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A “morosidade” da Justiça, o linchamento judicial de Moro e a lição de Montesquieu

Por Fernando Brito | Via Tijolaço

A um juiz, pela importância da função que exerce, exige-se, antes de tudo, decoro, prudência e discrição.

O Dr. Sérgio Moro não cansa de – elevado ao estrelato de Juiz Supremo do Brasil – expor ao país a boa razão de esperarem-se tais coisas de um magistrado.

Ontem, está no Estadão, não perdeu a chance de usurpar as funções que não são suas e proclamar-se juiz dos desejos do povo, no mais deslavado populismo judicial.

“A população quer saber o ‘efeito final’ dos processos criminais, ‘saber se a Justiça funciona ou não’. Não podemos ter a Operação Lava Jato como um soluço que não gere frutos para o futuro”.

Não, Dr. Moro, o papel de Justiça é ser justa, equilibrada, garantidora não apenas do cumprimento da lei, mas da universalidade dos direitos, não importa a quem.

Não é a de se substituir ao linchamento popular dizendo: “podem deixar que eu espanco ele”…

“No Brasil, existem casos criminais em que a prova incriminatória é esmagadora, mastodôntica, com a responsabilidade demonstrada, e o réu insiste em ir até o final do processo, apostando na impunidade.”

É direito do réu, de qualquer réu, esgotar suas possibilidades de defesa.

O que compete ao Judiciário é fazer com que este processo de garantia do reexame de decisões  – quase todas de um só homem- seja rápido, não o de eliminar esta garantia.

Garantia, inclusive, do poder persecutório do Estado, que pode e deve recorrer de decisões que não considerem “esmagadoras e mastodônticas” as decisões do juiz ou as penas aplicadas, porque não há proibição, quando não é apenas a defesa quem recorre, de agravarem-se as penas. Só no caso de recurso exclusivo da defesa há a vedação do aumento de pena, o tal “reformatio in pejus” de que falam os advogados.

Mas vai-se adiante no estilo judicial que não busca apenas ternos em Miami, mas modelos de Justiça, ao arreppio da Constituição brasileira que diz, em seu o art. 5º, LV, que “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”.

Sérgio Moro verbaliza aquilo que, há dias um colega seu, o juiz Alexandre Morais da Rosa, adverte da ideia de copiar o sistema americano de transformar a aplicação da lei ao um mero “negócio entre partes”, o acusador e o acusado, chegando ao “extremo de termos uma pena sem processo e sem juiz”.

O acusado, assim, praticamente se transforma num sequestrado, que deve pagar com algo – ou a delação de terceiros ou a assunção de uma pena “vantajosa” – pelo direito de ser condenado com “limite” de pena e sem a chance de lutar por sua eventual inocência.

Não há mais inocentes, há apenas os que não quiseram confessar e que, por isso, já estão condenados.

Escreve o Dr. Morais da Rosa:

“A negotiation viola desde logo o pressuposto fundamental da jurisdição, pois a violência repressiva da pena não passa mais pelo controle jurisdicional e tampouco se submete aos limites da legalidade, senão que está nas mãos do Ministério Público e submetida à sua discricionariedade. Isso significa uma inequívoca incursão do Ministério Público em uma área que deveria ser dominada pelo tribunal, que erroneamente limita­se a homologar o resultado do acordo entre o acusado e o promotor. Não sem razão, afirma-se que o promotor é o juiz às portas do tribunal. O pacto no processo penal pode se constituir em um perverso intercâmbio, que transforma a acusação em um instrumento de pressão, capaz de gerar autoacusações falsas, testemunhos caluniosos por conveniência, obstrucionismo ou prevaricações sobre a defesa, desigualdade de tratamento e insegurança. O furor negociador da acusação pode levar à perversão burocrática, em que a parte passiva não disposta ao “acordo” vê o processo penal transformar‑se em uma complexa e burocrática guerra”.

Aliás, a condenação precede mesmo o julgamento, porque o Dr. Moro provou que é possível – e triste – que se mantenha alguém preso por meses a fio sem que nada haja contra si, senão a versão unilateral de um delator que aponta o dedo a alguém para  se safar, no possível, de seus próprios delitos.

Alem do mais, a banalização da transação penal tem efeitos pra lá de  discutíveis sobre a eficácia do sistema judicial em si, quando não se considera o interesse – ou, quem sabe, o desejo – de envolver e culpabilizar terceiros. Qualquer pessoa do povo sabe que, nos crimes de menor poder ofensivo, o “pagamento de cestas básicas” tornou-se uma especie de garantia de impunidade de fato, como pode se tornar o pagamento de multas e a “deduração” de outrem.

O discurso do Dr. Sergio Moro não é o da elevação do papel do Juiz, mas o seu rebaixamento à condição de “justiceiro”, como se a punição e não a justiça fosse o cerne de sua ação.

Há, contudo, um aspecto de imensa perversidade quando se nega a presunção da inocência até a apreciação de recursos e a condenação transitada em julgado, pretendendo a execução prévia de pena e recusando o que disse Montesquieu há mais de 250 anos, em seuEspírito das Leis: quando a (presunção da) inocência dos cidadãos não é assegurada, a liberdade também não o é” .

Porque a  lei é feita para todos os homens e mulheres, não para os criminosos e, portanto, deve cuidar antes de proteger o inocente que de castigar o transgressor.

É, dizia dizia o velho pensador, em que se funda boa parte da ideia moderna de estado, uma regra que vale tanto para o indivíduo quanto para a sociedade:

“Quando uma república conseguiu destruir aqueles que queriam derrubá-la, deve-se apressar em pôr fim às vinganças, às penas e até mesmo às recompensas. Não se podem realizar grandes punições, e por conseguinte, grandes mudanças, sem colocar entre as mãos de alguns cidadãos um grande poder. Logo, é melhor, neste caso, muito perdoar do que muito punir; pouco exilar do que muito exilar; deixar os bens do que multiplicar os confiscos. Sob pretexto da vingança da república, seria estabelecida a tirania dos vingadores. Não se trata de destruir aquele que domina, e sim a dominação. Deve-se voltar o mais rápido possível para o andamento normal do governo, onde as leis protegem tudo e não se armam contra ninguém.”

Nem Stálin nem Hitler pensavam assim.

Eduardo Cunha tem que sair da presidência da Câmara

Por Luis Nassif | Via Jornal GGN

São visíveis os sinais de descontrole de Eduardo Cunha, por enquanto presidente da Câmara Federal.

Não se avalie apenas pelo olhar alucinado, que não consegue se fixar em nenhum ponto, pela fala descontrolada, pelos tiros que dispara a esmo, contra qualquer alvo que o descontente. Ele está clara e ostensivamente desequilibrado.

Fosse um piloto de avião, seria interditado. Se policial, tirariam suas armas até se submeter a um teste psicotécnico. Estivesse internado, seria confinado em uma área reservada a pacientes de alto risco.

Esse descontrole não recomenda que seja mantido à frente da Câmara, principalmente depois que for denunciado pelo Procurador Geral da República.

No cargo, ele pode armar barganhas, inclusive atropelando o regimento, como se observou no caso da votação da Lei da Maioridade Penal. Além disso,  possui poder de retaliação e já demonstrou pretender utilizar as instituições públicas para livrar-se da denúncia.

Testemunhas apontam-no como um sujeito perigoso – daí a importância de ser apeado do cargo, inclusive para que a Polícia Federal possa monitorá-lo, impedindo  ações de retaliação contra testemunhas.

Não se trata de um parlamentar comum, mas de uma ameaça pública – e ameaça individual aos seus adversários.

TCU: Tribunal Criminoso da União

Por Ricardo Melo | Via Folha de S. Paulo

Nardes (à direita) abraça Cedraz durante a posse do novo presidente do TCU, em dezembro passado. Foto de Marcelo Camargo / Agência Brasil

A aprovação relâmpago de contas presidenciais que dormitavam há anos no Parlamento, como reconhecido por todos, foi mais uma manobra regimental sob os auspícios de Eduardo Cunha. Faz parte do jogo de pressão do presidente da Câmara contra o Planalto. O motivo também é notório: o peemedebista tenta escapar de indiciamento após ser acusado de embolsar US$ 5 milhões em propinas.

A intenção manifesta é usar um provável parecer do Tribunal de Contas da União rejeitando as contas de Dilma Rousseff por “pedaladas fiscais”. O TCU ainda vai bater o martelo. Cunha, de sua parte, conta com o relator Augusto Nardes para reprovar a administração Dilma. Bom soldado, Nardes bate continência e vai em frente.

Sem nenhum pudor, o relator empenha-se num périplo infatigável por todos os poderes. Nada a estranhar quando juízes, ministros do Supremo, procuradores, policiais e tantos outros alardeiam posições condenatórias pela mídia, em vez de falarem pelos autos. Os cínicos classificam esta afronta sistemática como prova de que as “instituições estão funcionando”.

Mal percebem que todo crime deixa vestígios. Ao examinar de baciada contas pregressas de Itamar Franco, FHC e Lula, os parlamentares carimbaram um atestado de inocência da atual presidente. Reportagem da Folha publicada em 26 de abril comprova que as tais pedaladas vêm de longe, pelo menos desde o governo tucano. Nem os oposicionistas contestam. Logo, todas deveriam ser reprovadas a considerar um tratamento justo e isonômico.

Surpresa: com base no mesmo TCU, os parlamentares endossaram as contas de todos, com ressalvas “técnicas”. Mas se as chamadas pedaladas são crime, por que aprovar o expediente em alguns governos e reprovar em outros? Do ponto de vista da Justiça, a manobra de Cunha equivale a um tiro no pé. Elaborada para emparedar Dilma, acabou por absolvê-la de fato — mesmo sem entrar no mérito de que os recursos financiaram programas sociais de interesse de milhões de brasileiros.

Já no âmbito da política, a manobra tem alvo certo. É parte de uma operação tão combinada quanto frenética para derrubar um governo eleito. Os motivos não importam. Variam a cada momento. Rejeição de contas, supostos delitos de campanha, pesquisas de opinião, Lava Jato, derrotas no Congresso — vale tudo e mais um pouco. Experimente perguntar a cardeais da oposição, pública ou privada, qual seu projeto de país além de se livrar do PT. As respostas esclarecem.

Aécio Neves, que prometeu ir para Harvard caso fosse derrotado em 2014, agora defende novas eleições. Talvez por saudade de ser rejeitado nas urnas outra vez. Geraldo Alckmin prefere deixar o barco seguir até 2018 para ganhar musculatura. FHC tergiversa, além de tentar limpar a própria biografia e cavar espaço na mídia para expor dotes professorais. Eduardo Cunha e sua bancada de acólitos só pensam em abafar as próprias mazelas. Já Temer, Renan e parte do PMDB esperam na moita para ver aonde o vento sopra.

E o governo? As opções estão na mesa. O Planalto pode continuar se dissolvendo no jogo político convencional e ampliar concessões ao fisiologismo rasteiro, aos barões da banca e ao grande capital — sempre em detrimento de programas de alcance popular. Ou então finalmente honrar compromissos assumidos com a maioria que o elegeu. Entre uma e outra alternativa, há inúmeras variantes. O importante é decidir de que lado a balança vai pesar.

Moro quer convencer o Brasil de que a corrupção começou em 2002

Começou quando? Agora?

Por Assys Calvet | Via Jornal do Brasil

Folha de S. Paulo informa neste domingo (9) que, preocupado com a imagem da empresa, Emilio Odebrecht já teve várias conversas com Lula e também com Fernando Henrique Cardoso. Seu filho, Marcelo Odebrecht, presidente da empresa, está preso. Histórias que o Brasil precisa saber falam que a Petrobras teve a corrupção instalada recentemente. Conexões antigas denunciam a idade dos casos?

O Brasil precisa ouvir, também, histórias como a do senhor Atan Barbosa, ou de José Rubens Goulart Pereira, que foi da Andrade Gutierrez e da Galvão Engenharia. Tem que saber quem colaborou com a Operação Patrícia — Interbrás –; ter conhecimento dos aditivos de Angra 3; se presidentes da Petrobras de outras gestões conseguem comprovar suas fortunas. Precisa ter conhecimento dos fornecedores do campo de Marlin. Urge saber se todos os corruptos e esquemas já conhecidos foram parar no fundo de pensão da Petrobras.

O jornalista Paulo Francis já havia afirmado em 1997 no programa Manhattan Connection que existia esquema de roubalheira na Petrobras. Ao contrário de ver o início de uma investigação séria sobre a acusação, foi o próprio condenado em um processo de US$ 100 milhões. Como explicar a omissão e o desfecho desta história?

O depoimento do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, afirmando que começou a receber propina “por iniciativa pessoal”, em 1997, trouxe à tona suspeitas muito mais sombrias do que as que ganham o holofote fácil da grande mídia.

Um dos casos antigos que envolvem a Petrobras aconteceu há quinze anos, durante o governo de FHC, “o mais ruinoso negócio da história da empresa: uma troca de ações entre a estatal brasileira e a espanhola Repsol”, conforme lembrou Paulo Moreira Leite em artigo publicado. A Petrobras entrou com bens avaliados em US$ 3 bilhões, recebeu US$ 750 milhões, em um prejuízo quatro vezes maior do que a usina de Pasadena. O processo parado no STJ não apontou responsáveis nem condenou ninguém.

Outras histórias, que circulam fora do alcance do debate público, dão conta que se um dos diretores da Andrade Gutierrez que estão presos hoje fizer delação premiada, um estado do Brasil pode ver seus políticos ficarem sem mandato.

Mas ligações e culpados também podem surgir de casos mais antigos. O ex-governador da Bahia, Nilo Coelho, em 1991, por exemplo, foi denunciado pelo seu sucessor no governo, Antônio Carlos Magalhães, que levantou suspeitas sobre relação com empreiteiras já naquela época. Em agosto daquele ano, Antônio Carlos Magalhães entregou ao procurador-geral da República, Aristides Junqueira, uma série de documentos que comprovavam as denúncias de corrupção levantadas por ele sobre Nilo Coelho, que nunca foi condenado, mas teve que repor depois aos cofres públicos a quantia de US$ 13 mil, por estadia em SPA, e de 4,3 milhões de cruzeiros reais pela festa de réveillon realizada por ele em 1990.

Outro caso antigo envolve a Andrade Gutierrez. Em 2001, o então presidente da construtora Andrade Gutierrez, José Rubens Goulart Pereira, foi dado como morto em uma falsa nota fúnebre publicada em jornais brasileiros, em dois momentos no mesmo ano. Goulart Pereira está vivo até hoje, e em atividade. Roberto Amaral, ex-executivo da empresa e apontado como padrinho profissional de Goulart Pereira, que estava afastado da AG desde maio de 1998, foi o autor das notas. Diretores da empresa disseram na época que Amaral fez o que fez para se vingar do pupilo. Na época, coluna de jornal brasileiro noticiou que Amaral era considerado um dos mais influentes lobistas que o Brasil já teve, que fazia a ponte da Andrade Gutierrez com amigos como PC Farias, Jânio Quadros, Orestes Quércia e uma figura influente na área da Fazenda do governo Collor.

O primeiro anúncio fúnebre falso, publicado na sexta-feira 13 de julho, decretava a morte de Goulart Pereira. O segundo, impresso em jornais do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte, convocava para a “missa de quinquagésimo dia in memoriam de José Rubens”. Amaral era sócio da empresa RV Consultoria e Participações Ltda., que assumiu responsabilidade legal pela divulgação das duas notas. Goulart Pereira, que depois trabalhou na Galvão Engenharia, hoje estaria na Companhia de Águas do Brasil – CAB Ambiental. Ele assumiu em maio deste ano o cargo de vice-presidente do Conselho de Administração, declarando “não estar incurso em qualquer crime”.

A mensagem cifrada das notas fúnebres falsas chamou a atenção até da justiça. Um dos anúncios diziam que estavam presentes à “missa” os donos da Andrade, Gabriel e Sérgio Andrade, que ”lideraram, com fervor, o entoar de um salmo em louvor e solidariedade ao dr. Paulo Maluf e seu filho Flávio”; e ”fizeram penitência pedindo perdão a Orestes Quércia”. Chamava Goulart Pereira de “Dolly”, uma referência à ovelha clonada. Ao referir-se aos nomes de Quércia e do ex-prefeito Paulo Maluf, Amaral deu a entender que estaria disposto a destampar segredos. O texto também dizia que Goulart Pereira era um “grande escritor de inúmeras cartas, nas quais expunha sua sempre constante lealdade e gratidão”.

A ameaça do empreiteiro suscitou a abertura de uma investigação pelo Ministério Público de São Paulo e apavorou a diretoria da Andrade Gutierrez e políticos no eixo São Paulo–Brasília naqueles anos. Histórias que o Brasil precisa saber ainda não incluíram o desfecho desta e de tantas outras que escapuliram mas foram ignoradas.

Pela retirada do PL 2016/2015 (tipificação do terrorismo)

Por Patrick Mariano | Via Uninômade

PELA RETIRADA DO PL 2016/2015 (tipificação do terrorismo)

a) o que deve e pode ser feito?

Como foi o Poder Executivo quem enviou ao Congresso o PL 2016/2015 ele pode perfeitamente pedir sua retirada. É a única forma de evitar a criminalização dos movimentos sociais.

b) O que aconteceu no Chile após a tipificação do terrorismo?

Estudantes que lutavam pela melhoria das condições de ensino foram presos acusados de serem terroristas o que levou à condenação do país na Corte Interamericana de Direitos Humanos.

c) O brasil não possui legislação para combater o terrorismo?

Brasil já dispõe de legislação suficiente para processar e julgar eventuais crimes praticados por razões políticas. Inclusive, recentemente alteramos a Lei de Organizações criminosas para permitir o uso daquelas técnicas de investigação para o caso de atos terroristas. Todos os crimes previstos no projeto de lei já estão no Código Penal.

d) Existem grupos terroristas no Brasil?

Quando os EUA grampearam ilegalmente autoridades políticas brasileiras e de todo o mundo o fizeram com a desculpa que estavam a evitar o terrorismo. A desarrazoada justificativa foi repudiada pela presidenta Dilma com o argumento de que nosso país vive em paz com seus vizinhos há mais de 100 anos e que não temos grupos terroristas por aqui.

e) Organismos internacionais pressionam com sanções econômicas caso não seja tipificado?

Na justificativa da proposta se defende que a pressão de organismos internacionais como o GAFI (organização intergovernamental cujo propósito é desenvolver e promover políticas nacionais e internacionais de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo) ameaça colocar o Brasil em uma lista de sanções financeiras caso o projeto não fosse enviado. É uma mentira e outra falácia que não se sustenta porque o GAFI não tem esse poder. A Alemanha nunca tipificou, nem tipificará.

 f) O governo mandou com a ressalva de que a lei não se aplicaria a movimentos sociais, isso os protege?

De forma alguma! Mesmo tendo incluído a ressalva, o projeto é cheio dos chamados tipos penais abertos que dependerão da interpretação e preenchimento de conceitos como “provocar terror”, “movimento social”, “intranquilidade pública”, “paz pública” e outros termos que não dizem nada. Delegados e promotores, através de um filtro ideológico, dirão quem é e quem não é movimento social. Qual manifestação é legítima e qual não é. É aí que reside o problema. A proposta tem como base fundante o direito penal do inimigo o que permitirá, sem dúvida alguma, a prisão de lideranças de movimentos sociais, a exemplo do que ocorreu nas manifestações de junho de 2013.

A Lei de Segurança Nacional, cujo relatório final da Comissão da Verdade recomenda sua revogação, porque caracterizada como entulho autoritário, foi usada diversas vezes contra o MST e inúmeros processos foram instaurados contra trabalhadores rurais sem terra que, legitimamente, reivindicavam política pública de reforma agrária, constitucionalmente estabelecida.

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Por Patrick Mariano é mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB) e integrante da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares – Renap.

Termômetro da conjuntura política #1

Por Rennan Martins | Vila Velha, 10/08/2015

A partir de hoje o Blog dos Desenvolvimentistas publicará, toda segunda, uma análise da conjuntura política, com fatos e interpretações do cenário político nacional e/ou internacional, traçando uma perspectiva da semana que inicia.

1- Prossegue a guerra de Eduardo Cunha contra o Planalto, verdadeira cortina de fumaça que cria instabilidade para, de alguma maneira obscura, forçar a PGR a recuar da denúncia da Lava Jato. Dilma confirmou a recondução de Janot, enquanto a AGU entrou com estranha representação pela anulação das provas conseguidas com o recolhimento dos registros de requerimentos do Congresso, procedimento autorizado pelo STF. O presidente da Câmara considerou atrasada e estranha a iniciativa, acrescentando, via Twitter, que não precisa da União para fazer sua defesa.

2- A pauta da Câmara promete: Serão votados a redução da maioridade penal, o financiamento de campanhas políticas por empresas, as novas regras de correção dos depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e os destaques à proposta que trata da remuneração dos advogados públicos, além da instalação da CPI dos Fundos de Pensão.

3- A correlação de forças deu uma acentuada mudança depois que a FIESP, FIRJAN, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, e a Globo, cerraram fileiras pela governabilidade. Pragmaticamente, constataram que Dilma está aplicada no ajuste fiscal, o qual é prontamente sabotado no Congresso. Outro motivo de preocupação para os Marinho é o fato de Cunha ser umbilicalmente ligado aos grupos de mídia evangélicos, o que certamente se traduziria em perdas de receitas publicitárias estatais após a derrubada da presidente.

4- Os ministros próximos a Dilma e o ex-presidente Lula aventam a possibilidade de uma reforma ministerial que traria figuras de maior peso político, capazes de trazer a unidade nas votações. Ministros como Kassab, Manoel Dias e Armando Monteiro estão na mira por não conseguir, nem mesmo tentar, fazer com que seus correligionários sejam fiéis ao governo. Dilma resiste a ideia.

5- PLS 131. A última sessão que discute o projeto de Serra que revoga a condição de operadora única da Petrobras no pré-sal terminou num impasse pois os senadores discordavam que o senador entreguista e capixaba, Ricardo Ferraço (PMDB-ES), fosse o relator. Senadores peemedebistas reclamam de ter que aderir a defesa da partilha enquanto o líder do governo Delcídio Amaral (PT-MS) trabalha pela aprovação do projeto. Este fato reforça a suspeita de que o Planalto trabalha pela mudança do regime, o que pode ter sido acertado com Obama na viagem aos EUA e eventualmente auxiliar o governo a cumprir superavit.

6- Vendine. O conselho de administração da Petrobras aprovou o projeto de abertura do capital da BR Distribuidora, subsidiária altamente lucrativa da estatal, os petroleiros prometem resistir e se veem obrigados a batalhar em duas frentes, tanto contra Serra quanto contra o presidente da companhia. O resultado operacional da Petrobras foi extraordinário, como informou o companheiro Paulo César Ribeiro Lima, mas alijado por conta de adiantamentos de tributos para auxiliar o governo na meta fiscal. Interpreto esse abatimento nos resultados como necessário também para reforçar a impressão de que a companhia precisa dos desinvestimentos e do plano de negócios recentemente aprovado, que orienta a estatal para uma posição mercadista e de mera exportadora de óleo.

Um governo à beira do abismo

Geniberto Paiva Campos | Brasília, agosto de 2015

As forças subterrâneas, que Vargas denunciou em sua carta-testamento, mais uma vez prevalecerão?

“essa joça pode ir pro  brejo” – ( George W. Bush, setembro, 2008, em conversa com auxiliares)

1. Essa frase profética do ex-presidente Bush foi anunciada aos seus assessores, a propósito da crise do Capitalismo que então se iniciava e a qual se desdobra até o presente. Certamente poderia ser aplicada a outras circunstâncias históricas.

A dúvida que se coloca nos dias que correm, substrato do embate político atual, é sobre quem vai pagar a conta de mais uma crise cíclica, previsível, do Sistema Capitalista. Afinal, nenhum país deseja passar pela amarga experiência da Grécia neste início de século.

Por motivos a serem ainda analisados da forma mais isenta e correta possível, o Brasil, sob o comando de governos assumidamente progressistas, vinha conseguindo atravessar, aparentemente incólume, a crise. Uma “marolinha” e não o tsunami previsto, como falou o ex-presidente Lula (2003/2010), de forma provocativa e desafiadora. Talvez confiando nas políticas de distribuição de renda e consequente criação de um novo e surpreendente mercado consumidor interno. Entre outras medidas chamadas anticíclicas colocadas em prática com êxito, maior ou menor, pelos economistas do Governo. Por exemplo a redução dos juros bancários. Que deixou a elite brasileira furibunda. Inconsolável.

É fato que alguns imaginavam: “ – governos de Esquerda não têm competência econômica e política para enfrentar crise de tal magnitude”. Não foi, entretanto, o que aconteceu. A eleição da presidente Dilma Roussef em 2010, apoiada pelo ex-presidente Lula, e sua reeleição subsequente em 2014, mostrou que os eleitores brasileiros estavam satisfeitos e queriam a continuidade dos “governos de esquerda”. O qual vinha conseguindo conter, com êxito, e muita tranquilidade, o tsunami da crise do Capitalismo.

2. Após a quarta derrota eleitoral consecutiva nas eleições presidenciais, a Oposição mudou as estratégias políticas até então adotadas. Em contrapartida, nas eleições legislativas, as forças oposicionistas conseguiram eleger um Congresso Nacional bastante descaracterizado politicamente. E o mais grave, obedecendo a um comando único, visceralmente anti-governista, votando em bloco. Disposto a tumultuar o jogo político. Com o indisfarçado objetivo de criar sérias dificuldades para o Governo condução dos seus projetos.

E a responsabilidade quanto ao pagamento da conta da crise capitalista, provocada pela sede insaciável de lucro e acumulação do  Sistema, está sendo gradativamente transferida para os pobres, ou seja, ao andar de baixo do estrato socioeconômico.

Enfim, a Oposição percebeu que, para ganhar eleições, não era suficiente demonizar e criminalizar o Partido dos Trabalhadores. Colocar as suas lideranças na prisão. Condenar sem provas: pelo “domínio do fato”. E, na falta de evidências claras, incontestes, condenar baseada na “literatura jurídica”.  Tudo isso em um processo criminal. O julgamento popular, expresso periodicamente nas urnas foi sendo substituído pela formação de uma opinião pública movida pelo ódio e pelo preconceito habilmente semeados por um “jornalismo” totalmente desprovido de escrúpulos. Uma classe média apoiadora da Elite, que bate panelas  e vai às ruas exibir, sem nenhum pudor, palavras de ordem outrora apenas  um sussurro, ou um pensamento fugaz,  nos seus jantares elegantes. Uma Imprensa que entende como legítimo – repetindo os padrões éticos de segmentos do Judiciário – acusar sem provas, forjar delações e  fraudar provas materiais, desde que direcionadas a um determinado grupo político. Tudo isso é aceito, naturalizado, sem que haja quase nenhum protesto. E mais recentemente, o país chegou à fase das prisões políticas. Também aceitas com naturalidade e com o silêncio (cúmplice?) de instituições, que por dever de ofício, deveriam zelar pelas normas legais e constitucionais, quando não, pelos Direitos Humanos e pela Justiça.

3. Tornou-se, então, uma obsolescência, um exercício de inutilidade, falar no golpe que vai acontecer. O Golpe está acontecendo em toda sua liturgia. Em todas as etapas previsíveis de um Golpe de Estado. Agora no novo modelo recomendado para a América Latina.

Há uma lógica perversa nesse incurável viés autoritário, antidemocrático, que está no DNA latino-americano.

O atual governo, legitimamente eleito pelo voto popular, foi desidratado, emparedado e, finalmente, colocado à beira do abismo. Resta saber como será o ato final:

- se vai usar o elevador da renúncia, para uma descida, até certo ponto, tranquila;

- se desce ao abismo pela escada íngreme da diminuição de poderes, numa espécie de parlamentarismo de fato, ou o “impeachment” suave;

- ou será empurrado para o fundo do precipício, bem mais ao gosto e ao estilo sul americano.

O JOGO ESTÁ FEITO. FAÇAM SUAS APOSTAS.