Arquivos da categoria: Movimentos Sociais

Redução da maioridade penal é aprovada na CCJ

Via Carta Capital

Por 42 votos a favor e 17 contra, comissão considerou constitucional o projeto que reduz a maioridade de 18 para 16 anos. Texto segue para comissão especial.

Apesar dos protestos contrários à PEC 171, a proposta foi aprovada na CCJ e agora segue para uma comissão especial. Agência Câmara

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou nesta terça-feira 31 o voto em separado do deputado Marcos Rogério (PDT-RO), favorável à admissibilidade da PEC 171/93, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Foram 42 votos a favor e 17 contra. O resultado gerou protesto de manifestantes presentes na reunião.

Antes, havia sido rejeitado o relatório do Luiz Couto (PT-PB), contrário à proposta de redução da maioridade penal. Couto argumentou que o projeto fere cláusula pétrea da Constituição, o que a tornaria inconstitucional.

No parecer vencedor, Marcos Rogério afirma que a redução da maioridade penal “tem como objetivo evitar que jovens cometam crimes na certeza da impunidade”. Ele defendeu que a idade para a imputação penal não é imutável. “Não entendo que o preceito a ser mudado seja uma cláusula pétrea, porque esse é um direito que muda na sociedade, dentro de certos limites, e que pode ser estudado pelos deputados”, disse.

O deputado Alessandro Molon (PT-RJ), por sua vez, lamentou o resultado: “Estamos decidindo mandar para um sistema falido, com altíssimas taxas de reincidência, adolescentes que a sociedade quer supostamente recuperar. É um enorme contrassenso.”

PT, Psol, PPS, PSB e PCdoB votaram contra a proposta. Os partidos favoráveis à aprovação da admissibilidade foram PSDB, PSD, PR, DEM, PRB, PTC, PV, PTN, PMN, PRP, PSDC, PRTB. Já os que liberaram suas bancadas porque havia deputados contra e a favor foram os seguintes: PMDB, PP, PTB, PSC, SD, Pros, PHS, PDT, e PEN.

Tramitação

No exame da admissibilidade, a CCJ analisa apenas a constitucionalidade, a legalidade e a técnica legislativa da PEC. Agora, a Câmara criará uma comissão especial para examinar o conteúdo da proposta, juntamente com 46 emendas apresentadas nos últimos 22 anos, desde que a proposta original passou a tramitar na Casa.

Painel com o resultado da votação sobre a admissibilidade da PEC 171/93 na Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania da Câmara

A comissão especial terá o prazo de 40 sessões do Plenário para dar seu parecer. Depois, a PEC deverá ser votada pelo Plenário da Câmara em dois turnos. Para ser aprovada, precisa de pelo menos 308 votos (3/5 dos deputados) em cada uma das votações.

Depois de aprovada na Câmara, a PEC seguirá para o Senado, onde será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça e depois pelo Plenário, onde precisa ser votada novamente em dois turnos.

Se o Senado aprovar o texto como o recebeu da Câmara, a emenda é promulgada pelas Mesas da Câmara e do Senado. Se o texto for alterado, volta para a Câmara, para ser votado novamente. Não cabe veto da Presidência da República pois se trata de emenda à Constituição. A redução, se aprovada, pode ser questionada no Supremo Tribunal Federal, responsável último pela análise da constitucionalidade das leis.

Mais prisão significa menos crime?

Para a subprocuradora-geral da República, Raquel Elias Ferreira Dodge, há uma má interpretação dos índices de violência cometidos por jovens. “Há uma sensação social de descontrole que é irreal. Os menores que cometem crimes violentos estão ou nas grandes periferias ou na rota do tráfico de drogas e são vítimas dessa realidade”, diz. Atualmente, roubos e atividades relacionadas ao tráfico de drogas representam 38% e 27% dos atos infracionais, respectivamente, de acordo com o levantamento da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Crianças e do Adolescentes. Já os homicídios não chegam a 1% dos crimes cometidos entre jovens de 16 e 18 anos. Segundo a Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância da ONU, dos 21 milhões de adolescentes brasileiros, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida.

Ao mesmo tempo, não há comprovação de que a redução da maioridade penal contribua para a redução da criminalidade. Do total de homicídios cometidos no Brasil nos últimos 20 anos, apenas 3% foram realizados por adolescentes. O número é ainda menor em 2013, quando apenas 0,5% dos homicídios foram causados por menores. Por outro lado, são os jovens (de 15 a 29 anos) as maiores vítimas da violência. Em 2012, entre os 56 mil homicídios em solo brasileiro, 30 mil eram jovens, em sua maioria negros e pobres.

Por isso, para a subprocuradora-geral da República, o remédio para essa situação não é a redução da idade penal, mas o endurecimento da pena para adultos que corrompem menores – como o Projeto de Lei 508/2015, do deputado Major Olímpio – e o investimento em políticas sociais para os jovens.

Entidades como a Unicef, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), o Ministério Público Federal (MPF), a Anced (Associação Nacional dos Centros de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente), o Ministério da Justiça e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) já se manifestaram contrários ao projeto.

Crise do sistema penitenciário

No modelo atual, de maioridade fixada em 18 anos, os jovens infratores representam 8% do número total da população carcerária adulta (715.655, incluindo as prisões domiciliares) e padecem das mesmas mazelas que afeta o sistema prisional adulto. A Fundação Casa, entidade responsável pelos menores infratores em São Paulo, é exemplo do caos. Em maio, CartaCapitalrevelou com exclusividade que um terço das unidades da Fundação Casa tem superlotação. A situação é tão crítica que, em agosto passado, o Ministério Público denunciou o governo Geraldo Alckmin (PSDB) e a Fundação Casa por conta da superlotação. Em fevereiro deste ano, promotores de Justiça criticaram o fracasso de gestão do governo de São Paulo no atendimento a menores infratores e publicaram carta aberta intitulada “A falência da Fundação Casa”.

Por conta de situações como a de São Paulo, em vez de passarem por um processo socioeducativo de correção, a esmagadora maioria dos menores infratores vive em reclusão e sem atividades psicoeducativas para a reintegração social. À superlotaçãosomam-se denúncias de maus tratos, que resultam em uma reincidência de cerca de 43% dos menores presos, de acordo com Conselho Nacional de Justiça. Para o coordenador do Programa Cidadania dos Adolescentes do Unicef no Brasil, Mário Volpi, seria necessário o Estado brasileiro pensar em alternativas viáveis para cuidar de seus jovens. “Se prender não é uma medida eficaz para que o jovem não volte a cometer infrações, resta pensar em soluções para que ele não entre no mundo do crime”, diz.

***

*Com informações da Agência Câmara.

A mais maldita das heranças do PT; complementos e análise

A escritora, repórter e documentarista Eliane Brum publicou no último dia 16 um polêmico artigo de título A mais maldita das heranças do PT (disponível neste post) no portal El País Brasil. A análise rendeu ótimos complementos dos colaboradores do Blog dos Desenvolvimentistas, Adriano Benayon, doutor em economia e Tania Faillace, jornalista e escritora.

Confira:

Adriano Benayon – A autora do artigo intitulado A mais maldita das heranças do PT diz algumas coisas muito razoáveis, inclusive apontando a ausência de liderança confiável na esquerda, a que ela se filia. Mas talvez não tenha conhecimento claro de fatos fundamentais, como:

1) a ausência de liderança importante e merecedora de apoio tampouco existe em qualquer segmento do espectro político;

2) isso não ocorreu por acaso, decorre da intervenção permanente do império em nosso País, diretamente e através de seus agentes e cooptados em todas as áreas relevantes para o poder, tanto no setor privado como no setor público;

3) a esta altura do campeonato, o País vem sendo brutal e crescentemente saqueado há mais de 60 anos e está se tornando, na atual conjuntura de intervenção “à la primavera árabe”, “guerra assimétrica”, ou lá o que seja, uma presa praticamente prostrada e inerme, para sofrer bicadas sôfregas dos abutres;

4) esta fase dos abutres está sendo turbinada pela crise financeira, exacerbada como parte da artilharia de apoio à dita intervenção, que visa, entre outras coisas, a assegurar para o império as fabulosas jazidas de petróleo e gás descobertas pela Petrobrás; com a vítima praticamente indefesa, dada sua estrutura econômica quase que terminalmente fragilizada após esses mais de 60 anos;

5) então, nesta altura do campeonato, qualquer liderança nacional seria bem-vinda, independentemente de posições ideológicas, dado que a presa, além do mais, está muitíssimo dividida e desnorteada (outro resultado de ter entregue o mercado em 1955 e do prolongamentos disso);

6) a direção do movimento de libertação nacional precisaria não ser nem de direita, nem de centro, nem de esquerda: deve ater-se aos fatos e principalmente ao fato principal: o império financeiro angloamericano já sugou, já imobilizou a presa, e está chegando à jugular dela: a tendência das novas instituições teria de decorrer deste princípio: esqueça ideias preconcebidas, mas aproveite as experiências históricas de luta antiimperialista em todo o mundo, e, em função disso, faça tudo que seja necessário para livrar-se da imobilização que está sofrendo por parte do império;

6) um ponto em que a autora carece de informação é colocar esperanças em Marina da Silva, uma das agentes mais notórias do imperialismo predador, travestida de ambientalista (claro que talvez só para a minoria que não se desinforma através da grande mídia).

Para finalizar, o próprio título da matéria me desagrada. A herança tenebrosa está longe de ser principalmente do PT. Esse partido é só um dos peões manipulados pelo império, e a esse respeito Lula e Dilma, embora no jogo e tendo cedido demais, imaginando que conseguiriam assentar suas bases de poder, são dos que menos se colocaram inteiramente como servidores do império angloamericano.

Quando, aí por 1963, rejeitou a oferta do general Amaury Kruel, então comandante do 2º Exército (SP), disposto a assegurar-lhe o apoio do Exército ao presidente, se este se afastasse dos comunistas (ou “comunistas”, não sei), Goulart justificou a recusa, dizendo não convir associar-se com sócio mais forte do que ele.

Interessante que os militares que se sucederam na presidência após 1964, cometeram esse erro, associando-se ao império angloamericano. Exceto Castello, nenhum deles queria alinhar-se de todo ao império, mas basta servi-lo em parte para ser dominado. Assim, os militares foram usados e posteriormente descartados. Sarney também.

O mesmo aconteceu com Lula e Dilma. Nem falei de PT, porque, tirante o Dirceu – há mais tempo descartado – o PT é partido muito pobre de quadros dignos de menção. Collor e FHC não precisamos comentar: agentes conscientes do império.

Tania Faillace – Quanto ao fato de que atravessamos uma fase crítica e emergencial, onde o dado/preocupação que se impõe, antes de tudo, é a soberania.

Sequer se pode pensar em “desenvolvimento sustentável” ou mesmo “justiça social”, antes de encarar de frente o risco real que sofre nossa soberania, sem a qual, todas as boas propostas e as boas intenções soçobram antes de dar um passo.

Fica, porém, a evidência de que temos muito poucos instrumentos. O esboço de organização da população trabalhadora através de seus órgãos de representação, esboroou-se com o pluralismo sindical, e o atrelamento político das entidades sindicais às quais os trabalhadores voltaram as costas, por não representarem seus interesses e não trabalharem sequer para a ampliação do número de sindicalizados e sua atuação, já que elas se sustentam comodamente apenas com a contribuição sindical obrigatória, sem precisar atuar, a não ser em eventos e festividades.

Esse esvaziamento dos movimentos classistas, enquanto classe e não meramente postulantes de reivindicações pontuais e específicas, foi acompanhado por igual esvaziamento de entidades profissionais de várias áreas, que polarizaram discussões e frentes de resistência respeitáveis durante o regime autoritário, e levantaram alternativas independentes e autônomas para a nação brasileira.

O mesmo aconteceu com as comunidades eclesiais, e o movimento estudantil, também focos geradores de pensamento e problematização das circunstâncias politicas, sociais e econômicas, no sentido de lhes dar resposta.

Isso foi obtido tanto pelo abastardamento de nossas políticas educacionais, que vinha desde 1970, mas atingiu seu auge nos últimos 10 anos, como ao oligopólio (quase monopólio) dos meios de comunicação de massa e a decomposição estrutural e temática dos partidos – inclusive os de direita – e a passividade assombrosa dos agentes econômicos de pequeno e até médio porte, diante do esmagamento promovido pelos mega-empreendimentos especulativos, inclusive em área de comércio e varejo.

Associações de agentes econômicos fecharam os olhos ao processo de concentração dos negócios, e sua apropriação por elementos alienígenas, fazendo suspeitar que um dado importante da questão é realmente de natureza ética: FALTA DE VERGONHA NA CARA, que vem sendo trabalhada permanente e insidiosamente pela revolução cultural do “politicamente correto” privilegiando a liberdade individual total, inclusive para cometer crimes “de foro íntimo”, como a corrupção moral da juventude, e a insistência no desmonte definitivo da família natural.

Essa estratégia do imperialismo pós-moderno parece ter sido muito eficiente: primeiro conquistar (ou demolir) as mentes, para depois conquistar (sem oposição) os bens materiais.

E embora a priorização destacada pelo Benayon pareça óbvia, não nos oferece uma sugestão prática: como organizar essa resistência contra o esbulho internacional?

O mínimo necessário, que seria garantir a informação sobre os fatos, de maneira ampla, imparcial, completa, para o esclarecimento dos cidadãos, passa inevitavelmente pelo controle social das mídias comerciais, hoje exclusivamente aserviço de seus patrocinadores e outros poderes, aos quais estão criminosamente associadas, conforme as investigações do Lava.Jato estão revelando, embora de forma indireta.

E depois?

A III Guerra Mundial já está aí. Russia faz operações no Ártico com represália às provocações da OTAN em suas vizinhanças. EUA incrementa cada vez mais sua produção e exportação de armas (que poderão ser usadas contra eles mesmos, é bom lembrar), porque é atualmente o único setor dinâmico de sua economia, e que precisa de guerras e mais guerras, ou quadrilhas criminosas e mais quadrilhas criminosas.

Toda essa exposição, mais a do Benayon, e as duas entrevistas que traduzi para o Groups, a da Naomi, e a da representante da ATTAC, Susan George, foram feitas especialmente para lhes tirar o sono. Uma boa insônia pode parir propostas viáveis.

***

A mais maldita das heranças do PT

Por Eliane Brum | Via El País

O maior risco para o PT, para além do Governo e do atual mandato, talvez não seja a multidão que ocupou as ruas do Brasil, mas a que não estava lá. São os que não estavam nem no dia 13 de março, quando movimentos como CUT, UNE e MST organizaram uma manifestação que, apesar de críticas a medidas de ajuste fiscal tomadas pelo Governo, defendia a presidente Dilma Rousseff. Nem estavam no já histórico domingo, 15 de março, quando centenas de milhares de pessoas aderiram aos protestos, em várias capitais e cidades do país, em manifestações contra Dilma Rousseff articuladas nas redes sociais da internet, com bandeiras que defendiam o fim da corrupção, o impeachment da presidente e até uma aterradora, ainda que minoritária, defesa da volta da ditadura. São os que já não sairiam de casa em dia nenhum empunhando uma bandeira do PT, mas que também não atenderiam ao chamado das forças de 15 de março, os que apontam que o partido perdeu a capacidade de representar um projeto de esquerda – e gente de esquerda. É essa herança do PT que o Brasil, muito mais do que o partido, precisará compreender. E é com ela que teremos de lidar durante muito mais tempo do que o desse mandato.

Tenho dúvidas sobre a tecla tão batida por esses dias do Brasil polarizado. Como se o país estivesse dividido em dois polos opostos e claros. Ou, como querem alguns, uma disputa de ricos contra pobres. Ou, como querem outros, entre os cidadãos contra a corrupção e os beneficiados pela corrupção. Ou entre os a favor e os contra o Governo. Acho que a narrativa da polarização serve muito bem a alguns interesses, mas pode ser falha para a interpretação da atual realidade do país. Se fosse simples assim, mesmo com a tese do impeachment nas ruas, ainda assim seria mais fácil para o PT.

Algumas considerações prévias. Se no segundo turno das eleições de 2014, Dilma Rousseff ganhou por uma pequena margem – 54.501.118 votos contra 51.041.155 de Aécio Neves –, não há dúvida de que ela ganhou. Foi democraticamente eleita, fato que deve ser respeitado acima de tudo. Não existe até esse momento nenhuma base para impeachment, instrumento traumático e seríssimo que não pode ser manipulado com leviandade, nem mesmo no discurso. Quem não gostou do resultado ou se arrependeu do voto, paciência, vai ter de esperar a próxima eleição. Os resultados valem também quando a gente não gosta deles. E tentar o contrário, sem base legal, é para irresponsáveis ou ignorantes ou golpistas.

No resultado das eleições ampliou-se a ressonância da tese de um país partido e polarizado. Mas não me parece ser possível esquecer que outros 37.279.085 brasileiros não escolheram nem Dilma nem Aécio, votando nulo ou branco e, a maior parte, se abstendo de votar. É muita gente – e é muita gente que não se sentia representada por nenhum dos dois candidatos, pelas mais variadas razões, à esquerda e também à direita, o que complica um pouco a tese da polarização. Além das divisões entre os que se polarizariam em um lado ou outro, há mais atores no jogo que não estão nem em um lado nem em outro. E não é tão fácil compreender o papel que desempenham. No mesmo sentido, pode ser muito arriscado acreditar que quem estava nos protestos neste domingo eram todos eleitores de Aécio Neves. A rua é, historicamente, o território das incertezas – e do incontrolável.

Há lastro na realidade para afirmar também que uma parte dos que só aderiram à Dilma Rousseff no segundo turno era composta por gente que acreditava em duas teses amplamente esgrimidas na internet às vésperas da votação: 1) a de que Dilma, assustada por quase ter perdido a eleição, em caso de vitória faria “uma guinada à esquerda”, retomando antigas bandeiras que fizeram do PT o PT; 2) a de votar em Dilma “para manter as conquistas sociais” e “evitar o mal maior”, então representado por Aécio e pelo PSDB. Para estes, Dilma Rousseff não era a melhor opção, apenas a menos ruim para o Brasil. E quem pretendia votar branco, anular o voto ou se abster seria uma espécie de traidor da esquerda e também do país e do povo brasileiro, ou ainda um covarde, acusações que ampliaram, às vésperas das eleições, a cisão entre pessoas que costumavam lutar lado a lado pelas mesmas causas. Neste caso, escolhia-se ignorar, acredito que mais por desespero eleitoral do que por convicção, que votar nulo, branco ou se abster também é um ato político.

Faz sentido suspeitar que uma fatia significativa destes que aderiram à Dilma apenas no segundo turno, que ou esperavam “uma guinada à esquerda” ou “evitar o mal maior”, ou ambos, decepcionaram-se com o seu voto depois da escolha de ministros como Kátia Abreu e Joaquim Levy, à direita no espectro político, assim como com medidas que afetaram os direitos dos trabalhadores. Assim, se a eleição fosse hoje, é provável que não votassem nela de novo. Esses arrependidos à esquerda aumentariam o número de eleitores que, pelas mais variadas razões, votaram em branco, anularam ou não compareceram às urnas, tornando maior o número de brasileiros que não se sentem representados por Dilma Rousseff e pelo PT, nem se sentiriam representados por Aécio Neves e pelo PSDB.

Esses arrependidos à esquerda, assim como todos aqueles que nem sequer cogitaram votar em Dilma Rousseff nem em Aécio Neves porque se situam à esquerda de ambos, tampouco se sentem identificados com qualquer um dos grupos que foi para as ruas no domingo contra a presidente. Para estes, não existe a menor possibilidade de ficar ao lado de figuras como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP) ou de defensores da ditadura militar ou mesmo de Paulinho da Força. Mas também não havia nenhuma possibilidade de andar junto com movimentos como CUT, UNE e MST, que para eles “pelegaram” quando o PT chegou ao poder: deixaram-se cooptar e esvaziaram-se de sentido, perdendo credibilidade e adesão em setores da sociedade que costumavam apoiá-los.

Essa parcela da esquerda – que envolve desde pessoas mais velhas, que historicamente apoiaram o PT, e muitos até que ajudaram a construí-lo, mas que se decepcionaram, assim como jovens filhos desse tempo, em que a ação política precisa ganhar horizontalidade e se construir de outra maneira e com múltiplos canais de participação efetiva – não encontrou nenhum candidato que a representasse. No primeiro turno, dividiram seus votos entre os pequenos partidos de esquerda, como o PSOL, ou votaram em Marina Silva, em especial por sua compreensão da questão ambiental como estratégica, num mundo confrontado com a mudança climática, mas votaram com dúvidas. No segundo turno, não se sentiram representados por nenhum dos candidatos.

Marina Silva foi quem chegou mais perto de ser uma figura com estatura nacional de representação desse grupo à esquerda, mais em 2010 do que em 2014. Mas fracassou na construção de uma alternativa realmente nova dentro da política partidária. Em parte por não ter conseguido registrar seu partido a tempo de concorrer às eleições, o que a fez compor com o PSB, sigla bastante complicada para quem a apoiava, e assumir a cabeça de chapa por conta de uma tragédia que nem o mais fatalista poderia prever; em parte por conta da campanha mentirosa e de baixíssimo nível que o PT fez contra ela; em parte por equívocos de sua própria campanha, como a mudança do capítulo do programa em que falava de sua política para os LGBTs, recuo que, além de indigno, só ampliou e acentuou a desconfiança que muitos já tinham com relação à interferência de sua fé evangélica em questões caras como casamento homoafetivo e aborto; em parte porque escolheu ser menos ela mesma e mais uma candidata que supostamente seria palatável para estratos da população que precisava convencer. São muitas e complexas as razões.

O que aconteceu com Marina Silva em 2014 merece uma análise mais profunda. O fato é que, embora ela tenha ganhado, no primeiro turno de 2014, cerca de 2,5 milhões de votos a mais do que em 2010, seu capital político parece ter encolhido, e o partido que está construindo, a Rede Sustentabilidade, já sofreu deserções de peso. Talvez ela ainda tenha chance de recuperar o lugar que quase foi seu, mas não será fácil. Esse é um lugar vago nesse momento.

Há uma parcela politizada, à esquerda, que hoje não se sente representada nem pelo PT nem pelo PSDB, não participou de nenhum dos panelaços nem de nenhuma das duas grandes manifestações dos últimos dias, a de 15 de março várias vezes maior do que a do dia 13. É, porém, muito atuante politicamente em várias áreas e tem grande poder de articulação nas redes sociais. Não tenho como precisar seu tamanho, mas não é desprezível. É com essa parcela de brasileiros, que votou em Lula e no PT por décadas, mas que deixou de votar, ou de jovens que estão em movimentos horizontais apartidários, por causas específicas, que apontam o que de fato deveria preocupar o PT, porque esta era ou poderia ser a sua base, e foi perdida.

A parcela de esquerda que não bateria panelas contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderia, aponta a falência do PT em seguir representando o que representou no passado. Aponta que, em algum momento, para muito além do Mensalão e da Lava Jato, o PT escolheu se perder da sua base histórica, numa mistura de pragmatismo com arrogância. É possível que o PT tenha deixado de entender o Brasil. Envelhecido, não da forma desejável, representada por aqueles que continuam curiosos em compreender e acompanhar as mudanças do mundo, mas envelhecido da pior forma, cimentando-se numa conjuntura histórica que já não existe. E que não voltará a existir. Essa aposta arriscada precisa que a economia vá sempre bem; quando vai mal, o chão desaparece.

Fico perplexa quando lideranças petistas, e mesmo Lula, perguntam-se, ainda que retoricamente, por que perderam as ruas. Ora, perderam porque o PT gira em falso. O partido das ruas perdeu as ruas – menos porque foi expulso, mais porque se esqueceu de caminhar por elas. Ou, pior, acreditou que não precisava mais. Nesse contexto, Dilma Rousseff é só a personagem trágica da história, porque em algum momento Lula, com o aval ativo ou omisso de todos os outros, achou que poderia eleger uma presidente que não gosta de fazer política. Estava certo a curto prazo, podia. Mas sempre há o dia seguinte.

Não adianta ficar repetindo que só bateu panela quem é da elite. Pode ter sido maior o barulho nos bairros nobres de São Paulo, por exemplo, mas basta um pequeno esforço de reportagem para constatar que houve batuque de panelas também em bairros das periferias. Ainda que as panelas batessem só nos bairros dos ricos e da classe média, não é um bom caminho desqualificar quem protesta, mesmo que você ou eu não concordemos com a mensagem, com termos como “sacada gourmet” ou “panelas Le Creuset”. Todos têm direito de protestar numa democracia e muitos dos que ridicularizam quem protestou pertencem à mesma classe média e talvez tenham uma ou outra panelinha Le Creuset ou até pagou algumas prestações a mais no apartamento para ter uma sacada gourmet, o que não deveria torná-los menos aptos nem a protestar nem a criticar o protesto.

Nos panelaços, só o que me pareceu inaceitável foi chamar a presidente de “vagabunda” ou de “vaca”, não apenas porque é fundamental respeitar o seu cargo e aqueles que a elegeram, mas também porque não se pode chamar nenhuma mulher dessa maneira. E, principalmente, porque o “vaca” e o “vagabunda” apontam a quebra do pacto civilizatório. É nesses xingamentos, janela a janela, que está colocado o rompimento dos limites, o esgarçamento do laço social. Assim como, no domingo de 15 de março, essa ruptura esteve colocada naqueles que defendiam a volta da ditadura. Não há desculpa para desconhecer que o regime civil militar que dominou o Brasil pela força por 21 anos torturou gente, inclusive crianças, e matou gente. Muita gente. Assim, essa defesa é inconstitucional e criminosa. Com isso, sim, precisamos nos preocupar, em vez de misturar tudo numa desqualificação rasteira. É urgente que a esquerda faça uma crítica (e uma autocrítica) consistente, se quiser ter alguma importância nesse momento agudo do país.

Também não adianta continuar afirmando que quem foi para as ruas é aquela fatia da população que é contra as conquistas sociais promovidas pelo governo Lula, que tirou da miséria milhões de brasileiros e fez com que outros milhões ascendessem ao que se chamou de classe C. Pessoas as quais é preciso respeitar mais pelo seu passado do que pelo seu presente ficaram repetindo na última semana que quem era contra o PT não gostava de pobres nos aeroportos ou estudando nas universidades, entre outras máximas. É fato que existem pessoas incomodadas com a mudança histórica que o PT reconhecidamente fez, mas dizer que toda oposição ao PT e ao Governo é composta por esse tipo de gente, ou é cegueira ou é má fé.

Num momento tão acirrado, todos que têm expressão pública precisam ter muito mais responsabilidade e cuidado para não aumentar ainda mais o clima de ódio – e disseminar preconceitos já se provou um caminho perigoso. Até a negação deve ter limites. E a negação é pior não para esses ricos caricatos, mas para o PT, que já passou da hora de se olhar no espelho com a intenção de se enxergar. De novo, esse discurso sem rastro na realidade apenas gira em falso e piora tudo. Mesmo para a propaganda e para o marketing, há limites para a falsificação da realidade. Se é para fazer publicidade, a boa é aquela capaz de captar os anseios do seu tempo.

É também por isso que me parece que o grande problema para o PT não é quem foi para as ruas no domingo, nem quem bateu panela, mas quem não fez nem uma coisa nem outra, mas também não tem a menor intenção de apoiá-lo, embora já o tenha feito no passado ou teria feito hoje se o PT tivesse respeitado as bandeiras do passado. Estes apontam o que o PT perdeu, o que já não é, o que possivelmente não possa voltar a ser.

O PT traiu algumas de suas bandeiras de identidade, aquelas que fazem com que em seu lugar seja preciso colocar máscaras que não se sustentam por muito tempo. Traiu não apenas por ter aderido à corrupção, que obviamente não foi inventada por ele na política brasileira, fato que não diminui em nada a sua responsabilidade. A sociedade brasileira, como qualquer um que anda por aí sabe, é corrupta da padaria da esquina ao Congresso. Mas ser um partido “ético” era um traço forte da construção concreta e simbólica do PT, era parte do seu rosto, e desmanchou-se. Embora ainda existam pessoas que merecem o máximo respeito no PT, assim como núcleos de resistência em determinadas áreas, secretarias e ministérios, e que precisam ser reconhecidos como tal, o partido traiu causas de base, aquelas que fazem com que se desconheça. Muitos dos que hoje deixaram de militar ou de apoiar o PT o fizeram para serem capazes de continuar defendendo o que o PT acreditava. Assim como compreenderam que o mundo atual exige interpretações mais complexas. Chamar a estes de traidores ou de fazer o jogo da direita é de uma boçalidade assombrosa. Até porque, para estes, o PT é a direita.

A parcela à esquerda que preferiu ficar fora de manifestações a favor ou contra lembra que tão importante quando discutir a corrupção na Petrobras é debater a opção por combustíveis fósseis que a Petrobras representa, num momento em que o mundo precisa reduzir radicalmente suas emissões de gases do efeito estufa. Lembra que estimular a compra de carros como o Governo federal fez é contribuir com o transporte privado individual motorizado, em vez de investir na ampliação do transporte público coletivo, assim como no uso das bicicletas. É também ir na contramão ao piorar as condições ambientais e de mobilidade, que costumam mastigar a vida de milhares de brasileiros confinados por horas em trens e ônibus lotados num trânsito que não anda nas grandes cidades. Lembra ainda que estimular o consumo de energia elétrica, como o Governo fez, é uma irresponsabilidade não só econômica, mas socioambiental, já que os recursos são caros e finitos. Assim como olhar para o colapso da água visando apenas obras emergenciais, mas sem se preocupar com a mudança permanente de paradigma do consumo e sem se preocupar com o desmatamento tanto da floresta amazônica quanto do Cerrado quanto das nascentes do Sudeste e dos últimos redutos sobreviventes de Mata Atlântica fora e dentro das cidades é um erro monumental a médio e a longo prazos.

Os que não bateram panelas contra o PT e que não bateriam a favor lembram que a forma de ver o país (e o mundo) do lulismo pode ser excessivamente limitada para dar conta dos vários Brasis. Povos tradicionais e povos indígenas, por exemplo, não cabem nem na categoria “pobres” nem na categoria “trabalhadores”. Mas, ao fazer grandes hidrelétricas na Amazônia, ao ser o governo de Dilma Rousseff o que menos demarcou terras indígenas, assim como teve desempenho pífio na criação de reservas extrativistas e unidades de conservação, ao condenar os povos tradicionais ao etnocídio ou à expulsão para a periferia das cidades, é em pobres que são convertidos aqueles que nunca se viram nesses termos. Em parte, a construção objetiva e simbólica de Lula – e sua forma de ver o Brasil e o mundo – encarna essa contradição (escrevi sobre isso aqui), que o PT não foi capaz nem quis ser capaz de superar no poder. Em vez de enfrentá-la, livrou-se dos que a apontavam, caso de Marina Silva.

O PT no Governo priorizou um projeto de desenvolvimento predatório, baseado em grandes obras, que deixou toda a complexidade socioambiental de fora. Escolha inadmissível num momento em que a ação do homem como causa do aquecimento global só é descartada por uma minoria de céticos do clima, na qual se inclui o atual ministro de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo, mais uma das inacreditáveis escolhas de Dilma Rousseff. A síntese das contradições – e também das traições – do PT no poder não é a Petrobras, mas Belo Monte. Sobre a usina hidrelétrica já pesa a denúncia de que só a construtora Camargo Corrêa teria pagado mais de R$ 100 milhões em propinas para o PT e para o PMDB. É para Belo Monte que o país precisaria olhar com muito mais atenção. É na Amazônia, onde o PT reproduziu a visão da ditadura ao olhar para a floresta como um corpo para a exploração, que as fraturas do partido ao chegar ao poder se mostram em toda a sua inteireza. E é também lá que a falácia de que quem critica o PT é porque não gosta de pobre vira uma piada perversa.

A sorte do PT é que a Amazônia é longe para a maioria da população e menos contada pela imprensa do que deveria, ou contada a partir de uma visão de mundo urbana que não reconhece no outro nem a diferença nem o direito de ser diferente. Do contrário, as barbaridades cometidas pelo PT contra os trabalhadores pobres, os povos indígenas e as populações tradicionais, e contra uma floresta estratégica para o clima, para o presente e para o futuro, seriam reconhecidas como o escândalo que de fato são. É também disso que se lembram aqueles que não gritaram contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderiam.

Lembram também que o PT não fez a reforma agrária; ficou aquém na saúde e na educação, transformando “Brasil, Pátria Educadora” num slogan natimorto; avançou muito pouco numa política para as drogas que vá além da proibição e da repressão, modelo que encarcera milhares de pequenos traficantes num sistema prisional sobre o qual o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já disse que “prefere morrer a cumprir pena”; cooptou grande parte dos movimentos sociais (que se deixaram cooptar por conveniência, é importante lembrar); priorizou a inclusão social pelo consumo, não pela cidadania; recuou em questões como o kit anti-homofobia e o aborto; se aliou ao que havia de mais viciado na política brasileira e aos velhos clãs do coronelismo, como os Sarney.

Isso é tão ou mais importante do que a corrupção, sobre a qual sempre se pode dizer que começou bem antes e atravessa a maioria dos partidos, o que também é verdade. Olhar com honestidade para esse cenário depois de mais de 12 anos de governo petista não significa deixar de reconhecer os enormes avanços que o PT no poder também representou. Mas os avanços não podem anular nem as traições, nem os retrocessos, nem as omissões, nem os erros. É preciso enfrentar a complexidade, por toda as razões e porque ela diz também sobre a falência do sistema político no qual o país está atolado, para muito além de um partido e de um mandato.

Há algo que o PT sequestrou de pelo menos duas gerações de esquerda e é essa a sua herança mais maldita. E a que vai marcar décadas, não um mandato. Tenho entrevistado pessoas que ajudaram a construir o PT, que fizeram dessa construção um projeto de vida, concentradas em lutas específicas. Essas pessoas se sentem traídas porque o partido rasgou suas causas e se colocou ao lado de seus algozes. Mas não traídas como alguém de 30 anos pode se sentir traído em seus últimos votos. Este tem tempo para construir um projeto a partir das novas experiências de participação política que se abrem nesse momento histórico muito particular. Os mais velhos, os que estiveram lá na fundação, não. Estes sentem-se traídos como alguém que não tem outra vida para construir e acreditar num novo projeto. É algo profundo e também brutal, é a própria vida que passa a girar em falso, e justamente no momento mais crucial dela, que é perto do fim ou pelo menos nas suas últimas décadas. É um fracasso também pessoal, o que suas palavras expressam é um testemunho de aniquilação. Algumas dessas pessoas choraram neste domingo, dentro de casa, ao assistir pela TV o PT perder as ruas, como se diante de um tipo de morte.

O PT, ao trair alguns de seus ideias mais caros, escavou um buraco no Brasil. Um bem grande, que ainda levará tempo para virar marca. Não adianta dizer que outros partidos se corromperam, que outros partidos recuaram, que outros partidos se aliaram a velhas e viciadas raposas políticas. É verdade. Mas o PT tinha um lugar único no espectro partidário da redemocratização, ocupava um imaginário muito particular num momento em que se precisava construir novos sentidos para o Brasil. Era o partido “diferente”. Quem acreditou no PT esperou muito mais dele, o que explica o tamanho da dor daqueles que se desfiliaram ou deixaram de militar no partido. A decepção é sempre proporcional à esperança que se tinha depositado naquele que nos decepciona.

É essa herança que precisamos entender melhor, para compreender qual é a profundidade do seu impacto no país. E também para pensar em como esse vácuo pode ser ocupado, possivelmente não mais por um partido, pelo menos não um nos moldes tradicionais. Como se sabe, o vácuo não se mantém. Quem acredita em bandeiras que o PT já teve precisa parar de brigar entre si – assim como de desqualificar todos os outros como “coxinhas” – e encontrar caminhos para ocupar esse espaço, porque o momento é limite. O PT deve à sociedade brasileira um ajuste de contas consigo mesmo, porque o discurso dos pobres contra ricos já virou fumaça. Não dá para continuar desconectado com a realidade, que é só uma forma estúpida de negação.

Para o PT, a herança mais maldita que carrega é o silêncio daqueles que um dia o apoiaram, no momento em que perde as ruas de forma apoteótica. O PT precisa acordar, sim. Mas a esquerda também.

Naomi Klein: O sistema capitalista é responsável pelas mudanças climáticas

Podemos deter o aquecimento global?  Só se alterarmos de modo radical nosso sistema capitalista, sustenta a ensaísta Naomi Klein. Numa entrevista ao semanário alemão Der Spiegel, explica porque chegou o momento de abandonar os pequenos passos em favor de um enfoque radicalmente novo.

Isso é detalhado em seu livro recentemente traduzido ao espanhol, Isso muda tudo, o capitalismo contra o clima.

Por que não conseguimos deter a alteração climática?

Má sorte. Mau momento. Muitas coincidências lamentáveis.

A catástrofe equivocada no momento equivocado?

O pior momento possível. A conexão entre gases estufa e aquecimento global vem sendo uma questão política central para a Humanidade desde 1988. Foi precisamente na época em que caiu o Muro de Berlim, e Francis Fukuyama atestou “o fim da História”, a vitória do capitalismo ocidental. Canadá e os EUA assinaram o primeiro acordo de livre comércio, que serviu de protótipo para o resto do mundo.

Assim, você diz, começou uma nova era de consumo e energia precisamente no momento em que a sustentabilidade e a contenção teriam sido mais adequadas?

Exatamente. E foi precisamente nesse momento em que nos disseram que já não havia nada parecido à responsabilidade social e á ação coletiva, e que deveríamos deixar tudo com o mercado. Privatizamos nossas ferrovias e a rede energética, a OMC e o FMI se comprometeram com um capitalismo desregulado (selvagem?) Infelizmente, isso levou a uma explosão das emissões.

Você é ativista e culpa o capitalismo por tudo ao longo dos anos. Atribui-lhe a culpa também da mudança climática?

Não há razão para ironias. Os números contam qual é a história completa. Durtante os anos 90, as emissões elevaram-se na taxa de 1% anual. Desde el año 2000, foram subindo em média 3.4 %. Exportou-se globalmente o modelo americano e se expandiram rapidamente bens de consumo, que imaginávamos essenciais para satisfazer nossas necessidades. Começamos a nos ver essencialmente como consumidores. Quanto a comprar como forma de vida se exporta a todos os rincões do globo, isso exige energia. Muita energia.

Voltemos à primeira pergunta: porque não pudemos deter essa mudança?

Descartamos sistematicamente as ferramentas. Hoje se zomba de todas as normas e regulamentações de toda a espécie. Os gov ernos já não aplicam normas severas que ponham limites às companhias petrolíferas e demais empresas. Essas crises nos caem em cima no pior momento possível. Não temos mais tempo. Estamos num momento de agora ou nunca. Se não agirmos como espécie, nosso futuro está em perigo. Temos que reduzir as emissões de modo radical.

Voltemos a outra pergunta: Você não usa indevidamente a mudança climática para criticar o capitalismo? [1]

Não. O sistema econômico que criamos criou também a mudança climática. Isso eu não inventei. O sistema é prejudicial, a desigualdade econômica é excessiva e a falta de contenção por parte das companhias energéticas é desastrosa.

Seu filho Tomás tem dois anos e meio. Em que espécie de mundo ele viverá em 2030, quando sair da escola?

É isso o que se está decidindo agora mesmo. Vejo sinais de que podería haver um mundo radicalmente diferente do que temos hoje e de que a mudança poderia ser positiva ou extremamente negativa. Já está claro que, pelo menos em parte, será um mundo pior. Vamos sofrer a mudança climática e muitos mais desastres naturais, isso é certo. Mas temos tempo ainda de impedir um aquecimento verdadeiramente catastrófico. Temos tempo de mudar nosso sistema econômica para que não se torne mais brutal e impiedoso ao enfrentar a mudança climática.

Que se pode fazer para melhorar a situação?

Temos que tomar hoje algumas decisões sobre quais valores são importantes para nós, e como queremos realmente viver. E, certamente, há uma diferença entre a temperatura que sobe apenas 2 graus, ou 4 ou cinco a mais. Ainda nos é possível tomar as decisões corretas.

Passaram-se 26 anos desde que se fundou o IPCC (Intergovernamental sobre mudança Climática) em 1988. Sabemos, pelo menos, desde então, que as mudanças de CO2 causadas pela queima de petróleo e carvão são responsáveis pela mudança climática. Mas pouco se fez para encarar o problema. Já não teremos fracassado?

Eu vejo a situação de modo diferente, dado o enorme preço que teremos que pagar. Enquanto tenhamos a menor oportunidade de êxito ou de minimizar o dano, temos que continuar lutando.

Faz vários anos, a comunidade internacional estabelelceu um objetivo parea limitar o aquecimento global a dois graus centígrados. Ainda o considera alcançável?

Bem, ainda é uma possibilidade física. Teríamos que reduzir imediatamente as emissões globais em 6% ao ano. Os países mais ricos teríam que carregar um peso maior, o que significa que os EUA e Europa teríam que cortar emissões entre 8% e 10% ao ano. Imediatamente. Não é impossível, só que é politicamente irreal com nosso atual sistema.

Diz você que nossas sociedades não são capazes disso?

Sim. Necessitamos uma mudança espetacular, tanto na política como na ideologia, porque há uma diferença fundamental entre o que os cientistas nos dizem que temos que fazer e nossa atual realidade política. Não podemos mudar a realidade física, assim temos que mudar a realidade política.

Pode uma sociedade que se centra no crescimento combater de fato com êxito a mudança climática? [2]

Não. Um modelo econômico baseado num crescimento indiscriminado, leva inevitavelmente a um maior consumo e a maiores emissões de CO2. Pode e deve haver crerscimento no futuro em muitos setores de baixas emissões na economia, em tecnologias verdes, em transporte público, em todas as atividades que propiciam serviços, artes e, sem dúvida, na educação. Agora mesmo, o núcleo de nosso produto interior bruto compreende só o consumo, as importações e exportações. Aí deve haver cortes. Qualquer outra proposta seria enganar-se a si mesmo.

O FMI diz o contrário. Diz que o crescimento econômico e a proteção do clima não se excluem mutuamente.

Não analisam os mesmos números que eu. O primeiro problema é que em todas essas conferências sobre o clima, todo o mundo age como se fôssemos chagar a nossa meta por meio de um compromisso próprio e de obrigações voluntariamente aceitas. Ninguém diz às empresas petrolíferas que devem ceder. O segundo problema é que essas empresas lutarão como feras para proteger o que não querem perder.

Seriamente, quer eliminar o livre mercado para salvar o clima?

Não falo de eliminar mercados, mas nos faz falta muito mais estratégia, direção e planejamento, e um equilíbrio muito diferente. O sistema em que vivemos está abertamente obcecado pelo crescimento, considera bom todo o crescimento. Mas há fomas de crescimento que não são boas. Tenho clareza de que minha posição entra em conflito direto com o neoliberalismo. É verdade que, na Alemanha, ainda que vocês tenham acelerado a mudança para a energia renovável, o consumo de carvão está, na verdade , aumentando?

Isso era certo entre 2009 e 2013.

Para mim, isso é a expressão da renúncia a tomar decisões sobre o que é preciso fazer. Alemanha tampouco vai cumprir seu objetivo de reduzir emissões nos próximos anos.

A presidência de Obama foi o que de pior poderia ter acontecido ao clima?

De certo modo. Não que Obama seja pior que um republicano, o que não é, e sim, porque nesses oito anos foram a maior oportunidade desperdiçada de nossas vidas. Havia os fatores certos para uma convergência realmente histórica: consciência, pressa, ânimo, sua maioria política, o fracasso dos Três Grndes Fabricantes de automóveis norteamericanos e até a possibilidade de encarar de vez a mudança climática e o falido mundo financeiro desregulado. Mas quando assumiu o cargo, não teve coragem de agir. Não venceremos essa batalha a menos que estejamos dispostos a dizer porque Obama considerou que o fato de ter controle sobre bancos e companhias de automóveis era mais uma corvéia que uma oportunidade. Estava prisioneiro do sistema. Não quis mudá-lo.

Os EUA e China chegaram finalmente a um acordo inicial sobre o clima em 2014.

O que, certamente, é algo bom. Mas tudo o que pode ser penoso no acordo não entrará em vigor até que Obama termine seu mandato. O que mudou foi que Obama disse: “Nossos cidadãos estão manifestando, não podemos ignorá-los”. Os movimentos de massa são importantes, têm repercussões. Mas, para empurrar nossos líderes até onde têm que chegar, os movimentos devem fazer-se mais fortes.

Qual deveria ser sua meta?

Nos últimos 20 anos, a extrema direita, a absoluta liberdade das empresas petrolíferas e a liberdade do 1% dos super-ricos da sociedade se converteram em norma política. Temos que deslocar de novo o centro político norte-americano da franja direitista a seu lugar natural, o verdadeiro centro.

Senhora, isso não tem sentido, porque é uma ilusão. Pensa você em avançar demais. Se você quer eliminar o capitalismo antes de elaborar um plano para salvar o clima, sabe você que isso não vai acontecer.

Olhe, se você quer deprimir-se, tem muitas razões pra isso. Mas continuará equivocado, porque o fato é que centrar-se em mudanças graduais supostamente viáveis, como o comércio de emissões e a troca de lâmpadas, fracassou miseravelmente. Em parte isso se deve ao fato de na maioria dos países o movimento ambiental permaneceu elitista, tecnocrático e supostamente neutro politicamente durante duas décadas e meia. Já vemos hoje quais são os resultados a que nos levaram o caminho equivocado. As emissões estão aumentando e aqui temos a mudança climática. Em segundo lugar, nos EUA, todas as transformações importantes legais e sociais dos últimos 150 anos foram resultado de movimentos sociais massivos, seja em favor das mulheres, contra a escravidão, ou em prol dos direitos civis. Necessitamos de novo esta fortaleza, e rapidamente, porque a causa da mudança climática é o sistema político e econômico vigentes. Seu enfoque é muito tecnocrático e estreito.

Se tenta você solucionar um problema específico revirando toda a ordem social, não vai resolvê-lo. É uma fantasia utópica.

Se a ordem social é a raiz do problema, é diferente. Olhando de outra perspectiva, nadamos literalmente em exemplos de pequenas soluções: há tecnologias verdes, leis locais, tratados bilaterais e impostos ao CO2. Por que não temos tudo isso em escala global?

Diz você que todos esses pequenos passos – tecnologia verde e impostos ao Co2 e um comportamento ecológico individual – não têm sentido?

Não. Todos deveríamos fazer o que pudéssemos, de certo. Mas não podemos nos engtanar com que isso seja suficiente. O que digo é que esses pequenos passos são muito pequenos, se não se convertem num movimento de massas. Necessitgamos uma transformação econômica e política, que se gaseia em comunidades mais fortes, empregos sustentáveis, maior regulamentação e um afastamento dessa obsessão de crescimento. Essas são as boas notícias. Temos, realmente, a oportunidade de resolver muitos problemas imediatamente.

Não parece contar com a razão coletiva de políticos e empresários.

Porque o sistema não pode pensar. O sistema recompensa a ganância a curto prazo, o que significa dizer, lucros rápidos. Observe Michael Bloomberg, por exemplo…

 …empresario e antigo prefeito de Nova Iorque…

…que entende la gravidade da crise do clima como político. Como empresário, prefere investir num que se especializa em ativos de petróleo e gás. Se uma pessoa como Bloomberg não pode resistir à tentação, se pode concluir, por esse caso, que não é grande a capacidade de auto-conservação do sistema.

Um capítulo especialmente de seu livro é o de Richard Branson, presidente do Grupo Virgin.

Sim, estava esperando.

Branson apresentou-se como um homem que quer salvar o clima. Tudo começou com um encontro com Al Gore.

E em 2006 se comprometeu num ato que acolhia a a Clinton Global Initiative onde investiria 3 bilhões de dólares para pesquisar tecnologias verdes. Naquela época, eu pensava que seria um aporte realmente fantástico. O que não me ocorreu pensar foi “que sujeito tão cínico você é”.

Branson só estava simulando e só investiu uma parte desse dinheiro.

Talvez fosse sincero na ocasião, se investiu uma parte desse dinheiro.

Desde 2006, Branson acrescentou 160 novos aviões em suas numerosas linhas aéreas, e incrementou suas emissões em 40%.

Sim.

Qual a lição dessa história?

Que temos que pôr sob suspeita o simbolismo e os gestos que fazem as estrelas de Hollywood e os super-ricos. Não podemos confundi-los com um plano cientificamente sério para reduzir emissões.

Na América do Norte e Austrália, se gasta muito dinheiro tentando negar a mudança climática. Por que?

É diferente da Europa. Se trata de uma indignação semelhante à de quem se opõe ao aborto e ao controle das armas. Não se trata de que se esteja protegendo um modo que não querem mudar. É que entenderam que a mudança climática põe em cheque o núcleo de seu sistema de crenças contrário ao governo e em prol do livre mercado. De modo que tem que negá-lo para proteger sua própria identidade. Por isso existe essa diferença de intensidade: os iberais querem agir um pouquinho na proteção do clima. Mas ao mesmo tempo, esses liberais têm uma série deoutras questões que figuram de modo mais destacado em sua agenda. Mas temos que entender que os mais duros que negam a mudança climática entre os conservadores, farão tudo o que for possível para impedir que se aja.

Com estudos pseudocientíficos e desinformação?

Com tudo isso, certamente.

Isso explica porque relaciona toas essas questões – meio ambiente, igualdade, saúde pública e trabalho – que são populares entre a esquerda? Por razões puramente estratégicas?

Essas questões têm relação e nos falta mesmo conecta-las no debate. Só há um modo de vencer uma batalha contra um pequeno grupo de pessoas que te enfrentam porque têm muito a perder: há que se iniciar um movimento massivo que abarque a toda aquela gente que tem muito o que ganhar. Só se pode derrotar a quem te nega tudo, se te mostras igualment apaixonado mas também quando es superior em número. Porque na verdade, os que mandam são muito poucos.

Por que não acredita que a tecnologia possa salvar-nos?

Há um grande progresso na armazenagem de energias renováveis, por exemplo, e na eficiência solar. Mas… e na mudança climática? Eu não tenho fé suficiente para dizer: “Como acabaremos inventando alguma coisa na hora, deixemos de lado todos os outros esforços. Isso seria uma insnsatez.

Gente como Bill Gates vê as coisas de modo diferente.

E eu acho ingênuo seu fetichismo tecnológico. Em anos recentes testemunhamos certos fracassos espetaculares, em que alguns tipos mais espertos meteram a mão até o fundo numa escala grandiosa, sem falar dos derivados que desencadearam a crise ou a catástrofe petrolífera da costa de Nova Orleans. Na maioria das vezes, nós destruímos as cosias e não sabemos como consertá-las. Agora mesmo, o que estamos destruíndo é nosso planeta.

Ouvindo-a, se poderia ter a impressão de que a crise do clima é uma questão de gênero.

Por que você diz isso?

Bill Gates diz que temos que avançar e idear novas invenções para controlar o problema, e em última instãncia, esta Terra nossa tão complicada. Por outro lado, diz você: paremos, temos que adaptar-nos ao planeta e nos tornarmos mais leves. As companhias petrolíferas norte-americanas estão dirigidas por homens. E você, uma mulher crítica, a descrevem como uma histérica. Não lhe parece absurdo?

Não. A industrialização em seu conjunto estava ligada com o poder, para ver se seria o homem ou a natureza que dominaria a Terra. A alguns homens parece difícil reconhecer que não temos tudo sob controle, que acumulamos todo esse CO2 ao longo dos séculos, e hoje a T nos diz: olhe, não passas de um convidado em minha casa.

Convidado da Mãe Terra?

Isso não soa lá muito bem. De certo modo, você tem razão. A indústria petrolífera é um mundo dominado pelos homens, muito semelhante ao da altas finanças. É algo do domínio dos machos. A idéia norte-americana eaustsraliana de “descobrir um país infinito do qual se possam extrair inesgotáveis recursos, tem uma história de dominação, que representa tradicionalmente a natureza como uma mulher fraca e torpe1. E a idéia de estar em relação de interdependência com o resto do mundo natural se consider uma debilidade. Por isso é duplamente difícil aos machos-Alfa reconhecer que se equivocaram.

Há em seu livro uma questão de que parece querer desviar-se. Ainda que você critique às empresas, não diz você a seus leitores, que são clientes dessas empresas, que também são culpados. Tampouco diz você alguma coisa do preço que terá de pagar cada um de seus leitores pela proteção do clima.

Oh, eu creio que a maioria das pessoas ficaria encantada de pagar por isso. Sabem que proteção do clima exige um comportament razoável: dirigir menos, voar menos e consumir menos. Ficariam encantados de usar energias renováveis se lhes fossem oferecidas.

Porém a idéia não é o bastante grande, não é?

(riso) Exatamente. O movimento verde levou décadas instruindo as pessoas para que usassem seu lixo como abono, para que reciclasse e andasse de bicicleta. Mas observe o que sucedeu com o clima durante essas décadas.

E sua maneira de viver é benéfica ao clima?

Não o bastante. Ando de bicileta, uso transporte público, converso por Skype, divido um carro híbrido e reduzi meus voos a um décimo do que eream antes de começar esse projeto. Meu pecado está em usar táxis e, desde que saiu o livro, em voar muito. Mas não creio que seja possível ser perfeitamente verde e viver sem emitir CO2, o único fator concernente a essa questão. Se assim fosse, então ninguém poderia dizer uma única palavra [4].

***

Naomi Klein é autora, entre outros livros, de A doutrina do Choque e No Logo.

Tradução: Tania Jamardo Faillace

Notas da tradutora:

[1] Essa intervenção do entrevistador é muito tola. Nossos produtos e nossos dejetos e efluentes são consequência de nosso modelo de vida em sociedade, e esta depende do modelo econômico, social e político que adotamos, sendo o modelo econômico o primeiro condicionante, porque determina os demais.

[2] Essa intervenção do entrevistador é muito tola. Nossos produtos e nossos dejetos e efluentes são consequência de nosso modelo de vida em sociedade, e esta depende do modelo econômico, social e político que adotamos, sendo o modelo econômico o primeiro condicionante, porque determina os demais.

[3] E voltamos a Freud, e a encarar o grande nó existencial e psicológico do indivíduo humano e suas relações parentais: o complexo de Édipo. A desqualificação da mulher, simbolicamente, continua a ser a sujeição da mãe à vontade do filho. A tragédia está equivocada: Édipo não matou o pai, deve, isso sim, ter morto a mãe, mesmo simbolicamente, como ainda hoje faz todos os dias.

[4] Para quem não sacou o gracejo: Naomi se refere, que, ao falar emitimos C02 pela boca. Ao respirar, também.

Alemanha: Duros protestos em resposta a inauguração da nova sede do BCE

Via DW

Viaturas policiais são queimadas, barricadas fecham ruas e polícia entra em choque com manifestantes em Frankfurt, poucas horas antes de o Banco Central Europeu inaugurar sua bilionária nova sede.

Milhares de manifestantes contrários às políticas de austeridade europeias entraram em confronto com a polícia nesta quarta-feira (18/03) em Frankfurt, nas proximidades da nova sede do Banco Central Europeu (BCE). Cerca de 350 ativistas foram presos, e cerca de 90 policiais e dezenas de ativistas ficaram feridos.

Os distúrbios aconteceram em diversos pontos da cidade, poucas horas antes da cerimônia de inauguração da nova sede do BCE, que custou cerca de 1,3 bilhão de euros. Diversas viaturas policiais foram incendiadas e ruas foram bloqueadas por barricadas improvisadas com pneus e latões de lixo em chamas. Os policiais utilizaram canhões de água e gás lacrimogêneo para tentar dispersar os manifestantes.

A porta-voz da polícia de Frankfurt, Claudia Rogalski, descreveu o clima entre os manifestantes como agressivo. “Pedras foram atiradas, latões de lixo foram queimados e viaturas policiais foram danificadas, muitas delas incendiadas”, afirmou. Segundo a polícia, ao menos sete viaturas foram queimadas e outras sete, danificadas. Diversas ruas do Frankfurt estão bloquedas, e parte do transporte público não está funcionando, incluindo uma linha de metrô e bondes de superfície.

Segundo a polícia, a maioria dos manifestantes do movimento Blockupy protestava pacificamente. O próprio Blockupy disse condenar a violência, que partiu de uma minoria de manifestantes, parte deles vestida de preto e com o rosto coberto.

O Blockupy – uma referência ao movimento Occupy Wall Street que tomou parte do centro financeiro de Nova York em 2011 – esperam que cerca de 10 mil pessoas participem dos protestos ao longo do dia. Milhares de manifestantes vieram de outras partes da Europa para tomar parte nos protestos. Há várias manifestações previstas ao longo do dia em Frankfurt.

“Nosso protesto é contra o BCE como membro da troica, que, apesar de não ser democraticamente eleita, prejudica o trabalho do governo da Grécia. Queremos o fim das políticas de austeridade”, afirmou Ulrich Wilken, um dos organizadores da manifestação. “Queremos um protesto ruidoso, mas pacifico.”

A “troica”, recentemente rebatizada de “instituições”, é composta pelo BCE, pela Comissão Europria e pelo Fundo Monetário Internacional e tem a tarefa de monitorar o cumprimento das condições impostas nos acordos de resgate financeiros de países europeus que enfrentam dificuldades econômicas, como a Grécia.

MTST fecha rodovia no Rio para protestar contra ajuste fiscal do governo

Por Vitor Abdala | Via Agência Brasil

Manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) fizeram na manhã de hoje (18) um protesto na Rodovia Niterói-Manilha (BR-101), em Niterói, no Grande Rio. Eles atearam fogo em uma barricada de pneus e fecharam a pista no sentido Ponte Rio-Niterói.

O protesto faz parte do Dia Nacional de Lutas, que está acontecendo em 13 estados. O MTST e movimentos da Frente de Resistência Urbana querem o lançamento imediato do Programa Minha Casa, Minha Vida 3 e o recuo no ajuste fiscal do governo federal.

Segundo a concessionária Autopista Fluminense, que administra a via, o protesto ocorreu na altura do quilômetro 321, a pouco mais de um quilômetro da ponte. O engarrafamento, de acordo com a concessionária, chega a cinco quilômetros de extensão.

Policiais militares e rodoviários federais negociaram com os manifestantes a liberação da rodovia e, neste momento, bombeiros apagam o incêndio da barricada.