Arquivos da categoria: Movimentos Sociais

Sistema eleitoral apadrinhado por Cunha só é adotado no Afeganistão e na Jordânia

Por Najla Passos | Via Carta Maior

O relatório que o presidente da Câmara quer aprovar este mês também constitucionaliza o financiamento privado das campanhas eleitorais.

O novo sistema eleitoral proposto pelo relator da Comissão Especial da Reforma Política da Câmara, deputado Marcelo Castro (PMDB-PI), que o presidente da casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), trabalha para aprovar ainda este mês, é apontado por especialistas e setores mais progressistas da sociedade como um grave retrocesso para a democracia brasileira.

O chamado “distritão” é um modelo não proporcional, ainda pior do que atual sistema brasileiro, porque acentua o personalismo e o abuso do poder econômico, em detrimento de partidos, ideologias e propostas. É considerado tão ruim e ultrapassado que só é adotado em dois países do mundo: Afeganistão e Jordânia.

“Se este relatório for aprovado, o sistema político brasileiro vai piorar muito mais”, avalia o deputado Henrique Fontana (PT-RS), ex-líder dos governos Lula e Dilma e um dos maiores especialistas em reforma política, autor da proposta mais progressista já construída no parlamento, mas que jamais chegou à votação.

De acordo com ele, o canto de sereia do “distritão” se baseia na simplicidade, já que os deputados mais votados são os eleitos. Por isso, se apresenta de forma atraente, com o discurso de que é uma solução para a distorção verificada hoje com o efeito puxador de votos, ou o chamado “Efeito Tiririca”, que ocorre quando um deputado muito votado consegue eleger também outros nomes de sua legenda com votação inexpressiva.

Entretanto, apresenta desvantagens graves se comparado com outros sistemas proporcionais, mais abertos à participação das minorias. No sistema proporcional, todos os votos dados pelos cidadãos são contados na hora de definir quem vai ocupar as cadeiras do parlamento. “No proporcional, não se joga voto fora. No distritão, o candidato mais votado ganha a eleição e os outros votos todos vão para o lixo”, diz o deputado.

Segundo ele, no sistema proporcional, candidatos com bandeiras específicas ou minoritárias têm muito mais chances de se eleger. No distritão, a tendência é que sejam eleitas as celebridades e os candidatos popularescos e muito radicais. O sistema proporcional favorece candidatos como Jean Wyllys (PSOL-RJ). O distritão, como Jair Bolsonaro (PP-RJ).

Outro problema do distritão é que favorece um pluripartidarismo acentuado, problema não detectado nem mesmo em outras variações do modelo, como o distrital misto adotado na Inglaterra. “Se hoje nos temos 28 partidos com representação no parlamento, com o distritão, a expectativa é que este número chegue, rapidamente, em 40 ou 45”, prevê Fontana.

Há outras diferenças em relação a modelos ao estilo do inglês, nos quais as distorções ocorrem porque nem sempre o partido que recebe mais votos é o que alcança maior representação no parlamento, já que o que vale são as legendas dos parlamentares eleitos em cada um dos distritos. No “distritão” defendido pelo PMDB, porém, os partidos sequer importam.

“Cada deputado é praticamente um partido”, resume. “O deputado organiza sua própria campanha, não precisa ter nenhuma solidariedade para construir votação de legenda. Não precisa do partido para nada e não se dedica em nada ao partido. É cada um para si e deus para todos”, denuncia.

Para Fontana, o modelo terá impactos graves na já difícil governabilidade do país. “Cada votação terá que ser negociada não com partidos ou blocos, mas individualmente, com cada um dos 513 deputados”, exemplifica. Segundo ele, o sistema acaba com os partidos políticos ideológicos. “Uma democracia representativa não pode ser feita por personalidades isoladamente”, afirma.

Fontana aponta ainda que o distritão aumentará o custo das campanhas eleitorais para deputados, que atingirão cifras equivalentes as dos governadores. “A tendência é que as 513 campanhas mais caras do país sejam as eleitas. Por isso, o distritão é uma espécie de paraíso para o poder econômico”, destaca.

Segundo ele, como os deputados terão que disputar votos em todo o estado, e não só apenas nas suas regiões, os gastos serão mais altos. “Um deputado que hoje coloca carro de som em 20 municípios terá que colocar em 100”, exemplifica.

Outro efeito negativo do distritão é privilegiar o conservadorismo.  “O distritão tende a reeleger quem já é deputado”, aponta. Conforme ele, os próprios partidos são induzidos a lançarem apenas seus nomes mais conhecidos, impedindo o surgimento de novas lideranças. “ Os partidos precisam concentrar os votos dos eleitores que simpatizam com sua sigla. Por isso, têm que concentrar nos nomes mais fortes”, explica.


Constitucionalização do financiamento privado

Além de propor um sistema eleitoral considerado pior do que o atual, o relatório endossado por Cunha retrocede também ao constitucionalizar o financiamento das campanhas eleitorais pelas empresas, considerado o cerne da corrupção por cerca de 80% da população, conforme diferentes pesquisas.

“O grande desafio para melhorar a política brasileira é fazer aquilo que 40 países do mundo já fazem, que é retirar as empresas do financiamento das campanhas. E o que este relatório faz é constitucionalizar o financiamento das empresas”, denuncia Fontana, que estima que sua aprovação poderá ter efeito negativo, inclusive, na ação direta de inconstitucionalidade (Adin) sobre o tema que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).

No julgamento da Adin requerida pela OAB, seis dos 11 ministros da corte já votaram pela inconstitucionalidade do financiamento de campanha. Entretanto, há mais de um ano, o ministro Gilmar Mendes pediu vistas do processo e não o devolve para que o julgamento seja retomado, dado que sua posição, favorável ao financiamento das empresas, foi vencida.

“A posição do ministro Gilmar Mendes é extremamente autoritária, porque toda a sociedade brasileira quer que esse assunto seja resolvido logo. E já há maioria de voto para isso”, acrescenta Fontana.

Redução da maioridade penal pode agravar violência, afirma ONU

Via DW

Nações Unidas argumentam que adolescentes são mais vítimas do que autores da violência e que infrações de jovens devem ser tratadas como sinal da restrição do acesso a direitos fundamentais.

A ONU afirmou nesta segunda-feira (11/05) que acompanha com preocupação a tramitação, no Congresso Nacional, de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos e também o debate nacional sobre o tema.

Segundo a ONU, é “com grande inquietação que se constata que os adolescentes vêm sendo publicamente apontados como responsáveis pelas alarmantes estatísticas de violência no país, num ciclo de sucessivas violações de direitos”.

A ONU argumenta que os adolescentes são muito mais vítimas do que autores da violência. “Dados oficiais mostram que, dos 21 milhões de adolescentes que vivem no Brasil, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida”, afirma nota divulgada pela instituição. Por outro lado, “os homicídios já são a causa de 36,5% das mortes de adolescentes por causas não naturais, enquanto, para a população em geral, esse tipo de morte representa 4,8% do total”.

“Somente entre 2006 e 2012, pelo menos 33 mil adolescentes entre 12 e 18 anos foram assassinados no Brasil”, prossegue a nota. “Na grande maioria dos casos, as vítimas são adolescentes que vivem em condições de pobreza na periferia das grandes cidades.”

“O Sistema ONU alerta que, se as infrações cometidas por adolescentes e jovens forem tratadas exclusivamente como uma questão de segurança pública e não como um indicador de restrição de acesso a direitos fundamentais, a cidadania e a justiça, o problema da violência no Brasil poderá ser acentuado, com graves consequências no presente e futuro.”

A redução da maioridade penal está sendo analisada por uma comissão especial na Câmara dos Deputados. Se aprovada, vai para votação na Câmara. Se passar, vai para o Senado.

PSOL expulsa deputado Cabo Daciolo

Via Correio do Brasil

Cabo Daciolo foi expulso por desacordo com estatuto e programa partidário.

O PSOL expulsou dos seus quadros o deputado federal Cabo Daciolo (RJ) pelas atitudes que o parlamentar vinha tomando no exercício do seu mandato. A expulsão ocorreu na noite de sábado, pelo Diretório Nacional do PSOL, que se encontra reunido em Brasília desde ontem. Votaram pela expulsão do deputado Cabo Daciolo 54 integrantes do diretório nacional. Apenas um integrante votou a favor da permanência dele nos quadros do partido. O diretório decidiu que não irá à justiça reivindicar o mandato parlamentar de Daciolo.

A decisão do diretório nacional foi baseada em parecer da Comissão de Ética do partido, acionada pelo diretório do Rio de Janeiro, que propôs a expulsão do deputado argumentando que ele tinha tomado atitudes em desacordo com o estatuto e o programa partidário. De acordo com o PSOL, a notificação oficial ao deputado será feita ainda nesta semana.

As atitudes tomadas pelo deputado que levaram a expulsão dele, segundo o PSOL foram: a apresentação de proposta de emenda à Constituição (PEC 12/15) que propõe alterar o trecho da Constituição que afirma que “todo poder emana do povo” por “todo poder emana de Deus”, ferindo a concepção do PSOL na defesa do Estado laico, além da cobrança feita pelo deputado para que o partido se engajasse na defesa de policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, acusados pelo assassinato do ajudante de pedreiro Amarildo, morto em junho de 2013.

De acordo com o parecer da comissão de ética, a posição do deputado Cabo Daciolo de defender os policiais da UPP “vai na contramão do engajamento de militância do partido na campanha Cadê Amarildo? e na luta contra a criminalização dos moradores das periferias”. Com a expulsão do Cabo Daciolo, a bancada do PSOL na Câmara passa dos atuais cinco para quatro deputados federais.

“Bancada da bala” ocupa principais cargos de comissão da maioridade penal

Por Leandro Prazeres | Via Uol

André Moura (PSC-SE) presidirá comissão sobre maioridade penal na Câmara

A chamada “bancada da bala” vai ocupar os principais cargos da comissão especial que vai analisar a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 171/93, que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Dos quatro cargos da direção da comissão, dois ficaram a cargo de integrantes da bancada. A comissão que analisará a proposta foi instalada nesta quarta-feira (8). O nome do relator será definido na semana que vem.

A comissão será presidida pelo deputado André Moura (PSC-SE), aliado do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O primeiro vice-presidente da comissão é o deputado Efraim Filho (DEM-PB).

Os dois são integrantes da Frente Parlamentar da Segurança Pública, conhecida como “bancada da bala” por sua postura em assuntos relativos à violência. A segunda vice-presidente da comissão será a deputada federal Margarida Salomão (PT-MG), e o terceiro vice-presidente será Bruno Covas (PSDB-SP). Margarida e Bruno não são integrantes do grupo.

A PEC 171/93 teve sua constitucionalidade aprovada pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara no final de março.

Para virar lei, a proposta ainda precisa ser analisada pela comissão especial e ser votada em dois turnos na Câmara e no Senado. A comissão especial vai analisar o conteúdo do projeto e definir alterações à proposta original feita há 22 anos pelo então deputado federal Benedito Domingos.

O presidente da comissão disse que apesar do grande número de parlamentares pertencentes à Bancada da Bala, a posição deles não vai se sobrepor à da maioria. “A posição de cada um deles não vai prevalecer em relação à posição do colegiado. Vamos discutir e dar a oportunidade de o assunto ser debatido, inclusive, em seminários regionais”, afirmou Moura.

Perfil conservador

Dos 27 membros titulares, 15 pertencem à Frente Parlamentar da Segurança Pública, como os delegados Éder Mauro (PSD-PA), Laerte Bessa (PR-DF) e João Campos (PSDB-GO). Doze deputados pertencem à Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família, como Juscelino Filho (PRP-MA) e oito pertencem às duas, como a deputada Keiko Ota (PSB-SP).

A principal bandeira da Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família é a aprovação do Estatuto da Família, que restringe a definição de núcleo familiar apenas às uniões entre um homem e uma mulher, e a aprovação do Estatuto do Nascituro, que na prática, inviabiliza discussões referentes a uma eventual descriminalização do aborto.

A “bancada da bala”, por sua vez, comporta ex-militares e delegados de polícia que defendem o endurecimento de penas e a revogação do Estatuto do Desarmamento.

Os 18 integrantes das bancadas alinhadas a bandeiras conservadoras que ocupam a comissão especial são suficientes para aprovar o texto que será encaminhado ao plenário da Câmara.

Para a deputada federal Erika Kokay (PT-DF), indicada como membro titular da comissão e de posição contrária à redução da maioridade penal, a composição da comissão especial que vai analisar a proposta é reflexo do conservadorismo da Câmara dos Deputados.

“As forças na comissão especial são um espelho das forças que operaram na CCJ e que operam na Câmara dos Deputados. Isso mostra que desafio de evitar que essa proposta seja aprovada é muito grande”, disse a deputada.

Plebiscito ou referendo

O presidente também afirmou que propostas de referendo ou plebiscito sobre a redução da maioridade penal também serão colocadas em pauta durante os trabalhos da comissão. O primeiro vice-presidente, Efraim Filho, defendeu a discussão sobre a realização de um referendo sobre o tema. Moura disse que há propostas pendentes sobre o tema que preveem a realização de um plebiscito.

“O plebiscito é algo que  vamos discutir. Se a maioria dos integrantes da comissão especial entender que a melhor opção é um referendo ou plebiscito (…) entendo que é uma proposta que deve ser colocada sob apreciação”, afirmou Moura.

Pentágono – Operação Jade Helm 15

Por Dr. Nestor García Iturbe

Recentemente começou a divulgar-se informações sobre a operação “Jade Helm 15”, cuja tradução pode ser “timão de jade 2015”. O que saiu à luz pública sobre a operação em questão foi publicadas por divulgadores contrários aos interesses do Pentágono, como INFOWARS, principalmente pelos jornalistas Alex Jones e Juan Jimenez de Leon.

De acordo com o publicado, a operação “Jade Helm 15” se desenvolverá em diferentes estados do Sul e Oeste dos EUA, como Texas, Novo México, Arizona, Califórnia, Nevada, Utah e Colorado.

O objetivo dessa operação é ocupar os estados onde os insurgentes ganharam força e, portanto, a situação se tornou “ingovernável” para as cidades. A polícia, outras agências repressivas, e a Guarda Nacional são as encarregadas de manter ‘a ordem’ no intuito de impedir que uma ‘primavera política’ adquira força e os insurgentes tomem o poder. A diferença é que intervirão também as unidades do Pentágono com todo seu poderio bélico.

A data para o início da operação será o 15 de julho e deve terminar a 15 de setembro deste ano. A operação em si deve ter uma duração máxima de dois meses, ainda que tudo se desenvolva favoravelmente às forças estadunidenses, podendo durar um pouco menos.

Os jornalistas informaram que as forças implicadas na Jade Helm 15 incluirão pessoal altamente treinado da U.S. Army Special Forces Command (comando das forças especiais do Exército) ou Boinas Verdes, U.S. Navy SEALS (Marinha), U.S. Air Force Special Operations Command, USMC Marine Special Operations Command, USMC Marine Expedicionary Units, a 82and Airborne Division, às quais se juntarão a Guarda Nacional, a polícia, e outras agências paramilitares dos estados em que a operação será desenvolvida.

O exercício foi organizado pelo Departamento de Defesa (DoD), e para a frente do mesmo foi designado o general Ashton Carter, que executará essas tarefas como parte das ações a serem desenvolvidas pelo United States Special Operations Command (USSCOM), e o general Gerald “Jake” Betty estará presente durante as operações.

Em documentos recentes da Guarda Nacional, os cidadãos estadunidenses que participam em protestos são qualificados como “forças inimigas” e “adversários”.

Se coloca que o desenvolvimento, pelo Pentágono do que se foi chamado “Técnicas de Domínio Humano”, onde se acumula a informação obtida sobre as pessoas por meio da Internet, Facebook e outros sistemas similares são de grande ajuda para operações como esta. “Eles estão construíndo a infra-estrutura da tirania”, declarou David Knight, de INFOWARS, ao conhecer as declarações do tenente coronel Al Di Leonardo sobre a utilização dessa informação e a classificação que o Pentágono usava em relação ás regiões de acordo com a periculosidade das mesmas.

Esse é um exercício planificado contra cidadãos estadunidenses, que exponham seu desacordo com a situação existente no país, ou que protestem pelos assassinatos cometidos pela polícia. Exercício dirigido por um Comando do Pentágono, o United States Special Operations Command (USSOCOM), cuja missão é precisamente manter a ordem estabelecida dentro do país pela classe dominante, e tudo isso financiado pelo dinheiro dos contribuintes, os mesmos “insurgentes” proporcionam o financiamento dos projéteis que os matarão.

***

Tradução: Tania Faillace

‘A terceirização degrada as condições de trabalho’ diz Ruy Braga

Por João Pedro Soares | Via Brasil Econômico

Especialista em Sociologia do Trabalho, Ruy Braga diz que PL vai promover desmonte da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Com a aprovação do PL 4330, 15 milhões de brasileiros estarão ganhando 30% menos até 2020. A análise é de Ruy Braga, especialista em Sociologia do Trabalho. O professor da USP se baseia no quadro atual da terceirização e em estatísticas dos últimos anos para demonstrar que o projeto de lei irá promover um desmonte da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), além de precarizar as condições trabalhistas e reduzir a arrecadação da União. Para Braga, o PL só é comparável a uma lei promulgada durante a ditadura militar.

O senhor trabalha com uma projeção de 20 milhões de brasileiros ganhando 30% menos até 2020. Em quê ela se baseia?

Se o PL for aprovado, com suas características principais, haverá uma inversão estrutural do mercado de trabalho brasileiro, na qual a maior parte dos trabalhadores serão terceirizados e, a menor parte, contratada diretamente. Entre 2003 e 2014, o número de trabalhadores terceirizados cresceu de 4 milhões para 12,7 milhões. Ao longo desse período, foram criados cerca de 20,5 milhões de empregos com carteira de trabalho assinada. Se a gente desconta esses 8,7 milhões, tem algo em torno de 12 milhões de postos de trabalho de contratação direta criados. Destes, 11,3 milhões pagam até 1,5 salário mínimo.

Esses 11,3 milhões de empregos criados foram majoritariamente ocupados por jovens, mulheres, não brancos e trabalhadores de baixa qualificação – exatamente aquele público que é preferencialmente terceirizado. A gente tem um período econômico difícil pela frente, e é óbvio que as empresas vão terceirizar esses 11,3 milhões de trabalhadores. Você tem que somá-los aos 12,7 milhões que já são terceirizados, e chegará a 24 milhões de trabalhadores. Nos próximos cinco anos, cerca de 2,5 milhões de trabalhadores irão se aposentar. Na recontratação, você terá uma ampla maioria de trabalhadores terceirizados contratados para ocupar esses postos aposentados. Ou seja, em um período de cinco anos, você vai ter algo em torno de 27 milhões de trabalhadores terceirizados para um volume de 20 milhões de trabalhadores contratados, que são, predominantemente, do serviço público; trabalhadores muito qualificados e concentrados em setores monopolistas da economia e empresas estatais; ou representados por sindicatos muito fortes com condição de barrar a terceirização no setor.

A baixa qualificação dos trabalhadores brasileiros amplia, então, os impactos do PL?

Sem dúvida. É claro que há, também, a terceirização dos trabalhadores qualificados via PJ, o famoso “pejotismo”. No entanto, ela é menor, evidentemente, porque, para a empresa que depende de trabalho qualificado, não interessa a rotatividade. Pelo menos, do ponto de vista de qualidade do produto ou serviço. É essa a realidade da ampla maioria de empresas do país, que emprega uma força de trabalho semi-qualificada ou não qualificada, porque os postos de trabalho estão acantonados no setor de serviços; indústria da construção civil, construção pesada; agronegócio. São aqueles setores que cresceram muito nos últimos 13 anos. Pelas características desses setores, é muito mais comum criar empregos que remuneram mal porque não exigem, propriamente, qualificações escassas. Você tem uma situação em que a própria característica do modelo de desenvolvimento brasileiro gera muitos empregos, ao mesmo tempo em que cria muitos empregos não qualificados ou semi-qualificados. O importante é que essa dinâmica se choca com uma outra tendência do mercado de trabalho brasileiro, que é o aumento da escolarização formal. Isso não representa o aumento da qualificação para o trabalho. Naturalmente, essa massa jovem que está entrando no mercado de trabalho tem expectativas mais elevadas em relação ao emprego e, consequentemente, aos salários, o que cria uma área de atrito.

A quem interessa o PL?

Basicamente, à classe empresarial. A não ser pela emenda segundo a qual o trabalhador terceirizado seria representado pelo sindicato da categoria contratante e um ou outro detalhe da lei, o espírito do projeto é de proporcionar às empresas um ganho adicional de lucro, que é exatamente o avanço sobre os direitos trabalhistas. Notoriamente, além de serem menores, as empresas terceirizadas deixam de repassar tributos para o governo. Como elas atuam em um mercado muito estrito, do ponto de vista do lucro, é muito comum que ela pressione o salário para baixo e, ao mesmo tempo, não repasse o tributo. Geralmente, ela fecha e abre com outra razão social. Isso faz com que a fiscalização se torne muito complexa. Por todas essas razões, os principais interessados na aprovação do PL são os empresários. Eu diria que não é uma classe empresarial que trabalha com o consumo popular, porque, notoriamente, o trabalho terceirizado paga 27% menos, de acordo com dados do Dieese. Consequentemente, haverá impacto no consumo.

E gera um aumento de lucro desvinculado do ganho na produtividade.

Não tenha dúvida. O trabalho terceirizado não aumenta a produtividade, pelo contrário. Geralmente, é um trabalho não qualificado, o que significa, por exemplo, um aumento dos acidentes, mortes e adoecimento. É um tipo de trabalho que não preza pela qualificação ou aumento da produtividade, se você pensar em termos de investimento em P&D, centros de tecnologia de renovação da base técnica das empresas e coisas do gênero. O trabalho terceirizado serve para enxugar salários, aumentar a jornada de trabalho e economizar com os direitos trabalhistas.

O que explica a união de PT e PSDB no requerimento pelo adiamento da votação?

Para entender o que está acontecendo, a gente tem que levar em consideração vários fatores. Principalmente, o que diz respeito ao açodamento que foi a aprovação do texto-base na Câmara. Os deputados votaram na tendência do Eduardo Cunha, mas não perceberam o impacto que isso teria nas relações de trabalho reais e no dia a dia das pessoas. Quando a mensagem começa a circular e as pessoas se dão conta da importância do que estava sendo discutido pelo Congresso, a opinião pública avança em uma posição crítica ao projeto. Consequentemente, aqueles setores mais sensíveis a essa opinião pública mais estruturada, mesmo classes médias, dão um passo atrás. Essa foi a declaração do Carlos Sampaio (PSDB-SP), inclusive, dizendo que o PT tinha ganhado a batalha da informação neste caso. E é correto dizer que a opinião pública se coloca muito crítica com relação ao projeto de lei, o que tem, evidentemente, impacto sobre a disposição de votação dos deputados. Afinal de contas, eles têm que prestar contas para suas bases eleitorais. No entanto, é muito provável que o aspecto chave da lei, que a torna tão ameaçadora, do ponto de vista dos direitos do trabalho, que é o fim da separação entre atividades-meio e atividades-fim nas empresas, não vá ser alterado.

O senhor é pessimista com a reversão do quadro por conta da pressão das redes e das ruas?

Do ponto de vista da lógica política, acho possível. Mas se você soma essa lógica com a conjuntura econômica, acho pouco provável. Porque a conjuntura atual é marcada por um ajuste no interior de um regime de acumulação, que transita, prioritariamente, da exploração da força de trabalho assalariada barata para uma situação de acumulação prioritária por espoliação, que significa aumento da precarização, contenção de gastos públicos, uma intensificação da financeirização da economia. Ou seja, tem um ajuste estrutural acontecendo no país hoje, e o governo é parte disso ao propor o ajuste fiscal. Mas você tem essa dinâmica nas empresas, a taxa de juros e, agora, essa ofensiva contra os direitos dos trabalhadores. No agregado, tudo isso me faz reticente de haver um veto cabal a esse projeto. Porque isso tem a ver com a retomada do crescimento econômico nos moldes previstos pelas empresas ou pelo governo.

Como você não tem, no Brasil, ganhos importantes de produtividade e esse modelo de exploração do trabalho assalariado barato já mostrou seus limites, que basicamente esbarram no aumento do endividamento das famílias, etc., essa lógica do endividamento, do crédito, do trabalho que paga salário mínimo esgota ou está claudicando nitidamente, não é mais capaz de dinamizar a economia como foi no último período, você tem que colocar outro modelo, que basicamente se apoia na diminuição dos custos unitários do trabalho. Então, vai se avançar nos direitos dos trabalhadores como regra. Porque as empresas vão querer economizar em alguma ponta, que é, aparentemente, a legislação trabalhista. O governo federal deu essa senha com a edição das MPs 664 e 665 no final de 2014. Você tem uma nova era de precarização do trabalho como condição para retomada do investimento e do crescimento econômico. Por isso sou um pouco cético.

Então, o senhor entende o PL como a primeira de outras medidas econômicas desfavoráveis aos trabalhadores?

Não tenho a menor dúvida. Se você analisar as movimentações das forças de mercado, todas as medidas do governo caminham nessa direção. Desde a taxa de juros à recomposição com os setores empresariais e financeiros. Hoje, o homem forte do governo é o Joaquim Levy, uma figura muito pró-mercado. As forças do trabalho assalariado é que vão, efetivamente, sofrer. Esse tipo de ofensiva deve se aprofundar em um período próximo.

Se aprovado, o PL representa o fim de um ciclo de valorização do trabalhador no Brasil?

Infelizmente, sim. Essa dinâmica de uma certa desconcentração de renda entre os que vivem dos rendimentos do trabalho, a massa trabalhadora que entra na base e incrementa sua renda em um ritmo mais acelerado que os setores médios e diminui um pouco o abismo social entre classes… Essa dinâmica de valorização do salário mínimo e formalização do mercado de trabalho, de uma certa estruturação do mercado de trabalho que vimos no último período tende a claudicar e ser substituída por uma outra que é, basicamente, regressiva do ponto de vista do mercado de trabalho.

Qual é a ligação desse processo com a correlação de forças atual do Congresso?

Basta você identificar qual é a pauta do Congresso, as composições das bancadas e, principalmente, o papel e importância dos setores empresariais nessas bancadas. Para você eleger um vereador em São Paulo, precisa de R$ 4 milhões; um deputado estadual, R$ 10 milhões; um deputado federal, R$ 15 milhões. Quer dizer, o modelo de financiamento empresarial de campanha produz esse efeito perverso sobre a representação democrática. Só aqueles candidatos ou forças políticas que conseguem, efetivamente, alavancar esses milhões têm uma participação muito expressiva na cena política do Congresso, e assim por diante. É como diz o ditado: quem paga a banda escolhe a música. Então, haverá uma pressão grande sobre os deputados para que aprovem o PL. Por isso, estou um pouco reticente sobre a essência da lei. Acho que existe um movimento para mitigar alguns impactos, principalmente fiscais, que advirão dessa aprovação. No entanto, o que deve acontecer é, de fato a aprovação da essência da lei.

É curioso que esse desmonte de leis trabalhistas ocorra justamente em um governo do Partido dos Trabalhadores. O PT virou refém da governabilidade?

Esta é a grande tragédia. É uma situação complicada. Acredito que a fragilidade política do governo tenha influenciando na celeridade da aprovação do PL. No entanto, desde o primeiro governo Dilma, essa derrota dos direitos trabalhistas tem sido preparada, na medida em que ela adota uma agenda identificada com os interesses do mercado, fundamentalmente. A gente não pode esquecer que a onda de privatizações brancas tem acontecido desde 2012. Além disso, o governo tem emprestado uma massa enorme de dinheiro subsidiado para projetos de duvidosa importância. No entanto, ele ainda tentava preservar o emprego, a renda e, de alguma maneira, salvar essa situação do mercado de trabalho. Ainda apresentava uma certa dinâmica virtuosa. No entanto, com essa fragilidade sistêmica do governo federal, o governo simplesmente cede. Ao ceder, abre essa porta para que os interesses empresariais se afirmem com radicalidade e contundência. A Dilma tem se manifestado contra o PL, tem preocupações com a arrecadação. O PT percebeu, efetivamente, que é um risco enorme para os direitos históricos dos trabalhadores no país. Mas eu diria que essa derrota não é improvisada, tem sido construída nos últimos anos.

Em um contexto histórico, qual é a dimensão do PL frente a outras medidas semelhantes?

Do ponto de vista de retirada de direitos, o PL coroa o ciclo de reforma trabalhista iniciado no governo FHC, em meados dos anos 90, e só tem um paralelo recente na história brasileira, que foi a aprovação da lei do fundo de garantia em 1966, que elimina a estabilidade do emprego, também uma garantia da CLT. Ou seja, só é comparável com uma lei promulgada durante a ditadura militar. Acredito que, por essas razões, é uma derrota histórica para os interesses dos trabalhadores no país. O importante é que se o espinho dessa lei for aprovada, acabou a CLT no Brasil. É muito fácil identificar isso. O trabalho terceirizado tem taxas de rotatividade duas vezes superior ao trabalho diretamente contratado. Você vai ter a generalização daquela contratualização que faz com que o trabalhador seja contratado por ciclos mais curtos e, no intervalo desses ciclos fique desempregado, vivendo ou não do seguro-desemprego, encostado no SUS, aquela coisa que a gente conhece. Assim, esse trabalhador se afasta, progressivamente, do pagamento do 13º, porque se ele não trabalha os doze meses ininterruptos, o 13º tende a se diluir nessa trajetória mais intermitentes.

A mesma coisa com as férias e outros benefícios. Não nos esqueçamos que, pela dificuldade de representação sindical, os trabalhadores terceirizados não têm acesso àqueles benefícios negociados nas datas-base da categoria, que são produto de negociação coletiva, jornadas de trabalho mais curtas, benefícios de vale alimentação, etc. Esses trabalhadores não são representados por sindicato e, consequentemente, não têm alcance aos benefícios trabalhistas, o que coloca em xeque uma série de garantias. Por esse e outros fatores, a aprovação implica o fim da CLT. É uma conclusão lógica: se a maioria do mercado de trabalho passa a ser terceirizado, a terceirização afasta os trabalhadores dos direitos, é evidente que a aprovação implica, pelo menos, um aprofundamento tão radical dessa dualidade do mercado de trabalho entre aqueles que terão e não terão acesso, que a CLT perde importância.

Ocorreram processos semelhantes em outros países?

A experiência mexicana recente também aprovou um modelo que aponta para a flexibilidade total, ou seja, empresas que não têm funcionários, terceirizam ou subcontratam toda a sua força de trabalho. Hoje, no México, você deve ter em torno de 16% a 17% da população economicamente ativa terceirizada. Não houve criação de novos empregos nesse período. Ao contrário, houve uma contração da renda do trabalho. Existem todos esses efeitos do aumento de jornada, acidentes e mortes no trabalho. A partir de 2008, começa essa desconstrução da relação salarial tradicional em Portugal, também. Ou seja, essa associação entre trabalho e direitos trabalhistas adquiridos. Isso se intensifica em 2011 e, em 2012, vem a lei que flexibiliza a contratação e admissão. A partir de então, você tem 100 mil trabalhadores jovens emigrando todo ano em Portugal. Um estudo do Banco de Portugal para 2014 mostra que, para cada dez empregos gerados na economia portuguesa no ano passado, seis foram ocupados por estagiários ou trabalhadores subcontratados, precarizados. Você tem inúmeros exemplos para ilustrar o que vai acontecer no país: jornadas mais longas, trabalhos menores e dificultação do acesso a direitos. Não há muita controversa. Quem tem mínimo compromisso com a verdade sabe disso.

Como é a situação atual dos trabalhadores terceirizados no Brasil?

Os dados são contundentes. Em comparação com os trabalhadores diretamente contratados, os 12,7 milhões de terceirizados no país, hoje, trabalham, em média, três horas a mais por semana; ganham 27% a menos; concentram 70% dos acidentes de trabalho que ocorreram no Brasil nesse último período; 80% das mortes decorrentes de acidentes e a maior parte dos adoecimentos. Nos últimos três anos, o Ministério Público do Trabalho fez inúmeras operações de libertação de trabalhadores em condição análoga à escravidão. Nelas, foram libertados cerca de 3.500 trabalhadores em condições análogas à escravidão. Deles, 3.100 eram de empresas terceirizadas. Isso demonstra, cabalmente, que o universo de trabalho terceirizado degrada as condições de trabalho; remuneração; o acesso desses trabalhadores a direitos; suas condições de representação sindical, e isso não é bom para o país e para a sociedade. Ela precisa estar bastante informada sobre o que está sendo decidido no Congresso, porque a gente está diante da possibilidade de escolher entre uma sociedade que oferece, predominantemente, isso como ocupação no futuro ou lutar para que o mercado de trabalho seja mais estruturado, haja uma ampliação do acesso a direitos, as condições sejam mais protegidas e o trabalhador possa, a partir daí, desempenhar sua função com maior produtividade.

Por que os parlamentares que defendem o PL utilizam o argumento de modernização do país?

Basicamente, eles têm em mente aquilo que significa modernização para os setores empresariais. Ou seja, aumento do lucro das empresas, ou então, uma certa retomada de investimentos. No entanto, aquilo que é compreensível na esfera microeconômica, como você terceirizar para diminuir a folha salarial, no agregado, para a sociedade, é irracional. Porque você comprime a massa salarial e, consequentemente, constrange a demanda agregada. Você diminui a massa de dinheiro disponível para fazer compras. Ou seja, para voltar às empresas. Aquilo que é racional do ponto de vista microeconômico se torna irracional do ponto de vista macroeconômico. As empresas vão ter queda. Se a lei for aprovada, a própria competição entre as empresas vai obrigá-las a terceirizar para acompanhar o ritmo da concorrente. Mesmo que uma loja varejista veja na terceirização uma oportunidade de diminuir os encargos trabalhistas, economizar com os salários, vai perder na outra ponta, porque vai ter menos gente indo comprar sapatos, roupas, etc. Você ganha em uma ponta, mas perde na outra. Aquilo que é interessante na esfera individual da empresa é muito deletério do ponto de vista social.

O senhor defende a aprovação da lei contra a demissão imotivada para fazer frente ao PL. O que seria essa lei e como poderia se contrapor ao projeto?

Quem estuda mercado de trabalho no Brasil sabe que você tem uma aceleração muito acentuada no ritmo de rotatividade do trabalho. Isso significa que as empresas estão contratando e demitindo muito rapidamente. Como as empresas não têm ganhos de produtividade apoiados em tecnologia e precisam continuar crescendo, a única maneira de fecharem essa equação é intensificar o trabalho do ponto de vista do despotismo fabril ou empresarial. Você tem sempre que colocar metas mais elevadas e cobrar um desempenho ainda mais intenso do seu funcionário. Isso produz um efeito de rotinização e adoecimento. É notório o aumento do adoecimento nos últimos 12 anos, mais do que dobrou, consequência do regime de mobilização permanente da força de trabalho, que deteriora as condições de trabalho. Você tem um aumento da rotatividade como o principal efeito disso. Se você tivesse essa lei, a empresa teria que comprovar o porquê da demissão do trabalhador. No Brasil, praticamente não há custo na contratação e demissão. E o governo exonerou nesse último período, diga-se de passagem.

Se você tivesse uma lei contra a demissão imotivada, você obrigaria as empresas a obter ganhos de produtividade que não fossem apoiados exclusivamente na intensificação da força de trabalho. Ao invés de se acomodarem a essa situação de contratação e demissão em ritmo intenso, explorando basicamente a força de trabalho mais jovem, que entra motivada, elas teriam que investir mais em tecnologia, renovação de sua base técnica, formação, qualificação, porque ela não pode simplesmente demitir o trabalhador para fazer, simplesmente, um ajuste anticíclico por conta de flutuação de mercado. Ela teria que valorizar o seu trabalhador, que significa a garantia de treinamento, qualificação, nesse aspecto que seria o capital humano. A empresa não faz isso no Brasil, hoje, porque pode demitir a seu bel prazer. Ou seja, contrata, intensifica, adoece, demite. É assim que funcionam a maior parte das empresas hoje. Jornadas muito longas, assédio moral, despotismo e assim por diante.

Quais seriam os impactos do PL na arrecadação?

As empresas terceirizadas são menores, então a maioria arrecada pelo simples. Isso significa uma diminuição de arrecadação para o governo. Segundo, pagam menos salários, então os tributos associados à massa salarial tendem a cair. Terceiro, pelo fato de os terceirizados trabalharem jornadas mais longas, isso tem um impacto sobre o desemprego. Ao contrário dos setores empresariais, ela cria o desemprego, não o emprego. Como a jornada é mais longa, do ponto de vista da jornada agregada coletiva de trabalho, você tem um enxugamento do trabalho ofertado. Isso também tem um efeito sobre a arrecadação. E aquilo que, eventualmente, diz respeito ao comportamento da massa salarial. E vai arrecadar menos por outra razão que é muito simples de entender. Como o trabalhador terceirizado tem menos dinheiro no bolso, ele vai comprar menos. Isso tem impacto sobre todos os tributos que se apoiam sobre a circulação de mercadorias.

Marco Civil da Internet busca consenso para regulamentação

Via Correio do Brasil

Os debates sobre Marco Civil e proteção de dados pessoais foram prorrogados até 5 de julho

Com um ano completado nesta semana, o Marco Civil da Internet aguarda regulamentação para detalhar, de forma mais precisa, pontos importantes e polêmicos da lei que também é chamada de Constituição da Internet. Apesar de a regulamentação não ter sido finalizada, sob a justificativa de se buscar um texto o mais consensual possível, de forma a facilitar sua tramitação no Legislativo, governo e provedores têm comemorado os benefícios do Marco Civil para aqueles que usufruem da grande rede.

– O governo tem uma avaliação muito positiva sobre esse primeiro ano do Marco Civil. Ao longo desse período vimos que a dimensão que projetamos durante os debates foi consolidada. Mais do que uma lei, o Marco Civil brasileiro é referência para o debate mundial sobre a relação entre população e internet, deixando claros direitos e garantias das pessoas e dando segurança jurídica às empresas do setor – disse à Agência Brasil o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Gabriel Sampaio.

A fim de se chegar a um texto final mais consensual para regulamentar o Marco Civil, e dessa forma ter menos resistência durante sua tramitação no Congresso Nacional, o governo tem buscado contribuições por meio do site do Ministério da Justiça. Ainda não há data prevista para conclusão do texto, mas, segundo Sampaio, a expectativa é que ocorra no segundo semestre deste ano. “Até dia 30 de abril vamos manter uma plataforma [de consulta pública, disponível no site do Ministério da Justiça] para receber contribuições para alguns dos eixos da regulamentação do Marco Civil. Em especial, para os que tratam da neutralidade da rede; da guarda de registros de aplicação e conexão; e da privacidade”, disse o secretário. O quarto eixo é mais genérico, abrangendo os “demais temas”.

Os debates sobre Marco Civil e proteção de dados pessoais foram prorrogados até 5 de julho, na busca por mais interações. Após o encerramento da fase de coleta de sugestões, terá início a etapa de sistematização das propostas. “Possivelmente faremos uma nova rodada de debates a partir de um texto base e, só depois, o texto será encaminhado à Presidência da República. Nossa expectativa é que isso seja feito no segundo semestre deste ano. Mas, se for da vontade da presidenta (Dilma Rousseff), poderemos antecipar isso, porque o trabalho já está bem avançado. Não há pressa, porque o que buscamos é o consenso”, explicou Sampaio.

A regulamentação tratará, entre outras coisas, das exceções previstas para o Marco Civil. Algumas delas voltadas à priorização de serviços de emergência, de utilidade pública, saúde e outras relativas aos requisitos técnicos a serem adotados para a prestação de serviços de internet. “Tudo será analisado, até para tecnicamente sabermos se há algum tipo de degradação ou discriminação de dados que possam prejudicar o usuário da rede”, acrescentou.

Um dos pontos mais polêmicos é o que trata da neutralidade da rede, item segundo o qual pacotes de dados têm a obrigação de serem tratados de forma isonômica, em termos de qualidade e velocidade, sem distinção de conteúdo, origem, destino ou serviço.

Representante dos provedores regionais de internet,  em geral, empresas que apesar de menor porte estão espalhadas por todo o país, principalmente nas localidades que não despertaram tanto interesse para os grandes do setor, a Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint) sempre foi favorável à neutralidade da rede. “Sem ela, as empresas de menor porte seriam muito prejudicadas. Muitas quebrariam, o que resultaria em monopólio no setor. Em outras palavras, impediria a evolução da própria internet”, explicou o presidente da entidade, Basilio Rodriguez Perez.

Segundo ele, “a internet é um ambiente em constante evolução, que permite o surgimento quase instantâneo de empreendimentos como Facebook e Youtube, que são bastante recentes. Outros, que nem eles, aparecerão. Sem neutralidade, no entanto, qualquer novo serviço que afete as empresas que já estão operando poderá ser prejudicado, evitando que a evolução se perpetue”, acrescentou.

Segundo a Abrint, grandes operadoras têm sido “criativas”, no sentido de desobedecer as regras de neutralidade, mesmo após a sanção do Marco Civil da Internet. “Algumas ofertas disfarçadamente mexem na neutralidade ao não contabilizar como tráfego de dados os acessos a algumas redes sociais. Isso fere a neutralidade, porque para deixar esse acesso liberado, eles bloqueiam as demais redes equivalentes”, disse.

– O que eles têm feito é prejudicar o restante, tirando do usuário o poder de decisão sobre o que ele pode ver. A pessoa acha que está sendo beneficiada, por ter facilidades para um determinado acesso. Mas, na verdade, está sendo prejudicada para os demais acessos – completou o presidente da Abrint.