Arquivos da categoria: Justiça

A vingança apocalíptica

Por Rogério Cézar de Cerqueira Leite | Via Aldeia Nago

Estão juntas forças extremas do país, que em tempos mais serenos ficariam em campos opostos. Isso porque elegeram o PT e Dilma como inimigos

Hoje estão em consonância no Brasil forças extremas da sociedade, que em tempos mais serenos ficariam em campos opostos. O PSDB abraça os descontentes chantagistas do PMDB, enquanto o vampiresco Eduardo Cunha e sua horda de zumbis dão beijocas no sanguinário deputado Carlos Sampaio.

Hoje a reacionária alta burguesia paulista faz afagos na pelega Força Sindical, enquanto a elite janota do Rio de Janeiro se aconchega aos plebeus da zona norte.

Hoje dão as mãos o direitista “O Estado de S. Paulo”, a minha querida quase imparcial Folha, o oportunista “O Globo” e a histérica revista “Veja”. Hoje se alinham para panelaços a população alienada e a estudantada militante.

Tudo isso porque elegeram um inimigo comum, o PT, e sua representante mítica, Dilma Rousseff. Ah, como é reconfortante encontrar um bode expiatório, alguém que, como Cristo, acolha todas as culpas, embora a contragosto. Ah, como é gostoso ter um inimigo comum.

É pena que a presidente Dilma Rousseff seja tão obstinada, tão voluntariosa. É pena que seja ela tão patriota, tão irredutivelmente profissional. Pois, o que aconteceria se inopinadamente esse inimigo comum fosse removido?

Apenas por razões de ordem acadêmica, vamos supor que a presidente Dilma decidisse abdicar. Vocês já imaginaram a balbúrdia que se instalaria no Brasil? Sem um inimigo comum, um bode expiatório geral? Como iriam comportar-se esses atores tão individualistas, tão egocêntricos da política nacional?

Imaginemos apenas que, se não para manter sua dignidade, mas apenas por macabra vingança, a presidente Dilma Rousseff resolvesse passar umas longas e merecidas férias em Côte d’Azur, na França.

José Serra mandaria mísseis “exocets” e outros petardos para Belo Horizonte. Eduardo Cunha mandaria seu exército pentecostal aniquilar o estarrecido Michel Temer, que, acossado de todos os lados e sem a têmpera de uma Dilma, não resistiria muito até desmoronar.

A mídia, confusa, já não saberia a quem hostilizar. Eduardo Cunha? José Serra? Fernando Henrique Cardoso? O PMDB, acostumado a aderir ao mais forte, ficaria sem orientação, sem rumo.

Os “pit bulls” da oposição –Rodrigo Maia, Carlos Sampaio, Álvaro Dias, Aloysio Nunes Ferreira–, viciados e sem ter a quem morder, passariam a se mastigar entre si ou passariam a atacar outros aliados? E quem governaria essa Câmara prenhe de cobiças e de extorsões?

FHC disse que é inoportuno o impeachment da presidente Dilma porque não há lideranças adequadas. Talvez o que ele queira dizer é que haja muitos candidatos medíocres para a substituição de Dilma. Com isso, agride seus correligionários Serra e Aécio Neves e outros opositores dos demais partidos, antes mesmo de qualquer processo de impedimento da presidente.

Ah, que pena que Dilma não é vingativa. Que pena, mas que sorte!

***

ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE, 84, físico, é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha.

Escritórios de advocacia no DF e no Rio são alvo da Operação Zelotes

Via CdB

A Polícia Federal cumpre desde o início da manhã desta quinta-feira sete mandados de busca e apreensão como parte da terceira fase da Operação Zelotes, que desarticulou, em março, um esquema compra de sentenças no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Cinco mandados estão sendo cumpridos em escritórios de advocacia no Distrito Federal e dois no Rio de Janeiro.

Os envolvidos no esquema responderão pelos crimes de advocacia administrativa fazendária

A nova fase da operação, de acordo com a PF, foi desencadeada após a análise do material apreendido na primeira fase da Zelotes, em 26 de março. “Nos documentos apreendidos à época foram identificados novos indícios que apontam para a participação de outro conselheiro, além de escritórios de advocacia ligados a ele”, informa a nota da Polícia Federal.

Os envolvidos no esquema responderão pelos crimes de advocacia administrativa fazendária, tráfico de influência, corrupção passiva, corrupção ativa, associação criminosa, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Carf

O Carf, órgão ligado ao Ministério da Fazenda, é a última instância administrativa de recursos relativos a processos abertos pela Receita Federal.

Desde março, a Polícia Federal, por meio da Operação Zelotes, apura esquema criminoso em que conselheiros e ex-conselheiros do Carf passavam informações privilegiadas para escritórios de consultoria. Esses escritórios, muitos dos quais tinham os próprios conselheiros como acionistas, procuravam empresas multadas pela Receita Federal e, mediante pagamento de propina, prometiam manipular o andamento de processos para anular ou reduzir as multas aplicadas. A investigação já comprovou prejuízos de R$ 6 bilhões aos cofres públicos, mas a suspeita é de que a fraude possa ultrapassar R$ 19 bilhões.

Banco Julius Baer entregou contas atribuídas a Cunha

Por Graciliano Rocha | Via FSP

O banco Julius Baer informou às autoridades suíças que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e seus familiares figuram como beneficiários finais de contas secretas onde estão depositados US$ 2,4 milhões (R$ 9,3 milhões). O dinheiro está bloqueado.

Os ativos em dólares e francos suíços estão aplicados em fundos de investimento, por meio de quatro contas abertas em nome de empresas offshore –firmas de fachada baseadas em paraísos fiscais. Uma das contas foi aberta em 2008.

Segundo informações fornecidas pelo banco às autoridades suíças, os beneficiários finais são o próprio Cunha, sua mulher, a jornalista Cláudia Cordeiro Cruz, e uma das filhas do deputado. Ainda não está claro se era o próprio deputado quem movimentava as contas ou se isso ocorria por meio de procuradores.

O valor é menor do que o mencionado pelo delator Julio Camargo, que afirmou ter pagado US$ 5 milhões ao peemedebista como propina em um contrato de navios-sondas para a Petrobras.

Pesa ainda contra Cunha o depoimento do lobista ligado ao PMDB João Augusto Henriques, que disse ter feito depósitos em uma conta pertencente ao deputado no exterior.

O dinheiro depositado no Julius Baer não aparece no imposto de renda do peemedebista, que tem negado reiteradamente ser o dono de contas no exterior.

Os recursos estão bloqueados desde abril, após o próprio banco ter reportado as suspeitas de origem ilícita do dinheiro ao escritório do procurador-geral da Suíça, Michael Lauber. O Ministério Público do país europeu instaurou um inquérito contra Cunha por suspeita de corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

Cunha foi informado sobre o bloqueio dos valores, segundo a Procuradoria suíça. Além dos extratos bancários, o Julius Baer entregou às autoridades de Berna a documentação completa de abertura das contas –como formulários preenchidos e assinados, cópias de documentos e comprovantes de endereço dos beneficiários finais.

Todo este material está em um DVD enviado a Brasília, junto a um relatório da investigação conduzida pela equipe de Lauber e uma cópia dos ofícios trocados pelos procuradores brasileiros e suíços sobre a transferência do inquérito para o Brasil.

Para evitar risco de nulidade no compartilhamento de provas, a Procuradoria suíça enviou o material por malote diplomático, evitando o caminho habitual de cooperação, que seria o envio pelo correio ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça.

Após chegar ao Ministério da Justiça, o material foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República no final da tarde desta quarta (7).

O Julius Baer foi um dos bancos por onde foi escoada parte dos recursos desviados da Petrobras. Dois ex-executivos da diretoria Internacional da estatal –o ex-diretor Jorge Zelada e o ex-gerente Eduardo Musa– mantinham contas secretas na instituição.

PALAVRA FINAL

Em depoimento de delação premiada, Musa afirmou que Cunha tinha a palavra final na indicação de nomes para a diretoria Internacional, que era controlada pelo PMDB.

Ao alertar os procuradores sobre as contas atribuídas a Cunha, o Julius Baer cumpriu uma lei suíça que obriga os bancos não só a identificar o beneficiário final de toda conta secreta em nome de empresas offshore, como a reportar às autoridades movimentações de clientes que possam ter origem ilegal.

A análise dos dados bancários vai determinar se as evidências serão anexadas a um dos inquéritos que correm no Supremo Tribunal Federal contra Cunha ou se haverá a abertura de nova investigação sobre evasão de divisas.

Em agosto, ele foi acusado por corrupção e lavagem de dinheiro em caso relacionado ao esquema de corrupção na Petrobras, mas o STF ainda não decidiu se acolhe a denúncia.

Somos milhões de Cunhas

Por Izaías Almada | Via Blog da Boitempo

Penso que há bons anos não via uma frase sintetizar tão bem o estágio político e civilizacional de boa parte da sociedade brasileira. A faixa estendida durante uma das últimas manifestações contra o governo, mirando alvo esquerdista – mais especificamente os governos do ex-presidente Lula, da atual presidente e o Partido dos Trabalhadores – foi de uma precisão mais que cirúrgica, e porque não dizer profética, sobre as entranhas de um país que, desde a sua colonização, continua a se revelar perverso, covarde e hipócrita. Atirou no que viu e acertou no que não viu. A cordialidade brasileira é um mito para inglês ver.

E não adianta alguém dizer que estou generalizando, que é um exagero, porque é exatamente isto o que estou fazendo: generalizando. Chega de bom mocismo, hipocrisia e do jogo do faz de conta. O vandalismo e as frases excretadas em folhetos atirados no funeral de ex-presidente da Petrobrás José Eduardo Dutra há poucos dias não me deixam mentir.

Saímos das margens da ditadura de fato para nadarmos até a outra margem, a da democracia consentida, feita de uma justiça mais do que cega e de discursos ocos de justiça social. De análises feitas em cima da perna e de uma inacreditável esperança de “união do país” pela democracia, dos lugares comuns como “o Brasil é maior que a crise que enfrenta” e coisas do gênero.

Somos uma mistura de cidadãos como o “Marrudo” e um pouco como o Ernesto, fiscal da prefeitura. Querem ver?

01 – Marrudo, cujo nome verdadeiro ninguém sabia ao certo, era exímio caranguejeiro. Tão exímio que, na sua última proeza, conseguiu esconder numa velha garagem da zona norte da cidade um Nissan Sentra, ano 2014, sem que os vizinhos dessem por isso. Esperou três meses para tirar o carro da garagem, tendo tomado o cuidado de trocar-lhe as placas. Por experiência própria e até por discretos contatos em delegacias de bairros sabia ser três meses o tempo mais do que suficiente para o dono do veículo surrupiado receber o dinheiro do seguro.

No dia de estrear o novo carrão, Marrudo acordou cedo, engoliu o café às pressas e foi até a papelaria comprar o adesivo especial que escolhera para colocar no vidro traseiro do carro. Aí pelas dez e meia da matina, com o coração palpitando, ligou a máquina, abriu a porta da garagem com cuidado e saiu sem muito estardalhaço de casa. No vidro de trás o adesivo vistoso refletia a confiança e a fé de seu novo dono: PRESENTE DE DEUS.

02 – Tão logo se aposentou, o “seu” Napoleão, com a ajuda da mulher Diná, montou a sonhada lojinha de doces e salgados para os lados de Vila Formosa, onde a máquina de fazer café, novinha em folha, era o orgulho dos donos. Inaugurada a lojinha, a freguesia foi aparecendo, inclusive o fiscal da prefeitura, de nome Ernesto, há trinta anos como fiscal, servindo a vários partidos de diferentes prefeitos. Passou para ver “se estava tudo em ordem”. E estava.

Para não perder a viagem, o tal Ernesto, pediu uma “contribuição” para a inspeção feita, no que foi logo contestado pelo dono. Com jeito o fiscal encontrou logo a maneira delicada de dizer que, se não recebesse a contribuição, viria alguém para aplicar uma multa ao estabelecimento. “Nós, os fiscais, somos uma família há muitos anos e dessa o senhor não escapa”, sentenciou. E saiu porta afora. Dona Diná, que ouvira a conversa, sentou-se ao lado do marido e desabafou: “é isso aí, só podia ser com um prefeito do PT… Tudo ladrão”.

Perceberam, não, irmãos? Que tal orar num templo de seiscentos milhões de reais, ou até em outro mais simples, bater no peito e levantar as mãos para os céus? Apontar o dedo para a corrupção alheia e fazer aquela carinha “de não tenho nada a ver com isso”. Ou de “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Como alguns milhões de outros brasileiros que se têm na conta de bem informados, Marrudo, “seu” Napoleão e dona Diná, adoram a novela das oito e o Jornal Nacional. O Faustão, o Fantástico, o BBB… Mas vamos adiante.

03 – A senadora Marta Suplicy, descontente com o rumo tomado pelo Partido dos Trabalhadores ingressa no PMDB e em solenidade no Congresso, ao lado dos presidentes das duas casas legislativas, ambos do PMDB, afirma que irá combater firmemente a corrupção no país. Nada como a coerência, a abnegação e a convicção ideológica da maioria dos nossos representantes no Congresso Nacional. No caso, a luta de classes um dia acabaria vindo à tona.

04 – Jurandir, que graças ao hábito de só ir para a cama por volta das três da madruga depois de umas latinhas de cerveja, ganhara o carinhoso apelido de “vigilante noturno”.

Considerava Fernandão seu melhor amigo, desde que este lhe proporcionara ir trabalhar como free-lance numa produtora de filmes publicitários. Fernandão era um entre vários produtores da Cosmopolitan Filmes e Vídeos Ltda., encarregado, entre outras tarefas, de conseguir locais para filmagens e contratação de modelos. Várias vezes fora aconselhado a abrir sua própria firma para dar notas fiscais de seus cachês. Teimoso, Jurandir disse que comprava suas notas e não queria complicações com contadores. Resolvia tudo o mais rápido possível. Como muitos à sua volta o Fernandão gostava de dizer: “pagar imposto para que? Não ganho nada com isso e os políticos é que metem a mão na grana…”.

A senhora Marta Suplicy, veterana política e sexóloga paulista, e o Fernandão sabem onde metem os bedelhos, com certeza. Sempre ao lado do bem, a senadora não iria trocar de partido se não soubesse que a troca continuaria a lhe granjear louvores pelos seus esforços contra a corrupção, os chamados desvios do seu antigo partido. Afinal, nem todo dinheiro enviado para a Suíça poderá ser considerado um dinheiro “sujo”.

Sob “certos aspectos”, grande parte da elite econômica brasileira já introjetou na sociedade, através de seus principais porta-vozes na imprensa, e isso desde o final do império pelo menos, que existe uma “corrupção do bem” e uma “corrupção do mal”. E, portanto, transferir conceitos para frases como “bandido bom é bandido morto” para “petista bom é petista morto” é apenas uma questão de tempo e loquacidade. Impressiona, sobremaneira, o silêncio do Ministério da Justiça.

Natural que se construísse também no país uma “justiça para o bem” e outra “justiça para o mal”. Justiça para o bem é aquela que solta ‘habeas corpus’ em 48 horas para meliantes de gravata Hermés, que deixa nas gavetas do judiciário alguns processos que irão prescrever num prazo previsto e favorecerão construtores de aeroportos em causa própria, mas com dinheiro público. Justiça que partidariza a própria justiça e, nos últimos anos, transformou o STF num anfiteatro de peças e shows, alguns deles impróprios a menores de idade, deixando de lado a discrição com a qual devem se comportar os mais altos magistrados da nação. Já não tão altos assim, é verdade… Justiça para o bem é essa que tem a qualidade moral do governador de São Paulo que torna secretos por 25 anos os documentos do ‘metrolão’ paulista. Documentos secretos de uma obra pública? Estranho, não?

Justiça para o mal é aquela que vê – além de negros, pobres, nordestinos e algumas minorias – comunistas e petistas para todos os lados. Ou bolivarianos, como gostam de dizer alguns que não entendem nada de bolivarianismo. Justiça para o mal é aquela que permite a um delegado da PF (não confundir com Prato Feito) abrir processo contra uma faxineira que comeu um de seus bombons sem autorização. É aquela justiça que prende petistas por “ouvir dizer”, julga-os e os condena mesmo sem provas, mas não investiga bandidos com contas secretas na Suíça, por exemplo.  Ou o Banestado, ou Furnas, ou a Privataria, ou, ou, ou… Que não vê nada de mais em juízes relatarem e julgarem processos em que têm interesses pessoais em jogo.

E assim caminha o Brasil nesse já quase final do ano de 2015. Entre a irresponsabilidade política da direita, esse ajuntamento de intolerantes que resolveu achincalhar com a constituição do país em nome de uma democracia que ninguém sabe qual é, e a inabilidade da esquerda, até o momento, para enfrentar essa intolerância e os desatinos que se cometem diariamente. Desatinos de um moralismo que nada mais faz do que tentar esconder os dejetos mal cheirosos da desigualdade social que já dura entre nós há mais de quinhentos anos.

É verdade: somos milhões de Cunhas. Pena que a maioria de nós não tenha contas na Suíça ou outros paraísos fiscais, não é mesmo?

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mimO medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968.

Zelotes suspeita de repasse de R$ 1,8 mi a Augusto Nardes

Por André Barrocal | Via Carta Capital

Sigilo bancário, telefonemas e e-mails de empresa investigada apontam ministro do TCU beneficiado em anulação fraudulenta de dívida fiscal da RBS.

O ministro do TCU, Augusto Nardes, nega qualquer participação em esquema de corrupção no Carf. Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A acusação de violar a Lei Orgânica da Magistratura na condução do exame das contas de 2014 do governo Dilma Rousseff não é a única razão para o ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU), preocupar-se por estes dias. O avanço da Operação Zelotes reforça as suspeitas de envolvimento dele com o esquema fraudulento de anulação de dívidas fiscais.

No material já recolhido durante as investigações, há indícios a apontar Nardes como destinatário de pagamentos de aproximadamente 1,8 milhões de reais, divididos em três parcelas de cerca de 600 mil reais cada. Os pagamentos são suspeitos por terem na origem uma das principais empresas investigadas, a SGR Consultoria.

As desconfianças sobre Nardes amparam-se em informações obtidas a partir da quebra de sigilo bancário da SGR, de anotações encontradas em escritórios da empresa e de interceptações de telefonemas e e-mails de investigados.

Em alguns telefonemas e e-mails, por exemplo, uma funcionária da SGR tida como responsável por distribuir dinheiro ilícito, chamada Gigliane, recebe orientação para efetutar pagamentos ao “tio” e ao “Ju”. Nardes já foi sócio de um sobrinho advogado, Carlos Juliano Ribeiro Nardes, na empresa Planalto Soluções e Negócios. Os investigadores vêem ligações entre a SGR e a Planalto.

O repasse da SGR seria uma espécie de comissão paga a Nardes por ele colaborar de algum modo com um caso específico na mira da Operação Zelotes: o sumiço de 150 milhões de reais em dívidas da RBS, retransmissora da TV Globo no Rio Grande do Sul, terra do ministro do TCU. Nardes teria usado sua influência em Brasília e no seu antigo partido, o PP, para ajudar o grupo de comunicação.

O cancelamento dos débitos da RBS ocorreu no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), órgão do Ministério da Fazenda em que as fraudes apuradas pela Zelotes se materializavam. Em troca da anulação da dívida, a empresa teria pago 15 milhões de reais a uma série de pessoas. Entre estas, um ex-conselheiro do Carf e sócio da SGR, José Ricardo da Silva, o Zé Ricardo.

Silva e a SGR tinha papel-chave no esquema no Carf. Intermediavam os contatos entre conselheiros do Carf e empresas endividadas dispostas a subornar. E distribuiam o dinheiro entre as partes.

Nenhum cliente fez tantos pagamentos à consultoria quanto a RBS. É o que diz um relatório da Polícia Federal (PF) elaborado a partir da análise de 909 transações financeiras da SGR realizadas entre 2005 e 2013, um total de 115 milhões de reais.

Dos 15 milhões de reais que o grupo teria pago para se safar no Carf, 11,9 milhões foram para a SGR. Foi desta última quantia que a consultoria teria direcionado uma fatia cerca de 1,8 milhão a Nardes.

O ministro do TCU é de uma mesma pequena cidade gaúcha, Santo Ângelo, que um investigado na Operação Zelotes que acabou por virar delator. Paulo Roberto Cortez também já foi conselheiro do Carf e já trabalhou com Zé Ricardo, da SGR. Quando policiais federais e procuradores de Justiça saíram a campo pela segunda vez, em 3 de setembro, Santo Ângelo era um dos alvos.

Há quem veja possível ligação de Nardes com o esquema no Carf também por razões partidárias. Até ser nomeado ministro do TCU, ele era deputado federal pelo PP. A mira da Operação Zelotes já atingiu um conselheiro do Carf, Francisco Maurício Rebelo de Albuquerque e Silva, que é pai de um ex-líder do PP na Câmara dos Deputados, Dudu da Fonte.

CartaCapital procurou Augusto Nardes para pedir esclarecimentos sobre eventuais relações dele com a SGR, José Ricardo da Silva, a Planalto, Paulo Roberto Cortez e indicações de conselheiros do Carf. O ministro respondeu por e-mail.

Sobre a Planalto, disse “que se afastou da Planalto Soluções e Negócios em maio de 2005 e não recebeu nada proveniente ou relacionado a empresa”. Acrescentou ainda “que não participou de nenhuma atividade desta já que dela não mais participava de nenhuma forma”.

Sobre a escolha de conselheiros do Carf, Nardes afirmou que “não tem nem nunca teve qualquer participação seja por indicação ou quaisquer outras questões a isso relacionadas”.

Sobre a SGR, José Ricardo da Silva, o ministro não se pronunciou.

Sobre sua relação com Paulo Cortez, disse que “conheceu o mesmo quando morava em Santo Ângelo, por volta dos anos 80, há mais de 30 anos. Depois desse período não teve mais qualquer relação com o mesmo”.

O aparecimento do nome de Augusto Nardes na Operação Zelotes foi revelado em setembro por CartaCapital. O material sobre ele tem de ser enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF). Por ser ministro do TCU, Nardes só pode responder a eventuais processos criminais perante o STF. A juíza que cuida do caso na 10 Vara Federal de Brasília, Marianne Borre, volta de férias no dia 8.

A nova classe dos brasileiros que não podem viajar para o Exterior

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Cunha comemora presidência da Câmara: ia tudo bem até ir mal

Há hoje duas categorias de brasileiros: os que podem ir para o exterior e os demais.

José Maria Marin não sabia que pertencia à classe dos que não podem, e no momento em que você lê este artigo está numa prisão na Suíça.

Seu substituto na CBF sabe, e por isso você jamais vai vê-lo no aeroporto.

Eduardo Cunha também tem noção do lado em que se situa na divisão que tracei entre os brasileiros.

Por isso, se há pouco tempo comandou uma extravagante superviagem a Israel para demonstrar seu novo poder, agora sofre de fobia de aviãode rotas internacionais.

Acaba de desistir, com uma justificativa que não deve ter convencido nem aos fiéis de sua igreja, de ir para a Itália.

E se?

O Globo deu uma matéria sobre essa desistência aérea.

Ri sozinho ao lê-la.

Suspeito que os Marinhos também não tenham nenhuma pretensão de ir para fora tão cedo.

Considere o que aconteceu com um sócio deles numa afiliada, Jota Hawilla, hoje detido em solo americano com uma tornozeleira.

A Justiça americana está particularmente empenhada em punir roubalheira na FIFA. E as relações entre a Globo e a FIFA, sobretudo nos dias de Havelange na presidência, são antigas e deram muitos frutos, talvez nem todos imaculados.

E se?

O pânico de viagens é uma demonstração de como as coisas são ainda frágeis no Brasil.

Os aerofóbicos sabem que no território brasileiro tudo está dominado. Eles não têm medo de Moro, ou da PF, ou da Lava Jato.

Mas fora do solo brasileiro a história é outra.

Isso remete a um episódio clássico do jornalismo brasileiro.

Paulo Francis se colocou a caluniar diretores da Petrobras, que ele chamava de Petrossauro em sua obsessão thatcheriana.

Os caluniados fizeram o que tinham que fazer. Foram buscar Justiça. Mas não no Brasil, onde estava tudo sob controle para Francis e o grupo que ele representava.

Processaram-no nos Estados Unidos, porque ele fizera as acusações em solo americano, no programa Manhattan Connection.

A Justiça americana pediu provas a ele, e Francis não tinha nada além de sua garganta maledicente.

Na iminência de uma indenização milionária – lá se você é culpado de calúnia não vai pagar uma ninharia como no Brasil – ele se desesperou, e morreu de infarto.

No meio do caminho, FHC e Serra, então no poder, tentaram convencer os diretores da Petrobras a desistir do processo.

Mas, pelo menos ao que se saiba, nem FHC e nem Serra se atreveram a procurar autoridades americanas na busca por um jeitinho que salvasse Francis.

Muitos brasileiros se queixam, hoje, de que não podem ir ao exterior por causa do dólar alto.

É uma reclamação justa.

Mas é melhor não viajar por causa do dólar alto do que pela suspeita de que a polícia pode aparecer subitamente na sua frente em terras estrangeiras, como ocorreu com Marin.

Médicos sem Fronteiras exigem investigação detalhada do bombardeio pela aviação americana

Via Sputnik Brasil

A organização Médicos sem Fronteiras declarou que irá exigir que a Comissão Humanitária Internacional de Procura de Fatos faça uma investigação detalhada do ataque contra o hospital da organização em Kunduz, no norte do Afeganistão.

Esta declaração foi feita na manhã desta quarta-feira (7) pela presidente internacional da MSF, Joanne Liu, em entrevista coletiva que teve lugar em Genebra, na Suíça.

“Hoje, nós anunciamos estar procurando que seja realizada uma investigação do ataque de Kunduz pela Comissão Humanitária Internacional de Procura de Fatos. Esta comissão foi estabelecida pelos Protocolos Adicionais do Convênio de Genebra e constitui o único organismo criado especificamente para investigar violações do direito humanitário internacional”, disse Liu, que lembrou também que o organismo, criado oficialmente em 1991, ainda não começou a funcionar.

“[A Comissão] requer que um dos 76 Estados assinantes patrocine um inquérito. Até agora, os governos têm sido relutantes ou têm medo de estabelecer um precedente. A ferramenta existe e já está na hora de ser ativada”, frisou Liu.

Ontem (6), o general do Exército dos EUA John Campbell reconheceu que a aviação estadunidense tinha assestado um golpe aéreo contra o hospital, onde estavam trabalhando médicos e enfermeiros, inclusive na sala de operações. Segundo Campbell, tratou-se de um “erro”, já que supostamente havia informações sobre a presença de militantes do Talibã no território do hospital.

Presidente internacional de #MSF pede #InvestigaçãoIndependente sobre ataque que destruiu hospital em #Kunduzhttp://t.co/yEOkyoSrNb

— MédicosSemFronteiras (@MSF_brasil) 6 октября 2015

A presidente do Centro de Operações do MSF em Bruxelas, Meini Nikolai, negou na terça-feira, em conversa com a Sputnik, que houvesse qualquer tipo de militantes ou pessoas estranhas no hospital antes, durante ou depois do ataque.

1/2 MSF seeks investigation into the #Kunduz attack by the International Humanitarian Fact-Finding Commission. #IndependentInvestigation

— MSF International (@MSF) 7 октября 2015

2/2 Signatory States need to activate Commission to reassert protected status of hospitals in conflict. #IndependentInvestigation #Kunduz

— MSF International (@MSF) 7 октября 2015