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Manifesto de repúdio a tipificação do terrorismo

MANIFESTO DE REPÚDIO A TIPIFICAÇÃO DO TERRORISMO

Está na Ordem do Dia do Senado Federal o PLC n° 101/2015, de autoria do Poder Executivo, e que tipifica o crime de terrorismo.

A proposta já aprovada no Plenário da Câmara dos Deputados prevê reclusão de 12 a 30 anos para a prática, por um ou mais indivíduos, de atos por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião, com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.

Ainda que faça a ressalva explícita de que não se enquadra na lei a conduta individual ou coletiva de movimentos sociais, sindicais, religiosos ou de classe profissional se eles tiverem como objetivo defender direitos, garantias e liberdades constitucionais, a proposta representa um grande retrocesso para os direitos de participação política no Brasil, porque deixará nas mãos de delegados e promotores o filtro para dizer se tal conduta é ou não de movimento social.

Democracia se faz pelo voto e pela participação direta do povo. Essa  participação se dá inclusive pela militância em movimentos sociais. Inúmeros militantes, entretanto, foram e estão sendo, através de suas lutas cotidianas, injustamente enquadrados em tipos penais como desobediência, quadrilha, esbulho, dano, desacato, dentre outros, em total desacordo com o princípio democrático proposto pela Constituição de 1988.

A proposta incrementa esse Estado Penal segregacionista, que funciona, na prática, como mecanismo de contenção das lutas sociais democráticas e eliminação seletiva de uma classe da população brasileira. O inimigo que se busca combater para determinados setores conservadores brasileiros, que permanecem influindo nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, é interno, concentrando-se, sobretudo, nos movimentos populares que reivindicam mudanças profundas na sociedade brasileira.

Além disso, combater o terrorismo propriamente dito não é uma necessidade brasileira. Depredação, homicídio, uso de explosivos, etc., já são crimes no Brasil. A criação de uma figura específica atende, sim, a pressões externas, sobretudo dos Estados Unidos e de outros países da OCDE, que têm em consideração realidade muito diferente da nossa, sem qualquer histórico de episódios que se assemelhem ao terrorismo.

A justificativa de que a tipificação ao terrorismo atenderia à recomendação do GAFI (Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo) tampouco é válida. A Lei sobre organizações criminosas – e todos seus instrumentos tais como colaboração premiada e infiltração — já se aplica às organizações terroristas internacionais cujos atos de suporte, de preparação ou de execução ocorram ou possam ocorrer em território nacional.

É de se repudiar também emenda apresentada ao projeto que inclui “razões de ideologia e política” às motivações do terrorismo. É sabido que as lutas e manifestações de diversos movimentos sociais são causadas por motivos ideológicos e políticos, o que, certamente, é amplamente resguardado pela nossa Constituição. Assim, fica claro que este dispositivo, caso seja aprovado, será utilizado pelos setores conservadores contra manifestações legítimas dos diversos movimentos sociais, já que tais lutas são realmente capazes de trazer indignação para quem há muito sobrevive de privilégios sociais.

Cumpre ao Congresso Nacional defender a jovem democracia brasileira e rechaçar projetos de lei cujo conteúdo tangencia medidas de exceção abomináveis como o nada saudoso ‘AI-5’. Desta maneira, repudiamos veementemente estas propostas de tipificação do crime que, sobretudo, tendem muito mais a reprimir e controlar manifestações de grupos organizados, diante de um cenário já absolutamente desfavorável às lutas sociais.

A Presidenta Dilma Roussef, que já foi acusada da prática de terrorismo pela Ditadura Militar não deveria ter enviado este projeto ao Congresso e, caso aprovado no Senado, deverá ter a dignidade de vetá-lo. É o mínimo que se espera. Abaixo assinamos:

 

Alexandre Conceição, MST

Actionaid Brasil

Adriano Ferreira –  Movimento dos trabalhadores e trabalhadoras do campo MTC- Brasil

Aleida Guevara March – Medica cubana.
Anarquistas Contra o Racismo – ACR
André Alcântara – Centro de Direitos Humanos de Sapopemba
Anivaldo Padilha, militante dos direitos humanos, São Paulo.
Ariovaldo Ramos, Pastor Evangélico

Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre – ANEL

Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo – ABEA
Associação dos Especialistas em Políticas Públicas do Estado de São Paulo – AEPPSP
Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB
Associação Juízes Para a Democracia – AJD Associação Missão Tremembé – AMI

Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP

Bento Rubião – Centro de Defesa dos Direitos Humanos Cearah Periferia
Central de Movimentos Populares – CMP
Central de Movimentos Populares/ CMP
Centro de Assessoria à Autogestão Popular – CAAP
Centro de Direitos Humanos de Cascavel – PR
Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social – CENDHEC
Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
Cesar Sanson – Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN
Claudia Korol, educadora feminista, Argentina
Cloves Barbosa – Professor da UNIFESSPA
Coletivo de Artistas Socialistas – CAS

Coletivo Desentorpecendo a Razão – DAR Comboio

Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa – ABI
Comissão de Direitos Humanos do Sindicato dos Advogados de São Paulo
Comitê Pela Desmilitarização

Comitê Popular da Copa de SP

Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro

Conectas
Confederação Nacional de Associações de Moradores – CONAM
Conselho Federal de Serviço Social – CFESS
Conselho Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de Campinas
Consulta Popular

Coordenação do Fórum Nacional de Reforma Urbana

Dainis KAREPOVS, historiador
Dr. Clifford Andrew Welch – Professor da História Contemporânea do Brasil, Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo / Brazil
Escola de Governo

Espaço Kaleidoscópio – Criciúma-SC

Fabiano Morales – Canoas RS

Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE

Federação Interestadual dos Sindicatos de Engenharia – FISENGE
Federação Nacional das Associações de Empregados da Caixa Econômica – FENAE
Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas – FNA
Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil – FENEA
Fórum da Amazônia Oriental/ GT Urbano – FAOR
Fórum Nordeste de Reforma Urbana – FneRU
Fórum Sul de Reforma Urbana
Fórum Urbano da Amazônia Ocidental – FAOC
Frente de Resistência Urbana

Gérson Wasen Fraga – UFFS – Campus Erechim

GRITO DOS EXLUIDOS CONTIENTAL

Grupo Lambda LGBT Brasil Grupo Tortura Nunca Mais – RJ

Grupo Tortura Nunca Mais – SP Habitat para a Humanidade

Günter Adolf Wolff – Pastor
Heloísa Fernandes Silveira – Sociologa

Henrique Parra – Departamento de Ciências Sociais/Unifesp

Identidade – Grupo de Luta pela Diversidade Sexual Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM

Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – IBASE

Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM

Iris Kantor – Universidade de São Paulo-Brasil
Issa Fernando Sarraf Mercadante – Medico
Jean Tible, professor, USP
josé arbex jr – professor de jornalismo – pucsp
Kátia MARRO, docente da UFF

Laura Tavares – FLACSO Brasil

Leda Maria Paulani – Professora titular FEA-USP
Lisete Regina Gomes Arelaro – Professora da Faculdade de Educação /USP – Presidente da Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (FINEDUCA).
Lúcio Gregori – engenheiro, ex-secretário municipal de transportes de São Paulo
Luís Carlos Dalla Rosa – Professor – Porto Alegre/RS

Maíra Streit – Repórter

Manhana de Castro – SIT – Superintendência de Infraestrutura e Transporte do Estado da Bahia
Maria Beatriz Costa Carvalho Vannuchi –  psicanalista
Maria Laura de Abreu d’Avila
Maria Marta Azzolini
Marluce Melo – Comissão Pastoral da Terra Nordeste 2 – CPT NE 2

Miguel do Rosario – Editor do blog o cafezinho

Movimento de Moradia da Cidade de São Paulo / MMC

Movimento dos Pequenos agricultores, MPA
Movimento dos Trabalhadores/as Assentados/as, Acampados/as e Quilombola – CETA/BA
Nelia Reis – UFAL
Otilia Beztriz Fiori Arantes – Professora USP
Pastoral Anglicana da Terra – Cascavel – PR
Páulia Maria Cardoso Lima Reis
Paulo Eduardo Arantes – Professor USP
Plataforma de Direitos Humanos – Dhesca Brasil
Prof. Dr. Marcos Barbosa de Oliveira – Universidade de São Paulo
Prof. Horacio Martins – Curitiba
Rafael Litvin Villas Bôas, Professor da Universidade de Brasília
Rede nacional de advogados populares, RENAP

Renato da Silva Queiroz, FFLCH-USP

Reverendo Luiz Carlos Gabas – PR

Sergio Sauer – Professor UnB

O Estado e a esquerda

Por Prabhat Patnaik, via Resistir.info

A atitude maoísta para com o Estado indiano é clara. Empenhado numa luta armada para o derrube do mesmo, os maoístas vêem este Estado como o seu inimigo. O que dizer acerca, contudo, daquele segmento da esquerda que não está empenhado na luta armada mas participa em eleições parlamentares, que por vezes constitui governos ao nível de estado e que actua de acordo com a Constituição? Será que ele considera aceitável o Estado indiano? E uma vez que de acordo com a sua análise, este Estado é um Estado burguês (ou um Estado “burguês-latifundiário”), comprometido com a defesa da propriedade capitalista, será que a “esquerda parlamentar” reconciliou-se então à preservação do sistema capitalista na Índia?

Se bem que muitos responderiam a esta pergunta pela afirmativa, a própria esquerda negaria veementemente esta acusação. Ela argumentaria que permanece tão comprometida como sempre com o derrube do capitalismo e do Estado burguês e que aceitar o Estado indiano burguês (e ocasionalmente mesmo a ser parte dele, uma vez que governos estaduais não estão fora do âmbito do Estado), é apenas um meio de operar a partir de dentro da ordem, para obter o requisito do apoio popular a fim de derrubar a própria ordem. E para obter este apoio, ela opera não só na arena parlamentar como também em outras esferas onde procura fortalecer movimentos populares.

Este era o argumento que o não dividido Partido Comunista havia avançado quando cancelou a Luta Armada em Telangana e em 1952 disputou as primeiras eleições gerais no país sob a nova Constituição. Contudo, este argumento provoca uma imagem bizarra, de um Partido pacientemente “à espera”, ou a trabalhar diligentemente em direcção ao desenlace, onde receberá como prémio apoio público adequado, um tanto como o “virtuoso” que recebe um prémio no “dia do julgamento”. Uma tal imagem é obviamente inaceitável para a esquerda, o que significa que este argumento não pode ser tão simples; ele tem de ser complementado por um argumento mais amplo. Este argumento mais amplo pode, na minha opinião, ser esboçado como se segue.

O Estado burguês não é uma coisa imobilizada. Ele pode assumir perfis e aparências diversas. Uma ditadura fascista é um Estado muito mais burguês (onde monopólios estão directamente envolvidos com o exercício do poder do Estado), tal como um “Estado Previdência” social-democrata, uma vez que ambos estão comprometidos com a defesa e promoção da propriedade capitalista. Por outras palavras, a forma e o conteúdo do Estado burguês muda ao longo do tempo e esta mudança é conduzida por dois factores: um são as mudanças “espontâneas” que ocorrem na natureza do capitalismo, as quais a esquerda acredita estarem a ascender a partir das tendências imanentes do capital, a partir da lógica interna do seu funcionamento, tal como o capitalismo da “livre competição” do tempo de Adam Smith deu lugar ao capitalismo monopolista. E o outro factor é o grau de resistência e pressão popular que é aplicado sobre o Estado.

O capitalismo tipicamente quer que a intervenção do Estado seja para promover e fomentar a lógica interna do seu funcionamento ao invés de transgredi-la. Ele está continuamente a tentar assegurar que a pressão popular sobre o Estado seja mantida sob controle, que a necessidade para o Estado de adoptar medidas em resposta aos desejos do povo e contra as exigências do capital seja anulada. Em suma, ele está sempre a tentar atenuar a democracia.

Este facto por vezes é articulado abertamente. Em 2006, por exemplo, quando o governo Vajpayee na Índia venceu as eleições, The Wall Street Journal lamentou este desenvolvimento e, candidamente, observou que não se deveria permitir que só o eleitorado escolhesse o governo. Ao invés, todos os “participantes” (“stakeholders”), incluindo “investidores”, deveriam ter uma palavra na matéria! Mais recentemente, na Europa, na esteira do referendo na Grécia, o eleitorado foi descrito como um “aborrecimento” pelos porta-vozes da finança.

Naturalmente, mudanças tais como a de 2006, não afectam necessariamente os “investidores”. O governo seguinte, desde que não afaste o país do turbilhão dos fluxos financeiros globais (que a globalização, o resultado da lógica de funcionamento do capital, necessariamente implica), é constrangido a prosseguir as mesmas políticas depois de vencer a eleição, por medo de que qualquer desvio das mesmas ofenda o capital financeiro e, com isso, provoque saídas de capital e uma crise financeira. Mas isto apenas sublinha o facto de que os caprichos do capital financeiro suprimem as exigências do povo numa economia exposta aos fluxos financeiros globais, isto é, que tal exposição atenua a democracia. Não importa quem o povo eleja, não importa que compromissos foram assumidos junto ao povo antes das eleições, o governo recém-eleito necessariamente trai estes compromissos desde que retenha as mesmas ligações externas do anterior (como o Syriza na Grécia acabou de demonstrar).

Mas com êxito ou não, a resistência do povo actua como um contrapeso contra esta tendência “espontânea” do capital para atenuar a democracia e, em certas conjunturas específicas, ela demonstra-se mais poderosa. O período do pós guerra na Europa – quando a resistência interna na classe trabalhadora (Winston Churchill, recordem-se, perdeu as eleições britânicas efectuadas imediatamente após a guerra devido ao horror da classe trabalhadora em relação às suas políticas sócio-económicas), e o temor do Comunismo, forçou o capital a fazer concessões – é um exemplo óbvio de uma tal conjuntura. A “gestão da procura” keynesiana e o “Estado Previdência” foram seus produtos.

Por outras palavras, naquele período o Estado burguês, sem deixar de ser um Estado burguês, foi empurrado a uma direcção previdenciária (welfarist) sob a pressão popular e contra os desejos da própria burguesia. Numa data posterior, com o capital tornando-se globalizado em consequência das suas próprias tendências imanentes, nem o poder do Estado-nação nem o do movimento da classe trabalhadora (o qual continua a ser organizado em bases nacionais) foi suficientemente poderoso para impedir a imposição da sua agenda. A “espontaneidade” do sistema reafirmou-se livrando-se da interferência do Estado contra a sua lógica interna, a qual dirige-se para o enfraquecimento da resistência e dos direitos dos trabalhadores, para a criação de um exército de reserva de trabalho, para repelir medidas de Estado previdência e para uma atenuação da democracia.

Uma vez que as tendências espontâneas do capital são sempre para pressionar o Estado burguês em direcção ao autoritarismo, a defesa e aprofundamento do seu conteúdo democrático, através da mobilização da resistência popular, torna-se uma tarefa da esquerda. A esquerda, portanto, não está preocupada apenas em calmamente reunir suas forças dentro do corpo de alguma entidade imobilizada (fixed) chamada Estado burguês, até que estas forças se tornem suficientemente fortes para derrubar aquele Estado. Ela está preocupada em defender a todo momento o conteúdo democrático do Estado burguês contra a tentativa da própria burguesia de corroer esse conteúdo.

Dito de modo diferente, dentro do objectivo estratégico global de substituir o Estado burguês existente, defender o conteúdo democrático do sistema constitucional-político contra a tentativa da burguesia para empurrá-lo numa direcção mais autoritária, torna-se uma táctica essencial na luta para a ultrapassagem do Estado burguês. Isto acontece porque tal luta em defesa do conteúdo democrático do Estado burguês também se torna uma luta contra os escalões dominantes da burguesia que estão por trás do ímpeto autoritário.

Na verdade, paradoxalmente, defender o que quer que exista de conteúdo democrático no Estado burguês é uma intervenção poderosa e eficaz no combate global contra o Estado burguês. Isto acontece porque este modo de superar o Estado burguês actua como uma restrição contra a imposição numa data posterior de qualquer nova espécie de autoritarismo, de qualquer ditadura totalitária. E isto envolve em todas as etapas mobilizar grandes massas de povo, junto com outras formações políticas que também se oponham ao autoritarismo, o que lhe dá uma potência muito maior.

Tudo isto é ilustrado vivamente na actual situação indiana. Para executar “reformas” neoliberais tais como tomar terras de camponeses sem o seu consentimento (um exemplo do que Marx chamou “acumulação primitiva de capital”) e introduzir “flexibilidade no mercado trabalho” (o que significa reduzir os direitos e a resistência dos trabalhadores), que estão de acordo com as tendência imanentes do capital, a Índia corporativa apoiou nas últimas eleições uma formação política suportada por uma organização comunal-fascista cujo objectivo confessado continua a ser a criação de uma “Nação Hindu” (” Hindu Rashtra“). Esta aliança corporativa-comunal que adquiriu poder já está a desviar o país bastante significativamente numa direcção autoritária. É importante nesta conjuntura que ao invés de menosprezar qualquer conteúdo democrático que exista dentro do Estado, tratando-o como “impostura”, a esquerda defenda este conteúdo democrático do Estado burguês. O conteúdo democrático do Estado burguês, por outras palavras, torna-se um canteiro para a luta de classe. Só defendendo a democracia a esquerda pode esperar transcender o sistema.

Mesmo antes de se concretizar, acordo de paz colombiano é histórico

Por Natalio Cosoy | Via BBC Brasil

As negociações com as Farc foram intermediadas pelo presidente de Cuba, Raúl Castro. AFP

De um lado, mais de 50 anos de combates, 220 mil mortes e 7,6 milhões de pessoas afetadas. E um grande acúmulo de dor e rancor, e de cenas repetidas de violência.

Do outro, a fotografia do gesto oposto ao da violência: o aperto de mãos, em Havana, na quarta-feira, entre o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o comandante das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Rodrigo Londoño Echeverri, o “Timochenko”.

Por conta do anúncio de que em menos de seis meses poderá haver um acordo definitivo entre as duas partes, a Colômbia começa pensar mais seriamente na paz.

Sim, há exceções, inclusive algumas bem populares, como o ex-presidente Álvaro Uribe, que questionou a viabilidade de um acordo para o desarmamento e a punição de violações de direitos humanos durante o conflito.

Mas por que os eventos de 23 de setembro de 2015 foram tão especiais?

A começar, houve a foto do aperto de mãos intermediado pelo presidente de Cuba, Raúl Castro.

O ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe, mostrou ceticismo diante do anúncio. Getty

Prazo concreto

Anteriormente, a única imagem reunindo um presidente colombiano e um líder das Farc tinha sido tirada de maneira quase furtiva nas montanhas colombianas, no final dos anos 90, quanto o então mandatário do país, Andrés Pastrana, reuniu-se com o então comandante guerrilheiro Manuel Marulanda. Não houve acordo, assim como em outras ocasiões posteriores.

Já o encontro de Havana teve impacto maior tanto pela imagem quanto pelo estabelecimento de uma data-limite para um acordo definitivo: 23 de março de 2016.

“Na pior das hipóteses, este será o dia em que daremos um adeus definitivo à última e mais longa guerra não apenas na Colômbia, mas em todo o continente americano”, disse Juan Manuel Santos.

Andrei Gómez Suárez, pesquisador colombiano da Universidade de Oxford, lembra que nenhuma negociação anterior havia fixado prazos.

Justiça

Um ponto-chave é o acordo sobre a punição a crimes cometidos por ambos os lados durante as décadas de conflito.

“Estamos estabelecendo um precedente para a comunidade internacional e que pode dar esperança para outros conflitos armados no planeta”, afirmou Santos.

As Farc anunciaram um cessar-fogo unilateral em julho. AFP

Por um lado, a proposta prevê responsabilização não apenas aos integrantes da guerrilha, mas também a integrantes das Forças Armadas e a civis que tenham cometido crimes no âmbito do conflito.

Por outro, estabelece penas diferenciadas aos que aceitem depor francamente a respeito de seu papel no conflito e se comprometam a oferecer compensações às vítimas.

“Isso é histórico porque a guerrilha e o governo pela primeira vez concordaram em usar o sistema judicial para atender ao desejo das vitimas, algo que não havia acontecido em nenhum outro projeto de paz”, diz Gómez Suárez.

“É a primeira vez em 30 anos de negociações com as Farc que guerrilheiros e Estado entram em acordo sobre um mecanismo judicial de prestação de contas”, explica Christian Voelkel, analista para a Colômbia do International Crisis Group.

Em entrevista à BBC Mundo, Voelkel disse que ficou clara a disposição de ambas as partes de fazer concessões muito difíceis – as Farc, por reconhecerem os “limites da motivação política” de suas ações, admitindo que houve atos que não podem ser enquadrados nesse argumento.

E o Estado, por admitir que a justiça possa alcançar seus próprios agentes, muitos deles acusados de abusos no combate à guerrilha.

Mas também é importante notar que, mais de dois meses depois de as Farc terem anunciado um cessar-fogo unilateral e de o governo diminuir suas ações contra o grupo, a Colômbia apresenta os mais baixos índices de violência relacionados ao conflito nos últimos 40 anos, segundo dados da ONG Centro de Recursos para a Análise de Conflitos (CERAC).

O processo também está recebendo forte apoio internacional, incluindo o do papa Francisco, que dias atrás fez uma advertência sobre o processo. “Não temos direito de permitir outro fracasso no caminho para a paz e reconciliação”.

O Departamento de Estado dos EUA saudou o anúncio de quarta-feira como um progresso histórico rumo a um acordo de paz definitivo.

Governo Dilma, PT e esquerda

Via Le Monde Diplomatique

As esquerdas precisam fortalecer a unidade, construir novos espaços de debate e atuação para a construção de um desenvolvimento popular, democrático, inclusivo e soberano.

Com apenas nove meses do seu segundo e último mantado, o governo da presidenta Dilma Rousseff, eleita pelo Partido dos Trabalhadores, esgotou sua capacidade de transformação. O governo não consegue pautar nenhuma agenda. A palavra de ordem é ajuste fiscal – ou melhor, o novo ajuste do ajuste. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, agradece, assim como o seu ex-patrão Luis Carlos Trabuco, presidente do Banco Bradesco, e como o seu colega de ministério Nelson Barbosa – que faz muito jogo de cena mas defende um superávit primário de 2%[1] e nos bastidores luta por uma reforma da previdência que retira direitos.

A crise econômica e política se aprofunda e não há sinais de reversão dessa situação deletéria. A economia entrou em recessão, o desemprego aumentou e o investimento desmoronou. O PIB deverá retrair-se 2,55% em 2015 e 0,6% em 2016, segundo pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central. Situação esta que deverá piorar muito com as novas rodadas de ajuste fiscal. No plano político a situação consegue ser ainda pior, uma vez que (i) o Planalto não consegue articular suabase parlamentar no Congresso Nacional; (ii) o PT desmoraliza-se diante dos avanços da operação “Lava Jato” e colapsa diante de sua incapacidade de reconstruir um projeto popular para a Nação; e (iii) há extrema desconfiança dos setores dominantes, da população em geral e de parte expressiva da esquerda (inclusive dentro do PT) com Dilma Rousseff e com os rumos do Partido dos Trabalhadores.

A presidenta gira como um biruta de aeroporto – que indica a direção que os ventos (dominantes)sopram – ao sabor dos conselhos de seus ministros que supostamente parecem emitir opiniões econômicas divergentes. Isso não é verdade. Os ministros da área econômica (Fazenda e Planejamento) convergem no que diz respeito ao ajuste fiscal e à reforma da previdência. Não existe hoje uma disputa verdadeira entre projetos econômicos (ou modelos de desenvolvimento)distintos (liberais x neodesenvolvimentistas), mas sim uma dominância inconteste do bloco no poder na condução da política macroeconômica (representados por Levy) e um ministro do Planejamento que busca se firmar também como representante dos setores dominantes. A disputa é particularizada e anda longe da questão de projetos alternativos.

Isso ficou explícito na condução do projeto de lei orçamentário de 2016. Em 31 de agosto, o governo envia ao Congresso Nacional o orçamento de 2016 com uma estimativa de déficit de R$ 30,5 bilhões, ideia defendida pelo ministro do Planejamento Nelson Barbosa para reforçar sua posição, no âmbito de sua disputa particularizada. Estratégia política de grande inabilidade. O Parlamento reage e o ministro Levy se sente desprestigiado e ameaça pedir demissão. Em reunião com a Presidenta no dia 2 de agosto, Luis Carlos Trabuco sai em defesa de seu ex-funcionário e de seus lucros – o Bradesco obteve lucro líquido contábil de R$ 4,473 bilhões no segundo trimestre de 2015, maior de sua história.

A Presidenta gira na direção de Levy, Trabuco e dos setores dominantes com medo dofantasma do impeachment (promovido pelos setores reacionários). Esse espectro que ronda Dilma servirá como instrumento de pressão do bloco no poder e de seus representantes para que o governo avance na direção de novos ajustes e de reformas estruturais neoliberais (reforma da previdência, flexibilização do mercado de trabalho/terceirização, redução de direitos trabalhista, etc.) conforme proposto pela Agenda Brasil e pelos economistas do PSDB (em artigo denominado Desequilíbrio econômico é estrutural e exige correções mais duras)[2]. Para eles, os entraves ao crescimento são fruto das políticas de ganhos reais do salário, da ampliação das políticas de proteção e dos gastos públicos com as políticas universalizantes (saúde e educação).

impeachment não é mais necessário para o bloco no poder (talvez importante apenas para os partidos de oposição no âmbito da cena política), pois o golpe branco foi estabelecido. A presidenta está acuada e assim permanecerá ao longo de seu mandato. A segunda rodada mais profunda da agenda neoliberal no Brasil provavelmente será implementada por uma Presidenta considerada de esquerda. Isso aumentará ainda mais a tensão existente entre os movimentos sociais e o governo Dilma e o PT.

O transformismo do PT não tem mais retorno. A aliança entre a cúpula partidária e o bloco no poder do capitalismo brasileiro na década de 2000 foi matando gradualmente o partido como instrumento de um sonho coletivo e popular. A última convenção do partido realizada em junho de 2015, em Salvador, colocou uma “pá de cal” para alguns poucos que ainda acreditavam na possibilidade de refundação. O debacle do PT como partido, no sentido gramsciano, é claro e agora a sua desmoralização terá impactos fortíssimos para a esquerda, pois, “queiramos ou não, os governos Lula e Dilma, assim como o PT, são vistos como socialistas, antiliberais e corruptos”[3]. O medo venceu a esperança.

O projeto lulista – entendido como um modelo socioeconômico de desenvolvimento de centro-esquerda que buscou a coalizões de interesses entre a burguesia e o movimento sindical e popular – acabou. É inegável que o lulismo proporcionou, por um lado, a retirada de milhares de pessoas da condição de pobreza extrema – os subalternos historicamente excluídos no capitalismo brasileiro; e, por outro, gerou rentabilidade para os capitalistas nunca antes visto na história desse país[4]. As atuais condições históricas (cenário externo desfavorável, operação Lava Jato, extrema desconfiança das elites com o PT, dificuldade em mobilizar a base do PT em prol do ajuste fiscal, a fúria da classe média tradicional com a redução do seu poder de consumo e com a proximidade física da “ralé”) não permitem mais esse tipo de pactuação.

Nesse contexto socioeconômico, os movimentos sindicais, sociais e populares do campo da esquerda (MTL, MST, MTST, UNE, CUT e integrantes do Psol, do PT do PCdoB)precisarão lutar com todas suas forças para manter as conquistas sociais recentes e a própria Constituição cidadã promulgada em 1988 diante da ofensiva das forças conservadoras.

As esquerdas precisam fortalecer a unidade, construir novos espaços de debate e atuação para a construção de um desenvolvimento popular, democrático, inclusivo e soberano. A Frente de Esquerda, criada recentemente, pode funcionar como essa unidade de luta, mas como bem afirma Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, ela não pode ser instrumentalizada para defender um governo acuado que pretende avançar no ajuste fiscal e sobre os direitos trabalhistas e sociais ou para articular apenas um projeto eleitoral para 2018.

Essa Frente de Esquerda precisa unificar o campo progressista, a partir de sua diversidade, construindo capacidades de dialogar com a população e oferecendo-lhe saídas pela via da esquerda para a construção de uma democracia econômica para a sociedade brasileira. A esperança precisa vencer o medo.

***

Eduardo Costa PintoAlexis Saludjian e Isabela Nogueira são professores do IE/UFRJ; Carlos Schonerwald é professor do CCJE/UFRJ; Grasiela Baruco é professora da UFRRJ; José Paulo Guedes Pinto é professor do Bacharelado de Relações Internacionais na UFABC; e Paulo Balanco é professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFBA. Todos são membros do Grupo de Análise Marxista Aplicada (GAMA).

Assinado por vários autores

Vários autores

[1]Ver BARBOSA, N. O Desafio Macroeconômico de 2015-18. Texto preparado para o 10º Fórum de Economia da Escola de Economia de São Paulo (EESP/FGV), 15 e 16 de setembro de 2014.

[2]ALEMEIDA, M. & LISBOAS. M. & PESSOA, S.Desequilíbrio econômico éestrutural e exige correçõesmais duras. Folha de São Paulo (Ilustríssima), 19/07/2015. Disponível em:    http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/07/1657046-desequilibrio-economico-e-estrutural-e-exige-correcoes-mais-duras.shtml

[3]Luiz Filgueiras, Notas para a análise de conjuntura (18/08/2015)

[4]Entre 1997-2002 e 2003-2010, as taxas de rentabilidades médias sobre os patrimônios líquidos (%) dos maiores grupos/conglomerados financeiros, da indústria de transformação (453 maiores empresas industriais) e das cinco maiores empreiteiras cresceram de 12,4% para 18,8%, de 4,7% para 18,1% e de 10,2% para 12%, respectivamente.

Covardia e barbárie: Tucano organiza bando para agredir Stedile em aeroporto de Fortaleza. Assista ao vídeo

Via Viomundo

NOTA DE SOLIDARIEDADE AO COMPANHEIRO JOÃO PEDRO STEDILE E AO MST

O conjunto de movimentos sindicais, populares, pastorais sociais, parlamentares progressistas e intelectuais comprometidos com a luta do povo brasileiro, vem por meio desta nota prestar solidariedade ao companheiro João Pedro Stédile, histórico militante das lutas sociais do Brasil e da América Latina.

Na noite do dia 22 de setembro, uma claque com aproximadamente 30 reacionários bradando gritos de ódio e diversos xingamentos atacou e agrediu o companheiro Stédile, que acabava de chegar no Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza – Ceará, convidado por diversas entidades para participar de um Congresso Sindical e de uma atividade sobre Reforma Política e combate à Corrupção.

A ação comandada pelo empresário do ramo imobiliário Paulo Angelim, militante do Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB, revela o que há de mais conservador e retrógrado na sociedade brasileira: um ódio de classe, antigo e anacrônico, muito semelhante ao do fascismo.

Não à toa, o grupo de reacionários que realizou esta ação é o mesmo bando que tem impulsionado manifestações golpistas em Fortaleza no intuito de interromper o mandato da presidenta Dilma Rousseff, desrespeitando o voto popular e rompendo com a legalidade democrática no país.

Estes reacionários utilizam-se dos símbolos nacionais e se dizem patriotas, mas são favoráveis a venda dos nossos recursos naturais às empresas estrangeiras, como no caso da Petrobrás. Se dizem contra a corrupção mas são assíduos defensores do financiamento empresarial de campanhas eleitorais e ainda hoje lastimam a decisão do STF.

Temos convicção de que a agressão sofrida pelo companheiro Stédile, não se limita a um ataque individual, ou somente ao MST. Esta agressão só pode ser compreendida como parte de uma ofensiva conservadora da direita na sociedade que busca criminalizar e intimidar todos/as aqueles/as que lutam por um Brasil justo e soberano.

Neste sentido, prestamos solidariedade ao companheiro e nos comprometemos a cerrar fileiras na defesa da democracia, da justiça social e da participação popular nos rumos da nação.

Fortaleza, 23 de setembro de 2015.

Centra Única dos Trabalhadores – CUT

Central dos Trabalhadores do Brasil – CTB

União Nacional dos Estudantes – UNE

União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – UBES

Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

Rede Nacional de Advogados Populares – RENAP

Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares

Marcha Mundial das Mulheres – MMM

União Brasileira das Mulheres – UBM

Movimento Organizado dos Trabalhadores Urbanos – MOTU

Levante Popular da Juventude

União da Juventude Socialista – UJS

Rua – Juventude Anticapitalista

Coletivo O Estopim

Movimento Kizomba

Partido Comunista do Brasil – PCdoB

Partido dos Trabalhadores – PT

Partido Socialismo e Liberdade

Consulta Popular

Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos em Luta pela Paz – CEBRAPAZ

Fora do Eixo

Mídia Ninja

Movimento Democracia Participativa

Agência de Informações Frei Tito para América Latina – ADITAL.

Sindicato APEOC

Sindicato dos Metalúrgicos do Estado do Ceará – SINDMETAL

Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal do Ceará – SINTSEF-CE

Sindicato dos Empregados no Comércio de Fortaleza

Diretório Central dos Estudantes – UECE

Diretório Central dos Estudantes – UNIFOR

Deputado Federal José Guimarães

Deputado Estadual Elmano Freitas

Deputado Estadual Moisés Bráz

Deputada Estadual Rachel Marques

Deputado Estadual Renato Roseno

Vereador João Alfredo

Vereador Jovanil

Vereador Ronivaldo Maia

“Enquanto o ajuste não parar e não tiver verba para moradia, esse país vai ter manifestação quase todo dia”

, diz Boulos

Por José Coutinho Júnior | Via Brasil de Fato

MTST ocupou sedes do Ministério da Fazenda em quatro estados; O movimento reivindica que os cortes do ajuste fiscal não afetem programas sociais e os trabalhadores.

Contra o ajuste fiscal e cortes de programas sociais propostos pelo governo, cerca de 8 mil pessoas do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ocuparam, nesta quarta-feira (23), a sede do Ministério da Fazenda, em São Paulo (SP). Também participaram do ato integrantes do MST, Coletivos Juntos e RUA, servidores públicos em greve e o Movimento Luta Pela Terra (MLT).

“Vamos continuar nos mobilizando para mostrar que a saída da crise não é com essa política neoliberal, que joga a crise nos trabalhadores. Os ricos é que devem pagar por essa crise, com aumento de impostos e taxações das grandes fortunas”, disse Guilherme Boulos, da coordenação nacional do MTST, no centro de São Paulo.

O MTST também demanda que a terceira fase do programa Minha Casa Minha Vida, afetado pelos cortes anunciados pelo governo federal, seja posta em prática. As sedes do Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro, Goiânia e Brasília também foram ocupadas.

“Um, dois, três, quatro, cinco mil. Ou dá a nossa casa ou paramos o Brasil”, entoaram os manifestantes. Ao todo, segundo o movimento, foram realizados atos em nove capitais brasileiras com a participação de cerca de 25 mil pessoas.

Projeto

O Minha Casa Minha Vida foi anunciado com diversas propostas tidas pelos movimentos de moradia como avanços, entre elas, a verba maior para a modalidade de entidades do programa, o aumento do limite de renda para a população mais pobre e os recursos para equipamentos públicos.

No entanto, não houve compromisso do governo com a definição do orçamento do programa nem com metas de novas contratações. Ao mesmo tempo, os cortes no orçamento agravam a indefinição do funcionamento do programa.

“Dissemos que se as medidas do governo não resolvessem, a gente ia pra rua. A presidenta anunciou o Minha Casa Minha Vida, mas logo em seguida vieram os cortes. Não aceitamos que deem com uma mão e tirem com outra”, disse Boulos.

O MTST deixou claro que não estava no ministério esperando uma reunião, e sim esperando um posicionamento do governo em relação às demandas do movimento.

“Vamos estar na rua o quanto for preciso até que saiam nossas demandas. Não vão nos vencer pelo cansaço. Enquanto o ajuste não parar, não liberar verba para moradia, esse país vai ter manifestação quase todo dia. E, da próxima vez, não vamos ficar só no térreo do Ministério, vamos subir no prédio todo”, conclui Boulos.

Derretimento das instituições prenuncia o pacto ou a guerra

Por J. Carlos de Assis

A crise brasileira se caracteriza pelo derretimento moral inexorável de todas as instituições da República. O Congresso não se respeita. Presidido por dois parlamentares indiciados por corrupção, também já não merece o respeito de ninguém. O Executivo afundou junto com a direção da Petrobrás num dos maiores escândalos de roubo de nossa história, manchando a honra de uma empresa que era uma espécie de ícone da brasilidade. O STF se deixa desonrar em função das posições extravagantes, públicas, de um de seus ministros.

Ninguém confia na Procuradoria Geral da República depois que, na operação Lavajato, ela tornou-se cúmplice de um juiz vaidoso que liquidou no Brasil com o secular instituto do habeas corpus, da presunção da inocência, do devido processo legal, e do princípio segundo o qual não pode haver prisão indefinida sem julgamento. Nessa situação, ninguém respeita ninguém. Em consequência, o que acontece na superestrutura geral da sociedade se reflete, abaixo dela, como uma situação anômala, de total desordem e caos social.

A par do derretimento das instituições formais republicanas, a Grande Mídia abandona o que seria seu papel central de informação para tornar-se, ela própria, um ator interessado e parcial, manipulando fatos, distorcendo a verdade, assumindo descaradamente como de interesse geral posições de partidos políticos e setores privilegiados da sociedade. Nesse contexto, esmagada pela manipulação ideológica, a cidadania não tem por onde respirar, sufocada que está pelos grandes monopólios midiáticos que determinam o que a sociedade deve ou não saber. Não fora a Internet e a mídia competitiva, nem mesmo este texto poderia ser levado ao conhecimento da população.

Se não há, na superestrutura da sociedade, instituição que, merecendo o respeito da Nação, possa tomar a iniciativa do reordenamento das demais – por enquanto, estou deixando os miliares de fora -, o caminho que se percorre naturalmente é a busca de uma solução no nível inferior da infraestrutura social, a saber, no setor produtivo ou sociedade civil. Livres de preconceitos ideológicos e políticos, já que tem coisas concretas a perder como empregos, lucros e propriedades, grupos sociais podem entrar em entendimento e evitar o pior.

Podem, não necessariamente entram em acordo. Na ausência deste, abre-se a porta para a guerra civil. Como todas as pessoas familiarizadas com história sabem de cor, nenhuma guerra civil começa como tal. É sempre um processo cumulativo que começa por escaramuças inocentes e evolui para atentados, assaltos políticos a bancos e empresas privadas, sublevações localizadas e finalmente guerra geral. Os militares provavelmente só entrarão no jogo nessa última fase devido ao trauma que guardam da campanha de democratização.

Portanto, temos diante de nós a alternativa do pacto social ou da guerra civil. Wanderley Guilherme dos Santos, um dos mais notáveis cientistas políticos do Brasil, manifesta a esperança de que apareça um grande líder para colocar a ordem na casa. Seria a salvação, mas é muito improvável. Sairia de onde? Da estrutura partidária? Mas não há nada mais desmoralizado no Brasil hoje que a estrutura partidária. Ela está afundada até o pescoço na Lavajato. Diante disso, talvez não haja tempo para aparecer esse salvador.

Sejamos sensatos. Tenho feito apelos sistemáticos aos líderes empresariais, das centrais sindicais e de outras federações de trabalhadores para buscarem um acordo a fim de apresentá-lo à Presidenta Dilma como alternativa de um programa econômico que venha a merecer o apoio de todo o setor produtivo, trabalhadores e empresários. Aplicado por um núcleo ministerial técnico, esse programa deveria ser de tal forma que merecesse o apoio automático das outras instâncias da República, sobretudo o Congresso.

É claro que sempre haverá posições divergentes, mas, como dizia Gramsci, “você deve trazer o adversário para uma posição da qual ele só pode recuar com desonra”. A força de um pacto social que venha apoiado por efetiva mobilização social – e fazer essa mobilização seria o papel das Centrais sindicais, com ajuda das organizações empresariais, como aconteceu em São Paulo recentemente – é simplesmente irresistível. Tenho dúvida de que esse Congresso, desmoralizado como está, recusasse propostas do Pacto apoiadas por ampla mobilização.

Vocês acham que estou sonhando? Bem, vamos então ao pesadelo. Em recente pronunciamento pela tevê o líder do PSDB na Câmara entusiasmou-se com a própria retórica e simplesmente pediu uma sublevação popular para o caso do TSE ou TCU não cassarem o mandado de Dilma. O tom era de uma violência verbal absoluta, de acordo com o relato de quem viu. Pessoas comuns estão sendo envenenadas com essa verborragia desde as eleições, quando o país, dividido em dois, graças aos esforços de Aécio e de outros dirigentes do PSDB não quis se reconciliar. Não sei qual o nível de consciência que tem da guerra civil que estão preparando.

Agora vejam o lado do PT. É ainda o partido que tem maior base de militantes no Brasil. Humilhado, enxovalhado, agredido por figuras como Gilmar Mendes, esse partido tem a característica de abrigar mais de sete correntes, algumas delas revolucionárias. Ficaram sob o guarda-chuva de Lula enquanto ele aparecia como um líder de avanços intermediários. A meta final, porém, é o socialismo, o trotskismo ou outras formas de poder que não compreendo bem. Acham que essas correntes do PT ficarão imóveis se tomarem o mandato de Dilma pela força, ou por um truque paraguaio? Acho melhor não por isso à prova. Vamos ao Pacto Social.

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José Carlos de Assis é economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor do recém-lançado “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.