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Cientistas articulam análises autônomas sobre o desastre de Mariana

Via Zero Hora

Cientistas brasileiros estão se organizando, voluntariamente, para fazer uma avaliação independente do impacto ambiental causado pelo rompimento das barragens de Mariana, em Minas Gerais. Muitos deles se deslocaram para os locais atingidos e estão coletando dados e amostras para análises. Uma iniciativa de crowdfunding foi lançada para financiar os estudos e a elaboração de relatórios.

“Considerando que este é um dos maiores desastres ambientais sofridos pelo Brasil, envolvendo rios e as populações à sua volta, abrangendo vários municípios, que as posturas das instituições públicas são vagas e o poder econômico dos envolvidos, é de extrema importância que exista um relatório independente e isento”, diz a proposta de crowdfunding na internet, que visa a arrecadar R$ 50 mil. “O relatório final será de domínio público, constituindo-se em ferramenta para que o desastre não fique impune”, acrescenta a mensagem.

A iniciativa partiu do biólogo Dante Pavan, especialista em répteis e anfíbios, formado pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), e é coordenada por Viviane Schuch, microbióloga e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo o biólogo Alexandre Martensen, muitos profissionais já estão em campo com recursos próprios.

— Por meio do Facebook, houve a organização das equipes, de forma a se otimizar as coletas de amostras de água e sedimentos. Algumas coletas foram realizadas antes da chegada da lama, e outras estão sendo feitas agora, após a chegada”, disse Martensen.

— Nosso objetivo é conseguir parcerias com laboratórios para que sejam feitas análises de metais pesados, poluentes e de metagenômica. Muitos laboratórios de dentro e de fora do Brasil já demonstraram interesse, até porque existe um claro apelo científico — disse Martensen, que participa da iniciativa online, da Universidade de Toronto, onde faz seu doutorado.

Destruição generalizada

Os relatos daqueles que estão no campo são de um cenário de destruição generalizada, que deixará impactos de longo prazo no Rio Doce. Muitos rios por onde a onda de lama passou foram totalmente soterrados ou severamente assoreados, comprometendo todo o ecossistema, e os impactos deverão chegar ao ambiente marinho.

A Verdadeira Ponte para o Futuro

Por Roberto Requião | Via Carta Maior

A nossa ação agora deve ser canalizada para construirmos um novo Projeto Nacional Autêntico. Ele será a verdadeira ‘Ponte para o Futuro’.

O recém-publicado documento da Fundação Ulysses Guimarães “Uma ponte para o futuro” faz lembrar o clássico romance do escritor siciliano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, il gattopardo, o Leopardo, em português. O tema da obra é a decadência da aristocracia siciliana durante o Risorgimento, a Unificação Italiana conduzida pela luta popular sob a bandeira de um Estado republicano moderno.

A velha e decadente nobreza siciliana não queria saber de mudança. Porém, os ventos revolucionários não podem ser barrados.  Mas podem ser desviados, através de uma mudança controlada. O Príncipe de Falconeri resume essa estratégia em sua assertiva que virou um clássico:

“A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, o povo nos submeterá à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude. ”

Sabemos que o sistema político da Nova República se estabilizou através de uma dicotomia entre PT X PSDB. Essa dicotomia manteve forças progressistas e populares entretidas primeiro na esperança da eleição do PT, depois nos avanços sociais que o PT veio construindo aos poucos. Esse modelo entrou em parafuso com o PT liderando um ajuste fiscal absolutamente antissocial. Em reação, o PSDB ficou inicialmente atônito entre a crítica incoerente e o aplauso com sorriso amarelo. Depois, passou a pedir ainda mais arrocho pelo governo, supostamente revoltado contra a timidez, a desfaçatez ou a suposta falta de convicções do governo em relação ao ajuste. Enfim, o PSDB ficou perdido.

Mais atônito está povo, que depositava suas esperanças na atenção que o PT dava ao social, ainda que há muito já havia percebido que era falsa a dicotomia PT/PSDB na questão da regulação do sistema financeiro e da política macroeconômica. Na prática, para ambos, os juros indecentes foi o primeiro mandamento. Dilma até se esforçou para reduzi-lo, mas por não conscientizar o povo sobre isso e por não mexer na estrutura do Tripé Macroeconômico (câmbio flutuante e metas de inflação e superávit primário), que alimenta os juros altos, não teve força para manter a iniciativa.

Sobre as regras de gestão da macroeconomia criadas por FHC, nenhum grande partido ousa levantar dúvidas. É um tabu. Um silêncio total. Uma unanimidade burra. @

No ano passado, os candidatos do PSB à presidência, que era a grande “novidade” das eleições, passaram meses falando que a dicotomia PT/PSDB era falsa e mantinha o país na mesmice e que eles queriam ser a alternativa a isso. Eles seriam o veículo da mudança. Porém, quando todo mundo tinha entendido que eles seriam “o novo”, eles passaram a afirmar que o Brasil deveria louvar e respeitar o Tripé das regras macroeconômicas de FHC com ainda maior afinco. Apesar de o PT e de o PSDB nunca terem deixado de segui-lo e muito menos de louvá-lo.

O que me deixa impressionado é que os candidatos do PSB repetiam supostas vantagens desse modelo como se fosse uma grande novidade, e não algo já aborrecidamente repetido pelos jornais, economistas e políticos há mais de 15 anos. Paradoxalmente, todos os candidatos – exceto Luciana do PSOL e Mauro Iasi do PCB – faziam o mesmo, louvando o Tripé como se isso fosse inédito e seu grande diferencial. Impressiona-me que candidatos ditos “nanicos”, que tinham finalmente a grande chance de suas vidas para serem conhecidos por todos os brasileiros e usar isso para falar algo diferente que justificasse sua candidatura alternativa, se esmerassem para usar seus minutos de fama para repetir a mesma cantilena neoliberal.

Isso já havia acontecido em eleições anteriores. Hoje é um jogo que não tem credibilidade. O velho barbudo disse que a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa. Depois que o PT se rendeu à unanimidade do Tripé e agora, pior, ao ajuste draconiano a la grega, ninguém mais acredita nas convicções que os partidos alegam ter e nem na inocência daqueles que se dizem grandes adversários para depois concordarem no essencial.

Recentemente, o senador Cristovam Buarque insinuou sua pré-candidatura à Presidência da República, dizendo-se cansado da dicotomia entre PT e PSDB. Não me lembro, porém, de que ele tenha se colocado em oposição ao Tripé, justamente o maior ponto de consenso entre PT e PSDB.

Todos os políticos criticam os juros elevados do Brasil, mas não lembro de um parlamentar ou chefe do Poder Executivo que, como eu, critique abertamente o Tripé como instrumento, o labirinto, que mantém os juros brasileiros como os maiores do mundo.

A grande maioria ou se cala ou rende homenagens a Mamon, através de elogios ao santificado Tripé. Porém, é a necessidade desesperada de reiterar “devoção cega” ao Tripé que está levando a economia brasileira à pior recessão em sua história, enquanto a maior parte do mundo está se recuperando da crise econômica.

No meio dessa crise, a Fundação Ulysses Guimarães, do PMDB, lança com grande destaque um novo documento, “Uma ponte para o futuro”, dando a entender que tem uma solução inovadora para os problemas do Brasil. O documento vem sendo saudado por flamantes discursos convocando à superação da “falsa dicotomia” PT x PSDB, repetindo o que já tinham dito os candidatos do PSB, Rede e PDT.

A princípio me animou a ideia de que o PMDB novamente se dedicaria a propor um caminho para o país. Imaginem minha decepção ao ler o documento. É apenas uma cópia de um conjunto de medidas repetidamente exigidas pelo setor financeiro, “o mercado”, e que ainda não foram satisfeitas no governo do PT. É a mesma cansativa e monótona oferta de quase todos os partidos e políticos aos interesses da banca e dos rentistas. O documento é “lampedusiano”. Ou seja, simula mudar alguma coisa para que tudo fique como está.

Parece que os bancos viraram os únicos eleitores no Brasil e todos devem se esmerar em agradá-los repetindo o mesmo ritual de submissão a seus interesses, enquanto criam novas fachadas para desviar a atenção do povo.

Mas isso acontece no mundo inteiro hoje. Na Grécia aconteceu o mesmo. A diferença é que lá o objeto de adoração a Mamon não é o Tripé. Lá é o euro e a Troika. Quando a Grécia entrou em crise, os partidos tradicionais de centro e direita se uniram para fazer o ajuste fiscal mais regressivo da história do país.

Não deu certo, a economia afundou e o desemprego alcançou recordes. O povo se revoltou e votou na esquerda tradicional, o partido socialista grego, PASOK, que prometia fazer um ajuste com maior cuidado com o social. Eleitos fizeram o contrário, foram ainda mais antissociais que a velha direita grega. O resultado foi ainda pior. A dívida que os remédios dos diversos pacotes tentavam curar só crescia, enquanto os efeitos colaterais matavam o povo grego. Foram cinco pacotes.

Até que o povo grego farto da enganação vota em um jovem, Tsipras, de um partido de extrema esquerda, o SYRIZA, criado e eleito exatamente para impedir que o país continuasse se submetendo aos mesmos pacotes que prometiam acabar com o ajuste fiscal e enfrentar a Troika. Depois de seis meses de negociação, ele se rende e lança um novo pacote para esmagar ainda mais o povo grego no “moinho de carne” do arrocho fiscal e social, na esperança de que o pouco sangue que ainda restava pudesse satisfazer os insaciáveis credores.

O que resta ao povo grego? Que esperanças pode ter o povo grego na chamada democracia? Ou melhor, o que resta no nosso modelo político de democracia, no sentido original criado pelos mesmos gregos há mais de dois mil anos, se as imposições do interesse do setor financeiro jamais podem ser contestadas?

Eu tenho esperança, eu ainda conto com a mudança. O povo está vendo essas manobras e não está gostando. Daí, a crise. Crise é a decadência do velho e a possibilidade de ascensão do novo. As crises são pródigas em oportunidades de mudanças. Nelas, a mudança não parece mais impossível.

Mas essa não é apenas uma crise econômica e de submissão do sistema político ao interesse de apenas um setor, o financeiro. Estamos vivendo também uma crise de impaciência do povo com relação à corrupção. A decadência da Nova República, que substituiu o regime militar salta aos olhos. Não sabemos o que pode resultar disso. Pode ser um regime autoritário, pois o que vemos em grande parte da oposição à Presidente são chamamentos a golpismos dos mais diversos, desde militares, a judiciais, passando por golpes contábil-fiscais e exaltações fascistas. Esse golpismo permanente me lembra a velha ameaça de Carlos Lacerda a Getúlio Vargas. Carlos Lacerda dizia antes das eleições que consagraram Getúlio:

“O Sr. Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.”

É visível que estão recorrendo ao mesmo expediente. Isso significa que esse tipo de oposição já não mais respeita as regras democráticas instituídas na Nova República.

Gostaria assim de buscar nas origens da Nova República elementos para entender como poderemos superar essa crise. A Nova República foi plenamente instituída com a Constituição de 88. Os fundamentos dessa Constituição foram primeiramente organizados em um documento do PMDB, publicado seis anos antes no meio da crise da dívida externa brasileira. O documento chama-se “Esperança e Mudança”. Esse foi o programa que deu alma ao PMDB por mais de uma década. Ele se baseava em três pilares que foram incorporados na Constituição de 88:

  1. Um regime legal altamente voltado à preservação dos direitos civis, sociais e trabalhistas

  2. Uma organização do Estado que visava controlar o poder do Executivo através de um Judiciário, Legislativo e até mesmo um Ministério Público muito fortalecidos e completamente autônomos.

  3. Um regime de intervenção econômica claramente nacional-desenvolvimentista orientado para a industrialização, a preservação do emprego e dos salários e serviços públicos voltados ao interesse da população e não dos lucros.

A Constituição foi elaborada e promulgada sob a liderança do presidente PMDB, Ulysses Guimarães, tendo o PMDB como principal base de apoio e seu programa “Esperança e Mudança” como principal fonte de inspiração. Todavia, foi promulgada no apagar das luzes de uma conturbada fase de transição entre a época de ouro do capitalismo que termina em 1973 e a Era da Globalização, que se inicia nos anos 90 do século XX.

Nos anos 90, vivemos uma avalanche neoliberal, antissocial e antinacional, em total antagonismo com a Constituição de 88. Destruí-la passou a ser um dos grandes objetivos das forças que apoiavam o neoliberalismo. Desde então, a Constituição recebeu safras anuais de emendas. Primeiro, no governo FHC, buscou-se destruir os fundamentos nacionais-desenvolvimentistas, como o conceito de “empresa nacional”, o controle nacional sobre a produção mineral, os impostos sobre as exportações de commodities, o monopólio do petróleo e diversas medidas que se opunham ao controle do Estado sobre os setores estratégicos e sobre a oferta de serviços públicos.

Depois passaram a atacar os princípios sociais da Constituição. Os direitos de aposentadoria, a destinação de recursos para saúde e educação através da DRU, entre outros. Mas, ao contrário dos que aconteceu princípios aos nacional-desenvolvimentistas, na área social o avanço dos neoliberais foi pequeno até 2015. Isso acontece porque a sociedade brasileira, os partidos de esquerda, as alas populares dos vários partidos e o governo do PT sempre se opuseram à maioria das propostas de emendas constitucionais que visavam a perda de direitos sociais, trabalhistas e da atenção especial que a saúde e a educação recebem de nossa Constituição.

Porém, em 2015 tudo mudou. Ao trair suas promessas de campanha, ao se entregar a um ajuste fiscal neoliberal e ao aumento dos juros que ela mesma havia combatido de coração valente, Dilma perdeu o discurso, o controle da agenda política e a popularidade. Seus adversários na imprensa e no Congresso se aproveitaram disso para tentar toda sorte de golpismos que pudessem ser usados para encurralar o governo.

Aproveitando a fragilidade do governo do PT e a perda de afinidade deste com os setores sociais progressistas e a instabilidade política, os partidos e políticos que querem bajular o todo poderoso setor financeiro, descobriram que não é mais suficiente apenas oferecer o Tripé e os juros mais altos do mundo. A moda agora é levar como oferenda a Mamon todas as conquistas sociais da Constituição Cidadã.

Para isso contam com o providencial apoio do verdadeiro equívoco dos nossos constituintes: o Executivo frágil que leva à instabilidade política. Essa tendência decorre do desequilíbrio entre responsabilidade e poder em nossa Constituição. Nela, quase toda responsabilidade recai sobre o Executivo. Porém, se comparado à responsabilidade e ao ônus pelos próprios erros, há excesso de poder no Judiciário, no Ministério Público e até na Polícia Federal em relação ao comando do Executivo.  Para complicar, o governo do PT, o Congresso, e o STF e o TSE aprovaram leis, práticas e interpretações que reforçaram essa tendência à instabilidade dando mais poder aos órgãos já carentes de responsabilidade.

O mesmo aconteceu em relação à imprensa, que se tornou o maior poder da República. A imprensa assim se tornou o “Poder Moderador” que seria o fiel da balança na condução do processo político. Elegeu e derrubou o Collor, elegeu e garantiu a estabilidade política no governo FHC. Porém, manteve o governo Lula e Dilma sobre crescente pressão. Ao invés de moderar a instabilidade, a acentuou. Não conseguiu derrubar o Presidente Lula, porque – além da incrível capacidade de comunicação, articulação e de atender ao setor financeiro – ele teve a grande sorte de suceder um governo extremamente impopular e infeliz e pôde contar com inédita expansão dos preços internacionais das principais matérias-primas exportadas pelo Brasil.

Dilma não pôde contar com nada disso. Ela começou o primeiro governo sobre uma fortaleza de popularidade e prosperidade. A fortaleza foi corroída em razão dos próprios erros e da tendência do nosso modelo político à instabilidade política.

Considerando esses fatores, chegamos a essa aparente crise terminal da Nova República. Agora, as principais forças políticas radicalizam o neoliberalismo para bajular os setores mais poderosos da sociedade, buscando esgotar o resto de reserva dos princípios de estabilidade social, econômica e política que ainda sobrou da Constituição Cidadã. Se fizermos isso destruiremos o resto de credibilidade que tem o sistema democrático em que vivemos com sérios riscos de o país descambar para a guerra civil. Ou seja, nem esperança nem mudança.

Não é por aí. Façamos o que o PMDB fez em 1982 com o programa “Esperança e Mudança”. À época, o Partido usou a crise terminal do regime militar para pensar um Projeto Nacional Democrático construído com apoio de todas as bases partidárias e realmente focado no interesse do povo brasileiro. Agora a atarefa que a história nos impõe é apontar um caminho para a mobilização nacional em torno de um projeto que supere a crise econômica, política e ética e aponte para um novo tempo de desenvolvimento, democracia e inclusão social.

Eu proponho começarmos a reflexão exatamente sobre o “Esperança e Mudança”, para entendermos o que foi implementando, o que deu certo, o que não deu, o que está atual, o que não está. Eu acredito que tem algo que nunca foi verdadeiramente implementado no “Esperança e Mudança”: a reflexão aprofundada sobre o Caráter Nacional Brasileiro. A Alma Brasileira deve ser uma inspiração para ação coletiva do Estado em prol da construção de uma Nação que pode ser um modelo e um caminho para uma humanidade. Depois que superarmos definitivamente a desigualdade e a pobreza, nossa Pátria pacífica, mestiça e calorosa será uma luz para guiar a humanidade para longe das trevas da intolerância, das guerras, da indiferença, da falta de solidariedade e do preconceito.

Com muita tristeza temos que admitir a morte do Rio Doce. A crise ambiental e climática já mobiliza as Nações. A crise política e econômica turva as nossas perspectivas de futuro. A intolerância religiosa, o terrorismo e a profusão de conflitos militares parecem estar conduzindo o mundo para uma grande guerra. Tudo isso traz medo e indignação. Precisamos usar essa indignação como combustível da nossa ação. E a nossa ação agora deve ser canalizada para construirmos um novo Projeto Nacional Autêntico. Ele será a verdadeira “Ponte para o Futuro”. Para tal, deverá ser construída com reflexão democrática, participação e dialogo abertos. Proponho ao PMDB e a todos que quiserem contribuir nos lançarmos nessa empreitada com o coração aberto e a esperança renovada para a verdadeira mudança.

Vamos resgatar o orgulho de ser brasileiro!

Termômetro da conjuntura política #10

Por Rennan Martins | Vila Velha, 16/11/2015

REUTERS/Christian Hartmann

Timing. Terrorismo está longe de ser loucura, menos ainda uma batalha entre a “democracia” e a “tirania”. Há interesses geopolíticos concretos por trás do fenômeno. Neste sentido, atentemos para as observações do professor Michel Chossudovsky, editor do excelente portal canadense, Global Research. Reporta ele que (1) há mais de um mês a imprensa francesa vinha alertando para a possibilidade de um ataque terrorista sem precedentes, (2) que duas semanas antes dos atentados em Paris ocorreu uma reunião dos chefes dos serviços de inteligência francês e norte-americano, (3) que no último dia cinco o governo francês anunciou que enviaria o porta-aviões Charles de Gaulle para o Oriente Médio, e (4) que na manhã do dia treze houve um grande treinamento de articulação entre policiais, bombeiros e serviços médicos onde simularam uma situação de emergência envolvendo múltiplos atentados. Coincidência ou não, o timing é de fato intrigante e o acontecido legitima a agenda de Paris para a Síria. A possibilidade de uma operação de falsa bandeira não pode ser descartada.

Diversionismo. Os terríveis acontecimentos da última sexta não podem servir, como pretende nossa imprensa servil e o poder econômico que a coopta, como cortina de fumaça para o desastre de Mariana, que não se trata de acidente, visto que no mínimo houve negligência quanto a sustentação das barragens de rejeitos da Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton. Os prejuízos humanos e ambientais são incalculáveis e nem se vendidas fossem as empresas para pagá-lo, ainda assim não seriam cobertos. Uma empresa privada de mineração tem contradições insolúveis com a segurança ambiental, visto que precisa cortar custos ao máximo para distribuir gordos dividendos a acionistas que muitas vezes nem moram no país do empreendimento. É hora de discutir com seriedade a reestatização da Vale, pois somente o controle democrático fará com que ela siga os preceitos de segurança, explorando os recursos naturais na medida do interesse nacional e em prol da população.

Racha. Enquanto vários sindicatos seguiram a orientação da FUP para encerrar a greve dos petroleiros que adentra hoje seu décimo quinto dia, outros contrariaram a diretriz, optando pela continuação. O Sindipetro Norte Fluminense, o Sindipetro Caxias e os funcionários da Refinaria de Duque de Caxias se destacam entre os resistentes grevistas. A discordância está na questão do pagamento referente aos dias parados. Enquanto o acordo atual prevê que somente metade deles serão pagos, os sindicalistas exigem cobertura integral. Neste ínterim, parece que a importante pauta de combate aos desinvestimentos e venda da Gaspetro e BR Distribuidora foram esquecidos.

Meia dúzia. Diversas matérias dão conta da forte campanha entre petistas, empresários e setores do PMDB pela substituição do atual ministro da Fazenda, Joaquim Levy, pelo ex-presidente do Banco Central e BankBoston, Henrique Meirelles. Ora, é sabido da ortodoxia tanto de um quanto do outro, quando justamente o que necessitamos é submeter o capital financeiro. É este tipo de campanha que deixa cada dia mais evidente que o PT foi tragado e submetido pelo sistema, assim como os socialistas europeus. Não representam alternativa real ao arrocho e destruição neoliberal.

Sem jeito. A incapacidade de autocrítica e ensimesmamento petista chega a níveis tragicômicos. Na semana passada este articulista publicou uma réplica ao sociólogo Emir Sader em que basicamente peço que ele deixe de propagar besteiras como governos “pós-neoliberais”. Pois bem, ontem tivemos um episódio ainda mais curioso. A jornalista e escritora Míriam Moraes, famosa nas redes – e alinhadíssima a Dilma – conseguiu defender a permanência de Joaquim Levy na Fazenda sob o argumento de que se trata do princípio brizolista de que se a Globo é contra, somos a favor. Dois erros crassos em somente uma nota. Primeiro que Brizola jamais defenderia alguém como Levy para administrar nossa economia, segundo que a Globo está longe de fazer oposição a sua gestão, querendo no máximo trocá-lo por alguém ainda mais fundamentalista de mercado.

Avestruz. O veto a possibilidade de resposta audiovisual ao Direito de Resposta, projeto sancionado semana passada e de autoria do senador Requião, significa mais outra concessão gratuita e sem contrapartida que o governo deu a esta imprensa cartelizada, panfletária e desonesta. A tática do governo Dilma consiste basicamente na mesma do avestruz. Enterra a cabeça num buraco e fica quieto, acatando as exigências dos seus inimigos e torcendo pra que tudo passe. Se nesse meio tempo o país vier abaixo, paciência.

Insustentável. Estadão informa que no mínimo cinco dos onze ministros do STF avalia que Eduardo Cunha não tem mais qualquer condição de presidir a Câmara, mas que esperam que os próprios deputados resolvam o imbróglio, visto que enxergam o afastamento judicial como “drástico demais”. O MPF avalia que seu trabalho foi facilitado quando Cunha expôs sua defesa nos meios de comunicação, porque são inúmeros os documentos que o contradizem. Desde o início do ano, quando o presidente da Câmara se julgou onipotente e quis pautar o Brasil e impôr sua visão de mundo, ficou bem claro que a justiça viria a galope. Alguém com tanto rabo preso não possui autoridade moral para exercer autoridade como fazia e tenta fazer ainda.

Medidas. Na semana passada um manifestante anti-Dilma foi flagrado no acampamento do Movimento Brasil Livre com inúmeros armamentos, indo desde uma pistola, faca de combate, dezenas de furadores de gelo e outros artefatos. O questionamento que se faz é. Porque será que não se deu qualquer atenção ao fato? Imaginem, só tentem captar o escândalo que seria caso este cidadão fosse integrante do MST, por exemplo.

Atenção! Na próxima quarta está prevista audiência pública, no Congresso Nacional, sobre o famigerado PRS 84, de José Serra, que impõe limites draconianos a dívida pública, imobilizando a capacidade de atuação do Estado e transformando o país em verdadeira colônia da dívida. O projeto já foi criticado por diversos economistas, acadêmicos, intelectuais e movimentos sociais. As reações de Serra e seu gabinete demonstram que não possuem nenhum argumento pela proposta, visto que se portaram de forma desprezível, agredindo verbalmente as pessoas que o criticaram, velha tática de quem quer fugir do debate.

Batalha. Amanhã às 19:00 haverá sessão conjunta do Congresso para apreciar os vetos da Dilma a projetos que aumentam os gastos, com destaque para o aumento de mais de 70% para servidores do judiciário. O Planalto se aproveita da fragilidade de Cunha e da pressão do mercado financeiro sobre os tucanos para finalmente limpar a pauta, manter os vetos e seguir para outra luta ainda mais dura que será votar o orçamento deficitário de 2015. O ano legislativo ainda vai pegar fogo.

***

Esta coluna seria publicada na segunda dia 16/11, porém, estivemos fora do ar por problemas técnicos, por isso publicamos hoje. Algumas notas necessitam de atualização dos fatos. Deixamos para os leitores que eventualmente se interessarem pelo desdobramento a pesquisa e caso desejem, façam um comentário complementando.

Suspensa norma que permitia doações anônimas a candidatos

Via STF

Foto: Nelson Jr. / STF

Por unanimidade, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) deferiu pedido de liminar na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5394 para suspender a eficácia de dispositivo da Lei Eleitoral (9.504/1997) que permitia doações ocultas a candidatos. A ação foi ajuizada pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) sob a alegação de que o dispositivo impugnado viola os princípios da transparência, da moralidade e favorece a corrupção, dificultando o rastreamento das doações eleitorais. A regra vale já para as eleições municipais de 2016.

Os ministros decidiram pela suspensão da expressão “sem individualização dos doadores”, constante do parágrafo 12 do artigo 28 da Lei Eleitoral, acrescentado pelo artigo 2º da Lei Federal 13.165/2015, que instituiu as chamadas “doações ocultas”, aquelas em que não é possível identificar o vínculo entre doadores e candidatos. A decisão tem eficácia ex tunc, ou seja, desde a sanção da lei.

Em voto pela concessão da liminar, o relator da ADI 5394, ministro Teori Zavascki, entende não haver justificativa para a manutenção das doações ocultas que retiram transparência do processo eleitoral e dificultam o controle de contas pela Justiça Eleitoral. Para o ministro, a norma impugnada, ao introduzir as doações ocultas, permite que doadores de campanha ocultem ou dissimulem seus interesses em prejuízo do processo eleitoral.

No entendimento do relator, o dispositivo impugnado retira transparência do processo eleitoral, frustra o exercício adequado das funções da Justiça Eleitoral e impede que o eleitor exerça com pleno esclarecimento seus direitos políticos. Esses motivos, além da proximidade do ciclo eleitoral de 2016, salienta, são mais que suficientes para caracterizar a situação de prioridade para o STF deferir a cautelar para suspender a norma.

“Ao determinar que as doações feitas a candidatos por intermédio de partidos sejam registradas sem a identificação dos doadores originários, a norma institui uma metodologia contábil diversionista, estabelecendo uma verdadeira cortina de fumaça sobre as declarações de campanha e positivando um controle de fantasia. Pior, premia um comportamento elusivo dos participantes do processo eleitoral e dos responsáveis pela administração dos gastos de campanha. Isso atenta contra todo um bloco de princípios constitucionais que estão na medula do sistema democrático de representação popular”, ressaltou.

Segundo ele, esses dados possuem valor não apenas após as eleições, na forma de um diagnóstico final da arrecadação e dos gastos realizados, mas especialmente antes de sua realização, quando os eleitores ainda podem alterar sua opção de voto. Em seu entendimento, essas informações são essenciais para habilitar o eleitor a fazer um prognóstico mais realista da confiabilidade das promessas de campanha.

“Afinal, o conhecimento dos nomes dos doadores ilumina conexões políticas facilmente subtraídas do público nos discursos de campanha, denunciando a maior ou menor propensão dos candidatos e partidos a abandonar suas convicções ideológicas em posturas de pragmatismo político questionáveis, como o fisiologismo, que, se conhecidas de antemão, poderiam sofrer a rejeição do eleitorado”, assinalou.

O ministro destacou que a divulgação das informações, além de beneficiar a democracia ao permitir decisão de voto mais informada, possibilita o aperfeiçoamento das políticas legislativas de combate à corrupção eleitoral ajudando a denunciar as fragilidades do modelo e inspirando proposta de correção. Frisou ainda que a transparência é um instrumento fundamental ao acesso à informação, exigível a todas as instâncias da administração pública, mas especialmente na regulamentação das eleições, inclusive por força da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, internalizada pelo Brasil em 2006.

“O retrocesso é bem mais significativo que o desfalque instrumental nas prestações de contas. Na verdade, ele enseja o amesquinhamento das condições ideais para a fruição de uma experiência eleitoral verdadeiramente democrática”, finalizou.

O ministro Marco Aurélio votou pelo deferimento da liminar, porém com eficácia ex nunc (que não retroage) da decisão.

A Presidenta preferiu a tela azul do Cardozo ao seu próprio coração valente…

Por Fernando Brito | Via Tijolaço

A ilustração aí de cima é para que a Excelentissima Senhora Presidenta da República, Dilma Rousseff, veja como será a transmissão de um seu hipotético direito de resposta seu a uma matéria ofensiva a ela que, amanhã, venha a ser veiculada pela Rede Globo, mostrando montagens de imagens que a reúnam aos piores dos sem-vergonhas desta República, exibida em rede nacional.

É assim, com esta tela azul e letras brancas, que ela vai protestar, na voz de um locutor frio, gelado, às mais candentes e dramáticas ofensas a sua honra pessoal. Talvez, quem sabe, na toada que as coisas vão, até em relação a sua vida pessoal e à de sua família.

Porque é assim que será, porque ela deu às emissoras de rádio e televisão de transmitirem deste jeito o direito de resposta concedido pela Justiça, com texto previamente examinado por um Juiz – o que já garantiria, óbvio, uma fala equilibrada, sem baixarias ou devolução de ofensas. Foi o que fez, a confirmar-se o que a Folha noticia, quando tomou a decisão de vetar o artigo que o Senado restabeleceu – depois de derrubado pela Câmara de Eduardo Cunha – o artigo que garantia ao ofendido, querendo, o direito de apresentar, pessoalmente ou por quem achasse conveniente, a contestação a ofensas recebidas nos meios de comunicação.

Certamente teve a aconselhá-la este Varão de Plutarco que é o Ministro da Justiça, sempre a postos e disposto a combater pela República nas páginas amarelas da Veja ou em entrevistas à Folha.

Ele, só ou com outro assessor sabujo ao lobby das emissoras de TV, fez o serviço, criando a alegação de que ao não “definir critérios para a participação pessoal do ofendido, o dispositivo poderia desvirtuar o exercício do direito de resposta ou retificação”.

Que critérios, “seu Zé”, se o material será gravado e submetido antes ao juiz, o que resta regulamentar que possa ser razoável? Nem a roupa que o fulano deverá usar, pois que quiser aparecer pelado o juiz poderá mandar refazer por uso de forma inconveniente para o exercício do direito!

O que o veto traz, isto sim é que fica evidentemente estabelecido o desequilíbrio.

William Bonner, com suas caras e bocas faz a ofensa: vil, baixa, odiosa. Cobrindo suas palavras, imagens desfavoráveis, cenas editadas, quem sabe até uma trilha sonora dramática, amplificando as palavras ferinas.

A Presidenta, ofendida, reage com um processo judicial, dias depois, porque é preciso conseguir advogado, burilar o texto para que o Juiz nele não veja ofensa devolvida, cuidar da linguagem, do tempo, por que este há de ser, no máximo, igual ao da ofensa, recolher as custas, esperar a defesa e conformar-se ao tempo do Fórum, sempre tão assoberbado.

Dois meses depois – e isso é rapidez das bem rápidas – enfim, vem a reparação.

Então, vem esta tela azul, aí em cima, debaixo da qual uma voz minguada, sem expressão, lê burocraticamente um texto já de si burocrático, enquanto o cidadão fala – ih, propaganda de candidato, de novo – e se levanta para pegar a cerveja na geladeira, enquanto a “sua senhora” trata de tirar a louça do escorredor e guardá-la…

Nenhum olhar, nenhuma expressão facial, nenhum embargo na voz que denote quanto o que se fez foi indigno, foi sujo, foi sórdido.

O dia seguinte, os jornais, para a meia-dúzia que ainda os lê, repercutirão as respostas e, na internet, enquanto os adversários reproduzem as ricas imagens da agressão, seus defensores mambembes se esmerarão, com programas gratuitos de edição de vídeo em colocar, pelo menos, um rosto sobre a maldita tela azul, para que aquele texto ganhe alguma aparência humana.

A Presidenta não precisaria ter feito nada, apenas sancionar o que os senadores, a começar pelo valente Roberto Requião, lutaram contra o lobby das emissoras de televisão e rádio para aprovar.

Mas fez, embora não tudo, o que as famílias proprietárias da grande mídia queriam. Como não fez tudo, ainda reclamam, claro.

Preferiu ceder a quem nada lhe concede.

Se um dia se arrepender e, ofendida, pleitear e conseguir o direito a responder, já está pronta a cartela aí em cima. O resto, peça ao José Eduardo Cardozo.

Quem não acha que olhar no olho do nosso povo faz diferença, quem não crê que a emoção dê vida nova às palavras, quem não acha que o coração dá tom à voz, não precisa mais que isso.

Omissões, responsabilidades, e a metáfora no mar de lama tóxica da Samarco

Por Bob Fernandes | Via Facebook

Um mar de lama tóxica soterrou Bento Rodrigues, povoado mineiro. Por ora, 8 mortos e dezenas de desaparecidos.

O mar de lama, que escorre para o Espírito Santo enquanto se discute responsabilidades, é, também por como se dá o debate, uma metáfora.

Em seu blog, o jornalista Alceu Castilho disseca a enxurrada tóxica do distrito de Mariana. E começa pelo começo, dando nome aos bois.

Cinquenta por cento da Samarco, mineradora que opera as duas barragens que se romperam, pertencem à Vale. E 50% à anglo-australiana BHP Billiton.

A Vale é controlada pela Valepar, com 1/3 do capital total ou 53,9% do capital votante:

- 5,3% para o governo federal, 5,3% do BNDESpar, 14,8% de investidores brasileiros, 16,9% na Bovespa e 46,2% com investidores estrangeiros.

A metade anglo-australiana somada aos investidores estrangeiros da Vale leva a Samarco a ter mais da metade de suas ações em poder de estrangeiros.

Na Valepar, Fundos administrados pela Previ, a Bradespar, do Bradesco, a japonesa Mitsui, o BNDESpar… e acionistas menores como o Opportunity.

Há dois anos, em 2013, um laudo já alertava: a barragem estava condenada.

Condenada estava no governo anterior de Minas, condenada seguiu no atual… condenados à morte, desaparecimento, dezenas.

Condenadas estão águas e bioma no caminho do mar de lama e metáforas que escoa entre Bento e o Espírito Santo.

Escassa atenção se dá ao que aponta Alceu Castilho: o choque entre modelos distintos de apropriação de territórios e de recursos naturais.

Um modelo, sempre exibido como exótico, respeita a natureza, e o modo de vida das pessoas.

Outro modelo, o de predação extrativista, esgotável, agora simbolizado pela Samarco.

Seis dias depois das barragens rompidas, governos, partidos, empresas e executivos, experts e néscios… seguem duelando.

Omitindo-se ou se esquivando do mar de lama. E assim dando ainda mais consistência à metáfora.

A propósito: no exato dia da irrupção da enxurrada de lama, a Câmara de Eduardo Cunha arquivou projeto que obrigaria a contratação de Seguro contra…rompimento de barragens.

“Não seremos guardas florestais do império”: Entrevista com Evo Morales

Por Eduardo Febbro | Via IHU

Uma das particularidades do processo boliviano é a relação que estabelece em suas políticas com a “Mãe Terra”. Por isso, é tão ouvida a voz de Evo Morales às vésperas da Cúpula sobre a Mudança Climática, que acontecerá em Paris no final deste mês.

No final de novembro, Paris será o palco da Cúpula sobre a Mudança Climática (COP 21) e, nesse contexto, a voz do presidente boliviano é uma aliada de peso da presidência francesa. Na COP 21 será preciso chegar a um ainda improvável acordo para reduzir, até 2030, os gases de efeito estufa, responsáveis pelo destrutivo aquecimento global.

O problema maior reside em que o Ocidente exige um esforço considerável dos países em desenvolvimento, que não têm a responsabilidade central na emissão de gases poluentes. E ali reside um dos principais antagonismos do encontro parisiense. Os tempos de uns e outros são incompatíveis. Apesar das esperanças e dos bons desejos, o clima divide ricos e menos ricos.

Eis a entrevista.

Paris estará, em poucas semanas, no centro do debate para salvar o planeta do aquecimento global. A última grande cúpula sobre o clima, realizada em Copenhague em 2009, foi um fracasso rotundo. Você acredita que em Paris se dará um salto qualitativo na proteção do meio ambiente?

Entre os povos e os movimentos sociais do mundo há muita consciência e muito compromisso; também há muito esforço e sacrifício pela mãe Terra, pela vida e a humanidade. Esperamos que estes sentimentos e pensamentos profundos dos povos do mundo sejam ouvidos pelos governos e os representantes de cada Estado. Após tantos fracassos e graças ao debate sobre o desenvolvimento sustentável 2030 que aconteceu nas Nações Unidas conseguimos entender que esta é a única oportunidade. É o melhor momento para que os governos e os povos do mundo se coloquem de acordo. Esperamos que os representantes das nações tomem decisões para o bem da vida e da humanidade.

De qualquer forma, há uma luta muito forte dentro do capitalismo entre as indústrias que continuam a explorar as energias fósseis e as outras que lutam para desenvolver energias renováveis. Os grandes bancos do mundo investem mais nas energias fósseis do que nas renováveis. Estes setores não podem dobrar a vontade política?

À margem do enfrentamento entre as empresas privadas que são especialistas em explorar as energias fósseis e outros empresários que, talvez, têm mais consciência na energia limpa, é importante que aquelas que promovem essa energia limpa vão se desenvolvendo. E isto sem as muitas proteções econômicas de outras empresas que estão explorando as energias fósseis. Quero dizer que com a Alemanha e a França estamos avançando, como Estados e seguramente com a participação do setor privado, no campo da energia eólica e solar.

Com a Alemanha já decidimos instalar uma montadora de sistemas eólicos e não somente para a Bolívia, mas para a América do Sul. Seria muito bom que a Bolívia fosse o coração de toda a América do Sul. Há também a questão da energia solar e todas as outras mudanças profundas que existem no uso do combustível: trens elétricos, carros hidráulicos, por exemplo. Se a energia limpa é uma solução mais barata, automaticamente declinarão aqueles que comercializam as energias fósseis. Os Estados devem apoiar essas energias porque a energia deve ser, assim como a água, um direito humano. A nossa obrigação como Estado é atender esse direito e garantir a energia e a água.

Na Cúpula de Copenhague, em 2009, o presidente Chávez disse: “Mudem o sistema, não o clima”.

Isto continua em vigor. É um pedido clamoroso. Estamos em um sistema fracassado, com um modelo falido, com povos ameaçados e com uma mãe Terra insegura na sua existência dentro do sistema. Como podemos seguir apoiando este sistema? Sigo convencido de que o pior inimigo da humanidade é o sistema capitalista.

A América Latina, particularmente o Mercosul, traz alguma proposta coletiva a esta cúpula de Paris?

Há uma só mensagem por parte dos povos do mundo e não apenas da América Latina. Mas há algumas conclusões elaboradas na Cúpula de Tiquipaya (Departamento de Cochabamba) e há alguns dias terminou, em Quito, no Equador, uma reunião de ministros do Meio Ambiente onde foi preciso lamentar a ausência de alguns países. Não escutam os seus povos.

Na cúpula dos movimentos sociais pela mudança climática de Tiquipaya havia 400 delegados do Chile, e também sua ministra do Meio Ambiente estava presente. Mas se opôs a reconhecer ou ressaltar as conclusões. Denuncio publicamente os fatos, mas não se trata de problemas bilaterais, estamos falando da vida. Estamos falando da mãe Terra, estamos falando de como salvar a mãe Terra para salvar a humanidade. É um tema profundo e temos diferenças profundas. Aqui, a contribuição do movimento indígena, e não apenas do continente, mas do mundo, consiste em como viver e como estar em harmonia com a mãe Terra. Aqui há uma diferença profunda com o sistema capitalista. Os países do Sul não seremos os guardas florestais do império.

Nos últimos anos circula no Ocidente essa ideia, essa noção, que nasce entre os povos indígenas: o bem viver. Por um lado, existe o feroz desenvolvimentismo do sistema capitalista e, por outro, certa receptividade nas pessoas diante dessa aspiração a uma consonância entre o ser e o mundo natural. O capitalismo está hoje em crise em todas as partes. Qual seria a contribuição da voz da Terra para essa crise?

A melhor contribuição são as propostas que provêm da Cúpula de Tiquipaya; e também que os Estados escutem, entendam e implementem essas conclusões. Evidentemente, cada continente e cada país tem sua própria particularidade, mas essas particularidades devem ser adequadas às nossas formas de vivência, nossos antepassados, nossas experiências harmônicas com a mãe Terra. Isto significa viver em comunidade, em coletividade, em complementaridade, em solidariedade e não em competição. Talvez na Europa seja importante o aspecto competitivo, mas se na Bolívia chegamos onde estamos é graças a essas políticas de complementaridade e solidariedade.

Presidente, o Papa Francisco e sua encíclica sobre a ecologia deram a volta ao mundo. Como avalia este homem que na Europa é visto com muita admiração assim como com receio?

Agora sinto que tenho um papa. Agora sinto e creio. Declaro-me profundamente de Cristo. Por isso, temos que rezar para que o Papa continue vivo.

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Tradução: André Langer