganda, mas essa propaganda é efetiva?

Olha, pelo visto sim. Porque ao mesmo tempo que deixa o mundo de cabelo em pé – e realmente deixa – não é o caso de relativizar que “ah, veja bem, as potências coloniais tinham campos de concentração”, como posso dizer? Não há termo de comparação para esse tipo de crueldade, porque parece que estamos vendo um filme, na cronologia histórica do Ocidente, equivalente à Idade Média, dos suplícios medievais. É muito importante para um grupo que quer gerar o terror societário, ele ser também uma forma de certeza, porque veja bem: pessoas desesperadas, famintas, famélicas, e com um pensamento muito conservador e pobre, humilde, mas conservador; podem ver nestas pessoas a sua única saída, ou pelo menos a sua única forma de sobrevivência.

E também há uma dupla propaganda, porque o que eles prometem pros mujahidins [combatentes] é outra coisa, é uma vida de luxo. A propaganda que circula na França é uma vida de luxo: “venha tomar banho de piscina em pleno deserto”, “seja bem remunerado”, “monte o seu pequeno harém”, “se você for martirizado você vai pro paraíso, [onde] tem quarenta virgens te esperando”… Ao mesmo tempo, eles manifestam, mediante aqueles vídeos horrorosos, aquele barbarismo via web, a materialidade de suas palavras, e isso é muito relevante para a política. Isso em castelhano tem o nome de “consecuencia”. E essa consequência aumenta o grau de certeza das populações sobre as quais eles estão disputando o controle. Enquanto choca o mundo, por incrível que pareça, aumenta o número de fiéis, o nível de jovens desesperançados, por exemplo de comunidades islamitas ou islamizadas da Europa – o que acontece muito – e também [há um efeito sobre] seus financiadores… “eles não estão brincando”.

O EI também recebe pessoas que estão muito acostumadas a viver em situações de crueldade; a gente sabe que quando se desumaniza o preso, quando ele fica em uma sala em que cabem 15 e moram 60, e o cara fica de cara pro boi, naquele buraco da vala, onde os presos defecam, no fundo da cela, ele aprende a matar ou morrer até aderir à facção: agora imagine a Arábia Saudita liberando presos sociais, ou presos por crimes comuns, como eles liberam, dando a opção deles irem pra Síria e lutarem junto com o Estado Islâmico. Tem um efeito multiplicador da perversidade e da geração do caos, e isso é friamente calculado: eles não são loucos. Pode ser uma demência ideológica, mas eles não são loucos de fazerem algo sem refletir nas consequências, não, é pior: eles refletem nas consequências. Tanto é que o decreto, a fátua, o decreto religioso do al-Baghdadi veio primeiro do que a ação desumana, cruel e bárbara que eles estão cometendo pela internet.

Como o EI se mantém hoje, financeiramente?

Fazem uns quatro ou cinco meses, eu observei no Departamento do Tesouro, site oficial do governo dos EUA, que o Tesouro dos EUA localizou quinze grandes financiadores do Estado Islâmico. São autoridades religiosas ou fundações de amparo, do tipo “Fundação de Amparo e Caridade Muçulmana”, e esses financiadores se localizavam na Indonésia e nos países das monarquias do golfo pérsico, em suma: elite da Indonésia, sauditas, catares, Emirados Árabes, Omã, Bahrein… os mesmos que financiam a Al Qaeda. Há uma disputa por financiamento.

Uma outra possibilidade, que é muito comentada, é a venda de petróleo não-refinado, só extraído, em forma crua, como contrabando. Isso geraria uma receita bastante alta, já chegaram a falar que seriam 2 bilhões de dólares por mês. O que é muito para um grupo, e é muito pouco para a venda de petróleo. Mas aí a gente fica pensando: como é que se compensa esse dinheiro? Como fazem com que essa negociação – que certamente não é em dinheiro vivo – como é que compensa isso? Tem de ter relações de grupos de inteligência dos países árabes por trás, não tem outra explicação.

Assim como a gente também tem de reconhecer que aqueles sociedades daqueles grupos tribais sunitas têm uma economia de sobrevivência, têm uma economia de subsistência, que ajuda também a fortalecer o Estado Islâmico. E na região, infelizmente – para a desgraça dos povos do Oriente Médio, árabes ou não-árabes – a existência de armamento é endêmica. Tem tanto armamento no Oriente Médio como tem chinelo em uma praia brasileira. Infelizmente é verdade.

Então seriam estes fatores: a venda de petróleo por contrabando, o financiamento de grupos conservadores islamitas, que dividem sim o apoio à Al Qaeda e o apoio ao Estado Islâmico – e aí estão triangulando aparelhos de inteligência dos países que são de credo wahhabita, embora sejam aliados dos EUA, a começar pela própria Arábia Saudita, pelo Catar – e também tem o apoio direto ou indireto de populações pobres mas conservadoras, que conseguem aportar recursos para esse grupo wahhabita.

No último dia 3 a Rússia divulgou um plano para combater o EI, que inclui uma frente única com o Iraque, a Síria e os curdos. O que você pensa deste plano?

Eu fico muito temeroso quando falam “os curdos”. Eu não posso imaginar que a diplomacia do Kremlin não saiba que existem pelo menos dois partidos curdos que são rivais e já guerrearam por cinco anos – e um deles é aliado Ocidental. Mas eu entendo que, caso sejam respeitadas as fronteiras ou divisões de autonomia territorial do Curdistão, qualquer frente anti-Estado Islâmico é bem-vinda. E eu também entendo que uma solução razoável para a questão de Rojava já está em sua própria constituição, que diz que o Curdistão oeste é parte indivisível e inseparável do Estado sírio – desde que este seja um Estado confederal. Então o combate ao EI necessariamente implicaria em uma assembléia nacional constituinte, pelo menos na Síria.

Mas não quero dar aula de geopolítica e ser inocente: sinceramente, seria uma forma da Rússia se legitimar, de participar do esforço de seus aliados da região – que hoje é o Irã, o Irã foi rival da União Soviética, rival da Rússia, mas hoje é aliado – e do Irã para os seus grupos satélites e seus governos aliados, seja até por lealdade religiosa, como é caso da minoria alauita da Síria que é um ramo do xiismo – um ramo até tranquilo do xiismo por falar nisso.

Então também é uma forma de fazer uma disputa; já que a OTAN forma uma coalizão com monarquias árabes produtoras de petróleo e de base sunita, alegando combater o Estado Islâmico, a Rússia, como potência rival na região, faz o mesmo com seu campo de aliados. Eu entendo que é isso, uma disputa por combate contra o EI. Só tem uma diferença, essa diferença tem de ser ressaltada: não é que os aliados da Rússia sejam melhores ou piores no sentido humanitário, mas é que o xiismo é previsível, e o sunismo wahhabita é imprevisível. E o sunismo wahhabita é a ideologia de fundo das monarquias árabes produtoras de petróleo, então também é uma forma de reforçar o conflito entre sunitas e xiitas, e em última instância entre a Arábia Saudita e Turquia, aliados dos EUA,  e o Irã, aliado da Rússia.