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A economia política do ‘Oxi!’

Por Rogério Studart | Via Brasil Econômico

A pergunta que se colocou nesse plebiscito era se o povo grego estava disposto a mais uma rodada de mais do mesmo, e/ou se esperavam que fosse diferente. A resposta veio rápida: Oxi!

Como já descrevi nesta coluna (http://goo.gl/c9jrHp), a crise grega tem se caracterizado nos últimos anos por ser um processo recessivo em que a maioria dos gregos é obrigada a assumir a maior parte de um pesado ajuste fiscal. A pergunta que se colocou nesse plebiscito, portanto, não era se o povo grego queria ou não o ajuste, mas se estava disposto a mais uma rodada de mais do mesmo, e/ou se esperavam que desta vez fosse diferente. A resposta veio rápida e retumbante: OXI!

Antes de mais nada, é importante lembrar que o problema não pode ser reduzido a um conflito entre os a favor e os contra a “austeridade”. Não conheço economista ou analista  que sustente que, mesmo antes da crise, a Grécia tinha finanças em ordem — o que, aliás, era o caso de muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento no final da década passada. Pelo contrário, todos admitem que a crise de 2009 pegou muitos países em situação fiscal frágil, com altos déficits e dívidas — com exceção, talvez, das economias emergentes, escaldadas pelas crises do passado. E quase todos se assustaram em 2010 quando as autoridades gregas admitiram publicamente o que muitos desconfiavam: o governo havia “subestimado” os déficits públicos ao longo de vários anos. Ou seja: independentemente dos credos econômicos, o ajuste grego era tido como inevitável pela grande maioria dos analistas.

A divergência principal sempre residiu na forma de administrar a correção de rumos. Trata-se de um problema de economia política, que pode ser definido da seguinte forma: a viabilidade do ajuste requer uma correta dosagem, para que tenha sustentabilidade. Do ponto de vista econômico, é imprescindível uma redução dos gastos que não provoque uma queda dos níveis de produção, emprego e investimento — logo, das receitas do próprio governo.

Mas mesmo que tenha um impacto recessivo sobre a demanda doméstica, um ajuste pode ser exitoso se for favorável o estado da economia global. Sempre há a possibilidade de esses ajustes provocarem reduções simultâneas dos custos e da demanda doméstica — infelizmente gerados pela queda do emprego e dos salários. E se a economia global estiver na “cheia” dos fluxos de comércio e de investimento, um aumento da competividade e da queda da demanda interna podem gerar incentivos a exportar. Por outro lado, o ajuste pode aumentar o interesse dos investidores internacionais, engendrando alguma recuperação do investimento. Uma rápida recuperação das exportações líquidas e do investimento pode, por fim, quebrar o círculo vicioso de recessão econômica, menor emprego, menor renda e menos receitas fiscais.

Caso esse desenho dos cortes não leve esses requisitos básicos em consideração, torna-se economicamente irrealizável o próprio ajuste. Mas mesmo que tecnicamente factível, o ajuste precisa ser politicamente sustentável, caso implique uma distribuição dos sacrifícios na qual os que menos podem arquem com a menor parte dos custos do ajuste. Isto não é somente uma tema de justiça social, o que se justificaria por si só; mas também uma questão de estratégia de política econômica: no longo prazo, estes processos podem requerer reformas que afetam camadas importantes da população e/ou de setores politicamente organizados. Do contrário, podem-se gerar resistências insuperáveis, jogando por terra todo e qualquer esforço tecnocrático de acertar as contas.

Infelizmente, as condições externas favoráveis não existiam no começo da crise, e continuam a inexistir, apesar das frágeis recuperações em alguns grandes países (especialmente os Estados Unidos). O comércio internacional anda especialmente lento. E se os fluxos de capital têm aumentado, tem sido particularmente de curto prazo e extremamente voláteis — o que nada contribui para ampliar os investimentos produtivos. Nestas condições, o ajuste fiscal proposto pela troika de credores — o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia — continua muito parecido com as propostas apresentadas anteriormente; ou seja, é recessivo, tecnicamente questionável e politicamente insustentável.

Recusar mais “ajuda” para rolar uma dívida impagável pode parecer, para muitos, uma demonstração coletiva de irresponsabilidade do povo grego. Para os gregos, e possivelmente para a comunidade internacional, os custos do resultado do referendo podem ser enormes. Esperemos que, pelo menos, este imbróglio ajude a gerar uma reflexão sobre a falência dos mecanismos atuais de resolução de dívida soberana, que promovem ajustes fiscais socialmente injustos e, portanto, tecnicamente equivocados.

Dilma foi até generosa com o PSDB

Por Paulo Moreira Leite | Via Brasil 247

Números do TSE mostram que empresas com negócios na Petrobrás deram 26% a mais de recursos para Aécio Neves. E agora?

Lembrando as contribuições financeiras para a campanha de 2014 na entrevista publicada hoje pela Folha, a presidente Dilma fez um questionamento essencial:

— No mesmo dia em que eu recebo doação, em quase igual valor o candidato adversário recebe também. O meu é propina e o dele não?

Os dados do TSE mostram que, em sua crítica, Dilma foi até generosa com o PSDB. A comparação entre as listas oficiais de contribuição da campanha de 2014 mostra uma situação muito interessante. As doações não foram “quase iguais” entre as duas campanhas. Quando se avalia as contribuições dos maiores fornecedores da Petrobras, a vantagem foi de 26% a mais para Aécio Neves.

Os números estão lá no TSE, mostrando que a soma de duas dezenas de empresas que tinham interesses na Petrobras — relação que inclui gigantes como Odebrecht, UTC, Queiroz e outros — e, ao mesmo tempo, fizeram doações às campanhas eleitorais, chega-se a um dado demolidor: Dilma recebeu R$ 29.990.852, enquanto a campanha de Aécio Neves embolsou R$ 38.550.000. É isso aí: R$ 8,5 milhões a menos para Dilma. Quantas escolas, quantos hospitais se poderia construir com isso, perguntaria o Ministério Público. Perguntaria, neste caso?

Imaginando que o candidato tucano jogava com esperança de ganhar, com um auxílio financeiro generoso nos meses iniciais da campanha, quando precisava deslanchar para pegar embalo junto ao eleitorado — como mostram os registros do TSE. Ninguém vai dizer que era uma diferença estabelecida no amorzinho, certo?

A presidente também prestou um serviço inestimável à defesa dos direitos fundamentais dos brasileiros e ao esclarecimento da atual situação política do país quando mencionou as prisões preventivas, usadas para arrancar confissões e delações de suspeitos levados para cela sem sequer saberem de todas as acusações que existem contra eles. Dilma disse:

— Olha, não costumo analisar ação do Judiciário. Agora, acho estranho. Eu gostaria de maior fundamento para a prisão preventiva de pessoas conhecidas. Acho estranho só.
Referindo-se à prisão de Marcelo Odebrecht e outros dirigentes do grupo, a presidente observou:

— Não gostei daquela parte [da decisão do juiz Sergio Moro] que dizia que eles deveriam ser presos porque iriam participar no futuro do programa de investimento e logística e, portanto, iriam praticar crime continuado. Ora, o programa não tinha licitação. Não tinha nada.
O esclarecimento da presidente ajuda a lembrar o seguinte.

É pela Lava Jato, pelas prisões e pelas delações premiadas que a Operação garante sua estatura política e ajuda a oposição a colocar o governo contra a parede. Sergio Moro diz quem é suspeito, quem é criminoso — e quem pode andar na rua sem ser incomodado. A Lava Jato diz quem recebeu contribuição e quem recebeu propina — ainda que o dinheiro venha das mesmas fontes, em datas muito aproximadas, envolvendo interesses idênticos.

Foram estes movimentos que ajudaram a colocar a corrupção no centro da agenda. Conforme o Ibope, em maio ela já era a segunda maior preocupação da população brasileira, e só perdia para a inflação. O tratamento seletivo das denúncias — e dos números oficiais do TSE — ajuda a construir um cordão sanitário em torno do alvo que se pretende atingir, o governo Dilma e o PT. Ao produzir acusações dirigidas ao PT e seus aliados, o que se busca criar um fato político.

Os governos não costumam ser derrubados por causa de uma inflação fora de controle — o que nem é o caso no Brasil. Mas pode ser processado para responder um crime, real ou não.

Em 2004, quando escreveu o hoje célebre texto sobre a Mãos Limpas, Moro referiu-se às prolongadas prisões preventivas feitas na Itália nos seguintes termos:

— A estratégia de ação adotada pelos magistrados incentiva os investigados a colaborar com a Justiça.

Colaboração voluntária, espontânea, como recomenda uma sentença histórica da Suprema Corte dos Estados Unidos e define a legislação brasileira?

Nada disso.

— A estratégia da investigação desde o início do inquérito submetia os suspeitos à PRESSÃO (maiúsculas minhas) de tomar a decisão quanto a confessar.

Referindo-se a ensinamentos contidos numa técnica de manipulação de pessoas detidas conhecida como “Dilema do Prisioneiro”, Moro fala da importância de se “levantar a perspectiva de permanência na prisão pelo menos no período de custódia preventiva no caso da manutenção do silêncio ou, vice-versa, de soltura imediata no caso de uma confissão.” Ou seja: ou fala, ou apodrece.

Na prática, os acusados são detidos sem saber sequer as acusações que pesam contra eles. Acabam jogados numa cela até que se disponham falar para se auto criminar e delatar — mas não tem os dados necessários para se defender. Cria-se, assim, uma desigualdade absoluta entre a posição da polícia e a posição do acusado, o que só facilita a “pressão.”

Os interrogadores têm toda condição de conduzir as perguntas para onde desejam, sem que os interrogados façam a menor ideia para onde estão sendo conduzidos.

É a “coerção psicológica”, um fenômeno que o próprio Moro já reconheceu que existe — e acreditava que precisa ser combatido, assim como a “coerção física”. Em outro texto, quando analisa uma deliberação histórica da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre garantias individuais, Sérgio Moro elogia a preocupação de proteger um acusado contra “pressões que operam para minar a vontade individual de resistir para que não seja compelido a falar quando não o faria em outra circunstância.”

Ninguém pode alegar, portanto, que não sabe o que se passa nas celas de Curitiba. Até porque a mesma resolução diz que cabe à Justiça assegurar que “os direitos do prisioneiro sejam completamente honrados.” Bonito: “completamente honrados.”

Essa questão tornou-se especialmente dramática para o ex-ministro José Dirceu, que acaba de ser negada por Sergio Moro. Depois que os jornais noticiaram que o lobista Milton Pascowitch declarou que lhe pagava propinas, e não uma remuneração de mercado usual por esse tipo de serviço, Dirceu entrou com um pedido de habeas corpus justíssimo. Queria saber o teor das acusações feitas contra ele. Entre seus argumentos, a defesa recorda a postura de Dirceu, que não deixou de responder a nenhum dos pedidos de informação solicitados, inclusive em prazos bastante curtos. Também menciona uma advertência de Marco Aurélio Mello, de que as regras do Direito são o preço a pagar “e é módico, estando ao alcance de todos, de viver num Estado Democrático de Direito.”

A defesa ainda argumenta, com o pensamento do mestre italiano Luigi Ferragioli, um dos mestres na defesa dos direitos e garantias individuais:

“Se é verdade que os direitos dos cidadãos estão ameaçados não só pelos delitos, mas também pelas penas arbitrárias – a presunção de inocência não é só uma garantia de liberdade e de verdade, mas também uma garantia de segurança, ou se se quer, de defesa social: dessa segurança específica oferecida pela estado de Direito e que se expressa na confiança dos cidadãos na justiça”.

Alegando que “o acordo e os termos dos depoimentos ainda estão sob sigilo, indispensável no momento para a eficácia das diligências investigativas em curso”, Sergio Moro negou o pedido.

A consequência é clara.

Dirceu deverá ser mantido ao longo das acusações que podem ser lançadas contra ele, quando e se ele tiver sua prisão preventiva decretada — hipótese vista como uma possibilidade tão concreta que seu advogado já entrou com um Habeas Corpus preventivo, para impedir que ocorresse, também negado.

Na verdade, o que está em jogo é um direito fundamental num Estado onde as garantias individuais estão no centro da Constituição. Se há uma denúncia contra um cidadão, reconhecida pela Justiça, ele tem o direito de saber do que se trata. Para desmentir, se for mentira. Para se defender, se for o caso. A Constituição nasceu, ao longo da história, para proteger o cidadão da força do Estado absolutista.

“O absolutismo de Luís XIV já foi erradicado da civilização moderna, faz muito tempo”, recorda o advogado Nelio Machado.

Em capa histórica, jornal estampa o atraso do Brasil

Via Carta Capital

Ao noticiar o linchamento de um jovem no Maranhão, “Extra” lembra a Justiça desigual e compara situação à da escravidão.

Capa da edição desta quarta-feira, 8 de julho

Em sua edição desta quarta-feira 8, o jornal Extra, do Rio de Janeiro, fez uma dura crítica à sociedade brasileira, uma na qual vicejam justiçamentos com as próprias mãosprática apoiada por grandes contingentes da populaçãoinclusive da imprensa. Ao noticiar o linchamento de Cleidenilson da Silva, na periferia da capital do Maranhão, São Luís, o jornal fez uma comparação entre a situação atual do País e a vivida no período da escravidão.

“Os 200 anos entre as duas cenas acima servem de reflexão: evoluímos ou regredimos?”, questionou o Extra, que pertence ao Grupo Globo, ao exibir a imagem de um escravo sendo açoitado e a de Cleidenilson, que foi despido, amarrado a um poste e espancado com socos, chutes, pedradas e garrafadas após uma tentativa de assalto na segunda-feira 6, em São Cristóvão, bairro de São Luís.

“Se antes os escravos eram chamados à praça para verem com os próprios olhos o corretivo que poupava apenas os ‘homens de sangue azul, juízes, clero, oficiais e vereadores’, hoje avançamos para trás. Cleidenilson da Silva, de 29 anos, negro, jovem e favelado como a imensa maioria das vítimas de nossa violência, foi linchado após assaltar um bar em São Luís, no Maranhão. Se em 1815 a multidão assistia, impotente, à barbárie, em 2015 a maciça maioria aplaude a selvageria. Literalmente – como no subúrbio de São Luís – ou pela internet. Dos 1.817 comentários no Facebook do EXTRA, 71% apoiaram os feitores contemporâneos”, escreveu o jornal.

De acordo com o jornal carioca, Cleidenilson e um menor de 16 anos teriam tentado assaltar a mão armada um bar em São Cristóvão, mas foram surpreendidos pela reação dos clientes. Enquanto Cleidenilson foi linchado, o menor foi agredido, mas entregue às autoridades.

A Delegacia de Homicídios da capital maranhense, informa o Extra, identificou dois suspeitos pelo crime e investiga a participação de outras pessoas. Todos devem responder pelo crime de homicídio doloso (com intenção de matar) e qualificado, pois a vítima não teve condições de se defender. Segundo informou um delegado ao portal G1, “várias pessoas” que moram no bairro de São Cristóvão participaram do linchamento.

Coronel alertou ‘abuso’ antes de massacre no Paraná

Via Brasil 247

No dia anterior à ação da PM que deixou quase 200 feridos num protesto dos professores contra o governo Beto Richa (PSDB), coronel Chehade Elias Geha contestou o plano para conter manifestantes na Assembleia Legislativa e foi destituído do caso; “Nossa missão é garantir que a Assembleia não seja invadida e, caso ocorra, reintegrar a mesma. Outras providências caracterizam abuso de autoridade”, escreveu ele em mensagem de texto ao então subcomandante-geral da PM; para a Promotoria, a “abrupta e temerária” mudança no comando mostra que as autoridades estavam dispostas “a utilizar seu poderio militar para impedir qualquer manifestação democrática”.

O coronel da Polícia Militar do Paraná Chehade Elias Geha alertou seus superiores sobre o “flagrante abuso de autoridade” da ação que deixou quase 200 feridos num protesto contra o governo Beto Richa (PSDB). Ele acabou afastado um dia antes do confronto, em abril.

Em depoimento no Ministério Público do Estado, ele disse que se opôs ao plano para conter a manifestação de professores na Assembleia Legislativa.

Em mensagem de texto ao então subcomandante-geral da PM, Geha disse que impedir o acesso aos arredores do prédio criaria “um grave problema”

“Não vejo como impedir o acesso de pessoas, caminhão de som, montagem de barracas. Nossa missão é garantir que a Assembleia não seja invadida e, caso ocorra, reintegrar a mesma. Outras providências caracterizam abuso de autoridade”, escreveu ele.

O alerta teria sido feito também ao então secretário de Segurança, Fernando Francischini. Na sequência, ele foi destituído do comando da ação.

No dia 29 de abril, os docentes que participavam de manifestação que reuniu mais de 20 mil servidores estaduais em Curitiba, na praça em frente à Assembleia Legislativa do estado, foram reprimidos com violência pelas forças policiais do governo estadual.

Para a Promotoria, a “abrupta e temerária” mudança no comando mostra que as autoridades estavam dispostas “a utilizar seu poderio militar para impedir qualquer manifestação democrática”.

Leia aqui reportagem de Estelita Hass sobre o assunto.

Eurogrupo dá ultimato a Grécia e diz que momento é ‘o mais crítico’ da história do euro

Via Opera Mundi

Em 1º encontro após referendo, líderes da zona do euro convocaram reunião com todos os 28 membros da UE para chegar a decisão final sobre crise grega.

O grupo dos países que integram a zona do euro, o Eurogrupo, deu um ultimato para que a Grécia apresente até quinta-feira (09/07) novas propostas que garantam um acordo com os credores da dívida.

O prazo foi fixado pelos líderes europeus nesta terça (07/07), após uma reunião de emergência em Bruxelas, que também convocou para o próximo domingo (12/07) uma cúpula com as lideranças de todo os 28 membros do bloco da União Europeia, até mesmo os países que não adotam a moeda única.

Os líderes espanhol, Mariano Rajoy (esq.); grego, Alexis Tsipras (c.); e italiano, Matteo Renzi (dir.) na reunião do Eurogrupo. Efe

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, deixou a sessão afirmando que “este é o momento mais crítico da história da Eurozona”. Segundo ele, “não se pode excluir o pior cenário”, fazendo referência à chamada ‘grexit’, em que Atenas seria obrigada a deixar o euro, o que, para Tusk, “afetará toda a UE”.

Reunidos pela primeira vez após o resultado o referendo que, no domingo (05/07), rejeitou a política de austeridade na Grécia, os ministros do grupo esperavam que a Grécia apresentasse ainda hoje novidades para um acordo — as propostas entregues hoje por Atenas (não por escrito) não possuíam alterações significativas.

O premiê grego, Alexis Tsipras, que também esteve na reunião — classificando-a de “clima positivo” —, espera chegar a um acordo no domingo. Otimista, o líder do esquerdista Syriza afirmou que usará o resultado do referendo como uma “arma contundente” para defender suas posições no processo de negociação.

As declarações dos líderes europeus após a sessão do emergencial do Eurogrupo, elevaram o tom de pressão sobre o governo grego. O francês François Hollande afirmou que a permanência da Grécia no euro “será decidida no final de semana”.

A chanceler alemã, Angela Merkel, garantiu que não haverá perdão de dívida para a Grécia, afirmando ainda que ainda não há “condições” para que seja iniciada uma conversa sobre um eventual terceiro pacote de resgate à Grécia. “Um perdão da dívida não vai acontecer. Isto é um programa de resgate da zona do euro e não está permitido”, disse a alemã.

Calendário

A reunião do Eurogrupo também fixou um calendário para guiar as negociações ao longo da semana até o domingo, data aparentemente decisisva no processo. Apesar do último até quinta (09/07), Atenas deverá apresentar na quarta (08/07) uma série de propostas concretas.

Na quinta (09/07), a apresentação deverá ser detalhada, com indícios sobre um programa a médio prazo, acompanhado de um pedido de ajudas a curto prazo. No sábado (11/07), o Eurogrupo vai examinar as propostas e as conclusões ficarão para a sessão da UE de domingo (12/07).

Para maioria da população, financiamento privado estimula corrupção

Por Marcelo Galli | Via Conjur

A maioria da população brasileira (79%) acredita que o financiamento de campanhas políticas por empresas estimula a corrupção, segundo pesquisa Datafolha sobre reforma política encomendada pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Para 3% dos entrevistados, o financiamento privado combate a corrupção e, para 12%, não há qualquer relação entre as duas coisas.

De acordo com a sondagem, 74% dos brasileiros são contra o financiamento de campanhas por empresas privadas. São contra principalmente os mais escolarizados e os que têm renda entre 5 e 10 salários mínimos.

A maioria dos brasileiros adultos (65%) tem conhecimento de que nas eleições no Brasil os candidatos e partidos podem ser financiados por empresas, cidadãos, além de receber recursos de um fundo partidário.

Para presidente da OAB, é preciso criminalizar o chamado caixa dois. OAB

De acordo com o presidente da entidade, Marcus Vinicius Furtado Coêlho, as suspeitas sobre a origem do dinheiro que abasteceu campanhas, como apontado em delações premiadas da operação “lava jato” — que investiga corrupção na Petrobras —, reforçam a necessidade de mudanças no sistema eleitoral brasileiro. “O mais adequado para limpar o Brasil, além da devida punição de eventuais culpados, respeitada a Constituição e o amplo direito de defesa, é acabar com o investimento empresarial em eleições e tornar crime a utilização do dinheiro não contabilizado, o chamado caixa dois”, disse.

Conforme o perfil dos entrevistados, 75% disse não ter partido político de preferência.  O levantamento foi feito entre os dias 9 e 13 de junho deste ano com 2.125 entrevistados, em 135 municípios de todas as regiões do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Em maio, a Câmara aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 182/2007, que permite o financiamento de campanhas políticas por empresas privadas. Agora, o Senado deverá deliberar sobre a PEC.

Os Processos de Moscou, o juiz Moro e a mídia brasileira

Por Ignacio Delgado | Via DCM

A leitura recente de O homem que amava os cachorros, magnífico romance do cubano Leonardo Padura, trouxe-me de volta à mente as farsas judiciais montadas por Stalin na antiga URSS. Através do isolamento, chantagens, torturas físicas e psicológicas, dirigentes comunistas, militares, chefes de polícia, cientistas…, todos que representassem obstáculos ao processo de concentração do poder nas mãos de Stalin, confessavam crimes espetaculares e delatavam antigos companheiros por atividades anti-soviéticas. Antes e depois, o opróbio, a execração pública, por via de orquestrada campanha na imprensa e nos meios de comunicação.

Naturalmente que não vivemos estes tempos, embora certa direita, por ignorância ou má fé, pretenda ver riscos de comunização e bolivarianismo (seja lá o que isso for) em governos que, desde 2003, a par de promoverem medidas singelas, mas efetivas, de inclusão social, colocaram sempre em posições chave do Executivo representantes do agronegócio, do empresariado urbano e do capital financeiro, além de conduzirem uma política macroeconômica rigorosamente conservadora. Os elementos totalitários da situação brasileira não estão do lado do espectro político que tem o PT como principal expressão.

Delações derivadas de isolamento e chantagem, antecipadas e seguidas de espetacular campanha para execração pública das pessoas supostamente atingidas (desde que ligadas ao PT e aos governos que lidera), partem sabidamente da articulação que reúne segmentos golpistas da oposição e a nossa velha mídia, sob controle das mesmas famílias que cumpriram triste papel em episódios cruciais da história brasileira, a exemplo de 1954, com a ação contra Vargas, e em 1964, com o apoio ao golpe.

Moro não é Stalin, nem Youssef, Roberto Costa e Ricardo Pessoa têm qualquer semelhança com Bukharin, Kamenev e Yagoda, para nomear alguns delatores nas duas situações apontadas acima. Stalin era o dirigente máximo de um regime totalitário. Moro é um apenas um peão no jogo da oposição. Seus métodos, contudo, obviamente em escala e intensidade infinitamente menor, são os mesmos, para propósitos diversos. Para Stálin, a preservação, a ferro e a fogo, de uma situação tirânica. Para Moro, o desgaste de um governo eleito legitimamente.

Nos dois casos, contudo, procedimentos insustentáveis para qualquer abordagem jurídica civilizada, como o atesta o insuspeito Marco Aurélio Melo. Nos dois casos, a instrumentalização do Estado (para usar uma expressão cara à oposição), com organismos de investigação e personagens do Ministério Público (no Brasil alguns jovens e intocáveis procuradores, que não se constrangem de revelar simpatias oposicionistas), cumprindo um papel descaradamente político.

Os elementos totalitários da situação brasileira complementam-se com a identificação do inimigo do povo, que reuniria em si a capacidade de produzir todo o mal existente na sociedade. É o petista. Ele é o trotskista da URSS stalinista; o comunista, o judeu, o cigano, da Alemanha nazi. A corrupção é apontada como inerente à condição petista e só pode ser extirpada se seu hospedeiro também o for. Não importa que nos últimos anos tenha sido criado o Portal da Transparência, a Controladoria Geral da União, reequipada a Polícia Federal e acentuada sua autonomia e a do Ministério Público.

Não importa que os delatores assinalem que alguns esquemas investigados tenham nascido antes da ascensão do PT ao governo federal (quando finalmente começam a ser investigados) e que um empresário tucano, relatando suas desventuras em licitações desde a ditadura militar, alerte que nunca se roubou tão pouco no Brasil, porque finalmente a corrupção está sendo investigada e punida. Não interessa debater as raízes institucionais da corrupção e fazer as reformas que possam debelá-las. Importa é execrar, submeter o petista ao opróbio, ensejando as manifestações fascistas que têm atingido diversos personagens ligados ao partido. Quando virá a primeira morte?

A direita brasileira sempre se valeu das denúncias de corrupção para atacar seus adversários trabalhistas, do PTB ao PT, dada a dificuldade de obter êxito eleitoral com suas propostas reais. Imaculados Aloysio Nunes, Aécio Neves, Ronaldo Caiado… Apenas com FHC, por conta do êxito do Plano Real na contenção da hiperinflação, as forças políticas cuja linhagem remonta à velha UDN venceram diretamente as eleições presidenciais. Jânio e Collor eram outsiders e nuclearam seu discurso eleitoral na abordagem moralista do tema da corrupção.

Nenhum dos três enfatizou as disposições de acentuação da subordinação externa da economia brasileira e de dissolução do legado trabalhista, centrais à visão de mundo udenista e peessedebista. Nos últimos tempos, após três derrotas seguidas, tais forças têm dado vezo a atitudes intolerantes, o ovo da serpente do totalitarismo, estimuladas por uma mídia, cujos elos com o capital financeiro foram desvendados por estudo seminal de Francisco Fonseca (2005), e que, hoje, precisa mais que nunca do golpe, para salvar-se da insolvência anunciada, através de contratos polpudos com o governo, a exemplo do que ocorre em São Paulo.

O acirramento da última campanha eleitoral, o atropelo na condução da política de ajuste fiscal e a tragédia que é a comunicação do governo Dilma favoreceram o cenário de intolerância que hoje vivemos. Todavia, nos próximos meses não há coisa mais importante a fazer do que resistir ao golpe. Vitorioso, vai-se o Pré-Sal, o que nos resta de soberania nacional e parecerão suaves as dificuldades que hoje atingem o mundo do trabalho.

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Por Ignacio Godinho Delgado, professor de História e Ciência Política na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT-PPED).